Direito Penal 1 - Rogério Sanches - 2008

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DIREITO PENAL: CONCEITO E FINALIDADE Sob o aspecto formal, direito penal o conjunto de normas que qualifica certos comportamentos humanos como infraes penais, define os seus agentes e fixa as sanes a ser-lhes aplicadas. J sob o enfoque sociolgico (doutrina moderna), direito penal mais um instrumento (ao lado dos demais ramos do direito) de controle social de comportamentos desviados, visando assegurar a necessria disciplina social, bem como a convivncia harmnica entre os membros do seu grupo. OBS: O direito penal deve ser a ultima ratio Princpio da interveno mnima. Os funcionalismos (funcionalismo teleolgico e funcionalismo sistmico) discutem a funo do direito penal. O funcionalismo teleolgico tem como defensor Roxin; j o sistmico defendido por Jakobs. A funo do direito penal assegurar bens jurdicos indispensveis, valendo-se das medidas de poltica criminal (Roxin). A funo do direito penal resguardar a norma, o sistema, o direito posto, atrelado aos fins da pena (Jakobs). Ex: Furto de uma caneta BIC. Para Roxin, aplica-se o princpio da insignificncia. Para Jakobs, no (tal prtica deve ser tratada como crime direito penal do inimigo). Alguns autores diferenciam, ainda, o direito penal objetivo e o direito penal subjetivo. O direito penal objetivo seria o conjunto de leis penais em vigor no pas (ex: o CP). J o direito penal subjetivo seria o direito de punir (jus puniendi) do Estado. Ora, o direito penal objetivo expresso ou emanao do direito penal subjetivo. Um no vive sem o outro. OBS: O poder punitivo do Estado LIMITADO: a) Limitao temporal: prescrio (exemplo). b) Limitao espacial: art. 5 CP (princpio da territorialidade).

2 c)

Limitao modal: princpio da dignidade da pessoa humana (esse princpio no encontra excees).

O poder punitivo monoplio do Estado (regra). Exceo (tolerada pelo Estado): art. 57 da Lei 6.001/73 (Estatuto do ndio). Art. 57. Ser tolerada a aplicao, pelos grupos tribais, de acordo com as instituies prprias, de sanes penais ou disciplinares contra os seus membros, desde que no revistam carter cruel ou infamante, proibida em qualquer caso a pena de morte. FONTES (origem jurdica) DO DIREITO PENAL1)

Fonte material (ou de produo ou de criao): rgo encarregado da criao do direito penal. Em regra, somente a Unio est autorizada a produzir, a criar direito penal (exceo: art. 22 pargrafo nico da CF). Art. 22. Compete privativamente Unio legislar sobre: I - direito civil, comercial, penal, processual, eleitoral, agrrio, martimo, aeronutico, espacial e do trabalho; Pargrafo nico. Lei complementar poder autorizar os Estados a legislar sobre questes especficas das matrias relacionadas neste artigo.

2)

Fonte formal (ou de revelao ou de divulgao): processo de exteriorizao da fonte material. Doutrina clssica Doutrina moderna 1. Imediata Lei. 1. Imediata: 2. Mediata De direito penal Costumes, incriminador (Lei e princpios gerais de atos administrativos direito. complementares de normas penais em branco). De direito penal no incriminador (Constituio,

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Tratados Internacionais, Lei e Jurisprudncia por causa das smulas vinculantes). 2. Mediata: Costumes, princpios gerais de direito. OBS: Qual o status dos Tratados Internacionais (de acordo com a tendncia do STF)? Tratados Internacionais ratificados antes da EC 45 (e aps a CF/88): Min. Celso de Mello: norma constitucional direitos humanos (Conveno Americana de Direitos Humanos Pacto de So Jos da Costa Rica). Tratados Internacionais ratificados depois da EC 45: Min. Gilmar Mendes: - Direitos Humanos: Qurum qualificado = norma constitucional. Qurum simples = supra legal. - No referente a direitos humanos: Qurum qualificado = legal. Qurum simples = legal.

Fontes mediatas (costumes e princpios gerais de direito): Costumes: espcie de fonte formal mediata, consistente nos comportamentos uniformes e constantes pela convico de sua obrigatoriedade e necessidade jurdica. Jamais um costume ser incriminador. OBS: Mas, o costume pode revogar infrao penal? 1 corrente (majoritria): No. De acordo com a LICC, aplicvel ao CP, a Lei ter vigor at que outra a modifique ou revogue.

2 corrente (minoritria Luiz Flvio Gomes): Sim. perfeitamente possvel o costume revogador em caso de perda de eficcia social. Ex: Jogo do bicho (para a 2 corrente).

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No direito penal, a relevncia est no costume interpretativo (ex: art. 155 p. 1 CP). Art. 155 - Subtrair, para si ou para outrem, coisa alheia mvel: 1 - A pena aumenta-se de um tero, se o crime praticado durante o repouso noturno. Princpios gerais de direito: direito que vive na conscincia comum de um povo. Esses princpios podem ser positivados ou no. INTERPRETAO DA LEI PENAL A finalidade da interpretao extrair da norma o seu real significado. Quanto origem (sujeito que interpreta):1.

Autntica ou legislativa: a interpretao dada pela prpria lei (ex: art. 327 CP).

Art. 327 - Considera-se funcionrio pblico, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remunerao, exerce cargo, emprego ou funo pblica. 1 - Equipara-se a funcionrio pblico quem exerce cargo, emprego ou funo em entidade paraestatal, e quem trabalha para empresa prestadora de servio contratada ou conveniada para a execuo de atividade tpica da Administrao Pblica. 2 - A pena ser aumentada da tera parte quando os autores dos crimes previstos neste Captulo forem ocupantes de cargos em comisso ou de funo de direo ou assessoramento de rgo da administrao direta, sociedade de economia mista, empresa pblica ou fundao instituda pelo poder pblico.2.

Doutrinria ou cientfica: a interpretao dada pelos estudiosos. Jurisprudencial: fruto das decises reiteradas dos nossos tribunais.

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OBS: Smulas Judicirio).

Vinculantes

(interpretaes

que

vinculam

o

Art. 103-A da CF. O Supremo Tribunal Federal poder, de ofcio ou por provocao, mediante deciso de dois teros dos seus membros, aps reiteradas decises sobre matria constitucional, aprovar smula que, a partir de sua publicao na imprensa oficial, ter efeito vinculante em relao aos demais rgos do Poder Judicirio e administrao pblica direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal, bem como proceder sua reviso ou cancelamento, na forma estabelecida em lei. 1 A smula ter por objetivo a validade, a interpretao e a eficcia de normas determinadas, acerca das quais haja controvrsia atual entre rgos judicirios ou entre esses e a administrao pblica que acarrete grave insegurana jurdica e relevante multiplicao de processos sobre questo idntica. 2 Sem prejuzo do que vier a ser estabelecido em lei, a aprovao, reviso ou cancelamento de smula poder ser provocada por aqueles que podem propor a ao direta de inconstitucionalidade. 3 Do ato administrativo ou deciso judicial que contrariar a smula aplicvel ou que indevidamente a aplicar, caber reclamao ao Supremo Tribunal Federal que, julgando-a procedente, anular o ato administrativo ou cassar a deciso judicial reclamada, e determinar que outra seja proferida com ou sem a aplicao da smula, conforme o caso. OBS: Onde se encontra a exposio de motivos do CP? A doutrina majoritria leciona que essa interpretao elaborada pelos estudiosos que participaram da elaborao da norma, ou seja, doutrinria ou cientfica (entendimento de Rogrio Greco e Flvio Monteiro de Barros). Quanto ao modo:1. 2.

Gramatical: leva em conta o sentido literal das palavras. Teleolgica: indaga-se a vontade ou inteno objetivada na lei.

6 3. 4.

Histrica: procura-se a origem da lei. Sistemtica: a lei interpretada com o conjunto da legislao ou mesmo considerando os princpios gerais de direito (essa a mais utilizada).

Quanto ao resultado (isso o que mais interessa):1.

Declarativa: a letra da lei corresponde exatamente quilo que o legislador quis dizer. Extensiva: amplia-se o alcance das palavras para se alcanar a vontade do texto. Para Rogrio Sanches, o direito penal brasileiro admite, excepcionalmente, interpretao extensiva contra o ru (ex: art. 157 p. 2 I CP).

2.

Art. 157 - Subtrair coisa mvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaa ou violncia a pessoa, ou depois de havla, por qualquer meio, reduzido impossibilidade de resistncia: 2 - A pena aumenta-se de um tero at metade: I - se a violncia ou ameaa exercida com emprego de arma; Arma, no seu sentido prprio, todo instrumento fabricado com finalidade blica. J no seu sentido imprprio, arma pode ser todo o instrumento com ou sem finalidade blica, mas que serve ao ataque ou defesa (ESSA A INTERPRETAO EXTENSIVA QUE PREDOMINA NO BRASIL). Mas, h doutrinadores que no admitem interpretao extensiva contra o ru (a exemplo de Csar Roberto Bittencourt). OBS: Interpretao analgica no se confunde com interpretao extensiva. Na interpretao analgica, o resultado que se busca extrado do prprio dispositivo, que, depois de enunciar exemplos, encerra de forma genrica, permitindo ao intrprete encontrar outros casos (ex: art. 121 p. 2 I, III e IV). NA INTERPRETAO ANALGICA POSSVEL INTERPRETAO CONTRA O RU! Art. 121. Matar algum:

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2 Se o homicdio cometido: I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe; III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum; IV - traio, de emboscada, ou mediante dissimulao ou outro recurso que dificulte ou torne impossvel a defesa do ofendido; J a analogia regra de integrao, e no de interpretao. Nesse caso, ao contrrio dos anteriores, partimos do pressuposto de que no existe uma lei a ser aplicada ao caso concreto, motivo pelo qual se socorre daquilo que o legislador previu para outro similar. A ANALOGIA S PODE SER IN BONAM PARTEM!3.

Restritiva: reduz-se o alcance corresponder vontade do texto.

das

palavras

para