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ENSINO · PDF file 2019. 9. 15. · POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 32. O aluno saiu da sala e após alguns minutos retornou com uma descrição completa

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Agassiz e o peixe (Ezra Pound) Nenhum homem está equipado para o pensamento moderno até que ele tenha entendido a parábola de Agassiz e o peixe. Um estudante de pós-graduação, cingido com honrarias e diplomas, foi a Agassiz para receber os últimos retoques e acabamentos. O grande cientista ofereceu-lhe um pequeno peixe e pediu-lhe para descrevê-lo. O pós-graduando, após um breve momento de observação, declarou:
Isso é apenas um peixe-lua. Agassiz respondeu:
Eu sei disso. Escreva uma descrição deste peixe.
Jean Louis Rodolphe Agassiz - 1807-1873
POUND, Ezra. ABC da literatura. São Paulo: Cultrix, 1970, p. 32.
O aluno saiu da sala e após alguns minutos retornou com uma descrição completa do Heliodiplodokus Ichthus, termo científico encontrado nos livros didáticos para designar o vulgar peixe-lua. Agassiz pediu novamente ao estudante que descrevesse o peixe. O aluno saiu novamente da sala, desta vez demorou um pouco mais, mas retornou com um ensaio de quatro páginas produzido pelo mesmo. Agassiz leu o ensaio e pediu-lhe para olhar para o peixe. Ao final de três semanas, o peixe estava em avançado estado de decomposição, mas o estudante sabia algo sobre ele.
As deficiências do ensino e do professor são melhor resolvidas por cada homem individualmente; seu primeiro ato deve se um exame de consciência; o segundo, dirigir sua vontade para a luz. O primeiro sintoma que há de encontrar será, muito provavelmente, a preguiça mental, a falta de curiosidade, o desejo de não ser incomodado. Isto não é, de maneira alguma, incompatível com o hábito de estar muito ocupado, segundo os padrões habituais.
Ezra POUND. A arte da poesia: ensaios escolhidos.
São Paulo: Cultrix/EDUSP, 1976, p. 78-79
Ler é melhor que estudar
?
MÉTODO:
1. Ler o texto INTEGRALMENTE em sala (de preferência coletivamente e em voz alta)
2. Discutir o texto com os estudantes
3. Eventualmente, propor atividades a partir do que se lê.
Literatura para qualquer um?
Os trabalhos que desenvolvi anteriormente, nos espaços rurais ou nos bairros populares da periferia urbana, levaram-me a pensar que, sob certas condições, a experiência da leitura poderia ser aplicável em tais contextos, assim como era possível estendê-la para as gerações mais novas, em geral apresentadas como mais resistentes à cultura escrita que aquelas que as antecederam. Essas pesquisas me ensinaram, na verdade, que essa experiência não diferia de acordo com a condição social ou com a geração.
Tais processos se davam por meio de apropriações singulares, às vezes até mesmo desviando-se dos textos lidos. Com um senso de descoberta desconcertante, cada um "farejava" o que estava secretamente vinculado com as suas próprias questões, o que lhe permitia escrever sua própria história nas entrelinhas: estávamos nas "artes de fazer" que estudara Michel de Certeau.
Nossos interlocutores se referiam a alguma coisa mais abrangente do que as acepções acadêmicas da palavra "leitura": aludiam a textos que tinham descoberto em meio a um tête à tête solitário e silencioso, mas também, algumas vezes, a leituras em voz alta e compartilhadas; a livros relidos obstinadamente, e a outros que haviam somente folheado, apropriando-se de uma frase ou de um fragmento; aos momentos de devaneio que se seguiram à relação de convívio com a escrita; às lembranças heterogêneas que ali encontravam, às transformações pelas quais passavam.
Mais do que a decodificação dos textos, mais do que a exegese erudita, o essencial da leitura era, ao que parecia, esse trabalho de pensar, de devaneio. Esses momentos em que se levantam os olhos do livro e onde se esboça uma poética discreta, onde surgem associações inesperadas.
Para Maria da Graça (Paulo Mendes Campos) Agora, que chegaste à idade avançada de 15 anos, Maria da Graça, eu te dou este livro: Alice no País das Maravilhas.
Este livro é doido, Maria. Isto é: o sentido dele está em ti.
Escuta: se não descobrires um sentido na loucura acabarás louca. Aprende, pois, logo de saída para a grande vida, a ler este livro como um simples manual do sentido evidente de todas as coisas, inclusive as loucas. Aprende isso a teu modo, pois te dou apenas umas poucas chaves entre milhares que abrem as portas da realidade.
A realidade, Maria, é louca.
Nem o Papa, ninguém no mundo, pode responder sem pestanejar à pergunta que Alice faz à gatinha: "Fala a verdade Dinah, já comeste um morcego?"
Não te espantes quando o mundo amanhecer irreconhecível. Para melhor ou pior, isso acontece muitas vezes por ano. "Quem sou eu no mundo?" Essa indagação perplexa é lugar- comum de cada história de gente. Quantas vezes mais decifrares essa charada, tão entranhada em ti mesma como os teus ossos, mais forte ficarás. Não importa qual seja a resposta; o importante é dar ou inventar uma resposta. Ainda que seja mentira.
A sozinhez (esquece essa palavra que inventei agora sem querer) é inevitável. Foi o que Alice falou no fundo do poço: "Estou tão cansada de estar aqui sozinha!" O importante é que ela conseguiu sair de lá, abrindo a porta. A porta do poço! Só as criaturas humanas (nem mesmo os grandes macacos e os cães amestrados) conseguem abrir uma porta bem fechada ou vice-versa, isto é, fechar uma porta bem aberta.
Somos todos tão bobos, Maria. Praticamos uma ação trivial, e temos a presunção petulante de esperar dela grandes consequências. Quando Alice comeu o bolo e não cresceu de tamanho, ficou no maior dos espantos. Apesar de ser isso o que acontece, geralmente, às pessoas que comem bolo.
Maria, há uma sabedoria social ou de bolso; nem toda sabedoria tem de ser grave.
A gente vive errando em relação ao próximo e o jeito é pedir desculpas sete vezes por dia: "Oh, I beg your pardon" Pois viver é falar de corda em casa de enforcado. Por isso te digo, para tua sabedoria de bolso: se gostas de gato, experimenta o ponto de vista do rato. Foi o que o rato perguntou à Alice: "Gostarias de gato se fosses eu?"
Os homens vivem apostando corrida, Maria. Nos escritórios, nos negócios, na política, nacional e internacional, nos clubes, nos bares, nas artes, na literatura, até amigos, até irmãos, até marido e mulher, até namorados todos vivem apostando corrida. São competições tão confusas, tão cheias de truques, tão desnecessárias, tão fingindo que não é, tão ridículas muitas vezes, por caminhos tão escondidos, que, quando os atletas chegam exaustos a um ponto, costumam perguntar: "A corrida terminou! mas quem ganhou?" É bobice, Maria da Graça, disputar uma corrida se a gente não irá saber quem venceu. Se tiveres de ir a algum lugar, não te preocupe a vaidade fatigante de ser a primeira a chegar. Se chegares sempre onde quiseres, ganhaste.
Disse o ratinho: "A minha história é longa e triste!" Ouvirás isso milhares de vezes. Como ouvirás a terrível variante: "Minha vida daria um romance". Ora, como todas as vidas vividas até o fim são longas e tristes, e como todas as vidas dariam romances, pois o romance só é o jeito de contar uma vida, foge, polida mas energeticamente, dos homens e das mulheres que suspiram e dizem: "Minha vida daria um romance!" Sobretudo dos homens. Uns chatos irremediáveis, Maria.
Os milagres sempre acontecem na vida de cada um e na vida de todos. Mas, ao contrário do que se pensa, os melhores e mais fundos milagres não acontecem de repente, mas devagar, muito devagar. Quero dizer o seguinte: a palavra depressão cairá de moda mais cedo ou mais tarde. Como talvez seja mais tarde, prepara-te para a visita do monstro, e não te desesperes ao triste pensamento de Alice: "Devo estar diminuindo de novo" Em algum lugar há cogumelos que nos fazem crescer novamente.
E escuta a parábola perfeita: Alice tinha diminuído tanto de tamanho que tomou um camundongo por um hipopótamo. Isso acontece muito, Mariazinha. Mas não sejamos ingênuos, pois o contrário também acontece. E é um outro escritor inglês que nos fala mais ou menos assim: o camundongo que expulsamos ontem passou a ser hoje um terrível rinoceronte. É isso mesmo. A alma da gente é uma máquina complicada que produz durante a vida uma quantidade imensa de camundongos que parecem hipopótamos e rinocerontes que parecem camundongos. O jeito é rir no caso da primeira confusão e ficar bem disposto para enfrentar o rinoceronte que entrou em nossos domínios disfarçado de camundongo. E como tomar o pequeno por grande e grande por pequeno é sempre meio cômico, nunca devemos perder o bom-humor`.
Toda a pessoa deve ter três caixas para guardar humor: uma caixa grande para o humor mais ou menos barato que a gente gasta na rua com os outros; uma caixa média para o humor que a gente precisa ter quando está sozinho, para perdoares a ti mesma, para rires de ti mesma; por fim, uma caixinha preciosa, muito escondida, para grandes ocasiões. Chamo de grandes ocasiões os momentos perigosos em que estamos cheios de dor ou de vaidade, em que sofremos a tentação de achar que fracassamos ou triunfamos, em que nos sentimos umas drogas ou muito bacanas. Cuidado, Maria, com as grandes ocasiões.
Por fim, mais uma palavra de bolso: às vezes uma pessoa se abandona de tal forma ao sofrimento, com uma tal complacência, que tem medo de não poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: "Agora serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas".
Conclusão: a própria dor deve ter a sua medida: É feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a fronteira de nossa dor, Maria da Graça.
O mistério da poesia (Rubem Braga)
Não sei o nome desse poeta, acho que boliviano; apenas lhe conheço um poema, ensinado por um amigo. E só guardei os primeiros versos: Trabajar era bueno en el sur Cortar los árboles, hacer canoas de los troncos . E tendo guardado esses dois versos tão simples, aqui me debruço ainda uma vez sobre o mistério da poesia. O poema era grande, mas foram essas palavras que me emocionaram. Lembro-me delas às vezes, numa viagem; quando estou aborrecido, tenho notado que as murmuro para mim mesmo, de vez em quando, nesses momentos de tédio urbano. E elas produzem em mim uma espécie de consolo e de saudade não sei de quê.
Lembrei-me agora mesmo, no instante em que abria a máquina para trabalhar nessa coisa vã e cansativa que é fazer crônica. De onde vem o efeito poético? É fácil dizer que vem do sentido dos versos; mas não é apenas do sentido. Se ele dissesse: Era bueno trabajar en el sur não creio que o poema pudesse me impressionar. Se no lugar de usar o infinito do verbo cortar e do verbo hacer usasse o passado, creio que isso enfraqueceria tudo. Penso no ritmo; ele sozinho não dá para explicar nada.
Além disso, as palavras usadas são, rigorosamente, das mais banais da língua. Reparem que tudo está dito como os elementos mais simples: trabajar, era bueno, sur, cortar, árboles, hacer canoas, .
Isso me lembra um dos maiores versos de Camões, todo ele também com as palavras mais corriqueiras de nossa língua:
Talvez o que impressione seja mesmo isso: essa faculdade de dar um sentido solene e alto às palavras de todo dia. Nesse poema sul-americano a ideia da canoa é também um motivo de emoção.
Não há coisa mais simples e primitiva que uma canoa feita de um tronco de árvore; e acontece que muitas vezes a canoa é de uma grande beleza plástica. E de repente me ocorre que talvez esses versos me emocionem particularmente por causa de uma infância de beira-rio e de beira-mar.
Mas não pode ser: o principal sentido dos versos é o do trabalho; um trabalho que era bom, não essa
de hoje. Desejo de fazer alguma coisa simples, honrada e bela, e imaginar que já se fez.
Fala-se muito em mistério poético; e não faltam poetas modernos que procurem esse mistério enunciando coisas obscuras, o que dá margem a muito equívoco e muita bobagem. Se na verdade existe muita poesia e muita carga de emoção em certos versos sem um sentido claro, isso não quer dizer que, turvando um pouco as águas, elas fiquem mais profundas
Rapsodia de Saulo - Fragmento (Aurelio Arturo)
Trabajar era bueno en el sur, cortar los árboles, hacer canoas de los troncos. Ir por los ríos en el sur, decir canciones era bueno. Trabajar entre ricas maderas.
(Un hombre de la riba, unas manos hábiles, un hombre de ágiles remos por el río opulento, me habló de las maderas balsámicas, de sus efluvios... un hombre viejo en el sur, contando historias).
Trabajar era bueno. Sobre troncos la vida, sobre espuma, cantando las crecientes. ¿Trabajar un pretexto para no irse del río, para ser también el río, el rumor de la orilla?
Trabajar... Ese río me baña el corazón. En el sur. Vi rebaños de nubes y mujeres más leves que esa brisa que me mece la siesta de los árboles. Pude ver, os lo juro, era en el bello sur. Grata fue la rudeza. Y las blancas aldeas, tenían tan suaves brisas: pueblecillos de río, en sus umbrales las mujeres sabían sonreír y dar un beso. Grata fue la rudeza y ese hálito de hombría y de resinas.
Norberto Sales Tene Kaxinawá
Eu pensava que a terra remendava com o céu (Norberto Sales Tene Kaxinawá)
No meu pensamento de antigamente, Quando eu era menino, O mundo, eu pensava
Que era que nem tocaia, A terra remendava com o céu.
O sol, Eu pensava que eram muitos,
Passando dias e dias.
A noite, Eu pensava que era que nem fumaça,
Porque quando o sol ia embora, A noite vinha cobrir o mundo.
O céu, Eu pensava que era que nem ferro,
Nunca acaba.
Que morava no céu e derramava água.
A água, Eu pensava que eram alguns bichos grandes,
Esturrando em cima do céu.
O homem, Eu pensava que só nós mesmos vivíamos,
Só nós mesmos, o povo Kaxinawá.
A língua, Eu pensava que todo mundo falava
Na nossa língua mesmo, o Kaxinawá.
Um dia, eu vi um branco chegando na nossa casa falando diferente. Mas eu pensava que quando eu fosse na casa dele, ele ia falar em Kaxinawá.
Um dia, eu fui viajar com meu pai, para ver onde [estava a terra remendada com o céu.
Nós íamos descendo o rio e quando passaram alguns dias perguntei [ao meu pai onde estava a terra remendada com o céu.
Meu pai me disse que não estava remendada a terra com o céu.
O Lugar da Teoria
Falo de uma escuta alimentada com teorias, já que para reconhecer, apreciar e potencializar os achados construtivos se torna produtivo o manejo de alguns saberes teóricos por parte do mediador. Não me refiro à teorização como uso de terminologias ou discursos específicos da teoria literária ou da retórica da imagem como etiquetas "corretas" de achados interpretativos. A leitura de um poema, por exemplo, se for apenas uma via para detectar, isolar, dissecar e mencionar hipérboles, sinestesias, antíteses, metonímias etc., deixa de fora a poesia e os leitores.
BAJOUR, Cecilia. Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura. Trad. Alexandre Morales. São Paulo: Ed. Pulo do Gato, 2012, p. 40-41.
É possível falar dos textos de forma profunda e crítica sem fazê-lo "em jargão". No entanto, essa visão não subestima os modos particulares que cada teoria tem para designar os procedimentos das diversas artes. Ao contrário, uma escuta sensível, que valorize os modos pelos quais cada leitor se refere ao contato com metáforas, perspectivas inusitadas, alterações temporais, elipses etc., pode ser uma situação para que essas descobertas sejam colocadas em diálogo com algumas denominações técnicas. Trata-se de uma maneira de transmitir culturas e pôr à disposição saberes técnicos sobre a arte que não pretende ser "a acerca dos textos. A teoria é mobilizada a partir daquilo que os leitores dizem sobre os textos, e não de antemão: quando ela precede a leitura, condiciona e fecha sentidos.
BAJOUR, Cecilia. Ouvir nas entrelinhas: o valor da escuta nas práticas de leitura. Trad. Alexandre Morales. São Paulo: Ed. Pulo do Gato, 2012, p. 40-41.
1926-2007
O sentido não é mais algo a ser explicado, mas sim um efeito a ser experimentado.
Podemos dizer que os textos literários ativam sobretudo processos de realização de sentido. Sua qualidade estética está nessa
de que não pode ser idêntica com o produto, pois sem a participação do leitor não se constitui o sentido. Em consequência, a qualidade dos textos literários se fundamenta na capacidade de produzir algo que eles próprios não são. (ISER, 1996, p. 62)
sentido não é mais algo a ser explicado, mas sim um efeito a ser experimentado. (ISER, 1996, p. 34)
Personagem é incompleto e deve ser completado pelo leitor: Arnold Bennett diz: não pode colocar o todo de um
personagem em um ele pensa na discrepância que existe entre a vida de alguém e a forma necessariamente limitada em que essa vida é em uma obra ficcional. (ISER, 1999, p. 106)
Wolfgang ISER. O ato da leitura: uma teoria do efeito estético. Tradução Johannes Kretschmer. São Paulo: Ed. 34, 1996/1999.
Diário de Leitura?