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Exodus Catherine Parthenie 1 Exodus Série Filhos do Pecado Livro 2 Catherine Parthenie

Exodus - Visionvox · 2017. 12. 17. · estarei sempre ao seu lado. Azazel entrou na sala do trono naquele instante. Permaneci de costas para ele, mas o reconheci pela voz. -Persis

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    Exodus Série Filhos do Pecado

    Livro 2

    Catherine Parthenie

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    De que adiantam-me asas, se não

    aprendi a voar?...

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    A DOR DE UM ANJO. Por onde ela anda? Eu não saberia dizer, mas

    a falta que ela faz é imensa. Aceitei meu trabalho nessa Cidade porque a amo, queria estar perto dela, tocar-lhe a face, sentir o cheiro daquela pele suave.

    Eu aguentei o quanto pude, declarei todo o meu amor, e mesmo assim esse amor continua um segredo frio escondido em meu coração.

    Ela não faz idéia do quanto ansiei por tocar seus lábios com os meus, ela não faz idéia do quanto isso é fascinante. Minha vida era um nada, até que a encontrei. Como não se perder de amores ao ver aquele anjo de pele alva e cabelos vermelhos?

    Eu pequei, não posso amá-la... Por que eu te deixei, Lienne?

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    SEM VOAR

    De que adianta-me o amor, Se ele não pertence a mim?

    De que adiantam-me os sonhos, Se a noite é clara como o dia? De que adianta-me a vitória,

    Se não tenho com quem comemorar? De que adianta-me salvar,

    Se quem precisa, ao perigo joga-se? Por que sonhar, se não posso realizar?

    Por que amar, se não posso sentir? De que adiantam-me asas,

    Se não aprendi a voar?

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    Capítulo 1 - Odiando O tempo não passa longe dele, é como perder

    a importância de viver, é como não ter esperanças na vida... e ele disse que estaria ao meu lado quando eu perdesse minhas esperanças. Onde você está agora, Arel? Perdi você, perdi tudo.

    Deserto inóspito e sem vida, uma longa caminhada até o verdadeiro destino. Sem ele, nunca chegarei, o tempo não passa.

    Nunca importei-me com nada, jamais dei o devido valor aos sentimentos alheios, até que o conheci. Por que deixaste-me sozinha, Arel? Eu te amo.

    Um caminho sombrio... eu não o acharia tão triste se eu não amasse. Tudo era melhor antes, porque nada doía. A traição era só um ódio a mais, a falsidade era só um sentimento vil, as mentiras, os enganos, tudo era só uma fantasia. Amar é pior.

    Carrego comigo a prova de que um dia eu fui feliz, por um breve momento eu senti algo bom dentro de mim. E foi como um sonho.

    E agora, caminhando pela noite gelada do deserto, tentando encontrar o caminho de um lugar que pensei ser a minha casa, o coração partido pelas feridas deixadas para trás e o corpo deformado com asas grandes que eu nem sei como funcionam, eu vejo o quanto eu estava errada. Meu único e verdadeiro lar sempre foi o meu próprio coração. E

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    esse lar está destruído agora. Sobrou apenas um turbilhão de destroços.

    A partida é sempre mais difícil. Ela traz lembranças. E meu rosto toma outra forma. A tristeza partiu. O ódio tomou conta.

    Avisto a cidade. Já estou nela. Escalo uma imensa construção gótica, com os

    górgonas, figuras que lembram-me Adramalech, por companhia.

    -O que te aguarda, novo mundo? Esqueceram que não morri? Esqueceram-se da minha volta?

    Sim, eles esqueceram. Transformaram-me num nada. Merecem sofrer. Não estou aqui para salvar, essa nunca foi minha intenção. Eu só queria vingança, e meu mundo era melhor assim, pois eu não sofria, só odiava.

    De volta ao mesmo mundo. De volta ao cruel lar dos humanos. E a raça mais desprezada vai mostrar o seu

    valor. Uma nefilin transformada em anjo volta para atormentar muito mais que seus demônios. Em seus sonhos mais cruéis, me encontrás. Foram vocês quem mostraram-me o caminho. Nenhum demônio mata seu irmão. Nenhum demônio jamais traiu-me. Falsidade, ganharam tudo o que queriam e, quando não precisaram mais de mim, descartaram a pior da prole dos anjos.

    -Vivam enquanto podem, nessa doce ilusão de que tudo está bem. Vivam seus sonhos, pois estão prestes a caírem.

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    Por onde começar? Estranhamente eu conheço o caminho do

    inferno. Cumprir minha promessa. Vou seguir o intuito que leva-me o ódio. -Pare, Lienne. Viro-me. Um déja vu. -Não cansas de dizerdes sempre a mesma

    frase? – respondi. -O que pretendes fazer? -Não sei – dou de ombros. – Saltar daqui.

    Espatifar-me no concreto. Não morrerei mesmo. -Anjos sentem dor. -Fostes tu quem ensinaste-me que ferir um

    outro lugar desvia a atenção da dor principal. Meu coração lateja demais. É forte... e triste.

    -Achas que Arel não sente o mesmo? Acredite em mim, querida, sei tanto quanto você o tamanho da dor do amor.

    -A dor de perder um grande amor, pai. Tu a perdestes para a morte. Eu o perdi para a vida. Como conformar-me com o destino, sabendo que ele existe e jamais poderá pertencer-me?

    -O amas tanto assim, minha filha? -Mais que a minha vida, pai... Anjos choram. Eu chorei. -Se o amas, ainda há salvação para você. Olhe,

    – meu pai apontou para baixo, onde um humano estava sendo covardemente espancado por outros dois – é a sua chance. Salve-o.

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    -Não – respondi firme. Os olhos de Caleb faiscavam indignados. -Como não? -Se tenho que curar minha dor com outra, que

    eu pule por vontade própria e não para salvá-lo. Ganhei asas, mas não aprendi a voar.

    -Salve-o, Lienne. -Não. -O deixarás morrer? -Não foi o que fizeram comigo? Não

    desejaram que eu morresse numa fogueira inquisitiva? Eu não importo-me com eles. São um monte de nada.

    Meu pai fitou-me incrédulo por alguns segundos, depois, num elegante vôo, rasando até o concreto, ele livrou o humano, o colocando num lugar seguro.

    E o arcanjo volta para sua cria. -Já mostrei-te como fazer. A decisão é sua.

    Mas prefiro ver-te morta do que ao lado de Apollyon.

    -Ver-me morta, papai? – levantei as sobrancelhas num fingido sobressalto. – Quem não é capaz de amar, os anjos ou os nefilins?

    -Morra, Lienne. Caleb empurrou-me contra a mureta, fazendo

    com que eu me desiquilibrasse e caísse de uma imensa altura.

    Olhos fechados. Sentindo a gravidade levar-me ao chão. Dois membros movimentam-se.

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    Nada pode deter-me. Eu volto. Sorrindo. Posso voar. O rosto espantado de Caleb é como um

    prêmio. -Ainda irás surpreender-se muito comigo,

    meu pai. -Não pode ser – ele falava assustado, com a

    voz embargada. O sorriso da vitória é sempre o melhor. -Apenas aceite, pai, apenas aceite...

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    SALVE-ME

    Vejo vultos. Seus olhos são belos.

    Eles contam histórias de heróis De um tempo disperso e extinto.

    Enxergo sua coragem, Sinto seu medo e seus desgostos,

    Entendo a sua saudade, Não aceito sua confusão.

    És perfeito, És belo,

    És simples E humilde.

    Um coração puro Num corpo deformado.

    Diferente de quem olha-te, De um corpo perfeito

    Com o coração dilacerado. Salve-me!

    Sou eu quem precisa de ajuda, Porque só tu és o que verdadeiramente me amas.

    Ajude-me! Porque a vida tomou-me as ilusões E despadaçou minhas esperanças.

    Fique comigo E proteja-me.

    Esteja ao meu lado E salve-me.

    Abençoada alma, Salve-me.

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    Capítulo 2 – Visitando. Caminhando pela noite, lembrando de

    palavras ferozes, lembrando de todo o ódio... quanta dor, quanta amrgura. O que me resta? Seguir até o destino que eu mesma fiz.

    Sigo como uma criança, agarrada ao ursinho de Séfora, um presente que será devolvido em breve, porque eu acredito nela, eu acredito na mesma força que a move, o ódio.

    O inferno. Eu sei como chegar até lá. Uma dúvida: Persis ou Apollyon? Apollyon. É para lá que vou. -Irmã – escuto sua voz, como um rugido para

    outros, um som suave para mim. Sorrio. Corro para abraçá-lo. -Meu irmão, Adramalech, meu anjo. -Lienne sabe ser irmã Adramalech? -Sim, eu sei. Nosso pai ainda te ama, ele não

    sabia que ainda estavas vivo – não sei explicar o por quê, mas eu jamais conseguiria odiar Caleb.

    -Pai amar Adramalech? -Sim, meu querido, ele te ama. -Lienne ver novo pai? -É preciso. Eu fiz uma promessa, meu irmão,

    tenho que cumprí-la. -Irmão vai junto.

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    -Não. Preciso que deixe-me sozinha dessa vez. Logo estarei de volta, meu anjo.

    -Adramalech anjo? -Você tem asas, não tem? – falei sorrindo. -Irmã tem asas. -Sou como você, meu querido. Agora eu

    preciso ir. Apenas proteja-me, irmão. -Adramalech proteger irmã. Despedi-me do meu irmão com um olhar

    orgulhoso. Ele era lindo, a sua maneira. Meu amado irmão, o único membro da minha família que eu faria questão de dar a minha vida.

    Segui até o castelo esquisito de Apollyon. Entrei como Persis, sem cerimônia, mas com respeito.

    -Eis que volto, conforme prometi, meu senhor – falei pomposamente, ajoelhando-me perante o grande Rei das Trevas.

    Ele analisou-me atentamente. -Levante-se – obedeci. – Vejo que estás

    diferente. Apollyon caminhou até mim, pegou meu

    braço e passou sua mão suavemente por ele, até meus ombros. Levantou minha blusa, deixando parte do meu abdômen exposto. Eu não entendia o que ele procurava, talvez cicatrizes ou marcas. Eu jamais saberia dizer ao certo o que intrigava Apollyon naquele momento. Ao fim de sua inspeção, ele sorriu.

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    -Voltastes como prometeras. Estás diferente e continuas intacta. Entretanto, meu anjo, trouxestes meu presente?

    -Aquele deserto é todo igual, um grande nada para todos os lados. Porém, há um lugar que dá acesso à Cidade dos Nefilins, meu senhor.

    Apollyon sorriu torto. -Conhecestes o filho de Kandake? – ele

    perguntou-me. -Não só o filho como toda a porcaria a que ele

    sujeita-se. Custei a acreditar que Kandake fosse tão estúpido para acreditar em suas propostas.

    -E por que acreditas no que eu digo? -Eu não acredito, senhor. Apollyon riu. -E por que voltastes? -Por que tenho algo que queres e tu tens algo

    que eu quero. -Eu posso enganar-te como fiz com tantos

    outros. -A diferença, senhor, é que somente eu tenho

    o que tanto desejas. E só lhe entregarei seu presente depois que receber o meu.

    -És esperta, Lienne. Vejo que fiz uma boa escolha. Diga-me, qual seu preço pelo meu presente? – Apollyon perguntou-me ainda com seu sorriso irônico nos lábios.

    -Quero destruir Persis e todos que enganaram-me. Quero tudo o que prometeste-me, quero poder, quero reinar ao seu lado e a liberdade de Adramalech – respondi com firmeza.

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    -Então não descobristes somente as asneiras de Kandake, mas as do seu próprio pai também.

    -Adramalech não é uma asneira. Ele é seu trunfo. Todos eles são, inclusive Kali.

    O Rei das Trevas olhou-me de um jeito curioso, apertando o olhar e sorrindo torto.

    -Sim, és realmente muito esperta. Fizestes bem o seu trabalho entre os arcanjos. Saistes muito antes do que eu esperava. Quem foi o pobre coitado que matastes?

    -Iehuiah. O olhar de Apollyon demonstrava um

    sobressalto, uma curiosidade instigante, um medo controlado.

    -Como podes ver, meu senhor, não fiz um acordo com o intuito de uma brincadeira, mas para cumprir minha parte e receber o que prometeste-me – falei firme.

    -Vejo que enganei-me em certos pontos com você. Mas terás o que me pedes, e terei o que me ofertas. E reinaremos juntos, serás minha rainha e estarei sempre ao seu lado.

    Azazel entrou na sala do trono naquele instante. Permaneci de costas para ele, mas o reconheci pela voz.

    -Persis aproxima-se, senhor – ele disse. Apollyon não desviou seu olhar do meu, e foi

    dessa maneira que respondeu ao ex-nefilin que ali encontrava-se.

    -Permita que ele entre e não o avise da visita que recebo.

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    Azazel deixou-nos a sós. -Acho melhor esconder-se. Não quero que

    Persis veja que estás aqui – disse-me Apollyon. -Concordo, meu senhor. Entretanto, gostaria

    muito de saber o que esse porcaria tem a dizer-lhe. -Fique atrás do trono. Ele não poderá ver-te

    dali. Obedeci. Eu estava mesmo curiosa para

    conhecer as intenções de Persis. E estava muito mais ansiosa para destruí-lo.

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    MEDO

    Meu medo eu joguei longe, Despedacei,

    Quebrei, Dispensei.

    Tomei uma grande dose de coragem E enfrento o mundo.

    Seu desgosto é meu prazer, Destruir-te é minha sina.

    Nada do que fizestes será impune, Porque eu conheço suas intenções,

    Eu vi a maldade em seu olhar, E chegou a hora de estabelecer seu destino.

    Eu fiz o meu, E declaro o fim do seu.

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    Capítulo 3 – Escondendo. Aquele demônio estava a cada dia mais lindo.

    Persis entrava naquela sala, majestoso como se fosse o próprio rei daquele lugar.

    -Salve o meu senhor! – ele falou respeitosamente.

    -Pare com isso, Persis, e diga-me por que viestes incomodar-me – rebateu Apollyon.

    -Senhor, soube que a nefilin saiu-se bem em sua missão. Ela já está entre nós.

    -Como podes saber? Por acaso já vistes a nefilin como um anjo, Persis?

    -Não, senhor. Mas tenho a certeza de que ela não demorará a procurar-me.

    “Babaca, infeliz” – eu pensava comigo mesma. -O que te faz pensar que Lienne o procurará? –

    perguntou-lhe Apollyon. -Porque temos um trato, meu senhor. Ela não

    seria tão estúpida por não cumprí-lo. -Assim como você também não seria por não

    cumprir o nosso acordo. -De maneira alguma, meu senhor. Por isso

    estou aqui, para firmá-lo. -Esse trato já foi firmado. Tudo o que espero

    agora é que o cumpras. Vá, Persis. Minha paciência com você esgotou-se na primeira frase. Deixe-me com meus pensamentos.

    E o anjo maldito logo desapareceu dali. Saí do meu esconderijo e fiquei ao lado de Apollyon.

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    -O que farás? – ele perguntou-me. -O que ele espera. O mesmo que você, enganá-

    lo. -Sua audácia me fascina. Apollyon tomou-me em seus braços e beijou-

    me os lábios. Apesar de estar apaixonada por Arel, não posso negar que esse ósculo acendeu uma brasa em meu corpo.

    -Conte-me seus planos, Lienne. -São os mesmos que os seus. Ele fez um

    acordo comigo, mas já fiz o mesmo com você. Enganarei Persis até o momento de destruí-lo.

    -E quando selaremos nossos votos? Porque a cada palavra de desgosto que sua boca desfere, sinto-me mais atraído por você – ele falou apertando-me contra seu corpo forte. Pude sentir o tamanho do seu desejo e estremeci com a idéia.

    -No momento certo, meu senhor. Primeiro quero realizar a minha vingança. Depois... depois, sim, lhe entregarei seu presente. E assim reinaremos juntos naquela Cidade. Então serei sua, apenas sua – sussurrei em seu ouvido, fazendo o grande Rei das Trevas estremecer de desejo.

    Suas mãos passearam pelas minhas asas e voltaram para o meu corpo. Lidar com ele era diferente. Persis era gentil e educado, mas era forte. Arel era quase incontrolável em nossos momentos mais íntimos. Apollyon era enigmático e poderoso. Seu toque era mágico e amedrontador. Eu jamais ousaria detê-lo. E eu não queria detê-lo, eu gostava de seu toque fascinante.

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    -Sabes como manipular um macho, minha adorada. És bela e perfeita. E o fato de ser intocada provoca-me um desejo enlouquecedor. Mas eu sei esperar, jovem nefilin.

    Ele afastou-se subitamente. -O que aprendestes desde que saistes da

    Cidade? – ele perguntou-me. -Eu sei voar – respondi sorrindo e arrancando

    risadas de Apollyon. -Sim, minha cara. Vejo que ainda não tens

    plena noção do que se tornastes. Ele deu dois passos firmes em minha direção,

    firmando seu forte olhar nos meus. Num rápido movimento, ele atacou-me com o braço direito, mas eu o detive segurando seu punho. Essa nova vida dava-me uma percepção muito maior dos acontecimentos. Eu podia escutar o menor sussurro do mundo dos humanos, mesmo estando no meio do inferno. Eu enxergava a quilômetros de distância e sentia tudo o que passava na minha pele, até o mínimo soprar de uma brisa leve.

    Enquanto eu segurava o punho de Apollyon, nossos olhares continuavam conectados e nossos lábios exibiam sorrisos irônicos.

    -Bem, vejo que sabes voar e defender-se. E como ficarão suas asas?

    -Um grande mistério – respondi-lhe. – Não sei nem como sou capaz de fazer essas coisas, quanto mais camuflar os novos membros.

    -Posso cuidar disso. -Como? Transformando-me num demônio?

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    -Não. Você é fascinante como um anjo. Apenas confie em mim.

    -Confiar? Isso não faz parte de mim. -Eu também não confiava em você. -Uma condição mútua, devo dizer. Apollyon riu com a minha resposta. -Tenho pena dos que sofrerão sua vingança,

    Lienne. Tome – ele estendeu-me um pequeno frasco de vidro, muito parecido com o que continha o veneno de Arel. – Beba isto e suas asas desaparecerão.

    -Vou regurgitar minhas tripas depois de beber essa porcaria?

    -Seu pai deu-lhe uma boa surra, pelo que vejo, pois tomastes do acelerador do arcanjo metido – comentou Apollyon.

    -Fiz por merecer – respondi dando de ombros. – Mas eu dispenso seu veneno.

    -Isso só camuflará suas asas aos olhos humanos. Elas sempre estarão com você e, não tenha dúvidas, não sentirás nada.

    Desconfiada, ingeri o líquido roxo. Virei a cabeça e olhei por sobre os ombros e pude ver meus novos membros enrolando-se e, como mágica, adentrando em meu corpo. Apollyon tinha razão. Nada senti.

    -Precisas confiar mais em mim, anjo. -Sua reputação precede a confiança, meu

    senhor. Mas agradeço-lhe pelo veneno. E ele disse as mesmas palavras de Arel: -Não é veneno!

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    Eu ri. -Agora, diga-me o que desejas fazer. -Quero voltar ao mundo dos humanos, a

    mesma carreira, um novo nome, muito sucesso e muito dinheiro. Eu cuidarei do resto.

    -E como será seu novo nome? -Não sei – dei de ombros. – Algo parecido com

    o original. Eliane, talvez. Era o nome da minha mãe. -Que seja! Pegue – ele jogou-me um molho de

    chaves que alcancei ainda no ar. – São de uma residência que me pertence. Lá, encontrarás tudo o que precisas: carro, aparelhos eletrônicos e um estoque de sangue e vinho. Azazel será seu empregado.

    -E Adramalech? -Queres mesmo um demônio como bichinho

    de estimação rondando pelo mundo dos vivos? -Não fales assim do meu irmão – sibilei por

    entre os dentes. -Adramalech fica. Encontre a cura para ele

    voltar a ser o que era e eu o liberto. Aceitarás o desafio?

    -Jamais fugirei de uma briga, Apollyon – falei seu nome em sua presença pela primeira vez.

    -Então somos dois, minha querida. Virei-me e saí dali proferindo as palavras: -Sabes onde encontrar-me.

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    REVOLTA DE UM ANJO TRAÍDO

    Rostos envelhecidos, Emoldurados por rugas,

    Lembranças que a idade não supera... Olho em seus olhos,

    Eles não reconhecem-me. Abutres mais fétidos que carniça,

    Almas apodrecidas No doce engano da ilusão.

    Esqueceram-se de quem mais traíram, Esqueceram-se da minha volta,

    Desconhecem minha imortalidade, E eles não reconhecem-me...

    Mate seus pecados Afogando-os no álcool,

    Porque nem isso os manterá intactos E eles não reconhecem-me?

    Lembrarão quando minhas mãos estiverem em seus pescoços...

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    Capítulo 4 – Avisando. Saindo do submundo, chego logo numa

    mansão. Esse seria meu novo lar. Azazel aguardava-me, disponível para atenter a qualquer pedido meu.

    Fui conhecer cada cantinho daquela residência. Uma construção bonita e bem decorada, uma grande besteira, agora que isso já não interessava-me mais.

    No escritório encontrei documentos falsos com a minha foto e o nome Eliane Mantus. Ironia? Sim, mais uma de tantas de Apollyon, já que Mantus era um de seus muitos nomes. Sorrir foi inevitável. Junto a esses documentos, havia uma papelada de uma grande empresa. Seja lá qual foi o milagre de Apollyon, a empresa pertencia a mim. Era como degustar uma refeição saborosa, porque era o mesmo lugar onde eles, meus inimigos, trabalhavam. Agora todos estavam em minhas mãos.

    Percorri o caminho de volta até a sala principal da mansão e encontrei Azazel por lá.

    -Sabes o que vim fazer? – perguntei-lhe. -Sei. -Por onde eles andam? -Num bar aqui perto. Mas aviso-te que já não

    são mais os mesmos. -Como assim, Azazel? Eles viraram anjos

    também? – zombei de suas palavras. -Não. Mas o tempo que passastes na Cidade

    dos Nefilins não tem a mesma cronologia dos

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    humanos. Seus dois meses por lá foram como vinte anos para os seus amigos.

    -Eles não são meus amigos – respondi por entre os dentes.

    Caminhei para a porta de saída e Azazel ainda falava:

    -Precisas de companhia? -Não. Estarei bem. -Saberás onde encontrá-los? -O cheiro dessas antas jamais saiu das minhas

    narinas – respondi e segui pela noite afora. Você já tentou esquecer o passado e seus

    desgostos? Eu já. Eu tive uma segunda chance, vivi uma nova

    vida, aprendi a amar. E quando tudo acabou, quando a ilusão se dissipou, lá estava o passado: intacto! Nada mudou, tudo piorou, porque meus inimigos estão melhores e vivem na ilusão de serem mais fortes. E a única verdade é que seus mundos não passam mesmo de uma grande utopia.

    Eu não sigo regras que são impostas pela sociedade decadente e perdidamente cega por doutrinas que os induzem a uma falsa paz.

    Eu faço minhas próprias regras. Eu crio o meu destino. Eu manipulo o meu presente. Tudo deu errado? Sim. Porque eu errei. Solução? Não é possível rebobinar o passado,

    mas é fato que o futuro ainda está em minhas mãos.

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    Eles envenenaram-me, acusaram-me, trairam-me. Se os próprios soubessem o quanto isso me fortaleceu...

    Não serei como eles, porque eu simplesmente não importo-me com a opinião alheia. Eles criaram um monstro, fizeram-me invencível. Nunca tive pena de mim mesma, não dobrei-me ante ao destino. Mas já é hora de contar a verdadeira história.

    E quem não ama, afinal? A criatura tenebrosa da qual me tornei ou aqueles que matam os seus? Um anjo não mata sua cria, ele manda outro fazer. Um demônio não trai a mão que o alimenta. Onde está o amor da raça humana? Jogada nas lixeiras de suas almas podres e fétidas.

    Ódio? Eis tudo o que sou. Minha missão? Acabar com a escória que

    habita a terra e depois esperar pelo meu fim. Covardes inúteis. Passo por eles, olho em seus

    rostos enrugados com o passar dos anos e eles não me reconhecem... Saboreiam o doce sabor do engano enquanto esse alimento não alcança o amargor do fim.

    Dois meses numa cidade que existe no mundo de ninguém foi o mesmo que vinte anos. E eles jubilam nas suas fantasias de boa vida e de sucesso, com a flacidez de suas peles emoldurando corpos frágeis e velhos. E eles não me reconhecem...

    Raça pútrida! Infames criaturas! Tantos de nós foram destruídos pelos seus

    pecados. E eu cheguei a acreditar que tudo aconteceu por culpa minha.

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    Aproveitem enquanto podem. Exatamente a dois metros de distância, mais

    que suficiente para sentir o odor intragável de seus poros dilatados exalando o suor provocado pelo exesso de álcool, os observo sentada na mesa do bar.

    Três almas que exultam por mais um grande feito. O olhar de cada um encontra o meu. E eles não me reconhecem...

    Como poderiam? Estou com minha face presa a estranha e falsa inocência dos dezessete anos, enquanto seus corpos reclamam a chegada dos cinquenta.

    E eles me reconhecem... -Perdeu alguma coisa? – resmunga Mariana ao

    perceber que estou fitando-a. Meu sorriso malicioso continua o mesmo. Isso

    a assusta. -Peraí, você é parente da Lienne? – pergunta-

    me Daniel com seu olhar cobiçoso, como um pedófilo ansiando por sua criança.

    Não respondo. -Você é surda, garota? – fala Mariana. Meu

    olhar recai para sua mão esquerda onde seus dedos exibem orgulhosos o mesmo aro dourado da mão de Daniel.

    Levanto-me acendendo um cigarro e caminhando até eles. Aquela porcaria já não faz efeito entorpecente algum em meu corpo, mas aparências precisam ser mantidas. Sorrio baforando a fumaça de nicotina.

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    -Não sei quem é Lienne, mas um dia vocês ouvirão falar muito de mim.

    -És muito atrevida, garota – grita Mariana. -É a frase que mais escuto – falo com ironia. –

    Entretanto, afirmo-lhe que ainda hei de ver-te rastejando atrás de mim.

    -Mocinha, - falou Daniel sorrindo – quem você pensa que é para falar assim conosco?

    Uma pergunta estúpida que não merecia uma resposta.

    Sorri novamente e segui meu caminho.

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    A BENÇÃO DOS LÁBIOS

    Por que seus olhos confundem-me? Por que sua imagem chama-me? Por que seus beijos aquecem-me?

    Por que eu te amo? Confunda-me com seus beijos,

    Depois liberte minha alma. Aqueça-me com sua imagem,

    Depois deixe-me morrer. Chame-me com seu olhar,

    Depois mate-me com sua partida. Porque eu te amo.

    Sua voz é como oração Quando sussurras meu nome.

    Seus beijos são bênçãos Estampadas em meus lábios.

    Ore meu nome, Abençôe minha boca.

    Depois mate-me com sua partida. E eu sempre te amarei.

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    Capítulo 5 – Encontrando. Caminhando de volta para meu novo lar, com

    o ego e o orgulho inflados pelo ocorrido a pouco, meus pensamentos voltam para onde o coração chama. Começo a lembrar de beijos que incendiaram-me de desejos e anseio por ele.

    O fogo... meu fogo, o anjo do fogo! Toco no símbolo do nosso amor despedaçado, a pedra que carrega o peso de uma traição. Uma traição para salvar uma amizade... Nada valeu, eu o perdi e já não tenho mais meus dias felizes.

    E o poder de um pensamento apaixonado é tão forte, que meu anseio vai até onde ele está e o traz até mim. A imagem perfeita a minha frente. Um anjo ao meu alcance, sorrindo feliz. Se é uma realidade ou uma miragem, eu não sei. Mas o fato de vê-lo é tão agradável que o esforço para controlar as batidas rápidas do meu coração é enorme.

    -Anjo – falo sorrindo. -Por que deixei-te? – ele pergunta. -Porque era o certo a fazer. -Não é certo deixar o amor – sua voz perfeita

    sempre retruca minhas respostas. -Não, meu anjo, não é certo. Mas talvez eu não

    seja o amor que tanto procuras. Estás enganado ao meu respeito.

    A sua resposta veio com um beijo. Sentir sua língua procurando a minha ansiosamente, sua pele

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    em contato com a minha, o calor do desejo, a vontade de entregar-me e desvendar seus mistérios...

    Afasto-me subitamente. -Vá embora, Arel. Meu mundo não te

    pertence, meu amor não é seu – declaro pesarosa e firme.

    -Não posso perder-te. -Ninguém perde o que não tem. Isso tudo é só

    uma ilusão, nosso amor é proibido. E depois, jamais acreditastes em mim, eu quis ajudar um amigo e vistes tal ato como uma traição dos meus sentimentos sinceros por você.

    -Quando fostes sincera? Sua vida é uma bola de mentiras e falsidades – sua voz proferindo essas palavras assolou-me o coração.

    Venci o ódio e a humilhação e sorri. -Vejo que aprendestes a lição. Agora saia do

    meu caminho e não procure-me mais. Segui sem olhar para trás, até que ele chamou-

    me: -Lienne, onde estão suas asas? -Não queira saber essa resposta. De volta a mansão. Noite sem sono. De volta a eternidade em claro. Os sonhos acabaram. As esperanças se

    foram... A vida é um mistério. Os anjos são um

    mistério. Por que amamos se nossa função é viver na solidão eterna? Ouvi-lo chamar meu nome foi como

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    mágica, foi sagrado. Anjos não sussurram, eles oram. Meu nome em sua boca foi um ato sagrado. Fui enaltecida e abençoada, para logo a seguir ser amaldiçoada por um beijo tão encantador quanto o milagre da vida que faz os nefilins existirem.

    Meu nome ressoando em sua voz... sensação tão boa quanto voar!

    -O que estou fazendo? – murmuro para meus pensamentos. – Não posso tê-lo. Já prometi meu corpo para outro.

    -Falando sozinha? – a voz do outro anjo perturba-me.

    Hora de sorrir novamente. -Encontraste-me afinal – respondo. -Tal beleza caminhando aos prantos pelas ruas

    desse mundo infectado de horror é motivo para destacar-se.

    -Acabei de chegar e já perturbas-me com futilidades, Persis.

    -Caistes de amores por aquele anjo? – ele acusa-me.

    -Amor? Desconheço tal sentimento – respondo dando de ombros.

    -Uma pena, porque eu te amo e ansiava entrar em seu coração.

    -Tenho uma palavra no lugar desse orgão. -Qual? -Vingança, Persis. Vingança. -Nosso acordo está de pé? -Por que não estaria? – rebato sua pergunta. -Porque habitas na casa do Rei das Trevas.

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    -Azazel encontrou-me primeiro – menti. -Que seja. Como faremos? -Do meu jeito. Eu dou as cartas agora. -E por que pensas que aceitarei seu jogo,

    Lienne? -Porque tenho as respostas que tanto anseia,

    porque sem mim, nada terás para entregar ao nosso Rei.

    Persis sorri. -Sempre soube que você seria a melhor. Tão

    cruel... Uma peste com o rosto de um anjo emoldurado no corpo de uma criança.

    -Não sou mais criança, Persis. -Deflorastes teu corpo com aquele anjo? –

    perguntou-me Persis enciumado. -Tal preciosidade continua imaculada, meu

    querido. Ele deu a volta em torno da mesa enorme do

    escritório da mansão e curvou-se para deixar seu olhar no mesmo nível que o meu. Senti quando sua mão agarrou meus cabelos fortemente antes de sua boca murmurar as palavras:

    -Pertences a mim, somente a mim. Afastei sua mão com um safanão que ele não

    esperava. Levantei-me bruscamente, obrigando-o a dar dois passos para traz. O empurrei contra a parede e deixei meu corpo encostar no dele de maneira sensual. Fiquei nas pontas dos pés para alcançar seu ouvido e sussurrar:

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    -Não sou de ninguém, porém, se pedires com carinho, posso pensar em dar-te algum prazer. Mas te garanto que quem dá as regras agora sou eu.

    Eu o beijei. Uma noite e três beijos. Uma noite e três ameaças. Uma noite e uma tentiva por parte do meu pai

    de matar-me. Uma noite e muitas mentiras proferidas. Eu afasto-me enquanto observo Persis de

    olhos fechados e arfando pelo beijo. Acendo um cigarro, mania irritante, mas que tranquiliza.

    -Entendestes? Ou preferes que eu desenhe em gráficos? – pergunto vitoriosa.

    -Continuas com vícios que nenhum prazer podem oferecer-te?

    -E o que tu tens a ver com isso? -Ficaremos nesse eterno bate e rebate de

    perguntas? -Apenas responda-me, Persis. -Que tal se os dois dividirem o poder? -Se gostas de viver na ilusão de que é assim

    que vai ser, pois que seja – dou de ombros. – Você é quem será iludido mesmo.

    -Veremos de quem será a ilusão no fim dessa história.

    -Vai embora, Persis. Tenho mais o que fazer.

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    VINGANÇA

    Analisando os fatos, Correndo em pensamento,

    Discernindo as jogadas. Entranto com tudo. Matar ou morrer...

    Eu mato... E depois morro.

    Eu vingo, Eu venço.

    Eles não imaginam, Não fazem idéia.

    Apenas esperam... Anseiam por uma única chance De enganarem-me novamente.

    E o sorriso estampa-se no meu rosto. Matar ou morrer?

    Eu mato, eles morrem.

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    Capítulo 6 – Analisando. Passei a noite inteira analisando os

    documentos da minha nova empresa: Exodus Arquitetura S. A. Claro que ela não era só minha. Apollyon jamais faria algo que não lhe desse vantagem alguma. Eu era a sócia, ele estava naqueles papéis como meu marido, fato que tornava tudo muito mais engraçado.

    Bem, o quadro de funcionários era vasto. Uma empresa grande e com um faturamento absurdo! Quem Apollyon teve que matar para conseguir isso, eu jamais saberia. Mas o interessante era os “milagres” que esse ser fazia para conseguir o que tanto almejava.

    Enfim, passei a noite inteira lendo aquelas porcarias, planejando minha vingança, formulando as maiores falcatruas para destruir aqueles três imbecis que me trairam. De certa forma, apesar de tudo o que fiz contra eles, eu lhes dei uma chance e o modo como agiram comigo foi vil até mesmo para esse monte de lixo.

    O sol já reinava forte. Eu estava recostada na imensa cadeira daquele escritório com um sorriso estampado no rosto, contando os minutos para iniciar meu ataque contra as bestas humanas. Não senti quando minha visita entrou, devido a tamanha concentração que esse assunto me dava.

    -Sonhando acordada, nefilin? – perguntou-me o Rei das Trevas.

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    -Não me chames assim. Sabes tão bem quanto eu que essa fase da minha vida já passou – retruquei.

    -Sempre serás a filha de um anjo. Podes estar alada agora, mas sempre serás uma nefilin.

    -Homens... humanos, demônios, anjos... sempre vão irritar-me.

    -E você sempre irá me fascinar – disse ele aproximando-se de mim, curvando-se para sua boca alcançar meus lábios, beijando-me de maneira intensa e deliciosa. Esse ósculo só perdia para o sabor doce da boca de Arel. Nem Persis despertava esse desejo em mim. – Não imaginas o quanto desejo-te.

    -Não és o único – provoquei-o com um sorriso maldoso.

    -Mas serei o primeiro! Certo, ninguém consegue rebater as palavras

    dos arcanjos e Apollyon, mesmo sendo um demônio das trevas, foi um arcanjo um dia. Eu deveria ter aprendido essa lição na Cidade dos Nefilins, mas a teimosia sempre inspirava-me a responder.

    Observei melhor Apollyon. Ele trajava um imponente e elegante terno escuro. Parecia o humano mais lindo do universo, perfeito em sua imagem de um nórdico simpático. Seus cabelos loiros, quase brancos, destacavam aqueles olhos que ficavam azuis nesse mundo. Lindo e perfeito! Mas meu coração fora doado a outro arcanjo e eu sempre amaria Arel.

    -Pronta para assumir o poder? – ele perguntou-me.

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    -O que achas? É um momento notável de grande ansiedade da minha parte. Mas o clímax dessa vingança só chegará quando eu vê-los derrotados.

    -Não contarás seus planos nem ao seu rei? -Que valor terá se meu rei souber minha

    conspiração? Não lhe agradarás mais a minha atitude em relação aos fátuos humanos podres e desatinados pela confusão que irei proporcionar-lhes do que conhecer antecipadamente o fim desse jogo?

    -Perversamente matreira, criatura fascinante com planos exímios! – ele respondeu-me com um sorriso sedutoramente maléfico. – Vá, querida súcubo.

    -Não sou uma súcubo – falei de maneira casual.

    -Não és nefilin, não és súcubo. O que és, minha cara?

    -Simplesmente Lienne, a nubente do inferno – respondi com a voz sensual, aproximando-me dele.

    -Apenas uma neófita nessa arte, minha querida.

    -Penso que já provei meu valor, grande Rei. -A cada segundo torna-se mais atrevida, alada

    rainha. Agora vá, apronte-se para a nossa chegada na Exodus.

    -Nome propício para uma empresa, sendo que tirarei todos de lá.

    Apollyon riu alto. Deixei-o sozinho naquele escritório e subi para trocar-me, escolhendo uma das roupas que, como todos os milagres de Apollyon,

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    empilhavam-se de maneira organizada num closet perfeitamente abastecido, como se esperassem sempre pela minha chegada.

    Assim que desci a longa escadaria, duas silhuetas assombram a porta de entrada. Com a nova visão, de longe percebi a presença dos dois nefilins. Caminhei altivamente até eles.

    -O que fazem aqui? – perguntei com a voz controlada e com o coração aflito.

    -Fugimos daquela cidade – respondeu o nefilin.

    -Ai, meu deus! Se eu soubesse que você se esconderia tão bem e nesse lugar belíssimo, eu nem teria hesitado em fugir! – exclamou Séfora adentrando na imensa residência da qual eu habitava e observando cada detalhe.

    -Séfora, como conseguistes caminhar a luz do sol? – perguntei sem entender.

    -Encontramos Persis durante a noite e ele forneceu-me uma bebida esquisita, mas que permite-me caminhar pela luz da estrela matutina.

    Olhei rudemente para Azazel. -Um pequeno experimento que deu certo,

    minha senhora – ele defendeu-se ao meu olhar inquisitivo.

    -Tendo esse experimento em mãos, privastes-me dessa benção? – indaguei.

    -A jovem nefilin foi o teste de Persis. Caminhei até Azazel e o chutei no abdômen,

    lançando-o contra a parede.

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    -A quem obedeces, estúpido transformado? A seu rei ou a outro de sua espécie? – gritei-lhe.

    Azazel levantou-se com dificuldade e, de cabeça baixa, respondeu:

    -Esse experimento foi dado antes de sua volta, senhora.

    -Na próxima que fizerdes sem meu consentimento terás a cabeça separada de seu corpo – respondi-lhe. Depois virei-me para Mikael e perguntei: - Por que fugiram da Cidade? Não sabiam que estariam mais seguros por lá?

    -Kandake nos orientou para que fugíssemos – desculpou-se Mikael.

    -Seu pai é uma anta! -Meu pai? Não, eu era a anta. Uma grande tola que fala

    demais. Felizmente Apollyon apareceu e salvou-me

    das indagações de Mikael. -O que temos aqui? – perguntou o Rei das

    Trevas. -Dois fujões querendo arrumar uma grande

    refrega para nós. Estúpidos! – falei por entre os dentes. – Hazanel mandará todos a procura dos dois.

    -Hazanel é só um tolo besta, Lienne. Deixe os jovens sob nossa proteção. Nenhum deles ousará enfrentar-me – respondeu Apollyon.

    -Então, o problema será todo seu. -Ora, essa doce garotinha passará facilmente

    como nossa filha – ele disse sorrindo enquanto colocava o braço em volta dos ombros de Séfora, que

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    sorria como se tivesse ganhado na Loteria. Um pai, era a figura que ela mais almejava na vida. – Assim será, Lienne.

    -E eu tenho idade para ter uma filha desse tamanho? Séfora é mais velha que eu!

    -O presidente da Exodus já teve outras mulheres. Ela será sua enteada – Apollyon sorriu, divertindo-se com tudo.

    -E o que farás com Mikael? -O filho de Kandake será nosso funcionário. -Kandake é meu pai? – perguntou o nefilin. Revirei os olhos. Aquela situação cansava-me.

    A imputação malévola de Apolyon não tinha freios e colocar Mikael e Séfora nessa assacadilha não agradava-me nem um pouco.

    -Kandake é seu pai, aquele imprestável é seu irmão – apontei para Azazel – e eu não tenho paciência para lidar com isso. Você irá conosco e Séfora fica. Não sei até quando as porcarias que Persis lhe deu durarão – olhei para a nefilin. – Suba, Teddy está em cima da cama do quarto principal.

    -Não o lavastes, né? – ela perguntou-me inocente como uma criança.

    -Não, aquela porcaria continua fedido e encardido como sempre foi. Agora suba!

    -Você não manda em mim, Lienne – ela retrucou.

    -Ah, que lindo teatro! Sou sua madastra, lembra-se? Ou aceita isso ou volta para a Cidade dos Nefilins. Como será?

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    -E enfrentar quinze chibatadas? Não sou tão louca quanto você.

    Bufando, Séfora fez o que lhe ordenei. Era hora de enfrentar a realidade e dar o

    primeiro passo para a minha doce e imensamente esperada vingança.

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    O RETORNO DA FÊNIX

    Fui caçada, Enganada,

    Traída, Queimada, Destruída.

    Minhas cinzas eram Como odor agradável aos inimigos.

    Despedaçada, Ferida,

    Fugindo, Sem vida.

    Minha ausência era Como festa para os bandidos.

    Treinada, Concentrada,

    Vitoriosa, Alada.

    Meu retorno será Como fel para eles.

    Um doce sabor para mim. A fênix retorna

    Para completar o fim.

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    Capítulo 7 – Conhecendo. Chegamos na Exodus e caminhamos

    rapidamente até a sala da presidência. Duas moças recepcionavam o local. Apollyon entrou direto na sala com Mikael ao lado. Eu parei na porta e olhei para as duas, analisei-as. Uma ruiva baixinha e simpática e uma morena alta e esguia. Duas humanas de belezas exóticas.

    -Sigam-me – falei quase rindo ao lembrar-me do modo como Arel tratava-me na Cidade dos nefilins.

    As duas acompanharam-me, adentrando no ambiente perfeitamente decorado.

    -Sentem-se – ordenei e as duas obedeceram. Agora eu entendia Arel, era bom mandar!

    -Já conhecem-me – Apollyon falou. – Esta é minha esposa, Eliane.

    -Eliane? – sibilou Mikael. Apenas assenti discretamente e ele entendeu o

    recado. -Ela será a nova presidente da Exodus. É a ela

    a quem responderão de agora em diante. Entendido? -Sim, senhor – as duas responderam em

    uníssono. -Eliane, - continuou Apollyon – essas são

    Fernanda e Priscila, suas novas ajudantes. Terminada as apresentações, ele fez um gesto

    para que eu falasse. Caminhei até ficar ao seu lado

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    direito, mostrando minha verdadeira posição ao lado do Rei das Trevas, fato que elas desconheciam.

    -Não quero nenhum funcionário sem autorização entrando na minha sala, não quero fotos minhas em jornais ou revistas, não quero minha vida espalhada por aí. Mikael tem acesso livre a minha sala sem precisar ser anunciado. Me chamem de Lienne, um apelido usado pelos íntimos. Cumpram minhas ordens e terão uma grande amiga. Desobedeçam-me e corram, pois eu não serei piedosa – terminei meu discurso com a voz firme, disfarçando a ansiedade por ter tanto poder nas mãos.

    Ambas olhavam-me com uma mistura de medo e admiração.

    -Podem se retirar – Apollyon completou. -Estamos a sua disposição, senhora – falou

    Priscila. -Sem formalidades. Sou forte, mas não mordo.

    Realmente eu espero amizade e fidelidade. Portanto, chame-me apenas de Eliane.

    -Sim – ela deu-me um sorriso contido. -Podem ir – reforcei a ordem de Apollyon. Ficamos a sós na sala. Nos entreolhamos.

    Mikael expressava confusão, enquanto Apollyon sorria.

    -Lembra-se da história que contei para Arel? – perguntei ao nefilin.

    -Sim. -Isso tudo faz parte da minha vingança contra

    aqueles humanos que mencionei em tal conversa. Ou

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    estás do meu lado ou este é o momento de partir. O que farei a partir de agora não será motivo de orgulho para um anjo fiel e quem estiver do meu lado terá o mesmo desagrado que acarretarei.

    -Entretanto, terás a minha proteção caso aceite ajudar Lienne – falou Apollyon oferecendo o pior convite para Mikael.

    -Vingastes a morte de Saron, Lienne. Provastes com aqueles castigos que és digna da minha confiança. Jamais te deixarei.

    Essas palavras de Mikael fizeram-me lembrar do meu amigo. Na verdade, lembrei-me de tudo que deixei para trás... Meu pai, meus amigos, meu grande amor.

    -Apenas ajude-me, Mikael. É só o que te peço. E a vingança tomava forma. O primeiro passo

    foi dado. E esse passo foi além do que eu planejara, pois acabei envolvendo dois amigos nessa tramóia. Percebi que eu agia tão erroneamente quanto aqueles que me trairam. Era como se todo o tempo passado voltasse de maneira grandiosa. Eu usaria aliados mais fortes, minha nova empresa era muito maior e meus inimigos estavam sob meus pés.

    Eu não senti o que esperava. Uma sensação estranha assolava-me o coração, mas o desejo de vingança era tão forte e entorpecente que fez-me ignorar tudo.

    -Qual o primeiro passo? – Mikael perguntou, tirando-me de devaneios insanos.

    -Contatos e projetos. Preciso saber de tudo o que está se passando na empresa. Preciso que

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    comunique a todos os arquitetos a nova presidência, principalmente aos três babacas que eu tanto odeio. Torne-se amigo deles, aproxime-se, faça-os confiar em você.

    -Volto em uma hora – respondeu o nefilin, retirando-se dali determinado a cumprir tudo o que eu havia pedido, com um sorriso tão malígno quanto o meu.

    Observei Mikael. Ele seria um anjo forte se terminasse seu treinamento na Cidade dos Nefilins.

    -O filho de Kandake nasceu para servir-te. Ele te idolatra – comentou o Rei das Trevas.

    -Não é para menos, levei quinze chibatas para protegê-lo. Ele deve muito a mim.

    Apollyon soltou uma gargalhada sonora. -Acredito que a Cidade dos Nefilins conte

    seus dias agora em dois períodos: antes e depois da filha de Caleb. Quinze chibatadas! O que fizestes para merecer tal punição?

    -O que me pedistes, encontrei o caminho alternativo para entrar e sair de lá.

    -Quem foi o autor do seu castigo? -Meu pai. Mais uma gargalhada, que agora tornava-se

    irritante. -Caleb é digno de minha admiração. Jamais

    encostaria em meu filho. -Filho? – perguntei curiosa. -Um assunto que não lhe diz respeito, minha

    cara.

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    -Vejo que modos rudes fazem parte da essência dos arcanjos – rebati lembrando de Arel no meu primeiro dia naquela Cidade.

    -Assim como sua curiosidade atormenta a todos.

    -Segredos não revelados e pertinentes aos meus planos atormentam-me – corrigi os pensamentos dele.

    -E que planos são esses? -De não criar filho de um demônio. -Você diverte-me, Lienne. Meu filho está

    criado e não faz idéia do que ele é. -Mantenha seu filho longe de mim, Apollyon. -Como? Ele está mais perto de você do que

    imaginas. -Desisto de tentar decifrar seus enígmas. Vou

    sair – falei caminhando para a grande porta de mogno.

    -Aonde estarás, nefilin? -Matando.

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    O AMOR NOS MATA...

    O amor chega com um olhar. O amor consome a alma.

    Quando entenderás que te amo?

    O amor tira-nos de órbita. O amor comete loucuras. Não sabes que te amo?

    O amor faz perecer o ódio.

    O amor transforma demônios. Não acreditas que te amo?

    O amor nos vence,

    O amor nos engana, O amor enlouquece, O amor nos mata...

    Eu morreria por você.

    Eu morreria por esse amor.

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    Capítulo 8 – Amando. O vinho batizado com sangue que Apollyon

    deixou na mansão supria-me a tal ponto de não precisar caçar. Eu tinha uma nova vida, e já não ansiava mais pelo sangue que corria nas veias humanas. Porém, em troca dessa transformação, ganhei sentimentos intensos que faziam-me arder de amor por um anjo.

    Caminhei até um lugar distante, chegando num local muito parecido com aquele onde Arel beijou-me pela primeira vez.

    Meu anjo... Por que os nefilins amam? Por que eu pensava assim, sendo que eu era

    um anjo? Ele não podia amar-me. Nossas vidas, nossos

    destinos, não foram entrelaçados. Eu desfiz todas as nossas esperanças com minhas escolhas. Permiti que o ódio tomasse o lugar do amor e segui pela estrada tortuosa da vingança. Porém, meu anseio por vê-lo era tão grande que chego a orar. Sim, eu orei. Pois seu nome era como prece sagrada.

    -Deus, como eu queria acreditar... como eu queria ele aqui! – sibilei.

    -Ainda não aprendestes que suas orações sempre serão atendidas?

    Impossível não sorrir. Ele estava ali, perfeito como sempre.

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    -És um anjo, Ele escuta seus pedidos – Arel falava com satisfação, como se aquela prece fosse tudo o que ele mais desejasse de mim.

    -Como sabias onde encontrar-me? – perguntei disfarçando a felicidade de tê-lo a minha frente, a magia de revê-lo.

    -Adivinhar seus planos não é tão difícil assim. -Estás afirmando que sou previsível? -E não és? -Posso beijar-te ou bater-te, isso depende do

    meu humor – respondi. -Ainda assim seriam apenas duas opções. -Você me irrita, Arel. -Tanto que desejas-me ao teu lado. -Um anjo gabando-se? O pecado do amor não

    é o único que atingiu seu coração. -Lienne, sempre dramática! Éramos dois anjos estúpidos, um de frente ao

    outro, nos desejando. E tudo o que fazíamos era nos alfinetarmos.

    Eu só queria dizer que o amava, mas o orgulho construía barreiras diante das palavras.

    O caminho errado. A minha culpa. Atitudes insanas superavam a vontade de

    amá-lo. Um ódio crescente, o orgulho. A vingança valia mais que o amor?

    Mesmo fugindo dessa estranha verdade, lá estava eu, rendendo-me aos seus pés.

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    -Por que empenha-se tanto em estragar a sua vida? – Arel perguntou-me enquanto sua mão alcançava minha face, acariciando-a delicadamente.

    -Fiz algumas escolhas erradas, Arel. Decisões estúpidas, confesso. Mas a vingança é como um vício, não posso livrar-me dela.

    -Não podes ou não queres? -Subestimas tal sentimento, anjo. -Nada é mais forte que o amor, Lienne. Sem que eu esperasse, ele tomou-me em seus

    braços, segurou-me de maneira que para desgrudar-me dele, seria necessária uma luta. E eu não queria lutar, não dessa vez. Eu só queria sentir novamente o sabor dos seus lábios. E Arel não decepcionou-me quanto a isso.

    Sua boca percorria meu pescoço, trilhando o caminho que a levaria até meus lábios. Línguas movimentavam-se em sincronia, trazendo tudo o que palavras não conseguiriam explicar.

    Suas mãos soltaram meus pulsos para tocarem em meu quadril, puxando-me para si, apertando-me ao calor de seu corpo ardente de desejo.

    Pernas trêmulas. Vontades quase incontidas. Um amor revelando-se... Uma promessa havia sido feita e eu não

    poderia quebrá-la antes da minha vingança ser finda. Errado! Esse ósculo era um grande erro! Subestimar o

    Rei das Trevas era o único atrevimento que eu não ousaria fazer.

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    Libertei-me de Arel com um grande empurrão. Seu olhar confuso era como o fio de uma adaga enferrujada cravada em minha carne.

    -Por que, Lienne? -Porque dissestes que eu era um erro. Porque

    essas palavras levaram-me até Apollyon e agora eu pertenço à ele. Eu posso dar-te inúmeras razões, Arel, porém nunca entenderás nenhuma delas.

    Num desvairado acesso, Arel partiu para cima de mim, arrancando minha blusa. Assustada, não reagi. Ele deu alguns passos para trás e avaliou-me com um olhar incrédulo.

    -Tens razão, eu não entendo. Continuas intocada.

    -Por que todos fazem isso comigo? Por que procurar por uma prova no lugar errado? – gritei com raiva. – Pior, uma prova invisível!

    -Não sabes o que acontecerá caso venhas a perder sua virtude?

    -Não! -Lienne, por trás dessa fúria ainda escondes a

    inocência de uma criança – e ele sorriu. -Não sou o que pensas, Arel. -Realmente. És somente uma tola. -Lindas palavras! Levantaram minha moral.

    Sou infantil e tola – respondi enquanto ajeitava os trapos que antes eram minha blusa. Nessas horas eu agradecia a existência de quem inventou a roupa íntima. Não que eu me sentisse à vontade trajando quase nada na parte superior do meu corpo. Na

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    verdade, essa era uma situação bem patética, mas era melhor do que estar sem nada.

    -Desculpe-me por isso – falou Arel. -Por que ainda me segues? -Por culpa de três palavras: eu te amo. -Não foi o que dissestes quando eu beijei Liel. -Aproveitando o assunto, por que o beijastes? Essa era uma pergunta que eu não queria

    responder. Entretanto, eu já não tinha mais nada a perder mesmo...

    -Séfora e Liel estavam aos beijos naquele dia – respondi.

    -Qual o problema disso? -Alguém poderia vê-los. -Torno a perguntar: qual o problema disso? -Batestes a cabeça, anjo? Eles são filhos de

    Arktos, estariam quebrando uma das regras da Cidade dos Nefilins. Tente entender-me, Arel, eu só beijei meu amigo para salvá-lo de uma punição.

    -Calma, Lienne. Vamos por partes. De onde tirou a idéia de que os dois eram irmãos?

    -Nossos pais aparecem quando o perigo é eminente e nos conduzem para a Cidade dos Nefilins. Arktos salvou Liel.

    -Sim, mas isso não significa que Arktos é o pai dele.

    -Não? – esse era um segredo novo para mim. -Não. O pai de Liel pertence às trevas, por isso

    mandamos Arktos salvá-lo. Fofoca do ano até mesmo para os anjos!

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -Estás dizendo que todo o meu sacrifício foi em vão?

    -Ao lembrar-me da cena, vejo que não foi sacrifício algum para você.

    -Poupe-me de seus ciúmes, pois não sabes de nada, Arel – falei por entre os dentes. – És mais cego do que aqueles que vivem na escuridão.

    -Interessante ouví-la falar isso. Pois é você quem anda perdida em alcançar objetivos que irão destruir-te.

    -Ao menos eu luto pelo que quero. Mesmo que eu venha a perecer, terei sempre o orgulho de ter tentado – rebati.

    -Que orgulho é esse, Lienne? Orgulha-se da derrota?

    -Sou apenas fiel aos meus desejos. -Quando olho para você, tudo o que vejo é a

    infidelidade em forma de anjo. És, para mim, a mais perfeita infelicidade, a ânsia que tanto busco. Corri atrás desse sentimento e prostrei-me ante a sua determinação. Fui iludibriado pelos seus jogos sedutores. És uma mistura de inocência e maldade.

    -Jamais brinquei com o amor, Arel. Tudo o que sinto é verdadeiro.

    -Eis o mistério, Lienne... Com um simples e terno olhar, com o revelar de seu tórrido sorriso, com um único toque de sua suave pele, transformastes em humilde criança o mais poderoso dos infiéis.

    -Essa é uma tormenta que assola-me. -Pobre nefilin, perdida e sozinha. Mudastes o

    rumo de tantos e, mesmo assim, amo-te com a força

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    do brilho de mil sóis. Porque um único beijo não foi suficiente para extrair a vontade lasciva de saborear seu amor.

    -Meu anjo... Eu não queria ser essa guerreira afoita. Eu não

    queria lutar contra esse sentimento. Mas, se eu morresse naquele instante, sabendo que ele amava-me tanto, isso já era uma grande vitória.

    -Quem amas, Lienne? Quem realmente é o dono do seu coração?

    -Um mistério não revelado? Gravei seu nome em minha vida, Arel.

    -E no entanto insiste em perder-me. É disso que orgulha-se tanto?

    Eu vi a dor em seus olhos, eu vi o quanto ele amava-me, eu vi aquele anjo partir para poder sibilar:

    -Orgulho-me de amar-te muito, Arel. E durante toda essa conversa, não estávamos

    sós. Uma terceira figura observou tudo e agora fitava-me com seu olhar inquisidor. O ignorei e parti dali, na esperança de que esse assunto fosse deixado para trás...

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    INIMIGO.

    O inimigo persegue-me, Ele me sonda como uma fera.

    Eu fujo em meu temor. O inimigo aproxima-se,

    Ele olha-me como um caçador. Eu o encaro por orgulho.

    O inimigo castiga-me, Ele profere duras palavras. Eu o escuto em minha dor.

    O inimigo acolhe-me, Ele me envolve em seus braços.

    Eu me rendo ao seu amor.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    Capítulo 9 – Respondendo. Ele seguia-me, queria respostas, buscava fatos,

    bem a sua maneira ortodoxa de ser. Eu não voltaria para a Exodus, mas ele saberia onde encontrar-me de qualquer forma. Voltei para a mansão onde agora eu habitava sempre com ele ao meu encalço.

    Assim que entrei no escritório, virei-me para encará-lo com um ingênuo sorriso eclipsado pelo meu olhar malígno. Eu estava mais contida, com a fúria reclusa, enclausurada pelo medo que eu sentia do meu genitor.

    -Essa sua paúra é, de certa forma, interessante. Lembra-me uma fera acuada que ruge para afastar seu caçador. Porém ainda vejo a coragem avançando em seu semblante. Uma forma eclética dessa sua nova vida – ele falou, analisando-me.

    Era perceptível a ebulição do meu amor contido, quase sendo revelado em forma de lágrimas. Eu estava ébria de paixão e a ponto de eclodir, de forma perspicaz e sucinta, o ódio pertinente que eu sentia por amar demais. Uma redundância estúpida do meu coração: amar e odiar. Eu amava Arel e me odiava por isso, mas não deixaria a presença daquele ser abater-me e eu lutaria pela minha verdade enquanto houvesse forças para isso.

    -Eis que a bela torna-se a fera. Num tempo longíquo você se renderia.

    -Eu lutaria – rebati.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -Uma tentativa infrutífera, pois conheces a minha força.

    -Eu matei Iehuiah – falei com desdém. -E quem disse que ele era melhor que eu? Nem o olhar persuasivo que eu usara para

    derretê-lo enquanto eu era somente uma criança, foi suficiente para fazê-lo recuar. Eu o temia demais.

    Enquanto eu perdia-me na tentativa de condensar seus sentimentos, ele desferiu um forte golpe em minha face, fazendo o mundo girar diante de meus olhos.

    -Agistes como a áspide, pequena serpente cheia de mistérios e surtilégios. O que pretendes com tal atitude? Desvirtuar um arcanjo fazendo-o prostrar-se ante aos seus desejos?

    Mais um golpe inesperado, levando-me ao chão. Dali mesmo gritei:

    -O que esperavas de uma nefilin alada? -Bondade, amor, proteção! É disso que os

    humanos precisam, não de um arcanjo a menos para cuidar deles – urrou meu pai.

    -A bondade mata, o amor destrói e a proteção me expõe – respondi levantando-me. – Poupe-me de seu ciúme!

    -Anjos amam, Lienne. -Eu não tenho amor, pai! – exclamei. -Seus olhos só enxergam um caminho:

    vingança. -Vingança e amor assolam o coração de todos. Eu chorei.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    Estava perdida e desesperada, louca de terror, no meio de um labirinto de sonhos desfeitos, dentro de um emaranhado confuso e tosco. Vivendo a realidade tóxica do amor perdido.

    De frente ao arcanjo que deu-me a vida toda a minha coragem esvaiu-se. A leoa evanescente dava lugar a criança que um dia fui. E o amor que eu sentia por ele ainda residia em alguma parte do meu corpo angélico, pois eu ansiava por aqueles braços que um dia embalaram-me.

    -Ainda há tempo, Lienne, não destrua sua história.

    -O que restou para mim, pai? O era uma vez de ninguém? A criança cresceu, tornei-me um anjo.

    -Anjos e crianças não odeiam. -Então por que odeias-me? -De onde tiras essas idéias absurdas? -Diga-me, somente uma vez. -Eu sempre vou te amar, minha filha. -E mesmo amando-me não és capaz de

    entender o que sinto por Arel? Sabias dos meus sentimentos por ele, pai.

    -Sentir é uma coisa, agir é outra. -Agistes de maneira pecaminosa com minha

    mãe. Quem és tu para julgar-me? Ganhei uma lição que eu jamais aprenderia:

    meu pai não aguenta ser provocado. Uma série de golpes foram desferidos. Livrei-me da maioria, mas Caleb era muito mais forte e poderoso. E senti-me como se estivesse de volta a uma das arenas da

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    Cidade dos Nefilins quando seu chute acertou-me o estômago.

    Caída, vi quando ele aproximou-se de mim. Eu esperei por mais um golpe, com a ridícula esperança de interceptá-lo ou revidá-lo. Entretanto, Caleb abaixou-se para olhar-me nos olhos e dizer:

    -Seu atrevimento não terá fim? -Esqueça-me. Eu sou a filha de um pecado que

    jamais deveria ter nascido. Dito isso, levantei-me e fui para os meus

    aposentos. Machucada e pensando nele. Um amor

    proibido e arrasador. Há momentos em que me perco na ilusão e, quando a realidade volta, já não sei se conseguirei viver sem ele ao meu lado. E o que eu não daria para conhecer o amor carnal de um anjo?

    Felizes foram as mulheres que deitaram-se com eles. Mesmo com suas vida rompidas para que monstros pudessem nascer, elas experimentaram o amor mais sublime de todos.

    Eu seria capaz de quebrar meu trato com as trevas só para ter o prazer que o corpo dele poderia me dar. Mas Arel é como uma estrela inalcansável para mim.

    Enquanto soluço pelas lágrimas pesadas, como criança sem consolo, sinto mãos fortes, que há muito não me tocavam daquele jeito.

    -Eu sei o quanto dói – ele sussurrava enquanto prendia-me em seu abraço.

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    E o ódio se dissipa. Toda aquela luta foi esquecida e entrego-me como a nefilin desprotegida que adentrou na Cidade que transformou-me em anjo.

    -Pai, arranca isso de mim – peço com a voz embargada.

    -Ninguém arranca o amor, é uma tortura eterna. Lastimo por você, minha filha. És capaz de destruir grandes criaturas, no entanto não consegues vencer o amor.

    Caleb pega-me em seus braços e coloca-me na cama. Senta-se ao meu lado, velando meu pranto suas antigas palavras faziam-se reais ali. ele disse certa vez:

    “No momento de encarar a tempestade, estarei ao seu lado”.

    E meu pranto torturoso era a tempestade que descia em forma de lágrimas por um anjo proibido para mim.

    -Por que ainda me amas? – pergunto. -Porque tenho fé em você. -Não sou mais uma nefilin. -Mas sempre serás minha filha. -Pai, mataria-me se eu lhe pedisse? -Eu poderia ter matado-te há pouco. Mas

    quando olho para você, vejo muito mais que meu reflexo. Vejo a força de uma vida que insiste em negar sua essência. Você ama, Lienne, apenas aceite isso.

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    -Eu só queria Arel ao meu lado, só uma única noite, uma única vez. Depois disso, poderias destruir-me.

    -Não diga essas coisas, ainda sou seu pai. Por que achas que tivemos essa briga? Podes chegar a ter mil anos e mesmo assim serás uma garotinha para mim. Morro de ciúmes de você.

    Eu sorri. -Preciso ir, Lienne. Fique em paz. -Adeus, pai.

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    POR VOCÊ.

    Por você, eu alcançaria o mundo. Por você, eu desistiria de tudo.

    Por você, eu enfretaria meu maior inimigo. Por você, eu viveria sem abrigo.

    O único quem ama-me realmente, O único quem esteve ao meu lado sempre.

    O único quem salvou-me, O único quem amparou-me.

    Por você, faria loucuras. Por você, eu morro.

    Tomo minha decisão, Dou-me como experiência,

    Meu corpo será sua salvação.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    Capítulo 10 – Conhecendo. Eu não ficaria na cama chorando o dia todo

    como uma criança mimada. Aproveitaria todas as oportunidades, mas eu precisava recuperar-me das dores que os golpes do meu pai causara-me.

    Caminhei pela imensa mansão em busca de Azazel e o encontrei numa das salas.

    -Preciso daquela porcaria que Persis coloca no vinho – falei firme.

    -Mate um humano e beba o sangue dele –Azazel respondeu de maneira casual.

    -Os golpes que recesbestes não foram suficientes para mostrar-te quem é que manda aqui?

    -Falas do acelerador? -Do que mais seria? Ou acaso pensas que eu

    desejava um cacho de uvas? – respondi imitando o modo de Arel falar. Tudo era ele para mim, eu respirava Arel assim como um vampiro anseia por vida.

    Ele remexeu em seu bolso até encontrar o que procurava e logo ele lançava ao ar um pequeno frasco que veio parar certeiramente em minhas mãos.

    -Onde conseguistes tais lesões? – perguntou-me Azazel.

    -Sabes o que aconteceu. Não se faças de besta – respondi sem paciência e virando aquela porcaria de uma vez.

    Eu esperava pela mesma reação que tive quando ingeri essa droga pela primeira vez.

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    Entretanto, na pele de um anjo, a reação foi como sentir nada. Porém eu pude sentir quando as dores diminuiram e meus ossos voltavam para o lugar.

    Olhei para o pequeno frasco de vidro e percebi que ainda restava cerca de um terço do conteúdo. Preparei-me para beber o resto, quando Azazel chamou minha atenção:

    -Vá com calma, anjo. Acelerador em excesso pode provocar-te uma mutação indesejada.

    -Como assim? -Como o próprio nome diz, esse produto

    acelera suas células regenerativas. Tomado em excesso, seu corpo irá desgovernar seu sistema hormonal e essas células estarão totalmente fora de controle.

    -Anjos têm hormônios? -Inacreditável, mas têm. -E se eu tomar demais eu me transformarei

    em... – o instiguei a contar mais. -Conhecestes Kali? -A filha de Hazanel? – rebati sua pergunta. -Como sabes que ela é filha de Hazanel? -Não sei. Não sabia nem que ela ainda vivia. -Bem, Kali foi salva pelo nosso Rei. Ela um dia

    foi uma nefilin, assim como você. Porém, para os nefilins da antiguidade, o dilúvio era o fim. Exceto para alguns que foram resgatados por nosso Rei. E foi com essa droga que ele curou suas feridas, porém o resultado não foi o que ele esperava, transformando aqueles nefilins mórbidos em criaturas deformadas e abomináveis. E mesmo assim

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    eles são gratos ao Rei por salvarem-lhe a vida, chamando-o de pai.

    -Grande explicação! – exclamei. – E se o acelerador fosse dado à eles novamente?

    -Eu tenho duas teorias quanto a isso: ou eles morreriam ou suas células se regerariam e eles voltariam a ser o que eram antes.

    -Peraí! Tem um ponto cego nessa história. Por que eles tranformaram-se naquelas criaturas? Porque eu entendo que estejas falando de Adramalech também – falei enquanto meu cérebro trabalha a mil pensamentos por minuto.

    -Não posso dizer-te ao certo, mas acredito que essa droga deveria estar com a concentração errada. Por esse motivo os nefilins sofreram mutação excessiva – respondeu Azazel como se o assunto “alquimia” fosse a sua vida.

    Meus pensamentos vagaram para uma idéia principal: na concentração certa, os nefilins voltariam a ser o que eram. Adramalech voltaria a ser o que era! Ele seria novamente o nefilin perfeito que um dia foi e eu não duvidava da beleza do meu irmão.

    -Qual o ingrediente principal desse veneno? – perguntei a Azazel.

    -Bem, eu não chamaria esse composto de veneno.

    -Que seja, é uma droga, muda nossas células, é veneno – rebati irritada.

    -Lembra-se da árvore com o fruto da vida?

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -Aquela que o livro sagrado descreve na passagem que conta sobre o Paraíso e os pais da humanidade?

    -Sim. Adão e Eva. O fruto oferecido pela serpente – explicou Azazel.

    Eu ri alto. -Ela foi muito burra, mas Apollyon não pode

    levar a culpa disso. Eva comeu aquela maçã porque quis – falei em meio as gargalhadas.

    -E quem disse que era uma maçã? Aquele fruto é sagrado e não existe em meio aos humanos.

    -Certo, essa frutinha está no Éden onde tem dois anjos gigantescos na porta e ninguém entra e ninguém sai – comentei como quem pede mais explicações.

    -As almas puras podem entrar lá. Por que achas que o nosso Rei mantém aqueles que um dia foram nefilins? Adramalech e Kali são dois desses que sempre invadem o Éden em busca do fruto proibido para a preparação de mais composto acelerador para a transformação de nefilins em seres noturnos.

    -Estás dizendo-me que Apollyon expõe Adramalech ao risco de ser morto por dois anjos brutamontes que defendem o Éden?

    -Não só ele, como a doce Kali também. Então eu percebi que Azazel sentia algo a

    mais pela filha de Hazanel. Percebi que ele era o único ser que realmente conhecia o amor, pois ele enxergava a alma e não a aparência. Kali deveria ser tão bela quanto Adramalech, mas sua beleza era

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    interna e não física. E eu vi que eu era mesmo a pessoa mais mesquinha e egoísta do universo e jamais mudaria tal posição, porque vendera minha alma em troca de uma vingança boba.

    E após raciocinar bastante, uma nova vingança nascia em mim. Apollyon expusera Adramalech ao perigo, por isso o grande Rei não permitira que ele saísse daquele lugar asqueroso comigo.

    -Azazel, o que farias para livrar Kali dessa loucura?

    -Não entendo suas palavras, anjo. -Testaria esse experimento numa dose

    excessiva para que Kali tivesse uma única chance de voltar a ser como foi um dia? – perguntei com a intenção de usar a filha de Hazanel como cobaia. Se tudo desse certo com ela, Adramalech seria o próximo.

    -E colocar a vida dela em risco? Jamais faria isso!

    -E se fizéssemos ao contrário? -Eu realmente esforço-me para acompanhar

    seu raciocínio, mas sua mente trabalha mil vezes mais que a minha. Sinto muito, mas não entendo o que dizes – respondeu Azazel. E ele tinha razão, o que minha mente processara era uma grande loucura, mas o que eu teria a perder? Arel... e ele era tudo para mim.

    -Eu penso que, se eu ingerisse uma dose maior que a necessária desse acelerador e tranformasse-me em demônio, como Adramalech e Kali, depois

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    tornasse a beber desse produto, eu voltaria a ser como estou agora?

    -Isso nunca foi testado por um anjo transformado, senhora Lienne. Com os nefilins, eu tenho a certeza de que esse processo daria certo, mas com os transformados, como eu ou a senhora, não tenho a mesma certeza. A não ser que...

    Azazel hesitou em responder e ficou pensativo. Logo vi seu olhar arregalando-se, como se alcançasse a ciência de um segredo sagrado.

    -Conte-me – ordenei. -Senhora, apenas permita-me refletir melhor

    no assunto para dar-te a resposta certa. -Tão sério assim? -Uma grande revelação, senhora. -Pois, que seja, Azazel. Assim que tiverdes

    algo concreto, procure-me. Virei-me para voltar ao escritório da mansão,

    entretanto, antes que eu pudesse retirar-me, o filho de Kandake chamou-me.

    -Senhora? -Sim. -Farias qualquer coisa para salvar seu irmão? -Então sabes que Adramalech é meu irmão? -Esse assunto só é segredo fora do reinado de

    Apollyon. Suspirei e fechei meus olhos, lembrando-me

    de que Adramalech foi o único que sempre estivera ao meu lado. E o carinho que eu sentia por ele era mesmo enorme. Meu grande irmão merecia uma chance, pois ele era o verdadeiro herdeiro do trono

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    da Cidade dos nefilins. O filho varão de um arcanjo, uma alma pura e fiel, esquecida no submundo de um rei enganoso.

    -Eu morreria pelo meu irmão – respondi. -Era tudo o que eu precisava saber. -Por que importa-se tanto com ele? -Não é com Adramalech que importo-me, nem

    com o trono da Cidade dos nefilins, acredite. Tudo o que eu desejo é ver Kali feliz.

    -Prepare esse veneno, Azazel. Acerte na dose e eu darei a minha vida para salvar esses dois.

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    DOCE VINGANÇA

    Observando, Analisando, Esperando, Planejando.

    Ansiando,

    Aproximando, Enganando, Saboreando.

    Torturando,

    Sorrindo, Vencendo,

    Exterminando.

    E minha doce vingança toma forma...

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    Capítulo 11 – Planejando. Eu volto para a Exodus e encontro Apollyon

    sentado na cadeira da presidência. -Esquentando meu lugar? – perguntei

    ironicamente. -Esperando-te, minha cara – ele respondeu

    levantando-se e cedendo o lugar para que eu pudesse sentar.

    -Mikael? -Já esteve aqui procurando por você umas

    duas vezes. -Vou chamá-lo – fiz meção de levantar-me,

    mas fui detida por um forte empurrão do rei das trevas.

    -Onde esteves? -Sabes de todos os meus passos, seus

    demônios me perseguem. Por que perguntas? -Porque quero saber até onde vais tua

    fidelidade comigo. -Achas mesmo que morro de amores por ti?

    Nunca enganei-te, grande rei. Entretanto, meu acordo foi firmado contigo e um único beijo não mudará minha palavra – respondi de maneira firme.

    -Não gosto de saber que a nubente do inferno anda distribuindo seus ósculos aos indignos por aí.

    -Matarás à todos? Nunca parastes para pensar que Arel pode ser um bom informante?

    Apollyon afastou-se sorrindo torto.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -A cada palavra sua tenho a certeza de que fiz a escolha certa.

    -Até porque sou a única filha de um arcanjo. -Fato que seu pai poderia mudar. -Fato que meu pai não seria capaz de mudar –

    rebati. -Caleb ainda morre de ciúmes da filhinha? E o

    que dirá a sua pequenina quando souber que seu papaizinho não é o santo que aparenta ser?

    -Não tenho paciência para seus jogos, Apollyon. E a vida sexual do meu pai pouco importa-me. Você só tem duas opções: ou aceita meus beijos com Arel e Persis ou destrua os dois. Assim todos saberão que o grande rei das trevas realmente se rende de amores por alguém.

    -Eu não te amo, Lienne. -Estamos quites, eu também não te amo –

    caminhei até ele e deixei meus braços enroscarem-se em seu pescoço. – Mas morro de desejo por você, meu rei.

    Apollyon estremeceu, depois envolveu-me em seus braços e beijou-me calorosamente. Um ósculo entorpecente, exasperado, enfeitiçado.

    -Ah, imenso e odioso sentimento – ele sussurrou.

    -Sim, caro rei, o pior dos castigos. -Eu a cerquei, encurralei, dominei e a vítima

    sou eu – Apollyon sorri. – Quis fazer doer e essa dor instalou-se em mim. O que és, linda Lienne, uma criança hiperativa ou um cão antisocial?

    -Faça sua escolha.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -Não posso. Estou completa e insanamente perdido nessa fantasia ilusória.

    Olho para ele sem entender. -Sim, minha pequena leoa, és apenas uma

    ilusão. -O tempo e o imprevisto sobrevêm para todos

    – respondo. -Palavras de um sábio rei... mas até mesmo

    Salomão rendeu-se à mim. Mas você... você é como o sol depois da tempestade. Não, você é a tempestade. Água de chuva torrencial. Vem forte, bagunça, destrói, deixa sua marca, acaba, vai embora, evapora.

    -Isso tudo é besteira, Apollyon. -Devaneios de um sádico, minha querida. -A verdade é que teme minha traição. Nunca

    temestes nada, mas temes a mim e isso tortura-te – respondi vitoriosa.

    -A verdade é que precisamos um do outro, Lienne. Que venha o tempo, que o imprevisto desça sobre nós, sempre teremos nossa esperança de vingança estampada um no outro.

    -Meu destino já tem endereço fixo. -Sim, o inferno. Eu ri. -A Cidade dos Nefilins, Apollyon. -Que eu transformarei no novo inferno. Vejo-

    te em breve, linda nefilin. E Apollyon deixou-me a sós com meus

    pensamentos. Eu não podia preocupar-me com ele, eu tinha uma vingança para preparar.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    Saí daquela sala e encontrei uma das minhas novas ajudantes.

    -Priscila, encontre Mikael para mim, por favor - pedi para a humana.

    -Claro, Lienne, sem problemas. -Depois venha até minha sala. Não esperei sua resposta, mas aguardei sua

    presença. Em menos de dois minutos ela adentrava no imponente escritório.

    -Encontrastes Mikael? – perguntei. -Não, mas deleguei a tarefa à Nataly, uma das

    subordinada. -Inteligente. -Preciso estar a altura do cargo. -Ganhastes um ponto comigo. Agora preciso

    que digas-me tudo o que sabes sobre um dos funcionários da Exodus.

    -Conheço todos, Lienne. É só perguntar. -Daniel Medeiros. -Arquiteto, quarenta e oito anos, casado com

    Mariana Medeiros, Mariana Souza com nome de solteira. Não é um bom profissional, mas a esposa o ajuda, mantendo seu emprego aqui.

    -Boa, Priscila. Preciso falar com esse imprestável em particular ainda hoje. Tente contatá-lo para mim e marque uma reunião para às seis e meia.

    -Certo. Isso é só? -Por enquanto. Priscila levantou-se e Mikael já entrava em

    minha sala.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -O que conseguistes? – perguntei. -Bem, depois de muito tempo, conseguir te

    achar, né? -Não estou com paciência para suas gracinhas,

    Mikael. -Certo. A melhor projetista daqui é Mariana.

    Ela quase nunca erra e é a arquiteta mais solicitada da empresa.

    -Seus projetos? Mikael estendeu-me uma pasta que trazia nas

    mãos. -Cinco deles prontos para entrega. Agora me

    conte seus planos – pediu Mikael. -São simples – respondi analisando os projetos

    de Mariana. – Ela não é perfeita e há pequenos erros aqui, nada que comprometa a estrutura de uma construção, mas... com minha ajuda, isso ficará perfeito.

    -Pensei que quisesse destruí-la e não ajudá-la – falou o nefilin sem entender meu plano.

    -Mariana acusou-me de roubar seus projetos, destruiu-me quando eu estava no topo. Farei o mesmo com ela, a colocarei no topo e depois a farei cair. Olho por olho e dente por dente, meu amigo.

    -Isso tudo diverte-me. Claro que, como todo nefilin, Mikael tinha a

    melhor parte de seu pai, a beleza, e a pior parte de sua mãe, a ruindade humana.

    -Conte-me sobre os outros – pediu-me o nefilin.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    -Daniel traiu-me por estar apaixonado. Ele levou-me a um ritual de adoração ao nosso rei e usou fotos onde eu mesma conduzia o ritual para denunciar-me. O seduzirei e o levarei para uma macumbinha básica.

    -E Valéria? -Ela adora seu Deus. Lhe mostrarei o meu

    deus. -A entregará para Apollyon? – perguntou-me

    Mikael. -Meu querido noivo precisa saciar-se – rebati

    sorrindo. -És mesmo virgem, Lienne? -Sou. Mikael sorriu maliciosamente. -Feliz de quem for seu primeiro. -Perdestes o amor à sua vida, nefilin? -Não, minha amiga, mas sexo é bom demais e

    com uma nefilin é muito melhor. -Quando eu experimentar isso, eu te conto o

    que eu acho. Mikael riu e afastou-se. -Onde vais? – perguntei. -Fazer sexo com Nataly. -Você não presta – respondi rindo. -Nenhum de nós prestamos.

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    SEDUÇÃO?

    Ele aproxima-se. Não é amor.

    Não é paixão. Não é prazer, Nem sedução.

    A vingança caminha.

    Ele deseja-me. Ele me quer. Ele beija-me.

    Sedução?

    A vingança acredita. Eu planejo. Eu o beijo.

    Ele me deseja. Sem noção.

    Ele não faz idéia.

    Sua vida em minhas mãos. Seu fim está próximo.

    Como chamaríamos isso? Sedução?

  • Exodus – Catherine Parthenie

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    Capítulo 12 – Seduzindo. Seis e meia. Primeiro passo da vingança. O telefone toca. -Sim? – atendo prontamente. -Lienne, Daniel Medeiros está aqui. -Dê-me dois minutos e depois mande-o entrar. -Certo – responde Priscila. Retiro meu casaco. Peça inútil, não sinto frio,

    não sinto calor. Uma blusa sensual, revelando curvas do meu colo, estava por baixo. Sem o casaco, minha calça mostrava outras curvas, muito desejadas por Arel. Solto meu cabelo e fico de costas para a porta, olhando a paisagem da imensa janela há mais de vinte andares de altura.

    Escuto a porta abrir-se. Sorrio. Hora da vingança. -Chamaste-me, senhora? -Não sente. Nossa conversa será rápida –

    respondo ainda de costas para ele. A porta fecha-se e ele aproxima-se. Escuto cada passo. Sinto sua respiração. Apenas uma mesa grande nos separa. Caminho na semi-penumbra da sala,

    iluminada apenas pela luz do fim de tarde. Tudo ou nada. Perder ou ganhar.

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    Eu ganharia. Fico cara a cara com o inimigo. Sinto seu coração acelerar e seu corpo arfar. -Algum problema? – pergunto. -Não, é que... você lembra-me uma pessoa que

    morreu há muito tempo – responde o tapado. Seus poros dilatam-se, posso enxergar cada

    um deles abrindo-se e o suor brotando em sua pele imperfeita.

    -Conte-me sobre isso – ordeno. -Ela era exatamente como você. A cor da pele,

    os olhos verdes, cabelos como fogo. A semelhança é incrível.

    -Os lábios? – diminuo a distância entre nós. -Os seus são mais perfeitos. -O corpo? – o instigo a olhar-me da cabeça aos

    pés e é exatamente o que ele faz. -Você é perfeita. -A voz? – sussurro em seu ouvido e ele

    estremece. -Doce como mel. -Os beijos? – encosto meus lábios naquela pele

    nogenta e fétida de seu pescoço transpirante. -Nunca experimentei os dela. -E os meus? -Quantos anos tem? -O suficiente para fazer loucuras. Ele toma-me pela cintura e deixo-me ser

    colocada sobre a mesa. Abro minhas pernas e permito que seu corpo encoste no meu. Sentir aquele membro rígido deu-me asco. Eu o odiava, mas sabia

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    mentir melhor que Apollyon. Gemi enquanto seus labios beijavam minha face em busca da minha boca.

    O puxei pelo paletó e o apertei junto a mim. Ele encontrou meus lábios e sua língua

    buscava furiosamente a minha. Nogento. Pervertido. Podre. Me contive e deixei que ele fizesse o que

    queria. Quando sua mão começou a percorrer meu corpo, eu o detive.

    -Não sou assim tão fácil, querido. És um homem casado e eu tenho um dono.

    -Provocas-me e depois dispensa-me? -Um jogo de sedução. Desejas um corpo novo

    como o de uma criança e eu anseio por carinhos de um homem maduro – rebati.

    -Seu dono não dá conta do recado? -Ninguém dá. -O que queres de mim? -Você. -Sou seu escravo. -Morrerias por mim? -Não antes de possuir seu corpo. -O procurarei novamente – murmurei quente

    em seu ouvido, deixando-o louco de desejo. -Quando? -Amanhã, Daniel. -Aguardo seu chamado, minha deusa.

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    -Cuidado com suas palavras, o tribunal eclesiástico pode lançar-te na fogueira – brinco com uma verdade.

    -Não os temo. -Que seja. Espere meu chamado amanhã. Daniel saiu pouco satisfeito da minha sala. Eu

    preferia regurgitar minhas tripas a ter que beijá-lo novamente. Mas sacrifícios eram precisos e eu faria o que fosse possível para ter Daniel em minhas mãos.

    Assim que fiquei só, peguei o telefone e disquei o número que eu havia anotado quando cheguei naquele escritório.

    -Alô? – atende uma voz feminina do outro lado da linha, uma beata carquética.

    -Monsenhor Josiah, por favor. -Quem deseja? -Eliane Manthus, presidente da Exodus. -Sobre qual assunto desejas falar com o

    Monsenhor? -Doação. -Um minuto, por favor. A igreja de Cristo... sempre vendendo-se por

    dinheiro. Fácil de conquistar, fácil de comprar. Um monte de pervertidos infiéis às próprias leis. Lacraias podres e repulsivas, vivendo em despropósitos às suas doutrinas.

    -Senhora Manthus? – era a voz do Monsenhor. -Agrada-lhe a quantia de dez mil dólares

    como uma pequena doação? – sucinta e direta. -Doações sempre serão bem vindas, senhora –

    responde o pervertido.

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    -Passe-me o número da conta para que eu possa realizar a transferência, monsenhor.

    -Em nome de quem devo agradecer tal generosidade?

    -Não reza a palavra que o que deres a mão direita, a esquerda jamais fique sabendo? Doação anônima, meu senhor. Apenas nós saberemos disso.

    -Que seja... Ele passou-me o número de uma conta

    particular. Eu ganhei sua confiança. O som da vitória era bom. Viver isso era um

    preço sem igual. A vingança é fria, mas é doce...

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    TOMANDO O QUE É MEU.

    O amor de um anjo é quente, Abrasa, aquece.

    O amor do anjo me pertence, É meu, esquece.

    Eu disfarço, Tento fingir indiferença. Meu coração rompe-se,

    Sem ele não tenho esperança. Ela o toma de mim. E eu nada importo.

    Eu era dele, ele era meu. Duas almas, Dois amores,

    Dois teimosos, Dois atores.

    Eu digo que o odeio. Ele diz que não me ama. Eu digo que não o quero,

    Mas da distância o coração reclama. E ela chega de mansinho,

    Ela toma o que é meu. Ele apaixona-se.

    A humana ganhou, A nefilin perdeu.

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    Capítulo 13 – Escutando. Quase fim do expediente. Estar na Exodus era

    um sentimento exultante, o sabor da vitória, o gosto da vingança, vê-la tomando forma, saber que eles seriam destruídos, era tão fascinante quanto estar com Arel.

    E um aviso assombrou minha mente, eu precisaria vingar-me de mais alguém. Os humanos eram só o começo. Essa luta estava em seu início, os adversários que eu enfrentaria eram apenas um treinamento. Persis seria o próximo e Apollyon o grande chefe que teria o meu “cheque-mate”. Eu destruiria e depois seria de