digitalização de jornais newspapers digitization - oaji. desta transformação: a crescente digitalização

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acervo, rio de janeiro, v. 29, n. 2, p. 89-102, jul./dez. 2016 p. 89

| Doutor em Histria Social pelo PPGHIS/UFRJ; mestre em Memria Social pelo PPGMS/Unirio; professor substituto de Teoria e Filosofia da Histria do Departamento de Histria da UFF; professor-tutor do curso EAD de Histria da Unirio

digitalizao de jornaisuma reflexo sobre desafios e melhores prticasnewspapers digitizationa reflection on challenges and best practices

bruno leal pastor de carvalho

resumo

O avano das mdias digitais tem permitido a digitalizao de jornais e sua disponibilizao

na internet, desafiando as instituies a repensarem seus acervos. A prtica historiogrfica

tambm tem sido provocada a estabelecer novas reflexes interdisciplinares. Este artigo tem

o objetivo de pensar criticamente a prtica de digitalizao de jornais, procurando destacar

desafios, limites, anlise de projetos e melhores prticas no campo.

Palavras-chave: digitalizao; jornais; fontes histricas; fontes digitais.

abstract

The advance of digital media has allowed the digitization of newspapers, available on the in-

ternet, challenging the institutions to rethink their historical collections. The historiographical

practice has also been led to establish new deep interdisciplinary reflections. This article inten-

ds to examine the newspaper digitization practice, seeking to highlight challenges, limits, to

analyze projects and to review best practices in this field.

Keywords: digitization; newspaper; historical sources; digital sources.

resumen

El avance de los medios digitales ha permitido la digitalizacin de peridicos y su disposicin

en internet, desafiante las instituciones a replantear sus colecciones. La prctica historiogr-

fica tambin ha sido provocada al fin de establecer nuevas reflexiones interdisciplinares. Este

artculo tiene como objetivo pensar crticamente la prctica de digitalizacin de peridicos,

tratando de poner de relieve los desafos, los lmites, el anlisis de los proyectos y las mejores

prcticas en el campo.

Palabras clave: digitalizacin; peridicos; fuentes histricas; fuentes digitales.

p. 90 jul./dez. 2016

introduo

Manuel Castells tem explicado o mundo contemporneo a partir de uma revoluo tec-nolgica concentrada nas tecnologias da informao (Castells, 2007, p. 39). Essa revoluo, aponta o autor, tem sido responsvel por modelar em ritmo acelerado a base material da sociedade e engloba, atualmente, no s a internet, mas tambm os dispositivos mveis de comunicao, as redes sociais e todo tipo de mdia digital. Este artigo discute uma faceta desta transformao: a crescente digitalizao de jornais. O trabalho est dividido em quatro partes. Na primeira, apresento brevemente o fenmeno da digitalizao. Na segunda, expli-co porque importante digitalizar. Na terceira, exploro alguns projetos e prticas com os quais podemos aprender. Na quarta e ltima, debruo-me sobre um caso especfico o Jor-nal do Brasil que nos permite compreender como dois processos de digitalizao podem ter resultados completamente diferentes. A fim de evitar perda de sentido, optei por repro-duzir neste artigo alguns termos tcnicos em ingls, uma vez que no existe uma tabela de equivalncia para o portugus. Essa reflexo, por fim, embora traga a perspectiva de um his-toriador, diz respeito a outros profissionais que tambm lidam diretamente com a histria.

a digitalizao de jornais

Poucas fontes histricas permitem tantas possibilidades de investigao para o histo-riador quanto o jornal. Estou me referindo a duas dimenses elementares que esse meio de comunicao comporta. Primeiro, a sua dimenso discursiva, isto , a sua habilidade para or-denar o mundo, estabelecer fatos, produzir consenso e emprestar sentido experincia his-trica. Depois, mas no menos importante, a sua capacidade para registrar os mais distintos fenmenos culturais, polticos, econmicos, sociais e at mesmo naturais. Segundo Wilhelm Bauer, o jornal uma verdadeira mina de conhecimento: fonte de sua prpria histria e das situaes mais diversas; meio de expresso de ideias e depsito de cultura. Nele encontra-mos dados sobre a sociedade, seus usos e costumes, informes sobre questes econmicas e polticas (Bauer, 1970, p. 85).1 No fortuitamente, os jornais e a imprensa em geral esto cada vez mais presentes nas pesquisas historiogrficas. Segundo levantamento de Ana Paula Goulart, do total de trabalhos que abarcam o sculo XX apresentados, em 1995, no Encontro Nacional de Ps-Graduandos em Histria, cerca de 70% utilizavam meios de comunicao (sobretudo jornais) como fonte histrica (Ribeiro, 1999, p. 1).

Nos ltimos anos, a importncia dos jornais para os estudos acadmicos se tornou ainda maior graas digitalizao de um grande nmero de ttulos, dos jornais pequenos e locais aos grandes e de circulao internacional, dos no correntes queles que ainda encontram-se nas ruas. A partir dos anos 2000, os historiadores se viram diante de um universo quase

1 Importante sublinhar, no entanto, que os jornais no so meros depositrios do real ou geradores de um discur-so neutro. O discurso jornalstico est interessado na elaborao simblica deste real.

acervo, rio de janeiro, v. 29, n. 2, p. 89-102, jul./dez. 2016 p. 91

inesgotvel de reportagens, notcias, editoriais, cartas de leitores, anncios, notas, colunas sociais e crnicas. Ao mesmo tempo, bibliotecas, museus, arquivos e universidades se viram deparados com a necessidade de estabelecer critrios para o tratamento desse material. Para se ter uma ideia da transformao em curso, o microfilme, que era at ento o suporte mais recente em termos de preservao de documentos escritos, surgiu ainda no sculo XIX (Pinheiro; Moura, 2015).

O The New York Times, um dos jornais mais influentes do mundo, digitalizou todo o seu acervo histrico (1851 at o presente) recentemente. Segundo seus clculos, mais de 13 milhes de artigos esto disponveis na Internet.2 Os britnicos The Guardian e The Observer, controlados pelo mesmo grupo, somaram esforos e fizeram o mesmo. Seu contedo vai do final do sculo XVIII aos primeiros anos da dcada de 2000.3 No Brasil, os principais jornais seguiram a mesma linha: O Globo,4 O Estado de S.Paulo5 e Folha de S.Paulo6 digitalizaram todo o seu acervo histrico. Para alm dos veculos de maior poder financeiro, muitos dos peque-nos tambm foram digitalizados por projetos coletivos. Um deles o Newspaper Archive, iniciativa americana que possui mais de dois bilhes de artigos, agregando jornais de 23 pases, publicados de 1607 aos dias atuais.7 Podemos mencionar ainda o Periodika,8 da Let-nia, a Biblioteca Digital Hispnica,9 da Espanha, e a Hemeroteca Digital,10 no Brasil.

por que digitalizar?

H muitas razes para digitalizar acervos histricos. Trs me parecem fundamentais. Em primeiro lugar, a digitalizao ajuda a democratizar o acesso ao conhecimento. Durante muito tempo, arquivos, museus e bibliotecas foram os fiis e exclusivos depositrios dos documentos. Seu acesso era limitado: era preciso ir pessoalmente a esses espaos fsicos geralmente localizados em grandes capitais para consultar aquilo que patrimnio p-blico. E mesmo quando se tinha acesso a essas instituies, era preciso contar com a dispo-nibilidade do documento, que podia j estar sendo consultado por outro usurio ou ausente para higienizao ou restauro, por exemplo. A lgica da Internet tem ajudado a subverter esta lgica. Uma vez digitalizado e disponibilizado na Web, o acervo dessas instituies se torna de fato pblico. Os ganhos que derivam da dizem respeito no s ao historiador, mas a toda a sociedade. o caso de documentos que o trabalhador deve recuperar para obter

2 Conferir: .

3 Conferir: .

4 Conferir: .

5 Conferir: .

6 Conferir: .

7 Conferir: .

8 Conferir: .

9 Conferir: .

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benefcios sociais ou do indivduo que no passado foi perseguido por uma ditadura e agora precisa reunir evidncias a fim de ser indenizado pelo Estado. O exerccio da cidadania e a garantia da Justia so, desta maneira, questes influenciadas pela digitalizao de acervos ou pelo acesso gil e facilitado a documentos e informaes pblicas.

Em segundo lugar, temos a questo da preservao. Qualquer documento corre o risco do desaparecimento. O desgaste comea com o prprio manuseio do original por parte do pesquisador, mesmo que sejam adotados rigorosos procedimentos de consulta. A exposio luz, umidade e prpria manipulao do pesquisador so fatores que comprometem a integridade do documento. Alm disso, no devemos nos esquecer dos casos de roubos, incndios, alagamentos, depredao e mau acondicionamento, que podem levar deterio-rao irreversvel ou destruio completa. Mofo, fungos ou bactrias, danosos no s aos documentos, mas aos que os manipulam, tambm devem ser considerados ameaas. Com as cpias digitais, sobretudo em tempos de redes sociais on-line, o desaparecimento de uma fonte histrica torna-se bastante improvvel. O caso do Museu da Lngua Portuguesa, em So Paulo, ilustra muito bem os potenciais da digitalizao. Em dezembro de 2015, o Museu foi completamente destrudo por um incndio que, alm de fazer uma vtima fatal, um bom-beiro que trabalhava no local, queimou completamente o seu patrimnio material. A trag-dia para seu acervo histrico, no entanto, foi minimizada, pois boa parte estava preservada em servidores e discos rgidos guardados em outros lugares.11

Em terceiro lugar, a gesto da informao. Este , talvez, o aspecto que mais tenha re-volucionado a prtica historiogrfica. Uma vez que os documentos so transpostos para o meio digital, toda a informao contida neles pode ser indexada. Podemos definir indexao como um arranjo sistemtico de entradas desenhado para per