Reflexões sobre corpo, saúde e doença em Merleau-Ponty ... ?· em obras de Maurice Merleau-Ponty,…

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__________________*Centro de Cincias da Sade, Departamento de Educao Fsica, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil. E-mail: isabelbsm1@gamil.com**Centro de Cincias da Sade, Departamento de Educao Fsica, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil. E-mail: araujo.allyson@hotmail.com***Centro de Cincias da Sade, Departamento de Educao Fsica, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil. E-mail: cidaufrn@gmail.com****Centro de Cincias da Sade, Departamento de Educao Fsica, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, RN, Brasil. E-mail: melo@digi.com.br

Reflexes sobre corpo, sade e doena em Merleau-Ponty: implicaes para

prticas inclusivas

Maria Isabel Brando de Souza Mendes*Allyson Carvalho Arajo**

Maria Aparecida DiasJos Pereira de Melo

Resumo: Neste artigo discute-se sobre corpo, sade e doena em obras de Maurice Merleau-Ponty, buscando implicaes para prticas inclusivas. Problematiza-se o modelo tradicional de sade e doena, considerados como opostos pautado na concepo biomdica. Problematiza-se a ideia de sade como ausncia de doena, a doena reconhecida como anormalidade e o doente tratado como objeto de intervenes e considerado incapaz. Conclui-se que a compreenso de sade e doena na perspectiva existencial e sua dimenso afetiva podem colaborar para que os profissionais de sade tenham um olhar mais amplo sobre a condio humana e sua diversidade. Palavras-chave: Sade. Doena. Corpo. Fenomenologia. Incluso.

1 Introduo

notria a relevncia das discusses conceituais para qualquer rea do conhecimento, principalmente quando refutamos a compreenso de que os conceitos so meras opinies desvinculadas de qualquer sentido prtico. Por defendermos a ideia de que os conceitos expressam algo e que se materializam

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em prticas sociais, nos dirigimos para o campo da sade, com o intuito de interrogarmos alguns conceitos emblemticos para a Educao Fsica.

Surpreendemo-nos quando identificamos poucos estudos na contemporaneidade relacionados s discusses conceituais sobre sade e doena no Brasil, dentre os quais destacamos os de Ayres (2007); Almeida Filho e Juc (2002); Boruchovitch e Mednick (2002); Novelli (2001) e Almeida Filho (2000).

Reconhecemos a relevncia desses estudos por questionarem o modelo biomdico de sade e doena e por trazerem contribuies de acordo com os referenciais adotados, numa tentativa de ampliar a compreenso desses conceitos.

Diante da necessidade de ampliar essas discusses a partir de outros referenciais tericos, almejamos contribuir com esses estudos trazendo tona uma discusso conceitual, relacionando-a s prticas sociais. Nesse sentido, objetivamos nessa pesquisa discutir sobre corpo, sade e doena em obras de Maurice Merleau-Ponty, buscando implicaes para prticas inclusivas.

Destacamos aqui, que a escolha por estudos de Maurice Merleau-Ponty deveu-se ao fato desse filsofo ter influenciado de alguma maneira o pensamento de Georges Canguilhem e Michel Foucault, filsofos que contriburam consideravelmente com discusses no campo da sade.

A fenomenologia existencial de Merleau-Ponty se pauta num pensamento que busca superar a filosofia da conscincia e o positivismo na cincia e tem como fundamento a compreenso de corpo vivo situado no mundo da experincia, que tanto contribuiu para a filosofia de Canguilhem e de Foucault.

Para a discusso realizada sobre corpo, sade e doena em estudos de Maurice Merleau-Ponty, enfocamos ento, trs obras do autor: Fenomenologia da Percepo, O Olho e o Esprito e Conversas.

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Cabe ressaltar que no tivemos a pretenso de fazer a exegese dessas obras, mas sim, buscar pistas e possibilidades sobre o conceito de sade e de doena. Para Paul Ricoeur (1976), no preciso repetir um texto de forma semelhante para a sua compreenso. Ter compreenso ter a capacidade de produzir novas construes a partir dos sentidos que afloram do texto.

Iniciamos a nossa discusso trazendo elementos sobre a vida de Merleau-Ponty e a compreenso fenomenolgica de corpo. Posteriormente, com base nas obras citadas tematizamos a sade e a doena como fenmenos existenciais e trazemos elementos sobre a dimenso afetiva do ser humano na sua relao com o outro. A seguir traamos relaes entre o doente, suas experincias vividas e suas potencialidades, tendo como foco Paul Czanne e suas pinturas, como possibilidades de se expressar e de se comunicar. Para finalizar, a partir das discusses realizadas apontamos elementos importantes que podem colaborar com os profissionais da Educao Fsica a contriburem com prticas inclusivas. Nas consideraes finais enfatiza-se que as discusses tecidas podem colaborar para que esses profissionais tenham um olhar mais amplo sobre a condio humana e sua diversidade.

2 Sobre MaurIce Merleau-Ponty

Maurice Merleau-Ponty nasceu em 1908 em Rochefort-sur-Mer na Frana e faleceu em 1961 aos 53 anos. Em 1945 tornou-se doutor em Filosofia e em 1948 foi professor da Universidade de Lyon, poca em que fez parte da direo da revista Les Temps Modernes, juntamente com Jean Paul Sartre. Foi professor titular de Psicologia Infantil na Sorbonne de 1949 a 1952 e nesse ltimo ano que foi eleito para a ctedra de Filosofia do Collge de France (MERLEAU-PONTY, 1984).

conhecido por dedicar seus estudos Fenomenologia com a preocupao de que a filosofia deveria questionar coisas do cotidiano, do mundo vivido. Sua inteno era contribuir para que

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a filosofia se tornasse mais concreta. A filosofia na sua concepo deveria voltar-se para o mundo em que vivemos (CARMO, 2002).

Merleau-Ponty recebe destaque no pensamento filosfico francs do ps Segunda Guerra e considerado um dos principais seguidores de Husserl, entretanto, consegue super-lo, ao desenvolver reflexes sobre o ser no mundo que problematizam o idealismo, ainda presente no pensamento de Husserl. Tido como um filsofo existencialista impactou a intelectualidade francesa na sua poca por considerar o ser humano na sua existncia, muito mais que na sua essncia, problematizando dessa maneira a metafsica. Para ele, a essncia est na existncia e o ser humano pensado em seu meio natural, cultural e histrico, ou seja, como ser-no-mundo, mais do que como ser ideal, privilgio anteriormente dado pela filosofia da conscincia (CARMO, 2002, p. 13).

autor de inmeras obras que j foram traduzidas para o portugus, tais como: O visvel e o invisvel; Humanismo e Terror; Fenomenologia da percepo; Cincias do homem e fenomenologia; A estrutura do comportamento; O primado da percepo e suas consequncias filosficas; A prosa do mundo; A natureza; O olho e o esprito, Psicologia e Pedagogia da criana, Signos e As aventuras da dialtica.

Nas obras de Merleau-Ponty, o corpo constitui-se em um dos principais temas do seu pensamento, assumindo um sentido ontolgico. Considera o sujeito como corpo e a conscincia encarnada no corpo, no intuito de superar o dualismo cartesiano. Sua inteno problematizar a ideia de que h um esprito que comanda e que est fora do corpo. Alm disso, o corpo no considerado um objeto isolado, pois est entrelaado ao mundo em uma situao. pelo corpo que se conhece o mundo e o mundo incorporado ao corpo pelas experincias vividas numa relao estesiolgica (MERLEAU-PONTY, 1999a; 1999b). Nas palavras de Merleau-Ponty, Ser corpo, ns o vimos, estar atado a um certo mundo (MERLEAU-PONTY, 1999a, p. 205). Merleau-Ponty destaca ainda que:

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o corpo nos une diretamente s coisas por sua prpria ontognese, soldando um a outro os dois esboos de que feito, seus dois lbios: a massa sensvel que ele e a massa do sensvel de onde nasce por segregao, e qual, como vidente permanece aberto (MERLEAU-PONTY, 1999b, p. 132).

Alm disso, nem se pode conhecer tudo do corpo humano, nem tudo no corpo percebido. H zonas de silncio. Ao mesmo tempo em que se mostra, o corpo capaz de se esconder, o que problematiza uma concepo de cincia que defende ser capaz de conhecer tudo do corpo humano. Nesse sentido, essa capacidade do corpo se mostrar e se esconder ao mesmo tempo reconhecida por Merleau-Ponty como o paradoxo do ser humano (Merleau-Ponty, 1999a; 1999b).

Apesar de no ter escrito obras especficas para a rea da sade, percebemos que ele traz grandes contribuies para esse campo em seus escritos filosficos. Merleau-Ponty tece crticas ao pensamento clssico por este operar pelo homogneo, um pensamento que no considera a diversidade humana, suas singularidades. No seu discurso destaca que o pensamento clssico no apresenta a ateno devida ao animal, criana, ao primitivo e ao louco. De acordo com o pensamento clssico h um padro a ser seguido: o do homem adulto sadio:

Tudo acontece como se o pensamento clssico tivesse se mantido preso em um dilema: ou o ser com o qual nos defrontamos assimilvel a um homem, sendo ento permitido atribuir-lhe por analogia as caractersticas geralmente reconhecidas no homem adulto e sadio, ou ele nada mais do que um mecanismo cego, um caos vivo, e no h ento nenhum meio de encontrar um sentido em sua conduta (MERLEAU-PONTY, 2004a, p. 32).

Ao sabermos que Merleau-Ponty refuta esse tipo de pensamento, buscamos tematizar algumas de suas contribuies para o campo da sade.

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