Ensaio sobre a natureza humana segundo ?· 2 EMPIRISMO E SUBJETIVIDADE Ensaio sobre a natureza humana…

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Coleo TRANS

Gilles Deleuze

EMPIRISMO E SUBJETIVIDADE

Ensaio sobre a natureza humana segundo Hume

Traduo Luiz B. L. Orlandi

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EMPIRISMO E SUBJETIVIDADE

Ensaio sobre a natureza humana segundo Hume

(1953)

1. Problema do conhecimento e problema moral.................

2. O mundo da cultura e as regras gerais..............................

3. O poder da imaginao na moral e no conhecimento........

4. Deus e o Mundo..................................................................

5. Empirismo e subjetividade.................................................. 5. Os princpios da natureza humana....................................

CONCLUSO. -- A finalidade..............................................

ndice de nomes e correntes filosficas.................................................

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A JEAN HYPPOLITE

Homenagem sincera e respeitosa

A paginao da primeira edio francesa [EMPIRISME ET SUBJECTIVIT (Essai sur la nature humaine selon Hume), Paris, PUF, 1953, 153 pp] est anotada entre colchetes ao longo desta traduo. No final do volume foi acrescentado um ndice de nomes e correntes, sendo que as pginas nele referidas correspondem quela paginao da edio original (NT).

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1. PROBLEMA DO CONHECIMENTO E PROBLEMA MORAL

[1] Hume prope-se fazer uma cincia do homem. Qual o seu projeto fundamental?

Uma escolha se define sempre em funo daquilo que ela exclui, de modo que um projeto

histrico uma substituio lgica. Para Hume, trata-se de substituir uma psicologia do

esprito por uma psicologia das afeces do esprito ( ). A psicologia do esprito

impossvel; ela no passvel de constituio, pois no pode encontrar em seu objeto

nem a constncia nem a universalidade necessrias; somente uma psicologia das afeces

pode constituir a verdadeira cincia do homem.

Nesse sentido, Hume um moralista, um socilogo, antes de ser um psiclogo: o

Tratado mostrar que as duas formas sob as quais o esprito afetado so,

essencialmente, o passional e o social. E as duas se implicam, assegurando a unidade do

objeto de uma cincia autntica. De um lado, a sociedade reclama, espera de cada um dos

seus membros o exerccio de reaes constantes, a presena de paixes suscetveis de

propiciar mbeis e fins, qualidades prprias coletivas ou particulares: Um soberano que

impe um tributo aos seus sditos conta com sua submisso (1). Por outro lado, as

paixes implicam a sociedade como meio oblquo de se satisfazerem (2). Na histria, essa

coerncia do passional e do social se revela enfim como unidade interna: a histria tem

por objeto a organizao poltica [2] e a instituio, estuda as relaes motivo-ao no

mximo de circunstncias dadas, manifesta a uniformidade das paixes do homem. Em

resumo, e de maneira extravagante, a escolha do psiclogo poderia exprimir-se assim: ser

um moralista, um socilogo e um historiador antes de ser um psiclogo e para ser um

psiclogo. Aqui, o contedo do projeto da cincia do homem rene-se condio que

torna possvel um conhecimento em geral: preciso que o esprito seja afetado. Por si

mesmo, em si mesmo, o esprito no uma natureza, no objeto de cincia. A questo

[Traduziremos "esprit" -- termo com o qual os franceses traduzem a palavra inglesa "mind", isto , "mente" -- por "esprito", pois o objeto desta traduo um livro escrito em francs. NT] 1 David HUME [1711-1776], Trait de la nature humaine [ Treatise of Human Nature 1739-1740], traduo francesa de Andr LEROY. Paris, Aubier, 1946, pg. 513. [ Doravante Tr .seguida da paginao da tr. fr. ]. 2 Tr., 641.

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que Hume tratar a seguinte: como o esprito devm uma natureza humana?

verdade que a afeco passional e social somente uma parte da natureza

humana. H outra parte, o entendimento, a associao de idias. Mas por conveno

que se fala assim, pois o verdadeiro sentido do entendimento, nos diz Hume, justamente

tornar socivel uma paixo, tornar social um interesse. O entendimento reflete o

interesse. Se podemos consider-lo parte, isto , como parte separada, fazemo-lo

maneira do fsico que decompe um movimento, mas reconhecendo que ele indivisvel,

no composto (3). No esqueceremos, portanto, que dois pontos de vista coexistem em

Hume: de uma certa maneira, a ser ainda tornada precisa, a paixo e o entendimento

apresentam-se como duas partes distintas; porm, em si, o entendimento to-somente o

movimento da paixo que devm social. Ora veremos o entendimento e a paixo formar

dois problemas separados, ora veremos que aquele se subordina a esta. Eis a porque o

entendimento, mesmo estudado separadamente, deve antes de tudo fazer-nos

compreender melhor o sentido em geral da questo precedente.

[3]

Hume afirma constantemente a identidade do esprito, da imaginao e da idia. O

esprito no natureza, no tem natureza. Ele idntico idia no esprito. A idia o

dado tal como ele dado, a experincia. O esprito dado. uma coleo de idias,

nem mesmo um sistema. E poder-se-ia exprimir assim a questo precedente: como uma

coleo devm um sistema? A coleo de idias denomina-se imaginao, uma vez que

esta designa no uma faculdade mas um conjunto, o conjunto das coisas, no mais vago

sentido da palavra, que so o que parecem: coleo sem lbum, pea sem teatro ou fluxo

de percepes. A comparao com o teatro no nos deve enganar... No temos o mais

remoto conhecimento do lugar em que se representam essas cenas, nem dos materiais de

que ele seria constitudo (4). O lugar no diferente daquilo que nele se passa; a

representao no est em um sujeito. Precisamente, a questo pode ainda ser assim

formulada: como o esprito devm um sujeito? Como a imaginao devm uma

3 Tr., 611. 4 Tr., 344.

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faculdade?

Sem dvida, Hume constantemente repete que a idia est na imaginao. Mas,

aqui, a preposio no marca a inerncia a um sujeito qualquer; ao contrrio, ela

metaforicamente empregada para excluir do esprito como tal uma atividade distinta, a do

movimento da idia, para assegurar, assim, a identidade do esprito e da idia no esprito.

A preposio significa que a imaginao no um fator, um agente, uma determinao

determinante; um lugar, que preciso localizar, isto , fixar, um determinvel. Nada

se faz pela imaginao, tudo se faz na imaginao. Ela nem mesmo uma faculdade de

formar idias: a produo da idia pela imaginao to-s uma reproduo da

impresso na imaginao. Ela tem certamente sua atividade; mas essa prpria atividade

carece de constncia e uniformidade, [4] fantasista e delirante, o movimento de

idias, o conjunto de suas aes e reaes. Como lugar de idias, a fantasia a coleo

dos indivduos separados. Como liame de idias, ela o movimento que percorre o

universo ( 5 ), engendrando drages de fogo, cavalos alados, gigantes monstruosos ( 6 ). O

fundo do esprito delrio, ou, o que vem a ser o mesmo sob outros pontos de vista,

acaso, indiferena ( 7 ). Por si mesma, a imaginao no uma natureza, mas uma

fantasia. A constncia e a uniformidade no esto nas idias que tenho. Tampouco esto

elas na maneira pela qual as idias so ligadas pela imaginao: essa ligao efetua-se

ao acaso ( 8 ). A generalidade da idia no um carter da idia, no pertence

imaginao: no a natureza de uma espcie de idias, mas um papel que toda idia pode

desempenhar sob a influncia de outros princpios.

Quais so esses outros princpios? Como a imaginao devm uma natureza

humana? A constncia e a uniformidade esto somente na maneira pela qual as idias

so associadas na imaginao. Em seus trs princpios (contigidade, semelhana e

causalidade), a associao ultrapassa a imaginao, algo distinto desta. A associao

afeta a imaginao. Encontra nesta seu termo e seu objeto, no sua origem. A associao

uma qualidade que une as idias, no uma qualidade das prprias idias ( 9 ).

5 Tr., 90. 6 Tr., 74. 7 Tr., 206: A indiferena como situao primitiva do esprito. 8 Tr., 75. 9 Tr., 75, texto essencial: Posto que a imaginao pode separar todas as idias simples, e uni-las novamente sob qualquer forma que lhe apraza, nada seria mais inexplicvel que as operaes dessa

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Veremos que, na crena e por causalidade, o sujeito ultrapassa o dado.

Literalmente, ele ultrapassa aquilo que o esprito lhe d: [5] creio naquilo que nem vi

nem toquei. Mas se o sujeito pode, assim, ultrapassar o dado, porque ele, no esprito,

antes de mais nada o efeito de princpios que ultrapassam o esprito, que o afetam. Antes

que possa haver a uma crena, os trs princpios de associao organizaram o dado como

um sistema, impondo imaginao uma constncia que ela no tem por si mesma e sem a

qual ela jamais seria uma natureza humana, atribuindo liames s idias, princpios de

unio, que so as qualidades originais dessa natureza e no qualidades prprias da idia ( 10 ). O privilgio da causalidade est em que somente ela pode nos levar a afirmar a

existncia, nos levar a crer, pois ela confere idia do objeto uma solidez, uma

objetividade que essa idia no teria se o objeto estivesse associado somente por

contigidade ou por semelha