Criminologia - TAE - Anlise Sobre Textos de Criminologia

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    DO PARADIGMA ETIOLGICO AO PARADIGMA DAREAO SOCIAL: MUDANA E PERMANNCIA DE

    PARADIGMAS CRIMINOLGICOS NA CINCIA E NOSENSO COMUM

    Vera Regina Pereira de Andrade

    1 Introduo

    Neste artigo abordamos, numa perspectiva sincrnica antes que diacrnica (his-trica), a mudana do paradigma etiolgico para o paradigma da reao social que aCriminologia experimenta desde a dcada de sessenta de nosso sculo, situando adesconstruo epistemolgica que o novo paradigma operou em relao ao tradicional ea permanncia deste, para alm desta desconstruo, pela sua importante funcionalidade(no declarada) como cincia do controle scio-penal. Muitas razes justificam, pensa-mos, a ateno aqui dedicada ao tema. Mas ao invs de explicit-las - o que ensejariabasicamente um outro artigo - deixamos que o leitor extraia suas prprias concluses.

    2. O paradigma etiolgico de Criminologia.

    A Antropologia criminal de C. Lombroso e, a seguir, a Sociologia Criminal de E.Ferri constituem duas matrizes fundamentais na conformao do chamado paradigmaetiolgico de Criminologia, o qual se encontra associado tentativa de conferir disciplina o estatuto de uma cincia segundo os pressupostos epistemolgicos dopositivismo e ao fenmeno, mais amplo, de cientificizao do controle social, naEuropa de finais do sculo XIX.

    Na base deste paradigma a Criminologia ( por isto mesmo positivista) defini-da como uma Cincia causal-explicativa da criminalidade ; ou seja, que tendo porobjeto a criminalidade concebida como um fenmeno natural, causalmente determi-nado, assume a tarefa de explicar as suas causas segundo o mtodo cientfico ouexperimental e o auxlio das estatsticas criminais oficiais e de prever os remdios para1Professora nos cursos de graduao e ps-graduao em Direito da UFSC.2 O LUomo delinqente de LOMBROSO (publicado em 1876), a Sociologia Criminale de FERRI(publicada em 1891)e a Criminologia - studio sul delitto e sulla teoria della represione de GARFALO (publicada em 1885) com enfoque,respectivamente, antropolgico, sociolgico e jurdico, so consideradas as obras bsicas caracterizadoras da chamadaEscola Positiva italiana e os trs seus mximos definidores e divulgadores. Sobre a insero histrica e os condicionamen-tos deste paradigma, bem como sua transnacionalizao ver ANDRADE,1994.3 Sobre a caracterizao do positivismo ver ANDRADE, 1994 e TAYLOR, WALTON, YOUNG, 1990.

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    combat-la. Ela indaga, fundamentalmente, o que o homem (criminoso) faz e porque o faz.O pressuposto, pois, de que parte a Criminologia positivista que a

    criminalidade um meio natural de comportamentos e indivduos que os distinguemde todos os outros comportamentos e de todos os outros indivduos. Sendo acriminalidade esta realidade ontolgica, preconstituda ao Direito Penal (crimes na-turais) que, com exceo dos chamados crimes artificiais,4 no faz mais do quereconhec-la e positiv-la, seria possvel descobrir as suas causas e colocar a cinciadestas ao servio do seu combate em defesa da sociedade.

    A primeira e clebre resposta sobre as causas do crime foi dada pelo mdicoitaliano LOMBROSO que sustenta, inicialmente, a tese do criminoso nato: a causa docrime identificada no prprio criminoso. Partindo do determinismo biolgico(anatmico-fisiolgico) e psquico do crime e valendo-se do mtodo de investigaoe anlise prprio das cincias naturais (observao e experimentao) procurou com-provar sua hiptese atravs da confrontao de grupos no criminosos com crimino-sos dos hospitais psiquitricos e prises sobretudo do sul da Itlia, pesquisa na qualcontou com o auxlio de FERRI, quem sugeriu, inclusive, a denominao criminosonato. Procurou desta forma individualizar nos criminosos e doentes apenados ano-malias sobretudo anatmicas e fisiolgicas5 vistas como constantes naturalsticasque denunciavam, a seu ver, o tipo antropolgico delinqente, uma espcie partedo gnero humano, predestinada, por seu tipo, a cometer crimes.

    Sobre a base destas investigaes buscou primeiramente no atavismo umaexplicao para a estrutura corporal e a criminalidade nata. Por regresso atvica, ocriminoso nato se identifica com o selvagem. Posteriormente, diante das crticas sus-citadas, reviu sua tese, acrescentando como causas da criminalidade a epilepsia e, aseguir, a loucura moral. Atavismo, epilepsia e loucura moral constituem o que Vonnackedenominou de trptico lombrosiano.6

    Desenvolvendo a Antropologia lombrosiana numa perspectiva sociolgica,Ferri admitiu, por sua vez, uma trplice srie de causas ligadas etiologia do crime:individuais (orgnicas e psquicas), fsicas (ambiente telrico) e sociais (ambientesocial) e, com elas, ampliou a originria tipificao lombrosiana da criminalidade.

    Assim FERRI (1931,p.44,45,49 e 80) sustentava que o crime no decorrncia dolivre arbtrio, mas o resultado previsvel determinado por esta trplice ordem de fatores queconformam a personalidade de uma minoria de indivduos como socialmente perigosa.

    4 Segundo a distino entre delitos naturais e artificiais, que ficou a dever-se a GAR0FALO, se considera que apenasos delitos artificiais representam, excepcionalmente, violaes de determinados ordenamentos polticos e econmicos eresultam sancionados em funo da consolidao dessas estruturas.5 Como pouca capacidade craniana, frente fugidia, grande desenvolvimento dos arcos zigomtico e maxilar, cabelo crespoe espesso, orelhas grandes, agudeza visual, etc.6 A respeito do exposto ver LOMBROSO (1983); SOUSA (1977, p.17-8) e LAMNEK (1980, p.20).

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    Seria fundamental, pois, ver o crime no criminoso porque ele , sobretudo, sintomarevelador da personalidade mais ou menos perigosa (anti-social) de seu autor, para aqual se deve dirigir uma adequada defesa social.

    Da a tese fundamental de que ser criminoso constitui uma propriedade dapessoa que a distingue por completo dos indivduos normais. Ele apresenta estigmasdeterminantes da criminalidade.

    Estabelece-se desta forma uma diviso cientfica entre o (sub)mundo dacriminalidade, equiparada marginalidade e composta por uma minoria de sujeitospotencialmente perigosos e anormais (o mal) e o mundo, decente, da normalidade,representado pela maioria na sociedade (o bem).

    A violncia , desta forma, identificada com a violncia individual (de umaminoria ) a qual se encontra, por sua vez, no centro do conceito dogmtico de crime,imunizando a relao entre a criminalidade e a violncia institucional e estrutural.

    E este potencial de periculosidade social, que os positivistas identificaramcom anormalidade e situaram no corao do Direito Penal7 que justifica a pena comomeio de defesa social e seus fins socialmente teis: a preveno especial positiva(recuperao do criminoso mediante a execuo penal) assentada na ideologia dotratamento que impe, por sua vez, o princpio da individualizao da pena comomeio hbil para a elaborao de juzos de prognose no ato de sentenciar.8

    Logo, trata-se de defender a sociedade destes seres perigosos que se apartamou que apresentam a potencialidade de se apartar do normal (prognstico cientficode periculosidade) havendo que ressocializ-los ou neutraliz-los. (BUSTOS RAMIREZin BERGALLI e BUSTOS RAMREZ, 1983b, p.17)

    Este saber causal gerou, pois, um saber tecnolgico: no apenas o diagnsti-co da patologia criminal, mas acompanhada do remdio que cura.

    Instaura-se, desta forma, o discurso do combate contra a criminalidade ( omal) em defesa da sociedade (o bem) respaldado pela cincia . A possibilidade deuma explicao cientificamente fundamentada das causas enseja, por extenso,uma luta cientfica contra a criminalidade erigindo o criminoso em destinatrio de umapoltica criminal de base cientfica. A um passado de periculosidade confere-se umfuturo: a recuperao.

    Obviamente, um modelo consensual de sociedade que opera por detrs des-te paradigma, segundo o qual no se problematiza o Direito Penal - visto como ex-presso do interesse geral - mas os indivduos, diferenciados, que o violam. A socie-dade experimenta uma nica e maniquesta assimetria: a diviso entre o bem e o mal.

    A s r e p r e s e n t a e s d o d e t e r m i n i s m o / c r i m i n a l i d a d eo n t o l g i c a / p e r i c u l o s i d a d e / a n o r m a l i d a d e / t r a t a m e n t o / r e s s o c i a -

    7 Foi GAROFALO (1983) quem, projetando as concepes antropolgicas e sociolgicas do positivismo para o Direito Penal,formulou o conceito de temibilidade do delinqente significando a perversidade constante e ativa do delinqente e aquantidade do mal previsto que h que se temer por parte dele, depois substitudo pelo termo mais expressivo de periculosidade.8 E justifica, tambm, a introduo das medidas de segurana por tempo indeterminado. Pois elas devem durar at que ocriminoso aparea recuperado para a vida livre e honesta.

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    lizao se complementam num crculo extraordinariamente fechado conformando umapercepo da criminalidade que se encontra, h um sculo, profundamente enraizadanas agncias do sistema penal e no senso comum.

    3. O labelling approach9 e o paradigma da reao social :uma revoluo de paradigma em Criminologia.

    Este paradigma, com a qual nasceu a Criminologia como cincia no final dosculo XIX liberta-se, assim, de suas condies originrias de nascimento para setransnacionalizar em grande escala permanecendo, no apenas na Europa, na base deposteriores desenvolvimentos da disciplina, inclusive os mais modernos que, inda-gao sobre as causas da criminalidade, forneceram respostas diferentes das antro-polgicas e sociolgicas do positivismo originrio e que nasceram, em parte, dapolmica com ele (teorias explicativas de ordem psicanaltica, psiquitrica,multifatoriais, etc.). (BARATTA, 1982b, p.29)

    Mas enquanto a Criminologia europia permanece relativamente estanque, doponto de vista epistemolgico, no mundo anglo-saxo, em particular na Amrica doNorte, que experimentar um po