MESCHONNIC,Henri - Linguagem e Ritmo

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Resenha

Text of MESCHONNIC,Henri - Linguagem e Ritmo

Henri Meschonnic

Diretor da Faculdade de Letras

Jacyntho Jos Lins BrandoVice-Diretor

Wander Emediato de SouzaComisso Editorial

Linguagemritmo e vida

Eliana Loureno de Lima Reis Elisa Amorim Vieira Lucia Castello Branco Maria Cndida Trindade Costa de Seabra Snia QueirozTraduo

Cristiano FlorentinoEditorao de texto

Carolina ZuppoFormatao

Michel Gannam Extratos traduzidos por Cristiano Florentino Reviso de Snia QueirozReviso de provas

Carolina Zuppo, Neide Freitas, Jnia Kelle e Fernanda MouroCapa e projeto grfico

Glria Campos Mang Ilustrao e Design GrficoEndereo para correspondncia:

Belo Horizonte FALE/UFMG 2006

FALE/UFMG Setor de Publicaes Av. Antnio Carlos, 6627 sala 3025 31270-901 Belo Horizonte MG Telefax: (31) 3499-6007 e-mail: relin@letras.ufmg.br vivavozufmg@yahoo.com.br

SumrioSilncio: linguagem . 4

Silncio: linguagemA linguagem fala da linguagem. O que ela mostra melhor o que voc faz dela. Por isso somos todos, ns mesmos, inteiramente, o contedo da linguagem. A linguagem , a cada vez, o sujeito inteiro. Sua histria. Que significa mais o que ele no diz do que o que ele diz. O que interessa descobrir como. O incomunicado o que se comunica antes de tudo. por isso que o ritmo, que no est em nenhuma palavra separadamente mas em todas juntas, o gosto do sentido. Sua fsica. E o signo, uma velharia terica. Aqui se situa a crtica: onde o que voc faz do poema diz o que voc faz da linguagem de todos os dias. Como se houvesse uma outra. A teoria rompe em seu ponto fraco. O ponto fraco das teorias de linguagem e, portanto, das teorias da sociedade o poema. No conhecemos lngua sem poemas, adivinhaes, recitaes, provrbios; algo que se assemelha ao que chamamos literatura. Mesmo que seu lugar seja tomado pelos slogans publicitrios e fbricas de sonho, ou romances. No podemos, ento, pensar a linguagem sem pensar o que faz um poema e o que faz a literatura, ao contrrio de alguns cientificismos em voga. Uma teoria da linguagem sem teoria da literatura, e o inverso, so caminhos fceis para os dogmatismos, estes isolacionismos do pensamento que se crem proprietrios da verdade e da cincia, pois eles ignoram aquilo que se pensa alm de seus limites. o desafio da vida linguagem, da historicidade ao formalismo, do discurso lngua, do sistema estrutura, da significncia ao sentido. Alguns contemporneos envelheceram porque ainda hoje acreditam em verdades trintenrias. O estruturalismo fracassa em suas junes. O velho signo no quer ouvir a relao sempre nova entre a rima e a vida.

O partido do ritmo . 7

A escritura, o ritmo e a linguagem ordinria . 9

Oralidade e literatura . 15

A oralidade, potica da voz . 37

Referncias . 67

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O trabalho dos poemas desempenha aqui um papel emblemtico. Entrar em uma subjetividade extrema para atingir o sujeito em todo sujeito, passar do formalismo do signo a uma potica da sociedade. A rima, que Valry via como um objeto A Rima constitui uma lei independente do sujeito e comparvel a um relgio exterior.1 Trata-se justamente de compreender que ela marca uma hora que no existe em relgio algum e, mais que um tempo interior, um aspecto, um indicador deste sentido em meio ao sentido que uma presena no presente sempre o modo do sujeito. por isso que, depois das estruturas, no o indivduo, ou o individualismo, que advm, como acreditam os que nada ouvem no poema, na sua tica e na sua histria; mas, aps o barulho ensurdecedor do descontnuo, o silncio do contnuo que podemos novamente talvez ouvir. O contnuo da linguagem ao sujeito, da linguagem histria, literatura, que mascarado pelo contnuo das palavras e das coisas, o contnuo da natureza, o nico que o signo ouve. Mas este sculo [SC. XX] ter sido um sculo de mmicas. Os realistas lhe oferecem palavras, precisamente quando acreditam falar das prprias coisas. a justia imanente da linguagem. A arrogncia essencialista produz cada vez menos. porque o poema faz seu trabalho que ela ser, um dia, letra morta. Os poemas que fazem como a poesia no so o que chamo o poema, o trabalho do poema. Eles esto no passado. Confundiram a poesia com a histria da poesia. Mas identificar-se com os sucessos ilustres da poesia no tem nada a ver com a poesia. Com o poema. O poema s faz seu trabalho se ele se desvia disso. Assim, ao invs de ter letras, ele inaugura uma oralidade. A oralidade o ar que ele respira e que, em sua narrao, torna-se sua recitao. Sem saber ou querer, ele uma crtica da poesia.1

Assim, o poema uma crtica da linguagem, e da sociedade. Essa crtica no se encontra na crtica dita literria. Esta apenas literria, no crtica. Vemos em torno dela a polmica, o resenhismo, as sociedades de elogio mtuo. A escritura sempre crtica, por necessidade vital, para descobrir sua prpria historicidade. por isso que, quando h uma crtica, ela tem a escritura da paixo. Como em Pguy. Ela no algo que se mistura com a escritura, que se incorpora escritura. Ela a prpria escritura trabalhando para se reconhecer a, neste Guignol. Escritura, e crtica, quando no h mais moi, somente o je. Ento, o ritmo. Para reaprender a ler. Uma poca perdeu a histria do ler. Fizeram-nos acreditar que ler era algo interno. Assim, o leitor no l, ele lido. talvez um moi. No um je. O je est a caminho. A fbula do por que ele vive ou escreve no para ele. Mas para os moralistas. Ele je como cada um. Assim, cada je se prepara em si. O poema no sabe mais. No ensina um saber. No ensina. Evidentemente. Mas ele mostra. Trabalha o insabido. Nem margem, nem fora dela. Sua utopia estar aqui. Seu partido, e tambm o da crtica, o partido do ritmo. Sua poltica.

VALRY. Rhtorique. Commerce, n. 20, p. 27, 1929.

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O partido do ritmoA oralidade um trabalho, de si sobre si e para os outros. O ritmo, ento, uma misso do sujeito. A experimentao imprevisvel da alteridade sobre a identidade. por isso que a oralidade e o ritmo so a matria e a questo da modernidade. Abandonar Plato. E a casa de Hegel. A escritura, paradoxalmente, a melhor ilustrao da oralidade. Sua realizao por excelncia. Elas no se compreendem melhor isoladamente do que uma atravs da outra. Ainda necessrio comear por analisar a definio corrente, que confunde a oralidade com o falado. E recolocla no seu lugar. No signo. Para que ela se cale um pouco. E nos deixe escutar. Resta oralidade livrar-se do empirismo tradicional que, acreditando ver nela apenas uma propriedade da voz, a considera atravs do modelo do signo. Segundo o dualismo do oral e do escrito. Esse dualismo evidente. Tanto em etnologia quanto em lingstica e na pedagogia das lnguas. O estruturalismo o reforou. A potica impe recolocar em questo este modelo. Pois a oralidade, como propriedade distintiva das literaturas orais opostas s da escrita, s pode ter uma acepo negativa. O oral o que no escrito. A ausncia de escrita no diz nada de uma especificidade do oral. A fronteira entre o oral e o escrito tambm no to segura. A frica negra, continente sem escrita, aparece, em parte, como uma fbula. Nem sempre houve a supervalorizao do escrito que nossa civilizao supe. Os gauleses recusaram-se a escrever ou seja, a transmitir seus textos sagrados. Uma definio da oralidade como organizao retrica da linguagem, distintiva e distinta daquela dos textos escritos, no pde ser afastada. A oralidade s tem, ento, uma compreenso sociolgica. Ela um modo de emisso, de execuo e de transmisso.7

Essa situao o efeito do signo. A crtica da oralidade coloca em jogo, portanto, a teoria da linguagem. notvel que seja um problema de literatura que obstrui a teoria da linguagem. Esta que s se sente suficientemente segura de ser uma cincia quando elimina a literatura e a deixa aos literatos. A questo da oralidade supe, de fato, uma potica. A prpria concepo do signo um obstculo. por isso que o ritmo como organizao do discurso pode renovar a concepo da oralidade, tirando-a do esquema dualista. A oposio entre o oral e o escrito confunde o oral com o falado. Passar da dualidade oral/escrito para uma partio tripla entre o escrito, o falado e o oral permite reconhecer o oral como um primado do ritmo e da prosdia, com sua semntica prpria, organizao subjetiva e cultural de um discurso, que pode se realizar tanto no escrito como no falado. H oralidade em Rabelais e em Joyce. A entonao um modo da oralidade do falado. A imitao do falado no escrito distinta do oral. A historicidade da pontuao dos textos uma questo da oralidade. A traduo est se transformando atravs do reconhecimento da oralidade. Este reconhecimento participa da renovao em curso na teoria da linguagem. Ela est passando, no sem resistncia, das categorias signo, sentido, enunciado, todas categorias da lngua, s categorias especficas do discurso, tais como a enunciao, a significncia, a relao da linguagem com o corpo. Renovao da concepo do sujeito atravs da renovao da concepo do ritmo. Em que aparece a necessidade da interao entre a idia da linguagem e a da literatura.

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A escritura, o ritmo e a linguagem ordinria2A crtica: uma preciso absoluta da orelha para o futuro. Marina Tsvetaeva. Poet o kritike(O poeta a propsito da crtica)

O conhecimento de seu ritmo , para um artista, o mais seguro escudo para toda difamao e todo elogio. Alexandre Blok. Dua pisatelja (A alma do escritor)

Se a escritura o que acontece quando alguma coisa feita na linguagem por um sujeito e que jamais havia sido feito assim at aquele momento, ento a escritura participa do desconhecido. Ou seja, do ritmo. Ela comea a onde cessa o saber. E como o saber o presente do passado, poderamos dizer que a escritura o presente do futuro, o futuro no presente, no momento em que ela tem lugar. Por conseguinte, em certos casos, talvez para sempre, ela um passado que continua a ter o futuro. Como podemos, ento, falar dela? O rodeio obrigatrio