Com outros olhos: um estudo das representações da "cegueira" e/ou "deficiência visual"

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    19-Dec-2014

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<ul><li> 1. UN,IVERSIDADE,..,DE SO PAULO PROGRAMA DE POS-GRADUAAO EM ANTROPOLOGIA SOCIAL ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual </li></ul><p> 2. ANDREA DE MORAES CAVALHEIRO Com outros olhos um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual Dissertao apresentada ao Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. (O exemplar original encontra-se disponvel no Centro de Apoio Pesquisa Histrica da referida Faculdade e na Biblioteca Digital de Teses e Dissertaes da USP). rea de concentrao: Antropologia Social Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes VERSO CORRIGIDA So Paulo 2012 3. Autorizo a reproduo e divulgao total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio convencional ou eletrnico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte. Catalogao da Publicao Servio de Biblioteca e Documentao Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo 4. CAVALHEIRO, Andrea de Moraes. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. Dissertao apresentada ao Programa de Ps- Graduao em Antropologia Social da Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas da Universidade de So Paulo para a obteno do ttulo de Mestre em Antropologia. Orientadora: Prof. Dr. Sylvia Caiuby Novaes Aprovado em: Banca examinadora Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: Prof.(a) Dr.(a) Instituio: Assinatura: 5. s minhas avs, Elza e Ivone, e ao meu av Horcio (in memorian), por terem me criado, serem grandes referenciais e portos seguros. Nunca vou conseguir agradecer a altura. 6. Agradecimentos minha orientadora, Sylvia Caiuby Novaes, por abrir as portas da Antropologia e por acreditar neste trabalho. Muito obrigada pelo apoio, incentivo e ensinamentos imprescindveis. FAPESP pela bolsa concedida. Aos colegas do LISA/USP, principalmente Francirosy Ferreira, pelas discusses, aconselhamentos e amizade. Aos pesquisadores do NAU/USP, especialmente ao professor Jos Guilherme Magnani pelas contribuies em meu exame de qualificao; ao Csar Augusto de Assis Silva, coordenador do Grupo de Estudos Surdos e da Deficincia, pela amizade e imensa colaborao no amadurecimento terico- metodolgico deste trabalho; e por fim, Cibele Barbalho Assnsio, pelas discusses e apontamentos. professora Paula Montero pelas contribuies em meu exame de qualificao e por ter mudado a minha forma de olhar o mundo. Aos colegas do PPGAS/USP, que me acompanharam nessa empreitada, sobretudo ao Andr Drago Andrade, Carlos Gutierrez, Fbio Mallart, Giancarlo Machado, Rafael Adriano Marques, Rosenilton Oliveira e Samantha Gaspar. Magdalena Gutierrez e Camila Guerreiro por compartilharem os primeiros passos na Antropologia e no Trabalho de Campo. Aos meus amigos da Histria e do Departamento do Patrimnio Histrico, David Sampaio, Felipe Dias Carrilho, 7. Fernanda Menezes, Helenice Diamante, Laura Souza, Marina Galvanese e Maurcio Rodrigues, afinal, os cargos passam, a amizade fica, obrigada por permanecerem. Em especial Maria Lcia Perrone de Faro Passos, Malu, querida chefe, professora, conselheira e amiga, obrigada pela considerao, histrias e lies preciosas. famlia Berro, pela convivncia nos ltimos nove anos, em especfico Ruth e Julia pela amizade e carinho. direo e coordenao do Instituto de Cegos Padre Chico, Irm Helena Mariano, Ana Maria Pires e Anna Maria Miceli, obrigada pelo acolhimento e concesso para realizar esta pesquisa. A todos os professores, tcnicos e funcionrios do Instituto Padre Chico que admiro pela competncia, dedicao e unio. Especialmente Isabel Bertevelli pela amizade e por viabilizar esta pesquisa de muitas formas. Adriana Nascimento, Vanessa Vesterman e Rafael Silva pela oportunidade e confiana. s minhas professoras de braile, Irm Apoline Camargo e Irm e Madalena Marques, pelos ensinamentos. Aos alunos e familiares do Instituto Padre Chico, pelos sorrisos, abraos e amizade, vocs moram no meu corao. coordenao da LARAMARA, Eliana Ormelezi, Ceclia Maria Oka e Erica Cristina Takahashi da Silva por possibilitarem a realizao deste trabalho e pelo dilogo. Agradeo a todos os especialistas e funcionrios da LARAMARA, que admiro pelo empenho e entusiasmo, em particular Regina Versoa, Elisa de Oliveira, Ana Carolina Loschiavo e Silverlei Vieira. 8. Aos alunos e familiares que convivi na LARAMARA, pela amizade, risadas e alegria. Sobretudo ao Alexandre, Jovana, Eduardo, Erica e Marines Almeida. Aos amigos do Movimento Livre, Erici Honrio, Fbio dos Santos, Irene Pereira, Rosaura Louzzano, Regina Clia Ribeiro, Ricardo de Melo, William Rodrigues e Wilma Teixeira. Principalmente Marly Solanowski pelos ensinamentos e debate do meu relatrio de qualificao; e ao Renato Tadeu Barbato pela amizade e discusses. s minhas grandes amigas de infncia, Ana Helena Tokutake, Ana Julia Kiss, Juliana de Faria, Luciana Kaori Shintani e Regiane Ishii, com quem compartilhei minha juventude, minhas utopias, minhas decepes e meu crescimento. Vocs so HUGES. Ao tio Lus Claudio, tia Mrcia e ao primo Mrcio Cavalheiro, pelo carinho e preocupao. Aos meus pais, Mauro e Tais Cavalheiro, pelo amor e educao, por apoiarem minhas escolhas e pelo mecenato. Em particular, minha me, pelos exaustivos turnos de reviso de texto. Por fim, agradeo ao Luiz Gustavo Berro, meu companheiro, pelo apoio nos momentos de desespero; pela compreenso, interesse e incentivo; por ser meu descanso e aconchego. Muito obrigada, com todo o meu amor. 9. Resumo CAVALHEIRO, A. M. Com outros olhos: um estudo das representaes da cegueira e/ou deficincia visual. 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. Esta dissertao tem como principal objeto de estudo as interaes sociais, que envolvem performances chamadas de cegueira, deficincia visual, baixa viso, vidncia e correlativos. O objetivo desta pesquisa descrever tais performances em termos de acionamentos de categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Pretende-se refletir sobre os processos de negociao e incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, optou-se por uma aproximao com aspectos do modelo teatral de Goffman e da teoria da significao de Bourdieu. Para a construo dos dados, realizou-se observao participante principalmente em institutos especializados. Palavras-chave: Cegueira. Deficincia Visual. Baixa Viso. Interao Social. Performance. Incorporao. 10. Abstract CAVALHEIRO, A. M. With other eyes: a study of representations of the "blindness" and / or "visual disability". 2012. 185 f. Dissertao (Mestrado) Programa de Ps-Graduao em Antropologia Social, Faculdade de Filosofia, Letras e Cincias Humanas, Universidade de So Paulo. So Paulo, 2012. This dissertation focus on the performances of "visual disability", "blindness", "low vision" and seeing, through social interactions. Its main objective is to describe and to analyze these performances as the use of the nomination categories, distinctive signs and qualifying attributes. Furthermore, I present the processes of embodiment of these representations and its importance for the constitution of the actors "self". The theoretical and methodological assumptions rely on aspects of Goffmans dramaturgical perspective and Bourdieus theory of meaning. The data were developed through participant observation at specialized institutes. Keywords: Visual Disability. Blindness. Low Vision. Social Interaction. Performance. Embodiment. 11. Sumrio Introduo .....................................................................11 1. Classificao de personagens: categorias de nomeao....33 2. Identificao de diferenas: sinais distintivos ..................58 3. Caracterizao de mscaras: atributos qualificativos ..... 100 4. Negociao de representaes: rendimentos simblicos . 140 5. Construo do eu: processos de incorporao ............ 156 Consideraes finais ...................................................... 170 Referncias bibliogrficas ............................................... 179 12. 11 Introduo Nesta introduo exponho: o objeto de pesquisa, os objetivos, os pressupostos terico-metodolgicos que norteiam a investigao e o percurso levado para estabelec-los. Tambm apresento o campo emprico e aspectos da construo e anlise dos dados. Por ltimo, forneo o resumo de cada captulo. O principal objeto desta dissertao so as interaes face a face que envolvem performances nomeadas, entre outros termos, por cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. A interao face a face pode ser definida como uma negociao de representaes entre atores, uns sobre os outros, quando em presena fsica imediata, orientando-se pelo reconhecimento da atuao alheia, em suas categorias, atributos e sinais, atravs de imputaes condescendentes. Nesta negociao cada ator solicita que seja levado a srio pelos demais, acreditando em sua performance (GOFFMAN, 2009). Neste estudo, as performances so o acionamento de representaes estereotipadas, como sinais e atributos, ligados a um padro de ao pr-estabelecido, que distinguem e qualificam os atores subsidiando a classificao. Quanto s representaes, partindo de Durkheim (1978) e Bourdieu (2004), estas so consideradas como construes 13. 12 simblicas, que configuram maneiras de agir, pensar e sentir; e so constitudas e solidificadas historicamente de acordo com contextos especficos. O objetivo desta dissertao descrever e analisar as performances chamadas, entre outros termos, de cegueira, deficincia visual, baixa viso e vidncia. Refiro-me especificamente aos acionamentos prticos de representaes como: categorias de nomeao, sinais distintivos e atributos qualificativos. Em seguida, pretendo refletir sobre os possveis rendimentos simblicos envolvidos nas negociaes destas representaes. Por fim, estudo os processos de incorporao das mesmas na constituio do eu dos atores. Entre os pressupostos terico-metodolgicos, opto por uma aproximao com aspectos da abordagem interacionista goffmaniana. Parto do modelo teatral do autor e o adapto empiria e problemtica especfica desta pesquisa. Abaixo apresento tal modelo e, em seguida, indico os ajustes necessrios. O modelo teatral desenvolvido prioritariamente na obra A representao do eu na vida cotidiana (2009), publicada em 1959. Trata-se de um conjunto de metforas relativas dramaturgia, que constituem uma teoria explicativa para as situaes interativas1 . A seguir exponho seus principais elementos e dinmica. 1 um aspecto importante do conjunto dos face a face que, por eles e s por eles, podemos atribuir uma configurao e um cenrio dramtico a coisas que, de outro modo, no seriam perceptveis aos nossos sentidos. (GOFFMAN, 1999, p.215). 14. 13 O primeiro elemento a ser especificado a cena, trata- se da estrutura de ocasio, o tempo e o espao nos quais se realizam a interao (NUNES, 2005, p.86). O ator o agente social do modelo, ele estabelece a interao ao negociar representaes com outros atores. Goffman enfatiza a agncia possvel do ator ao considerar que suas negociaes no esto garantidas previamente pelas constries estruturais que as pressionam. O ator depende de seu corpo enquanto condio de entrada na interao face a face. Nela, o corpo est em situao vulnervel, expe-se ao risco de ferir-se, sendo obrigado a leva-la a srio. Alm disso, o corpo veculo de transmisso e recepo de sinais, cuja identificao influi na previso da interao. [...] por definio s podemos participar em situaes sociais se levarmos os nossos corpos e os seus adornos, e este equipamento vulnervel aos objetos que os outros trazem com seus corpos (GOFFMAN, 1999, p.199). A mscara dos atores so as representaes do eu, as concepes formadas sobre si, num confronto com o reconhecimento alheio. Trata-se de um carter adquirido que se torna internalizado, cristalizando-se como uma segunda natureza. Em certo sentido, e na medida em que esta mscara representa a concepo que formamos de ns mesmos o papel que nos 15. 14 esforamos por chegar a viver -, esta mascara nosso mais verdadeiro eu, aquilo que gostaramos de ser. Ao final a concepo que temos de nosso papel torna-se uma segunda natureza e parte integral de nossa personalidade. Entramos no mundo como indivduos, adquirimos um carter e nos tornamos pessoas. (PARK, 1950, p.249. Apud.: GOFFMAN, 2009, p.27). Os atores desempenham papis, que so padres de ao guiados principalmente por categorias, sinais e atributos pr-definidos (NUNES, 2005, p.54). Os papis so relacionais dependem daqueles desempenhados pelos demais atores em cena, o papel que um indivduo desempenha talhado de acordo com os papis desempenhados pelos outros presentes (GOFFMAN, 2009, p.9). A fachada so os sinais acionados pelos atores durante suas atuaes para a classificao dos mesmos e para a previso da interao. A fachada dada a partir de sinais estereotipados atrelados a um papel. Um papel estabelecido geralmente possui uma fachada determinada, que deve ser mantida acionando-se seus sinais caractersticos, por exemplo: a fachada de mdico implica geralmente em vestir-se de jaleco branco, possuir expresso segura, etc. Quando um ator assume um papel social estabelecido, geralmente verifica que uma determinada fachada j foi estabelecida para esse papel. (GOFFMAN, 2009, p.34). 16. 15 A partir da leitura dos sinais dos demais atores, das interaes passadas e de outras informaes obtidas, o ator prev como se dar a interao, construindo afirmativas chamadas de expectativas. Contudo, o desfecho da interao permanece imprevisvel. O desfecho da interao depende do reconhecimento e da imputao de representaes em relao s expectativas criadas pelas partes. Se os acionamentos corresponderem s expectativas, os atores recebem um tratamento adequado e o desfecho da interao satisfatrio. Mas, se os acionamentos no correspondem s expectativas, o desfecho da interao pode envolver algum embarao ou desapontamento. De maneira geral, no modelo teatral a interao realizada numa cena, travada entre atores mascarados, que desempenham papis relacionais com suas fachadas caractersticas. Cada um deles espera que suas representaes sejam reconhecidas recebendo um tratamento adequado. Para Goffman, a interao constitui uma ordem especfica um domnio autnomo e particular de atividade, pois os elementos contidos neste domnio esto mais intimamente ligados entre si que a elementos situados no exterior da ordem (GOFFMAN, 1999, p.195), sendo sua configurao irredutvel a outras ordens sociais. Acima procurei sistematizar de forma simplificada aspectos do modelo teatral. Para proceder tal sistematizao houve um enrijecimento devido minimizao dos exemplos empricos, que ancoram o mesmo. Tambm necessrio frisar que outros conceitos conexos no foram abordados, 17. 16 co...</p>