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DAVID HUME

RESUMO

de

UM TRATADO DA NATUREZA HUMANAedio bilnge

Direittis da Traduo: Rachel Gutirrez Jos Sotero Caio Reviso da Traduo: Carmen Serralta Hurtado Desenho da capa: retrato de David Hume.

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Rachel Gutirrez e Jos Sotero CaioEDITORA PARAULA

Traduo:

. 40

Apresentamos ao leitor o texto e a traduo de um escrito singular do filsofo David Hume (1711-1776), publicado em 1740 com o ttulo An Abstract of A Treatise of Human Nature, ou seja, Resumo de um Tratado da Natureza Humana. Sua singularidade consiste em ter sido publicado anonimamente pelo filsofo com o objetivo de chamar a ateno do pblico para a importncia e originalidade do Tratado da Natureza Humana, o qual, segundo a apreciao do prprio Hume, teria vindo luz do mundo como um natimorto. Sumariando-o cuidadosamente neste escrito, julgava Hume que pudesse torn-lo um tanto mais inteligvel aos seus leitores.

O Tratado, com efeito, tinha sido publicado pouco antes: eni 1739 os dois primeiros livros: Livro I Sobre o entendimento e Livro II Sobre as Paixes; em 1740, o Livro III Sobre a Moral. No ganhou, conforme almejara seu autor, a imediata simpatia do pblico. De tal sorte que, desiludido, resolveu fazer-lhe este sumrio, atribuindo o desinteresse " extenso e abstrao do argumento".1. Hume e sua obra

Nasceu David Hume em Edimburgo (Esccia) de uma famlia da pequena nobreza fundiria, em 26 de abril de 1711. Muito cedo apaixonou-se pelo estudo dos clssicos e da filosofia. Com 18 anos de idade, surgiu-lhe a intuio de um novo panorama de pensamento a new scene of thought: a Cincia da Naturezaviii

Humana como uma novssima viso filosfica da totalidade do mundo. Essa intuio proporcionou-lhe efetivamente a idia bsica do Tratado da Natureza Humana, sua principal obra, seu trabalho mais profundo e mais meditado. O fato de ter sido o Tratado praticamente ignorado pelos seus contemporneos, levou Hume a refundi-lo sucessivamente. Em 1748 apareceram os Ensaios sobre o entendimento humano. Trata-se da reconstruo do Livro I do Tratado, cujo ttulo definitivo veio a ser, a partir de 1758, Investigaes sobre o entendimento humano. Em 1751 vieram luz as Investigaes sobre os princpios da Moral, ou seja, uma nova redao do Livro III do Tratado. Considerada pelo prprio autor como a melhor de suas obras, seu mrito foi em seguida obscurecido pelo valor que a posteridade atribuiu s

Investigaes sobre o entendimento humano. Entre 1752 e 1757 publicou outrasobras, entre as quais se destacaram as duas Histrias da Inglaterra. Em 1763 foi nomeado secretrio da Embaixada da Inglaterra em Paris, entrando em boas relaes com Diderot, D'Alembert e com outros enciclopedistas. Em 1776 regressou Inglaterra acompanhado por Rousseau, oferecendo a este sua proteo. No obstante, a grave mania de perseguio que dominava Jean-Jacques fez com que este o acusasse de encabear uma conspirao para arruin-lo. O caso produziu muito rumor, levando Hume a expor publicamente sua posio (Cf. Letters, II, 7-5; 13-17, 27-36, etc.). Em julho de 1769, regressa a Edimburgo para retomar sua vida de estudos, rodeado pela alegria de suas relaes de amizade. Um dos seus amigos mais n-

timos foi o clebre Adam Smith, antigo professor de Lgica e Filosofia Moral na Universidade de Glasgow e autor do famoso Inqurito sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Naes (1776). Desde o ms de maro de 1775, a sade de Hume preocupava muito seus amigos. Logo se diagnosticou um tumor no fgado que rapidamente se agravou. Faleceu em Edimburgo o "clebre David Hume" (como dizia Kant) no dia 27 de agosto de 1776.2. A Cincia da Natureza Humana como o novo cenrio do pensamento: a propsito de Rume e Kant.

Acrescentando designao do seu Tratado da Natureza Humana o subttulo: "uma tentativa de introduzir o mtodo experimental de raciocinar nos

assuntos morais", indicou claramente Hume quais os traos essenciais para ele do novo cenrio do pensamento. Assim como Bacon, Galileu e Newton, base da observao e do raciocnio experimental, haviam construdo uma slida perspectiva da natureza fsica, tratavase agora de aplicar o mesmo mtodo tambm natureza humana. Hume no se v sozinho neste empreendimento. Cita, entre outros, Locke, Shaftesbury, Mandeville, Hutcheson e Butler como os mais recentes instauradores de um novo estilo de filosofar no Reino Unido. Parece ento que seu projeto consiste em se tornar o Newton da Cincia da Natureza Humana. Entretanto, esse novo cenrio do pensamento veio a significar, de fato, o desenrolar de um encarniado campo de batalha no qual se levou a cabo a maior ofensiva jamais pensada contra a

metafsica tradicional desde sua criao entre os antigos gregos. Ningum melhor do que Kant, para quem "a lembrana de David Hume foi justamente o que h muitos anos diz ele interrompeu pela primeira vez meu sono dogmtico", resumiu o verdadeiro problema colocado pelo filsofo escocs: Hume tomou como ponto de partida um nico mas importante conceito da metafsica, ou seja, o da conexo entre causa e efeito (e, por conseguinte, os conceitos da derivados, de fora e de ao, etc.); desafiou a razo, que pretende ter gerado este conceito em seu seio, a responder-lhe precisamente com que direito ela pensa que uma coisa possa ter sido criada de tal maneira que, uma vez posta, possa-se depre-

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ender da que outra coisa qualquer tambm deva ser posta; pois isso o que afirma o conceito de causa. Demonstrou de maneira irrefutvel ser totalmente impossvel a razo pensar esta con~apriori e a partir de conceitos, pois ela encerra a necessidade; no , pois, possvel conceber que, pelo fato de uma coisa ser, outra coisa deva ser necessariamente e como seja possvel introduzir a priori o conceito de tal conexo... A partir da concluiu que a razo no tem a faculdade de pensar em. tais conexes, mesmo de um modo geral, porque seus conceitos no passariam ento de simples fices e todos os seus pretensos conhecimentos a priori no seriam mais do que experincias comuns mal rotuladas, o que equivale a afir

mar: no h em parte alguma e nem pode haver uma metafsica.(Prolegmenos)

Todo o esforo do projeto crtico de Kant consistiu, como se sabe, em tentar solucionar a questo levantada por Hume. Compreender profunda e exaustivamente a natureza da razo pura tal foi o programa que Kant se props em suas obras mais celebradas, a saber: Crtica da Razo Pura (1781), Crtica da Razo Prtica (1788) e Crtica da Faculdade do Juzo (1790). Importa muito observar que Hume jamais colocara em dvida a utilidade e mesmo a indispensabilidade do conceito de causa para todo conhecimento da natureza em geral. Sua questo se concentrava precisamente na seguinte direo: Ser que o conceito de causa (substncia, fora, ao, etc.) tem

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efetivamente uma verdade intrnseca, independente de toda experincia (passada, presente ou possvel)? Ser que, por conseguinte, tal conceito teria uma aplicabilidade mais ampla do que a de se limitar aos objetos da experincia? Poderia por outras palavras ser aplicado legitimamente ao campo do pensamento puro, ou seja, aos temas tratados pela metafsica, tais como Deus e a alma? Ora, parece que a questo de Hume ainda hoje no se acha completamente resolvida, no obstante o esforo genial de Kant para enfrent-la. Ainda hoje, com efeito, no parece claro em que cenrio real deve ser colocado o problema epistemolgico, ou seja, o problema do valor de verdade dos conhecimentos humanos. No h dvida que a perspectiva sistemtica de Hume se colocava claramente dentro de um quadro antropolgi-

co muito explcito. Kant, por sua vez, tentou deslocar o problema para um horizonte decididamente metafsico ou quase-metafsico (transcendental). J de um outro ngulo, os filsofos ingleses, quer antecessores, quer contemporneos de Hume, manifestaram juntamente com ele a lcida conscincia de que a via que procuravam era um mtodo completamente original. Original, no somente em relao ao esprito filosfico do resto da Europa de ento, mas tambm em relao maneira como os filsofos da Antigidade haviam tratado dos assuntos humanos. Da porque sem dar ouvidos apressados censura tradicional que descarta Hume como um ctico inconseqente a questo posta por ele precisa ser, mais urna vez, reexaminada. evidente que tal exame no cabe dentro dos limites desta nossa apresen-

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tao. O certo que o ceticismo de Hume to proclamado e censurado, mas nem sempre bem aquilatado e compreendido se situava to somente no plano da metafsica tradicional. Uma vez que ele no acreditava que se pudesse navegar por guas claras entre o Cila de Berkeley e o Caribde de Locke, tambm no pretendeu nunca justificar uma cincia humana que almejasse ir alm da experincia. Sendo assim, ao passo que Hume ensinava que todos os nossos conceitos derivam em ltima anlise da experincia (externa ou interna) seguindo nisto, alis, o famoso adgio aristotlicotomista: "nada se acha na inteligncia sem que antes se achasse nos sentidos" (nihil est in intellectu quod prius non fuerit in sensu), tentou Kant, por seu lado, mostrar que eles seriam de fato independentes da experincia, muito embora

devessem estar sempre em conexo com ela para produzir conhecimentos confiveis. Eis porque, para Hume, era bvia e vivel uma cincia antropolgica, mesmo que no fosse possvel chegar certeza de seus ltimos princpios de acordo com os tradicionais ensinamentos da metafsica. Com incontestvel coerncia, portanto, concebe Hume o cenrio apropriado crtica do alcance e limites dos conhecimentos humanos num sistema cientfico de natureza antropolgico-filosfica. Em contraste com Kant, jamais pensou que fosse preciso apresent-lo como dotado de prerrogativas racionais puras, isto , apoiado numa sntese apriorstica. Para ele, com efeito, a ordem puramente lgica no podia ser o horizonte adequado para tratar do problema epistemolgico. Sob este ponto de vi