Texto 1 - Por um novo conceito de saúde

  • View
    796

  • Download
    2

Embed Size (px)

Text of Texto 1 - Por um novo conceito de saúde

Por um neve cenceite de sade*CHRISTOPHE DEJOURS Mdico do trabalho, psiquiatra, psicanalista do Centro Hospitalar D'Orsay.

o presente artigo constitui-se na traduo de palestra proferida pelo Dr. Christophe Dejours, em outubro de 1982, a trabalhadores, como parte de um ciclo de debates promovido pela Federao dos Trabalhadores da Metalurgia, da Confederao Geral dos Trabalhadores (CGT) francesa, sobre questes de sade e condies do trabalho. Na traduo, optamos pela fidelidade linguagem coloquial empregada pelo autor, visando preservar um dos principais objetivos do texto, ou seja, a sua fcil compreenso por parte dos trabalhadores. Por que resolvemos publicar este texto? Pelo fato de o mesmo abrir o debate sobre quest2g~~i!!]eQ!1?:fI.~~L.rtalnatlQ~P~(}C;f!sO !yc!!tr?tJal!7()1trazendo elementos que, em ger!, so subestimados por aqueles que se ocupam da rea. / O primeiro desses elementos aDg@9_f:!y.?rl?1?HL?c!e, fl.Q()q~ql!~9J2E(;fominanteno l :~fl.qjQ[!am5mtodolJJlmem...ml.lf,lt~~{]fJ,oafqtbiliQie, . esta variabilidade deve ser assumida e r@Q@!ta!aSfqedesejapromoVerasaqgfq gos.indM duos. O segundo elemento a se realar o papel fundamental dot!ttJIt!Q(ltyicfe, poITanJQLflasade.dos individuos. Estamos relativamente cientes dos males gJdJLaS~coD.Qiesc!QarT7bjentef[ico(l(; traalho ~pem-provocarnostrba1hacfores: as dbenSprflssionais ou doTrabalho, alm dos cidentes . /jrptiatrrenfdts, todos eles atacando o corpo do trabalhador. No essa, porm, a questo que o conferencista traz para discusso. Sua preocupao determinar o A&~QmaJjl.lt9!JgaJede um estudioso que, no processo de trabalho, atinge a s-,!gE!f!.'!!.(~.rltalLQj'1fiJl(lduos. da psicopat%gia do trabalho-:wefX.?tiv2_Q(i~rrrLqYf:L~~grgar1i?o do traalho,st(j, a diviso Qa:.Jaref!LJLG.QIItf!QQcf?:LaQiyisQJQ hOrnens~ para0tJeci~~", ' .. tra6alh:J8r." cietaretls, a re12Q'1$"yfq!J?J21~~$frirnentQmentaldo Esse op"nto crucial dos trabalhos de Dejrs~ prjet elucidar a trajetria que vai do comportamen.t.QJJx!,e,qlde c0!!i~rn.YrrrJentat!vet(Q.l()Lmr!elieamief1te, cQ'1tQC[!1e !2~!!esf!1Qs '. moortamento ester7:QtieaQ()C!Q_opertirio:rrrssa, ondet!~f~"~~Q_.0~!.~.i.~.g~:a sa~de seria esse.estado dE:C:9nfQr:t,ge . &m.::g?JLff?lC:.rfl~rltlesQjL. Gostaramos de tecer urna crftica a essadefinio. Em nosso entender, h duas razes para esta crtica: a primeira que esse estado de bem-estar ecjiZ2I1fr19, se nos aprofundarmos um pouco nlaTs,-rimposs{vel de definir. Gostaramos que nos dessem"'uma'deinTaodesse[5erfelto estado de bem-estar. No sabemos o que e cremos que no haja esclarecimentos considerveis sobre a questo. muito vaga. Implcita e intuitivamente, sabe-se que isso significa alguma coisa, mas quando se trata de defini-Ia, no muito simples. E a segunda crtica a fazer que, no fundo, esse perfeito e completo estado de bem-estar ...no existe! Pode parecer um pouco provocador, masveremos que isso conduzir a certo nmero de interrogaes e, talvez, a modificaes na compreenso do assunto. Indo mais longe ainda, diramos que esseestado de bem-estar qualquer coisa sobre a qual ternos uma idia. Em ltima instncia, poderamos considerar como sendo um estado ideal, que no concretamente atingido, podendo ser simplesmente uma fico, ou seja, uma iluso, alguma coisa que no se sabe muito bem no que consiste, mas sobre a qual se tem esperanas. Tenderamos a dizer que a sade antes de tudo um fi m, um objetivo a ser atingido. No se trata de um estado de bem-estar, masde um estado do qual procuramos nos aproximar; no o que parece indicar a definio internacional, como se o estado de bem-estar social, psquico fosse um estado estvel, que, uma vez atingido, pudesse ser mantido. Cremos que isso uma iluso e que simplesmente preciso, e j muito, fixar-se o objetivo de se chegar a esse estado, Vejamos como, e o que isso quer dizer. tratmQsapenas de criticar essanoo de sade, Iasorganizaes internacionais,O que

perguntamos agora se, no perodo recente, puderam ser acumuladas experincias ou novos conhecimentos que teriam por natureza modificar essa definio de sade, ou faze-Ia progredir. Respondemos que sim. Enumeraremos, e depois explicaremos, trs elementos a serem considerados: - Os primeiros elementos ou as primeiras experincias que sedevem levarem considerao esto relacionadas com o que se chama de fisiologiaf isto , a anlisedo funcionamento do organismo, asregrasque asseguramseu equilbrio e suasobrevivncia. - O segundo ponto a psicossomtlca. Mais adiante, voltaremos ao assunto,que muito importante. - A nosso ver, h ainda um terceiro elemento que p:Jde mudar a concepo de sade, que a psicopatologla do trabalho. Tentaremos agora detalhar um pouco mais esses trs elementos: - A fisiologia nos ensinou certo nmero de coisas, algumas j antigas, mas que, talvez, no tenham sido suficientemente compreendidas ou suficientemente utilizadas. Ensinou que o organismo no se encontra num estado estvel; o organismo no para de se mexer, est o tempo todo erll mudana. s vezes sente vontade de dormir, svezes de ter atividades; isso muda vriasvezes, no mesmo dia ou na mesma semana. Considerando-se o crescimento, por exemplo, veremos que o fato de crescer tambm no nada estvel. Ento, o que essa estabilidade da sade? Estamos em pleno movimento, durante longos anos, em seguida, envelhecemos e continuamos em movimento, Outro exemplo: A concentrao de acar no sangue, que muda o tempo todo, subindo quando se come, o que normal, para em seguida, baixar. Emoutras palavras,chega-se idia de que o organismo se encontra em constante movimento. O estado de sade no certamente um estado de calma, de ausncia de movimento, de conforto, de bem-estar e de ociosidade. algo que muda constantemente e muito importante que se compreenda esse ponto, Cremos que isso muda por completo o modo como vamos tentar definir sade e trabalhar para melhor-Ia. Isso significa que, se quisermos trabalhar pela sade deveremos deixar livresos movimentos do corpo, no os fixando de modo rgido ou estabelecido de umavez por todas. Colocando-nos em territrios que so um pouco vizinhos, e que se podem aproximar mais ou menos da fisiologia, poderemos ver o que se passa a nvel psquico. Sem querer entrar em definies, vejamos a angstia, por exemplo: a angstia penosa, uma causa de sofrimento; pois bem, a sade no consiste absolutamente em no se ter angstias - eis a urna coisa que as pessoas no compreendem e que, em nosso entender, no absolutamente clara para os mdicos hoje em dia. No se trata de fazer desaparecer a angstia. Alis nunca chegaramos a isso, Quem no angustiado? Compreende-se que esse um problema absurdo, pois todo mundo angustiado. H porem pessoas que, embora angustiadas, encontram-se em boa sade. Conseqentemente, no se trata de acabar com a angstia,mas de tornar possvel a luta contra ela, de tal modo que se a resolva, que se a acalme momentaneamente, para ir em direo a outra angstia. No questo de aprision-Ia de umavez por todas, pois no existem situaes assim. Sempre no campo das coisas irregulares, das coisas que mudam, pode-se falar tambm sobre o trabalho. Nos ltimos

anos, mostrou-se, embora os trabalhadores h muito tempo o soubessem, que quando uma tarefa regular, fixa, imutvel, repetitiva muito perigosa, causando, ou podendo causar, muito mal, O trabalho em linhas de montagem um exemplo tpico de coisas que esto bloqueadas e iguaisdurante todo o tempo, idnticas o tempo todo, Pois bem, cremos que se pode mostrar que, mais uma vez, a variedade, a variao, as mudanas no trabalho que so as mais favorveis sade. Cremos que a primeira aquisio desse ponto de vistaque vem da fisiologia conduz a que se conceba toda a vida como movimentos, bem como a que se assegure,antes de tudo, a liberdade desses movimentos, Esse o primeiro ponto, O segundo ponto, que traz novos conhecimentos e novas experincias, a psicossomtica. O que a psicossomtica? Trata-se de algo bem recente, que se desenvolveu h mais ou menos vinte anos. Psicossomtica as relaes que existem entre o que se passa na cabea das pessoas e o funcionamento de seus corpos, Sabe-se que entre um e outro h relaes que se estabelecem em permanncia. Pode-se mostrar,e isso foi mostrado h uns vinte anos, que, quando temos uma doena, esta tem momentos de evoluo, de crises, que no acontecem a qualquer momento na vida. Elasocorrem justamente em momentos precisos, quando se passa alguma coisa no piano psquico, no plano mental, no plano afetivo, Foi necessrio muito tempo para que se chegasse a estas relaes que agora comeam a ser conhecidas, Existem doenas que so desencadeadas por uma situao afetivadifcil, por uma espcie de impacto psquico. Porm o que verdade para certo nmero de doenas no verdade para todas, Particularmente,h dois tipos de doena que, pode-se dizer, jamais esto em relao com a vida psquica, e que so, de um lado, as intoxicaes, sejam elas profissionais, ou mesmo as causadas pelo lcool ou por medicamentos e, de outro lado, asdoenas parasitrias,A5 intoxicaes ultrapassam todas as possibilidades de defesa do organismo; quando atacam o organismo, desde que certo nvel seja atingido, ultrapassam todas as possibilidades de defesa. A no h elementos psquicos que contem e, se contam, muito pouco. O segundo tipo de doena que no se enquadra a so as chamadas doenas parasitrias, isto , doenas que se contraem essencialmente em pases tropicais, como a sia e frica, e quase nunca em pases de clima temperado, como a Frana, Arriscando-nos a chocar vocs um pouco, diramos que em quase todas as outras doenas encontram-se relaes muito curiosas entre o que se passa na cabea das pessoas e a evoluo de sua doena fsica. Ainda neste domnio, digamos da psicossomtic, da psiquiatria, etc. e, paravoltar questo da definio de um estado de bem-estar, de um estado de conforto, perguntamos: o que a sade mental? No apenas muito difcil de precisar. Indo maislonge, acho que muito perigoso faz-Io, Creio ser perigoso definir o que normal e o que no , do ponto de vista mental. Tomemos como exemplo o alcoolismo. O alcool