MODERNIDADE, PÓS-MODERNIDADE E IRRACIONALIDADE

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Capítulo do livro Em busca da boa sociedade. Niterói: EDUFF, 2006, 428 p.

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MODERNIDADE, PS-MODERNIDADE, RACIONALIDADE E IRRACIONALIDADE

Selene Herculano selene@vm.uff.br Captulo do livro Em busca da boa sociedade. Niteri:EDUFF, 2006.

O advento da Modernidade Os pensadores europeus dos sculos XIX e XX que se detiveram a analisar o advento e o funcionamento da sociedade moderna referem-se, cada um a seu modo, a esta transformao de um mundo social mais simples em outro mais complexo e internamente diversificado. Vejamos alguns exemplos:

Autor Tnnies Comte Spencer Durkheim Marx Weber Gurvitch

Da: Comunidade Sociedade Teocrtica Soc. homognea Soc. Segmentar Modo de Produo Feudal Soc. Tradicional Soc. por Fuso

Para: Sociedade Sociedade Positiva Soc. heterognea Soc. Organizada Modo de Produo Capitalista Soc.Burocrtica Soc.por Interrelao

Se revisitarmos os livros de histria que estudamos no segundo grau, vemos que a sociedade moderna comeou a tomar forma a partir de diferentes ocorrncias no plano econmico, cultural, poltico, religioso etc., que se deram no espao europeu desde o sculo XIV e que se intensificaram a partir do sculo XVI: a Guerra dos 100 anos (1337 - 1453) entre Frana e Inglaterra apontada como uma das causas do enfraquecimento da nobreza que, anteriormente se apegara s Cruzadas (1086 - 1244)

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como maneira de se manter rica e poderosa, via acesso ao Mediterrneo, Veneza e ao domnio sobre um Oriente tido como pago e herege. A partir de 1450, as rotas

comerciais se distenderam, multiplicaram-se as companhias de comrcio, as cidades italianas perderam o monoplio comercial, o eixo econmico se deslocou para o Atlntico. Um novo agente social se afirmou, a burguesia mercantil, que se aliou realeza, subvencionando suas tropas e funcionrios, suas inovaes tecnolgicas, suas expedies martimas e conquistas ultramarinas. Os livros escolares apontam este perodo como o de realizao de uma verdadeira Revoluo Comercial, quando foram criados o sistema bancrio, o sistema monetrio, as sociedades por aes e se deu o incio da acumulao capitalista. O poder absolutista dos reis europeus se consolidou com a dinastia dos Tudor na Inglaterra, Luix XIV na Frana etc. No por acaso o pensamento poltico da poca (Bodin, Bossuet, Grotius) celebrava o direito divino dos reis e o carter sagrado de sua autoridade1, enquanto que a economia poltica rezava pelo credo mercantilista, defendendo o estatismo, isto , a interveno governamental na economia, os territrios nacionais e seus mercados. As naes e os estados nacionais passaram desde ento a ser expresso de territrios fechados, integrados, sob o comando de um poder centralizado. O mercantilismo se traduziu em uma poltica de nacionalismo econmico baseada no expansionismo colonialista.

1O Absolutismo significou o enfraquecimento dos nobres (pelo crescimento da economia urbana, pelas cruzadas (1086-

1244), pela Peste Negra,pela Guerra dos 100 anos (de 1337-1453, da Frana contra a Inglaterra). Foram defensores do absolutismo Maquiavel (1469-1527) Hobbes (1588-1769) Grotius (1583-1645). Le Bret, Bodin, Bossuet (a poltica segundo a sagrada escritura) tambm defenderan na poca o aspecto sagrado da autoridade do monarca. Na Inglaterra, o poder absoluto de Henrique VIII (1509-1547), de Elisabeth I (1558-1603), da dinastia Tudor cedeu espao para a dinastia Stuart de Jaime I (1603-1625) e de Carlos I (1625-1649), que terminou por reconhecer a burguesia como "gentry" (pequena nobreza). De 1642 a 1649 - poca do Protetorado de Cromwell - houve a revolta puritana dos roundheads do parlamento contra o rei. Mais tarde, com a Revolta Gloriosa de 1688-1689, a gentry, a burguesia, triunfou, significando o triunfo do liberalismo contra o Rei

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No campo cultural surgiu o Humanismo Renascentista (1490 - 1560), que retomava os valores da Antigidade clssica greco-romana em substituio ao teocentrismo medieval 2 A natureza humana voltou a ser reglorificada (que obra de arte o homem, escreveu Shakeaspeare. As artes foram revitalizadas em suas diferentes reas (Dante, Maquiavel, Bocaccio, Cervantes, Da Vinci, Rafael, Maquiavel, Cames, Miguelngelo, Gutenberg) e as cincias conheceram novas teorias (Galileu, Coprnico, etc.). Sob o mecenato dos Mdici a cultura se tornou urbana e burguesa. No plano religioso, a hegemonia catlica comeou a ser sacudida pelo pensamento reformista, que se iniciou com o Anabatismo na Alemanha e Sua (Mnzer, Wicliff, Storch) e encontrou sua expresso maior com Lutero (1483 - 1546) e Calvino (1509 - 1564) e o movimento da Reforma Protestante3. Deflagrado pelas 95 teses de Lutero contra a venda de indulgncias pelo Papa Leo X, o Protestantismo rejeitava a teoria da supremacia e do universalismo do pontfice catlico e reivindicava a secularizao dos bens da Igreja. Alm de ter se tornado a expresso dos interesses fundirios da nobreza nas terras da Igreja e da burguesia em busca da extino das limitaes da moral do justo preo, a Reforma trouxe uma tica de valorizao do2 A poca definida como Renascimento, de 1300 a 1630 pode ser vista, na verdade, como a culminao de uma srie de

renascimentos, cujo incio pode ser localizado no sculo XI, buscando reviver a cultura pag: otimismo, interesses terrenos, hedonismo, naturalismo, individualismo e humanismo, em oposio ao divino e extraterreno, valores at ento dominantes. O Renascimento foi influenciado pelo comrcio, pela cultura sarracena e bizantina, pelo surgimento da imprensa em 1454, com a inveno dostipos mveis. Revoluo Comercial (1400-1700): viagens ultramarinas e expanso do c'redito, surgimento dos bancos3A Reforma Protestante (1517) foi uma rejeio ao cristianismo do sculo XIII, contra os abusos da igreja catlica e

avenalidade religiosa. Ela se potencializou com o nacionalismo germnico, com a oposio dos prncipes ao supranacionalismo papal e com as ambies da nova classe mdia - a burguesia; no seu contexto vsurgiu uma revolta camponesa dos anabatistas de T. Munzer, pregadores do igualitarismo e que buscavam a Nova Jerusalm, movimento ao qual Lutero se ops (atravs dla Dieta de Worms, em1521, Lutero confirmou suas teses, defendeu a secularizao dos bens da Igreja e apoiou a represso aos camponenses revoltosos. Em 1530, a Dieta de Augsburgo apresentou o credo luterano, que abolia o celibato, negava a autoridade papal e colocava a igreja sob a autoridade do governo. A Reforma Protestante espalhou com Calvino em 1536 (Calvino 1509-1564), na Sua (Genebra se torna a Roma do Protestantismo), com a instituio da igreja anglicana por Henrique VIII na Inglaterra (revoltado contra o papa Clemente VII), com o presbiterianismo de Joo Knox na Esccia, em 1557, e com os huguenotes na Frana. A reao da igreja catlica foi o Conclio de Trento, em 1545 e o belicismo jesutico dos soldados da f, companhia criada em 1534.

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trabalho e do enriquecimento como sinais de predestinao e das benos de Deus. Todo este novo iderio iria ser campo propcio para a disseminao do comportamento e expectativas capitalistas, segundo a anlise do socilogo Weber. A Sociedade Moderna um mundo marcado pela separao das esferas de atividade que a sociedade dita tradicional vivenciava de forma integrada. No modelo social da Modernidade h a diviso social do trabalho; nele o econmico, o religioso, o poltico, o cientfico so esferas idealmente separadas e, dentre estas, assume uma posio de hegemonia a esfera econmica. Durkheim, Marx e Weber, cada um a seu modo, analisaram aspectos caractersticos desta ciso, que tem sido vivenciada pelos homens modernos como um processo doloroso: Durkheim aponta para a perda de valores morais de referncia, para a anomia, Marx para a alienao e coisificao de um homem tido como livre, mas que experimenta novas formas de explorao, Weber para o desencantamento do mundo e a construo de crceres de ferro, quando um capitalismo histricamente racional cede lugar a uma luta convulsa de todos contra todos. (Ver captulos especficos sobre estes trs autores).

"Estamos longe do tempo em que [as funes econmicas] eram desdenhosamente abandonadas s classes inferiores. Perante elas, v-se cada vez mais recuarem as funes militares, administrativas, religiosas. Apenas as funes cientficas esto em condies de lhes disputar o lugar; e ainda assim, a cincia atualmente no tem prestgio seno na medida em que pode servir prtica, isto , em grande parte, s profisses econmicas." (Durkheim, A Diviso do Trabalho Social)

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Durkeim atribua a anomia - o desregramento, a ausncia de uma moral coletiva no mundo moderno a este predomnio das funes econmicas, que assim ficaram margem da moralidade, e propunha como remdio a regulamentao e o renascimento das corporaes para recriar os laos morais perdidos:

"Uma forma de atividade que tomou um tal lugar no conjunto da vida social no pode evidentemente permanecer a este ponto no regulamentada sem que da resultem as perturbaes mais profundas. , em particular, uma fonte de desmoralizao geral." (DTS)

Para Marx, o mundo moderno caracterizado pelo Estado moderno, advindo este da ciso, da separao entre a instncia poltica e o privado, antes unidos na forma comunal. Neste mundo moderno trabalhadores alienados produzem, separados dos meios de produo e do produto do seu trabalho e transformados na mais destruda de todas as mercadorias. A soluo para isto tudo estaria, segundo Marx, na realizao de uma revoluo proletria, por meio da qual o trabalhador destruir-se-ia enquanto classe, libertando-se a si mesmo e ao burgus seu opressor, preso da lgica do capital, e criando a sociedade sem classe. Terminaria assim a pr-histria da raa humana e assistiramos ao alvorecer da histria. Durkheim, Marx e Weber no eram nostlgicos do Antigo Regime, no partiam da premissa que o mundo da sociedade tradicional era melhor. Muito pelo contrrio, suas anlises apontam para aspectos inovadores e caractersticos dos tempos modernos que nunca sonharam anular: a criao do indivduo e do Estado pela sociedade moderna, tornando-a ma