denis dutton_crítica 2011_ uma definição naturalista da arte

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  • 8/6/2019 denis dutton_crtica 2011_ uma definio naturalista da arte

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    criticanarede.com ISSN 1749-8457

    http://criticanarede.com/artnatural.html

    16 de Julho de 2011 Esttica

    Denis DuttonTraduo de Vtor Guerreiro

    As teorias estticas podem proclamar-se universais, mas normalmente so condicionadas pelas

    questes e debates estticos das suas prprias pocas. Plato e Aristteles tinham ambos uma

    motivao igualmente forte para explicar as artes gregas do seu tempo e para ligar a esttica ssuas metafsicas gerais e teorias do valor. Mais perto de ns, como observa Nol Carroll, pode-se

    encarar as teorias de Clive Bell e R. G. Collingwood como a defesa de prticas vanguardistas

    emergentes o neo-impressionismo, por um lado, e a potica modernista de Joyce, Stein, e

    Eliot por outro.1 Pode-se ler Susanne Langer como algum que apresenta uma justificao da

    dana moderna, ao passo que a primeira verso da teoria institucional de George Dickie exige

    algo como o pressuposto de que o Dada uma forma central de prtica artstica de maneira a

    ganhar apelo intuitivo. O mesmo se pode afirmar da teorizao quase obsessiva, por Arthur

    Danto, acerca de quebra-cabeas minimalistas e objectos artsticos indiscernveis de objectosno artsticos acrescente-se as telas negras de Rheinhart, os readymades de Duchamp e as

    caixas de Brillo de Andy Warhol. medida que as formas de arte e as tcnicas mudam e se

    desenvolvem, medida que o interesse artstico floresce ou declina, a teoria segue tambm o

    mesmo caminho, deslocando o seu foco de ateno, modificando os seus valores.

    As distores causadas pelos preconceitos da cultura local combinam-se com outro factor.

    Os filsofos da arte tm uma tendncia natural para comear a teorizar a partir das suas

    prprias predileces estticas, das suas respostas estticas mais perspicazes, por muito

    estranhas ou limitadas que possam ser. Immanuel Kant tinha um interesse marcado pela poesia,

    mas o seu descartar da funo da cor na pintura to excntrico que sugere mesmo uma

    possvel deficincia visual. Bell, que reconhecia candidamente a sua incapacidade para apreciar

    msica, concentrou a sua ateno na pintura, alargando falaciosamente as suas perspectivas a

    outras artes. Mais em geral, os pensadores que amam a beleza natural, ou que tm um fraquinho

    por uma cultura extica ou gnero em particular, tendem a generalizar a partir dos sentimentos

    e experincia individuais. Este elemento pessoal pode ser teoricamente enriquecedor (Bell

    acerca do expressionismo abstracto) ou ter resultados quase absurdos (Kant acerca da pinturaem geral). Devia porm instigar o cepticismo em todos ns. As perspectivas gerais extrapoladas

    do entusiasmo pessoal limitado podem persuadir-nos enquanto nos concentrarmos nos

    exemplos fornecidos pelo teorizador; frequentemente no funcionam quando aplicadas a uma

    ica: Uma definio naturalista da arte http://criticanarede.com/artnatural.html

    17 17-07-2011 12:06

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    maior diversidade de artes.

    Alm do preconceito cultural e da idiossincrasia pessoal, um terceiro factor tem sido um

    obstculo ao filosofar apropriado acerca das artes: o carcter da retrica filosfica. A filosofia

    maximamente robusta e estimulante quando argumenta a favor de uma posio nica e

    exclusivamente verdadeira e procura desacreditar alternativas plausveis. Na histria da

    filosofia da arte, isto tem sido um obstculo persistente compreenso. Kant, por exemplo, no

    se limita a separar as componentes intelectuais da experincia esttica das suas componentes

    sensuais primrias, mas em seces da sua terceira Crtica nega inteiramente o valor das

    ltimas. Leo Tolstoi to dogmtico na sua insistncia na sinceridade como critrio central da

    arte, a ponto de ter notoriamente rejeitado grandes pores do cnone, incluindo a maior parte

    da sua prpria obra. Bell, mais uma vez o esteta por excelncia, no se limita a elevar a

    experincia da forma na pintura abstracta, mas insiste que o elemento ilustrativo na pintura

    esteticamente irrelevante. Tais posies extremas em esttica so retoricamente apelativas, ao

    passo que as teorias menos exclusivistas no o so. Ensin-las tambm um prazer para osprofessores de esttica, visto que do aos estudantes um pano de fundo histrico, insights

    estticos genunos (ainda que absurdamente unilaterais), e o exerccio intelectual envolvido na

    apresentao de contra-exemplos e contra-argumentos. Juntamente com o desenvolvimento

    histrico da prpria arte, semelhante teorizao faz avanar o debate no no sentido da

    resoluo, mas apenas para gerar mais disputa.

    A esttica no incio do sculo XXI encontra-se numa situao paradoxal, para no dizer

    bizarra. Por um lado, os acadmicos e os estetas tm acesso em bibliotecas, em museus, na

    Internet, em primeira mo por meio de viagens a uma perspectiva mais ampla do que algumavez tiveram sobre a criao artstica, em diversas culturas e ao longo da histria. Podemos

    estudar e apreciar esculturas e pinturas do paleoltico, msica de toda a parte, artes populares e

    rituais de todo o mundo, literatura, artes de todas as naes, do passado e do presente. Contra

    esta vasta disponibilidade, como estranho que a especulao filosfica sobre a arte tenha

    permanecido inclinada para a anlise interminvel de um conjunto infinitesimalmente pequeno

    de casos, entre os quais se destacam os readymades de Duchamp ou objectos como as

    fotografias apropriadas de Sherri Levine e a 4'33'' de John Cage. Subjacente a esta orientao

    filosfica est um pressuposto escondido, nunca articulado: supe-se que o mundo da arte ser

    finalmente compreendido quando formos capazes de explicar os exemplos mais marginais ou

    difceis da arte. AFonte eAntecipao de um Brao Partido, de Duchamp, so primeira vista

    os casos mais difceis com os quais a teoria da arte tem de lidar, o que explica a dimenso da

    bibliografia terica que estas obras e os seus irmos readymade geraram. A prpria extenso

    desta bibliografia aponta tambm para uma esperana de que sermos capazes de explicar os

    exemplos mais extravagantes de arte nos ajudar a alcanar a melhor explicao geral de toda a

    arte. Esta esperana conduziu a esttica na direco errada. Os juristas sabem que os casos

    difceis do m legislao. Se o leitor deseja compreender a natureza essencial do assassnio,

    no tomar como ponto de partida uma discusso do suicdio assistido ou do aborto ou da pena

    ica: Uma definio naturalista da arte http://criticanarede.com/artnatural.html

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    capital. O suicdio assistido pode ser ou no assassnio, mas determinar se tais casos em disputa

    so ou no assassnio exige antes o esclarecimento acerca da natureza e da lgica dos casos

    indisputveis; passamos do centro incontroverso para os disputados territrios remotos. O

    mesmo princpio se aplica na teoria esttica. A obsesso de dar conta dos mais problemticos

    casos perifricos da arte, embora seja intelectualmente estimulante e um bom modo de os

    professores de esttica gerarem discusso, fez a esttica ignorar o centro da arte e dos seus

    valores. A filosofia da arte precisa de uma abordagem que comece por tratar a arte como um

    campo de actividades, objectos, e experincia dados naturalmente na vida humana. Temos

    primeiro de procurar demarcar um centro incontroverso que confere aos perifricos qualquer

    interesse que estes possam ter. Considero que esta abordagem naturalista, no no sentido de

    ser impulsionada pela biologia (apesar de que a biologia se mostrar relevante), mas porque

    depende de padres de comportamento e discurso persistentes, identificados

    transculturalmente: fazer obras de arte, ter experincia delas, e avali-las. Muitos dos modos

    como se discute a arte e se tem experincia dela transpem facilmente fronteiras culturais, econseguem uma aceitao global sem a ajuda dos acadmicos ou teorizadores. De Lascaux a

    Bollywood, artistas, escritores, e msicos no raro tm pouca ou nenhuma dificuldade em

    conseguir a compreenso esttica transcultural. no centro natural onde essa compreenso

    existe que a teoria deve comear.

    Pode-se reduzir os aspectos caractersticos encontrados transculturalmente nas artes a uma lista

    de itens nucleares, doze na verso apresentada em seguida, a que chamo critrios de

    reconhecimento. Alguns dos itens destacam aspectos de obras de arte, outros destacam

    qualidades da experincia da arte. Outros teorizadores propuseram listas semelhantes no

    propsito, embora no idnticas no contedo. Nestas se incluem listas publicadas em 1975 por

    E. J. Bond, Richard L. Anderson (1979 e repetidamente revista desde ento), H. Gene Blocker

    (1993), Julius Moravcsik (1992), e Berys Gaut (2000).2 Publiquei duas predecessoras da

    presente lista (2000 e 2001).3 A minha lista presta-se portanto correco por meio do

    esclarecimento, permutao de itens, ampliao, ou reduo. Os itens que nela constam no soescolhidos para satisfazer um propsito terico preconcebido; pelo contrrio, a finalidade

    destes critrios proporcionar uma base neutra especulao terica. Pode-se descrever a lista

    como inclusiva no modo como refere as artes em vrias culturas e pocas histricas, mas no

    por essa razo um compromisso entre posies adversrias que se excluem mutuamente.

    Reflecte um domnio vasto de experincia humana que as pessoas identificam sem dificuldade

    como artstica. David Novitz observou que as formulaes precisas e as d