Jacques.le.Goff Memoria

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    Jacques Le Goff - MemriaEnciclopdia Einaudi, vol.1 Memria/Histria,p.11-50.

    NDICE DO ENSAIO:

    Nota Introdutria

    1. A memria tnica

    2. O desenvolvimento da memria: da oralidade escrita, da Pr-histria Antiguidade

    3. A memria medieval no Ocidente

    4. Os progressos da memria escrita e figurada da Renascena aos nossosdias

    5. Os desenvolvimentos contemporneos da memria

    6. Concluso: o valor da memria

    * * *

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    Nota IntrodutriaO conceito de memria crucial. Embora o presente ensaio seja exclusivamente

    dedicado memria tal como ela surge nas cincias humanas (fundamentalmentena histria e na antropologia), e se ocupe mais da memria colectiva que dasmemrias individuais, importa descrever sumariamente a nebulosa memria nocampo cientfico global.

    A memria, como propriedade de conservar certas informaes, reenvia-nos emprimeiro lugar para um conjunto de funes psquicas, graas s quais o homempode actualizar impresses ou informaes passadas, que ele representa comopassadas.

    Deste ponto de vista, o estudo da memria abarca a psicologia, psicofisiologia,neurofisiologia, biologia e, quanto s perturbaes da memria, das quais aamnsia a principal, a psiquiatria [cf. Meudlers, Brion e Lieury 1971; Flors 1972].

    Certos aspectos do estudo da memria, no interior de qualquer uma destascincias, podem evocar, de forma metafrica ou de forma concreta, traos eproblemas da memria histrica e da memria social [cf. Morin e Piattelli Palmarini1974].

    A noo de aprendizagem, importante na fase de aquisio da memria,desperta o interesse pelos diversos sistemas de educao da memria queexistiram nas diversas sociedades e em diferentes pocas: as memnotcnicas.

    Todas as teorias que conduzem de algum modo ideia de uma actualizaomais ou menos mecnica de vestgios mnemnicos foram abandonadas, em favorde concepes mais complexas da actividade mnemnica do crebro e do sistemanervoso: O processo da memria no homem faz intervir no s a ordenao devestgios, mas tambm a releitura desses vestgios e os processos de releiturapodem fazer intervir centros nervosos muito complexos e uma grande parte docrtex, mas existe um certo nmero de centros cerebrais especializados nafixao do percurso mnsico [Changeux 1972, p.356].

    O estudo da aquisio da memria pelas crianas permitiu assim constatar ogrande papel desempenhado pela inteligncia [cf. Piaget e Inheller 1968]. Na linhadesta tese, Scandia de Schonen declara: A caracterstica das condutasperceptivo-cognitivas que nos parece fundamental e o aspecto activo e construtivodessas condutas [1974, p 294], e acrescenta: Podemos pois concluir que sedesenvolveram ulteriores investigaes que tratam do problema das actividadesmnsicas, integradas no conjunto das actividades perceptivo-cognitivas, no mbitodas actividades que visam organizar-se da mesma maneira na mesma situao ouadaptarem-se a novas situaes. E talvez s pagando este preocompreenderemos um dia a natureza da recordao humana que impede toprodigiosamente as nossas problemticas [ibid., p.302].

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    Descendem daqui diversas concepes recentes da memria, que pem a tnicanos aspectos de estruturao, nas actividades de auto-organizao. Os fenmenosda memria, tanto nos seus aspectos biolgicos como nos psicolgicos, mais noso que os resultados de sistemas dinmicos de organizao e apenas existem namedida em que a organizao os mantm ou os reconstitui.

    Alguns cientistas foram assim levados a aproximar a memria de fenmenosdirectamente ligados esfera das cincias humanas e sociais.

    Assim, Pierre Janet considera que o acto mnemnico fundamental ocomportamento narrativo que se caracteriza antes de mais pela sua funosocial, pois que comunicao a outrem de uma informao, na ausncia doacontecimento ou do objecto que constitui o seu motivo [Flors 1972, p.12]. Aquiintervm a linguagem, ela prpria produto da sociedade [ibid.]. Assim, HenriAtlan, estudando os sistemas auto-organizadores, aproxima linguagens ememrias: A utilizao de uma linguagem falada, depois escrita, de facto umaextenso fundamental das possibilidades de armazenamento da nossa memriaque, graas a isso, pode sair dos limites fsicos do nosso corpo para estarentreposta quer nos outros quer nas bibliotecas. Isto significa que, antes de serfalada ou escrita, existe uma certa linguagem sob a forma de armazenamento deinformaes na nossa memria [1972, p.461].

    Ainda mais evidente que as perturbaes da memria que, ao lado daamnsia, se podem manifestar tambm ao nvel da linguagem na afasia, devem emnumerosos casos esclarecer-se tambm luz das cincias sociais. Por outro lado,num nvel metafrico mas significativo, do mesmo modo que a amnsia no suma perturbao no indivduo mas envolve perturbaes mais ou menos graves dapresena da personalidade, mas tambm a falta ou a perda, voluntria ouinvoluntria, da memria colectiva nos povos e nas naes pode determinarperturbaes graves da identidade colectiva.

    As ligaes entre as diferentes formas de memria podem alis apresentarcaracteres no metafricos, mas reais. Goody, por exemplo, observa: Em todas associedades, os indivduos detm uma grande quantidade de informaes no seupatrimnio gentico, na sua memria a longo prazo e, temporariamente, namemria activa [1977a, p.351].

    Leroi-Gourhan considera a memria em sentido lato e distingue trs tipos dememria: memria especifica, memria tnica, memria artificial: Memria entendida, nesta obra, em sentido muito lato. No uma propriedade dainteligncia, mas a base seja ela qual for sobre a qual se inscrevem asconcatenaes de actos. Podemos a este ttulo falar de uma "memria especfica"para definir a fixao dos comportamentos de espcies animais, de uma memria"tnica" que assegura a reproduo dos comportamentos nas sociedades humanase, no mesmo sentido, de uma memria "artificial", electrnica na sua forma maisrecente, que assegura, sem recurso ao instinto ou reflexo, a reproduo deactos mecnicos encadeados [1964-65, p.269].

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    Numa poca muito recente, os desenvolvimentos da ciberntica e da biologiaenriqueceram consideravelmente, sobretudo metaforicamente e em relao com amemria humana consciente, a noo de memria. Fala-se da memria central doscomputadores e o cdigo gentico apresentado como uma memria dahereditariedade [cf. Jacob 1970]. Mas esta extenso da memria mquina e vida e, paradoxalmente, a uma e a outra conjuntamente, teve repercusses directassobre as pesquisas dos psiclogos sobre a memria, passando-se de um estdiofundamentalmente emprico a um estdio mais tcnico: A partir de 1950, osinteresses mudaram radicalmente, em parte por influncia de novas cincias comoa ciberntica e a lingustica, para tomarem uma opo mais terica [Disury, inMeudlers, Brion e Levry 1971, p.789].

    Finalmente, os psicanalistas e os psiclogos insistiram, quer a propsito darecordao, quer a propsito do esquecimento (nomeadamente no seguimento deEbbinghaus), nas manipulaes conscientes ou inconscientes que o interesse, aafectividade, o desejo, a inibio, a censura, exercem sobre a memria individual.Do mesmo modo, a memria colectiva foi posta em jogo de forma importante na lutadas foras sociais pelo poder. Tornar-se senhores da memria e do esquecimento uma das grandes preocupaes das classes, dos grupos, dos indivduos quedominaram e dominam as sociedades histricas. Os esquecimentos e os silnciosda histria so reveladores desses mecanismos de manipulao da memriacolectiva.

    O estudo da memria social um dos modos fundamentais de abordar osproblemas do tempo e da histria, relativamente aos quais a memria est ora emretraimento, ora em transbordamento.

    No estudo histrico da memria histrica necessrio dar uma importnciaespecial s diferenas entre sociedades de memria essencialmente oral esociedades de memria essencialmente escrita e s fases de transio daoralidade escrita, a que Jack Goody chama a domesticao do pensamentoselvagem.

    Estudaremos pois sucessivamente: 1) a memria tnica nas sociedades semescrita ditas selvagens; 2) o desenvolvimento da memria, da oralidade escrita,da Pr-histria Antiguidade; 3) a memria medieval, em equilbrio entre o oral e oescrito; 4) os progressos da memria escrita, do sculo XVI aos nossos dias; 5) osdesenvolvimentos actuais da memria.

    Este procedimento inspira-se no de Leroi-Gourhan: A histria da memriacolectiva pode dividir-se em cinco perodos: o da transmisso oral, o datransmisso escrita com tbuas ou ndices, o das fichas simples, o da mecanografiae o da seriao electrnica [1964-65, p.65].

    Pareceu prefervel, para valorizar melhor as relaes entre a memria e ahistria que constituem o horizonte principal deste ensaio, evocar separadamente amemria nas sociedades sem escrita antigas ou modernas distinguindo na histria

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    da memria, nas sociedades que tm simultaneamente memria oral e memriaescrita, a fase antiga de predominncia da memria oral em que a memria escritaou figurada tem funes especficas; a fase medieval de equilbrio entre as duasmemrias com transformaes importantes das funes de cada uma delas; a fasemoderna de processos decisivos da memria escrita ligada imprensa e alfabetizao; e, por fim, reagrupar os desenvolvimentos do ltimo sculorelativamente ao que Leroi-Gourhan chama a memria em expanso.

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    1. A memria tnicaContrariamente a Leroi-Gourhan que aplica este termo a todas as sociedades

    humanas, preferir-se- reservar a designao de memria colectiva para os povossem escrita. Notemos, sem @mssrrr mas sem esquecer a importncia dofenmeno, que a actividade mnsica fora da escrita uma actividade constante nos nas sociedades sem escrita, como nas que a possuem. Goody lembrou-orecente