BERNSTEIN, DURKHEIM E A SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO NA

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  • 51Cadernos de Pesquisa, n. 120, novembro/ 2003Cadernos de Pesquisa, n. 120, p. 51-74, novembro/ 2003

    BERNSTEIN, DURKHEIM E A SOCIOLOGIADA EDUCAO NA INGLATERRA

    BRIAN DAVIESUniversity of Wales Cardeff Reino Unido

    wbdavies@ntlworld.com

    Traduo: Maria de Lourdes Soares e Vera Luiza Visockis Macedo

    RESUMO

    Neste texto o autor procura elucidar o modo pelo qual Basil Bernstein utilizou e enriqueceua contribuio de Durkheim para a anlise de questes abordadas pela sociologia daeducao.BERNSTEIN, BASIL DURKHEIM, EMILE SOCIOLOGIA DA EDUCAO

    ABSTRACT

    BERNSTEIN, DURKHEIM, AND THE BRITSH SOCIOLO GY OF EDUCATION. The authorattempts to elucidate how Basil Bernstein used and enhanced Durkheims contribution tothe analysis of issues addressed by the sociology of education.BERNSTEIN, BASIL DURKHEIM, EMILE SOCIOLO GY OF EDUCAT ION

    Este texto foi publicado originalmente em ingls, em 1996, pela Ablex Publishing Corporation,Norwood, New Jersey, s pginas 39 a 57 do livro Knowledge and pedagogy : the sociologyof Basil Bernstein, organizado por Alan R. Sadovnik, da Universidade de Adelphi.

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    Basil Bernstein ingressou no Instituto de Educao [da Universidade deLondres] em janeiro de 1963, assumindo o cargo de conferencista snior ediretor do Departamento de Pesquisa em Sociologia. Em 1965, foi promovido aprofessor-adjunto e, em 1967, nomeado catedrtico da nica cadeira especializa-da em sociologia da educao na Gr-Bretanha. Ele era ento o nico durkheimianoautodeclarado de alguma importncia que trabalhava na rea. A forma como utili-zou Durkheim e levou sua anlise ainda mais longe deve ficar clara no final destetexto. Para fins desta exposio, tivemos a sorte de contar com um memorialistaescrupuloso1. Essa sua caracterstica no se deve tanto a um tipo de autopromoo,mas reflete mais uma necessidade interior em vista da quase unnime hostilidadee posicionamento ideolgico contra o conjunto da sua obra desde o incio e dosquais o seu trabalho em desenvolvimento no conseguiu escapar. No se discuteaqui sua personalidade proeminente e agora solitria. Tambm se sabe que seutrabalho complexo e ainda em evoluo sobre a escolarizao ainda no foi am-plamente apreciado e compreendido. O fato de que essas coisas so uma misturarebuscada de seu prprio estilo, de seus pontos fracos e fortes, de seu tempo ede que eram o nico que havia para se investigar uma proposio que merecenosso interesse. No existe praticamente nada que valha a pena ser dito sobre o

    1. Class, code and control [Classe, cdigos e controle], volume 1 (1971), que abrangeu otrabalho publicado entre 1958 e aquele ano, tinha uma introduo de 20 pginas. Ovolume 2 (1973), que reuniu os trabalhos de pesquisa do Departamento de Pesquisaem Sociologia, tinha 10 pginas tratadas de forma mais convencional, com o objetivode integrar os ensaios de outros autores no contexto. O volume 3 (1975) continhatrabalhos que remontavam a 1966 e tinha 33 pginas abordando a contextualizao;enquanto o volume 4 (1990), que compreende os anos 80, contm 10 pginas cujasmetforas mais indicativas so aquelas relacionadas com a arte. O Bernstein do volume1 tem a ver com o seu mal-estar em reunir trabalhos como uma forma de registrocontnuo. Cada trabalho uma tentativa de chegar a um acordo com uma idiapersistente que no me sai da cabea, que eu no podia entender completamente e daqual no conseguia escapar. Sempre tive o sentimento de que o nico trabalho digno deser lido era o prximo a ser escrito. Os trabalhos anteriores tornavam-se uma fonte deconstrangimento, um pouco como pinturas que no obtinham o resultado esperado eque acabavam se tornando realidade por conta da prpria natureza (1971, p.1). Novolume 4, ele se refere aos processos de exposio e crtica textuais, distinguindo osreferenciais seletivos, o contexto secundrio (inclusive esquizofrenia), a determinaoem excesso, o pontilhismo e a relocao criativa, que produz todo o texto imaginrio(1990, p.9). O que ele chama de volume 5, atualmente em circulao como um textodatilografado de 78 pginas, intitulado Code theory and research [ Teoria e pesquisa doscdigos], um ensaio cujo foco especfico a trajetria percorrida por suas teorias ata realizao emprica. Minha ateno concentrou-se especialmente sobre este trabalho.

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    Durkheim britnico, a no ser a ttulo de comentrio sobre o seu trabalho. Deveficar bastante claro que as consideraes aqui apresentadas so as de um alunoprofundamente interessado e igualmente engajado no processo, alm de colega eamigo, sendo portanto mais constitudas do que reguladas pelos termos de nossorelacionamento de 30 anos.

    No pretendo desperdiar espao na tentativa de resumir ainda mais o queele disse, com extraordinria honestidade e preciso, sobre seus prprios ante-cedentes e sobre sua carreira intelectual, ou procurar acrescentar algo aos co-mentrios admirveis a esse respeito tecidos por Atkinson (1985) quando escre-veu sobre o tema. Mas o que preciso confessar que a experincia de ter tidoBernstein como professor significou adquirir a percepo, em seu sentido maisagudo, da importncia do social e nada menos do que pela via da considerao doDurkheim de The division of labour [ Da diviso social do trabalho] at T h eelementary forms [As formas elementares da vida religiosa]. A lio mais brilhan-te de todas foi a de que Durkheim (e, ao contrrio do que todo mundo imagina,ele no era o nico) no tirava os dados da teoria, mas a teoria dos dados. Meucurso de mestrado, realizado entre 1963 e 1965, dado por Bernstein pratica-mente sozinho, abordou de Goffman e Etzioni a Halsey, Floud e Martin, de Tonniesa Parsons, mas todos eles foram colocados contra um pano de fundo luminosodas relaes entre estrutura social, identidade e lngua. Do prprio Bernstein,lemos apenas os seus primeiros trabalhos no British Journal of Sociology e seuartigo sobre Halsey, Floud e Anderson, embora seu comportamento mais tpicofosse o de retirar-se e ler Cassirer. Ele era reticente com respeito a seus escritossobre a questo da linguagem, aos quais outros autores, inclusive Lawton, costu-mavam se referir com mais freqncia. O que a experincia ensinou, e continuoua ensinar a duas geraes de alunos que o tiveram como professor, foi a insistn-cia com que ele enfatizava a suprema importncia da teoria e o fato de que umateoria que no especificasse (ou, ainda mais comumente, que no conseguisseespecificar) os termos e meios de reunir os pontos principais que constitussemuma investigao pblica de suas prprias proposies, provavelmente estariamais para movimento social do que para cincia social. Seu menosprezo poraqueles que confundiam juzo de valor com fato era constante, rivalizando apenasna intensidade com que se recusou a considerar a distino entre micro e macrocomo um obstculo anlise.

    A recepo pblica indicava que sua primeira teoria sociolingstica talvezestivesse condenada desde o incio, dada a sua complexidade em relao dispo-sio de nimo da rea. Sua aceitao precisa foi prejudicada pela falta de dissemi-

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    nao de uma verso fiel teoria e de dados que pudessem ser assimilados porno especialistas2. A chamada deficincia lingstica observada entre as crianasoriundas das classes trabalhadoras foi incorporada ao discurso sobre desenvolvi-mento individual de professores, instrutores e formuladores de polticas pblicaspara justificar a inevitabilidade do dficit cultural e no uma perspectiva de redefini-o institucional3. Os resultados mais bvios foram uma claudicante verso brit-nica de intervencionismo representada por um pouco mais de dinheiro para pro-fessores e escolas em contextos sociais desfavorecidos, alm de um estmulopara aqueles dedicados esttica da produo da fala entre a classe trabalhadora4.

    2. Ver a narrativa lcida de Atkinson (1985) e a prpria opinio de Bernstein sobre suaresponsabilidade por aquelas interpretaes conflitantes (1971, p.19).

    3. Existiu toda uma gerao de exegetas/seres atvicos bernsteinianos simplesmente ater-radora. Mas mesmo quando se sabia que os alunos haviam sido ensinados de formacorreta, era surpreendente verificar a freqncia com que deturpavam o contedo desua obra em suas exposies. Acredito plenamente que isso s pode ser atribudo profundidade e singularidade dos argumentos e resistncia que encontraram, issopor si s concorrendo para comprovar a fora da relao entre lngua, estrutura eidentidade. Passadas vrias dcadas, a confuso criada pelos acadmicos continua aindamuito intensa. Harker e May (1993) citam, com evidente aprovao, a declarao deBourdieu Para que o discurso pedaggico possa reproduzir o fetichismo da lngualegtima da forma como realmente ocorre na sociedade, basta seguir o exemplo deBasil Bernstein, que descreve as propriedades do cdigo elaborado sem relacionar esseproduto social com as condies sociais de sua produo e reproduo ou mesmo,como seria de se esperar da Sociologia da Educao, com suas condies acadmicas(p.174). Nesse contexto, salutar mencionar a formulao de localizao social (nosua origem) das orientaes dos cdigos Quanto mais simples a diviso social dotrabalho e quanto mais especfica e local a relao entre o agente e a base material, maisdireta a relao entre os significados e uma base material especfica e maior a probabi-lidade de uma orientao restrita do cdigo. Quanto mais complexa a diviso social dotrabalho e quanto menos especfica e local a relao entre um agente e a base material,mais indireta a relao entre os significados e uma base material especfica e maior aprobabilidade de uma orientao elaborada (p.20) mas a formulao apareceu ori-ginalmente muito antes. Seriam as relaes sociais mascaradas, transformadas emfetiches por tal formulao? No existe nenhuma referncia sua condio acadmica naassertiva que A realizao de cdigos elaborados transmitidos pela famlia so elesprpr ios regulados p