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1 UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO Programa de Pós-Graduação Faculdade de Educação MARIA NAZARETH DE SOUZA SALUTTO DE MATTOS LEITURA LITERÁRIA NA CRECHE: O LIVRO ENTRE TEXTO, IMAGENS, OLHARES, CORPO E VOZ. RIO DE JANEIRO Abril de 2013

Leitura literária na creche: o livro entre texto, imagens, olhares

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    UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO

    Programa de Ps-Graduao

    Faculdade de Educao

    MARIA NAZARETH DE SOUZA SALUTTO DE MATTOS

    LEITURA LITERRIA NA CRECHE:

    O LIVRO ENTRE TEXTO, IMAGENS, OLHARES, CORPO E VOZ.

    RIO DE JANEIRO

    Abril de 2013

  • 2

    MARIA NAZARETH DE SOUZA SALUTTO DE MATTOS

    LEITURA LITERRIA NA CRECHE:

    O LIVRO ENTRE TEXTO, IMAGENS, OLHARES, CORPO E VOZ.

    Dissertao de Mestrado apresentada ao

    Programa de Ps-Graduao em Educao,

    Faculdade de Educao, Universidade

    Federal do Rio de Janeiro, como parte dos

    requisitos necessrios obteno do ttulo

    de Mestre em Educao.

    Orientadora: Professora Dr Patrcia Corsino

    Rio de Janeiro

    2013

  • 3

    LEITURA LITERRIA NA CRECHE:

    O LIVRO ENTRE TEXTO, IMAGENS, OLHARES, CORPO E VOZ.

    Maria Nazareth de Souza Salutto de Mattos

    Dissertao de Mestrado apresentada ao

    Programa de Ps-Graduao em Educao,

    Faculdade de Educao, Universidade

    Federal do Rio de Janeiro, como parte dos

    requisitos necessrios obteno do ttulo

    de Mestre em Educao.

    Aprovada em: 03 de Abril de 2013

    Orientadora: Prof Dr Patrcia Corsino UFRJ

    Prof Dr Mnica Baptista Correa UFMG

    Prof Dr Sonia Kramer PUC-Rio

    Prof Dr Ludmila Thom de Andrade UFRJ

    Prof Dr Maria Fernanda Rezende Nunes UNIRIO

  • 4

    M444 Mattos, Maria Nazareth de Souza Salutto de.

    Leitura literria na creche: o livro entre texto, imagens,

    olhares, corpo e voz / Maria Nazareth de Souza Salutto de

    Mattos. Rio de Janeiro: 2013.

    192f.

    Orientadora: Patrcia Corsino.

    Dissertao (mestrado) Universidade Federal do Rio de

    Janeiro, Faculdade de Educao, 2013.

    1. Leitura (Primeira infncia). 2. Crianas Livros e leitura. 3.

    Incentivo a leitura. 4. Creches Programas e atividades. I.

    Corsino, Patrcia. II. Universidade Federal do Rio de Janeiro.

    Faculdade de Educao.

    CDD: 372.4

  • 5

    Para minha me Analucia por tornar possveis sonhos e

    caminhos.

    Para todas as crianas e adultos da Creche que proporcionaram

    transformar em texto as palavras, os afetos, as vozes e os gestos

    tecidos entre livros, imagens e leituras.

  • 6

    AGRADECIMENTOS

    Agradecer, para mim, ato fundamental: dizer ao outro o quanto ele importante, que

    sua palavra tem valor, que sua presena faz diferena. Bartolomeu Campos de Queirs

    dizia que toda a palavra composta. Do mesmo modo, esta pesquisa composta pelas

    vozes, escutas, incentivos e alegrias das pessoas com as quais compartilhei as ideias e

    trajetria deste estudo. A todas (os) vocs meu carinho e abrao apertado.

    minha me Analucia pelo amor, parceria e cumplicidade desde sempre.

    Ao meu pai Marco pela presena indita e afetiva em minha vida.

    Aos meus irmos Henrique e Gabriela pelo amor que entrelaa nossas histrias.

    Aos meus sobrinhos Eduarda, Yago, Ycaro e Junior que no cessam de me surpreender

    diante de suas descobertas autorais e nicas.

    querida professora e orientadora Patrcia Corsino pela presena generosa, afetiva,

    incentivadora e instigante. Foi uma honra aprender e construir este trabalho ao seu lado.

    A todas as crianas e adultos da Creche por permitirem-me que os conhecesse e pelo

    acolhimento para os entendimentos.

    amiga Anelise por tudo o que celebramos e partilhamos nestes anos de parceria. Este

    trabalho tambm fruto da nossa amizade. Agradeo tambm por me inserir no seu

    crculo de amigos e parceiros, concedendo-me a alegria de partilhar histrias e reflexes

    com Silvia Nli que com carinho e respeito vem participando do meu processo de

    formao.

    s queridas amigas Anna Rosa, Marina e Rosita pela cumplicidade nas trocas,

    experincias e por compartilharem comigo a alegria deste estudo.

  • 7

    amiga e parceira de mestrado Sonia Travassos que vive com plenitude o sentido da

    experincia. Obrigada por t-la compartilhado generosamente comigo.

    querida Dani, professora Daniela Guimares, por sua presena incentivadora e

    sensvel no meu processo de formao.

    s amigas Karla e Bruna pelos cafs, risos, alegrias e parceria nesta trajetria de estudo.

    A todos os parceiros do grupo de pesquisa Infncia, linguagem e Escola pelas intensas

    trocas, alegrias e conhecimentos partilhados.

    Amanda Santos por ter partilhado comigo as observaes e surpresas no campo da

    pesquisa.

    professora Sonia Kramer por suas disciplinas nas quais tanto aprendi e por aceitar

    participar da banca.

    professora Mnica Correia por aceitar, gentilmente, compor a banca.

    professora Ludmila Andrade pela leitura atenta do projeto e pelas importantes

    contribuies na qualificao deste trabalho.

    professora Carmem Gabriel pela leitura cuidadosa do projeto e pelas contribuies na

    qualificao desta pesquisa.

    A todos os professores, deste e de outros programas, do mestrado e de todo meu

    processo de formao com os quais pude travar dilogos, reflexes e aprendizados.

    Solange, secretria do PPGE da UFRJ, que no conhece fronteiras para a gentileza e a

    solidariedade.

    Capes pela bolsa de estudos.

  • 8

    Lugar sem comportamento o corao. Ando em vias de ser

    compartilhado.

    Manoel de Barros

  • 9

    RESUMO

    MATTOS, Maria Nazareth de Souza Salutto de. LEITURA LITERRIA NA

    CRECHE: O LIVRO ENTRE TEXTO, IMAGENS, OLHARES, CORPO E VOZ.

    Dissertao de Mestrado em Educao. Faculdade de Educao, Universidade

    Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

    Esta dissertao de mestrado insere-se no projeto de pesquisa Infncia, linguagem e

    escola: das polticas do livro e leitura ao letramento literrio de crianas de escolas

    fluminenses, desenvolvida no Programa de Ps-Graduao em Educao da UFRJ. Tem

    como objetivo conhecer e analisar prticas de leitura literria para e com as crianas em

    uma creche filantrpico-comunitria da Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Como a

    leitura literria est contemplada no cotidiano da Creche? Como as crianas tm acesso

    aos livros? Como as professoras leem histrias para e com as crianas? O que fazem as

    crianas entre elas e com os adultos a partir das leituras realizadas para e com elas?

    Como se d a constituio do acervo literrio da Creche? Para responder estas

    indagaes, foi realizada uma pesquisa qualitativa, de cunho etnogrfico que, alm da

    reviso bibliogrfica, teve como procedimentos terico-metodolgicos observaes

    participantes, entrevistas duas individuais e uma coletiva e registro fotogrfico das

    interaes das crianas entre si e com os adultos, a partir do livro infantil. Os estudos de

    Bakhtin (2003, 2009), Benjamin (1994, 1995, 2002) e Vigotski (2000, 2007, 2009)

    sustentam as concepes de linguagem e de sujeito, bem como questes metodolgicas

    de pesquisa. O campo da literatura e da leitura literria teve como interlocutores os

    estudos de Candido (2011), Queirs (2012), Britto (2005); Corsino (2003, 2009, 2010);

    Bajard (2007); Oliveira (2008), Zumthor (2010) entre outros. Tambm foram

    contemplados autores que estudam creches comunitrias Haddad (1991); Tiriba (1993);

    Filgueiras (1994); Corsino (2005); Silva (2008); Aquino, (2009); e os que apresentam

    perspectivas de trabalho educativo em creches (Guimares, 2008, 2011; Schimitt 2008;

    Rocha, 2012). O trabalho foi organizado em seis partes: a Introduo; o Captulo I, que

    aborda questes terico-metodolgicas de pesquisa, apresenta o campo emprico e os

    sujeitos da pesquisa; o Captulo II, que trata a histria da Creche em dilogo com a

    histria mais ampla das creches comunitrias no Rio de Janeiro, e com reflexes das

    professoras sobre o trabalho desenvolvido na creche, em especial, o trabalho com a

    leitura literria para e com as crianas; o Captulo III, que tece reflexes sobre a

    literatura e a leitura literria como direito de crianas e adultos na creche e sua funo

    humanizadora, discutindo possibilidades de leitura para e com as crianas pequenas na

    creche, a partir da anlise do material de pesquisa; o Captulo IV que d continuidade s

    anlises, ampliando as reflexes para as especificidades dos modos de ler para e com as

    crianas pequenas, que inclui o olhar, a voz, o corpo e as imagens como parte do texto e

    das leituras; as Consideraes Finais, concluem com reflexes a respeito das prticas da

    leitura literria na creche, como atividade experienciada entre adultos e crianas, numa

    perspectiva dialgica que compe elos de coletividade, na qual se destacam

    especificidades como os gestos, o olhar, o corpo e a voz como forma de ler para e das

    crianas; apresentam tambm questes propositivas a respeito do trabalho com a leitura

    literria na creche.

    Palavras-chaves: infncia, linguagem, leitura literria, creche, literatura e educao

    infantil.

  • 10

    ABSTRACT

    MATTOS, Maria de Souza Salutto of Nazareth. LITERARY READING IN THE

    NURSERY SCHOOL: THE BOOK WITHIN THE TEXT, IMAGES, LOOKS, BODY,

    AND VOICE. Dissertation in Education. Faculty of Education, Federal University of

    Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2013.

    This dissertation is part of the research project Childhood, language and school: from

    the politics of books and reading to the literary literacy of school children in the state of

    Rio de Janeiro, developed in the Graduate Program in Education at UFRJ. It aims to

    understand and analyze practices of literary reading to and with children in a

    philanthropic community nursery school located in the southern neighborhood of the

    city of Rio de Janeiro. How is the literary reading included in the daily routine of the

    nursery school? How can children have access to books? How do the teachers read

    stories to and with the children? How do the children interact with each other and with

    the adults after a book is read to and with them? How does the nursery school choose

    their literary collection? To answer these questions, we carried out a qualitative

    ethnographic research, that in addition to the bibliography review, used as theoretical

    and methodological procedures participant observations, interviews - two individual and

    a collective- and photographic record of the interactions among children and with the

    adults after the reading of children books. The studies of Bakhtin (2003, 2009),

    Benjamin (1994, 1995, 2002) and Vygotsky (2000, 2007, 2009) support the concepts of

    language and subject and methodological issues of research. The field of literature and

    literary reading had as interlocutors studies by Candido, 2011, Queiroz, 2012, Britto

    2005; Corsino 2003, 2009, 2010; Bajard 2007; Oliveira, 2008, Zumthor, 2010, among

    others. Also included were authors who study community nurseries Haddad (1991),

    Tiriba (1993), Filgueiras (1994), Corsino (2005), Silva (2008), Aquino, (2009), and

    those who have have shown the possibility of educational work in nursery schools

    (Guimares, 2008, 2011; Schmitt 2008; Rocha, 2012). The work has been organized

    into six parts: Introduction, Chapter I, which deals with theoretical and methodological

    issues of research, and presents the empirical field research and the subjects of the

    research; Chapter II, which deals with the history of the nursery school in a broader

    dialogue with the history of community nurseries in Rio de Janeiro, and with the

    reflections of teachers about the work developed at the nursery school, especially the

    work done with reading and the literary reading to and with children; Chapter III, which

    weaves thoughts on literature and the literary reading as a right of children and adults in

    the nursery school, and its humanizing function, discussing possibilities of reading to

    and with young children in a nursery school, from the analysis of the research material;

    Chapter IV continues the analysis, broadening the reflections to the specifics in the

    ways of reading to and with children, including the look, the voice, the body and the

    images as part of the text and the reading; Final Considerations conclude with

    reflections on the practices of literary reading in nursery school, as experienced activity

    between adults and children, a dialogical perspective that makes up community links,

    which highlights specific features such as gestures, gaze, body and voice as a way to

    read and children; also have questions about the purposeful work with literary reading

    in the nursery school.

    Keywords: childhood, language, literary reading, nursery school, literature, and

    childhood education.

  • 11

    Lista de siglas

    ANPED - Associao Nacional de Ps-Graduao e Pesquisa em Educao

    CAPES Coordenao de Aperfeioamento de Pessoal de Nvel superior

    CEALE- Centro de Alfabetizao e Letramento

    DCNEI Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao Infantil

    FNLIJ Fundao Nacional do livro Infantil e Juvenil

    LDB Lei de Diretrizes e Bases da Educao

    PNBE Plano Nacional de Biblioteca da Escola

    PNLL Plano Nacional de Livro e Leitura

    PROLER Programa Nacional de Incentivo leitura

    SEB Secretaria de Educao Bsica do Ministrio da Educao

    SMDS Secretaria de Desenvolvimento Social

    SME Secretaria Municipal de Educao

    UFMG Universidade Federal de Minas Gerais

    UNESCO Unio das Naes Unidas para a Educao, Cincia e Cultura

    UNICEF - Fundo das Naes Unidas para a Infncia

    UFRJ Universidade Federal do Rio de Janeiro

    YBBY - International Board on Books for Young People

  • 12

    ndice de quadro, tabela, sequncias fotogrficas e apndices

    Quadro 1- Professoras e auxiliares e sua formao

    42

    Sequncia 1 - Olha, Ana! Vem!

    120

    Sequncia 2 - Recriaes de Miguel

    128

    Tabela 1 - Dados do PNBE para a Educao Infantil, 2008 e 2010

    150

    Sequncia 3 - Sala da turma B3 155

    Sequncia 4 Brinquedoteca

    155

    Sequncia 5 - Sala da turma B2

    156

    Sequncia 6 - Do fundo da caixa para as mos das crianas

    161

    Sequncia 7 - Clarisse e o livro ao alcance das mos

    163

    Apndice 1 Roteiro entrevista com educadoras da Creche 189

    Apndice 2 Roteiro entrevista com auxiliar de coordenao da Creche 190

    Apndice 3 Roteiro entrevista com orientadora pedaggica da Creche 191

  • 13

    Sumrio

    Introduo 13

    Captulo 1 Construindo os caminhos da pesquisa 24

    1.1 - Dilogo com os estudos de Mikhail Bakhtin 25

    1.2 Construo do material emprico da pesquisa: tempos, encontros e escolhas 31

    1.3 Esses outros, quem so? Breve caracterizao dos sujeitos e do campo emprico da pesquisa 38

    Captulo 2 - Para as crianas, um atendimento classe A 44

    2.1 Uma histria por dentro de outra 45

    2.2 Entre discursos e prticas: livros, leituras e crianas pela voz das educadoras da Creche 62

    Captulo 3 A literatura trabalha tudo! muito fantstico!: literatura e leitura literria como

    direito 77

    3.1 A literatura e a leitura literria como direito de crianas e adultos na creche 79

    3.2 Leitura e leituras: apontamentos sobre leitura para e com as crianas pequenas 90

    3.3 Reflexes sobre o livro e a literatura infantil para crianas pequenas 102

    Capitulo 4 - Leitura literria na creche: o livro e o texto entre imagens, olhares, corpo e voz 119

    4.1 Olhar, voz, corpo e imagens: modos de ler para e com as crianas pequenas 120

    4.1.1 Olha, Ana! Vem! 120

    4.1.2 Recriaes de Miguel 128

    4.2 Relaes e produes de sentido entre crianas e adultos a partir do livro infantil 135

    4.2.1 cachorro ou no ? 135

    4.2.2 o gol, o leite o mam... 141

    4.3 Porque uma andorinha no faz vero: reflexes sobre acervos, dinamizao e espaos de livro e

    leitura na creche 147

    4.3.1 Acervos e espaos: o que revelam sobre as prticas de leitura literria na Creche 148

    4.3.2 Com os livros nas mos: o que podem e fazem as crianas? 160

    5 Concluso. Do direito prtica: reflexes propositivas acerca da leitura literria na creche 167

    6 Referncias bibliogrficas 179

  • 14

    Introduo

    Esta estrada melhora muito de eu ir sozinho

    nela. Eu ando por aqui desde pequeno. E sinto

    que ela bota sentido em mim. Eu acho que ela

    manja que eu fui pra escola e estou voltando

    agora para rev-la. Ela no tem indiferena pelo

    meu passado. Eu sinto mesmo que ela me

    reconhece agora, tantos anos depois...

    MANOEL DE BARROS. Caso de Amor.

    Memrias Inventadas A Infncia, 2003.

    A estrada que me trouxe at o mestrado foi percorrida de muitas maneiras. J

    trafeguei por ela com bagagens e mudanas, j me despedi de pessoas queridas e

    tambm me encontrei com outras. No curso da estrada da minha vida, tenho tido

    experincias que me levam a crer que o melhor do caminhar o prprio trajeto, o que

    nele podemos contemplar. O que nos acompanha pela estrada aquilo que bota sentido

    em ns.

    Tecendo essas consideraes que volto um pouco o olhar para o passado,

    buscando no fio da memria as lembranas que guiaram minha trajetria at aqui.

    Amparada por afetos, olhares e descobertas busco articular a minha trajetria

    como professora de Educao Infantil ao exerccio de constituir-me pesquisadora.

    H quinze anos segui com minha me e meus irmos para a pequena cidade de

    Bom Jesus do Itabapoana no interior do Norte Fluminense. E foi l que dei os primeiros

    passos na trajetria como professora de Educao Infantil.

    Depois de concluir o Ensino Fundamental, incentivada pela minha me, fiz o

    curso Normal Mdio, nico na cidade, no Instituto de Educao ber Teixeira de

    Figueiredo. Depois de trs anos de formao formei-me no final de 1996 com nfase

    nas primeiras sries do Ensino Fundamental fui imediatamente trabalhar em uma

    creche filantrpica a Creche Tia ngela mantida pela prefeitura da cidade e pelo

    Centro Esprita Allan Kardec. Fui convidada a trabalhar nessa instituio pela

    coordenadora, com quem havia estudado, e meu ingresso foi diretamente no berrio.

    Os bebs chegavam com as suas mes aos trs ou quatro meses de idade e,

    lembro-me de como ns, ento quatro educadoras no berrio, nos comovamos e nos

    desdobrvamos em ateno para acalentar o choro, cuidar da alimentao, do banho,

    dos passeios pela creche, das brincadeiras, etc. Em 1997 no tnhamos nenhuma

  • 15

    informao-formao para trabalhar com os bebs. Fazamos o que tnhamos aprendido

    com nossos irmos, filhos e o que dialogvamos e discutamos entre ns e a

    coordenadora1.

    A prefeitura da cidade oferecia alguns cursos, no entanto, quase todos eram

    destinados s discusses sobre atividades adequadas s crianas da Educao Infantil.

    Sobre e para os bebs as discusses giravam em torno do desenvolvimento motor e dos

    cuidados necessrios para garantir o seu bem-estar na creche, dicas de nutrio, sade e

    higiene.

    Por motivos pessoais, no incio do ano 2000, voltei a morar na cidade do Rio de

    Janeiro e logo fui admitida em uma escola particular da Zona Sul para trabalhar como

    auxiliar de turma. Motivada pelo trabalho, fiz o curso Normal Superior, no Instituto

    Superior de Educao do Rio de Janeiro, com habilitao em Educao Infantil e

    Educao Especial. Logo em seguida, ingressei na Especializao em Educao Infantil

    na PUC-Rio.

    Ao longo desses anos, passei de auxiliar a professora de turma, sempre

    trabalhando com as crianas pequenas que, ao ingressarem na escola, faziam o seu rito

    de passagem entre a casa e a escola, iniciando, aos dois anos, sua trajetria escolar. No

    nosso cotidiano, alm das variadas propostas, a leitura de histrias e as diferentes

    atividades em torno desse momento aconteciam intensa e diariamente.

    Na monografia2 do final do curso de Especializao em Educao Infantil,

    debrucei-me sobre a discusso da literatura infantil com as crianas investigando a

    minha prpria prtica. Foi o incio de um exerccio de idas e vindas aos registros do

    caderno, que abrigava, ao mesmo tempo, os planejamentos que eu organizava como

    professora da turma e as anotaes que fazia sobre a relao das crianas no trabalho

    dirio com a leitura literria. Foi dessa forma, distinguindo ser professora de uma

    atitude investigativa, que passei a construir um olhar que me proporcionava

    compreender, analisar e dialogar, luz das reflexes tericas, sobre o que para mim era

    familiar e natural em meu trabalho com as crianas. Foram os primeiros passos em

    direo ao exerccio de fazer pesquisa.

    pertinente afirmar que foi ali, ao elaborar e construir a escrita da monografia,

    1Na poca, na equipe do berrio, apenas eu havia terminado o segundo grau (Normal Mdio/Formao

    de Professores). Entre as demais profissionais, a formao limitava-se ao Ensino Fundamental. 2 O livro literrio na educao infantil: cultura, vida e cotidiano. Monografia realizada como concluso

    do curso de Especializao em Educao Infantil. Departamento de Educao. PUC-Rio. Rio de Janeiro:

    2008.

  • 16

    que comecei a experimentar um novo lugar, amparado e qualificado por novas

    problematizaes. Foi a ampliao do encontro com os estudos de autores como Lev. S.

    Vigostski, Walter Benjamin, Mikhail Bakhtin, Marisa Lajolo, Regina Zilberman, entre

    outros, que despertou o desejo de aprofundar as investigaes sobre a leitura e a

    literatura infantil para e com as crianas pequenas.

    Foi motivada por essas questes que ingressei no mestrado, passando a integrar

    o grupo de pesquisa Infncia, linguagem e escola: das polticas de livro e leitura ao

    letramento literrio de crianas de escolas fluminenses coordenado pela Professora Dr

    Patrcia Corsino, do Laboratrio de Linguagem, Leitura, Escrita e Educao Leduc, do

    Programa de Ps-Graduao em Educao da UFRJ. A pesquisa institucional tece

    discusses sobre letramento literrio, leitura e literatura infantil, constituio de acervos

    e sua organizao da Educao Infantil ao quinto ano do Ensino Fundamental, tendo

    como campo emprico creches, pr-escolas e escolas de Ensino Fundamental das redes

    pblicas e privadas de ensino.

    Este trabalho se prope a conhecer e analisar as prticas de leitura literria

    para e com as crianas, em uma creche filantrpico-comunitria da cidade do Rio

    de Janeiro.

    A pesquisa situa-se no campo da linguagem, tendo como principais referenciais

    tericos os estudos de Mikhail Bakhtin (2003, 2009, 2010), Walter Benjamin (1994,

    1995, 2002) e Lev. S. Vigotski (2000, 2007, 2009), autores que concebem os sujeitos

    constitudos na cultura e a linguagem como produo humana, socialmente construda.

    Tambm conta com estudos que abordam a histria das creches comunitrias, tendo

    como principais interlocutores Tiriba (1993), Filgueiras (1994), Corsino (2005), Silva

    (2008); e pesquisa com crianas em creches como as desenvolvidas por Tristo (2004),

    Guimares (2008, 2011) e Rocha (2012). Nas discusses sobre literatura, leitura

    literria, livro e literatura infantil, dialoga com Candido (2011), Yunes (2002, 2003,

    2009), Queirs (2012); Corsino (2003, 2009, 2010), Gouvea (2007), Cosson (2006,

    2010), Bajard (2005, 2007), Cadermatori (2008, 2010), Soares (2006, 2008), Zumthor

    (2010).

    Recorrendo a esse referencial terico, possvel afirmar que, no Brasil, nas

    ltimas trs dcadas, sob a influncia de processos polticos e sociais, tem se

    intensificado o debate sobre a Educao Infantil, resultando na representatividade legal

    e no reconhecimento social das crianas. Corsino, Didonet e Nunes (2011) apontam que

    a construo histrica da ideia de Educao Infantil como primeira etapa da Educao

  • 17

    Bsica teve duas dimenses, uma poltico-administrativa, com a criao de organizaes

    sociais, rgos governamentais, leis; e outra tcnico-cientfica, que se constitui pelas

    apostas advindas de diferentes campos de estudos da criana, como Psicologia,

    Antropologia, Filosofia, Sociologia, entre outros. Estas duas dimenses, a partir da

    Constituio Federal de 1988, se juntam para formar, ao menos no propsito das leis e

    das diretrizes tcnicas e na definio da politica de ateno integral criana, um

    caminho cuja pista central passa a ser a educao (idem, p.14).

    No entanto, tem-se observado que, a despeito das conquistas alcanadas, a prtica

    educacional ainda um desafio a ser superado (Nunes, Corsino e Kramer 2011), o que

    evidencia a necessidade de pesquisas que possam refletir sobre o cotidiano da creche e

    produzir conhecimentos que ampliem as discusses sobre o trabalho pedaggico nesse

    segmento educacional.

    Um marco legal que evidencia a perspectiva do trabalho pedaggico em creches

    e pr-escolas so as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educao Infantil (2010),

    que consideram a creche como espao de formao das crianas de 0 a 3 anos de idade,

    tendo como um dos objetivos garantir o acesso cultura socialmente valorizada, de

    forma articulada s especificidades do trabalho nessa faixa etria, que tem como eixo as

    brincadeiras e as linguagens em suas diferentes possibilidades e manifestaes. No que

    tange leitura e literatura as Diretrizes definem que estas possibilitem s crianas

    experincias de narrativas, de apreciao e interao com a leitura oral e escrita, e

    convvio com diferentes suportes e gneros textuais orais e escritos (p. 25).

    Por sua vez, o Programa Nacional de Biblioteca na Escola-PNBE, desde 2008,

    incluiu as creches e pr-escolas pblicas brasileira nas suas aes de distribuio de

    livros de literatura para compor a biblioteca nas escolas, o que corrobora o investimento

    que se vem fazendo nesse segmento. Observa-se, assim, que o livro e a literatura infantil

    passam a fazer parte dos materiais e das propostas pedaggicas de creches e pr-escolas.

    Portanto, pensar o trabalho pedaggico com as crianas pequenas, inclui refletir sobre o

    lugar do livro e as prticas de leitura na creche. Nesta via questionamos: como a leitura

    literria est contemplada no cotidiano da creche? Como as crianas tm acesso aos

    livros? Como as professoras leem histrias para e com as crianas? O que fazem as

    crianas entre elas e com os adultos a partir das leituras realizadas para e com elas?

    Como se d a constituio do acervo literrio da Creche?

    O trabalho com a leitura literria e a literatura infantil na creche exige conhecer

    as especificidades do sujeito criana, suas formas de conhecer e de se expressar no

  • 18

    mundo. Nesse sentido, a concepo de um trabalho com o livro e a leitura na creche

    necessita de uma ampliao de perspectivas para alm da instrumental e/ou da voltada

    para o ensino da leitura e da escrita estrito senso. Certamente que a participao das

    crianas em prticas de leitura oferece a elas possibilidades de insero no mundo da

    cultura escrita, e vrias apropriaes valorizadas socialmente e necessrias para ler e

    escrever. No entanto, para alm dos aspectos informativo e cognitivo, a leitura literria

    abre-se como possibilidade de entrar em relao com o outro, com o grupo e em

    contato com narrativas de outros tempos e lugares, com outras formas de conhecer e de

    se inscrever no mundo. Literatura que, como defendida por Cndido (2011) fator

    indispensvel de humanizao e, sendo assim, confirma o homem na sua humanidade

    (p. 177). A literatura que humaniza os sujeitos viabiliza os dilogos e a possibilidade de

    se solidarizar com os problemas e condies da vida, o que implica em novos arranjos

    sobre como nos relacionamos e repensarmos a prpria vida.

    Pensar a leitura literria na creche implica em compreend-la como lugar de

    relaes, de brincadeiras, de produo de sentido, de conhecimento de si e do outro, de

    constituio da subjetividade, de ampliao das experincias e, tambm, de imerso na

    cultura escrita. A leitura literria, pela voz do adulto-leitor que, de corpo inteiro se

    entrega ao texto e s imagens do livro, possibilita criar elos de coletividade e espaos de

    produo de sentidos e significados partilhados. Nesse sentido, a leitura literria

    convida o leitor-ouvinte criana a inscrever-se no seu mundo, construindo sentidos

    coletivos de pertencimento. Como aponta Queirs (2012) a literatura na escola qualifica

    nossa condio humana:

    Por no estabelecer dicotomias entre a realidade e a fantasia, a

    literatura configura-se como condio significativa para que os

    processos de educao ganhem em qualidade. Ao ignorar

    preconceitos, o literrio estabelece um encontro entre o sujeito em sua

    inteireza, permitindo ao leitor tomar da sua palavra e dizer-se. Ao

    conversar com o subjetivo e o singular de cada um tanto como

    vencido como o ainda a vencer que nos inauguramos como

    humanos. A literatura uma das possibilidades que encontramos para

    confirmar a vida como possvel e razovel, pelo que existe nela de

    conhecido e ainda por conhecer (p. 86).

    Dialogando com Queirs possvel partir do entendimento de que, a leitura

    literria, por sua natureza dialgica, lugar de relaes entre adultos e crianas, onde

    possvel dilogos que comportem ir alm da superfcie dos textos.

    Partindo desse pressuposto, acreditamos que a leitura literria pode estar na

    creche como lugar de relao, troca, ampliao, jogo, ludicidade, imaginao e criao.

  • 19

    A defesa da literatura como formadora e constituidora dos sujeitos numa perspectiva

    dialgica e emancipatria no recente. Zilberman (2003, 2005), Corsino (2003, 2009,

    2010), Soares (2006) Cosson (2006, 2009, 2010), Cademartori (2010), Candido (2011),

    Queirs (2012) so alguns autores que pontuam esta dimenso formadora da literatura e

    que sero importantes referncias neste trabalho. O dilogo com estes autores embasar

    a perspectiva da leitura de literatura para e com as crianas na creche.

    Outro ponto de partida desde trabalho a concepo de criana que perpassa

    tanto a anlise da produo literria quanto o trabalho pedaggico. As crianas so

    concebidas como sujeitos ativos, constitudos na e pela linguagem, e na interao com

    outras crianas e adultos. O trabalho com as crianas pequenas na creche entendido

    como Guimares (2008, 2011) e Rocha (2012), numa perspectiva relacional em que as

    crianas deveriam ser co-participantes do processo.

    Guimares (2008), ao defender o cuidado como tica reala a necessidade da

    relao dialgica entre adultos e bebs no contexto da creche. Relao que,

    historicamente, vem sendo constituda por aes de tutela e que hoje se encontra em

    processo de rompimento desta viso limitada de prticas de cuidado mecnicas que, em

    grande medida, no consideram os bebs, suas manifestaes e possibilidades, na

    elaborao das propostas destinadas a eles. Para a autora, reconhecer as manifestaes

    dos bebs tom-los como parte integrante do trabalho, proporcionando-lhes

    experincias estimulantes e significativas, ampliando suas possibilidades de insero no

    mundo sociocultural, favorecendo o reconhecimento de si, a constituio da sua

    subjetividade. A relao, nesse sentido, condio para a definio das propostas.

    Construir uma prtica a partir dessa perspectiva permite ao sujeito criana atuar,

    compartilhar e dialogar com as propostas correntes na creche.

    Foi minha inteno neste trabalho dialogar com a dimenso da leitura de

    literatura infantil no contexto de uma creche comunitria, compreendendo-a como

    atividade, experienciada entre crianas e adultos, comprometida com a ampliao das

    possibilidades de relao das crianas pequenas consigo mesmas, com o outro e com a

    cultura.

    A reviso bibliogrfica evidenciou que ainda recente o debate que articule a

    literatura infantil ao trabalho com as crianas da creche, na perspectiva interacional e

    dialgica proposta. A pesquisa realizada no portal da CAPES, no site da ANPED e da

    UFMG (sendo o ltimo escolhido devido ao seu significativo trabalho na rea da

    literatura, infncia e linguagem, especialmente no Grupo de Pesquisa do Letramento

  • 20

    Literrio Gepell), tendo como base a ltima dcada, e utilizando como palavras-chave:

    creche, leitura, literatura, infncia e linguagem, apontou a no existncia de

    dissertaes ou teses que discutam, ou que se aproximem, da proposta de discusso

    deste trabalho.

    A ttulo de ampliar a busca, optou-se por mudar algumas das palavras-chave,

    tomando outras como referncia, contudo, sem desconsiderar as palavras chaves da

    pesquisa, como creche e literatura. Assim, novas tentativas foram realizadas

    utilizando: educao infantil, creche, literatura, leitura e linguagem/ creche, literatura,

    infncia e linguagem e os seguintes trabalhos foram encontrados: O trabalho com a

    linguagem escrita na educao infantil, de Dania Monteiro Vieira Costa (UFES

    Universidade Federal do Esprito Santo. Faculdade de Educao/ 2006); A (in)evitvel

    didatizao do livro infantil, de Ana Maria da Silveira Bossi (UFMG - Universidade

    Federal de Minas Gerais. Faculdade de Educao/ 2000); A experincia da infncia em

    Graciliano Ramos, de rica de Lima Melo Garcia (UFMG - Universidade Federal de

    Minas Gerais. Faculdade de Educao/2010); Anlise de assunto da literatura ficcional

    infantil: categorias para ler o que voc tem, de Margareth Egdia Moreira (Belo

    Horizonte Programa de Ps-Graduao em Cincia da Informao Escola de Cincia da

    Informao UFMG/2006); A Literatura e suas apropriaes por leitores jovens, de

    Maria Zlia Versiani Machado (UFMG Universidade Federal de Minas Gerais.

    Faculdade de Educao/2003); Catlogos de editoras de literatura infanto-junvenil: uma

    leitura, de Marina Gontijo Santos Teixeira (UFMG Universidade Federal de Minas

    Gerais. Faculdade de Educao/2011) O Trabalho com a Linguagem na Educao

    Infantil, de Maristela Gatti Piffer (UFES- Universidade Federal do Espirito Santo.

    Faculdade de Educao/2006).

    Aps a leitura dos resumos e de parte das dissertaes supracitadas, foi possvel

    concluir que nenhuma delas, embora tenham sido selecionadas pelo critrio de busca

    citado anteriormente, aproxima-se da discusso que nos propomos a fazer. Bossi (2002).

    aborda as condies de produo e apropriao do texto literrio com fins didticos,

    Costa (2006) apresenta uma discusso sobre o trabalho com a linguagem oral na

    educao infantil (a autora utiliza as palavras Educao Infantil, incluindo as crianas

    de seis anos que agora fazem parte do primeiro ano do Ensino Fundamental),

    apontando, principalmente, para a necessidade de reviso da concepo de linguagem

    com a qual a escola vem trabalhando. Piffer (2006) trata de aspectos do trabalho com a

    linguagem escrita em uma turma de crianas de 5 a 6 anos de idade. Embora a busca

  • 21

    tenha levado a esse trabalho, ele no se assemelha ao que nos propusemos a fazer, a no

    ser pelo fato de, como os outros, situar-se no campo da linguagem e da pesquisa

    qualitativa.

    Teixeira (2011), embora no faa meno temtica das crianas e/ou a

    literatura na creche como recorte de sua dissertao, traz uma anlise sobre catlogos de

    editoras que publicam literatura infantil. Partindo de indagaes como: para quem se

    dirigem; como so indicadas e selecionadas as faixas etrias pelas obras; como a

    premiao dos livros influencia a sua seleo para o catlogo; a autora faz uma relao

    entre mercado e Estado, apontando como as relaes de consumo esto presentes na

    seleo de obras dentro dos catlogos das editoras e como estas impem, aberta ou

    sutilmente, a escolha de ttulos por parte das escolas para o pblico leitor. Embora no

    aponte ou indique questes especficas das produes que circulam dentro da creche, o

    trabalho permite refletir sobre a produo-veiculao da literatura infantil dentro de

    diferentes instituies, incluindo a creche, quando a autora afirma que a categoria faixa

    etria fortemente considerada na seleo dos ttulos:

    De fato, a Literatura infanto-juvenil nacional, desde seu surgimento,

    foi influenciada pela escola. Essa relao entre o mercado editorial e a

    escola segue uma lgica, visto que nessa instituio que se concentra

    o maior nmero de potenciais leitores e futuros consumidores de

    livros. Nesse sentido, no poderia ser outro lugar o foco prioritrio de

    investimento desse setor. Contudo, percebemos, atravs das anlises

    feitas, uma tendncia das editoras em reduzir, ao mnimo, os esforos

    do leitor-professor no contato com seu material de divulgao,

    aparentando enxergar esses profissionais como destitudos de

    competncia para realizar escolhas literrias mais autnomas (p. 109).

    Tussi (2008), na dissertao de mestrado defendida no departamento de Letras,

    da Universidade Federal de Passo Fundo, realizou a pesquisa Leitura na infncia

    inicial: Uma interveno precoce de leitura. Esta pesquisa foi publicada em livro, com

    o ttulo de Programa Bebelendo: uma interveno precoce de leitura. Tussi e Rsing

    (2009)3 tm como campo da pesquisa trs projetos distintos: Bookstar (Londres,

    Inglaterra), Msica para Bebs (Porto Alegre/RS) e Leitura na Creche (Passo

    Fundo/RS) e seus sujeitos foram pais, professores, bibliotecrios e cuidadores de bebs

    de 0 a 3 anos. As observaes realizadas em uma creche4 privada ocorreram no perodo

    3 A dissertao no est disponvel on-line, portanto, a consulta para esta pesquisa foi realizada com base

    no livro Programa Bebelendo: uma interveno precoce de leitura. TUSSI, Rita de Cssia; RSING,

    Tania M. K. So Paulo: Global, 2009. 4 Vou me ater pesquisa na creche pela relao com o campo desta dissertao.

  • 22

    de seis dias consecutivos, todos na sexta-feira, das 9h s 9h15m e teve como objetivo

    observar as prticas da educadora de uma das turmas na leitura de contos de fadas e

    outros textos literrios para crianas de 1 ano e meio a 2 anos e 2 meses de idade. Para

    as anlises, as autoras tomam como principal referencial terico os estudos da

    Psicologia, da Neurocincia e do campo da Leitura. Segundo as autoras, a pesquisa teve

    como objetivo, ao articular os trs projetos:

    investigar como os adultos do grupo familiar com filhos (as) na idade

    referida ou do grupo cuidador so capazes, por meio de interaes e

    de prticas orais de leitura, de aproximar essas crianas da literatura e,

    num momento posterior, do livro como suporte, para transform-las

    em leitoras precoces (idem, p. 5).

    De acordo com as autoras, o Programa Bebelendo: uma interveno precoce de

    leitura, alm do objetivo acima descrito, intenta orientar, a partir dos resultados da

    pesquisa, polticas pblicas que visem promover aes conjuntas entre instituies

    educacionais creches, pr-escolas e outras como bibliotecas, postos de atendimento

    a gestantes no intuito de criar condies para que os adultos sejam mediadores nos

    processos iniciais de leitura das crianas pequenas.

    Foi possvel observar que, tendo como bssola a ltima dcada (por ser um

    perodo de consolidao da LDB (Brasil, 1996) e das Diretrizes Curriculares Nacionais

    para a Educao Infantil (Brasil, 2010), documentos legais que reordenam as prticas

    pedaggicas na creche), no foram encontrados trabalhos que estejam discutindo a

    especificidade da leitura literria na creche, o que nos leva a confirmar a relevncia

    deste estudo.

    O segmento creche, como parte da primeira etapa da Educao Bsica e

    recentemente inserida ao sistema educacional, busca ocupar um lugar diferenciado neste

    sistema. Torna-se importante investigar as prticas pedaggicas em seu interior para

    compreender como elas tm se configurado no cenrio educacional e, principalmente,

    qual tem sido sua especificidades diante de novos paradigmas sobre a concepo de

    infncia e de Educao Infantil. Segundo Corsino (2003), a educao das crianas de 0 a

    6 anos no Brasil, hoje, traz a certeza dos avanos polticos e sociais j conquistados,

    mas tambm aponta os desafios a serem enfrentados neste segmento:

    Seja vista como um espao de socializao ou at mesmo como uma

    questo de sobrevivncia da criana, a Educao Infantil um direito.

    Sua dupla funo de educar e cuidar as crianas de 0 a 6 anos de idade

    no nem salvadora das condies de vida precria das crianas das

    classes populares, nem compensatria das diferenas que estas

    apresentam em relao s das classes favorecidas, nem preparatria

  • 23

    para o Ensino Fundamental. A Educao Infantil de qualidade uma

    forma de garantir os direitos da criana no seu aqui e agora,

    considerando suas necessidades e interesses atuais, de tal maneira que

    sua vivncia nestes espaos lhe possibilite intervir na realidade hoje.

    (p. 39)

    Como a leitura literria est contemplada no cotidiano da Creche? Como as

    crianas tm acesso aos livros? Como as professoras leem histrias para e com as

    crianas? O que fazem as crianas entre elas e com os adultos a partir das leituras

    realizadas para e com elas? Como se d a constituio do acervo de literrio da Creche?

    Para responder a estas indagaes, foi realizada uma pesquisa qualitativa, de cunho

    etnogrfico que, alm da reviso bibliogrfica, teve como procedimentos terico-

    metodolgicos observaes participantes de maro a dezembro de 2011 e maro a

    junho de 2012 , entrevistas duas individuais e uma coletiva e registro fotogrfico

    das interaes das crianas entre si e com os adultos, a partir do livro infantil.

    O objetivo principal foi conhecer, analisar e compreender as prticas de

    leitura literria para e com as crianas em uma creche filantrpico-comunitria da

    Zona Sul, da cidade do Rio de Janeiro. Os objetivos especficos foram os seguintes: i)

    conhecer a trajetria e a especificidade da creche comunitria observada; ii) conhecer e

    analisar as concepes de literatura e leitura literria que sustentam as prticas da

    creche; iii) conhecer e analisar o acervo literrio disponibilizado s crianas; iv)

    observar e analisar a relao das crianas entre si e com os adultos a partir do acesso aos

    livros de literatura infantil.

    O trabalho est organizado em seis partes descritas a seguir.

    A Introduo apresenta as consideraes que motivaram a pesquisa e o seu

    referencial terico. O Captulo I - Construindo os caminhos da pesquisa aborda

    questes terico-metodolgicas de pesquisa, apresenta o campo emprico e os sujeitos

    da pesquisa. O Captulo II Para as crianas, um atendimento classe A- trata a

    histria da Creche em dilogo com a histria mais ampla das creches comunitrias no

    Rio de Janeiro, e com reflexes das professoras sobre o trabalho desenvolvido na

    creche, em especial, o trabalho com a leitura literria para e com as crianas. O

    Captulo III A literatura trabalha tudo! muito fantstico!: literatura e

    leitura literria como direito tece reflexes sobre a literatura e a leitura literria

    como direito de crianas e adultos na creche e sua funo humanizadora, discutindo

    possibilidades de leitura para e com as crianas pequenas na creche, a partir da anlise

    do material de pesquisa. O Captulo IV Leitura literria na creche: o livro e o texto

  • 24

    entre imagens, olhares, corpo e voz d continuidade s anlises, ampliando as

    reflexes para as especificidades dos modos de ler para e com as crianas pequenas, que

    inclui o olhar, a voz, o corpo e as imagens como parte do texto e das leituras. As

    Consideraes Finais tecem concluses com reflexes propositivas a respeito do

    trabalho com a leitura literria na creche. Por fim, constam as Referncias

    bibliogrficas da pesquisa.

  • 25

    Captulo 1

    Construindo os caminhos da pesquisa

    O cuidado com o assunto exige,

    simultaneamente, um rigor com a minha

    maneira de express-lo. Para mim, o mais

    difcil registrar, gravar a primeira frase. Nela

    reside o tom que procuro dar ao discurso.

    Reconheo que o assunto determina o estilo,

    guia a partitura, vence a fronteira. Encontrada a

    frase inaugural, ela alumia o caminho a ser

    vencido. Esse percurso exige pacincia,

    escrever e reescrever, dar tempo ao texto para

    que ele me faa amadurecer diante dele.

    QUEIRS, 2012, p. 72

    A preciso desse trecho de um dos textos de Bartolomeu Campos de Queirs

    alumiou os caminhos da escrita deste Captulo. Diante do material emprico da pesquisa

    muitas vezes fui5 tomada pela incerteza: o que trazer para a reflexo? Como cadenciar a

    escrita com a riqueza do vivido, do construdo junto com os sujeitos da pesquisa?

    Organizar um captulo fazer escolhas. conformar-se com as limitaes do

    que cabe no espao de um texto e o anseio de traduzir o todo vivenciado com as

    nuances daquilo que planta sentidos em ns. Na medida em que o trabalho avanava,

    revendo e retomando os eventos do campo emprico saltavam da memria os olhares

    trocados, os questionamentos que suscitavam reflexes, as perguntas que no podiam

    ficar sem resposta, os sorrisos, os gestos. Durante o exerccio da escrita da pesquisa fui

    constantemente tomada pela emoo. Emoo trazida pelas lembranas do vivido,

    construdo e compartilhado com os sujeitos que integram esse trabalho; insegurana

    diante da responsabilidade de estar no lugar de pesquisadora. Impossvel esquecer os

    rostos que olhei, os abraos que troquei, as perguntas questionadoras e a

    responsabilidade em dar uma resposta. Sentimentos e aes vividos por ambos os lados

    da face deste trabalho. Crianas, adultos, livros, vozes e leituras: tambm eles me

    constituram nesta trajetria. E tal como escreveu Walter Benjamin (1995, p. 37), saio

    dessa imerso coberta pela neve do lido e vivido.

    Neste Captulo sero descritos o processo de construo do material emprico da

    pesquisa, os procedimentos metodolgicos e a contextualizao dos sujeitos e do campo

    5Em momentos que concernem s questes vivenciadas ao longo da pesquisa, da construo do campo

    emprico, ser utilizada a primeira pessoa do singular. Quando em dilogo com diferentes autores e

    perspectivas tericas, ser utilizada a terceira pessoa do plural.

  • 26

    que a constituem.

    1.1 Dilogo com os estudos de Mikhail Bakhtin

    No se nasce pesquisador; vem a s-lo, a

    merec-lo, a receber-lhe o selo, na coerncia

    terico-metodolgica, na consistncia tica, na

    conscincia esttica, no espelho da esfera em

    que o pesquisador faz e cria sentido.

    ADAIL SOBRAL, 2007, p. 118

    No que concerne metodologia de pesquisa, o presente trabalho se inscreve nos

    estudos scio histricos, que consideram os sujeitos constitudos na relao com a

    cultura, com o outro, tendo na linguagem o fio condutor de sua expresso. Freitas

    (2007), em dilogo com Bakhtin, aponta que o sujeito percebido em sua

    singularidade, mas situado em sua relao com o contexto histrico-social, portanto, na

    pesquisa, o que acontece no um encontro de psiques individuais, mas uma relao de

    textos com o contexto (p. 29).

    Os estudos do filsofo russo Mikhail Bakhtin (2003, 2009) tem se constitudo

    como pilar para pensar as relaes humanas, constitudas na linguagem e na cultura.

    Para o autor a vida conhece dois centros de valor que so fundamental e

    essencialmente diferentes, embora correlacionados um com o outro: eu e o outro, e em

    torno destes centros que todos os momentos concretos do ser se distribuem e se

    arranjam (Bakhtin, 2009, p.91). na relao com o outo que o eu se constitui. E nesta

    relao alteritria, cada sujeito ocupa um lugar nico e singular. Este lugar exterior

    ocupado pelo sujeito na relao com o outro denominado pelo autor de exotopia.

    A exotopia um dos conceitos que fundamenta esse trabalho, pois, ao pesquisar,

    pesquisador e sujeito da pesquisa ocupam lugares singulares e exteriores um do outro. A

    exterioridade que constri o texto da pesquisa. Amorim (2008) discute este lugar

    exotpico na criao esttica que expressa a diferena e a tenso entre dois olhares,

    entre dois pontos de vista, que muito ajuda a compreender o lugar do pesquisador:

    Se tomarmos o exemplo do retrato, em pintura, falaremos do olhar do

    retratado e do olhar do retratista ou artista. O trabalho deste ltimo

    consiste em dois movimentos. Primeiro, o de tentar captar o olhar do

    outro, de tentar entender o que o outro olha, como o outro v.

    Segundo, de retornar ao seu lugar, que necessariamente exterior

    vivncia do retratado, para sintetizar ou totalizar o que v, de acordo

    com seus valores, sua perspectiva, sua problemtica (p.96).

  • 27

    A exotopia se refere ao deslocamento do pesquisador, o exerccio do

    distanciamento na busca de compreender o outro - sujeitos da pesquisa. Movimento de

    ir ao encontro do outro e, a partir desse encontro, ser capaz de dizer do outro o que ele

    v e compreende, mas de um lugar exterior. na tenso produzida pelo encontro com o

    outro que se d a responsabilidade do ato de pesquisar: ir ao encontro do outro e fazer

    uma enunciao que busca captar e compreender o olhar do outro. Este movimento

    coloca o pesquisador em lugar nico e a partir dele que ser possvel dar uma resposta.

    O conceito de exotopia tambm propicia reconhecer que ao empreender uma

    imerso no campo da pesquisa no iremos sozinhos e neutros: vamos acompanhados e

    amparados por leituras e experincias, hipteses e pressupostos. Levamos conosco a

    bagagem que nos constitui como sujeito, que sustenta a nossa histria, nossa marca,

    aquilo que nos torna singulares.

    Tomar a exotopia como perspectiva dialgica de entrada no campo, abre-se

    como possibilidade de usar novas lentes, de caminhar na tentativa de aprender a

    suspeitar, a desconfiar, a buscar novas formas de ver, estranhar aquilo que supomos

    familiar e j conhecido. Nesse sentido, vamos ao campo prevenidos de que fazer

    pesquisa em Cincias Humanas assumir que no estamos sozinhos no ato de

    pesquisar. Bakhtin (2003) afirma que:

    Esse excedente da minha viso, do meu conhecimento, da minha posse

    excedente sempre presente em face de qualquer outro indivduo

    condicionado pela singularidade e pela insubstitutibilidade do meu

    lugar no mundo: porque nesse momento e nesse lugar, em que sou o

    nico a estar situado em dado conjunto de circunstncias, todos os

    outros esto fora de mim (p. 21).

    O autor tambm aponta que dar uma resposta ao outro, no apenas consentir ou

    discordar de suas questes e sim comprometer-se com a responsabilidade da resposta a

    partir da posio que o pesquisador ocupa, que provoca e desloca o outro. Para o autor:

    Quando me compenetro dos sofrimentos do outro, eu os vivencio

    precisamente como sofrimentos dele, na categoria de outro, e minha

    reao a ele no um grito de dor e sim uma palavra de consolo e uma

    ato de ajuda. Relacionar ao outro o vivenciado condio obrigatria

    de uma compenetrao eficaz e do conhecimento tanto tico quanto

    esttico (idem, p. 21).

    Reconhecer o nosso inacabamento nos coloca diante daquilo que s o outro, do

    lugar que ele ocupa, poder dizer e que, somente do nosso lugar, poderemos igualmente

    indagar e responder ao outro, pois a responsabilidade se torna responsividade, mas

  • 28

    sempre da relao com o outro que se est tratando [...]. Tanto a explicao quanto a

    interpretao somente podem se dar de um lugar exterior ao lugar do outro (AMORIM,

    2006, p. 24).

    Operar com o conceito de exotopia em Cincias Humanas, estar ciente do

    lugar nico e singular que ocupamos como pesquisadores. Trazer Bakhtin como

    interlocutor fazer uma escolha que envolve a clareza da responsabilidade e do

    compromisso com a nossa atuao no espao pesquisado e, na volta dele, com o

    compromisso da resposta que inclui tambm a devoluo do que vimos e analisamos,

    bem como suas possveis contribuies. O lugar de sujeito pesquisador nos coloca

    frente ao outro, entendendo, como Amorim (2004), que [...] o outro aqui o

    interlocutor do pesquisador. Aquele a quem ele se dirige em situao de campo e de

    quem ele fala em seu texto (p. 22). A tica da pesquisa em Cincias Humanas est neste

    compromisso da/na relao com os sujeitos, na interlocuo das diferentes vozes no

    contexto da pesquisa e na produo de sentido a partir dessa relao.

    Ao iniciar os estudos de Bakhtin, uma questo tomou centralidade no contexto

    da pesquisa: ser que o trajeto para se constituir pesquisadora exigiria a desconstruo

    de um antigo caminho?

    Durante quatorze anos, a escola e as crianas fizeram parte da minha trajetria

    profissional. O ritmo, as demandas, as negociaes, os encontros e desencontros entre

    propostas e prticas, o dilogo com os pais, a rotina e o cotidiano com as crianas no

    eram estranhos, logo, assim que me vi dentro da creche, considerei esse lugar

    insuspeito. Sendo professora de Educao Infantil durante muitos anos, em outro

    contexto, entrei na creche com certo vcio de olhar, buscando reconhecer naquele

    espao, vestgios de uma prtica que constru em outro contexto. Supunha-me j muito

    familiarizada naquele espao. Logo vieram os estranhamentos e, com eles, muitas

    dvidas e questionamentos. O aprofundamento no aporte terico e as discusses

    produzidas no grupo de pesquisa ampliaram a perspectiva de aprender a olhar o familiar

    e o conhecido, como novidade, com surpresa e suspeio, pois, para que alguma coisa

    possa se tornar objeto de pesquisa, preciso torn-la estranha de incio para poder

    retraduzi-la no final: do familiar ao estranho e vice-versa, sucessivamente (AMORIM,

    2004, p. 26).

    Assumir minha histria e experincia como professora revelou certa

    proximidade com o espao da creche o que, em certa medida aproximou-me do campo

    investigado , no entanto, reconhecer-me numa diferente posio, colocou-me como

  • 29

    estranha diante de prticas, dizeres e fazeres que me eram novos, localizados em outro

    tempo e lugar.

    O conceito de alteridade constituiu-se como importante pilar para pensar as

    aes no campo, como afirma Amorim (2004):

    O outro, justamente por ser outro, independentemente das intenes

    (conscientes ou no) do pesquisador ou da instituio cientfica, impe

    seu carter de desconhecido e imprevisvel. Mesmo se, s vezes,

    determinadas tcnicas de pesquisa buscam apagar qualquer marca

    dessa alteridade. O esforo empregado em apagar uma presena, como

    j dissemos, s faz afirmar essa presena (p. 30).

    Refletir sobre o lugar ocupado como pesquisadora colocou-me diante do

    compromisso e da responsabilidade de pensar no lugar desse outro crianas e adultos -

    estar disponvel s suas narrativas, compondo assim, o mosaico da pesquisa. Mosaico

    construdo a partir da tenso do encontro das diferentes vozes e contextos.

    Nos registros e concluses da pesquisa o encontro com o outro foi o ponto de

    partida para a produo de conhecimento. Escolher Bakhtin como interlocutor pensar

    na articulao entre exotopia, responsabilidade e tica que implica as relaes humanas.

    Para o autor, todo agir humano uma resposta e relaciona-se com a responsabilidade

    pelo lugar nico e singular que cada homem ocupa em relao ao outro. Arte, vida e

    responsabilidade so os pilares que fundam a cultura humana (BAKHTIN, 2003),

    portanto, correlacionam-se, produzindo sentidos para a ao do homem no mundo.

    Pensar na resposta que somente do lugar de pesquisador ser possvel produzir, estar

    ciente desse lugar exotpico e, igualmente, da responsabilidade conferida por estar

    nesse lugar. Amorim (2009, p. 43) ressalta que em relao ao evento nico do ser

    interessa a Bakhtin compreender, de uma posio singular e nica, que ocupamos na

    existncia, as consequncias de tais eventos. Logo, o texto final da pesquisa, a minha

    resposta aos sujeitos da pesquisa, o meu posicionamento produzido a partir da tenso

    desse encontro. Resposta que no me permite ser indiferente ao outro, ao seu contexto e

    lugar exterior a mim.

    Outra questo que, de certa forma, articula-se com as ideias desenvolvidas at

    aqui, o cuidado e a responsabilidade que se deve assumir quando o interlocutor, o

    outro da pesquisa, o sujeito criana. Com isso no se nega ou exclui a importncia do

    cuidado a todos os sujeitos envolvidos mas, pesquisar sobre e com crianas coloca-nos

    diante do desafio de garantir a sua voz, sua autoria e, ao mesmo tempo, a ateno em

    como traz-la no texto da pesquisa. Kramer (2002) faz uma importante discusso e

  • 30

    defesa desse cuidado como posicionamento tico, que envolve o pesquisador e o

    contexto em que a pesquisa produzida. Como o pesquisador deve proceder eticamente

    quando pesquisa sobre e com as crianas? Esse tem sido um debate constante nos

    estudos que discutem a pesquisa a partir de referencial scio histrico, tomando os

    sujeitos, incluindo-se as crianas, como parte integrante da pesquisa. A autora defende

    que:

    Quando trabalhamos com um referencial terico que concebe a

    infncia como categoria social e entende as crianas como cidados,

    sujeitos da histria, pessoas que produzem cultura, a ideia central a

    de que as crianas so autoras [...] Nesse sentido, as respostas ou

    decises do pesquisador podem no ser to fceis como pareceria

    primeira vista (idem, 2002, p. 42).

    Cuidado e ateno que, articulados perspectiva bakhtiniana de responsividade,

    evidencia a importncia do pesquisador, do seu cuidado tico ao trazer a voz dos

    sujeitos da pesquisa, sejam crianas ou adultos, da forma como aponta caminhos e

    proposies, novas relaes e prticas, sem deix-los vulnerveis e expostos na

    devoluo.

    O que as crianas, em suas manifestaes, interaes e interesses podem revelar

    sobre como vivem e constroem, em grupo, no espao educativo? Ser responsvel ao

    pesquisar com e sobre crianas no implica relativizar aes e comportamentos que nos

    so estranhos? Vamos a campo pesquisar sobre e com crianas pautados em

    concepes. Concepes construdas historicamente, no fluxo das transformaes

    polticas e sociais, que vm conferindo criana novas posies frente a diferentes reas

    do conhecimento. O exerccio de olhar para as aes das crianas tambm precisa

    considerar seu contexto, o tempo presente em que vivem no curso da histria que, no

    momento da pesquisa, podemos acompanhar. Um tempo que, se por um lado apresenta

    limites, por outro pode possibilitar a construo de novas perspectivas sobre as

    possibilidades de olhar, estar e conhecer, responsavelmente, esses sujeitos.

    Para Sarmento (2009) muito da invisibilidade e postergao nos estudos que

    tomam as crianas como categoria social, deve-se ao fato de, na Modernidade, a

    educao e tutela das crianas ter sido institucionalizada e privada de diferentes

    maneiras, seja na famlia, nas escolas, creches, internatos etc, a privatizao da

    infncia no apenas opera um efeito de ocultamento e invisibilizao da condio social

    da infncia [...] como concita um tipo especfico de olhar cientfico [...] (p.19). Da a

    pertinncia de, nas pesquisas realizadas em contextos educativos, no nosso caso, a

  • 31

    creche, refinar o olhar em busca de ver o que as crianas pequenas realizam e produzem

    de sentidos entre si e com os adultos, pode nos revelar que elas so, sim, produtoras de

    cultura.

    Isso significa dizer que no ver s a criana, mas a criana nessa teia

    de significados, procurando configuraes de sentidos que se situam

    alm do que se observa empiricamente [...]. Assim, fui

    compreendendo que estudar as crianas implica estud-las nas

    interaes que elas estabelecem com seus pares e com os adultos.

    Mais do que recolher a voz das crianas, era preciso entender essas

    relaes e os significados que iam surgindo a partir delas (Barbosa,

    2009, p. 26).

    Considerar tais questes no estaria de acordo com a postura tica e responsiva

    apontada por Bakhtin? Pesquisar com crianas estaria alm de buscar sentidos para as

    suas formas de ser estar nas relaes, compreender o mecanismo que engendra tais

    relaes? Para Barbosa (2009) isso s ser possvel na medida em que considerarmos a

    criana como esse outro capaz de produzir diferenas, de representar e significar a

    realidade (p. 29). Olhar para as crianas buscar compreender as especificidades de

    suas manifestaes. Como as crianas constroem sentidos a partir do que vivem nas

    interaes sociais? Como olhar para as crianas e v-las em suas singularidades e, ao

    mesmo tempo, como nossos pares?

    Ao tomar esse referencial terico-metodolgico, me insiro na linha apresentada

    por eles, acreditando que fazer pesquisa em uma creche tomar o sujeito criana como

    parte integrante do processo de pesquisa, considerando o que ele altera e provoca no

    outro criana pequena como ele, no outro adulto, bem como o que ele desvenda e

    promove nas relaes com os objetos do seu cotidiano. No caso desta pesquisa, o objeto

    privilegiado o livro de literatura infantil. A relao estabelecida e mediada por todos

    os sujeitos foram o foco do olhar. O que foi possvel ver? Do que foi visto, que

    caminhos promoveram compreenso? Do que foi compreendido, o que pode ser tomado

    como aposta que se inscreve no fluxo da histria?

    As estratgias metodolgicas auxiliaram a me posicionar diante das crianas, dos

    adultos e suas manifestaes. A trajetria da pesquisa mobilizou muitos

    questionamentos, fazendo-me deslocar do que, em alguns momentos, parecia estar

    resolvido e concludo. Tal movimento sinalizou a necessidade de ampliar ou mesmo

    rever os instrumentos metodolgicos escolhidos. Questes que sero abordadas no item

    a seguir.

  • 32

    1.2 Construo do material emprico da pesquisa: tempo, encontros e escolhas.

    s um senhor to bonito

    Quanto a cara do meu filho

    Tempo tempo tempo tempo

    Vou te fazer um pedido

    Tempo tempo tempo tempo...

    Compositor de destinos

    Tambor de todos os ritmos

    Tempo tempo tempo tempo

    Entro num acordo contigo

    Tempo tempo tempo tempo...

    CAETANO VELOSO. Orao ao tempo.

    Caetano Veloso expressa nesta cano o que, na constituio desse trabalho, foi

    elemento precioso e de fundamental importncia: o tempo. Tempo para imerso no

    campo, tempo para voltar ao material construdo, tempo para a escrita, tempo para

    construir os sentidos deste trabalho. Ainda que o tempo do mestrado precise ser

    fracionado em diversas aes, o rigor na orientao desta pesquisa possibilitou que,

    mesmo veloz, o tempo fosse um parceiro.

    Definido o objetivo principal do trabalho conhecer, analisar e compreender

    as prticas de leitura literria para e com as crianas na creche o passo seguinte

    foi pensar onde poderamos observar tal prtica. Leitura literria na creche? Mas, ser

    que se l para as crianas pequenas na creche? Se no, por que no? Nossa inteno era

    observar prticas que j acontecessem para, a partir das observaes, ter elementos para

    analisar e compreender a natureza desse trabalho. Para tanto, seria pertinente ir a uma

    instituio onde essa prtica fosse presente, onde tivssemos o qu observar, investigar

    e discutir.

    No foi difcil escolher e estabelecer essa parceria. A Creche que foi o campo

    desta pesquisa tem como exerccio receber pesquisadores e estagirios e, uma de suas

    funcionrias, antiga integrante e colaboradora do grupo de pesquisa6 no qual esta

    dissertao foi desenvolvida. Atravs do dilogo-parceria estabelecido com esses atores,

    a Creche tambm busca refletir sobre as aes de seu trabalho.

    Definido o lugar e o foco realizei a primeira visita para conhecer a Creche no dia

    17 de maro de 2011. L fui recebida por Joana7 que, receptivamente, apresentou e

    6A Orientadora Pedaggica da creche participou durante seis anos do Grupo de Pesquisa Infncia,

    Linguagem e Escola onde essa dissertao foi constituda. 7 Optou-se, neste trabalho, em manter o sigilo o nome da instituio onde ocorreram as investigaes,

    bem como os dos sujeitos - adultos e crianas que integraram a pesquisa, dando-lhes nomes fictcios.

  • 33

    percorreu comigo os espaos da instituio, bem como me apresentou a algumas

    educadoras e suas turmas.

    Nesse dia conversei informalmente com Joana e desde ento fui sendo

    familiarizada com a histria que viria a conhecer e aprender a compreender nos meses

    seguintes. O que eu descobria a partir desse encontro? Como seria estar novamente

    perto das crianas em contexto to diferente do qual eu atuava at ento como

    professora? Foi movida por muita vontade de conhecer que iniciei as observaes na

    Creche na semana seguinte, em maro de 2011.

    O primeiro instrumento metodolgico adotado na investigao foi a observao

    participante, considerando o que pontua Andr (1995, p.28): a observao chamada

    de participante porque parte do princpio de que o pesquisador tem sempre um grau de

    interao com a situao estudada, afetando-a e sendo por ela afetada. Diante das

    consideraes da autora foi possvel estabelecer relaes com os referenciais tericos

    com os quais vinha dialogando e mencionados anteriormente sobre conceitos da

    arquitetura bakhtiniana como alteridade, exotopia e responsabilidade. Estar na Creche,

    considerar as crianas e os adultos como participantes ativos do processo investigativo,

    tomar o outro como aquele que altera e alterado, auxiliou a definir, a priori, a

    observao participante como estratgia metodolgica mais coerente para o momento

    inicial da pesquisa.

    Durante os oito meses seguintes as observaes participantes foram realizadas

    uma vez por semana, em duas turmas da Creche, revezando entre o turno da manh (8h

    s 11h) e o da tarde (13h s 16h). Esse perodo, que denominamos de exploratrio, foi

    fundamental para conhecer a instituio, a dinmica de funcionamento e organizao

    das atividades realizadas com as crianas, bem como para estabelecer um vnculo com

    os sujeitos que a compe. Esse perodo permitiu conhecer os movimentos, a circulao

    e a relao entre crianas e adultos e, dessa forma, ainda que dentro dos limites que uma

    pesquisa estabelece, possibilitou aguar o olhar e o foco para o objetivo das

    observaes.

    Com o tempo de imerso no campo as estratgias e recursos metodolgicos

    foram sendo lapidados, o que exigiu construir a trajetria da pesquisa em seu

    movimento, no de forma improvisada, mas com um planejamento que se forjou pelo

    dilogo constante com os envolvidos e pelas impresses apreendidas nesse processo

    (SCHIMTT, 2008, p. 62).

  • 34

    Imerso, tempo, dilogo e questionamentos: quantos dias definir para as

    observaes na Creche? Qual o melhor horrio? Observar todas as turmas ou pr a lente

    apenas em uma? Ser importante ouvir as professoras sobre o que elas pensam sobre a

    prtica da leitura literria? Como dar visibilidade s aes das crianas, aos seus

    momentos de maior autonomia, em suas leituras e manuseio do livro?

    Novamente emerge o cuidado em fazer pesquisa tendo crianas como sujeitos

    delas. Na creche, outra questo se impe: como dar visibilidade e autoria para as

    crianas que esto constituindo a linguagem verbal? Pereira (2012) dialoga e afina a

    ateno para essa questo ao afirmar que:

    Mais do que uma opo por ter crianas como interlocutoras no

    trabalho de campo, implica pensar os lugares de alteridade

    experimentados por adultos/pesquisadores e crianas ao longo de todo

    o processo de pesquisa, um longo e complexo processo que envolve a

    delimitao de um tema, a formulao de questes norteadoras, as

    filiaes tericas, a delimitao de um campo, a elaborao de

    estratgias metodolgicas, as opes de anlise, e, ainda, um exerccio

    permanente de pensar e escrever (p.63).

    Dessa forma, conciliar o tempo investido na pesquisa escolha das estratgias

    metodolgicas que melhor viabilizassem a compreenso do campo, exigiu lapidao e o

    constante exerccio das escolhas.

    Aps os oito meses iniciais de observaes os instrumentos metodolgicos

    foram definidos da seguinte forma: (i) observaes participantes e registro no caderno

    de campo (maro a dezembro de 2011 e maro a julho de 2012); (ii) entrevistas

    individuais com a auxiliar de coordenao administrativa e a orientadora pedaggica;

    e coletiva com as educadoras da Creche; (iii) registro fotogrfico das relaes,

    mediaes e interaes das crianas e adultos com os livros e a leitura literria e dos

    espaos destinados aos livros da instituio.

    As observaes participantes estiveram presentes em todo o percurso da

    pesquisa e foram disparadoras para a ampliao dos outros recursos metodolgicos, por

    favorecer, nas idas e vindas aos registros do campo, o afinamento do olhar que

    permitisse maior ampliao e visibilidade dos sujeitos e aes da pesquisa. Esse

    movimento disparou e levantou questionamentos: por que as educadoras leem e contam

    histrias em determinados horrios e em outros no? Ser que apenas o registro escrito

    permitir dar visibilidade ao que as educadoras e as crianas fazem com e a partir do

    livro e das leituras que partilham?

    A opo por fazer entrevistas teve como objetivo compreender como os

  • 35

    discursos circulam e se articulam entre os sujeitos na Creche observada e repercutem na

    prtica com as crianas. Trata-se de uma abordagem metodolgica que possibilita um

    tratamento dialgico entre pesquisador e pesquisado. Kramer (2007) afirma que

    entrevistas individuais e coletivas oferecem diferentes condies de produo de

    discurso e favorecem que cada um (pesquisador ou pesquisado) tenha um diferente

    lugar e ponto de vista (p. 64-65).

    Para Bakhtin (2003, 2009) os discursos so produzidos em arenas discursivas,

    por um auditrio social. Sua realizao se concretiza por meio dos enunciados e, ao

    enunciar, eu endereo minha palavra ao outro, quele que me responder com sua

    contrapalavra. Para Machado (2007) enunciado e discurso pressupem a dinmica

    dialgica da troca entre sujeitos discursivos no processo de comunicao, seja num

    dilogo cotidiano, seja num gnero secundrio (p. 157). Enquanto as entrevistas

    individuais permitiram a contextualizao da creche pelas vozes das pessoas que l

    atuam h muitos anos e que participaram da construo do trabalho pedaggico e

    estrutura organizacional da Creche, a entrevista coletiva realizada com as educadoras

    possibilitou abrir o dilogo e promover a fala e a escuta entre os sujeitos que trabalham

    na instituio.

    Na entrevista coletiva o entrevistador, assim como os entrevistados, deslocam-se

    de um lugar hierarquicamente superior ou naturalizado, conduzindo e recebendo

    perguntas de maneira aberta; argumenta e movimenta o dilogo, ope sua palavra

    palavra do outro (Kramer, 2004, 2007; Bakhtin, 2003, 2009) . Compreender e operar

    com esses conceitos no contexto da entrevista coletiva possibilita que as vozes dos

    sujeitos entrevistados e do pesquisador se articulem, dialoguem e sejam

    contrabalanceadas nessa arena discursiva. A palavra do outro mobiliza, evoca e convoca

    a participao dos sujeitos. Toda palavra tem intenes, significados; para entender o

    discurso (o texto falado ou escrito), o contexto precisa ser entendido (Kramer, 2004, p.

    498). Ao apontar tal perspectiva, a autora, em dilogo com Bakhtin, evoca o necessrio

    compromisso, nas pesquisas em Cincias Humanas, da contextualizao do sujeito que

    enuncia, bem como do lugar de onde ele fala.

    Uma situao observada durante o final do ano de 2011 sinalizou a

    potencialidade da fotografia como estratgia e recurso metodolgico. At o momento,

    ela havia sido utilizada apenas em situaes pontuais, como o registro do acervo de

    livros da Creche e sua organizao nos ambientes.

  • 36

    Certo dia de observao, pedi professora da turma B28 para ver os livros que

    ela socializava com as crianas e que ficavam guardados em uma caixa, dentro do

    armrio. Ao pegar a caixa e sentar-me no tapete para v-los, as crianas, que haviam

    terminado de tomar o caf da manh e aguardavam o incio de uma nova atividade,

    aproximaram-se e, imediatamente, comearam a explorar os livros. Como estava com a

    mquina fotogrfica, registrei esse intenso e dinmico momento de interao. Aps

    refletir sobre a sequncia fotogrfica, num encontro de orientao, vimos a relevncia

    das imagens e seu potencial para dar visibilidade s interaes das crianas sobre e com

    os livros. Isso levou a adot-la como estratgia metodolgica a partir de maro de 2012.

    A fotografia como abordagem metodolgica de pesquisa tem sido discutida e

    apropriada por diferentes autores no mbito da pesquisa em Educao (Lopes, 1998;

    Kramer, 2002; Lopes, Sander e Souza, 2003; Tristo, 2004; Souza, 2007; Corsino e

    Chamarelli, 2010; Guimares, 2008, 2011; Schimitt, 2008). Para Guimares (2011)

    O ato de fotografar traz tona a postura crtica do pesquisador,

    quando ele quem fotografa. H certa seleo do que ser registrado,

    evidenciando o seu olhar, que envolve domnio tcnico e

    sensibilidade. A foto mostra o que ele acha importante ser visto o

    lugar da criana, os sentidos do corpo, os movimentos interativos

    (p. 108).

    A autora esclarece em sua pesquisa que, dependendo da situao observada, o

    registro ora focalizava no movimento do adulto em direo criana, ora nos bebs em

    direo aos adultos ou a outros bebs. Essa observao nos conduz de volta questo da

    pesquisa com crianas e seu devido compromisso tico. Ao construir um material

    emprico que revela como as crianas se movem em direo ao que as mobiliza, sejam

    as interaes com os adultos ou com outras crianas, sejam com os materiais e

    propostas provocadoras no ambiente da creche, leva-nos a considerar que se

    pretendemos fortalecer o lugar social da criana, preciso que se possa discutir com

    seus responsveis, pais e educadores, sobre as imagens produzidas, suas funes, seus

    significados (Guimares, 2011, p. 111).

    No foi possvel, no tempo da pesquisa, ter um encontro com as famlias para

    socializar a pesquisa, como foi feito com o grupo de funcionrios da Creche. No

    entanto, antes de adotar, definitivamente, a fotografia como estratgia metodolgica, a

    proposta foi dialogada tanto com Joana, quanto com Monica, que participaram do

    contexto da pesquisa (foram entrevistadas e com as quais a pesquisadora sempre se

    8 No item a seguir abordo a caracterizao das turmas.

  • 37

    encontrava na Creche) e, diante do exposto do objetivo que caracterizava o uso da

    fotografia (registrar interaes das crianas entre si e com os adultos nas prticas com os

    livros e as leituras) fomos informadas que a Creche possui documento dos

    responsveis, assinado no ato da matrcula, que autoriza o registro das atividades e

    imagens das crianas no cotidiano, para fins pedaggicos e como estratgia de

    documentao e que, portanto, estaramos autorizadas a registrar esses momentos para

    fins acadmicos.

    As fotografias tiveram no mbito deste trabalho, o objetivo de captar e registrar

    as expresses e os movimentos das crianas em relao ao livro e a leitura literria na

    creche. Ciente de que, nem mesmo o recurso fotogrfico, seria capaz de capturar

    nuances especficas de instantes nicos e irrepetveis - um remexer do corpo provocado

    pela alegria e excitao de um convite leitura ou o sorriso acompanhado de um bater

    de palmas celebrando a possibilidade de manusear, autonomamente, um livro

    disponibilizado - a fotografia foi uma ferramenta que auxiliou o afinamento do olhar, o

    registro das aes das crianas na relao com o livro e sua leitura que, por sua vez,

    tambm as palavras no poderiam alcanar, permitindo que a anlise fosse alm da

    ilustrao dos acontecimentos (GUIMARES, 2011, p.107).

    Sendo assim, o que d sentido imagem registrada, ao evento imortalizado, o

    dilogo estabelecido aps o encontro, depois do registro. A imagem capturada e

    desliga-se a cmera. O que se sucede a leitura de um momento que no se repetir

    novamente, mas que pode, em dilogo com outros suportes, auxiliar a construir

    caminhos sobre o que foi vivido, apontando pistas para as reflexes.

    Ainda inspirada no estudo de Guimares (2011), optei em seguir as mesmas

    orientaes para a organizao das fotografias para a escrita da dissertao, por

    acreditar que, dessa forma, daria visibilidade s aes das crianas e poderia dialogar

    teoricamente com estas aes no contexto que nos propomos investigar. Portanto,

    depois de passarem por uma seleo, as fotografias foram organizadas em sequncias

    constituindo-se, assim, como os registros escritos, como eventos de pesquisa.

    Considerou-se importante fazer essa distino j que, o objetivo do registro fotogrfico,

    no era apenas expor as fotos de forma ilustrativa, mas dar sentido para o qu o olho da

    cmara capturou. Por isso, uma narrativa descritivo-analtica acompanha a sequncia

    fotogrfica.

    Tomou-se como referncia para a designao de eventos de pesquisa, assim

    como aponta Guimares (2011) os estudos de Mikhail Bakhtin e seus interlocutores. Um

  • 38

    evento constitudo pela ao de dois ou mais sujeitos que, em permanente processo de

    constituio de si, respondem um ao outro do lugar que ocupam. Este conceito se

    sustenta na ideia que Bakhtin (2010) desenvolve do ser nico, em devir, em construo,

    em processo e que, como ser nico, ocupa posio privilegiada em relao ao outro;

    outro que tambm ser em devir, tambm em construo. Novamente emerge a

    responsabilidade com o lugar que ocupo frente ao outro, crianas e adultos, no contexto

    da pesquisa. Um evento , assim, contingente, acontecimento irrepetvel e nico j que

    acontece na relao entre sujeitos. Por sua vez, ao descontextualizar o evento e dar um

    novo arranjo a ele no texto da pesquisa possvel apreender e atribuir novos

    significados, dando ao singular e nico um outro lugar, alm do seu tempo e espao.

    Contextualizando com a pesquisa, possvel considerar que, as situaes

    disparadoras do olhar do pesquisador foram provocadas por adultos e crianas em

    interao uns com os outros, mediado por um objeto cultural o livro infantil e seus

    desdobramentos. Situaes que envolvem sujeitos ativos, que falam e respondem, cada

    qual do seu lugar, promovendo o dilogo e as inquietaes que motivam a vida, dilogo

    incessante e inacabvel. Sobral (2007, p. 27), em dilogo com Bakhtin, argumenta que:

    o evento ocorre num dado lugar e num dado espao; os fatos por ele gerados

    permanecem no tempo e no espao. Se os eventos so individualizveis, as propriedades

    que nele se repetem so universalizveis, o que no implica necessariamente abstrao.

    Logo, constituir um evento de pesquisa consider-lo situado num dado tempo e

    espao, portando, situado historicamente, no fluxo das relaes e suas implicaes, mas

    tambm como possibilidade de trazer as propriedades que evocam para alm deles.

    Os registros dos eventos tornaram vivas as possibilidades de construir ideias,

    conhecimentos e caminhos sobre a prtica da leitura literria na creche, tendo na lente

    as aes das crianas; delas entre si e com os adultos. possvel falar em modos de ler

    das crianas pequenas? Que caminhos trilham na relao com a leitura literria e os

    livros na Creche? Ainda que o acabamento do texto seja realizado pela pesquisadora, as

    vozes, os movimentos e os gestos dos outros sujeitos da pesquisa esto imersos por

    dentro do texto, das imagens, do todo vivido, pois [...] a cmara ocupa um lugar de

    destaque ao ressignificar o papel tanto do observador/fotgrafo como do espectador das

    imagens, que somos todos sem distino, mediando nosso olhar sobre a realidade

    (LOPES, SANDER e SOUZA, 2003, p.138).

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    1.3 Esses Outros, quem so? Breve caracterizao dos sujeitos e do campo

    emprico da pesquisa

    Entro na sala e sento-me no cantinho, quieta,

    para no incomodar o curso da atividade

    realizada pela professora. Mal me aquieto no

    lugar, deparo-me com olhares curiosos e

    tmidos sorrisos em minha direo. Uma das

    crianas desloca-se da roda, vem at a mim,

    olha-me e, sem mais, senta-se no meu colo.

    Permanecemos assim durante toda a atividade

    (Turma B3. Caderno de campo, 22 de maro de

    2011).

    Cheguei para iniciar as observaes na Creche munida de bloco e lpis pequeno

    - dos que cabem no bolso - para as anotaes do campo. Logo entendi que precisaria

    encontrar outra estratgia para os registros j que, na creche, as crianas no pedem

    licena para sentarem-se em nosso colo, no fazem reservas para convocar-nos para as

    suas brincadeiras, nem se intimidam quando desejam solicitar algo. Para aqueles que

    no se expressam verbalmente, os gestos e o prprio corpo so fontes comunicativas e,

    se estamos sensveis e atentos a eles, no h como ficarmos indiferentes. Desde esse dia

    o bloco e o lpis foram utilizados em momentos pontuais para no perder um gesto ou

    uma fala especficos. A dinmica e a comunidade da creche ajudaram a moldar e a

    constituir a minha postura como pesquisadora na instituio.

    Apresento agora uma breve caracterizao da Creche e dos sujeitos da pesquisa.

    No Captulo 2 sero abordados mais detidamente aspectos da histria da instituio.

    A Creche existe e funciona desde 1984 e est situada em uma comunidade da

    Zona Sul da cidade do Rio de Janeiro. Atende aproximadamente sessenta9 crianas entre

    quatro meses e dois anos e onze meses. Alm das crianas, integram a pesquisa,

    educadoras professoras e auxiliares e demais funcionrios que atuam na Creche, que

    sero citados com nomes fictcios para preservar suas identidades10

    . Durante as

    observaes do campo, no perodo de maro a dezembro de 2011, os registros foram

    realizados pela pesquisadora. Na entrevista coletiva realizada com todas as educadoras

    professoras e auxiliares da Creche, em dezembro de 2011, foi possvel contar com o

    9 Esse nmero pode variar ao longo do ano, pois comum, no perodo de julho, algumas crianas so

    encaminhadas para a Educao Infantil, que fica na mesma comunidade e tem o mesmo mantenedor da

    creche. 10

    Como so utilizadas fotografias, embora os nomes sejam fictcios, possvel identificar alguns sujeitos

    da pe