A Sociologia Durkheim

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  • A Sociologia em mile Durkheim

    1. Situao do Autor

    1.1. Marcos sociais

    Na adolescncia, o jovem David mile presenciou uma srie deacontecimentos que marcaram decisivamente todos os franceses em geral e aele prprio em particular: a 1 de setembro de 1870, a derrota de Sedan; a 28de janeiro de 1871, a capitulao diante das tropas alems; de 18 de maro a28 de maio, a insurreio da Comuna de Paris; a 4 de setembro, aproclamao da que ficou conhecida como III Repblica, com a formao dogoverno provisrio de Thiers at a votao da Constituio de 1875 e a eleiodo seu primeiro presidente (Mac-Mahon). Thiers fora encarregado tanto deassinar o tratado de Frankfurt como de reprimir os communards, at liquidao dos ltimos remanescentes no "muro dos federados". Por outro lado,a vida de David mile foi marcada pela disputa franco-alem: em 1871, com aperda de uma parte da Lorena, sua terra natal tornou-se uma cidade fronteiria;com o advento da Primeira Guerra Mundial, ele viu partir para o f frontnumerosos discpulos seus, alguns dos quais no regressaram, inclusive seufilho Andrs, que parecia destinado a seguir a carreira paterna.

    No entretempo, Durkheim assistiu e participou de acontecimentosmarcantes e que se refletem diretamente nas suas obras, ou pelo menos nassuas aulas. O ambiente por vezes assinalado como sendo o vazio moral daIII Repblica2, marcado seja pelas conseqncias diretas da derrota francesae das dvidas humilhantes da guerra, seja por uma srie de medidas de ordempoltica, dentre as quais duas merecem destaque especial, pelo rompimento

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  • com as tradies que elas representam. A primeira e a chamada lei Naquet,que instituiu o divrcio na Frana aps acirrados debates parlamentares, quese prolongaram de 1882 a 84. A segunda representada pela instruo laica,questo levantada na Assemblia em 1879, por Jules Ferry, encarregado deimplantar o novo sistema, como Ministro da Instruo Pblica, em 1882. Foiquando a escola se tornou gratuita para todos, obrigatria dos 6 aos 13 anos,alm de ficar proibido formalmente o ensino da religio.3 O vaziocorrespondente ausncia do ensino de religio na escola pblica tenta-sepreencher com uma pregao patritica representada pela que ficou conhecidacomo instruo moral e cvica.

    Ao mesmo tempo que essas questes polticas e sociais balizavam oseu tempo, uma outra questo de natureza econmica e social no deixava deapresentar continuadas repercusses polticas e o que se denominava questosocial, ou seja, as disputas e conflitos decorrentes da oposio entre o capital eo trabalho, vale dizer, entre patro e empregado, entre burguesia eproletariado. Um marco dessa questo foi a criao, em 1895, daConfdration Gnrale du Travail (CGT). A bipolarizao social preocupavaprofundamente tanto a polticos como a intelectuais da poca, e suaintervenincia no quadro poltico e social do chamado tournant du sicle nodeixava de ser perturbadora.

    Com efeito, apesar dos traumas polticos e sociais que assinalam o incio da IIIRepblica, o final do sculo XIX e comeo do sculo XX correspondem a umacerta sensao de euforia, de progresso e de esperana no futuro. Se bem queos xitos econmicos no fossem de tal ordem que. pudessem fazer esquecera sucesso de crises (1900-01, 1907, 1912-13) e os problemas colocados pelaconcentrao, registrava-se uma srie de inovaes tecnolgicas queprovocavam repercusses imediatas no campo econmico. a era do ao e daeletricidade que se inaugura, junto com o incio do aproveitamento do petrleocomo fonte de energia ao lado da eletricidade que se notabiliza por ser umaenergia limpa, em contraste com a negritude do carvo, cuja era declinava eque, ao lado da telegrafia, marcam o incio do que se convencionou chamar desegunda revoluo industrial, qual seja, a do motor de combusto interna e dodnamo.

    Alm dessas invenes, outras se sucediam. Embora menosimportantes, eram sem dvida mais espetaculares, como o avio, o submarino,o cinema, o automvel, alm das rotativas e do linotipo que tornaram asindstrias do jornal e do livro capazes de produes baratas e de atingir umpblico cada vez maior. Tudo isso refletia um avano da cincia, marcada peloadvento da teoria dos quanta, da relatividade, da radioatividade, da teoriaatmica, alm do progresso em outros setores mais diretamente voltados aplicao, como a das ondas hertzianas, das vitaminas, do bacilo de Koch, dasvacinas de Pasteur etc.

    No pois de se admirar que vigorasse um estilo de vida belle poque,com a Exposio Universal. comemorativa do centenrio da revoluo, seguidada exposio de Paris, simultnea com a inaugurao do mtro em 1900. Oltimo quartel do sculo fora marcado, alm da renovao da literatura, do

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  • teatro e da msica, pelo advento do impressionismo, que tirou a arte pictricados ambientes fechados, dos grandes acontecimentos e das grandespersonalidades da monumentalidade, enfim para se voltar aos grandesespaos abertos, para as cenas e os homens comuns para o cotidiano.

    Porque este homem comum que se v diante dos grandes problemasrepresentados pelo pauperismo, pelo desemprego, pelos grandes fluxosmigratrios. Ele objeto de preocupao do movimento operrio, que inaugura,com a fundao da CGT no Congresso de Limoges, uma nova era dosindicalismo, que usa a greve como instrumento de reivindicao econmica eno mais exclusivamente poltica. certo que algumas conquistas se sucedem,com os primeiros passos do seguro social e da legislao trabalhista,sobretudo na Alemanha de Bismarck.

    Mas se objetivam tambm medidas tendentes a aumentar aprodutividade do trabalho, como o taylorismo (1912). Tambm a Igreja sevolta para o problema, com a encclica Rerum Novarum (1891), de Leo XIII,que difunde a idia de que o proletariado poderia deixar de ser revolucionriona medida em que se tornasse proprietrio. a chamada desproletarizaoque se objetiva, tentada atravs de algumas "solues milagrosas", tais como ocooperativismo, corporativismo,, participao nos lucros etc. Pretende-se, porvrias maneiras, contornar a questo social e eliminar a luta de classes,espantalhos do industrialismo.

    Enfim, estamos diante do esprito moderno. Na cole NormaleSuprieure, o jovem David mile tivera oportunidade de assistir s aulas deBoutroux, que assinala os principais traos caractersticos dessa poca:progresso da cincia (no mais contemplativa, mas agora transformadora darealidade), progresso da democracia (resultante do voto secreto e da crescenteparticipao popular nos negcios pblicos), alm da generalizao eextraordinrio progresso da instruo e do bem-estar. Como corolrio dessestraos, o mestre neokantiano ressalta as correntes de idias derivadas, cujadifuso viria encontrar eco na obra de Durkheim: aspira-se constituio deuma moral realmente cientfica (o progresso moral equiparando-se aoprogresso cientfico); a moral viria a ser considerada como um setor da cinciadas condies das sociedades humanas (a moral ela prpria um fato social) ;a moral se confunde enfim com civilizao o povo mais civilizado o que temmais direitos e o progresso moral consiste no domnio crescente dos povoscuja cultura seja a mais avanada.4

    No pois de se admirar que essa poca viesse tambm a assistir auma nova vaga de colonialismo, no mais o colonialismo da caravela ou dobarco a vapor, mas agora o colonialismo do navio a diesel, da locomotiva, doaeroplano, do automvel e de toda a tecnologia implcita e eficiente, alm dasnovas manifestaes morais e culturais. Enfim, Durkheim foi um homem queassistiu ao advento e expanso do neocapitalismo, ou do capitalismomonopolista. Ele no resistiu aos novos e marcantes acontecimentos polticosrepresentados pela Primeira Guerra Mundial, com o aparecimento simultneotanto do socialismo na Rssia como da nova roupagem do neocapitalismo,representada pelo Welfare State.

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  • 1.2. Durkheim e os homens de seu tempo

    Durkheim nasceu em pinal, Departamento de Vosges, que ficaexatamente entre a Alscia e a Lorena, a 15 de abril de 1858. Morreu em 1917.De famlia judia, seu pai era rabino e ele prprio teve seu perodo demisticismo, tornando-se porm agnstico aps a ida para Paris. Aqui, no LyceLouis-le-Grand (em pleno corao do Quartier Latin, entre a Sorbonne, oCollge de France e a Facult de Droit), preparou-se para o baccalaurat, quelhe permitiu entrar para a cole Normale Suprieure. Bastou-lhe, pois,atravessar a praa do Panthon para atingir a famosa rue dUlm, sem sairportanto do mesmo quartier, para completar sua formao.

    Na Normale vai se encontrar com alguns homens que marcaram suapoca. Entra em 1879 e sai em 1882, portando o ttulo de Agrg dePhilosophie. Ali se tornara amigo ntimo de Jaurs, que obtivera o 1 lugar naclassificao de 1876 e sara em 3 na agrgation de 1881; foi colega deBergson, que entrou igualmente em 1876 em 3 lugar e saiu em 1881 em 2.Dois colegas que se notabilizaram: o primeiro como filsofo, mas sobretudocomo tribuno, lder socialista, que se popularizou como defensor de Dreyfus eacabou por ser assassinado em meio ao clima de tenso poltica s vsperasda deflagrao da guerra em 1914; o segundo, filsofo de maior expresso,adotou uma linha menos participante e muito mstica, apesar de permanecer noindex do Vaticano, e alcanou os pncaros da glria, nas Academias, noCollge de France, na Sociedade das Naes e como Prmio Nobel deLiteratura em 1928.

    Entre esses dois homens to amigos mas to adversos Durkheimpermaneceu no meio-termo e num plano mais discreto. O Diretor da Normal