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boletim do que por c se faz

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    #62http://fazendofazendo.blogspot.com 9 a 23 JUN. 2011

    que o mar lave a costa

  • FICHA TCNICA: FAZENDO - Isento de registo na ERC ao abrigo da Lei de Imprensa 2/99 de 13 de Janeiro, art. 9, n2 - DIRECO GERAL: Jcome Armas - DIRECO EDITORIAL: Pedro Lucas - COORDENAO GERAL: Aurora Ribeiro

    COORDENADORES TEMTICOS: Albino, Anabela Morais, Carla Cook, Filipe Porteiro, Helena Krug, Lus Menezes, Miguel Valente, Pedro Gaspar, Pedro Afonso, Rosa Dart - COLABORADORES: Cristina Lourido, Daniel Seabra Lopes, Joo Carlos

    Fraga, Ins Martins, Mrio Moniz, Miguel Machete, PNF, Sara Soares, Toms Melo - PROJECTO GRFICO: Nuno Brito e Cunha - PROPRIEDADE: Associao Cultural Fazendo SEDE: Rua Rogrio Gonalves n 18 9900 Horta - PERIODICIDADE:

    Quinzenal TIRAGEM: 400 exemplares IMPRESSO: Grfica o Telgrapho CONTACTOS: vai.se.fazendo@gmail.com

    2 09 a 23 JUN. 2011 http://fazendofazendo.blogspot.com

    opinio Desgnios Anti-civilizacionais:

    Daniel Seabra Lopes

    APOIO:DIRECO REGIONAL DA CULTURA

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    capa

    Daniel Seabra LopesDaniel Seabra Lopes [n.1970, Lisboa] autor incerto, tem dividido uma carreira instvel na rea da antropologia com sucessivos retornos banda desenhada e ilustrao, cultivando o sentido do anacronismo, o gosto pelo anonimato e outros fetiches igualmente irrelevantes.

    Correm duas histrias convencionais sobre os Aores: uma histria de fascnio e uma histria de evaso. A primeira tende a ser contada pelos forasteiros, enquanto a segunda pertence aos que nasceram no arquiplago ou para a foram desterrados. So perspectivas complementares em vrios sentidos.

    O fascnio exerce-se de modo subtil: preciso romper atravs da bruma que forra estas ilhas e as afasta da imaginao dos viajantes que anseiam por destinos mais exticos; j a segunda impresso opressiva e no encerra nenhum mistrio: o espao insular limitado e de difcil acesso, o que faz com que todos os seus habitantes acabem por saber uns dos outros, tornando difcil viver a magia do anonimato proporcionada pelas grandes cidades.

    Ambos os movimentos tm conhecido desvios e elipses interessantes, motivados pela chegada de novos personagens dos velejadores, aos professores, investigadores e operadores tursticos, passando pelos intelectuais e artistas estrangeiros de que nos fala Vicente Jorge Silva, pelos comerciantes chineses e ciganos, ou ainda pelas famlias insulares que se

    Dir-se-ia que naturalismo e etnografia constituem mundos separados nAs Ilhas Desconhecidas.

    foram espalhando por vrios pontos do arquiplago. Pode ser que um dia a diversificao dos pontos de vista acabe por dissolver a impresso de complementaridade. Em todo o caso, essa complementaridade traduz um genuno problema antropolgico que se resume da seguinte forma: que experincia se enquadra na formidvel paisagem deste arquiplago?

    O fascnio de Raul Brando pelos habitantes do Corvo advinha p r e c i s a m e n t e da procura de uma forma de vida que encaixasse ali, na mais extrema das ilhas, e que pudesse fazer escola, fundar uma civilizao. Era tambm esse o propsito das dissertaes de Nemsio sobre a Aorianidade, que todavia no deixam de ser sensveis questo na verdade, recorrente do emparedamento do ilhu.

    O prprio Brando cedo compreendeu as limitaes duma antropologia insular (todos os dias os mesmos gestos e repetindo sempre a mesma meia dzia de palavras at morte), e no por acaso que o seu olhar se

    desvia tantas vezes para o mar e para o cu, para os grandes relevos das ilhas, para os recortes das suas costas, para as falsias cobertas de vegetao. Dir--se-ia que naturalismo e etnografia

    constituem mundos separados nAs Ilhas Desconhecidas.

    De facto, no fcil conjugar as

    duas coisas quando se recorre a uma viso empedernida e pontualmente romantizada do autctone, como a que tem marcado a antropologia aoriana.

    Por seu turno, o nexo entre espaos insulares e civilizaes alternativas (ou desconhecidas) constitui um tema persistente do imaginrio ocidental moderno, impedindo o reconhecimento de que a verdadeira vocao das ilhas assenta sobretudo na contra--civilizao, no que no pode fazer escola. Voltamos portanto ao ponto de partida: que formas de vida se ajustam a este cenrio que sejam capazes de

    suplantar as histrias complementares de atraco e repulsa? Em jeito de resposta, apenas consigo evocar o relato de um amigo que passou um vero nas fajs da mtica ilha das Flores, com uma tenda por abrigo e amoras silvestres por alimento, qual Heraclito reencarnado. Objectar-se- que tambm isto romantizar, e que tais experincias so sobretudo um produto da interioridade, podendo ser vividas em qualquer parte do mundo mas essa seria uma objeco banal, por no reconhecer que o romantismo se alimenta sempre de uma qualquer misria, e, principalmente, por descurar a verdura pujante das fajs, a agitao curiosa do mar, o negro retorcido das encostas vulcnicas, o amplo cncavo das caldeiras, enfim, a tremenda complexidade do cu aoriano, feito de vrias camadas de nuvens que se entreabrem de quando em vez para o azul.

    Este o caminho para uma nova antropologia dos Aores.

    para uma nova antropologia dos

    Aores

    O Lus Pica-Salsinha, pela porta entreaberta, espreitava a oportunidade de surripiar uma faca de cozinha me. Bastava que ela tivesse necessidade de ir rua despejar as cascas das batatas no balde onde se acumulavam os restos de comida, futura beberagem dos porcos que, com fome, j roncavam no curral.

    Pedir a faca estava fora de qualquer hiptese. Tinha que ouvir sempre o mesmo sermo sobre cuidados, perigos e cortes. Arrazoado a que no ligava peva, at porque acabava sempre por golpear um dedo e ter que ir, a correr, para casa da Palmira dos Tolos.

    A dita Palmira morava mesmo ao lado e tratava de lhe estancar o sangue,

    enrolando depois uma tira de lenol velho volta do dedo ferido. Tentava, assim, evitar que a me ralhasse, com ele, ao descobrir o que tinha acontecido, mesmo depois de tanto te avisar, meu filho! Cuidado para esse golpe no infectar!

    Ferida de co cura mesmo com cabelo!, dizia o Lus, e ria, todo contente, por se lembrar da frase que ouvira algum dizer no botequim do senhor Martins.

    Tanta cicatriz, de tanto corte nos dedos de cada vez que a faca resvalava em cima da cana que tentava aguar para servir como lana ou estaca no castelo que defendia ciosamente dos ataques dos inimigos, danados para lhe ocupar o lugar majestoso e sobranceiro que tanto custara a

    descobrir.Quando se trata de defender o que nosso, h cortes bem piores que o lanho num dedo!

    Cortes da Minha InfnciaMrio Moniz

    lacuna

  • exemplo), ou se queremos escrever uma carta de amor, e a menos que da nossa estratgia grfica de seduo faam partes almofadas em forma de corao com rendinhas ou ursos fofos, o melhor mesmo NO procurar no Google sobre esse tema.

    Aqui ficam alguns sites onde se podem roubar ou apenas apreciar imagens de qualidade (para qualquer tema):

    http://ffffound.com/ (um clssico da net, h de tudo, mas difcil procurar atravs de palavras chave, o melhor percorrer as pginas e pginas, encontra-se sempre alguma coisa)

    http://www.imgspark.com/ (outro clssico, tem pesquisa por palavra chave, e pode ainda criar a sua prpria coleco de imagens - roubadas por si, ou colocadas por si l)

    http://vi.sualize.us/ (semelhante ao anterior, j tem alguns temas seleccionados na barra lateral, para facilitar pesquisas)

    Todas as pginas dos grandes museus do Mundo, especial referncia ao Thyssen, em Madrid, onde pode navegar nesta tabela de tempo e ver todas as obras http://www.museothyssen.org/en/thyssen/linea_del_tiempo

    Se usar uma imagem, faa uma referncia ao autor e obra, ou pelo menos ao local de onde a retirou. simptico para quem a fez e tambm para quem a possa apreciar.

    arquitectura e artes plsticas

    http://fazendofazendo.blogspot.com 9 a 23 JUN. 2011 3

    Desgnios Anti-civilizacionais:

    Ainda h quem se lembre de tirar fotocpias, recortar, colar e tirar depois outra fotocpia da composio final. As cores s se usavam se valesse mesmo a pena. Trabalhos para a escola, os testes feitos pelos professores, cartazes para festas e concertos. Mais antigas, eram umas fotocopiadoras que copiavam a duas cores em degrad de uma para outra. Verde e vermelho, salvo erro. Ia-se buscar imagens onde elas haviam, enciclopdias ilustradas, revistas, jornais, livros. A tesoura e a cola eram o software de edio.

    Depois vulgarizou-se o uso do computador. O Word passou a ser a mesa de trabalho e recorria-se a uma coisa linda e maravilhosa que continua a existir e que agora j ningum se lembra de usar. Eram as imagens do Clip Art, fornecidas pela Microsoft no seu Office e que davam muito jeito, porque havia temas para tudo, desde as quatro estaes, a msica, festas, escritrios e muitas, muitas coisas inspiradoras. Tinham, porm, o problema de serem normalmente muito generalistas e serem todas do mesmo estilo: o estilo clip art (que tambm se foi desenvolvendo com as sucessivas edies do Office).

    Hoje em dia, se precisamos de ilustrar algo, se precisamos de encontrar uma fotografia de algum

    Ilustrar, roubando

    internet

    ou de qualquer stio, vamos sempre internet. A pesquisa mai