miolo editorial PiBID

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miolo do editorial do pibid

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  • Catalogao na publicao

    Biblioteca de Cincias Humanas e Educao - UFPR

    Melebranche, Nicolas

    Dilogos sobre a metafsica e a religio: primeiro dilogo /

    Oficinas de traduo.Departamento de Filosofia.Universidade

    Federal do Paran. [Curitiba]: Ed. SCHLA/UFPR, 2011.

    26 p. (Traduzindo: Textos filosficos na sala de aula)

    ISBN 978-85-99229-10-1

    1. Filosofia. 2. Filosofia Histria. 2. Metafsica. I. Universidade

    Federal do Paran.

    CDD 101

    Sirlei do Rocio Gdulla CRB 9/985

  • 3Um dos problemas mais tradicionais da filosofia se refere natureza da reali-

    dade. Nossa vida cotidiana caracterizada por aquilo que, na filosofia, chamamos

    de atitude natural ou dogmtica, em que em nossas aes no questionamos a re-

    alidade das coisas, mas simplesmente a tomamos como dada, pressupomos sua

    verdade e existncia. Mas em que se funda essa verdade? O que confere a existn-

    cia dos objetos enquanto tais? O que h de mais essencial neles? basicamente

    sobre tais questes que se orienta o presente texto. Malebranche defende a tese

    de que o mundo em que o corpo habita, e mesmo o prprio corpo, tm realidade

    diferente daquela que na atitude natural ns costumamos perceber. Para o filso-

    fo, o mundo no composto de objetos, nem os objetos so compostos de matria.

    O que confere realidade ao mundo so as ideias.

    Para que possamos compreender as ideias preciso que primeiramente seja

    compreendida a via de acesso a elas. Malebranche faz parte de um contexto filo-

    sfico que problematizava a relao entre corpo e alma. Segundo ele pela alma

    que percebemos as ideias. Por sua vez, as ideias no esto em um outro mundo.

    Quando, nos nossos primeiros contatos com a filosofia, ouvimos falar em mun-

    do inteligvel, por ainda nos mantermos presos nossa atitude natural, acaba-

    mos por imaginar um lugar diferente do mundo em que vivemos e nos movemos.

    Malebranche defende que no existem dois mundos um mundo material e um

    mundo das ideias , mas as ideias so o que h de propriamente real no mundo

    material em que vivemos. Por isso, mesmo sendo um sacerdote, Malebranche no

    despreza o corpo como de maneira geral a filosofia crist o desprezava por v-lo

    como algo pecaminoso, mas, sim porque ele nos direciona a um mundo que no

    o mais essencial nem o mais verdadeiro. Enquanto compreendermos o mundo

    apenas por aquilo que os sentidos nos revelam, jamais conseguiremos alcanar

    Introduo

  • 4a verdade, pois o mundo apreendido pelos sentidos fragmentado, ou seja, pelos

    sentidos captamos apenas as maneiras como as coisas so, e no o que elas so

    em essncia. a alma que capta as ideias, e so estas que formam a tessitura ori-

    ginria da realidade. Por isso no se trata tanto da verdade do objeto, questo que

    ainda no deixa de se enveredar pela atitude natural, mas de questo puramente

    metafsica, isto , se trata em tentar compreender a verdade absoluta verdade

    esta que s acessvel pela pura razo.

    Ora, como saber se as ideias apreendidas pela razo so de fato ideias e no

    apenas sensaes dos objetos obtidos pelo corpo? Malebranche foi fortemente

    influenciado pelo dualismo cartesiano entre alma e corpo, pensamento e exten-

    so. Mas enquanto o cartesianismo se embaraava para explicar a relao entre

    ambos, com respostas bastante insatisfatrias para os filsofos da poca, que no

    aceitavam gratuitamente a soluo cartesiana baseada nos supostos efeitos da

    glndula pineal, Malebranche prope outra abordagem. Primeiramente, ele aceita

    tal dualismo, mas segundo o filsofo no devemos nos preocupar com a relao

    entre eles porque no h uma ao da alma sobre o corpo nem do corpo sobre a

    alma. Tanto a alma quanto o corpo no criam aes, mas ocasies nas quais Deus

    se manifesta. por essa tese que ser conferido ao pensamento de Malebranche o

    ttulo de ocasionalismo. Nesse sentido, Deus no um ser transcendente do mun-

    do, mas o mundo inteiro se encontra em Deus. Isso no quer dizer que conhece-

    mos o mundo porque conhecemos Deus, mas conhecemos o mundo pelas ideias

    que esto em Deus. As ideias tm uma existncia eterna e necessria e o mundo

    corpreo existe apenas porque Deus desejou cri-lo. Assim, para ver o mundo in-

    teligvel, basta consultar a razo, que contm em si as ideias inteligveis, eternas e

    necessrias, o arqutipo do mundo visvel. Ns conhecemos os corpos pelas ideias

    que esto em Deus, pois para Malebranche o mundo por si mesmo invisvel.

  • 5Nicolas Malebranche nasceu no dia 6 de agosto de 1638 em Paris. Devido a uma

    doena na infncia comeou seus estudos em casa, somente aos dezesseis anos

    vindo a freqentar os cursos do Collge de la Marche e depois teologia na Sorbonne.

    Esse perodo foi marcado por certo desgosto em relao aos estudos, primeira-

    mente porque no Collge encontrou um ensinamento escolstico confuso e vazio.

    Na teologia no foi diferente: onde pensava encontrar a verdade, deparou-se ape-

    nas com mais obscuridade e discusses pueris. Em 1660 entrou para a congrega-

    o dos Padres do Oratrio, sendo ordenado sacerdote em 1664. No incio, os en-

    sinamentos da congregao no eram para ele menos fastidiosos. Neste perodo

    entrou em contato com a filosofia de Ren Descartes por meio da obra Tratado do

    Homem. Quatro anos aps o contato com o Tratado de Descartes, comeou a escre-

    ver sua obra A procura da Verdade ,que teve seu primeiro volume publicado em 1674

    e o segundo em 1675. Publicou em 1680 o Tratado da Natureza e da Graa. Antoine

    Arnaud denunciou essa obra como contrria doutrina da igreja, o que resultou na

    incluso do Tratado da Natureza e da Graa no ndex em 1690. Antes desse perodo

    publicou ainda o Tratado de Moral em 1684 e os Dilogos sobre a Metafsica em 1688.

    J bastante renomado, sendo tambm gemetra, matemtico e fsico, em 1699

    entra para a Academia de Cincia e seus ensinamentos so discutidos em vrios

    pases da Europa. Em junho de 1715 acometido por uma doena, vindo a falecer

    na noite de 13 de outubro do mesmo ano.

    Dilogos sobre a metafsica considerado o texto que melhor representa de ma-

    neira sucinta o pensamento de Malebranche. O primeiro dilogo aborda a proble-

    mtica da relao da alma com o corpo e da caracterizao das ideias. Alm disso,

    o texto em forma de dilogo proporciona uma leitura prazerosa e motivadora, so-

    bretudo para quem est iniciando seus estudos sobre filosofia. por essas carac-

    tersticas e pela qualidade do texto que a Oficina de Traduo do curso de filosofia da

    UFPR disponibiliza esta traduo, ainda indita no Brasil, particularmente para os estu-

    dantes do ensino mdio e para todos aqueles que desejarem se aventurar na filosofia.

  • 6Primeiro Dilogo

    Sobre a alma. Que a alma distinta do corpo. Sobre a natureza das

    ideias. Que o mundo onde nossos corpos habitam e para o qual olhamos

    muito diferente daquele que vemos.

    Teodoro Muito bem, meu caro Aristo, j que isso lhe interessa, vou lhe apre-sentar minhas vises metafsicas. Mas, para isso, preciso que eu abandone es-

    ses lugares encantados que ludibriam os nossos sentidos e que, dada a sua varie-

    dade, dispersam um esprito como o meu. Convido-o a abandonarmos esse lugar,

    pois estou extremante apreensivo de que alguns dos meus preconceitos ou os

    princpios obscuros originados da unio entre a alma e o corpo sejam tomados

    como respostas imediatas da verdade interior. Alm disso, temo que aqui eu no

    consiga, como talvez voc consiga, fazer calar um certo rudo dispersivo que se-

    meia a confuso e o engano em todas as minhas ideias. Vamos para o seu gabinete

    a fim de adentrarmos mais facilmente em ns mesmos; de tal modo que nada

    nos impea de consultar nosso mestre comum, a Razo Universal. Pois a verdade

    interior que deve presidir nosso dilogo. Ela que deve me ditar o que devo lhe

    dizer e aquilo que voc deseja aprender por meu intermdio. Em uma palavra,

    compete somente a ela julgar e pronunciar-se sobre nossas discordncias. Hoje

    pensaremos somente em filosofar, e voc, embora seja inteiramente submisso

    autoridade da Igreja, deseja que eu lhe fale inicialmente como se voc recusasse

    as verdades da F como princpios do nosso conhecimento. De fato, os percursos

    do nosso esprito devem ser regulados pela F, mas a Razo soberana que deve

    lhe prover inteligncia.

  • 7Aristo Vamos aonde voc quiser, Teodoro. Desgosta-me tudo o que vejo neste mundo material e sensvel, desde que lhe ouvi falar de um outro mundo repleto

    de belezas inteligveis. Eleva-me a esse lugar afortunado e encantado. Faa-me

    contemplar todas aquelas maravilhas de que outro dia voc me falava de uma ma-

    neira to magnfica e com ares de contentamento. Estou pronto, ento, para lhe

    seguir por esse pas que voc acredita ser inacessvel queles que no escutam

    seno os seus sentidos.

    Teodoro Voc est zombando de mim, Aristo. Mas isso no me incomoda. Voc ri de mim de uma maneira to delicada e to honesta que eu percebo que

    sua inteno apenas se divertir e no me ofender. Perdoo-o por isso. Voc se

    deixa levar por sua imaginao bem humorada. Mas, permita-me dizer, voc fala

    do que no entende. No, de modo algum eu o cond