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Marfim Cobra

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Novela. A magia volta à Terra em tempos recentes. Em meio ao caos que provoca, surge um herói morto-vivo com uma difícil missão.

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  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    SaudaesSaudaes

    Este livro escrevi inicialmente h alguns anos (vrios anos, na verdade). Foi o primeiroromance que fiz, sendo ambientado em um cenrio prprio (Ases). uma parte na lutaentre deuses ligados a uma energia mgica que migra de planeta em planeta, de tempos emtempos. Acontece quando essa energia volta Terra, na dcada de 90.Este romance est disponvel tambm no site http://bardo.cyaneus.net em formato on-line,inclusive permitindo comentrios.

    -- Crlisson Galdino

    Marfim Cobra - Sibilo da JustiaVerso atual: 1.6Data de Publicao: 27 de fevereiro de 2005Classificao: RomanceAutor: Crlisson GaldinoContato: [email protected]

    #2

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    ndicendice

    Parte I.............................................................................................................................................................4Parte II............................................................................................................................................................9Parte III........................................................................................................................................................12Parte IV........................................................................................................................................................16Parte V..........................................................................................................................................................20Parte VI........................................................................................................................................................27Parte VII.......................................................................................................................................................32Parte VIII......................................................................................................................................................37

    #3

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Parte IParte I

    Dia: sexta-feira, 13 de Fevereiro. Hora: zero e cinqenta minutos. Lugar: cemitrio em algum ponto de Sergipe. Esttudo escuro e deserto. Hora e lugar perfeitos para algo muito fora do comum acontecer...

    "O qu? Onde estou? Est tudo to escuro... Acho que aqui paracima... - cavando com as mos - Encontrei a superfcie. Agora, preciso apenas um pouco de esforo e... estou fora... Que lugar esss... No, no pode ser. Minhas mos... esqueleto! Ossos! Minhasroupas cheias de buracos... Isso no possvel. Eu estou... morto?"

    O pnico percorre todos os seus ossos, - afinal, s o que temagora.

    Uma hora depois, superado o susto..."Bom, agora eu sou uma espcie de... zumbi! Um morto-vivo.

    O que fao ento? Normalmente mortos-vivos no tm livre arbtrio,no verdade? Por que ser que sou um morto-vivo e conservo ainteligncia? Que droga! Eu era to legal naquele corpo meu desempre... Bem, mas no adianta muito ficar me lamentando, no verdade? Certamente h vantagens em ser um morto-vivo. Vou tentardescobr-las. Hora de um pequeno furto. - olha em sua volta - Ali!Aquela manso est tima pra comear."

    Vai at o muro da manso. Pula-o com facilidade e segue emdireo ao quintal. Passa pela piscina, olhando com curiosidade e sedirige garagem.

    "Exatamente o que suspeitei: o morador daqui mago. Olha sessa carruagem enorme... No parece haver estbulos ou cavalos poraqui... - chega cozinha. - Quantos mveis e instrumentos estranhos.Vou tentar abrir uma dessas gavetas... Olha s! Talheres... So falsos,droga! So leves demais... Vou procurar algo melhor... E essescristais... Se no estou enganado, vi um desses no castelo de um reidescuidado, que guardava ouro em um ba destrancado embaixo dacama. Espere! E minhas roupas? Aqui deve ter alguma coisa que eupossa usar. Mas... e essa fechadura? Nunca vi uma assim em toda aminha vida! Acho melhor tentar as janelas."

    Ao se virar, seguindo sada da garagem..."Que maravilha! Uma caixa de ferramentas! Vamos ver o que

    tem dentro. - abre e encontra ferramentas que conhecia e outras quelhe so completamente novas. Fecha a caixa, que tem forma, trancase divisrias diferentes, mas que ele no duvida de sua eficincia. Saida garagem e fica frente de uma janela de madeira. Aps cerca devinte minutos consegue xito e entra na casa. - Esse mago talvez noseja exatamente um mago. Vejo apenas alguns artefatos, mas ele noparece se preocupar com a defesa de sua moradia: at agora noencontrei nada. Geralmente sou recebido com glens, armadilhasmgicas, e outras surpresas. Deve ser s um colecionador. Mas se formesmo mago, ou muito descuidado ou terrivelmente perigoso."

    Subitamente, ouve um grito de trs dele.- Parado, seja quem for! - fala um vulto, segurando algo. Est

    escuro, e nenhuma outra caracterstica se faz clara.Cobra (assim era chamado em vida) sente uma enorme

    necessidade de fugir. Quando est prestes a faz-lo lembra-se de queagora no mais humano, mas tambm lembra que armas mgicas emagias ferem mortos-vivos tanto quanto a humanos, algumas atmais. Se ele for realmente um mago, ou mesmo um colecionador, oque ele carrega pode tambm ser mgico. E isso sem falar nas magiasque normalmente os magos usam: devastadoras. Sendo assim, Cobradecide que definitivamente no pode mais ficar ali. Mas para ele a

    roupa no importa tanto. J que ele deixou o que roubou fora da casa,no perder tanta coisa. Cobra corre para a janela, mas quando estprestes a pul-la, o mago grita:

    - Pare a, ladrozinho covarde!- Covarde? - Cobra indaga, virando-se. H muito no se

    dirigiam a ele com essa palavra... Muitos j morreram aps algumcham-lo de covarde no passado. Inclusive, no final, ele prprio.

    A luz da Lua e de uma lmpada externa iluminam seu rosto.Cobra ouve o objeto que o mago segurava cair e v agora um vultotrmulo. "Com certeza no um mago. Talvez um colecionadorbarato, ou nem isso." Mas isso no lhe importa agora. Aquele homemfalou o que jamais deveria ter falado. No local onde deveriam ficar osolhos, h duas pequenas chamas vermelhas expondo a sua fria. Odono da casa to nervoso est que suas mos trmulas derrubam,constantemente, vasos, imagens e outros enfeites, que vo ao cho ese estraalham em mil pedaos. Mas a ira de Cobra no se abala comisso, ao contrrio, aumenta. De repente, Cobra sente uma misteriosaenergia percorrer seu corpo, passando pelos braos, que fascam. Masessa energia no causa qualquer dor, d apenas uma sensao depoder. Sente, ento, que deve apontar o brao para algo: o falsomago, claro! Sai uma serpente de energia, que se enrola no dono dacasa, formando uma espcie de casulo. O homem some como senunca houvesse existido. H agora apenas um lugar vazio onde eleestava.

    - Quem o covarde "agora"? - Cobra pergunta. Tambm nosabe muito o que aconteceu, mas aconteceu.

    Cobra esquece completamente o problema com suas roupas.Pula a janela, apanha o roubo e foge. Pulado o muro, surge umapergunta em sua mente: "Para onde ir?" Depois de pensar um poucono assunto, ele decide que o ideal , ao menos por enquanto, voltarpara o lugar de onde veio: o cemitrio. Cobra nunca teve medo decoisas e lugares assim, sempre foi extremamente confiante eorgulhoso por ter se acostumado com esses ambientes.

    "Interessante. Mesmo sabendo que mortos-vivos no dormem,sinto-me cansado. Talvez o que fiz com o colecionador de artefatostenha me tirado as energias. Terei que dormir para recomp-las. ...pormais absurda que me parea a idia." Deita-se e adormece, ento.

    Porm, acorda ainda de noite. O cansao passou. Olha emvolta. No h nada diferente. O cu est bem escuro. Sinal de queno tardar a vinda do astro dourado. E no demorou. Aps algunsminutos de espera impaciente, Cobra contempla o nascer do Sol.

    "Hora de investigar melhor a torre e o alcance do que fiz."Mas, ao tocar a caixa de ferramentas, Cobra sente sua mo queimar ede repente est tudo escuro.

    Cobra comea a ficar consciente. Ouve uma voz distante. Parecechamar o seu nome. H uma neblina baixa e fraca. Parece no haverparedes, apenas uma sombra slida em seu lugar. A luz fraca e novem de nenhum lugar logicamente aceitvel. Cobra segue em direo voz que o chama. De repente se v diante de um ser estranho.Parece um homem com cerca de trinta anos, barba, cabelos escuros ecurtos e, o que mais estranho, com seis braos e duas pernas,lembrando uma aranha.

    Parte I #4

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    - Kin-R - Cobra deixa escapar o nome de seu deus, enquantose ajoelha diante da estranha figura.

    - Cobra. Sabes o que me agrada? Minhas regras? O que salvaos meus seguidores? - pergunta Kin-R, com um olhar grave.

    - Sim, senhor. Jamais ser injusto, cometer desonestidades,roubos ou faltar com a palavra e, sempre que puder, combater os queo fazem. - Responde Cobra, entristecido, pois sabia exatamente ondeseu deus queria chegar.

    - Ento, se sabias o que queria que fosse feito, por que no ofizeste?

    - Senhor... - Cobra no consegue completar a frase...- Voc merece o castigo da eternidade sem corpo: a vida sem

    vida em um imenso vazio... Mas a cada cinco mil anos eu escolho umseguidor destinado ao castigo eterno para lhe dar uma segundachance.

    - Sinto-me grato e honrado, senhor! - fala Cobra.- Em sua vida, no fizeste nada alm de contrariar minhas

    vontades. - continua Kin-R. - Como Cobra voc espalhou dor etristeza. Nessa segunda vida voc deve espalhar alegria e esperana.O que voc fizer de mal noite o machucar ao dia. Se seguires meusdesejos, aps anular suas ms aes, finalmente poder mudar, voctem poder para isso. E, a partir deste momento, voc passar a sechamar Marfim. Marfim Cobra. Como Cobra fizeste o mal. ComoMarfim Cobra devers fazer o bem. Mude logo, enquanto ainda htempo, ou sofrer as conseqncias do castigo eterno...

    As palavras ecoam na mente de Cobra - no, agora MarfimCobra -, quando ele acorda. Por um instante tentou afast-las damente, mas quanto mais tentava, mais elas o perseguiam. Pensouento que talvez fossem as coisas que ele havia roubado noite.Talvez por causa delas no se sentisse em paz consigo. Pegou a caixade ferramentas, desta vez pensando em p-la onde encontrou, ela nomais lhe queimou a mo e as palavras que o atormentam se tornarammenos dolorosas.

    Seus ideais no incio foram belos, mas por fraqueza ele nopde segu-los. Foi assim que se tornou um ladro devoto do deus daJustia, o que nunca havia ficado claro pra ningum, nem pra elemesmo.

    Marfim Cobra pula o muro com a mesma facilidade de antes,vai at a garagem e deixa as coisas exatamente onde as encontrou. Aovoltar o rosto para o muro v dois homens descendo o mesmo comcordas: ladres? Assassinos? Sequestradores? No importa. Marfimresolve se esconder atrs da "carruagem" (o automvel) e esperar queeles se aproximem. Um terceiro pula o muro e se abaixa, fazendo umsinal para os outros dois, que vo garagem tentar arrombar a porta.Marfim Cobra, como fra um ladro, conhece algumas tcnicas.Resolve usar uma delas. Desliza silenciosamente at os dois queesto porta. Ao ver Marfim se aproximar, o terceiro do grupo grita:"Cuidado!" Mas, antes que os dois ladres porta entendam o queest acontecendo, Marfim Cobra salta golpeando os dois noestmago. Os dois caem, inconscientes. Marfim corre velozmente emdireo ao terceiro, que j estava em cima do muro. Mas o terceirono consegue fugir. Marfim Cobra conseguia pular esse muro, semauxlio de nada, com extrema facilidade. Estando as cordas l, nolevou mais que uma pequena frao de segundo e, quando o terceiroladro estava tocando o cho, Marfim j caa sobre ele...

    Havia um carro em frente ao muro, sem dvida era o lder daoperao. No momento em que Marfim despencava do muro sobre oterceiro ladro, o carro acelerou.

    "Uma carruagem sem cavalos? Magnfico! No os alcanarei atempo... Espere! E se eu conseguir lanar aquela magia sem palavrasou gestos?" - Ele tenta se concentrar, mas no adianta. Quando ocarro j est longe, ele finalmente sente toda aquela energia

    percorrendo seu corpo. Ele ento aponta o brao para o carro e...Tcharam! O carro sumiu.

    "! Isso compensa o fato de eu no poder mais roubar. Talvez,quando Kin-R falou em poder, estivesse se referindo a isso..." PensaMarfim. As palavras que o torturavam sumiram. Ao sumirem,Marfim ouve: "Continua agindo assim, e em breve sers libertado. Eume comunicarei contigo. E sabers quando eu estiver falando!"

    Marfim Cobra atravessa a rua e segue em direo ao cemitrio.Espera alguma mensagem prometida por Kin-R, mas nada recebe.Quando est prestes a ir embora, uma cobra rasteja sobre seus ps,olha-o, bota a lngua para fora e sai rastejando.

    "Ser isso um sinal? Acho que devo segu-la." Marfim Cobra asegue. Ela rasteja at um tmulo recente e entra. "Ser que devo abr-lo?" Pensa, mas depois de prestar mais ateno v a chapa do tmulo.Tem o nome de algum e alguns nmeros: 1967-1992. "H? Comoassim? O que isso?" Pensou depois que poderia haver qualquercoisa importante dentro do tmulo. Quando j tinha as moslevantadas para destru-lo, a cobra fugiu rapidamente, sendo perdidade vista. ", certamente no devo quebr-lo!" E fica a pensar na fraseque dissera. De repente, ouve uma voz.

    - s tu o dito Marfim Cobra?- Sim, sou eu! - Responde, virando-se e imaginando quem

    poderia o estar procurando. Mas, ao contrrio de todas aspossibilidades que conseguiu criar, quem o chamou parecia umsacerdote.

    - No se assuste! Eu sou um dos pouqussimos sacerdotes deKin-R que existem hoje em dia. Kin-R me disse que vocprecisaria de um lugar pra ficar. Eu tenho uma casinha onde vocpoderia ficar durante o dia. O que acha? - sugere o sacerdote de Kin-R.

    - Se esta a vontade de Kin-R, aceito.- Eu trouxe roupas para que cubra todo o corpo. - Enquanto

    revista a mochila.Depois que Marfim recebe e veste a roupa, os dois saem at

    uma cidade prxima. No caminho, o clrigo comea a explicaralgumas novidades, como o automvel... Na pequena cidade no hmuito movimento de carros, mas para Marfim o bastante.Finalmente eles chegam casa do clrigo. uma casa humilde,possui poucos cmodos. Durante o resto do dia, ele ensinou aMarfim Cobra muitas coisas sobre o mundo e sobre aquela cidade.Seu cognome, conforme lhe disse, Formiga Vermelha, pois seconsidera muito inferior a seu deus, tendo assim uma maneira dedemonstrar como se sente pequeno em sua presena. Ao chegar anoite...

    - J vai embora? - pergunta, ao ver Marfim vestindo o resto desuas roupas. - Espere! Tenho algo a lhe mostrar.

    Formiga vai ao quintal, demora um pouco. Volta, falando.- Eu nunca tinha conseguido entender o que cobras tinham a

    ver. - Marfim comea a estranhar a conversa. - Mas agora entendi.Kin-R fez isso para voc. - Fala, estendendo a mo, e nela umpunhal com uma figura de cobra no cabo. Marfim o pega e analisadetalhadamente. - "Apenas os nascidos entre serpentes podero usar o'Punhal das Serpentes', que convocar para serv-lo, duas serpenteslutadoras. Se s o destinado a receb-lo, gritars: 'Inchinmy Ejoda' eas serpentes o serviro." Boa sorte!

    - Obrigado. - responde Marfim. "Acho que hora de entrar emao!"

    Marfim Cobra sai da pequena casa do Formiga. A rua estdeserta. Marfim vai s ruas mais desertas: nada de errado acontece!Ele anda por horas sem nada encontrar. Enquanto caminha comea apensar em sua vida. Por que seguiu um caminho to tortuoso? Era a

    Parte I #5

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    vida fcil, claro. Tinha conscincia de que no devia agir daquelaforma e ainda assim agia. Mas no pode ter sido s isso. Marfimsempre fra forte de vontade em muitas outras situaes. Por quehaveria de fraquejar justo naquela?

    Um caminho passa na pista ao lado da cidade, com dois carrosprximos a ele. Quando passa (parece estar cheio de mercadorias), oscarros aceleram atrs. Um indivduo no banco dos passageiros de umdos carros aponta um revlver para o motorista do caminho, quefreia.

    Pensamentos depois, h um assalto. Os carros param. Marfimcorre em direo cena. O homem armado desce do carro - os outrostambm - e aponta o revlver para o motorista. Marfim est acinqenta metros, aproximando-se. Os outros assaltantes vo at ocarregamento e o descobrem. Marfim est a quarenta metros, quandoo assaltante que segura a arma est prestes a matar o motorista.Marfim Cobra se concentra e em pouco tempo consegue invocar oseu poder - est aprendendo a control-lo -, aponta o brao e aserpente de energia acerta o que mataria o condutor do estranhoveculo (estranho para Marfim, claro), criando um magnfico casulobrilhante de energia, que aps alguns segundos desaparece junto como assaltante que estava dentro.

    O que parece ser o chefe do grupo grita, desesperado: "atirem!Matem o desgraado!" Os outros, sem perceber o perigo que Marfim, atiram. Marfim continua avanando, mesmo quando elesacertam, pois as balas no o machucam. Finalmente, o esqueleto osalcana e os derruba facilmente. Outros vm, enquanto o chefe dogrupo corre em direo a um dos carros. Marfim, percebendo queprecisa de ajuda, resolve usar sua nova arma e grita: "InchinmyEjoda!", segurando firmemente o punhal, com o gume voltado parabaixo. Imediatamente aps isso partem dois raios verdes do punhal:um esquerda de Marfim, e outro direita. Cada raio cria umaserpente verde, com flamas nos olhos. Os assaltantes, percebendo queaquilo sobrenatural, soltam as armas e correm. Marfim aponta obrao esquerdo para o chefe, e o direito para os assaltantes que estotentando fugir. As serpentes partem, quase que no mesmo segundo,nas direes indicadas.

    O clrigo de Kin-R, Formiga Vermelha, acorda. Abre os olhos: v oteto de sempre; senta-se na cama: v as paredes, seu criado-mudo eseu armrio, j um pouco acabados. Troca de roupa e se levanta.Segue, ento, para sua minscula sala, pensando em como teria sesado Marfim Cobra nessa misso. Mas, ao chegar l, leva um susto:depara-se com ele encostado na parede em frente.

    - Como se saiu? Foi bem em sua primeira misso? - Pergunta.- Estavam querendo saquear um carro de mercadorias...- Um caminho!- . Dei um jeito neles. Acho que bom para uma primeira vez...

    - Marfim Cobra.- Bom! - O clrigo responde, indo minscula cozinha. Mas

    interrompe seus passos e se vira para Marfim. - Voc come? Querodizer: precisa consumir alguma coisa pra repor energias?

    - No no momento.- Como assim? - O clrigo Formiga.- Vou te dizer uma coisa. Quando eu voltei vida e usei meus

    novos poderes, tive sono e precisei dormir, no sei por quantotempo... At o amanhecer. Agora o uso e no preciso mais dormir.Achei estranho e talvez voc tambm o ache, mas aconteceu. Porisso, no estranhe se eu precisar me alimentar, de uma hora paraoutra.

    - S uma coisa. D pra usar o capuz? Sabe como ... Seuaspecto no um tanto... Deixa pra l, vai...

    Formiga Vermelha fica parado, perdido em pensamentos.Depois de poucos minutos vai cozinha tomar seu caf da manh.

    Ao voltar, pergunta:- E hoje, o que gostaria de fazer?- Que tal me ensinar a decifrar esses smbolos grficos? -

    Aponta para um jornal sobre a mesa.Tudo corre bem durante esse segundo dia. As oraes de

    Formiga, aprendizado de Marfim. O dia passa calmo e noite...- J vai? - Pergunta Formiga.- J. - Marfim responde.- Sei que voc no precisa, mas... Boa sorte!- Obrigado.Marfim Cobra parte para as ruas: vai agir, vai lutar pela justia,

    enfrentar os perigos do mundo.A noite passa e Marfim se desloca pelas ruas da cidade.

    Constantemente. Nada acontece."Essa tranqilidade no est me agradando. Ser que nessa

    noite nada ocorrer?" Pensa Marfim Cobra. "O jeito continuarvigiando a cidade..."

    E continuou a vigi-la, porm nada de estranho ocorreu.Parecia que todos realmente haviam evitado sair. Parecia que todosestavam amedrontados por alguma eventual notcia sobre o ocorrido.E assim a noite passou - nessa monotonia: sem ao, sem emoo,sem mais pontos positivos por Kin-R. Enfim, amanheceu.

    - E a? Como foi?- Nada foi.- No houve nada?- Nada.- No se preocupe com isso. Olha! Dizem que um dia da caa

    e o outro do caador. Quem sabe hoje noite...- No tenho outra escolha a no ser aguardar.- E olha o que saiu no jornal!Marfim se inclina sobre a mesa e v naquelas pginas a foto do

    caminho e dos corpos, tirada distncia.- E o que diz? - pergunta Marfim.- Que um sumiu e dois foram mortos de maneira estranha. No

    sabem o que aconteceu. O caminhoneiro diz que foi um..."esqueleto". Muito bom, hein? Mas to achando que o chupa-cabras.

    - o qu?- Um bicho que ataca animais por a... ...mas no deve existir

    no. - Formiga pra e comea a olhar Marfim Cobra preocupado. -Bom, se voc existe...

    Mais um dia se passa. Mais informaes Marfim guarda. Emais uma vez sai s ruas. Sai na expectativa de uma noite melhor.

    Durante o dia, o morto-vivo aprendeu tambm um pouco sobreos tipos de crime que se pratica hoje, apenas para constatar que ascoisas no mudaram muito...

    Hora: uma e quarenta e trs. Em uma das ruas mais desertas dacidade algumas pessoas se encontram reunidas. Um grupo de cincoou seis. Marfim Cobra passa atento por uma rua a esta perpendicular,e percebe que algo estranho est acontecendo. "O que um grupo depessoas estaria fazendo de madrugada, de p em uma calada de umarua deserta?" Sim. Com certeza h algo estranho aqui. Marfim se

    Parte I #6

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    esconde ao lado de uma casa, na esquina, e tenta observaratentamente o que est acontecendo. As pessoas esto formando umcrculo fechado. No d pra ver muita coisa, mas elas parecem terespingardas e revlveres. Algo muito suspeito. Marfim se aproxima,aos poucos, quando de repente um deles o v.

    - Pessoal! Olha "ele" ali!- Chumbo nele! - grita outro, enquanto todos pegam

    rapidamente suas armas. Certamente no gostaram do que um"homem encapuzado" fez h duas noites.

    Eles abrem fogo. So seis. Um traz uma metralhadora,enquanto os outros trazem armas mais comuns. Marfim recebe algunstiros, mas no se machuca. "Se eles querem encrenca, eles tero."Pensa Marfim, enquanto posiciona o punhal para ter ajuda dasserpentes de energia.

    - Ele usa colete prova de balas! - grita um dos seis,mostrando a concluso a que chegou para a pergunta: "Por que asbalas no o ferem?" Ele larga a arma, tira um punhal que traziaconsigo e dispara em direo a Marfim Cobra. Pena que, para ele,imunidade a balas s exista em filme ou desenho animado...

    Outros o seguem. S fica para trs o homem que usava ametralhadora, resmungando, pois no poder mais us-la com seusaliados na frente. Marfim grita: "Inchinmy Ejoda!", segurando opunhal com a lmina para baixo. A lmina adquire um brilho verde elana dois raios do mesmo verde para os lados de Marfim. Essesraios criam, cada um, uma serpente de energia que, ao sinal deMarfim, ataca. A da direita ataca o que est mais prximo, enquantoa da esquerda voa como uma flecha disforme em direo ao que ficoupara trs. Os dois caem. Enquanto outros param, sem ao, os doisrestantes correm contra Marfim. Este se concentra e consegue atingirum deles com sua serpente energtica, que sai de seu brao direito,mas o outro chega perto o bastante para realizar ataques. Marfim no atingido, mas os movimentos bruscos fazem com que os panos queo escondiam caiam, mostrando sua cabea esqueltica. O atacantefica to assustado que, depois de levar um soco violento noestmago, mesmo com seu corpo capaz de se erguer - dolorosamente,embora -, permanece no cho com os olhos arregalados e umaexpresso de terror na face.

    Os outros dois que restam estavam prontos para agir, mas essaviso lhes deu mais algum tempo de inatividade, at que um dos dois,antes que fosse tarde demais, diz ao outro o que acha que pode ser anica salvao.

    - Pra igreja!Os dois correm. ...e Marfim vai atrs. Faltando cerca de trs

    metros para o primeiro deles alcanar a igreja, Marfim derruba osegundo, que havia ficado muito para trs.

    - Padre! Abra! - Grita o ltimo deles, porta da igreja, batendodesesperadamente. E no demora para que a porta abra.

    - Padre! Me ajuda! - Diz ele, nervosssimo, enquanto entra efecha a porta. - Tem um esqueleto atrs de mim. O senhor tem queme ajudar.

    - Calma, filho. No tem ningum atrs de vo... - O padre interrompido por uma forte pancada na porta.

    - Pegue a gua benta! Est ali. - O padre no mais discute. Eleaponta para algum lugar na direo do altar. Sabe que esta a hora demostrar a que veio ao mundo. a hora de fazer diferena.

    O barulho de pancadas na porta continua. O ltimo pistoleirocorre na direo que lhe foi anteriormente indicada pelo padre. Aspancadas continuam e a porta, que esteve firme e impecavelmenteslida por anos, parece prestes a desabar. O homem comea a correrde volta com um pequeno frasco nas mos. Os barulhos parecemparar por alguns segundos. O homem chega e entrega o frasco aopadre. O homem da f abre tal frasco. Neste momento, no ar soa um

    alto estrondo, e a porta arrombada por uma figura esqueltica comos punhos fechados e unidos, caindo em arco. A tampa do frasco caino cho e o padre joga um pouco do contedo do dito, e muitobendito, frasco no esqueleto.

    "Meus ossos doem. O que esse miservel jogou em mim?Estou fraco! No consigo fora para nada..." Marfim se sente fraco.Fraco como jamais esteve. E ele se ajoelha no cho, pois suas pernasno conseguem mais sustentar o seu peso. O padre, ento, com afrieza de um carrasco, rezando para os cus, ergue o frasco pensandoem jogar mais gua benta "neste demnio" que est diante dele, maslogo uma idia melhor lhe surge: por que jogar de poucas poes?Ento ele segura o frasco com fora, com o brao direito, preparadopara arremess-lo. "Claro! O frasco de vidro! Se um pouco de guabenta fez com que ele casse enfraquecido, todo o frasco jogado deuma s vez decerto o matar." Ele recua um pouco mais a mo,pronta para jogar o frasco, quando um pequeno cilindro com pontaarredondada rompe a velocidade do som, causando um enormeestrondo.

    Uma figura na calada chama a ateno. Est segurando umaarma de fogo com as duas mos. O padre cai para trs e o frasco sequebra. Formiga Vermelha o atirador. Marfim, cado no cho eenfraquecido, mal consegue v-lo. "O ltimo pistoleiro" saca a suaarma e atira: acerta o ombro esquerdo de Formiga. Quase que aomesmo tempo, ele revida com um tiro certeiro em seu corao. Aoutrora ameaa cai inerte. Marfim, j no cho, mal pode falar ou ver,muito menos se mover. Formiga Vermelha o toma: pe o brao deleem torno de seu pescoo e, com muito esforo devido ao ferimentono ombro, o arrasta atravessando a porta da igreja. ...ou o que sobroudela. Formiga Vermelha sabe que essa cidade, como muitas outras,teme as balas, teme o desconhecido. Demorar alguns minutos atque a curiosidade das pessoas vena seus medos, e saiam rua parasaber o que aconteceu. Isso possibilitar o retorno de Marfim eFormiga. Formiga sabe disso, e toma proveito. Chega em casacansado e sem foras, sangrando, fecha bem a porta, larga Marfim emum lado da pequena sala e cai no outro lado, abraando o cho comose quisesse poder toc-lo um pouco mais. Talvez alguns anos...

    "J dia? No me lembro bem, o que aconteceu? Um grupo deatira... Oh, no! Formiga Vermelha!" Marfim se levanta e, sem queprecise procurar muito, encontra seu amigo em uma poa de sangue,cado prximo porta. "No! Ele no pode estar morto!" Ele ergueseu brao e larga. O brao do clrigo cai como o de um boneco.Marfim cai de joelhos ao lado do corajoso sacerdote. Ele choraria. Setivesse olhos de matria. H batidas na porta, mas como se noouvisse.

    - Abra a porta. Somos da polcia. - grita algum, do lado defora da casa, com tom de voz autoritrio.

    Marfim parece no ouvir. As batidas se repetem, agoraligeiramente mais fortes.

    Um forte pontap e a porta se abre. Os tiras vem a cena, masno conseguem acreditar. Um esqueleto ajoelhado prximo a umcadver. Logo passa por suas cabeas que Marfim foi o assassino. -Deciso precipitada. Se eles olhassem com mais ateno veriam nelea dor da perda de seu nico amigo na Terra de hoje. Comeam aatirar em Marfim. Um deles, com ar de lder, manda um outro buscarreforos e comunicar o fato. E continuam atirando. Claro que, pelanatureza mgica de nosso bizarro heri, as balas no o ferem, no oenfraquecem, mas o trazem de volta Terra.

    - Parado! Seja voc o que for! - grita o lder dos policiais.Marfim Cobra quer ficar sozinho e no suporta o incmodo

    fardado. Ele se levanta. Os tiras recuam um pouco. agora! Marfimdispara uma serpente branca com seu brao direito. A serpenteenvolve em um casulo um dos policiais e, como sempre, desaparece,levando a vtima. Marfim, depois disso, corre em direo porta,derrubando com os braos dois policiais que estavam no caminho.

    Parte I #7

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Eles, talvez por covardia, ficam no cho, imveis.Marfim segue sem rumo pela rua. A Lua ainda domina mas,

    depois de tantos e tantos tiros, a populao no consegue conter acuriosidade em torno do que aconteceu. Os poucos que colocam seusrostos para fora de casa tm a infelicidade de ver Marfim Cobraandando no meio da rua. A viso aterrorizante e, certamente, algunsse arrependero para sempre de terem tido essa curiosidade.

    Marfim Cobra est agora saindo da parte urbana dessa cidade.No sabe aonde vai. Sabe apenas que vai e, por enquanto, isso suficiente.

    Logo chegar o amanhecer. Marfim sabe que logo veculostomaro essa terra sob seus ps. J se afastou muito da cidade e nopegou o caminho que passa pelo cemitrio. No entanto, isso poucoimporta para ele. E Marfim Cobra segue com suas vestes, mas no coberto totalmente por elas. Ele no d importncia a isso. Segueandando. Somente ao ouvir o barulho de um motor ele,apressadamente, esconde-se por trs de suas roupas velhas. Ocaminho passa e o desperta. Ele percebe que esse foi o primeiro demuitos outros que hoje passaro por aqui. Olha para os lados. Em umlado h bois dormindo. No outro h uma casa e um pouco de barulhose inicia. O Sol ainda no nasceu. As pessoas esto acordando. S lheresta seguir em frente para descobrir onde chegar.

    Marfim segue andando pela estrada quando encontra uma ruasem calamento esquerda da principal que ele seguia. Como menos movimentada, ele toma o novo caminho. Tambm no sabeaonde o levar mas, como j disse, isso no importante para ele. Eele segue, mudando de ruas para fugir das pessoas. Estas, ao veremum vulto encapuzado, afastam-se desconfiadas. Elas constituem umproblema, mas no maior que a presena de crianas que, sempre tocuriosas, no ficam como os adultos. Elas ou temem e choram ou sesentem atradas. So o perigo principal. E ele seguiu. Algumascrianas ainda se aproximaram e viram duas chamas vermelhas naescurido de seu capuz. Elas foram, apressadas, contar isso aos pais,que se benziam e negavam a afirmao das crianas, alegando tersido obra de suas frteis imaginaes. Marfim Cobra seguia sem

    destino certo, por ruas novas, vendo novas paisagens, novas casas epessoas. Tudo que no o conhecia ou no lhe pertencia.

    Primeiro volta vida, depois perde seu nico amigo econhecido. O que mais deve esperar de seu destino? Segue em frentee v um rio. H pessoas ao longe, mas como no precisa respirar e orio certamente fundo, ele conseguiria passar sem ser visto. E ele ofaz. No com esse pensamento, apenas continua sua trajetria e passasob o rio at o outro lado. E nada mais v. No que no possa, quetenha perdido essa capacidade. Marfim no v porque no conseguedispersar sequer uma pequena frao de seus pensamentos.

    "Kin-R! Por que me colocaste aqui? Por que no me deixasteviver em morte? E agora? Agora que se foi meu amigo, instrutor econselheiro... Por que lhe disseste que eu corria perigo e o tiraste desua cama para morrer? Detesto e sempre detestei perdercompanheiros. O que farei? Sigo por esses malditos caminhos semimaginar onde chegarei. Aonde devo ir agora? Por favor, me diga.Disseste-me que responderia s minhas perguntas, que me diria o quefazer, para onde ir... Esta a hora: o que fao, Kin-R?"

    Marfim Cobra segue andando por ruas e mais ruas. Seu corpoanda, mas sua mente ficou muito atrs. Ele anda com passos semvontade, enquanto espera a resposta de seu deus, que nada diz.Depois de uma longa espera, mal sabe quantos dias e noites, elelembra que deuses muitas vezes se comunicam por sinais. Ele tentaretornar ao seu corpo e comea a ver um azul. Parou. Agora aimagem est mais clara: fim de tarde e sua frente est o oceano,como sempre, se mesclando ao cu. Isso no faz muito sentido paraele. Marfim comea a olhar ao redor quando v, em seu ladoesquerdo, ao longe, topos de alguns edifcios. " esse meu destino."Pensa ele, enquanto se vira para a provvel cidade e comea acaminhar. "H muito o que ser feito." Ele conhece a quantidade, masno a qualidade (o que deve ser feito). Isso de pouca importnciaagora. O desafio do caos o aguarda e Marfim Cobra sabe que nopode fugir dele e que o que fez muito pouco se comparado com onecessrio. Mas ele acredita que vai conseguir e, se depender dessesentimento, Marfim, cedo ou tarde, terminar sua misso na Terra eento poder ter a vida livre e feliz na teia abenoada.

    Parte I #8

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Parte IIParte II

    Dia: sexta-feira, 13 de maro. Hora: 01:37. Lugar: Macei, Alagoas. Est tudo em penumbra e sem movimento. Dia ehora perfeitos para algo fora do comum acontecer.

    A cidade dorme. Alguns poucos permanecem acordados, mas as ruasdescansam. O oceano morno parece mais calmo. Suas praiasdescansam. Tudo parece normal visto daqui. Tudo parece repousar.Mas nem tudo descansa. As ondas: comeam a se movimentar e algosurge de suas guas. Vestes encharcadas. Um p esqueltico pisa aareia seca. Marfim est aqui. Olha a cidade. Aonde ir hoje?

    Marfim Cobra prefere as ruas desertas. E ele segue poralgumas destas at que encontra alguma atividade anormal. algumsaindo de casa. Uma garota. Qualquer coisa anormal a essa hora danoite. Marfim resolve discretamente segu-la. Anda atrs dela, a umadistncia segura. Ela o percebe se apressa. Anda rpido por ruasescuras. Marfim a segue. Na sua frente est um rapaz, em p,encostado em um muro. Ela corre em sua direo. Marfim vai atrs.Ao se aproximar o rapaz grita, j com ela ao lado.

    - Deixe ela em paz.Talvez Marfim tenha ido mesmo longe demais. Seguir algum

    desse jeito no parece certo. Decide ir embora. Rostos surgem nacasa atrs deles enquanto o nosso heri anda para o outro lado da rua.

    - Espere! Isso no vai ficar assim, no. - O rapaz corre emdireo a Marfim Cobra. Claro que algum em circunstnciasnormais no faria algo assim, mesmo por haver a possibilidade de setratar de um mal-entendido. Mas, convenhamos, algum que fica madrugada na calada, de p, esperando nada, tem boas chances de jno estar em fase de s conscincia.

    Ele se joga no ombro de Marfim e o puxa, pronto para soc-lono rosto. Marfim se esquiva e segura o brao do agressor. Aperta,com fora, e vai embora aps larg-lo no cho.

    O rapaz se levanta e salta contra Marfim, abraando seupescoo. Marfim no tomba. Seu capuz cai. Marfim d um soco noestmago do incmodo rapaz, cobre novamente o rosto e vai embora.Agora, sem problemas.

    Segue por ruas desertas e nada mais encontra. Como sempre,ele volta para as guas antes do amanhecer.

    "Nada de errado hoje... No sabia que os ladres de hoje eramto supersticiosos." Na verdade, sempre foram, mas ele vivia numaclasse ladina mais importante. Entre os mais ousados.

    Mais uma noite. Mais uma vez Marfim abandona as mornasguas ocenicas para agir, lutando pela justia, pela prprialiberdade.

    De repente, Marfim ouve um barulho de motor, automvel.Um carro se aproxima e reduz a velocidade ao ver um vulto comroupas velhas e molhadas. Marfim tenta imaginar o que eles querem.So trs adolescentes no tal carro. Eles sacam pistolas automticas ecomeam a disparar contra Marfim Cobra, que, claro, no sofre comisso. ...pelo menos no fisicamente.

    "Ser que eles me reconheceram? Ou pretendiam matar ummendigo? Pois matarei trs miserveis de uma s vez." Marfimconcentra energia para seu poderoso golpe, aponta o brao direitopara o automvel. Parte uma serpente energtica branca, que enrolatodo o carro em um casulo, e desaparece. "Melhor me apressar.Como ontem no houve muita coisa errada, h boas chances de queeu hoje tenha uma noite cheia."

    Marfim Cobra olha as opes e escolhe uma rua. No porque

    veja crime, no por ser deserta, por escolher. Ele anda por tal ruaquando outra lhe chama a ateno, por chamar. E ele altera suatrajetria, quando passa por uma loja, e algo parece anormal. Dessavez nitidamente anormal. H pessoas tentando arromb-la. Marfim,sem pensar, dispara outra serpente energtica branca e um dos cincohomens que havia ali some. Corre ento contra eles, que ficamimveis, surpresos.

    - Hei, quem voc? O que pensa estar fazendo?Marfim se vira. um homem vestido como guarda e

    empunhando um revlver. Belo truque, mas no bom o bastante paraenganar o velho ladino, que saca seu punhal e grita, entre os tiros dofardado: "Inchinmy Ejoda". Uma serpente ataca o tal fardado e aoutra um dos quatro homens restantes. Marfim se aproxima compassos frios.

    - No tenho dinheiro, esqueci a chave na loja. Pode levar tudomas me deixe viver - desespera-se um deles.

    "Mas no pode ser. Ser? Se for assim eu terei matado trsinocentes. No pode ser." Marfim recua e parte rapidamente. Pareceestar se dirigindo praia. Sim, ele est. Atravessou a rua. Est naareia, indo ao oceano. Certamente o fato de ter errado o aterroriza eprovavelmente no mais agir esta noite. Ter de lutar contra ofantasma de seu erro. E, nessas batalhas, normalmente s h umvencedor...

    Marfim se levanta das guas. Prometeu para si que nuncacometeria algum erro como aquele. Ele pisa o cho firme. Olha paraos lados (como era de se esperar, talvez, as ruas esto desertas). Eleatravessa, segue por caminhos sombrios e consegue impedir doiscrimes. Enquanto anda pelas ruas surpreendido por um grupo quesurge como que do nada, e se alinha calada. Esto armados.Estranhamente armados. Alguns empunham pistolas, outros armas debrinquedo. Alguns usam crucifixos e dentes de alho.

    "Palhaada..." Pensa Marfim ao ver a estranha cena. E quemseria capaz de lhe tirar a razo sobre to estranho fato?

    - Fogo! - grita um deles.Marfim comea a concentrar as estranhas energias quando seus

    inimigos abrem fogo. "gua?" o que parte das armas de brinquedo,enquanto as balas o atingem tendo a reao costumeira. A guaimpede a concluso do ritual.

    Um grito sinistro preenche o silncio da noite. O grito de umjusticeiro, o grito de Marfim Cobra. Os atiradores do um passo frente. Os mais impulsivos correm. Mais balas so disparadas e osque iam na frente vo ao cho. Uma nova figura acaba de entrar emcena.

    "Formiga!?" Marfim pensa, cado no cho.Uma guerra comea. Tiros de um lado, tiros do outro. O

    homem que acabou de entrar atira poucas vezes. A cada tiro, uminimigo vai ao cho. Os outros desistem de lutar e resolvem fugir."Covardes." O pistoleiro se aproxima do sub-consciente MarfimCobra. Usa uma farda. um tira. Abaixa-se.

    - Ento voc existe de verdade? - Fala, surpreso ao ver o rostoesqueltico de Marfim. Mostra uma certa serenidade para algum quev um esqueleto vivo. Ele o pega e se vai. A partir da, Marfim, almde no ver nada, tambm nada ouve...

    Parte II #9

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Marfim abre os olhos e, aos poucos, v o cu, as nuvens.Ergue-se para ver um homem fardado na sua frente, ento entrervores.

    - Calma. No se preocupe. Estou do seu lado. Seu deus faloucomigo. Nem sei como pude acreditar em outro deus, mas c estou. Evou te ajudar. Voc foi acidentalmente o responsvel pelas mortes deuns dias atrs, no foi? - Marfim responde com a cabea. - Eu possotentar ajud-lo para que no cometa mais esse erro. Posso tentardescobrir onde haver crimes e dizer a voc. O que acha?

    - Bom. Voc, por acaso, tem alguma "bola de cristal"?- No, mas posso tentar conseguir alguns informantes. Como

    voc foi ladro, deve entender do que estou falando.- Kin-R tambm lhe disse isso?- Disse.- Bom. O que posso fazer? Aceito tua proposta, mas... e como

    entrars em contato comigo?- Onde voc vive?- Kin-R no lhe contou isso?- No.- Eu passo todo o dia e parte da noite sob as guas.- Complicou um pouco, mas daremos um jeito. Tenho que ir,

    tarde. Me encontre amanh aqui, ao amanhecer, certo?- Tudo bem, mas... Como chegarei ao mar?- O mar ali. s seguir pela lagoa. - Ele aponta para um lado

    e se vai.Marfim se vira para o lugar indicado pelo policial e segue. Ele

    anda, sendo coberto pelas guas. Anda por bastante tempo. Anda eagradece a Kin-R por ter lhe enviado outro guia, pois sem ele seriamuito mais difcil cumprir sua promessa.

    Amanhece o dia: alguns raios de luz chegam a Marfim. Ele se ergue esegue em direo terra. Chega ao local de ontem.

    Chegando l, Marfim encontra o tira em p, a esperar.- Isso so horas?- So.- Est tarde, por isso procurarei ser breve. Depois de pensar um

    pouco sobre as nossas futuras comunicaes, cheguei conclusobvia: nos encontramos aqui, todas as manhs, por essa mesma hora,que acha?

    - Bom. Pode ser assim. Alguma novidade?- No, nenhuma.- Ento, at amanh.- At. E tome cuidado.Marfim Cobra segue por algum tempo. Em passos lentos e

    concentrados, sem perceber os poucos olhos que o fitam. Chega aomar, ao seu lugar de descanso. Agora ele esperar as horas maisdesertas da noite para agir.

    A hora chegou. tarde da noite. Marfim se levanta e segue emdireo terra firme. A praia est deserta. Ele se vai para mais umanoite de trabalho.

    Marfim est agora andando por uma rua desconhecida, devrios pontos comerciais e um reduzido trfego de automveis.Marfim Cobra anda pela calada. No h mais ningum nas ruas aessa altura e um vulto coberto de panos andando sozinho por uma rua

    deserta realmente chama a ateno de qualquer um. Isso inclui umaviatura policial que acaba de passar por aqui. No se contacta acentral por mendigos, nem se carrega armas. Quanto ao contato, tudobem, mas quantos s armas... As armas deveriam estar carregadas,no pelo mendigo, mas por precauo, para uma reao mais rpida.

    - Ei, voc... - Fala o mais prximo de Marfim, os dois j forada viatura, vindo em sua direo. - Pare.

    "No tenho porque correr, posso derrot-los facilmente." -Pensa Marfim. - "Mas no posso ferir inocentes. O que farei ento?Tenho que pensar rpido, eles esto se aproximando. O que farei?"

    - Ateno! Todas as viaturas disponveis. Assalto no Shopping.Dirijam-se para l imediatamente." - O rdio avisa.

    Os dois voltam apressados, entram no carro, ligam a sirene e sevo.

    "Salvo por pouco." - pensa Marfim. - "Mas o que ser isso?Shopping? E onde fica? Seja o que for parece ficar longe daqui, poiso carro est com pressa, e se distanciando. Mas espere! Se toda afora policial vai pra l, como fica o litoral? melhor me apressar eir ver como esto as praias."

    Marfim corre pelas ruas. Seu destino: o litoral. Seu punhal empunho. Se seu corpo fosse visitado por ciclos sangneos, poderiadizer que estariam circulando mais rpido, quentes, com a iminnciade uma nova batalha. Aps bastantes passos, Marfim Cobra chega aolocal e, para sua surpresa, no encontra nada de estranho. Pistafalsa. ...ser? Minutos depois de chegar, nosso esqueltico heri ouveum rudo de automvel. Ergue-se prontamente. O carro branco correveloz. Nele, inscries: a Imprensa. Eles viram e somem de vista.Parece que o caso l mesmo grave. Mas, se for at l, ser queconseguir chegar em tempo? Essa foi a pergunta que ecoou namente de Marfim. A deciso foi a que lhe pareceu mais lgica:melhor perder a viagem do que sequer tentar.

    Segue em direo ao outro lado da cidade. Mas tarde! E,alm do mais, deve haver muitos l. Melhor voltar e se ocultar nasguas salgadas. Ele volta e se esconde pouco antes do nascer do Sol.Melhor deixar para agir amanh. Talvez seja uma noite melhor.

    "Que memria a minha... Esqueci-me de contactar aquelepolicial hoje de manh. No tem problema. A noite espera oscriminosos. E adivinha quem tambm o faz..."

    Mais uma noite em Macei. Mais um turno de trabalho dovigilante Marfim Cobra, ansioso por quitar sua dvida com o deusKin-R. Caminhando por ruas desertas e sombrias, o bizarro paladinofinalmente encontra algo que parea ilegal. Marfim v homensarmados passarem discretamente at um carro. Eles entram e partemantes que o enviado de Kin-R possa agir.

    "Hora da caa!" Marfim corre perseguindo o carro. Osviajantes parecem temer sua presena. Suas faces expressam terror. quando o vento, os movimentos do corpo e a velocidade fazem ocapuz de Marfim Cobra cair. O que ocorre ento chega a ser cmico.Os provveis assaltantes simplesmente entram em pnico ao veremquem os persegue. O motorista perde o controle, por pouco escapa doprimeiro poste, mas fica no segundo. Praticamente todos sofrem oimpacto despreparados, de modo que, no mnimo, perdem aconscincia.

    "Se agora s precisam olhar pra mim, daqui a alguns dias novou precisar nem sair do mar para completar minha misso." Pensa,sem desconfiar que vtima do olhar frio e preciso de uma trmulacmera na janela de um prdio. No mais, a noite transcorre semproblemas.

    - Marfim Cobra? Por que no veio ontem?

    Parte II #10

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    - No pude, pois no me lembrei.- T. No perdeu muito mesmo. Ontem e hoje no trago

    nenhuma notcia. Ento, at amanh.- At.E Marfim volta para o mar, pois mais um dia vem e um

    vigilante deve esperar a hora certa de agir.O manto negro da noite cobre o estado. Como em todas as

    noites, Marfim se ergue do mar e caminha em direo terra. Comoem todas as noites, Marfim segue com uma vontade imensa depromover a justia. Como em todas as noites, ele espera vencer.

    Seguindo por ruas desertas, seguindo seus instintos, MarfimCobra procura um crime para combater, pontos positivos para quitarsua dvida com um deus. Passa por uma rua deserta, semiluminao... "Passos! Sim, posso ouv-los. H algo errado aqui."

    - Quem est a?- Os carrascos que selaro sua existncia. - Uma voz abafada

    vem de trs.Marfim Cobra, ao se virar, v-se diante de cinco homens, com

    coletes e capacetes. Eles trazem armas estranhas. Alguns delesempunham armas usadas em jogos de guerra. Aquelas armas de tinta.Todos usam microfones nos capacetes e culos especiais. O do meioretira o capacete.

    - Voc?- Sim, eu. E voc pagar caro pela morte dos meus amigos. -

    Ele um dos sobreviventes do antigo grupo que usava armas de fogoe de gua. ...benta. - Voc no passar de hoje. Ataquem!

    Todos disparam. Marfim tenta se desviar, mas no consegue semover mais rpido que os projteis. Projteis que, ao impacto,liberam seu contedo para todos os lados: gua benta. Marfim Cobracai de joelhos. Ser o fim de seus dias?

    Um trovo ecoa na cidade. Para a maior parte da populao,um trovo normal. Para outros, esse trovo marca o incio de umanova era. E esses no ficam seguros diante do que sentem.

    Um esprito visto por milionsimo de segundo nas ruas daInglaterra. Ningum consegue tirar fotos, mas os que vem se

    surpreendem. Claro, com o tempo se esquecero desse desagradvelfato, ou se deixaro levar por teorias malucas e inconsistentes.

    Marinheiros juram ter visto uma sereia passar sob suasembarcaes. No h provas. No h crena. Mesmo contada com amaior das convices, ainda tida como mais uma "histria depescador".

    "Sempre tive a iniciativa perante os outros deuses. Fui oprimeiro a vir a este mundo. E o primeiro a ser esquecido. Se j estouaqui, certamente logo os outros chegaro. Espero ter tido um bomcomeo com Marfim Cobra. E espero que ele esteja preparado, poislogo seus problemas deixaro de ser um mero frasco de gua epassaro a propores maiores. Logo viro os outros deuses, osoutros seres, e a magia. Tudo ser contra Marfim Cobra. Tudo queestiver errado. E suas falhas podem ser fatais. Como isso aconteceu?

    A magia uma forma etrea de energia, que pode serconsumida e convertida. Ela parece ter conscincia prpria, vagandode planeta em planeta, conforme seus caprichos. Deuses so aquelesque encontraram o centro da aura mgica, sendo por ela assimilados.Ns consumimos esta energia e somos capazes de coisasextraordinrias. Infelizmente, nos tornamos tambm etreos, mas issono problema. Podemos assumir forma humana, como avatares.Esse processo exaustivo e, alm de requerer uma quantidadesingular de energia, costuma nos enfraquecer por alguns sculos. Masvoltemos ao assunto inicial: magia.

    Em mundos onde vivem seres inteligentes ao lado da magia hos magos, que tm tendncia ao uso da magia, precisando apenasconhecer palavras mgicas e gestos para us-la. Aqui na Terratambm existem essas pessoas. hereditrio e, mesmo que a magiano exista, est no sangue.

    Eu, como j disse, sempre agi antes dos outros. Sempreapareo e desapareo primeiro. Ento, uma vez de volta Terra,imaginei que, em pouco tempo, a magia retornaria. Ela o fez. Nesteexato momento, ela retorna como um relmpago a este planeta queesqueceu seu uso. A essa altura ela deve estar se instalando no centrodo planeta. E eu j no devo estar s.

    Espero apenas que Marfim Cobra esteja preparado: ele termuitos perigos pela frente."

    -- Kin-R

    Parte II #11

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Parte IIIParte III

    Segunda-feira, 13 de abril. Quem esperava que acontecimentos estranhos dominassem s as sextas-feiras acaba de sercontrariado. madrugada, e isso tudo.

    L se encontra Marfim Cobra, quase sem fora, cado ao cho. guabenta queima os mortos que se atrevem a voltar vida. Que importasuas causas? Sua existncia um desafio s leis divinas, ao natural, ecomo tal deve ser combatida. A dor insuportvel. Marfim v emsua frente apenas o lder deles, apontando uma arma para seu crnio,preparado para um tiro de misericrdia.

    - Aoh Eker Joh! - um grito ecoa na noite.Eis que diante dos guerreiros armados, materializa-se uma

    esttua. De humano. O grupo pra, espantado.A esttua abre os olhos e prepara as garras. Com um sorriso

    sdico salta sobre alguns deles.- Calma, amigo. A cavalaria chegou! - o grito vem dos cus.

    Os homens nem se atrevem a olhar para cima... Se olhassem, nogostariam de saber que esto sendo atacados por uma armaduravoadora empunhando uma espada em chamas.

    Dois homens perdem a cabea, literalmente, na espadaflamejante da armadura alada. Os outros, no. Dois deles no perdema cabea, mas um brao, uma perna, nas garras da esttua.

    - Parados, sejam o que for!O lder do pequeno exrcito (alis, agora um exrcito de um

    homem) grita, enrgico, enquanto aponta a arma para a cabea deMarfim, ainda no cho.

    - Oh-oh! Isso t com cara de problema. - fala a armadura,pousando no solo. Sua espada atinge o estado que se supe ser onormal, sem chamas.

    "As dores. No consigo resistir. So mais fortes que eu. Tereiouvido gritos. Algo acontece. No sei o que , mas no parece nadabom." Pensa o paladino, inconsciente.

    Um barulho metlico ouvido. Uma arma voa, girando no ar,e cai no asfalto. Todos a acompanham visualmente.

    - Mais um! - grita o lder, ao se virar e ver, prximo a ele,"mais um".

    - , mais um. - responde um vulto em cotas de malha (aquelacom ligas de metal) e um elmo arredondado com aspecto de coisasaquticas (lembra Atlntida), enquanto gira um tridente majestoso noar. E grita. - Ketitaie Memi!

    Com a ponta do tridente, espeta o estmago protegido daqueleque agredia Marfim Cobra. Um disparo eltrico gera uma luz brancae o arremessa para longe.

    - E voc menos um, certo?- Definitivamente, quos. - responde o voador, a uma

    pergunta no feita exatamente a ele. - E esse o quarto de ns?- Creio que sim. - responde quos a uma pergunta feita

    exatamente a ele. - Certamente, Corvo, esse que temos diante de ns,cado, a quarta Unidade de Justia de Kin-R.

    - Ento, o que estamos esperando? Levemos nosso irmo maisnovo a um local seguro. - sugere Corvo, o voador, j se dirigindo aMarfim Cobra, quando interrompido.

    - O que voc chama de lugar seguro? - quos.- Que tal uma ilha? Entre rvores? Quando estava voando, vi

    algo assim naquela direo...- Parece uma boa opo. Vamos.Eles seguem. Corvo, quos e, levando Marfim nos braos, o

    dono de um humor de pedra, Lunar. Aps algum tempo decaminhada eles chegam ao local desejado.

    Marfim Cobra abre os olhos. V diante de si uma esttua branca deum homem de musculatura mdia, com mantos antigos. Tudo depedra branca, como uma esttua qualquer.

    - Onde estou? - pergunta Marfim, enquanto se ergue. Umapergunta que soa mais como um desabafo, visto que no h ningumque a responda. Isso o que Marfim pensava, afinal h "s umaesttua". Ele no viu Lunar se mover.

    J dia. Ele sabe que deveria estar no mar a essa hora. E quedeveria ter se encontrado com o policial. Mas o local parece seguro,entre rvores e, alm do mais...

    - Na lagoa. - responde Lunar, aps Marfim virar as costas.- Quem est a?Ele se vira de volta bruscamente com o punhal em punho, em

    ataque corta o ar. O punhal deixa um rastro verde, da mesma cor dasserpentes que tm nele sua origem. De energia. Quase alcanandoLunar, que saltou para trs, evitando o golpe.

    - Quem voc?- Calma, irmo. No faa isso. - Uma voz vem do alto.- Mas quem... - Marfim v o Corvo parado no ar, logo acima

    de si. - Como assim, irmos? - pergunta, recuando um passo e sepreparando para um combate.

    - Irmo, u! No somos todos filhos de Kin-R? Ou no sabia?- Quem exatamente so vocs? - pergunta o esqueltico heri,

    mais preocupado, e empunhando sua arma com mais fora.- No sabe? - pergunta o Corvo. - Esperava que no nos

    conhecesse bem, mas no que nos desconhecesse totalmente. Nssomos Unidades de Justia, assim como voc. Convertidos. Eu sou oCorvo, aquele Lunar e esse quos.

    Ele aponta para Marfim que, virando-se rapidamente, v aUnidade que atua no mar.

    - Como podem provar que esto do meu lado?- Voc acordou vivo. Voc est vivo... Ainda est... Agora

    tambm... - responde o Corvo.- Salvamos sua pele de seus inimigos e o trouxemos para c. -

    responde, mais claramente, quos. - Se fssemos seus inimigos,acha que teramos feito isso?

    - Supondo-se que so quem dizem, o que pretendem?- Visto que at agora nosso glorioso deus no nos indicou

    nossas atuais reas de atuao, pretendemos ficar por aqui mesmo. -responde quos. - Ao menos por enquanto.

    - Quando lutamos? - pergunta o at ento calado Lunar.- Que tal agora? - sugere o Corvo.

    Parte III #12

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    - No podemos. - responde Marfim Cobra, contrariando osdois. - No podemos porque provocaramos medo na populao.

    - Faz sentido. Como certamente esse mundo no v magia hsculos, lgico o medo. - quos segue em uma determinadadireo. - melhor nos ocultarmos.

    - Aonde voc vai? - pergunta Marfim Cobra.- Ao mar.- Eu ficarei voando at a noite. - responde o Corvo. - meio

    montono, mas v l, n?Lunar gesticula que ficar naquele mesmo lugar onde estava.- Espere! - grita Marfim. - Ao mar? Voc fica submerso nas

    praias?- ...- E eu que pensei que minha idia fosse original...- Ento venha. ...ainda no me disse seu nome.- Marfim Cobra. Alis, por que s eu aqui tenho dois nomes?- Como se chamava quando vivo?- Cobra.- Est explicado, no tem nada de estranho. Ento vamos,

    Marfim Cobra, antes que cheguem os homens e se assustem comnossa presena. Voc no quer isso, certo?

    - Certo, vamos.Cada um faz o que pode para permanecer sem ser visto

    durante o dia. O dia transcorre normalmente, at chegar a noite...

    - Ento aquele raio os trouxe...- Tambm. Mas voc deve se lembrar, Marfim Cobra, de que a

    Terra era habitada pela magia antigamente. Com certeza voc deveter notado que hoje em dia ela no existe.

    - Certo.- No existia at aquele raio. O raio nada mais foi do que o

    sinal de seu retorno.- Ah! Ento a esto vocs! - o Corvo se aproxima da praia,

    voando. Sendo seguido, em terra, por Lunar.- Vamos comear? - pergunta quos.Os quatro partem por ruas desertas, guiados por Marfim

    Cobra, sem resultado.- Corvo, sobrevoe o lugar e, quando encontrar algo, nos

    comunique. - ordena quos.- Falou! - exclama o Corvo, pouco antes de sair voando

    velozmente em uma direo qualquer.Depois de algum tempo de caminhada, quos pergunta a

    Marfim:- sempre assim, tudo to tranqilo?- No costumava ser.A rua est suja, papis e plsticos fazem a poro limpa.

    Quando passam por um trecho da calada, alguma coisa chama aateno de Marfim Cobra. Um jornal, ou melhor, uma folha dejornal. Nela, uma foto. Uma foto das Unidades de Justia.

    - Esperem! - ordena ele, ento.- O que foi?- Vejam s isso.- Mas... Somos ns!

    - Deixem-me ler o contedo. "Estamos em uma difcilsituao. No ltimo sbado, como do conhecimento de todos, amaioria dos telejornais mostrou imagens do que seriam um grgula,um esqueleto e dois trajes animados. Isso jamais seria mostrado emrede nacional sem os exames que comprovassem sua veracidade.Estamos em uma posio realmente difcil. O que devemos fazer?Acreditar que essas aberraes existem e percorrem nossas ruas noite ou que no passam de fantasias criadas por uma grandeempresa de efeitos especiais? mais fcil crer na segunda verso,que se trate de simples truques cinematogrficos. Pois continuo coma mesma opinio que tinha na poca do 'Chupa-Cabras'. Tudo issono deve passar de golpes publicitrios. Isso lembra tambm a pocaem que se espalharam pela Internet boatos que culminaram nolanamento de um filme, como em..." - A leitura do jornal porMarfim interrompida por um grito.

    - O Corvo! - quos reconhece a voz de seu "irmo", poucoantes de correr em direo ao grito. - Sabia que no devia t-loenviado antes de ns. Ele sempre acha que pode resolver tudosozinho!

    Marfim larga o jornal e corre, acompanhando Lunar e quos,j alguns metros na frente. Aps algumas poucas esquinas, eleschegam origem do grito.

    - Me deixa em paz! - grita um humano, no momento em que oCorvo tenta atac-lo, com um vo rasante.

    Misteriosamente, o heri voador arremessado para o lado,batendo em um edifcio, rachando parte da parede e fazendo cairalgumas pedras. Arremessado por uma fora invisvel.

    - Aaahhh! Vocs a, vo ficar s vendo minha desgraa? - gritao Corvo, aps ver que os outros trs justiceiros de Kin-R j estavampresentes.

    Lunar parte rapidamente com as garras em posio de ataque,enquanto quos brande seu tridente partindo logo em seguida. MasMarfim...

    - O que ele fez? - pergunta, um pouco desconfiado.- Matou, u! No est vendo aquele corpo ali?Marfim se volta para a direo indicada pelo Corvo e v um

    corpo, realmente. E est aparentemente morto.Dois barulhos de pancadas consecutivos so ouvidos. Marfim

    Cobra e Corvo se viram para o combate. Lunar e quos esto nocho, antes de chegarem perto do jovem alvo.

    - Nossa vez! - diz o Corvo e, sem confirmar que Marfimtambm vai, segue em direo ao intocvel.

    - J disse pra me deixar em paz! - grita ele, enquanto o Corvo arremessado para muito longe.

    Marfim no parece dar a devida ateno ao que acontece. Eleest examinando o corpo do morto. Ele se vestia com cala jeansazul e camisa branca e tinha prximo uma faca. Mais afastado, h umrevlver.

    - Esperem! - grita Marfim Cobra. - Vocs j perguntaram porque ele o matou?

    - No. - afirma Corvo, retornando do lugar da queda. - Por quevoc o matou?

    - Ele tentou me assaltar. Me deixem em paz! - responde egrita, arremessando o Corvo para o lado sem sequer encostar nele umdedo, e fugindo em seguida. quos e Lunar se preparam parapersegu-lo.

    - Deixem-no ir. Foi em defesa prpria.De repente, ouve-se sons de sirene. A polcia est chegando,

    junto com a imprensa. Eles nem perceberam, mas ao seu redor, desde

    Parte III #13

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    o primeiro grito do Corvo, formou-se um pequeno pblico. Deprincpio, colocavam os rostos para fora, curiosos, mas com medo.Agora, uns impulsivos arriscam at um grito satisfeito com aconcluso de Marfim.

    Ao notar a aproximao dos automveis, as trs Unidades deJustia correm. O Corvo j no mais visto. Os carros perseguem osfugitivos por terra. Na primeira encruzilhada...

    - Vamos nos dividir!Ele segue em frente, enquanto Marfim toma a direita e Lunar a

    esquerda. A polcia segue quos. Ele o nico que, visivelmentefalando, poderia ocultar um humano. Afinal, quem seria louco deperseguir uma esttua ou um esqueleto?

    - Vamos atrs do esqueleto! - grita eufrico um reprter aomotorista.

    - No adianta. A matria do sculo nossa! - grita o reprterdo outro carro, do concorrente ao anterior. E se vira para o motorista.- Vamos atrs da esttua. Ou ele nosso ou voc est demitido.

    Os trs correm, agora separados.Lunar no consegue esconder a raiva. A ira por estar sendo

    perseguido. Ele corre, pois sabe que lutar seria pior, j que osperseguidores no so criminosos... ou so? Na dvida, melhortomar a atitude que, caso errada, prejudique menos. Em outraspalavras, melhor continuar correndo. E ele corre, corre e...

    - Pula! - ouve a voz do Corvo vindo de cima. Claro que eleobedece. Ao faz-lo, Corvo o pega pelos braos e, com esforo, sobelentamente. - Voc devia perder uns quilos. Lascar essa gordura...Voc pesa!!

    O carro freia e, antes de desacelerar totalmente, o reprter oabandona, olhando para cima, vendo apenas dois pontos minsculosno cu.

    - Maldio! - grita, socando o ar. Depois de algum tempo,volta para o veculo. - E a, pegou alguma coisa?

    - Um pouco falho, o resgate. - responde o fotgrafo.- Tudo bem, tem que servir.Enquanto isso, no outro extremo da rua, Marfim Cobra corre

    em passos longos. O automvel no abandona a caa. Emdeterminado momento, cansado disso tudo, o heri pra, volta-separa o carro, segura seu punhal com o gume para baixo e grita.

    - Inchinmy Ejoda!O punhal das serpentes, rodeado por energia verde, lana dois

    relmpagos dessa mesma energia no cho, prximo a Marfim. Cadaum deles forma uma serpente verde de energia. Mas no parece igual serpente padro que formava antes. Parece mais densa.

    O carro pra, diante disso. O fotgrafo sai, e anda um poucotirando fotos e se aproximando. Mas est distante. Distante osuficiente para no representar uma ameaa a Marfim.

    - Ataquem! - grita. Ele sabe que no pode atacar inocentes,que est em dvida com Kin-R.

    As serpentes partem velozmente e atacam. ...os pneus. Semperseguidores, Marfim segue deixando aos reprteres apenasalgumas fotos das serpentes de energia.

    - Ele est indo pro mar! - grita um policial, preparando suapistola. - Temos que peg-lo logo.

    Os outros tambm sacam suas armas, dentro do carro. Estomuito prximos do oceano.

    quos corre. Seus ps j pisam a gua rasa. Ele salta. Ospoliciais atiram. Um disparo acerta o tridente. Os outros erram.quos cai em uma parte mais funda e tomado pelas guas salgadas.

    Os policiais perderam a nica chance de acert-lo. Contrariados,aps olharem o mar esperanosos pela volta da caa, eles se retiramsem que cumpram sua misso. Pois j tarde.

    cedo da noite. As Unidades poderiam atuar na cidade poralgumas horas mais, porm, como h coisas que no podem serprevistas ou evitadas, l esto eles, separados, impedidos de agir.Boa parte da cidade no mais conseguir dormir, esperando a chancede ver os seres estranhos de que tanto falam.

    Marfim Cobra no voltou ao mar como de costume. Foi aoponto de encontro esperar pelo policial, at pouco tempo atrs seunico aliado. Com o tempo ele aparece.

    - Ainda bem que voc est aqui. Tenho novidades.- O qu?- Uma seita est ameaando a ordem. Cultuam um deus...- Sabe qual?- um com "f". No lembro bem...- No Fimiq, ?- Isso!- Diga-me imediatamente onde esto. O problema mais grave

    do que voc imaginava.O policial transmite todas as informaes que tem e Marfim

    parte em direo ao mar. Pretende encontrar quos e falar sobre operigo enorme que os cerca. Ele sabe quem Fimiq. Conhece-o osuficiente para saber que deve reunir as unidades o quanto antes.Fimiq prega a destruio dos traos polticos, o fim do comrcio, ainexistncia de qualquer trao que sirva para estabilizar as relaeshumanas. algo terrvel. Marfim se lembra disso. Mesmo para umladro isso prejudicial. A verdade que Fimiq odeia os humanos eusa essa estratgia: seus sacerdotes provocam o caos e, quando hum grande foco de desordem, ele vem Terra destruir os homenspessoalmente e d poder ao mal que j se foi. Isso dito nas lendas,pelo menos nas lendas dos tempos de Marfim.

    - Resolver isso primordial, mas... E quanto aos policiais ejornalistas que certamente nos esperam? - Pergunta quos. J noitee eles discutem o que fazer.

    - J sei. Tive uma idia. - continua ele. - Corvo atrai a atenode todos no outro lado da cidade, enquanto partimos ao encontro dosmalditos seguidores de Fimiq.

    - Boa idia. Que tal us-la agora?- exatamente o que faremos.Aps contactar e reunir todo o grupo, ele ordena que o Corvo

    chame a ateno. O que far com facilidade, com certeza. Enquantoisso, os outros vo em busca da seita.

    Enquanto o Corvo exibe seus poderes aos policiais e imprensa, ao outro lado da cidade vai o grupo formado pelos trsrestantes. Aps fazer algumas curvas e, principalmente, correrbastante, chegam ao local onde se espera que seja o centro dosFimiqs: um terreno protegido apenas por um muro.

    Um pontap faz a porta de madeira apodrecida em milpedaos. quos, Marfim e Lunar entram. Eles vem apenas umterreno escuro, irradiando morte de suas gramas e matos. No centroh um semi-deserto circular. Eles se aproximam.

    Um brao com uma adaga surge repentinamente atrs deMarfim, vindo das sombras. Sem se intimidar, Marfim, por puroreflexo, aplica uma cotovelada no ingnuo inimigo. Mais doisaparecem.

    - Inchinmy Ejoda! - Grita Marfim Cobra, com seu punhalfirmemente seguro. O fenmeno se repete. O punhal cria, em tornode seu gume, uma energia verde, lembrando fogo. Ento, dispara

    Parte III #14

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    dois relmpagos: um direita e outro esquerda de Marfim. Cadarelmpago cria uma serpente de pura energia. Elas imediatamenteatacam os dois vultos que mal abandonaram as sombras. Elesqueimam aps sofrerem o ataque. Queimam em chamas verdes. Issojamais aconteceu antes com humanos. Ou o poder de Marfim Cobrafoi brutalmente amplificado, ou seus inimigos no so humanos.

    Um brao erguendo uma adaga surge de trs de Lunar. Marfimv e comea a concentrar energia. Energia para seu poderoso golpe. -Lunar percebe e se vira. - Seus braos fascam ferozmente. - Lunararranca os braos do inimigo com suas afiadas garras. - Ele ergue obrao e aponta para o inimigo. - Lunar arranca agora a cabea doseguidor de Fimiq. - E dispara. Uma majestosa serpente branca, deenergia, voa rapidamente ao encontro do corpo sem cabea e braos,iluminando todo o caminho com a luz ofuscante de um raio. Elaenvolve totalmente o corpo morto do alvo. O corpo encasulado cai,mas antes de tocar o solo, some.

    - Por que voc fez isso? - pergunta quos.- No era possvel cancelar o ataque. - responde Marfim, mas

    logo muda de assunto. - Parece que chegamos tarde.- ...ou cedo. - quos. - S haviam trs aqui. Eles saram e os

    trs eram s vigias, zumbis.- O qu?- Eles so zumbis.- Tem certeza?- Claro que tenho. Eu sei muito bem quando enfrento um.- Zumbis, ento...

    Eles voltam para as sombras, pois sabem que a essa altura todos jdevem estar a sua procura. E o Corvo? Que ter acontecido com ele?Os trs retornam, mas Marfim passa no ponto de encontro com ohumano com o qual se comunica periodicamente. E eles seencontram pela manh.

    - Ol! Tem novidades? Eu tenho.- A novidade que lutamos contra trs corpos animados pela

    maldita praga de Fimiq.- A minha notcia mais quente, mas, juntando com a sua, vai

    dar uma dor de cabea... Bom, andei pesquisando sobre esse talFimiq e descobri trs outras cidades onde existem possveisseguidores seus.

    - Como? Ataque mltiplo?- o que parece. Uma delas Tquio. No sei onde ficam,

    mas j sabotaram algumas coisas por l, provocando algumas mortes.Nos Estados Unidos, descobri que h um grupo terrorista conhecidocomo Fimiq. Atua em New York e Los Angeles, mas tambm no seionde ficam. A outra fica na Alemanha. uma cidade pequena, masno me lembro do nome. Acho que anotei em algum lugar...

    - Obrigado pela informao. J o bastante. Sinto ter que ir,mas bem pior do que possa imaginar. At mais.

    - At.Marfim Cobra corre para as guas frias. Ele sabe o que est

    para acontecer. No so s ataques. Esta apenas a ponta do iceberg.No anoitecer seguinte, na reunio da equipe, passa as novidades.

    - o primeiro sinal para nossa partida. - Comenta quos.- Como? - Marfim.- Devemos partir.- Mas, o primeiro. No viro outros?- Os outros serviro para nos levar ao nosso destino. Esperam-

    nos no caminho.- Bom, e quando vo?- Agora. - quos corre de volta ao mar, enquanto o Corvo

    levanta vo e Lunar corre em passos largos.- Adeus. - Fala Marfim Cobra. "Espero que a gente se encontre

    de novo algum dia."Marfim segue de novo sozinho, lutando contra as injustias e

    fugindo da imprensa. Exceto pela persistncia da imprensa, todas asnoites se tornam iguais. Como moedas de um mesmo valor: algumasmais frias, algumas mais midas, mas todas iguais.

    Parte III #15

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    Parte IVParte IV

    Quarta-feira, 13 de maio. As datas mais uma vez lembram que a fora est nos nmeros. Para Marfim Cobra, pareces mais uma noite, mas nem tudo acontece como se espera...

    Marfim Cobra j acordou. J fez suas aes de hoje e agora volta aomar. Claro que no volta s. Atrs dele vm carros da imprensa. Eum helicptero, s para variar. O que fazer? O de sempre. Despistartodos e correr para o mar. Impossvel despistar carros e umhelicptero em Macei? Bem, voc deve estar se esquecendo de queMacei cercada por gua: praia de todos os lados, alm das lagoas...Alm do que, Marfim Cobra fora um ladro experiente, vivendo emtempos difceis. Acho que impossvel seria exagero.

    Contrariando mais uma vez todas as expectativas dosreprteres e policiais, Marfim consegue retornar ao grande oceanoatlntico. Mas algum o observa. Cada movimento capturado.Marfim cumpriu sua misso, por hoje. Quanto ao amanh, ningumpode garantir.

    Mais uma noite chega. Mais um dia tedioso acabou e Marfim Cobrasai do oceano. Ele no poderia esconder a verdade para sempre. Nomomento em que coloca o rosto sobre a gua, v uma multidoenorme por ali. "J me descobriram." Alguns o vem e corremapavorados, outros procuram ao redor at encontr-lo e fugiremcomo os primeiros. Alguns ficam, mesmo sabendo quem est vindo.Ficam por excesso de medo ou coragem. Mas alguns, mais do queisso, se preparam para uma batalha. Uma batalha que Marfim noesperava, nem queria. Mas as armas j apontam para ele.

    Marfim no quer lutar. Pe seu punhal com o gume para baixoe grita: "Inchinmy Ejoda!" E o efeito j visto se repete. Ele no querlutar, isso verdade. Invocou o poder do punhal apenas na tentativade assust-los. E as serpentes energticas partem furiosas ao meio dogrupo armado. Alguns j fogem, em pnico. Como que por reaoem cadeia, mais pessoas vo embora, de modo que as serpentestocam a gua quando h apenas dois na resistncia. Aps algunsdisparos ineficazes, eles se olham e partem em disparada. Tudocalmo novamente. Ou melhor, quase tudo. Um helicptero sobrevoaa rea - talvez o mesmo de ontem. E ainda h pessoas na praia. Ogrupo armado se foi, mas h alguns curiosos e amedrontados. Marfimarranca os trajes j to danificados pela gua salina e sai. As pessoascorrem desesperadas e at o helicptero perde alguma altitude antesde voar para longe. Caminho livre, finalmente. Certas vezes precisoapelar. Marfim segue em direo cidade. "J me descobriram. Jsabem onde fico durante o dia, j sabem quem sou. Ser difcil.Daqui pra frente cumprir minha misso ser bem mais difcil..."Marfim chega ao solo da praia. Mas h algo errado, e ele sente isso.Olhando mais frente percebe melhor o problema.

    Um corpo na praia, rasgado. Em pedaos. "Ser que elespensam que fui eu quem fez esse absurdo? Isso talvez explicasse umincmodo to grande. Mas, e quem ter feito algo to hediondo?Membros arrancados do tronco, assim como a cabea. O peito trazcortes horrveis, parecem feitos por garras de seres que nunca videsde meu regresso ao mundo. Eu uso uma adaga... Ser que elespensam mesmo que fui eu?" Marfim Cobra segue pelas ruas deMacei, procurando criminosos, mas encontra apenas um caso, deassalto na rua, e isso logo no comeo de sua jornada da noite. Semmais o que fazer, Marfim retorna ao oceano atlntico. E o assunto dehoje no sai de sua cabea. Marfim volta ao mar. V-se MarfimCobra entrando na gua at que sua cabea esqueltica sejatotalmente coberta. Cena que no passa desapercebida por olhosatentos a qualquer movimento do paladino de Kin-R.

    E assim, mais uma noite d lugar ao dia. E do dia, um dianormal, brota nova noite...

    Marfim se prepara pra abandonar as guas salgadas. Kin-R oencontrou ao dia. Marfim recebeu um sinal. Uma direo, umsentido. Indcios de que a praga de Fimiq ainda no chegou ao fim.Marfim Cobra sai da gua e encontra o lugar totalmente deserto. Noh pessoas, nem muitas luzes acesas. como se nada houvesseacontecido. Marfim no acredita muito no que presencia, mas vai emfrente...

    Ele caminha por algumas ruas. Repentinamente, um click. EMarfim atingido por um feixe de gua... E ele sente seu corpo"formigar". Um pequeno incmodo.

    - Ele no caiu! Mais gua benta! - algum grita de algum lugar."gua benta!?!" Claro que de se estranhar. Marfim quase

    morreu por causa deste fino e eficaz fluido, em outras horas. Mas noh tempo para auto-questionamentos. Eles mandam mais guabenta...

    - Parem a gua benta! No est funcionando! Plano B!"Plano B?!?" Marfim Cobra pensa e, antes que possa pensar

    em qualquer outra coisa a mais, atingido por metralhadoras.Certamente so balas de prata... Quem inventou essa? Parece quepegou mesmo.

    - Parem as metralhadoras! Plano C! - os gritos vm de trs deum caminho estacionado a alguns metros. As balas e o jato, doprdio em frente.

    "Chega por hoje!" Marfim rola no cho, para a direita, sem seimportar com o que viria do "plano C".

    - Inchinmy Ejoda!- Qu!?!Em segundos as serpentes alcanam o prdio e fazem seu

    estrago. Pode-se ouvir gritos da calada onde Marfim est. Ocaminho acelera e entra na cidade rapidamente. Fim da batalha.Mais uma vitria de Marfim Cobra. Mas a noite ainda no acabou.H o lugar indicado. Ainda h Fimiq. E Marfim Cobra sabe que, seele e as outras unidades de justia no acabarem de uma vez portodas com a alegria de Fimiq, as conseqncias sero gravssimas.Marfim sabe como essa batalha importante. como combater umvrus isolado dentro de um organismo. Venc-lo fundamental. Sehouver outros, devem ser vencidos o mais rpido possvel. Umavitria quase insignificante, mas uma derrota pode ser fatal.

    Marfim percorre algumas ruas e..."Oh, no! No de novo..." Outro corpo encontrado nas

    mesmas condies que o de ontem. Marfim corre com mais pressa efria. Cr estar perto do criminoso. "Deve ser coisa dos malditosseguidores do maldito Fimiq." Chega ao lugar. Marfim tem certezadisso. Com o tempo, os sinais fluem com naturalidade em umseguidor constante desta forma de mensagens.

    " aqui." Uma rea abandonada. Bem no estilo Fimiq. Marfimouve barulhos dentro e se apressa. Abrir a porta? Pra qu? Elespodem fugir por ela. Marfim pula o muro rapidamente, prximo porta, e encontra um grupo de dez adolescentes sentados ao redor de

    Parte IV #16

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    uma fogueira, cortando os prprios pulsos."So eles. o ritual de converso."- Parem! - grita Marfim, enrgico, enquanto os integrantes do

    grupo se levantam surpresos. Marfim Cobra corre em direo a eles,com seu Punhal das Serpentes. Em alguns golpes rpidos, deixandoum belo rastro verde-luminoso, metade do grupo cai. "Se eles no seimportam em cortar os prprios pulsos, no devem se importar por euter cortado o resto. ...no." Dois golpes derrubam mais dois. "Umamorte feliz a ltima coisa que eu daria a esse lixo." Marfim aparaum basto, enquanto esviscera seu empunhador. "No" - um morrecom um golpe no pescoo - "ouviro" - e l se vai o ltimo deles -"nada!".

    Mais um trabalho concludo. Marfim se sente feliz por terrealizado mais uma vez algo to digno. "Mas, e quanto aos homensque morreram por eles? As pessoas ainda devem pensar que eu sou oculpado por suas mortes. Pelo que conheo sobre eles, mais mortesno resolveriam o caso, portanto est fora de cogitao entregar osverdadeiros culpados. melhor esquecer isso. Amanh, quando nohouver mais mortes, percebero que no foram mortos por mim. melhor ir embora e amanh ver o que acontece."

    E Marfim Cobra retorna ao lar, o oceano, tranqilo e sedentopor mais justia. Ele est feliz com tudo o que fez hoje, bem como osolhos que o observam e observaram por toda a noite.

    Marfim Cobra se ergue para mais uma noite. Sai do mar, espera queseja uma noite melhor. Mas nem sempre as coisas acontecem comose espera. Tudo parecia normal de novo, mas na praia havia um outrocorpo estraalhado. Dessa vez, um corpo feminino. O problema nofoi resolvido. Os discpulos de Fimiq so cruis, mas no eram eles.Um terceiro corpo transforma trs em treze. Sim, pois alm de apolcia achar que o culpado pelas trs mortes Marfim Cobra, h osdez corpos que foram realmente por ele eliminados. Tudo fica aindapior do que estava. Marfim anda, preocupado, at encontrar a rua emfrente. E nela, algum de p. Tem cabelos castanhos, usa roupas emtons de azul e ciano e traz duas armas nas mos. Est de cabea baixae olhos fechados, quando fala.

    - Sinto muito, amigo, mas terei que te matar. - Ele ergue acabea e abre os olhos. - Na verdade no sinto, esqueleto. Foi s paradeixar a cena mais dramtica.

    O estranho comea ento a atirar contra Marfim Cobra. Asbalas no o ferem, como nas outras vezes.

    - Sinto, "amigo", mas j morri uma vez e agora VOC a bolada vez.

    - Ora, o esqueleto fala!- Mais que isso, imbecil! - Marfim pe seu punhal com o gume

    voltado para baixo e grita. - Inchinmy Ejoda! - As duas serpentespartem como flechas em direo ao alvo.

    O alvo calmamente guarda as armas, ergue os dois braos e asserpentes se dissolvem no ar. Em seguida, empurra o brao direitopara a frente com violncia, como em um soco. Um raio parte eacerta Marfim Cobra.

    A Unidade de Justia impulsionada para trs.- Magia? Mas to cedo?- Eu aprendo rpido. - Diz o estranho, pouco antes de mais

    uma rajada de balas, mais uma vez inteis em Marfim.- Pelo que vejo isso vai demorar bem mais do que eu esperava.

    Deixe que me apresente. Sou Raio Azul, trabalho para o Governo.No precisa se apresentar, voc o assassino dos treze.

    - Ento, pensas como todos?

    - Exato, no sou cego. Agora, voltando a ns... - Dispara outroraio. Marfim sente uma dor pequena e jogado um pouco para trs,mas, como da outra vez, sem cair.

    Recuperado do choque, comea a correr em direo ao RaioAzul. Aproxima-se aos poucos, at que... Outro raio. Dessa vez,Marfim vai ao cho. Uma gargalhada satisfeita preenche o silncio.

    - Finalmente as coisas comeam a dar realmente certo.- Agora chega! - Marfim se levanta, corre e salta pouco antes

    de outro raio passar prximo ao cho. Marfim cai pronto para ogolpe, mas inesperadamente tocado e tomado por uma correnteeltrica. Uma descarga bem maior que a de um daqueles simplesraios. E o seguidor de Kin-R cai perante to imenso poder.

    "Ah... Agora chegou ao limite." Todo o seu corpo sseo preenchido por uma dor imensa. Com Marfim ainda no cho,tentando se erguer, o agressor eltrico o acerta com o cabo de suabizarra arma automtica. Marfim Cobra jogado para trs, caindo decostas na rua.

    - Miservel. - Ele revida com uma rasteira, ainda do cho. RaioAzulcai com uma forte dor na perna. Marfim se prepara para mais umgolpe, ergue o punhal e...

    - Aahhh... - Um grito vem de uma rua prxima. Marfim Cobraprontamente se pe de p e corre em direo ao grito, deixando seuadversrio jogado no cho.

    - Espere! Ai. - Com alguma dificuldade, Raio Azul se levanta,para sair, quase que mancando, logo atrs de Marfim Cobra.

    Algo est errado. Deve ser o verdadeiro assassino. Marfimcorre como um predador ao identificar a caa entre as folhagens.Com fria, chega ao fim da rua, de onde v mais um corpo naqueleestado. Parece um vigilante noturno, mas isso irrelevante. O maisimportante que um vulto passou, no momento da chegada deMarfim Cobra, no fim da rua, entrando em uma perpendicular a essa.Marfim no pensa duas vezes, continua correndo e seus longos saltoslogo o deixam na esquina. Uma praa. Uma praa cheia de rvores.Nem sinal do alvo. Uma praa e rvores... Isso tudo para quem querfugir. Se quiser tomar uma das muitas ruas que a cercam, umaopo imperdvel, ou voc pode se esconder na prpria praa. Masalgo diz ao seguidor de Kin-R que o assassino ainda est aqui.

    - Hei, espere! Aonde voc pensa que vai? Ainda no acabeicom voc! - Marfim se volta para trs e v Raio Azul, incansvel emancando.

    O esqueltico paladino j estava no meio da praa nessemomento. Seus instintos o alertaram contra uma aproximaosorrateira mas, antes que pudesse ver do que se tratava, o nosso bravoheri atingido por um golpe brutal e arremessado para frente. Cai acerca de quatro metro do lugar onde estava. O agressor, em questode segundos, desaparece novamente.

    - O que est acontecendo aqui? - Raio Azul pergunta.- No percebe? - responde Marfim, enquanto se pe de p. -

    Foi ele quem matou aquelas pessoas.E sai em direo ao centro da praa. Atrs dele,

    movimentando-se to rapidamente que no se pode saber de ondeveio, surge um ser monstruoso, peludo e alto. Forte. Ele corre emdireo ao Raio Azul. Este, apavorado, dispara um raio, mas oagressor salta e atinge com suas garras o Raio. Dois gritos ecoam nanoite. Um humano e outro sobrenatural. Marfim foi atingido pelorelmpago no mesmo instante em que seu disparador era atingido porgarras mortais.

    O seguidor de Kin-R se apoia e levanta, para ver mais umcorpo destroado. Desta vez o de Raio Azul. O agressor sumidoespera alguns segundos e...

    - Enfim, ss. - Marfim ouve uma voz bestial, lembra a Marfim

    Parte IV #17

  • Marfim Cobra - Sibilo da Justia

    uma voz de ogro, grave, rouca e intensa. A voz de algum que querser ouvido. - Agora podemos conversar em paz.

    - No acredito. Como pode um monstro como voc falar?- Sem ironias, maldito. Como voc pode falar isso depois do

    que fez comigo?- O que fiz?Marfim no tem resposta. Somente o silncio da noite, e essa

    resposta parece ecoar infinitas vezes em seu crnio vazio...Navegando em pensamentos, tentando encontrar uma resposta

    para sua prpria pergunta, Marfim nem percebe o tempo passar.Quando menos espera, ouve um barulho de automvel, vindo rpido.Rapidamente o carro da imprensa pra em frente praa enquantoseus passageiros descem, comeando a filmar o corpo de Raio Azul.

    "Mais um corpo encontrado, vtima de uma criaturasobrenatural que tem nos aterrorizado h tantas noites. E l est ele."

    O cinegrafista ergue rapidamente a cmera para focalizar olocal onde estava Marfim Cobra. Onde "estava", pois nada registrado. A cmera treme um pouco enquanto seu portador tira dafrente para ver com os prprios olhos. Ele no est mais l. Oreprter sinaliza o fim da gravao. O cinegrafista desliza a cmera e,segurando-a, esfrega os olhos enquanto se dirige ao carro. Antes deentrar, uma ltima olhada para confirmar o que j sabe. O carro vaiembora.

    Marfim corre para a praia. "Sorte que no me pegaram. Eles jacham que eu matei todo mundo at pouco tempo. Se me gravassemperto de Raio Azul, iriam ter certeza. Mais certeza do que j tm..."Pensa, enquanto corre. J faz algum tempo que deixou a praa.Quando est a um passo da segurana...

    - Olha ele a! Filma!O cinegrafista liga a mquina enquanto a coloca no ombro, e

    ajusta o foco. A imagem comea a se formar e ele v a praia, asestrelas, e o lugar onde deveria estar Marfim Cobra. Mais umfracasso. Ele desliga a cmera e a tira do ombro.

    - . Isso mesmo... - o reprter est fora do carro, apoiado nelecom um brao, enquanto sustenta o celular com a outra mo. - No,no se preocupe, eu garanto. - Ele desliga.

    - O que...- Vamos ficar aqui. Cedo ou tarde ele vai aparecer. Eu negociei

    com o chefe: no precisamos trabalhar amanh.- E minha mulher e meus filhos? Esto me esperando, e... - o

    reprter estende a mo com o celular. - O que...- Ligue e avise. s esse o problema?E a luz das estrelas contempla o silncio: no h lua esta noite.

    Mais uma noite. Marfim desperta. Segue em direo cidade, e aencontra mais uma vez vazia. Caro leitor, ser que a equipe dejornalismo resistiria cerca de vinte horas de espera? Certamenteamanheceu e eles ainda estavam l. Provavelmente s conseguiramuma boa bronca do chefe, por um dia de trabalho perdido.

    Mesmo assim, algo estava errado, e Marfim sabia disso. Olhoso observavam, de vrios lugares. Olhos ocultos nas trevas de Macei.

    Marfim parou por alguns segundos e olhou em seu redor. ...No parecia haver nada que o pudesse vigiar. Nada alm das estrelas.Mas havia algo mais. O bravo heri ignorou o que quer que oestivesse vigiando e foi em busca de bandidos para aumentar seu"escore". Corre pelas ruas da cidade. Parece uma noite normal. Assimpensa, at ver mais um assalto. J estava longe do litoral e raramentecostumava se distanciar tanto. Era um rapaz de bon vermelho eroupas sujas e rasgadas, como se quisesse parecer mais ameaador,

    mas ele conhecia bem esse tipo.Ele estava com uma faca, ameaando um homem j de certa

    idade. Marfim Cobra vira cenas assim tantas vezes que no seriacapaz de calcular seu nmero. Na poca em que era apenas "Cobra".", certas coisas nunca mudam..." Para esse tipo, intimidao e medo o que melhor funciona.

    - Solte-o. - fala Marfim, em tom de voz grave. Nem seriapreciso, pois sua voz j tem um tom sobrenatural, por natureza.

    Ele empurra o velho contra o cho e corre sem sequer verquem havia falado. Sorte dele, pois pelo que Marfim conhece dessetipo, ele se assustaria tanto que no conseguiria sequer fugir. Tudonormal: o assaltante fugiu.

    - Obrigado. - fala o senhor em calas desbotadas e camisa demangas compridas, com naturalidade. Cabelos brancos e por volta desessenta anos.

    "Que tipo de pessoa nos dias de hoje agradeceria a