SANTANNA, Affonso Romano - Par³dia parfrase e cia

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Srie Princpios

Affonso Romano de SantAnna

PARDIA, FARFRASE & CIA7 edio 5impresso editora tica

Direo Benjamin Abdala Junior, Samira Youssef Campedeili

Preparao de texto Jos Pessoa de Figuelredo

Projeto grfico (miolo) Antonio do Amaral Rocha

Arte-final Ren Etiene Ardanuy Joseval de Souza Fernandes

Capa Ary Normanha Agradecemos a Jiro Takahashi a sua psrticipao no projeto inicial das sries Princpios e Fundamentos.

ImpresstoeAcabento

Lis Grfica e Editora lida ISBN 85 08 00703 5

2003 Todos os direitos reservados pela Editora tica Rua Baro de Iguape, 110CEP 01507-900 Caa Post 2937- CEP 01065-970 So PauloSP Tel.:0XX113346-3000-Faco)0(113277-4146 lnternet htlp/www.atica.m.br e-mail: editora@atica.com br

Sumrio1. Introduo 2. Proposies 3. Pardia Consideraes iniciais Significados Pardia e estilizao: paralelos 4. Parfrase Consideraes iniciais Parfrase e traduo Equvocos Pareceres de lingistas e filsofos 5. Pausa para exemplo e outras anotaes 6. Polarizaes e modelos Pardia e parfrase: uma oposio forte A questo das vozes Pardia e representao Constataes 7. Reformulando Tynianov e Bakhtin Retomando o fio da meada Proposta de um primeiro modelo 8. A noo de desvio Proposta de um segundo modelo 9. A apropriao Uma tcnica de configuraes 5 7 11 11 12 13 16 16 18 19 20 23 27 27 29 30 32 34 34 35 38 41 43 43

Contedos Proposta de um terceiro modelo 10. Aplicaes e novas observaes Dois exemplos de apropriao Jorge de Lima: um enigma finalmente esclarecido 11. Manuel Bandeira: uso e abuso da intertextualidade A tradio refeita Peculiaridades

46 47 51 51 54 60 60 62

12. Intertextualidade: literatura e a questo do desvio65 O comum no literrio O literrio no comum Uma ilustrao didtica A cozinha jornalstica 13. Automatizao e desautomatizao cultural Cinema e outras sees Abrindo os bas... Carnavalizao 14. Concluindo e indagando Exemplos clssicos Um problema epistemolgico Uma questo aberta 15. Vocabulrio critico 16 Bibliografia comentada 66 67 69 71 73 74 76 78 81 83 85 87 91 95

1 IntroduoVoc vai comear a ler um ensaio no muito conven imprenscional. Ao invs de apresentar aqui questes resolvidas e definidas, estou levantando diversos pontos para serem repensados. At hoje, por exemplo, estudou-se a questo da pardia como algo isolado. Como se fosse um efeito solto entre os demais. Na melhor das hipteses, um ou outro estudioso a comparou com a estilizao. Pois bem. Escrevendo e reescrevendo este texto h mais de anos, me pareceu que a pardia s pode ser estudada se, no mnimo, a estudarmos ao lado no s da estilizao, mas tambm da parfrase e da apropriao. Para tanto apresento diversos modos e modelos de articular esses termos numaanlise de textos. O aluno (ou professor) pode escolher vrios modelos com que trabalhar. Esses modelos so pontos de partda e no pontos de chegada. Exatamente como eu dizia num livro anterior___ Anlise estrutural de romances brasileiros. Por isto meu texto vai e vem e no teme incorrer em excessos. Recordo meu erro, destaco as fraquezaz crticas e procuro avanar exibindo isto ao leitor. Assim privilgio alguns autores como Manuel Bandeira, Oswald de Andrade e Jorge de Lima. Quanto a

6 este, importante assinalar que s uma tcnica de leitura como a que propormos pode ajudar a resgatar de vez o enigma que at recentemente era o Inveno de Orfeu. Por outro lado, este estudo no s literrio. Estou interessado numa viso semiolgica do problema. Por isto considero tambm a moda, o jazz, a pintura clssica e moderna, a dana, a mmica, o cinema, as estriasem quadrinhos, a contracultura dos ans 60 e ata tcnica jornalstica de apresentar as notcias. Neste sentido, este livro tavez interesse tanto os estudantes de letras quanto aos de arte e comunicao. A pardia, a parfrase, a estilizao e a apropriao, redefinifos e dinamizados conceitualmente, nos ajudam a esclarecero enigma do que literrio e a entender a formao da ideologia atravs da linguagem.O estudo vai comear com quatro proposies ou consideraes iniciais. Depois desenvolvo vrios modos de leitura. O texto ir ficando cada vez mais claro, quanto mais formos nos aproximando da prtica da anlise e comentrios sobre autores e obras. Na verdade, como estive preocupado em ir definindo os termos que estava usando, o Vocabulrio crtico ao final do livro torna-se quase desnecessrio. Mas talvez ajude. Vamos em frente.

2ProposiesEste estudo parte das seguintes observaes iniciais: 1. A pardia um efeito de linguagem que vem se tornando cada vez mais presente nas obras contemporneas. A rigor, existe uma consonncia entre pardia e modernidade. Desde que se iniciaram os movimentos renovadores da arte ocidental na segunda metade do sc. 19, e especialmente com os movimentos mais radicais do sc. 20, como o Futurismo (1909) e o Dadasmo (1916), tem-se observado que a pardia um efeito sintomtico de algo que ocorre com a arte de nosso tempo. Ou seja: a freqncia com que aparecem textos parodsticos testemunha que a arte contempornea se compraz num exerccio de linguagem onde a linguagem se dobra sobre si mesma num jogo de espelhos. No significa isto, contudo, que a pardia seja uma inveno recente. Como mostrarei em diversas partes deste estudo, ela existia na Grcia, em Roma e na Idade Mdia. Talvez o que tenha ocorrido modernamente seja no apenas uma intensificao do seu uso e, por isso, um interesse maior da crtica, o que faz com que, de repente, parea que a pardia seja um trao de nossa poca.

8 Por isto, quando se diz que a pardia uma forma de a linguagem se voltar sobre si mesma, tambm necessrio adicionar alguns raciocnios. Recentemente a especializao da arte levou os artistas a dialogarem no com a realidade aparente das coisas, mas com a realidade da prpria linguagem. Como resultado, ocorreu um certo exlio e seqestro do fazer artstico. A literatura, por exemplo, tornou-se mais literria. Sobretudo quando algumas formas de comunicao comearam a concorrer com ela. O jornalismo, por exemplo, de alguma maneira substituiu a literatura convencional. Alis, no a substituiu exatamente, mas provocou um deslocamento. Entre jornalismo e literatura ocorreu a mesma coisa que Walter Benjamim havia assinalado entre a pintura e a fotografia: o uso e o avano da fotografia tornaram a pintura um setor mais livre para avanos formais. A pintura deixou de ser fotogrfica e numa de suas tendncias extremas chegou rapidamente ao Abstracionismo (1908); isto para no falar na Arte Conceitual (1961), que eliminou de vez a presena da cor e da moldura, transformando a obra numa variante do happening. Concorrendo, portanto, com jornais, televises, cinemas, etc., a linguagem literria muitas vezes acabou por alargar seu espao internamente, numa alquimia de materiais estilsticos e formais que tornam o texto literrio um cdigo que s os iniciados podem decodificar. Dentro dessa especializao, surge a pardia como efeito metalingstico (a linguagem que fala sobre outra linguagem), e, como veremos mais adiante, possvel distinguir no apenas uma pardia de textos alheios (intertextualidade) como uma pardia dos prprios textos (intratextualidade). 2. A segunda observao que aqui fao introdutoriamente mais particular, e remete para o nome de Mikhail Bakhtin. Especialmente nesta ltima dcada o nome desse formalista russo tornou-se conhecido. Ele havia Publicado em 1928, em seu pas, um estudo Prohle,nas da obra

9 de Dostoivski , que s foi traduzido para o Ocidente, via Frana, em 1970. No Brasil, a traduo direta do russo feita por Paulo Bezerra de 1981. Desde ento, Bakhtin passou a ser referncia obrigatria nos estudos sobre pardia. Preocupado em caracterizar os efeitos cmicos de diversas obras literrias, ele acabou extrapolando e, em vez de se limitar apenas ao estudo da pardia, acabou dando uma grande contribuio aos estudos socioliterrios modernos, formulando os princpios bsicos da teoria da carnavalizao. Em outra parte deste estudo voltarei ao tpico: pardia e carnavalizao. Por ora, no entanto, quero apenas fazer um reparo. Embora o nome de Bakhtin seja sempre relacionado ao estudo da pardia, seria mais justo darmos o crdito a outro formalista russo, que dez anos antes de Bakhtin produziu alguns ensaios onde exps com agudeza aquilo que Bakhtin genialmente exporia mais tarde. Estou me referindo a luri Tynianov e ao seu texto sobre Gogol e Dostoivski publicado em 1919. Que motivos levaram muitos a destacar mais Bakhtin em desfavor de Tynianov, no sei. Talvez uma defasagem na chegada dos textos dos tericos russos ao Ocidente dificultada pela censura do governo sovitico. Quanto ao fato de Bakhtin no se ter referido a Tynianov, permanece o mistrio. Mas esse, para ns, um perodo muito nebuloso, em que o prprio Bakhtin teve que escrever sob pseudnimo ou usando nomes de companheiros, para fugir censura. 3. A terceira observao introdutria esta: tanto Tynianov quanto Bakhtin trabalharam apenas com os conceitos de pardia e de estilizao. Minha proposta sair dessa dicotomia simples e introduzir dois elementos que complementam melhor o quadro de relaes. Nesse sentido, vou desenvolver contrastivamente alm daqueles conceitos, tambm os conceitos de parfrase e apropriao. Parte-se do princpio de que numa teorizao sobre a linguagem, dentro e fora da literatura, a parfrase e a apropriao

10 funcionam como elementos de tenso que explicam melhor os prprios conceitos de pardia e estilizao. 4. A ltima proposio inicial que esses conceitos pardia, parfrase, estilizao e apropriao interessam no s literatura, mas tambm aos estudos semiolgicos em geral. Podem ser desenvolvidos a propsito do jazz, da pintura, da confeco dos jornais, das festas de carnaval, do sistema de moda, etc. Sem me limitar teoria da literatura, estou procurando um enfoque semiolgico amplo. Neste sentido se comprovar que os problemas fundamentais da linguagem no so apenas lingsticos, mas tambm se repetem com outro