Constitucionalismo e razão tupiniquim: uma leitura .Constitucionalismo e razão tupiniquim: uma

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  • Rev.DireitoePrx.,RiodeJaneiro,Vol.08,N.1,2017,p.53-85.AnselmoLaghiLaranja,DauryCesarFabrizDOI:10.12957/dep.2017.19658|ISSN:2179-8966

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    Constitucionalismo e razo tupiniquim: uma leiturainterdisciplinar dos problemas para uma teoriaconstitucionalbrasileiraConstitutionalism and tupiniquim reasoning: an interdisciplinaryoverviewoftheproblemsforaBrazilianConstitutionalTheoryAnselmoLaghiLaranja

    Faculdade de Direito de Vitria, Vitria, Esprito Santo, Brasil. E-mail:anselmolaranja@gmail.com.

    DauryCesarFabriz

    Faculdade de Direito de Vitria, Vitria, Esprito Santo, Brasil. E-mail:daury@terra.com.br.

    Recebidoem23/04/2016eaceitoem07/07/2016.

  • Rev.DireitoePrx.,RiodeJaneiro,Vol.08,N.1,2017,p.53-85.AnselmoLaghiLaranja,DauryCesarFabrizDOI:10.12957/dep.2017.19658|ISSN:2179-8966

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    Resumo

    Nopresenteartigotem-secomoobjetivoestabelecerumdilogo intertextual

    entreoconstitucionalismobrasileiroeaobraCrticadaRazoTupiniquim,de

    Roberto Gomes. Com base em pesquisa bibliogrfica, que abrangeu tanto a

    referida obra quanto outras de doutrina especializada em direito

    constitucional,osaspectosdaquiloqueRobertoGomesidentificounareade

    filosofianoBrasilcomorazoeclticaerazoornamentalsoutilizadospara

    analisaroprocessoconstituintede1987eajurisdioconstitucionalbrasileira

    contempornea.Apartirdisso,sustenta-sequepossvelvislumbrartraosda

    culturaeclticanaformadeatuaodessasinstituiesbrasileiras,bemcomo

    propor uma explicao alternativa, de ordem histrico-cultural, para as

    dificuldades encontradas no enfrentamento do excesso de demandas pelo

    PoderJudicirioeabaixauniformizaodesuasdecises.

    Palavras-chave:constitucionalismo;crticadarazotupiniquim,jurisdio

    constitucional.

    Abstract

    This article aims to establish an intertextual dialogue between the

    constitutionalism doctrine and the work Critique to Brazilian Reasoning

    (CrticaRazoTupiniquim)publishedbyRobertoGomes.Thestudy isbased

    on bibliographical research including the mentioned authors work and also

    otherconstitutional lawdoctrines.Theaspectsofthepoints identifiedbythe

    Brazilian author within the field of philosophy in Brazil are transposed to

    analyzeprocesstodrawuptheBrazilianconstitutionin1987andthecurrent

    Brazilian constitutional jurisdiction. In this article, it was observed that the

    historical-culturalinfluencecanstillbenoticedintheBrazilianlegalsystem,as

    isalsoasociologicreasoningfortheexcessiverequirementsfromthejudiciary

    branchandthechallengesthattheBrazilianconstitutionalismfaces.

    Keywords:constitutionalism;critiquetoBrazilianreasoning;constitutional

    jurisdiction.

  • Rev.DireitoePrx.,RiodeJaneiro,Vol.08,N.1,2017,p.53-85.AnselmoLaghiLaranja,DauryCesarFabrizDOI:10.12957/dep.2017.19658|ISSN:2179-8966

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    Consideraesinicias

    Tupi,ornottupi,thatisthequestion

    OswalddeAndrade

    ARepblicaFederativadoBrasil,formadapelaunioindissolveldosEstados

    e Municpios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrtico de

    Direito[...](BRASIL,1988).FoidessaformaqueaAssembleiaConstituintede

    1987decidiuiniciarapartenormativadotextoque,em1988,viriaseraatual

    ConstituioFederalbrasileira.

    Uma retrospectivaapartir das constituiesanteriores, comexceo

    daConstituiodoImpriode1824,permiteobservarque,desde18911,a

    Repblica Federativa reafirmada como forma de governo e Estado,

    respectivamente.

    IssonoserepetecomaexpressoEstadoDemocrticodeDireito,

    qualificao atribuda Republica Federativa apenas em 1988. Alm disso,

    vrios so os aspectos que diferenciamo processo constituinte de 1987 dos

    anteriores,comoaampliaodosdireitosegarantiasfundamentais.

    Nesse contexto, encontrar significado para essa expresso e tentar

    explicarcomoelaafetaoconstitucionalismobrasileirovigentetemsetornado

    esforo comum em diversos manuais e outras doutrinas de direito

    constitucional2.

    1 Em ordem cronolgica: Art. 1 - A Nao brasileira adota como forma de Governo, sob oregime representativo, a Repblica Federativa, proclamada a 15 de novembro de 1889, econstitui-se,porunioperptuaeindissolveldassuasantigasProvncias,emEstadosUnidosdoBrasil (BRASIL, 1981); Art. 1 - A Nao brasileira, constituda pela unio perptua eindissolvel dos Estados, do Distrito Federal e dos Territrios em Estados Unidos do Brasil,mantm como forma de Governo, sob o regime representativo, a Repblica federativaproclamadaem1889(BRASIL.1934);Art.1-OBrasilumaRepblica.Opoderpolticoemanado povo e exercido em nome dele e no interesse do seu bem-estar, da sua honra, da suaindependnciaeda suaprosperidade.Art. 3 -OBrasil umEstado federal, constitudopelaunio indissolvel dos Estados, do Distrito Federal e dos Territrios. mantida a sua atualdivisopolticaeterritorial.(BRASIL,1937);Art.1-OsEstadosUnidosdoBrasil,mantm,sobo regime representativo,aFederaoeaRepblica (BRASIL,1946); Art.1 -OBrasil umaRepblica Federativa, constituda sob o regime representativo, pela unio indissolvel dosEstados,doDistritoFederaledosTerritrios(BRASIL,1967).Observa-seque,em1937,houveumaexceoaousodaexpresso,cujaideiafoidivididaemdoisartigos,o1eo3.2EssaabordagempodeservistaemobrasclssicasdedireitoconstitucionalnoBrasilcomoasde JosAfonsoda Silva (2005, p. 112-122), deAlexandredeMorais (2014, p. 2-6) e de LenioStreckeBolzandeMorais(2010,p.91-106);TrcioSampaioFerrazJnior(1989,p.54-55).

  • Rev.DireitoePrx.,RiodeJaneiro,Vol.08,N.1,2017,p.53-85.AnselmoLaghiLaranja,DauryCesarFabrizDOI:10.12957/dep.2017.19658|ISSN:2179-8966

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    Para explic-la, parte dos constitucionalistas brasileiros encontram a

    respostaapartirdaanlisehistricadodesenvolvimentodoEstadoModerno3.

    Assim, no incomum que a expresso presente no primeiro artigo da

    Constituiode1988sejaexplicadatendocomopontodepartidaaexposio

    histricadosmodelosdeEstadoAbsolutista,LiberaleSocial,comosintetizado

    napassagemaseguir:

    A partir disso, possvel dizer que Estado Social de Direito e oEstadoDemocrtico deDireito so fases sucessivas no processode transformao do Estado Contemporneo, o primeirorespondendoaosesquemasdesuperaodacrisedoliberalismoeo segundobuscando inseronaquiloque sepodedenominarde socialismo democrtico. Esta tese, com a qual concordo, defendidaporEliasDiaz[...](STRECK,2013,p.125).

    Nadaobstante,quandooConstituinteAntnioMariz,naComissode

    SistematizaodaAssembleiaConstituinte,defendeuainserodotermono

    texto constitucional, a expresso possua um carter menos pretensioso4.

    Parausarsuaspalavras,aosepronunciarnaSubcomisso,disse:

    CreiotilefundamentalqueosConstituintes,aovotaremanovalei fundamental do Pas, aps um longo perodo de regimeautoritrio,enfatizemessefatodequeestamosimplantandoumaRepblica Federativa construda em Estado democrtico dedireito(BRASIL,1987,p.90).

    3 A ttulo de exemplo: Por isso, o advento do EstadoDemocrtico deDireito representa umsaltoeumplus (normativo)sobreomodeloanteriordeEstado-Intervencionista,mormenteseconsiderarmoscomoantesseviuasespecificidadesbrasileiras.Trata-se,enfim,deentenderqueoEstadoDemocrticodeDireitoexsurgedeumanovapactuao,comasespecificidadesdecadapas.Nessecontexto,anoodeEstadoDemocrticodeDireitoaparececomosuperadorda nao de Estado Social. Ou seja, a noo de Estado Social dependia de mecanismosimplementadores,razopelaqualoDireitoapareceu(nostextosconstitucionais)comasuafasetransformadora.Assim,senoparadigmaliberaloDireitotinhaafunomeramenteordenadora,estadona legislaoopontode tensonas relaesentreEstado-Sociedade,noEstadoSocialsuafunopassaacultivo,pelaexatarazodanecessidadedarealizaodaspolticaspblicasdoWelfareState. JnoEstadoDemocrticodeDireito, frmulaconstitucionalizadanos textosmagnosdasprincipaisdemocracias,afunodoDireitopassaasertransformadora,ondeoplodetenso,passaparaoPoderJudicirioouosTribunaisConstitucionais(STRECK,2002,p.145).4 Trata-se, Sr. Presidente, Srs. Constituintes, de uma emenda despretensiosa namedida emque,aoalteraraformadoart.1edoseupargrafonico,naverdadeprocuracompatibilizarotextocomocontedoqueseencontraemtodooProjetoSubstitutivoII.Enfatizaalgunspontosqueseencontramconsagradosaolongodoprojetoqueestamosaquiavotar(BRASIL,1987,p.90).

  • Rev.DireitoePrx.,RiodeJaneiro,Vol.08,N.1,2017,p.53-85.AnselmoLaghiLaranja,DauryCesarFabrizDOI:10.12957/dep.2017.19658|ISSN:2179-8966

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    Desse contraste entre a razo despretensiosa e a outra de carter

    mais solene, surge o questionamento acerca do motivo pelo qual nossa

    literatura constitucional despendiamais tempo sustentandoqueaexpresso

    EstadoDemocrticodeDireitoasntesehistricadodesenvolvimentodo

    Estado Moderno ocidental, desdobramento (quase lgico) das primeiras

    rebelies dos bares ingleses frente ao Rei Joo Sem-terra, seguido pela

    formao do Estado Nacional portugus, das reinvindicaes trabalhistas

    ingleses,doneoliberalismoglobalizante(etc).

    Damesmaforma,paraalmdastambmcomunsdiscussesacercada

    denominao da gerao/dimenso de direitos5, caberia pensar por que a

    crtica ideia de substituio que o termo geraes supostamente denota

    ecoa de forma to contundente, quando deveria ser o problema da

    importao da viso europeia de progresso histrica dos direitos

    fundamentais o real ponto de discusso. Afinal, ao contrrio do que dispe

    essa viso inspiradanashistrias europeiaenorte-americana,oprocessode

    afirmaodedireitosnoBrasilteveumasualgicainvertida.

    Primeiro vieram os direitos sociais, implantados em perodo desupressodosdireitospolticosedereduodosdireitoscivisporum ditador que se tornou popular. Depois vieram os direitospolticos, de maneira tambm bizarra. A maior expanso dodireito do voto deu-se em outro perodo ditatorial, em que osrgos de representao poltica foram transformados em peadecorativa do regime. Finalmente, ainda hoje muitos direitoscivis, abas