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UN , IVERSIDADE ,.., DE SÃO PAULO PROGRAMA DE POS-GRADUAÇAO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representações da “cegueira” e/ou “deficiência visual”

Com outros olhos: um estudo das representações da "cegueira" e/ou "deficiência visual"

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  • 1. UN,IVERSIDADE,..,DE SO PAULO PROGRAMA DE POS-GRADUAAO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual

2. ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. (O exemplar original encontra-se disponvel no Centro de Apoio Pesquisa Histrica da referida Faculdade e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertaes da USP). rea de concentrao: Antropologia Social Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes VERSO CORRIGIDA So Paulo 2012 3. Autorizo a reproduo e divulgao total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrnico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Catalogao da Publicao Servio de Biblioteca e Documentao Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo 4. CAVALHEIRO, Andrea de Moraes. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. Dissertao apresentada ao Programa de Ps- Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes Aprovado em: Banca examinadora Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: 5. s minhas avs, Elza e Ivone, e ao meu av Horcio (in memorian), por terem me criado, serem grandes referenciais e portos seguros. Nunca vou conseguir agradecer a altura. 6. Agradecimentos minha orientadora, Sylvia Caiuby Novaes, por abrir as portas da Antropologia e por acreditar neste trabalho. Muito obrigada pelo apoio, incentivo e ensinamentos imprescindveis. FAPESP pela bolsa concedida. Aos colegas do LISA/USP, principalmente Francirosy Ferreira, pelas discusses, aconselhamentos e amizade. Aos pesquisadores do NAU/USP, especialmente ao professor Jos Guilherme Magnani pelas contribuies em meu exame de qualificao; ao Csar Augusto de Assis Silva, coordenador do Grupo de Estudos Surdos e da Deficincia, pela amizade e imensa colaborao no amadurecimento terico- metodolgico deste trabalho; e por fim, Cibele Barbalho Assnsio, pelas discusses e apontamentos. professora Paula Montero pelas contribuies em meu exame de qualificao e por ter mudado a minha forma de olhar o mundo. Aos colegas do PPGAS/USP, que me acompanharam nessa empreitada, sobretudo ao Andr Drago Andrade, Carlos Gutierrez, Fbio Mallart, Giancarlo Machado, Rafael Adriano Marques, Rosenilton Oliveira e Samantha Gaspar. Magdalena Gutierrez e Camila Guerreiro por compartilharem os primeiros passos na Antropologia e no Trabalho de Campo. Aos meus amigos da Histria e do Departamento do Patrimnio Histrico, David Sampaio, Felipe Dias Carrilho, 7. Fernanda Menezes, Helenice Diamante, Laura Souza, Marina Galvanese e Maurcio Rodrigues, afinal, os cargos passam, a amizade fica, obrigada por permanecerem. Em especial Maria Lcia Perrone de Faro Passos, Malu, querida chefe, professora, conselheira e amiga, obrigada pela considerao, histrias e lies preciosas. famlia Berro, pela convivncia nos ltimos nove anos, em especfico Ruth e Julia pela amizade e carinho. direo e coordenao do Instituto de Cegos Padre Chico, Irm Helena Mariano, Ana Maria Pires e Anna Maria Miceli, obrigada pelo acolhimento e concesso para realizar esta pesquisa. A todos os professores, tcnicos e funcionrios do Instituto Padre Chico que admiro pela competncia, dedicao e unio. Especialmente Isabel Bertevelli pela amizade e por viabilizar esta pesquisa de muitas formas. Adriana Nascimento, Vanessa Vesterman e Rafael Silva pela oportunidade e confiana. s minhas professoras de braile, Irm Apoline Camargo e Irm e Madalena Marques, pelos ensinamentos. Aos alunos e familiares do Instituto Padre Chico, pelos sorrisos, abraos e amizade, vocs moram no meu corao. coordenao da LARAMARA, Eliana Ormelezi, Ceclia Maria Oka e Erica Cristina Takahashi da Silva por possibilitarem a realizao deste trabalho e pelo dilogo. Agradeo a todos os especialistas e funcionrios da LARAMARA, que admiro pelo empenho e entusiasmo, em particular Regina Versoa, Elisa de Oliveira, Ana Carolina Loschiavo e Silverlei Vieira. 8. Aos alunos e familiares que convivi na LARAMARA, pela amizade, risadas e alegria. Sobretudo ao Alexandre, Jovana, Eduardo, Erica e Marines Almeida. Aos amigos do Movimento Livre, Erici Honrio, Fbio dos Santos, Irene Pereira, Rosaura Louzzano, Regina Clia Ribeiro, Ricardo de Melo, William Rodrigues e Wilma Teixeira. Principalmente Marly Solanowski pelos ensinamentos e debate do meu relatrio de qualificao; e ao Renato Tadeu Barbato pela amizade e discusses. s minhas grandes amigas de infncia, Ana Helena Tokutake, Ana Julia Kiss, Juliana de Faria, Luciana Kaori Shintani e Regiane Ishii, com quem compartilhei minha juventude, minhas utopias, minhas decepes e meu crescimento. Vocs so HUGES. Ao tio Lus Claudio, tia Mrcia e ao primo Mrcio Cavalheiro, pelo carinho e preocupao. Aos meus pais, Mauro e Tais Cavalheiro, pelo amor e educao, por apoiarem minhas escolhas e pelo mecenato. Em particular, minha me, pelos exaustivos turnos de reviso de texto. Por fim, agradeo ao Luiz Gustavo Berro, meu companheiro, pelo apoio nos momentos de desespero; pela compreenso, interesse e incentivo; por ser meu descanso e aconchego. Muito obrigada, com todo o meu amor. 9. Resumo CAVALHEIRO, A. M. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. Esta dissertao tem como principal objeto de estudo as interaes sociais, que envolvem performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia e correlativos. O objetivo desta pesquisa descrever tais performances em termos de acionamentos de categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Pretende-se refletir sobre os processos de negociao e incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, optou-se por uma aproximao com aspectos do modelo teatral de Goffman e da teoria da significao de Bourdieu. Para a construo dos dados, realizou-se observao participante principalmente em institutos especializados. Palavras-chave: Cegueira. Deficincia Visual. Baixa Viso. Interao Social. Performance. Incorporao. 10. Abstract CAVALHEIRO, A. M. With other eyes: a study of representations of the "blindness" and / or "visual disability". 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. This dissertation focus on the performances of "visual disability", "blindness", "low vision" and seeing, through social interactions. Its main objective is to describe and to analyze these performances as the use of the nomination categories, distinctive signs and qualifying attributes. Furthermore, I present the processes of embodiment of these representations and its importance for the constitution of the actors "self". The theoretical and methodological assumptions rely on aspects of Goffmans dramaturgical perspective and Bourdieus theory of meaning. The data were developed through participant observation at specialized institutes. Keywords: Visual Disability. Blindness. Low Vision. Social Interaction. Performance. Embodiment. 11. Sumrio Introduo .....................................................................11 1. Classificao de personagens: categorias de nomeao....33 2. Identificao de diferenas: sinais distintivos ..................58 3. Caracterizao de mscaras: atributos qualificativos ..... 100 4. Negociao de representaes: rendimentos simblicos . 140 5. Construo do eu: processos de incorporao ............ 156 Consideraes finais ...................................................... 170 Referncias bibliogrficas ............................................... 179 12. 11 Introduo Nesta introduo exponho: o objeto de pesquisa, os objetivos, os pressupostos terico-metodolgicos que norteiam a investigao e o percurso levado para estabelec-los. Tambm apresento o campo emprico e aspectos da construo e anlise dos dados. Por ltimo, forneo o resumo de cada captulo. O principal objeto desta dissertao so as interaes face a face que envolvem performances nomeadas, entre outros termos, por cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. A interao face a face pode ser definida como uma negociao de representaes entre atores, uns sobre os outros, quando em presena fsica imediata, orientando-se pelo reconhecimento da atuao alheia, em suas categorias, atributos e sinais, atravs de imputaes condescendentes. Nesta negociao cada ator solicita que seja levado a srio pelos demais, acreditando em sua performance (GOFFMAN, 2009). Neste estudo, as performances so o acionamento de representaes estereotipadas, como sinais e atributos, ligados a um padro de ao pr-estabelecido, que distinguem e qualificam os atores subsidiando a classificao. Quanto s representaes, partindo de Durkheim (1978) e Bourdieu (2004), estas so consideradas como construes 13. 12 simblicas, que configuram maneiras de agir, pensar e sentir; e so constitudas e solidificadas historicamente de acordo com contextos especficos. O objetivo desta dissertao descrever e analisar as performances chamadas, entre outros termos, de cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. Refiro-me especificamente aos acionamentos prticos de representaes como: categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Em seguida, pretendo refletir sobre os possveis rendimentos simblicos envolvidos nas negociaes destas representaes. Por fim, estudo os processos de incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, opto por uma aproximao com aspectos da abordagem interacionista goffmaniana. Parto do modelo teatral do autor e o adapto empiria e problemtica especfica desta pesquisa. Abaixo apresento tal modelo e, em seguida, indico os ajustes necessrios. O modelo teatral desenvolvido prioritariamente na obra A representao do eu na vida cotidiana (2009), publicada em 1959. Trata-se de um conjunto de metforas relativas dramaturgia, que constituem uma teoria explicativa para as situaes interativas1 . A seguir exponho seus principais elementos e dinmica. 1 um aspecto importante do conjunto dos face a face que, por eles e s por eles, podemos atribuir uma configurao e um cenrio dramtico a coisas que, de outro modo, no seriam perceptveis aos nossos sentidos. (GOFFMAN, 1999, p.215). 14. 13 O primeiro elemento a ser especificado a cena, trata- se da estrutura de ocasio, o tempo e o espao nos quais se realizam a interao (NUNES, 2005, p.86). O ator o agente social do modelo, ele estabelece a interao ao negociar representaes com outros atores. Goffman enfatiza a agncia possvel do ator ao considerar que suas negociaes no esto garantidas previamente pelas constries estruturais que as pressionam. O ator depende de seu corpo enquanto condio de entrada na interao face a face. Nela, o corpo est em situao vulnervel, expe-se ao risco de ferir-se, sendo obrigado a leva-la a srio. Alm disso, o corpo veculo de transmisso e recepo de sinais, cuja identificao influi na previso da interao. [...] por definio s podemos participar em situaes sociais se levarmos os nossos corpos e os seus adornos, e este equipamento vulnervel aos objetos que os outros trazem com seus corpos (GOFFMAN, 1999, p.199). A mscara dos atores so as representaes do eu, as concepes formadas sobre si, num confronto com o reconhecimento alheio. Trata-se de um carter adquirido que se torna internalizado, cristalizando-se como uma segunda natureza. Em certo sentido, e na medida em que esta mscara representa a concepo que formamos de ns mesmos o papel que nos 15. 14 esforamos por chegar a viver -, esta mascara nosso mais verdadeiro eu, aquilo que gostaramos de ser. Ao final a concepo que temos de nosso papel torna-se uma segunda natureza e parte integral de nossa personalidade. Entramos no mundo como indivduos, adquirimos um carter e nos tornamos pessoas. (PARK, 1950, p.249. Apud.: GOFFMAN, 2009, p.27). Os atores desempenham papis, que so padres de ao guiados principalmente por categorias, sinais e atributos pr-definidos (NUNES, 2005, p.54). Os papis so relacionais dependem daqueles desempenhados pelos demais atores em cena, o papel que um indivduo desempenha talhado de acordo com os papis desempenhados pelos outros presentes (GOFFMAN, 2009, p.9). A fachada so os sinais acionados pelos atores durante suas atuaes para a classificao dos mesmos e para a previso da interao. A fachada dada a partir de sinais estereotipados atrelados a um papel. Um papel estabelecido geralmente possui uma fachada determinada, que deve ser mantida acionando-se seus sinais caractersticos, por exemplo: a fachada de mdico implica geralmente em vestir-se de jaleco branco, possuir expresso segura, etc. Quando um ator assume um papel social estabelecido, geralmente verifica que uma determinada fachada j foi estabelecida para esse papel. (GOFFMAN, 2009, p.34). 16. 15 A partir da leitura dos sinais dos demais atores, das interaes passadas e de outras informaes obtidas, o ator prev como se dar a interao, construindo afirmativas chamadas de expectativas. Contudo, o desfecho da interao permanece imprevisvel. O desfecho da interao depende do reconhecimento e da imputao de representaes em relao s expectativas criadas pelas partes. Se os acionamentos corresponderem s expectativas, os atores recebem um tratamento adequado e o desfecho da interao satisfatrio. Mas, se os acionamentos no correspondem s expectativas, o desfecho da interao pode envolver algum embarao ou desapontamento. De maneira geral, no modelo teatral a interao realizada numa cena, travada entre atores mascarados, que desempenham papis relacionais com suas fachadas caractersticas. Cada um deles espera que suas representaes sejam reconhecidas recebendo um tratamento adequado. Para Goffman, a interao constitui uma ordem especfica um domnio autnomo e particular de atividade, pois os elementos contidos neste domnio esto mais intimamente ligados entre si que a elementos situados no exterior da ordem (GOFFMAN, 1999, p.195), sendo sua configurao irredutvel a outras ordens sociais. Acima procurei sistematizar de forma simplificada aspectos do modelo teatral. Para proceder tal sistematizao houve um enrijecimento devido minimizao dos exemplos empricos, que ancoram o mesmo. Tambm necessrio frisar que outros conceitos conexos no foram abordados, 17. 16 como os de bastidor, plateia, equipe, etc., pois os considero menos relevantes para a presente pesquisa. Optei pela abordagem e modelo acima descritos por alguns fatores. O primeiro deles refere-se a no essencializao Goffman aborda papis talhados de modo relacional, que s existem na medida em que so atuados e identificados na interao. Deste modo, no h uma essncia anterior s prticas e para alm da aparncia das performances. Outro fator refere-se questo da agncia. Antes de adotar tal teoria, abordava a construo do deficiente visual, cego, ceguinho, etc. muito mais como uma imposio por tcnicos e familiares, do que uma negociao situacional entre as partes, que envolveria tambm auto-reconhecimento e negao. Assim, considero que a interao permite ampliar os pontos de vista, dando conta de resistncias e contrariedades. Neste mesmo vis, tambm aprecio a teoria da ao interacionista, na qual a agncia do ator enfatizada mesmo considerando as constries estruturais que a limita. Na interao, a negociao no est definida previamente por tais constries, h uma margem de indefinio, que possibilita agncia para o ator. O ltimo fator o rendimento na anlise dos dados construdos. Das abordagens tentadas durante a pesquisa, essa foi que me permitiu relacionar a maior quantidade de dados. Talvez isso se deva, em parte, pela prpria condio dos dados, que so relativos microinteraes, presenciadas em observao participante. 18. 17 Considerando que todo modelo criado a partir de problemticas e empirias especficas, o deslocamento e emprstimo de seus conceitos para outro contexto exigem uma adaptao, toro e, no limite, uma reinveno. A seguir explicito alguns comentrios a este respeito. Quanto problemtica, Goffman est interessado em analisar a prpria ordem da interao, sua operao, regularidades, etc. J a presente pesquisa procura analisar as performances negociadas na interao. Desta forma, a interao no um objetivo, mas um instrumental para decodificar a prtica dos atores. Tendo em vista estes diferentes interesses, descartei alguns conceitos do modelo teatral, no emprego propriamente o papel e a fachada. Mas, os decomponho em categorias, atributos e sinais, como elementos negociados na interao. Decompus a fachada em seus sinais, analisando-os um a um durante acionamentos prticos. De modo semelhante, esmiucei o papel em categorias e atributos, analisando-os um a um. Tais decomposies foram necessrias para especificar de modo mais palpvel os elementos das negociaes interativas. Ao descartar alguns conceitos e priorizar aspectos abordados de modo marginal na teoria do autor, tais como: as categorias, os atributos e os sinais, fui obrigada a forjar definies e teorizaes aos mesmos. Tal tarefa foi empreendida a partir do confronto entre indicaes esparsas de Goffman e meu universo emprico. 19. 18 Por conta da diferena de problemtica, adotei outros autores para colaborar na construo de uma teoria da significao capaz de analisar as representaes em questo. A teoria elaborada prope dar sentido as representaes acionadas nas performances analisando-as em trs aspectos: no contexto interativo ou no conjunto das demais representaes acionadas e identificadas; nas contraposies possveis entre os termos propostos; e nas conexes histricas s quais tais representaes podem se remeter. Esta proposta fundamenta-se na combinao e adequao da abordagem dos autores abaixo: A partir de Bourdieu, suponho que as representaes em si so vazias, sendo que seu sentido reside na relao com o contexto: Compreender no reconhecer um sentido invariante, mas apreender a singularidade de uma forma que s existe num contexto particular. Produto da neutralizao das relaes sociais prticas nas quais ela funciona, a palavra - em todo caso, a do dicionrio - no tem nenhuma existncia social: na prtica, ela s existe submersa nas situaes, a tal ponto que a identidade da forma atravs da variao das situaes pode passar despercebida (BOURDIEU, 1983, p.159). Neste estudo, o contexto considerado como a prpria interao, ou seja, as demais representaes que so acionadas e identificadas pelos atores em suas negociaes. 20. 19 Deste modo, adoto apenas alguns aspectos muito circunscritos da teoria de Bourdieu, no pretendo, por exemplo, abordar as lutas simblicas, que pautam as relaes de poder num campo de agentes posicionados por meio de capitais e disposies de habitus. Lygia Sigaud (1978), baseada em Bourdieu, procura entender como a ideologia anti-patro repercute sobre a legitimidade e a reproduo do sistema da plantation aucareira pernambucana, no incio da dcada de 1970. Neste trabalho, me interessa o modo como a autora apresenta as representaes empregadas pelos agentes, agrupando-as de acordo com semelhanas e descontinuidades identificadas, compondo feixes de contraposies possveis. Quanto aos aspectos histricos, pretendo apresentar alguns fragmentos de discursos, de diferentes temporalidades, fornecendo indicaes sobre a emergncia das representaes em anlise. Desta forma, espero evidenciar contingncias e arbitrariedades destas representaes, construdas enquanto naturezas a partir de reiteraes e acumulaes discursivas. (FOUCAULT, 2008). Ressalvo que a presente pesquisa no priorizou analisar coletivos de enunciados, seus sistemas de relaes, suas recorrncias e suas transformaes ao longo do tempo. Apresento apenas poucos enunciados dispersos, que procuram pontuar minimamente as representaes como construes forjadas em contextos especficos. Alm da teoria da significao, tambm adoto Bourdieu de modo muito preciso no quarto captulo e nas Consideraes 21. 20 Finais. No quarto captulo fao uma aproximao com o conceito de capital para considerar possveis rendimentos envolvidos nas negociaes interativas. Nas Consideraes Finais, menciono o autor para refletir sobre a instituio e solidificao da cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, etc. como naturezas autoevidentes. Contudo, considero que as relaes entre Goffman e Bourdieu so muito mais intensas do que pode expor esta pesquisa. Por exemplo: apesar de Bourdieu no abordar a interao face a face propriamente, possvel sugerir que as lutas simblicas tambm se travam nesta e que os capitais podem ser institudos a partir de imputaes e reconhecimentos dados interativamente. Tambm acredito que as disposies relativas ao habitus so institudas e incorporadas na interao. Deste modo, a interao pode ser uma janela para olhar a prtica dos agentes e suas disputas. Por hora, apresento o campo emprico deste estudo e os procedimentos metodolgicos. A maior parte dos dados foi construda a partir das minhas experincias de campo, obtidas por meio de observao participante, tendo em vista interaes vividas ou presenciadas por mim. Tal mtodo justifica-se por permitir acesso privilegiado s interaes com suas negociaes, manejo corporal, etc. Quanto ao meu campo emprico, a seguir descrevo-o de acordo com o percurso de minha insero e as posies que ocupei. Tambm ressalto as alteraes realizadas no enfoque 22. 21 da pesquisa devido s prprias possibilidades do campo e aos aprimoramentos tericos. Fui a campo pela primeira vez em maro de 2008, no meu ltimo ano de graduao em Histria, procurando montar um projeto de mestrado na rea de conhecimento que j havia me seduzido a Antropologia. Neste primeiro momento, cogitei questes mais ligadas percepo sensorial e visualidade. At ento nunca havia tido nenhum contato mais aprofundado com tal universo, que surgiu um pouco por acaso. Logo de incio supus que os institutos especializados podiam ser uma porta de entrada privilegiada. A primeira instituio procurada foi o Instituto de Cegos Padre Chico2 . Fiz uma visita padro para os interessados em conhecer o local no meu grupo havia alunos de Psicologia, jornalistas e dois funcionrios da Secretaria Municipal do Trabalho que buscavam parceria para divulgao de vagas de emprego. Circulamos um pouco pelo local, passamos brevemente por uma da sala de aula e ouvimos a histria do instituto. Aps a visita expliquei o intuito da minha pesquisa para a responsvel e apresentei uma pequena proposta de trabalho. Dias depois, informaram que no seria possvel me atender e recomendaram que procurasse a LARAMARA instituio com melhores condies para o meu trabalho. 2 Escola especial de ensino fundamental, fundado em 1927, pela iniciativa de oftalmologistas, figures paulistanos e da Companhia das Filhas da Caridade de So Vicente de Paulo, que recebeu a direo do instituto (INSTITUTO DE CEGOS PADRE CHICO, 2009). 23. 22 Na semana seguinte fui conhecer a Fundao Dorina Nowill3 . Tratava-se de uma visita com o mesmo formato e intuito da descrita acima. Novamente disseram-me que no seria possvel realizar minha pesquisa observando e participando de atendimentos e que eu deveria procurar a LARAMARA, instituio que possuiria maior estrutura e receberia pesquisas. Assim sendo, procurei a LARAMARA Associao Brasileira de Assistncia ao Deficiente Visual, ONG criada em 1991 por um empresrio paulistano. Passei por outra visita semelhante s demais, mas no final da mesma o responsvel me apresentou para a coordenao, que me solicitou um currculo. Eu havia cogitado colaborar como voluntria nas aulas de Braille, Orientao e Mobilidade, Artes ou Projeto de Vida. Alegando a necessidade da professora, decidiram me alocar como assistente do ateli de Artes Plsticas, do grupo de adultos. Desta forma obtive a minha primeira insero no campo, em abril de 2008. As oficinas eram semanais, com cerca de dez alunos. Alm delas, no perdia a oportunidade de participar de todos os eventos extras, como: palestras, passeios, festas, saraus, etc. Considero que este primeiro momento foi importante por proporcionar um decisivo estranhamento inicial. Fui a 3 Instituio fundada em 1947, por Dorina Gouva Nowill, cega aos 17 anos devido a uma patologia ocular. A instituio produz livros em braile e em udio e promove programas de habilitao e reabilitao (FUNDAO DORINA NOWILL PARA CEGOS, 2009). 24. 23 campo buscando compreender a percepo do cego, com uma viso um tanto ingnua e essencializada. Neste contato meus preconceitos tambm emergiram e paulatinamente foram se despindo para que outros problemas de pesquisa viessem tona. Entre os especialistas da LARAMARA, conheci a professora de Musicografia Braile, que tambm lecionava no Padre Chico. Ofereci-me para ser sua assistente e foi assim que obtive minha insero naquele colgio, em maio de 2008. No Padre Chico, passei a acompanhar as aulas de Musicografia Braille e Artes entre os cerca de 50 alunos do 4 ao 9 ano, s segundas, quartas e quintas-feiras. Atravs de um dos alunos da oficina de artes da LARAMARA fui convidada a participar do Movimento Livre, movimento poltico em prol da incluso e acessibilidade do deficiente visual. O grupo foi formado em 2008, por cerca de dez deficientes visuais e eu, que sou considerada a nica vidente. Deste modo, tambm ocupo a posio de militante. Alm do prprio campo, a participao nos debates do Grupo de Estudos Surdos e da Deficincia do Ncleo de Antropologia Urbana da USP e as disciplinas de ps-graduao sugeriam outras abordagens possveis, incluindo um alargamento do trabalho emprico para alm dos institutos, visando uma compreenso mais ampla do que se passava ali. Decidi, ento, expandir o circuito etnografado, frequentando tambm vrios eventos que ocorriam pela cidade, tais como os da Secretaria dos Direitos da Pessoa com Deficincia do governo do Estado de So Paulo e as reunies e do Grupo 25. 24 Retina So Paulo4 . Ainda dirigi maiores atenes aos discursos mdicos e jurdicos. No segundo semestre de 2009 resolvi levar a cabo a remodelao da problemtica do projeto, deixando a percepo e focando na incorporao da cegueira. Com isso, tambm decidi mudar a minha insero nos institutos, circulando internamente por outras reas. Em 2010, deixei as aulas de artes do Padre Chico para passar a acompanhar a turma de alfabetizao do primeiro ano do Ensino Fundamental, supondo que o braile seria um artifcio importante no processo de domesticao do corpo. Tal turma possua treze alunos com, em mdia, oito anos de idade. Neste mesmo intuito, tambm comecei a acompanhar as aulas de Educao Fsica, entre os cerca de cinquenta alunos das turmas do preparatrio ao quarto ano. Na LARAMARA deixei os cursos dos adultos, que seriam mais genricos (Artes, Teatro, Dana, Yoga, etc.), para acompanhar as turmas de crianas em seus cursos mais voltados para a deficincia visual (Braille, Orientao e Mobilidade, Atividades de Vida Autnoma e Social, etc.), que so ministrados de forma integrada em grupos divididos por faixas etrias. Nesta instituio, passei a frequentar os encontros semanais de um grupo de oito jovens de em mdia treze anos, acompanhados de seus familiares, que tambm 4 Rede de pacientes com doenas degenerativas da retina, que em parceria com uma mdica geneticista da UNIFESP, fornecem as ltimas novidades das pesquisas mdicas aos seus membros. Os mdicos, em troca, possuem um amplo cadastro de pacientes que so contatados para as pesquisas. 26. 25 participam. Tais encontros me proporcionaram um contato com os pais que antes no possua. Em maro de 2010, surgiu a oportunidade de fazer aulas de braile com uma das religiosas do Instituto Padre Chico. Esta atividade foi muito interessante, pois pude experimentar a alfabetizao das crianas junto com o meu prprio aprendizado de braile usamos a mesma cartilha e tivemos vrias dificuldades semelhantes. Deste modo, o trabalho de campo foi realizado principalmente entre maro de 2008 e dezembro de 2010, quando frequentei o campo pelo menos trs vezes por semana. Neste perodo constru vnculos, familiarizei-me com os discursos, desmistifiquei pr-noes e ajustei os focos para desenvolver a organizao e a anlise final dos dados construdos. Durante o trabalho de campo fiz registros escritos e fotogrficos, descrevendo em detalhes a experincia vivida. Estes compem um documento em Word com mais de 500 pginas; e o montante fotogrfico de mais de 6.000 imagens digitais. Tambm reuni duas caixas-arquivo com materiais, como: folhetos, revistas, CDs, objetos, etc. Iniciei a elaborao do relatrio de Qualificao em Agosto de 2010. Para tanto, analisei as primeiras cinquenta pginas do meu caderno de campo. Constru fichas temticas, tais como: circulao/rede; trajetrias; dados institucionais; disciplinas corporais; fotografia; posies e papis ocupados por mim; posies e papis de deficiente visual/cego/ceguinho/cegueta; entre outras. Em seguida 27. 26 aprofundei a anlise da ltima ficha citada, transformando seus dados em problemas de pesquisa. Tal ficha temtica rendeu trs fichas-problemas: a incorporao da cegueira e/ou deficincia visual; jogando com categorias, atributos e sinais; e normatizao do corpo. As duas primeiras problemticas formaram a base do captulo apresentado no relatrio. A anlise final da massa dos dados de campo foi realizada entre janeiro e maro de 2011. Prossegui organizao dos dados a partir das fichas feitas para a Qualificao. As fichas temticas, em sua verso final, so: 1) Incorporao de categorias, atributos e sinais da cegueira e/ou deficincia visual; 2) Incorporao de tcnicas corporais; 3) Incorporao de habilidade (skills); 4) Jogando com categorias, atributos e sinais; 5) Normatizao do corpo; 6) A ordem da interao; 7) Sociabilidade; 8) Capitais e posies; 9) Circulao e rede; 10) Trajetrias; 11) Dados institucionais; 12) Outros marcadores; 13) Fotografia; 14) Posies e papis ocupados por mim; 15) Dados histricos acionados em campo. 28. 27 Aps organizar todo o material escrito nestas fichas, foi necessrio organizar os dados dentro de cada uma das fichas. Contudo, algumas fichas ficaram enormes, a primeira delas possua 121 pginas, pois acabei duplicando alguns dados que cabiam em vrias fichas. Ao organizar e analisar a primeira ficha Incorporao de categorias, atributos e sinais da cegueira e/ou deficincia visual, percebi que ela por si s era bastante rica. Tal ficha serviu de base para os captulos 1, 2, 3 e 5 desta dissertao. A ficha 4 Jogando com categorias, atributos e sinais o substrato do quarto captulo. Tambm usei alguns dados da ficha 2 Incorporao de tcnicas corporais quando descrevo o braile e a bengala no segundo captulo. Infelizmente, no consegui analisar e aproveitar todas as fichas, por conta do tempo, espero faz-lo em estudos futuros. Com relao ao material fotogrfico e fsico, iniciei sua organizao, mas no conclu a tempo. Especificamente quanto s fotografias, espero analis-las no mbito do Projeto Temtico A experincia do filme na Antropologia (Processo FAPESP No. 09/528880-9R), que participo. Iniciei propriamente a escrita da dissertao em abril de 2011. Parti das fichas que j estavam organizadas internamente por problemas a serem desenvolvidos. Mesmo assim, me afoguei nos dados, pois queria aproveitar todos. Contudo, isto era impossvel, tive de selecionar apenas os mais emblemticos. Depois desta limpeza, fui escrevendo conforme a ordem das questes das fichas, que serviram de estrutura para a dissertao. 29. 28 Concluindo os aspectos metodolgicos exponho um breve comentrio acerca da fotografia na pesquisa. Utilizei a fotografia como mtodo para a construo e expresso de dados e ainda como artefato criador de relaes, contextos e posies no campo. A construo de dados atravs da fotografia uma mtodo consolidado na Antropologia. De meados do sculo XIX at 1920, a fotografia foi utilizada principalmente com propsitos classificatrios para registrar tipos humanos. Nos anos 1930 destacam-se os trabalhos de Margaret Mead e Gregory Bateson, que conduziram um esforo de operacionalizar o uso da fotografia, procurando registrar aspectos visveis do comportamento humano que julgavam em desaparecimento. Aps tais incurses houve um esmaecimento do uso da fotografia na pesquisa antropolgica, visto a mudana de foco da temtica ligada arte e cultura material para a organizao social. Apenas no fim do sculo XX, a imagem voltou a ser problematizada mais sistematicamente pela disciplina (CAIUBY NOVAES, 2009, p.46). Nesta pesquisa utilizo a fotografia como um apoio observao de campo. Ela opera como um ver seletivo, que conduz a um primeiro recorte para a construo dos dados: um dos primeiros passos na expresso mais apurada da evidncia que transforma circunstncias comuns em dados para a elaborao na anlise de pesquisa (COLLIER, 1973, p.7). Especificamente, a fotografia me auxilia a reconstruir a sequncia temporal dos eventos pela ordem de suas tomadas, 30. 29 registrando etapas de processos; e a captar aspectos corporais ou do cenrio que so pouco verbalizados (gestos, posturas, vestimentas, organizao do espao, etc.). A cmera e seu produto, a fotografia, tambm possibilitam criar contextos, relaes e posies. Abaixo especifico tais possibilidades. Com relao aos contextos, em campo a cmera provoca situaes como: a correo da postura dos alunos pelos professores e familiares, expondo as disciplinas corporais, o padro de corpo e uma imagem que se quer construir. Ela tambm evidencia tenses entre os atores, a partir do que deve ou no ser registrado. Quanto s relaes, a fotografia pode gerar favores, trocas e reciprocidade. Em vrios casos, colegas, alunos e professores pedem-me para registrar eventos e enviar-lhes as fotos. Os mesmos tambm fotografam e enviam-me suas imagens. Algumas das minhas fotos foram utilizadas para compor material institucional e comercializadas para arrecadar fundos para a instituio. A cmera confere-me a posio de fotgrafa. Tal posio possibilita: acessos privilegiados a palcos, bastidores, etc.; circular em momentos que os atores deveriam permanecer parados ou sentados; aproximar-se mais dos protagonistas para a tomada da imagem, entre outros. Durante a dissertao exponho algumas imagens que se relacionam com o texto. Para Wolff (2004) a imagem possui quatro defeitos em relao ao texto, mas neles residem as 31. 30 suas potencialidades. Trata-se da inviabilidade de expressar o conceito, a negao, a dvida e o tempo. A impossibilidade de conceituar implica em no raciocinar, comparar, induzir, deduzir; ela no pode sobretudo explicar nada (WOLFF, 2004, p.26). Por outro lado, o que ela pode mostrar nada pode diz-lo; a escrita tem dificuldade para descrever o indivduo naquilo que ele tem de nico, tal pessoa, tal paisagem, tal ato, tal acontecimento; so necessrias longas descries incompletas e inexatas (WOLFF, 2004, p.26). O segundo defeito-potncia da imagem a inexistncia da negao: ignorando a negao, ela ignora o debate, a dialtica, a discusso, a oposio de opinies, o verdadeiro e o falso (WOLFF, 2004, p.26). Contudo, se a imagem no expressa a negao, ela expe a afirmao de modo arrebatador: o isto a imagem de um cachimbo um cachimbo; eis ento sua fora: ela pura afirmao (WOLFF, 2004, p.27). O terceiro defeito-potncia dado pela dificuldade de expressar a duvida: s conhece um modo gramatical: o indicativo. Ela ignora as nuances do subjuntivo ou do condicional. , ponto, tudo. Jamais um se nem um talvez (WOLFF, 2004, p.27). Com isso ela d um sentimento de realidade que a linguagem no d (WOLFF, 2004, p.27). O ltimo defeito-potncia a ausncia do passado e do futuro, ela tambm s conhece um tempo, o presente [...], ela ignora pretrito e futuro. Ela no pode representar o 32. 31 tempo, e isto o que faz sua fora mgica, religiosa (WOLFF, 2004, p.28). Tendo em vista as potencialidades e limitaes destas duas linguagens, procuro explorar o texto em sua dimenso conceitual, argumentativa e temporal; e utilizo as imagens para descrever situaes, ambientes e corpos, em seus detalhes e particularidades. Por fim, resumo cada um dos cinco captulos desta dissertao. Ressalto que os trs primeiros formam um bloco, desenvolvendo algumas representaes acionadas nas performances nomeadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Os dois captulos seguintes partem destas representaes para analisar suas negociaes interativas. O primeiro captulo aborda as categorias de nomeao, que so a maneira pela qual os atores representam seus personagens e os dos outros, classificando-se por meio delas e instituindo fronteiras. Procurei analisar o uso das categorias mais recorrentes em campo, tais como: cego, ceguinho, deficiente visual, baixa viso, vidente, etc.; atentando para seus aspectos histricos, suas contraposies e acionamentos em contextos especficos. O segundo captulo aborda os sinais, equipamento expressivo reconhecido e exposto principalmente para distinguir os atores na interao e gerar expectativas. Descrevo sinais como: bengala branca, co-guia, culos escuros, etc. Tambm pontuo aspectos das tcnicas corporais envolvidas no manejo de alguns equipamentos e prticas sinalizadoras. 33. 32 O terceiro captulo analisa alguns atributos acionados nestas performances. Trata-se de cristalizaes ou esteretipos qualificativos, tais como: a incapacidade, dependncia, desgraa, enfermidade, entre outros. O quarto captulo expe como os atores negociam as representaes abordadas nos trs captulos precedentes, indicando possveis rendimentos simblicos, que podem contribuir na reproduo das representaes em questo. O quinto captulo versa sobre a incorporao das representaes apontadas nos trs primeiros captulos. Neste estudo, a incorporao o reacionamento das representaes, a partir de acionamentos anteriores, que geraram um reconhecimento ntimo, atingindo as instncias do eu dos atores. Demonstro como, em grande parte, a incorporao dada em situaes cotidianas mnimas, por meio de pequenas imputaes e testes solidificados atravs da repetio. As consideraes finais procuram amarrar os argumentos dos captulos anteriores atravs de questes transversais mais gerais, que se afastam das microssituaes interativas. Tambm me permito um breve comentrio pessoal sobre a experincia desta pesquisa. 34. 33 1. Classificao de personagens: categorias de nomeao Neste captulo pretendo apresentar um dos modos de representao acionado nas performances da chamada cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos. Trata-se das categorias de nomeao. Tais categorias nomeiam padres de ao pr- estabelecidos e suas performances especficas. Os padres de ao correspondem a representaes estereotipadas, como atributos e sinais determinados, que so acionados pelos atores em suas performances. Nesta situao, as categorias so usadas pelos atores para representar seus personagens e os dos outros, classificando-se por meio delas e instituindo distines. As categorias escolhidas para este estudo so as mais utilizadas, segundo pude observar em campo. Deste modo, o trabalho de campo o guia norteador da anlise. Contudo, tal anlise no se pretende exaustiva, dando conta da totalidade das categorias empregadas. Reparei que algumas categorias podem ser intercambiveis, em alguns contextos, e outras dificilmente. De modo geral, as categorias no intercambiveis correspondem a performances distintas dos atores. 35. classificao de um ator como cego envolve o 34 Em campo, h pelo menos trs diferentes performances, que possuem diversas categorias para nome-las, abordarei neste captulo dezesseis delas. Observe o quadro a seguir: Tabela 1 Categorias de nomeao em anlise. - Cego, ceguinho, cegueta; - Anormal; - Deficiente visual, DV, portador de deficincia visual, pessoa com deficincia visual. - Vidente; - Normal; - No-deficiente. - Cego. - Meio-cego, semicego; - Baixa-viso, BV. As trs diferentes performances correspondem s trs colunas de fundo cinza. Deste modo, a primeira performance nomeada pela categoria cego; a segunda, pelas categorias baixa-viso, BV, meio-cego, semicego; e a terceira, pelas categorias vidente, normal e no-deficiente. Como sugere a tabela, as categorias da segunda linha: cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego, podem ser englobadas por uma classificao comum, que abarca e nomeia ambas as performances. Esta classificao englobante refere-se primeira clula da tabela, a nica de fundo branco. Tal configurao detalhada ao longo do captulo. Cada uma das trs performances possui, entre outros fatores, atributos e sinais especficos que so reconhecidos e imputados para haver classificao. Por exemplo, a 36. identificar justamente o que, neste nvel de 35 reconhecimento e a imputao de sinais como: bengala branca, co guia, culos escuros, etc.; e de atributos como: incapacidade, dependncia, fragilidade, etc. Tais sinais e atributos so descritos e analisados nos prximos captulos. As categorias dentro da mesma clula da tabela podem ser intercambiveis por corresponderem a uma mesma performance e podem ser contrapostas s categorias e performances da coluna ao lado. Por exemplo, a categoria cego pode ser intercambivel por deficiente visual, DV, etc. e pode se opor a vidente, normal e no deficiente. Algumas categorias e suas oposies possuem profundidades histricas semelhantes, tendo se constitudo concomitantemente. Tal correlao est exposta na tabela atravs de uma correspondncia horizontal entre os termos, sendo elas: cego versus vidente; normal versus anormal; deficiente versus no deficiente. Contudo, dentre as categorias de uma mesma coluna h situaes onde estas no so intercambiveis, apesar de remeterem a mesma performance. Como pondera Sigaud (1978), tais situaes referem-se a contextos especficos e a disputas pela nominao. A anlise a ser feita deve partir do princpio de que a pluralidade de termos no simplesmente questo de sinonmia embora ela exista e que se o trabalhador precisa de um certo nmero de termos para se classificar a si prprio e os outros porque esses termos possuem valores diferentes [...]. O importante 37. 36 anlise, no intercambivel e, portanto especfico e apontar para os contextos de sua utilizao (SIGAUD, 1978, p.8-9). No final deste captulo, desenvolvo algumas disputas e tipifico alguns contextos onde categorias que nomeiam a mesma performance no so intercambiveis. Por hora, analiso cada categoria do quadro acima atentando para trs aspectos: suas contraposies possveis; as conexes histricas s quais podem se remeter; e o contexto interativo ou os demais sentidos acionados. Tal proposta foi fundamentada na Introduo desta dissertao. As primeiras categorias da tabela so cego e as suas variaes ceguinho e cegueta , que podem ser acionadas, em campo, contrapondo-se vidente ou s demais categorias da coluna oposta. Historicamente a categoria cego possui longa durao, sendo acionada desde a Idade Antiga. Sua etimologia remete ao latim caecu (WEISZFLOG, 2007), encontrado, por exemplo, na comdia de Plauto (Sarsina, cerca de 230 a.C. - 180 a.C.)5 , na poesia de Horcio (Vensia, 65 a.C. - Roma, 8 a.C.)6 , na 5 Caeca amore est [cega de amor]. PLAUTUS, Titus Maccius. Miles Gloriosus. [S.l.]: IntraText Edition, ulogos, 2007. Disponvel em: http://www.intratext.com/IXT/LAT0549/. Acessado em: Set.2011. 6 Caecus iter monstrare vult [O cego quer mostrar o caminho]. HORCIO FLACO, Quinto. Epistulae. In: KOCHER, Henerik. Dicionrio de expresses e frases latinas. Disponvel em: http://www.hkocher.info/minha_pagina/dicionario/v04.htm. Acessado em: Set.2011. 38. 37 tragdia de Sneca (Corduba, 4 a.C. - Roma, 65 d.C.)7 e na bblia8 . De modo semelhante, a categoria vidente provm do latim homnimo (WEISZFLOG, 2007) e pode ser encontrada em contraposio ao termo cego, por exemplo, no sculo XIII, nas parbolas do Directorium humanae vitae alias parabolae antiquorum sapientum, compiladas por Joo de Cpua (Roma, 1262/1278 - ?)9 e tambm na Summa contra gentiles, de So Toms de Aquino (Roccasecca, 1225 - Fossanova, 1274)10 . 7 Caeca est temeritas quae petit casum ducem [ cega a audcia que busca o acaso como guia]. SNECA, Lcio Aneu. Agammnon. Estudo de Jos Eduardo dos Santos Lohner. So Paulo: Globo, 2009. 8 potest ccus ccum ducere nonne ambo in foveam cadent [Pode um cego guiar outro cego. Ser que eles no cairo ambos no fosso.] BBLIA. Vulgata Latina. Evangelium secundum Lucam, cap. 6, ver. 39. Disponvel em: http://www.bibliacatolica.com.br/09/49/6.php. Acessada em: out.2011. 9 Sicut duo homines, quorum unus est caecus, alter vero videns; et cum ambularent pariter per viam, ambo ceciderunt in foveam [Enquanto os dois homens, um deles cego, o outro vidente; e quando eles foram de igual modo pelo caminho, ambos caram no poo]. IOHANNES DE CAPUA. Directorium humanae vitae alias parabolae antiquorum sapientum. In: BIBLIOTHECA AUGUSTANA. Disponvel em: http://www.hs- augsburg.de/~Harsch/Chronologia/Lspost13/IohannesCapua/cap_dip l.html. Acessado em: set.2011. 10 et si est videns et caecum, quod sit videns et non videns [e se vidente e cego, para ver e no ver]. TOMS DE AQUINO. Summa contra gentiles seu liber de veritate catholicae fidei contra errores infidelium. Liber secundus. BIBLIOTHECA AUGUSTANA. Disponvel em: http://www.hs- 39. 38 Entre os exemplos mencionados, alguns deles so atribudos a agentes posteriormente considerados como autores consagrados nos campos religioso, filosfico e artstico. Assim, possvel supor que tais campos podem ter contribudo para reproduzir o uso de tais categorias. Alm disso, elas tambm so encontradas em discursos pedaggicos, mdicos e estatais (KOESTLER, 2004) , prevalecendo predominante nos mesmos at o sculo XX. Quanto ao meu trabalho de campo, segue um exemplo relativo ao emprego das categorias em questo e da contraposio citada: [Funcionrio de um instituto especializado criticando escolas especiais, na visita de apresentao do instituto] Se uma criana vidente v a cega colocando o dedinho no nariz, ela vai falar; se todos so cegos ningum vai corrigir. Neste trecho, que remete a um contexto de visitao, o ator distingue as crianas em cegas e videntes com relao correo de uma etiqueta. Dentre as categorias listadas, as prximas solidificadas referem-se ao par de oposio normal e anormal. Segundo Foucault (2009), o normal se estabelece desde o sculo XVIII, como meio de classificar e hierarquizar, sustentando homogeneidades e determinando os desviantes ou anormais. augsburg.de/~Harsch/Chronologia/Lspost13/ThomasAquinas/tho_scg 2.html. Acessado em set. 2011. 40. 39 Aparece, atravs das disciplinas, o poder da Norma. Nova lei da sociedade moderna? Digamos antes que desde o sculo XVIII ele veio unir-se a outros poderes obrigando-os a novas delimitaes; [...] a regulamentao um dos grandes instrumentos de poder no fim da era clssica. As marcas que significavam status, privilgios, filiaes, tendem a ser substitudas ou pelo menos acrescidas de um conjunto de graus de normalidade, que so sinais de filiao a um corpo social homogneo, mas que tm em si mesmos um papel de classificao, de hierarquizao e de distribuio de lugares. Em certo sentido, o poder de regulamentao obriga homogeneidade; mas individualiza, permitindo medir os desvios, determinar os nveis, fixar as especialidades e tornar teis as diferenas, ajustando-as umas s outras (FOUCAULT, 2009, p.176-177). Kim (2011, p.17), baseado em Davis (2010, p. 3-19), indica que o normal cristaliza-se com a estatstica, no sculo XIX. A estatstica elege critrios de medio e determina o normal por uma maioria representada atravs da rea central de um grfico em formato de sino; e o anormal, atravs das extremidades do grfico. A cegueira corresponde apenas a uma forma de desvio ou anormalidade. Apesar da amplitude e falta de especificidade das categorias normal e anormal, decidi mant-las na anlise por serem muito empregadas em campo. A seguir, alguns exemplos: 41. 40 [Instituto especializado] Como no ia ter reunio, perguntei para o Vincius [professor de informtica] se eu poderia assistir a sua aula. Ele disse que sim, que bacana conhecer os recursos [de informtica]. Entramos na sala, ele me colocou num computador e os alunos foram chegando. No incio da aula, o professor me apresentou, disse meu nome e que era voluntria de outro setor, a uma aluna perguntou ento, voc normal?. O professor interveio: no liga, no, a Mara fala engraado assim. Respondi a pergunta, meio sem jeito, dizendo que sou.... [Instituto especializado] Antes da aula sentei l na frente [no hall] e conversei com a Lola, moa simptica, BV [baixa viso], amiga do Antnio, uma hora ela perguntou voc normal?. Nos dois exemplos, em contextos de coleguismo, os atores acionaram a categoria normal, questionando voc normal?, para classificar um interlocutor desconhecido no cenrio de um instituto especializado. No sculo XX, outras categorias de nomeao estabilizaram-se, tais como: invlidos, incapacitados, defeituosos, deficientes, etc. (SASSAKI, 2006). Isto ocorreu principalmente nos ps-guerras, em virtude do contingente de corpos lesionados, objetos de prticas estatais-mdico- pedaggicas. Dos termos citados, excetuando deficiente, os demais praticamente no aparecem em meu trabalho de campo. 42. 41 Na dcada de 1970, configuraram-se nos Estados Unidos e Europa movimentos sociais de luta por direitos, tributrios tambm de processos associativos primrios produzidos principalmente na Igreja Catlica e na clnica, que se traduziram em grupos de ajuda mtua e posteriormente numa rede de associaes11 . Tal movimento foi encabeado principalmente pelos chamados Estudos da Deficincia, que requalificaram a categoria deficincia, contrapondo-a s demais categorias e principalmente aos discursos considerados patologizantes. Grande parte destes enunciados prope que o lcus da deficincia passe do corpo doente para a relao da pessoa com o contexto social (MELLO, 2009, p.27-28). A categoria deficiente pretende renomear cegos, surdos-mudos, aleijados e retardados, unificando-os enquanto deficientes e particularizando-os em deficincias especficas: visual, auditiva, fsica e intelectual. A seguir um exemplo do uso destas categorias em meu trabalho de campo: [Instituto especializado] A professora distribuiu bonequinhos de EVA [placa de borracha] com diferentes posturas, lembrando aqueles do [artista] Keith Haring, e pediu para os alunos acharem o par idntico. Um dos bonequinhos estava quebrado, sem um brao, a a Fernanda disse aleijado, ento Joana replicou coitado. A professora repreendeu no aleijado, deficiente fsico. 11 Informao verbal fornecida por Csar Augusto Assis Silva, em sua arguio na defesa da presente dissertao, em 17 jan.2012. 43. 42 Neste exemplo, num contexto pedaggico, a repreenso da professora, denota que a categoria deficiente fsico impe- se sobre a de aleijado, devendo substitu-la. A partir de 1980, a categoria pessoa deficiente solidifica-se vinculando nominalmente a deficincia pessoa. Nesse caso, a pessoa torna-se o locus da deficincia que a adjetiva. O ano de 1981 foi nomeado pela ONU como Ano Internacional das Pessoas Deficientes. Conforme indica Mauss (2007, p.387), a categoria pessoa est relacionada deteno de direitos na idade clssica: o cidado romano tem direito ao nomen, ao praenomen e ao cognomen, que sua gens lhe atribui; diferentemente do escravo, que no era considerado pessoa e, portanto, no possua direitos. J com o cristianismo acionou-se a unidade da pessoa perante Deus. Por fim, nos sculos XVII e XVIII, a formao do pensamento poltico e filosfico colocou a questo da conscincia individual. Neste caso, a reverberao relativa luta pelos direitos dos movimentos sociais coerente com o deslocamento da categoria deficincia para as instncias da pessoa. A pessoa, enquanto tal, detentora de direitos, por exemplo: de locomover-se, reivindicado pelos deficientes fsicos; de comunicar-se, pelos deficientes auditivos, entre outros. Alm dos direitos, a deficincia tambm colocada como um atributo individualizante da pessoa, conforme o relato abaixo: [Perfil publicado em uma rede social virtual] Talvez esse seja s mais um perfil do Orkut 44. 43 que voc est acessando, mas s voc continuar lendo e ver que no bem assim. Cada pessoa, por mais parecida que seja, no fundo, l no fundo, tem uma coisa que a torna totalmente diferente. E justamente essa coisa, que faz toda diferena. Sou deficiente visual desde os cinco anos de idade, perdi a viso devido a glaucoma congnito e catarata, mas isso nunca me impediu de ser feliz. Nos pases de lngua portuguesa houve a variao da categoria deficiente vinculada ao termo portador pessoa portadora de deficincia , que chegou a ganhar normatividade jurdica. Contudo, o termo portador foi questionado pelos movimentos sociais por aludir a carregador, argumentando-se que no se portaria uma deficincia como uma carteira de identidade, a qual se abandona a qualquer momento (MELLO, 2009, p.51). Tal termo foi substitudo oficialmente pela categoria pessoa com deficincia, em 2008, quando o congresso ratificou a Conveno sobre os Direitos das Pessoas com Deficincia da ONU. As categorias anteriormente mencionadas, deficiente e pessoa deficiente, tambm deixaram de ser consideradas como as mais adequadas pelos movimentos sociais com a cristalizao do termo pessoa com deficincia. Argumentou- se que aqueles termos tomariam a parte pelo todo, sugerindo que a pessoa inteira deficiente (MELLO, 2009, p.51). Contudo, noto que h predileo pelo termo oficial pessoa com deficincia visual principalmente em situaes 45. 44 formais, como discursos institucionais; j que em muitas outras situaes, as demais categorias so amplamente acionadas. Em contraposio categoria deficiente e suas variaes, estabelece-se a no-deficiente, que tem como referencial positivo a deficincia, definindo seu oposto pela negao. Tal operao entre os polos positivo e negativo reversa ao do par normal e anormal, onde a referncia a normalidade e sua ausncia determina o anormal. Abaixo um exemplo do emprego daquele termo: Sexualmente falando, a satisfao de 7,14% dos pesquisados exclusiva com pessoas com deficincia, enquanto 28,47% deles afirmam relacionar-se satisfatoriamente tambm com no deficientes. A maioria (64,29%) no soube responder, j que nunca teve a oportunidade de manter uma relao sexual com uma pessoa com deficincia. (CRESPO, 2006). No trecho acima, extrado do texto Devotee: Atrao por Pessoas com Deficincia, relativo a uma palestra proferida na X Conferncia Mundial da Rehabilitation International, publicada pelo site Bengala Legal (CRESPO, 2006), o termo no deficiente contraposto a pessoa com deficincia no contexto da apresentao de uma pesquisa acadmica. De acordo com a tabela apresentada, as prximas categorias a serem tratadas so meio-cego e semicego. A referncia mais antiga que encontrei remete dcada de 1920, 46. 45 quando o Sindicato dos Jardineiros Cegos de Londres, fundado em 1900 e filiado ao Instituto Nacional para Cegos, mudou seu nome para Sindicato para Promoo da Jardinagem entre os Cegos e os Parcialmente Cegos (LAGN; ROSENTHAL; SEIDMAN, 1999, p.4). Contudo, essa distino e demarcao entre cegos e parcialmente cegos parece constituir uma exceo com relao nomeao de instituies, pois de modo geral os parcialmente cegos eram abarcados por instituies denominadas para cegos 12 . A diferenciao entre cegos e meio-cegos ou semicegos dada em termos de performance, por exemplo: estes geralmente so identificados pelo uso de culos de grau e aqueles no; aqueles geralmente utilizam bengala ou co- guia e estes no, etc. Detalho as performances dos personagens nos prximos captulos. Contudo, apesar das diferenas, os ditos meio-cegos e semicegos foram englobados em instituies para cegos e tambm no havia tcnicas e especialistas solidamente estabelecidos para os mesmos. Abaixo apresento um exemplo, do meu trabalho de campo, referente diferenciao entre cego e semicego e a contraposio de ambos perante a categoria normal: 12 Conforme pode se verificar atravs dos nomes das diversas instituies citadas em: GOODRICH, Gregory L; ARDITI, Ariel. An Interactive History the low vision time line. In.: STUEN, Cynthia; ARDITI, Ariel; HOROWITZ, Amy; LAGN, Mary Ann; ROSENTHAL, Bruce; SEIDMAN, Rose. Vision rehabilitation: assessment, intervention, and outcomes. New York: Swetz & ZEITLINGER, 1999. 47. 46 [Visita de uma turma de alunos de um instituto especializado biblioteca braile de um centro cultural municipal] O funcionrio que nos atendia prosseguiu a conversa falando: muita gente me pergunta como faz para acompanhar o ensino normal, mais quem estudou em escola especial. Digo que bom que voc se integre com as pessoas. Voc tem que se tornar um cara normal. No comeo das aulas comum que queiram saber como a sua vida de cego ou semicego. Por fim, as ltimas categorias do quadro so baixa viso e sua sigla BV, que se solidificaram provavelmente na dcada de 1970, sobrepondo-se s categorias anteriormente preponderantes meio-cego e semicego , bem como possvel indistino e englobamento pela categoria mais abrangente cego. Por exemplo, o relato abaixo aponta tal indistino e a inexistncia do termo baixa viso na dcada 1960, no mbito de um instituto especializado: [Festa junina de um instituto especializado] Sr. Horcio [ex-aluno] falou quando eu estudei aqui [na dcada de 1960] no tinha essa coisa de cego e baixa viso, era tudo cego, no mximo meio-cego. Nos exemplos abaixo, de meu caderno de campo, a categoria baixa viso diferenciada de cego, tambm sendo contraposta a normal: [Em uma das minhas primeiras visitas a um instituto especializado] Cheguei, tinha que 48. 47 esperar a coordenadora, ento fui sentar no hall, onde havia alguns alunos, pedi licena para passar entre as cadeiras e a mesa e o aluno perguntou quem ?, me apresentei e puxei um papo, eles eram alunos do curso de teatro. Perguntaram se eu tinha baixa viso, disse que uso culos para astigmatismo de trs graus e meio, ento todos disseram aaaah, isso no nada. Normal., perguntei qual era o limite, mas no entenderam a pergunta, um deles disse todo mundo aqui baixa viso, ele cego, prosseguiu com trs graus e meio voc l jornal, no l? A gente no. [Sala de aula, instituto especializado] Os quadros no fundo da sala caram, Gilson veio me dizer que foi a Fernanda e a Janana, mas elas disseram que no. A ele disse de modo irnico eu vi, Janana retrucou ento o que voc est fazendo aqui?, Gilson respondeu a Fernanda no cega e est aqui; Janana, meio brava, defendeu a amiga dizendo ela baixa viso!. Por fim, mais manso, Gilson disse brincadeira Janana.... Sobre o primeiro trecho acima, em contexto de coleguismo, a fronteira instituda entre baixa viso e normal dada atravs da possibilidade de leitura do jornal. O segundo exemplo, num contexto de discusso entre colegas, aborda-se a legitimidade de estar em um instituto especializado. Gilson situa o instituto como local de cego e Janana acrescenta que alunos baixa viso tambm so 49. 48 legtimos. Deste modo, possvel verificar a distino e a contraposio entre as categorias cego e baixa viso. Como sugere a tabela apresentada, as categorias da segunda linha: cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego, que nomeiam duas performances distintas, podem ser englobadas por uma classificao comum, relativa primeira clula da tabela. Esta classificao corresponde e nomeia ambas as performances atravs de seus termos. A seguir detalho aspectos deste englobamento. Mencionei anteriormente que at por volta da segunda metade do sculo XX havia uma pouca distino performativa e institucionalizada entre os ditos cegos e meio-cegos ou semicegos, que permitia tambm o abarcamento destes termos por aquele, ou seja, o meio-cego podia ser classificado de modo geral como cego. Os prprios termos meio-cego e semicego so tributrios da categoria cego e sugerem uma distino parcial. Contudo, posteriormente houve uma maior institucionalizao de distines entre cego e meio-cegos ou semicegos e outra categoria despontuou baixa viso. Apesar de desconhecer instituies pedaggicas ou associaes especficas de ou para baixa viso, estabilizaram-se alguns setores mdicos como a ortptica, algumas tcnicas como a escrita ampliada e algumas tecnologias, como os ampliadores. Alm disso, a terminologia desvincula-se do termo cego, atrelando-se a uma reduo da viso, que passa a ser o referencial nominal. 50. 49 A categoria baixa viso solidificou-se concomitantemente a cristalizao do termo deficiente visual, sendo que este apresentou ainda uma pretenso estrategicamente aglutinadora daquela categoria, bem como da categoria historicamente anterior, cego. Nesta conformao, cego contraposto a baixa viso, mas ambos esto contidos ou podem ser deficientes visuais. Abaixo indico um exemplo onde a categoria deficiente visual engloba a diferenciao entre cego e baixa viso: Figura 1 Site da ONG Grupo Terra. Exemplo do uso da categoria visual englobando cego e baixa viso. 51. 50 Na imagem acima, do site de uma ONG do circuito que organiza atividades de lazer, a pergunta voc uma pessoa com deficincia visual? tem como resposta sim, sou cego e sim, tenho baixa viso, situando, portanto, as categorias cego e baixa viso enquanto pessoa com deficincia visual. Ainda nesta situao relativa a passeios, a necessidade de guia tambm um divisor, pela ausncia de opo pressupe-se que cego necessariamente precisa de guia e baixa viso poderia tanto precisar quanto no precisar. Com relao s outras deficincias, noto que essa pretenso englobante no ocorreu, por exemplo: os termos retardado e aleijado foram rechaados pelos movimentos sociais como categorias de nomeao, excludos das categorias oficias e no foram incorporados como subdivises internas das categorias deficiente intelectual e deficiente fsico. J o termo surdo tambm no foi englobado pelo termo deficiente auditivo, mas foi reapropriado para forjar a surdez enquanto particularidade etno-lingustica13 . Por hora exponho algumas diferenas e incongruncias entre categorias que podem ser intercambiveis por remeterem a uma performance similar. Refiro-me s categorias que compartilham a mesma clula da tabela apresentada. Abaixo explicito disputas e tipifico contextos onde tais categorias no so equivalentes. 13 Para detalhes ver: ASSIS SILVA, Csar Augusto. Entre a deficincia e a cultura: anlise etnogrfica de atividades missionrias com surdos. So Paulo: USP, PPGAS/FFLCH, 2010. 52. 51 De modo exemplar, aponto o embate entre deficiente visual e cego, incluindo seus termos derivados, enquanto categorias englobantes de nomeao que abarcam as performances nomeadas pelas categorias cego, baixa viso, BV, meio-cego e semicego. Conforme j explicitado, a categoria deficiente visual e suas derivadas solidificaram-se principalmente atravs dos discursos dos movimentos sociais pelos direitos a partir da dcada de 1970, suplantando cego enquanto categoria oficial do estado. A seguir um exemplo: Devero ser instaladas sees nas vilas e povoados, assim como nos estabelecimentos de internao coletiva, inclusive para cegos e nos leprosrios onde haja, pelo menos, 50 (cinqenta) eleitores. (BRASIL, 1965) As urnas eletrnicas, instaladas em sees especiais para eleitores com deficincia visual, contero dispositivo que lhes permita conferir o voto assinalado, sem prejuzo do sigilo do sufrgio. (BRASIL, 2004). O primeiro trecho, extrado do Cdigo Eleitoral de 1965, utiliza apenas o termo cego, que aparece outras dez vezes neste documento. Contudo, em alteraes feitas posteriormente, como indica o segundo trecho referente Resoluo n 21.633 de 2004, do Tribunal Superior Eleitoral, a categoria preponderante deficiente visual. A categoria deficiente visual e suas derivadas tambm so preferencialmente empregadas entre as instituies 53. 52 especializadas, que nasceram no bojo dos movimentos sociais. O prprio nome destas instituies exemplifica tal situao: a LARAMARA - Associao Brasileira do Deficiente Visual, que foi fundada neste contexto, durante a dcada de 1990, utiliza a categoria referida; j o Instituto de Cegos Padre Chico, inaugurado em 1929, e a Fundao Dorina Nowill para Cegos, constituda em 1946, utilizam o termo historicamente anterior. Quanto ao trabalho de campo, noto que a categoria deficiente visual e suas derivadas so preponderantes nos discursos que remetem luta pelos direitos: [Reunio entre representantes de instituies especializadas] Jonas [diretor de um movimento poltico] disse: sentimos a necessidade de criar esse movimento porque achamos que o deficiente visual tem que ser mais ativo, procurar fazer as coisas acontecer. Sabemos nossas necessidades, num trabalho em comum com vocs, em tantas reas que vocs j desenvolvem, acredito que o papel do deficiente visual falta pr-ao; O movimento vem para contribuir com todos vocs, estar nas entidades, junto ao poder pblico e exigir direitos. Ns, como deficientes visuais, agentes principais dessa luta, ns temos que estar juntos, contribuir para que isso acontea. Se resolvesse o problema do deficiente criar entidades, no estaramos nessa, para a incluso sair do papel. (grifos nossos). 54. 53 No trecho acima, entre parceiros institucionais, o ator utilizou a categoria deficiente visual relacionando-a a exigncia de direitos e a luta poltica. A categoria deficiente visual e suas derivadas so acionadas como politicamente corretas perante a categoria cego e suas derivadas, que so postas como inadequadas, retrgradas e depreciativas. Neste sentido, pode haver algum constrangimento em utilizar estes termos, conforme denotam os exemplos abaixo: [Aguardando amigos no metr para irmos a uma festa] Anselmo falou que podia deixar que ele ia dirigindo e perguntou voc nunca viu ceguinho dirigir?, falei que vi na TV, me referia ao programa Myth Busters, ele falou com software, eu falei no, era ceguinho mesmo. A o Jos disse em tom marcado e prolongado ceeeeeeguiiiinhoooo?. Tomei uma chamada, respondi que s estava usando aquele termo, porque era o que j tinha sido dito e ele falou algo como ah bom. [Instituto especializado, antes da aula] Leonardo disse que no gosta do termo cego, disse que acha pejorativo, Priscila concordou, falam seu cego [como xingamento], Leonardo disse que prefere deficiente visual. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, o ator foi repreendido por usar o termo ceguinho, considerado inapropriado. 55. 54 No segundo trecho, num contexto de coleguismo, o termo cego colocado como pejorativo e como um xingamento seu cego, motivo da predileo pela categoria deficiente visual. Contudo, o termo cego e seus derivados so preponderantes em diversas situaes, tais como em contextos onde os atores acionam representaes e disposies religiosas. Isso ocorre possivelmente em virtude da relao histrica desta categoria com o campo religioso, brevemente mencionada no incio deste captulo. A seguir, apresento um exemplo do meu caderno de campo: [Reunio entre representantes de instituies especializadas] Elias: eu falo cego, tem gente que acha rude. Deficiente todo mundo , ningum tem todos os sentidos funcionando 100%, eficiente s Deus. Neste trecho, entre parceiros institucionais, o ator afirmou predileo pela categoria cego, restabelecendo a igualdade de todos perante Deus, o que pode relacionar-se ao universalismo catlico. A categoria cego tambm preponderante em situaes de mendicncia e de solicitao de ajuda ou favor, conforme exemplifica o trecho abaixo: Estava parada no farol para cruzar a avenida, veio um homem cego segurando bengala, acompanhado por uma mulher vidente, pedir esmola. Ambos usavam camisetas escritas com sou cego, mas voc que no me v. 56. 55 No exemplo acima, num contexto de mendicncia, a categoria usada na camiseta dos pedintes era cego, referindo-se a uma invisibilidade social. Os contextos ofensivos ou afetivos so outras situaes onde a categoria cego e suas variantes tambm parecem predominantemente acionadas. A seguir alguns exemplos: [Instituto especializado, antes de comear o atendimento] A me do Thiago contou que essa semana, na escola, chamaram ele de ceguinho, deram murro na barriga dele. [Instituto especializado, oficina de Orientao e Mobilidade] Professor: aqui vamos chamar de ceguinho, mas de uma forma muito carinhosa. Figura 2 Publicao em rede social virtual. Exemplo do uso da categoria cego e variaes em contexto de proximidade. 57. 56 No primeiro exemplo, referente a um contexto pedaggico, a me do aluno aciona a categoria ceguinho atrelando-a a agresso fsica. No segundo exemplo, num contexto pedaggico, o professor indica a utilizao da categoria ceguinho expressando carinho. No ltimo exemplo, no contexto de uma rede social virtual, a mensagem publicada utiliza a categoria deficincia de forma impessoal. Contudo, j o primeiro comentador aciona a categoria cego em ingls, precedido por uma variao do termo amigo, denotando a proximidade entre os atores. O ltimo comentrio utiliza a categoria cegueta relacionando-a a um vnculo afetivo, apaixonar-se. Ainda sobre a utilizao das categorias deficiente visual e cego, segue um exemplo sobre a comparao dos termos: [Instituto especializado] Henrique falou que concorda com Geraldo Magela [humorista cego] pessoa com deficincia visual parece bandido, sou cego e pronto. A, Jonas falou tem gente que no gosta sou cego, Mrcia prosseguiu de se admitir como cego. No trecho acima, num contexto de coleguismo, a categoria cego remete aceitao sou cego e pronto, se admitir como cego. Em contraposio, pessoa com deficincia visual colocada quase como um eufemismo, uma polidez. A meno bandidagem pode relacionar-se ao fato de pessoa com deficincia visual ser a principal categoria 58. 57 burocrtico-estatal, como aquelas empregadas para relatar ocorrncias policiais. Assim, a categoria deficiente visual considerada oficial, polida, sendo empregada em contextos institucionais e impessoais. J a categoria cego considerada ofensiva ou afetiva, sendo utilizada em vrios contextos religiosos, de caridade, ajuda ou mendicncia. De maneira geral, este captulo procurou abordar dezesseis das principais categorias de nomeao relativas a trs diferentes performances, apontando aspectos histricos, suas contraposies e acionamentos em contextos especficos. Conforme explicitado, tais categorias nomeiam performances e personagens, sendo acionadas, dentre as possibilidades disponveis, levando em conta a imagem que se tem de si e a que se imputa ao outro em determinado momento. Nos captulos seguintes detalho aspectos das trs diferentes performances citadas, abordando, em especfico, seus sinais distintivos e seus atributos qualificativos. Estes tambm foram organizados em funo das categorias acima expostas. 59. 58 2. Identificao de diferenas: sinais distintivos Neste captulo prossigo apresentando as representaes das performances nomeadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia, entre outros termos, abordando seus sinais distintivos. A partir das proposies de Goffman (2009), considero os sinais como equipamento expressivo, que pode ser reconhecido e exposto na interao, compondo as performances dos atores, muitas das quais ligadas a um padro de ao pr-estabelecido. Como consequncia, os sinais distinguem os atores, subsidiando a classificao e a criao de expectativas. Os sinais se encontram em dois principais suportes: no cenrio e no corpo. O cenrio integra os elementos que mobliam e decoram o palco, local onde se passa o ato da interao. Do mesmo modo, os corpos dos atores tambm possuem adornos simblicos. Tais elementos podem ser expostos e reconhecidos, conformando sentidos interao. Assim como as categorias, os sinais tambm so vazios e arbitrrios, exigindo analis-los no contexto interativo das demais representaes em jogo. Alm disso, os sinais so frequentemente acionados em conjunto, de forma relacional e cruzada um sinal pode confirmar, complementar ou contradizer o outro, em uma dada situao. Observo tambm 60. 59 que h sinais mais ou menos conclusivos, que necessitam ou no da confirmao por outros sinais no corpo e no cenrio. Logo, quanto mais sinais num mesmo direcionamento, mais conclusivos so os seus sentidos. Ressalto que o levantamento realizado no se pretende exaustivo ou compondo uma totalidade, mas corresponde eleio dos sinais considerados mais relevantes, conforme pude apreender em campo. A tabela abaixo est organizada em funo da diferenciao dos sinais relativos s trs diferentes performances nomeadas pelas vrias categorias analisadas no captulo anterior. Tabela 2 Sinais em anlise. Cego e derivados; anormal; deficiente visual e derivados Vidente; normal; no-deficienteCego Baixa-viso, BV, meio-cego, semicego Bengala branca Co-guia Escrita braile Olhos anormais culos escuros - Escrita em tinta ou em vidente ampliada Olhos anormais culos de grau grossos Lupas - Escrita em tinta ou em vidente Olhos normais - 61. 60 Por hora, desenvolvo os sinais listados a partir das suas correspondncias horizontais. Os primeiros sinais, das trs colunas, referem-se locomoo. Iniciando pela coluna da esquerda, a bengala branca seria um dos sinais mais conclusivos da cegueira, dispensando outros sinais para identific-la. Alm disso, este sinal reconhecido por atores de modo geral, como senso comum, sendo acionado, inclusive, no smbolo internacional de pessoas com deficincia visual da Associao Brasileira de Normas Tcnicas: Figura 3 - Smbolo internacional de pessoas com deficincia visual. (ABNT, NBR 9050, 2004, p.19) A bengala branca pode ser identificada de modo visual, ttil ou auditivo. Visualmente, a sua cor branca e seu formato fino e comprido so aparentes a vrios metros de distncia. De forma ttil, para alm do formato, percebe-se o elstico e a empunhadura emborrachada. De modo auditivo, h o som correspondente a sua abertura, onde as partes articuladas se encaixam e a sua ponta toca o cho; e, o som relativo ao uso na locomoo, onde a bengala batida ou deslizada de um lado para o outro no solo, conforme o andar do ator. A seguir, alguns exemplos onde a bengala acionada como sinal para cego e deficiente: 62. 61 [Reunio de um movimento poltico] Ebert contou que foi muito mal tratado no Rei do Mate [lanchonete] do Shopping X. Disse que chegou l com a Ju [sua namorada] e com a Ruth [uma amiga], pediram cardpio em braile, porque lei. A a atendente trouxe o normal, ele at passou para Ju ver se no era ele que estava sem sensibilidade e falou p, a mulher viu que eram cegos, a Ju e a Ruth estavam de bengala. Ento chamou a atendente e meio reclamou algo como isso que voc me d?, a Ruth at disse voc sabe o que braile?. Apesar de achar ruim, porque vai formando fila atrs, ele foi perguntando: voc tem caf com leite? e ela dizia s tem, no falava o preo, tamanho e nem nada. Finalmente fez o pedido e falou para ela levar na mesa. Foram se sentar, a mesa estava toda suja, a Ju tateou e se sujou. Demorou, mas o lanche chegou; a atendente entregou e saiu, nem explicou o que era o que; eles trocaram as bebidas e a Ju quando foi pegar o copo de po de queijo, derrubou quase metade no cho; foi um desastre total, concluiu. [Conversa por telefone com um amigo] A gente que no usa bengala, [as pessoas] pensam que normal. No banco tenho que mostrar a carteirinha, seno eles vm falar que fila de idoso e deficiente. No primeiro trecho, referente a um contexto comercial, o ator cita a bengala como o artefato responsvel por sinalizar que os atores eram cegos, conforme indica a frase: p, a 63. 62 mulher viu que eram cegos, a Ju e a Ruth estavam de bengala. Apesar do suposto reconhecimento da cegueira atravs deste sinal, o ator julgou que a atendente no lhe ofereceu tratamento adequado, frustrando suas expectativas e culminando num desfecho desastroso. No segundo trecho, tambm referente a um contexto comercial, o ator menciona que a ausncia da bengala impede sua identificao enquanto deficiente, sendo necessrio um atestado oficial, a carteirinha. Desta forma, o ator aponta a bengala como um fator decisivo para performar a deficincia, no contexto citado. Como mencionado, este sinal vincula-se locomoo. No caso, a bengala no fundamenta o ato de andar propriamente, mas institui uma locomoo segura, antecipando obstculos para que o ator previna-se, conforme indica o exemplo abaixo: [Curso de tcnicas da bengala] Professor: a bengala te d segurana. Voc sempre est um passo antes do obstculo e pode desviar, descer um degrau com cuidado. Alm da locomoo, a bengala tida como tendo 1001 utilidades: [Domingo, caminhada num parque com amigos] Reinaldo usou a bengala para medir a profundidade da lagoa. A, Elza aproveitou para puxar um saquinho plstico que caiu na gua. Tais falou bengala 1001 utilidades. Tambm notei que o Reinaldo usava a 64. 63 bengala de cajado na parte ngreme do percurso. [Instituto especializado, momentos antes da aula] Lia contou que o Juliano deu uma bengalada na perna dela [aps uma discusso], mostrou-me o vergo. [Instituto especializado, antes de dar o sinal] George trouxe aquela sua bengala, que abre diferente. Eu fui mexer, mas no conseguia abrir. Ele mostrou como abria e disse que seu professor de informtica falou que tambm d para jogar bilhar. No primeiro trecho, num contexto de lazer, a bengala aparece como medidor de profundidade, vara para pegar objetos e cajado. No segundo trecho, no contexto de uma briga, tal equipamento acionado como arma. Por fim, no terceiro trecho, num contexto de coleguismo, ela citada como instrumento de jogo. Estes trechos exemplificam algumas prticas possveis, em diferentes situaes. O uso da bengala prescrito por tcnicos autorizados em institutos especializados, que possuem legitimidade e domnio sobre esse saber. A disciplina institucional que confere normatizao das tcnicas corporais necessrias intitula-se Orientao e Mobilidade, comumente chamada pela sigla O.M. [Conversando com um amigo pelo telefone] Perguntei se no era bom usar bengala nessas situaes onde as pessoas no o identificam como deficiente. Ele disse que foi fazer O.M., 65. 64 mas que o professor do curso disse que ele no precisava de bengala. [Oficina de Orientao e Mobilidade, num instituto especializado] Professor: o ideal comear o mais cedo possvel, acabei de receber uma bengalinha de 60 cm. Mobilidade para criana pequena da mesma forma quando a criana pega o giz para desenhar, vai movimentar mais o ombro do que a mo, o estgio natural psicomotor; a bengala tambm vai virar brinquedo. No curso de 3 meses, mas de 5 anos, a criana com a bengalinha vai demorar 6 anos para adquirir a tcnica adequada para andar sozinha. A maturidade tambm necessria para saber que tem que pedir ajuda na rua. No primeiro trecho, num contexto de coleguismo, o ator indica que o tcnico do instituto o responsvel pela prescrio ou no da bengala, em funo da necessidade avaliada por ele. No segundo exemplo, num contexto pedaggico, o especialista fornece algumas explicaes tcnicas direcionadas criana pequena, como o tamanho da bengala, a durao do treinamento, idade adequada para comear, etc. A seguir exponho alguns trechos de uma srie de aulas do curso de Orientao e Mobilidade que pude acompanhar. As aulas eram individuais e, no caso, consistiam basicamente em andar pelas ruas prximas ao instituto. 66. 65 Cssia [professora]: voc pe a bengala para direita e o p direito, bengala para esquerda e p esquerdo, mas no pode robotizar. Cssia falou pra mim ela est tensa e imitou os movimentos da Tati com punhos fechados, braos meio tensionados e cara amarrada. Cassia para Tati: Abre um pouquinho mais; para mim explicou: a abertura da bengala tem que ser um pouco maior que a largura dos ombros, pra pegar tudo [a abertura refere-se ao quanto bengala deve se movimentar horizontalmente, para a direita e para a esquerda]. Cssia disse que h dois tipos de ponteiras de bengalas: a roller e a fixa; roller percebe mais, a fixa era mais antigamente. Tatiana argumentou que teve uma bengala roller, que quebrou, ento voltou para essa e acha melhor. Mas a professora discordou: essa a mais difcil, a outra s desliza, no corre o risco de bengala alta, cansa menos e detecta mais. E depois relativizou h 5 anos no existia a roller, uns gostam, outros no, j se adaptaram com a outra, que nem carro automtico e carro manual. Cssia para mim: O cego tem que ficar sempre no lado oposto da rua. Tentar ficar do lado oposto, no para grudar na parede; pode ter cachorro que late no porto e te pega. 67. 66 Cssia desviou a Tati de um coc de cachorro, que provavelmente ia pisar. Alguns passos frente, Tati no pisou num outro coc por um triz, Cssia disse o anjo da guarda sopra. Cssia: Para saber que est na esquina tem o barulho do carro que agora vem na sua frente; a densidade do ar; muda a direo do vento; e a referncia da parede, em boa parte dos casos, tem ngulo. Mas podem pensar que a guia um degrau, por isso tem que prestar muita ateno. As situaes acima, em contextos pedaggicos, detalham tcnicas corporais e disciplinares na utilizao da bengala: posturas, manuseio, posicionamento no espao, etc. Tais tcnicas solidificam uma performance, que tambm reconhecida e exposta na interao. Caso a bengala no seja empregada conforme o esperado, pode gerar contradies e problemas interativos. Ainda quanto bengala, a relao com a mesma pode manifestar dimenses de afetividade e intimidade, conforme os exemplos abaixo: [Instituto especializado, grupo de pr- adolescentes] Thiago contou que ficou sem bengala essa semana, porque ela quebrou, disse foi ruim ficar sem a minha Gabizinha. [Saindo de um instituto especializado] Perguntei do co-guia, Henrique disse que foi numa palestra e disseram que custa uns 400 reais por ms; mais limpar coc e ver se no 68. 67 t faltando comida. Disse que prefere sua Tina [referindo-se bengala]. Ambos os exemplos indicam uma personificao feminina da bengala. No primeiro trecho, o uso do diminutivo, minha Gabizinha, pode remeter afetividade. No segundo exemplo, Tina corresponde no s a um nome, mas a um apelido, o que denota intimidade. Tais personificaes foram acionadas em situaes ligadas perda ou substituio da bengala, foi ruim ficar sem ficar sem a bengala constitui uma exceo. Assim, possvel supor que tal afetividade e intimidade provm justamente do uso constante e do vnculo construdo com esse instrumento. O prximo sinal a ser detalhado o co-guia. Tal como a bengala, este sinal: vincula-se locomoo; dispensa outros sinais na identificao do ator enquanto cego ou demais classificaes; conclusivo por si s; e reconhecido de modo geral, como um senso comum. O co-guia pode ser identificado visualmente por sua silhueta, possuindo bastante visibilidade, se comparado maioria dos outros sinais. Tambm reconhecido sonoramente pelo som de sua respirao e andar. De modo ttil, os pelos, a temperatura morna e o formato so peculiares. Diferentemente da bengala, ele no pode ser guardado e dificilmente camuflado. A seguir um exemplo onde o co-guia acionado como sinal para a identificao e classificao de uma boneca enquanto cega ou demais termos correlativos: 69. 68 Figura 4 Boneca "cega" com co-guia. A boneca acima foi comercializada em um estande da Reatech 2011 Feira Internacional de Tecnologias em Reabilitao, Incluso e Acessibilidade14 . Trata-se da 14 Para maiores informaes sobre a feira consultar: ASSENSIO, C.; ASSIS SILVA, C.; CAVALHEIRO, A. M.; MENDONCA, T.; ZAVARIZE, L. Etnografia coletiva da X Reatech: Feira Internacional de Tecnologias 70. 69 representao de uma menina ruiva, de vestido florido, que pode ser reconhecida como cega atravs dos sinais co- guia e culos escuros. Alm disso, o cenrio da feira especializada agrega sentido. Assim como a bengala, o co-guia vincula-se locomoo segura. Por conta desta paridade pode haver algumas disputas, como denotam os exemplos abaixo: [Durante a aula de Orientao e Mobilidade] Tati comentou sobre o co-guia: no tenho segurana que o animal vai me levar para o lado certo. [Reunio do Conselho Estadual da Pessoa com Deficincia] Conversando com Cludio sobre seu co-guia, ele disse que o co melhor que a bengala, porque com a bengala voc no est protegido da cintura para cima, contra os obstculos areos, tipo orelho e caixa de correio. No primeiro trecho, num contexto pedaggico, o ator defende a bengala argumentando que o condutor animal no transmite segurana. J o segundo trecho, num contexto de coleguismo, o ator expe vantagens do co-guia quanto proteo perante obstculos areos do percurso. em Reabilitao, Incluso e Acessibilidade. Ponto.Urbe (USP), v. 8, p. 6, 2011. Disponvel em: http://www.pontourbe.net/edicao8- etnograficas/181-etnografia-coletiva-da-x-reatech-feira-internacional- de-tecnologias-em-reabilitacao-inclusao-e-acessibilidade. Acessado em: set.2011. 71. 70 Conforme indica o trecho abaixo, o co-guia no considerado um cachorro um animal , mas um instrumento. Por isso, ele pode estar presente em circunstncias onde cachorros geralmente so impedidos: [Visita monitorada ao Zoolgico, com os alunos de um instituto especializado] Uma aluna veio contar professora: tinha um cachorro no banheiro. A professora respondeu perguntando um cachorro ou um co-guia?. No caso, era um cachorro mesmo. Tal situao foi regulamentada pela Lei n 11.126, de 27 de Junho de 2005, parcialmente transcrita abaixo: assegurado pessoa portadora de deficincia visual usuria de co-guia o direito de ingressar e permanecer com o animal nos veculos e nos estabelecimentos pblicos e privados de uso coletivo, desde que observadas as condies impostas por esta Lei. (BRASIL, 2005). O trecho acima autoriza a presena do co-guia em locais onde cachorros no necessariamente so permitidos. O termo usurio tambm situa o co-guia como um instrumento de uso. H instituies especializadas que dominam a seleo e a normatizao dos ces-guia e seus usurios. Tais instituies, em geral, so filantrpicas pr-requisito para filiarem-se Federao Internacional das Escolas de Ces Guias, que alm de congregar tais instituies, confere 72. 71 reconhecimento e legitimidade a cada uma delas. Os ces tambm costumam ser fornecidos gratuitamente aos usurios: A ACGC (Associao Co-Guia de Cego) no comercializa ces-guia. Somos uma entidade filantrpica. Nossos ces-guia so fornecidos gratuitamente aos deficientes visuais, h mais de 20 anos. As despesas dos nossos ces so custeadas por doaes e parcerias, por pessoas fsicas ou jurdicas, que so intitulados carinhosamente de: "padrinhos ou madrinhas. Esses valores so efetuados atravs de cotas de patrocnio ou doaes. Nunca comercializamos ces-guia, pois, nossa misso a ampliao da incluso social atravs de ces-guia ofertados gratuitamente aos usurios. (ASSOCIAO CO-GUIA DE CEGO, 2011). Algumas raas caninas so consideradas mais apropriadas para serem ces-guia. A seguir, alguns exemplos a este respeito: Dentre as raas caninas a mais utilizada para o servio de guia, o Retriever do Labrador e o Golden Retriever se destacam por apresentar um bom carter, e capacidade de se adaptarem s diversas situaes, fiis, inteligentes e de natureza amigvel, mas principalmente pela docilidade, sem qualquer trao de agressividade ou timidez exagerada. (PROJETO CO-GUIA DE CEGO, 2011). 73. 72 [Instituto especializado] Thiago contou que ganhou um rottweiler. Rolou um burburinho geral entre as mes nossa, um rottweiler!. Ento, Camila [pedagoga] falou eles costumam ganhar um labrador. Fabola [me do Thiago] disse que eles tinham um pitbull que morreu filhote picado por uma cobra, mas era um amor de cachorro. O primeiro trecho, extrado do site institucional do Programa Co-Guia de Cego do Governo Federal, expe as raas caninas indicadas para serem ces-guia de acordo principalmente com seu carter, que pode ser resumido em: fidelidade, inteligncia e docilidade. O segundo trecho, extrado do meu caderno de campo, referente a um contexto de coleguismo, indica o labrador como raa usual e o rottweiler, como no usual. Para adquirir um co-guia no Brasil o interessado cadastra-se nas instituies e aguarda, por vezes, anos, para ser chamado. Tambm possvel cadastrar-se em instituies americanas, que so mais numerosas e produzem mais ces- guias do que as brasileiras. Contudo, necessrio pagar pelas passagens. Quanto normatizao do co-guia e do dono, seguem trechos do discurso institucional de uma das escolas especializadas: A formao de um Co-Guia tem incio com um rigoroso processo de seleo gentica e comportamental. Depois de selecionado, prximo aos trs meses, o co inicia a fase de 74. 73 socializao, que se estende at, aproximadamente, o animal completar um ano de idade. Esta fase pode ser conduzida pelo treinador ou por uma famlia voluntria, que cuida do animal no seu primeiro ano de vida. Durante este processo o co aprende a conviver em ambiente social, urinar e defecar apenas em locais apropriados e alguns comandos bsicos para o convvio. Terminada a primeira fase, inicia-se o treinamento especfico, com durao aproximada de sete meses, podendo se estender caso necessrio. Nos primeiros seis meses, o co aprende a desviar de obstculos, perceber o movimento do trnsito, identificar objetos, encontrar a entrada e sada de diferentes locais, entre diversas outras atividades. No ltimo ms realizado o treinamento para transformar a dupla composta pelo co-guia e seu usurio em um time que interagir com a mais perfeita harmonia. O tempo total de treinamento de aproximadamente 16 meses, podendo se estender at 21 meses. Depois de treinados, os ces-guias identificam o movimento do trnsito, desviam de buracos, encontram as entradas e sadas de diferentes locais, localizam banheiros, escadas, elevadores, escadas rolantes, cadeiras, desviam de obstculos altos, evitando que pessoas com deficincia visual batam com a cabea, entre