Percepção e Memória Sensível em Maurice Merleau- ?· em Maurice Merleau-Ponty ... quisermos compreender…

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  • Universidade de Lisboa Faculdade de Letras

    Departamento de Filosofia

    Percepo e Memria Sensvel em Maurice Merleau-Ponty

    Irene Isabel Pinto Pardelha

    Mestrado em Filosofia (Esttica e Filosofia da Arte)

    2007

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    Universidade de Lisboa Faculdade de Letras

    Departamento de Filosofia

    Percepo e Memria Sensvel em Maurice Merleau-Ponty

    Irene Isabel Pinto Pardelha

    Mestrado em Filosofia (Esttica e Filosofia da Arte)

    Orientadora: Professora Doutora Isabel Matos Dias Caldeira Cabral

    Co-orientadora: Professora Doutora Irene Borges Duarte

    2007

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    Resumo

    Esta investigao lanou a sua ncora no universo de pensamento do

    fenomenlogo francs Maurice Merleau-Ponty. Ela visa uma anlise da

    percepo e da memria como actos descritivos da facticidade do humano. A

    fundamentao de uma teoria da memria sensvel beneficia aqui da atmosfera

    sensvel onde Merleau-Ponty inscreveu o fenmeno da percepo.

    Esta dissertao parte num primeiro momento da anlise da crise da razo

    como ciso do universo do saber e oferece uma perspectiva teraputica que

    atravessa as temticas husserlianas da reduo e do regresso ao Lebenswelt, para

    alcanar, enfim, com o pensamento da percepo de Merleau-Ponty, a to

    almejada superao do objectivismo subjacente ciso do universo racional. Se o

    corpo o sujeito de percepo, ele tambm abertura que se instaura aqum de

    todas as dicotomias realadas pelas teses empiristas e intelectualistas.

    Numa segunda fase, procuraremos explicar como o corpo em Merleau-

    Ponty supera a teoria ainda subjectivista do pensamento do Leib husserliana e se

    impe, ele mesmo, como sujeito de percepo e de horizontes entendendo-se

    aqui por horizonte, o universo de uma experincia possvel, i. e. por um lado,

    aquilo que se estende para alm do meu corpo e que o envolve; e, por outro lado,

    aquilo que se afunda nele como experincia passada. A sedimentao das

    vivncias constitui um halo de generalidade e de anonimato intencional que aqui

    descrevemos como memria sensvel e que serve de fundo a todo o gesto

    perceptivo actual. Nesta linha de anlise defendemos que a espontaneidade da

    percepo se perderia no espectculo do mundo se no fosse apoiada sobre um

    fundo sensvel, uma dinmica adormecida da memria como horizonte da prpria

    percepo.

    Palavras-Chave: NATUREZA PERCEPO CORPO MOVIMENTO MEMRIA

    SENSVEL

  • 4

    Rsum

    Cette recherche est enracine dans lunivers de la pense du

    phnomnologue franais Maurice Merleau-Ponty. Elle a pour but une analyse de

    la perception e de la mmoire en tant quactes descriptifs de la facticit de

    lhumain. La fondation dune thorie de la mmoire sensible profite ici de

    latmosphre sensible o Merleau-Ponty a inscrit le phnomne de la perception.

    Cette dissertation part, dans un premier moment, de lanalyse de la crise

    de la raison en tant que scission de lunivers du savoir et offre une perspective

    thrapeutique qui traverse les thmatiques husserliennes de la rduction e du

    retour au Lebenswelt, pour atteindre, enfin, avec la pense de la perception de

    Merleau-Ponty, le dpassement tellement souhait de lobjectivisme sous-jacent

    la scission de lunivers rationnel. Si le corps est sujet de perception, il est aussi

    ouverture qui sinstaure en de de toutes dichotomies releves par les thses

    empiristes et intellectualistes. Ainsi, sur la base de lempitement de la notion de

    Leib sur la notion de Chair merleau-pontinne, on essaiera encore de montrer

    comment la porte accorde par Merleau-Ponty la pense de la corporalit a

    contribu une affirmation qui ne peut pas tre pense en tant quopposition vis-

    -vis de lintelligible.

    Dans une deuxime phase, on essaiera dexpliquer comment le corps chez

    Merleau-Ponty dpasse la thorie encore subjectiviste de la pense du Leib

    husserlien et simpose, lui-mme, en tant que sujet de perception et dhorizons.

    On comprend ici comme horizon lunivers dune exprience possible, i. e. dun

    ct, ce que stend au-del de mon corps et ce qui lentoure et, dun autre ct,

    ce qui senfonce en lui en tant quexprience passe. La sdimentation des vcus

    constitue un halo de gnralit et danonymat intentionnel que nous dsignons ici

    comme mmoire sensible, et qui sert de fond chaque geste perceptif actuel.

    Dans cette ligne danalyse nous dfendons que la spontanit de la perception se

    perdrait dans le spectacle du monde si elle ne sappuyait sur un fond sensible,

    une dynamique endormie de la mmoire en tant quhorizon de la perception

    mme.

    Mots-cls : NATURE PERCEPTION CORPS MOUVEMENT MEMOIRE SENSIBLE

  • 5

    ndice

    Resumo ..................................................................................................................3

    Rsum ..................................................................................................................4

    ndice .....................................................................................................................5

    Siglas ......................................................................................................................7

    Introduo ..............................................................................................................9

    PRIMEIRA PARTE RAZO E PERCEPO. DA TRANSPARNCIA

    OPACIDADE .........................................................................................................14

    Captulo I. A razo transparente...........................................................................15

    1. 1. Sintomas de crise .................................................................................17

    1. 2. A racionalidade cindida .......................................................................25

    Captulo II. Percepo e opacidade .....................................................................35

    2. 1. A Natureza em questo.........................................................................36

    2. 2. Crtica reduo fenomenolgica .......................................................44

    2. 3. Percepo e dinmica reflexiva ...........................................................57

    SEGUNDA PARTE MEMRIA SENSVEL. ESPONTANEIDADE E PASSIVIDADE

    ..............................................................................................................................72

    Captulo III. Corpo e Percepo...........................................................................73

    3. 1. O corpo em questo ..........................................................................75

    3. 2. A carne: elemento do corpo e do mundo ......................................84

    Captulo IV. Corpo e Memria ............................................................................94

    4. 1. O corpo mnsico ...............................................................................94

    4. 2. A experincia do membro fantasma ............................................106

  • 6

    Concluso ..........................................................................................................119

    Bibliografia ........................................................................................................124

  • 7

    Siglas

    I. P. LInstitution. La passivit

    N. La Nature. Notes Cours du Collge de France

    Ph. P. Phnomnologie de la Perception

    S. Signes

    S. C. La Structure du Comportement

    U. A. C. LUnion de lme et du Corps

    V. I. Le Visible et lInvisible

  • 8

    Entre une histoire de la philosophie qui objective qui mutilerait les grands

    philosophes de ce quils ont donn penser aux autres, et une mditation

    dguise en dialogue, o nous ferions les questions et les rponses, il doit

    avoir un milieu, o le philosophe dont on parle et celui qui parle sont

    ensembles prsents, bien quil soit, mme en droit, impossible de dpartager

    chaque instant ce qui est chacun.

    M. MERLEAU-PONTY, Signes, p. 260.

  • 9

    Introduo

  • 10

    Quando nos propomos abordar o pensamento de um autor, importa

    apreend-lo na sua complexidade, tendo em conta os vectores iniciais que

    delimitaram a sua prpria pesquisa. Por mais convidativa que se oferea a

    cartografia anunciada, preciso que o autor (ou o texto) nos mostre onde quer ir

    e saiba sugerir um dos muitos percursos possveis para nos levar a onde ele se

    props inicialmente chegar. A aceitao do convite ou da sugesto abre as portas

    a uma espcie de iniciao no apenas ao pensamento do autor, mas sobretudo ao

    universo intencional das preocupaes de quem os aceita. Como estruturao de

    uma certa maneira de ser e de fazer, a originalidade no pode nunca dispensar a

    aprendizagem, uma vez que uma via singular s pode ser traada se tiver como

    fundo a partilha de um certo universo conceptual.

    O ponto de vista aqui visado no incita a uma aproximao hermenutica

    do pensamento do autor; no se pretende de forma alguma (numa linha

    scheleirmacheriana) compreender o autor melhor do que ele se compreendeu a si

    mesmo. O objectivo da presente investigao no se circunscreve a uma anlise

    da temtica da percepo e de uma memria de caractersticas sensveis, em

    Merleau-Ponty. Optmos por uma heurstica que procura encontrar nestas

    temticas a possibilidade de pensar outra coisa a partir delas. Nesta linha de

    a