trabalho final SEG TRABALHO

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    29-Jun-2015

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<p>ANLISE DE CAUSAS DE ACIDENTES DE TRABALHO NAS PLATAFORMAS DE PETRLEO DA BACIA DE CAMPOS</p> <p>Carlos Machado de Freitas Jorge Mesquita Huet Machado Carlos Augusto Vaz de Souza</p> <p>Centro de Estudos da Sade do Trabalhador e Ecologia Humana Escola Nacional de Sade Pblica Fundao Oswaldo Cruz Avenida Leopoldo Bulhes, 1480 Manguinhos, Rio de Janeiro CEP 21041-210 Correio eletrnico: carlosmf@ensp.fiocruz.br</p> <p>1. INTRODUOEste trabalho resulta da investigao de acidentes de trabalho nas plataformas de petrleo da Bacia de Campos, no Estado do Rio de Janeiro, no perodo de 18 de agosto de 1995 14 de abril de 1997. O objetivo inicial foi responder s demandas colocadas aos autores para se investigar a crescente degradao das condies de trabalho e segurana que estavam, e ainda esto, ocorrendo naquelas plataformas de petrleo, tendo como resultando a ampliao e agravamento dos acidentes de trabalho. A primeira demanda foi a partir da denncia do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (SINDIPETRO-NF), no dia 28 de agosto de 1996, Cmara Tcnica da Indstria Qumica, Petroqumica e Petroleira do Conselho Estadual de Sade do Trabalhador do Rio de Janeiro (CTQPP/CONSEST), sobre a precarizao das condies de trabalho nas mesmas e o crescente nmero de acidentes. A segunda demanda se deu atravs de solicitao oficial da Assemblia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ), para que fossem investigados os acidentes de trabalho de modo a oferecer subsdios Comisso Parlamentar de Inqurito (CPI) Para Apurar Denncias de Falta de Segurana e Condies de Trabalho nas Plataformas Petrolferas no Estado do Rio de Janeiro. A terceira demanda foi do Ministrio Pblico do Trabalho (MPT), o qual deu incio um procedimento prvio de investigao e na qual os autores deste artigo, tcnicos do Programa de Sade do Trabalhador, assessores tcnicos do SINDIPETRO-NF (engenheiro e mdico) e pesquisadores de universidades acabaram no participando por considerarem imprescindvel a participao dos trabalhadores, atravs do seu sindicato, nas inspees. A inspeo nas plataformas com a participao dos trabalhadores foi impedida pela empresa e aceito pelo MPT, o qual se limitou uma inspeo muito rpida (um dia), em um nmero muito pequeno de plataformas (aproximadamente duas entre mais de vinte), sendo acompanhado por grande nmero de gerentes da empresa e tcnicos da Delegacia Regional do Trabalho. O objetivo desta investigao foi fornecer subsdios para que representantes dos trabalhadores, atravs do SINDIPETRO-NF e instituies pblicas de poder executivo (CT-QPP/CONSEST) e legislativo (CPI/ALERJ) pudessem ter elementos tcnicos para aprofundar no futuro as investigaes e desenvolverem estratgias de controle e preveno de acidentes que possibilitassem melhorar as condies de trabalho e reduzir a freqncia e a gravidade dos acidentes. Ainda que os autores no tenham participado conjuntamente da investigao iniciada pelo poder judicirio, particularmente o</p> <p>MPT, foi entregue uma cpia do relatrio tcnico da investigao de modo a subsidiar sua atuao, ainda que esta tenha sido isolada das outras. Este tipo de investigao se faz urgente e necessria quando consideramos que na histria da explorao do petrleo na Bacia de Campos h o registro de catstrofes como os acidentes ocorridos na Plataforma de Enchova em 1984 e 1988. O primeiro resultou em 37 bitos imediatos e o segundo na destruio total do convs e da torre, totalizando um prejuzo de 500 milhes de dlares (SINDIPETRO-NF, 1997). A memria de acidentes como o da Plataforma de Enchova (1984), bem como o da plataforma de Piper Alpha (Mar do Norte, 1988), o qual resultou no bito de 165 dos 228 trabalhadores presentes no dia do acidente, ou seja 72%, simbolizam o grande potencial de perigo que existe nas plataformas de petrleo e exigem que instituies pblicas de pesquisa, junto com instituies dos poderes executivo, legislativo e judicirio relacionadas segurana nos ambientes de trabalho permanentemente levem em considerao o que vem ocorrendo tanto na Bacia de Campos como em outros estados onde h explorao martima de petrleo, no cabendo omisses quando o que se encontra em jogo a sade e a vida de milhares de trabalhadores, bem como o bem estar de suas famlias. Ao revelar os fatores causais dos acidentes de trabalho nas plataformas de petrleo da Bacia de Campos tendo como referncia comparativa as causas para o desastre de Piper-Alpha, esperamos contribuir para mudar a lgica predominante das investigaes de acidentes de trabalho no pas, particularmente na Bacia de Campos, na qual a vtima sempre culpada at que algum prove o contrrio.</p> <p>2. METODOLOGIA E FONTESNos ltimos anos tem se revelado cada vez mais a ineficincia das abordagens de investigaes de acidentes que, ao atriburem continuamente a responsabilidade aos trabalhadores pelos eventos em que so vtimas, acabam tendo muito mais o papel de manter determinadas estratgias de controle das relaes sociais de trabalho pelas empresas do que um efetivo gerenciamento dos riscos no processo de produo. Quando os prprios trabalhadores acabam sendo, na maioria das vezes, responsabilizados pelos acidentes, sendo considerados culpados at que se prove o contrrio, o resultado inevitvel o desenvolvimento de estratgias de gerenciamento artificial de riscos que contribuem para que os</p> <p>acidentes continuem ocorrendo, ainda que hajam investimentos objetivando maior controle e preveno dos acidentes (Machado et al., 1995). Neste contexto, h uma crescente nfase sobre o contexto social e organizacional no qual os acidentes acontecem, j que tendem a fixar padres de produo inseguros. Nesta perspectiva, a investigao de acidentes um poderoso instrumento para revelar as subjacentes fragilidades da matriz scioorganizacional das empresas em que ocorrem, permitindo vislumbar que, para fazer uma plataforma de petrleo funcionar, por exemplo, um corpo de usos e prticas informais que no se encontravam previstas no projeto tecnolgico podem, ao longo dos anos, crescer e fixar modos de operao inseguros. Nesta perspectiva, os esforos para compreender o que aconteceu de errado e, mais especificamente, para encontrar medidas para a preveno futura, conduzem uma ampla anlise dos aspectos sociais e organizacionais em que so identificados os padres patolgicos que contriburam para o acidente em questo e que podero contribuir para prevenir que acidentes futuros ocorram (Jasanoff, 1994). baseado nestas premissas que este trabalho foi desenvolvido. A metodologia adotada para a anlise baseia-se no pressuposto de ainda que a coincidncia dos eventos finais que resultam no acidente no seja em si mesma controlvel, a falha resultou essencialmente da acumulao de falhas organizacionais. Nesta perspectiva, a anlise de um acidente que vise um aprendizado para prevenir a ocorrncia de futuros eventos envolve, primeiramente, a compreenso dos mltiplos e diferentes fatores que conduziram ao mesmo, tal como realizou Pat-Cornell (1993) na anlise do acidente da Plataforma de Piper Alpha. Isto, obviamente, nos obriga a investigar alm das causas imediatas que contriburam para um acidente e buscar as causas que se encontram subjacentes e concernem aos aspectos gerenciais e organizacionais (Kletz, 1993; Freitas et al., 1997). A metodologia adotada para a anlise dos acidentes nas plataformas de petrleo da Bacia de Campos segue esta tendncia, constituindo-se numa abordagem diferente daquelas que so tradicionalmente utilizadas nas anlises de riscos de estrutras offshore e que tendem a focalizar muito mais a probabilidade de eventos extremos e raros que excedem a capacidade estrutural das plataformas (ICE, 1992). Porm, como observa Pat-Cornell (1993), estas abordagens baseadas no pior cenrio possvel, constituem apenas uma pequena parte dos riscos globais de falhas.</p> <p>A perspectiva deste tipo de anlise de que a reduo de riscos vai alm do puramente tcnico ou do estabelecimento de normas burocrticas de segurana mais estritas. Necessariamente nos obriga ir alm e incluir tambm melhorias organizacionais, como, por exemplo, evitar que decises baseadas apenas na busca de lucros financeiros das estruturas das empresas no provenham incentivos diretos para reduo de pessoal e cortes nas operaes de manuteno do setor de produo a ponto de colocar em risco a vida dos trabalhadores. As fontes utilizadas para este primeiro relatrio so os documentos fornecidos pelo SINDIPETRO-NF ao Programa Estadual de Sade do Trabalhador e ao Ministrio Pblico do Trabalho, constantes do Procedimento Prvio 017/96, sendo estes: relatrios de ocorrncias anormais (ROAs); relatrios de acidentes com leses (RALs); laudos tcnicos da Petrobrs; laudos tcnicos da Capitania dos Portos; atas de reunio da CIPA; comunicados internos; estatsticas de acidentes da empresa; dossi do SINDIPETRO-NF para a Comisso Parlamentar de Inqurito da Assemblia Legislativa do Rio de Janeiro; relatrios de inspeo da Delegacia Regional do Trabalho; relatrios de inspeo da</p> <p>Petrobrs; comunicaes de acidentes de trabalho (CATs).</p> <p>3. PANORAMA GERAL DOS INCIDENTES/ACIDENTES3.1. DISTRIBUIO DOS INCIDENTES/ACIDENTESDe acordo com o Quadro I, no perodo compreendido entre 18/08/95 e 14/04/97, verifica-se a ocorrncia do total de 64 eventos. Destes, 51 corresponderam a acidentes, considerados neste texto como eventos que resultam em conseqncias tais como bitos, leses, efeitos adversos sade ou danos ao meio ambiente e aos equipamentos. Foram considerados incidentes os 10 casos que resultaram em quase-perdas, sem conseqncia sobre a sade, o meio ambiente e os equipamentos. Em 3 casos no haviam informaes que permitissem definir como acidentes ou incidentes. QUADRO I - DISTRIBUIO DOS INCIDENTES/ACIDENTES NAS PLATAFORMAS DE PETRLEO DA BACIA DE CAMPOS ENTRE 18/08/95 E 14/04/97Ocorrncias Trabalhadores lesionados n % n (E/T)(*) % Acidentes 51 79.7 41(**) (10/29) 95 Incidentes 10 15.6 No definidos 3 4.7 Total 64 100 41 100 Observaes : (*) Trabalhadores da Empresa(E)/ Trabalhadores de empresas terceirizadas(T). (**) No foi identificada a empresa dos trabalhadores para o caso de 2 lesionados. Tipo de Incidente/Acidente</p> <p>Conforme pode se verificar no Quadro I, os 51 acidentes ocorridos resultaram em 41 trabalhadores acidentados com leses, com uma mdia de 0.8 trabalhador por acidente. Do total de 41 trabalhadores acidentados com leses, 29, ou seja 71%, eram de empresas prestadoras de servio. Quanto aos demais, 10 eram da prpria empresa e 2 no tiveram a empresa a que pertenciam identificada por falta de dados. O Quadro I, ao revelar que grande nmero dos trabalhadores acidentados pertencem as empresas contratadas, reflete a forma como vem se dando o processo de terceirizao de muitas das atividades operacionais pela maioria das empresas. Este processo tem com principal objetivo a reduo de custos operacionais fixos, de modo a possibilitar a maximizao dos lucros financeiros. A questo central que o modo como vem ocorrendo este processo no pas e na Empresa, contribui para que se ampliem e se agravem os riscos para a sade e a vida dos trabalhadores em geral, atingindo principalmente os das empresas contratadas, os quais, comparados com os trabalhadores diretos das empresas, tendem a receberem no somente menos treinamento e informao de segurana e sade, mas tambm a trabalharem em condies precrias. Dos 10 incidentes a maioria se deu por falhas de equipamentos e queda de gerao de energia. Deve-se frisar que estes incidentes, embora em nmero aparentemente pequeno quando comparados com o total de acidentes, constituem apenas a ponta do iceberg dos riscos que existem atualmente nas plataformas de petrleo da Bacia de Campos. E, neste caso, o baixo nmero destes eventos registrados revelam a pouca ateno para com os mesmos.</p> <p>3.2. CAUSAS DOS INCIDENTES/ACIDENTESDe acordo com a classificao adotada pela empresa, para 88.31 dos 231 acidentes de trabalho registrados entre janeiro e agosto de 1996, mais da metade, ou seja 57.14% (n=132), tiveram como causa bsica atitudes imprprias dos trabalhadores, vindo em seguida, com 13.85% (n=32), os relacionados a falha de projeto. A falha de manuteno correspondeu a apenas 8.23% (n=19). Em sua anlise geral dos acidentes, a empresa considerou que 84.0% (n=195) corresponderam aos denominados atos inseguros, sendo o descuido, com 33.33% (n=77) e o assumir postura insegura, com 22.51% (n=52), os responsveis por mais da metade dos denominados pela empresa atos inseguros, totalizando 55.84%.</p> <p>As formas de classificar as questes traduzem, inevitavelmente, um determinado recorte no modo de identific-las, analis-las e propor estratgias de controle a partir da. No caso em questo, o modo como a empresa classifica os acidentes de trabalho tambm traduz um modo de os identificar, analisar e propor estratgias de controle. O problema que a forma adotada pela empresa alm de ser</p> <p>extremamente limitada ao responsabilizar os trabalhadores pelos prprios acidentes em que so vtimas, no permite que se identifique os verdadeiros fatores causais que se encontram por trs dos acidentes. Restringi-se, e de modo precrio, as causas imediatas, no buscando as subjacentes,</p> <p>particularmente as concernentes ao modo de organizao do trabalho e gerenciamento da produo. Como contraponto e para mostrar os limites e precariedade da abordagem utilizada pela empresa, classificou-se cada um dos incidentes/acidentes, de acordo com o que estava relatado nos prprios documentos que se teve acesso, utilizando-se como referncia inicial o sistema de classificao adotado na Comunidade Europia para os acidentes em indstrias de processo qumicos (Drogaris, 1993) (Quadros II e III) ampliando a anlise multicausal e relacionada diretamente ao processo de trabalho. QUADRO II - CAUSAS IMEDIATAS DOS 64 INCIDENTES/ACIDENTES DE ACORDO COM A CLASSIFICAO ADOTADA PELO MAJOR ACCIDENT REPORTING SYSTEM DAS, COMUNIDADES EUROPIAS PARA INDSTRIAS DE PROCESSOCausas Imediatas Erros do operador Falhas de componentes Nmero de Causas 5(10%) 35 (70%)</p> <p>Corroso Eventos internos no conectados com a instalao</p> <p>8 (16%)</p> <p>2 (4%) Total (1) 50 (100%) Fonte: Material fornecido pelo Sindipetro-NF, 1997. OBS : (1) - O nmero de causas ficou menor que o nmero de acidentes/incidentes devido ao fato de que vrios dos acidentes no tiveram causas atribudas por falta de dados, embora mais de uma causa tenha sido atribuda a outros acidentes.</p> <p>No contexto dessa abordagem podemos notar uma inverso da importncia da falha humana como causa imediata ou bsica. Enquanto estas aparecem em 10% dos casos no tipo de anlise e classificao adotada pela Comunidade Europia, na anlise e classificao adotada pela empresa atingem 87%. Nos mtodos de anlise desenvolvidos a partir de eventos complexos h uma conseqente maior nfase das falhas de componentes estruturais do processo de trabalho, que aparecem em 86% das causas</p> <p>imediatas, somando as corroses s falhas de componentes (Quadro II). Essa inverso operada pelo mtodo mais flagrante ao analisarmos as causas subjacentes no Quadro III, em que aparecem as omisses gerenciais e organizacionais e a inade...</p>