Alimentos preparados à base da mandioca

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    Revista

    Brasileira de

    Folclore

    I

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    Revista Brasileira de Folclore

    Ano Ili N 5 Janeiro/ Abril 1963

    Ministrio da Educao e Cultura Campa11ha de Defesa cio Folclore Brasileiro

    Biblioteca Digital Curt Nimuendaj http://www.etnolinguistica.org

  • Mrio Ypiranga Monteiro

    Mais fcil seria escrever sbre os ali-mentos preparados base da mandio-ca, reunindo uma poro de receitas mais ou menos conhecidas do vulgo, do ql.l'z atribuir a um trabalho desta natureza certo cunho de pesquisa s-ria que abrisse ao interessado pers-pectiva mais ampla, isto , honesta-mente recordando-lhe que muitas das nossas atuais preocupaes dietticas tm sua razo de ser na histria da nossa prpria cultura maf>zrial.

    Conclui que um trabalho que preten-desse ser mais ou menos completo, necessitaria de pelo menos duas coisas: ampliao da esfera dz conhecimento da influncia da planta quanto ao as-pecto alimentar e movimentao das fontes eruditas de informao, sem o que, penso, o estudo atual perderia muito de suas propriedades intrnsecas. Claro que o nosso selvagizm no pode ser responsabilizado pela numerosa variedade de comidas em que a man-dioca (amarga e doce) toma parte como alimento bsico. Algumas so de origem mais recente, constituindo evi-dt~ntemente complexos. O que no se pode negar, com fundamento na his-tria da agricultura ou da economia brasileiras, que a mandioca era uma planta conhecida e utilizada tanto

    Alimentos preparados

    base da mandioca

    Prmio Slvio Romero 1962

    pelos americanos na Amrica como pelos africanos na frica antes do en-trevro de Colombo, 11a forma mais comum e necessria da farinha, que constitua a subsistncia primria. nos dois continenlzs e possivelmente em ilhas mais distantes do Pacfico. Ela seria to necessria que o govrno portugus chegou a pagar funcionrios e trabalhadores com alqueires de fa-rinha e peixe sco, ao tempo da colo-nizao e do primeiro imprio.

    Perspectiva histrica

    A utilidade da mandioca no foi ap~nas assegurada pelo nome cientfico Manihot utilissima Pohl., depois que o enftico Pedro Martyr de Angleria di-vulgou-a pelo mundo. E antes uma con-seqncia natural das informaes passageiras de Cristvo Colombo (Viajes, 1922), de Amrico Vespcio (Viajes, 1922) z dos comentrios ajui-zados dos cronistas posteriores. Mandioca, mandiog, manioc, mani, maniva, mandiba, juca (Haiti), ica 1, Clr>zobe, quicharapo, quichere (raiz), sem falar nos vrios dialetos corren-tes na Amrica, so outras tantas designaes que ocorrem em milha-res de pginas, a partir de 1492, e

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    AnotacaoRBF021

  • .;nvolvem vrias espcies como a macaxeira ou aipim, denominados mandioca doce. Todavia, no pos-svel deixar de reconhecer que a mesma planta j devia de ser conhe-cida dos europeus antes de 1492, atravs informaes vagas de mari-nh3iros egressos da frica ou da sia. L se produzia a chamada fa rinha de pau 2, a que se referem alguns cronistas antigos e explorado-res mais r3centes, Com especial men-o Stanley ( Viaggi, 1880 e Attra-verso il Continente Nero, 1880), ad-quirida aos negros por troca. Com respeito ao Brasil as informaes mais sedutoras que se conhecem so as de Pero Magalhes Gandavo (Histria, 1576), Gabriel Soares d3 Sousa (Tra-tado, 1587), Ferno Cardim (Trata-dos, 1591) , Ambrsio Ferandes Brando (Dilogos, 1518/1618) para s referirmos aqui stes. Todavia ou-tros autores menos prolixos e talvez menos observadores, ou cientistas, se preocuparam aqui e ali com o alimen-to bsico dos povos indgenas; m.;sser Pigafetta ( Primer Viaje, 1519), Pedro de Cieza de len (Crnica, 1553 J, Jean de lry (Viagem, 1556), Andr Thevet ( Frana Antrtica, 1558), Hans Staden (Meu Cativeiro, 1557), Anthony Knivet ( Vritt Fortuna, 1591), padre Cristvo de Acua ( Nuevo Descubrimien~o, 1647 J, todos

    de reputao firmado e de ampla di-vulgao no Brasil. Entretanto, praz-nos transcrever aqui a douta opinio do doutor Alexandre Rodrigues Ferrei ra (Viagem Filosfica, 1785), porque le, mais do que ningum, foi um cientista devotado ao problema da cultura amaznica e nacional: Sando a farinha de mandioca o po usual em quase todo o Brasil, por ela que devo principiar, visto que sem ela, em razo de po, se no pode empreen-

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    - -- - - ----- -- -- - --:-A mandioca (Manihot utilissima Pohl.) vista em dois planos.

    der, nem esperar outra alguma con-vi~nincio, nem no passadio dos lavra-dores e dos suas famlias, e dos ndios que les tm soldada, nem nos la-vouras dos gneros, nem na colheita dos do serto. Os ndios porm nas ocasies das fomes, e quando andam desertados, suprem a falta dela, com alguns frutos ou mansos ou silvestres, comendo uns do mesmo modo qll'~

    ' todos ns comemos os nossos pomos, e bebendo a substncia de outros de-pois de desfeitos em gua fria ou quente, sem desperdiarem os caroos porque tambm os consomem assa-dos. (Op. cit., 111 /14) No seria possYal referirmos aqui to-dos os longos ou breves comentrios,

  • ou simples referncias, que se fizeram ano aps ano sbre as excelncias da mandioca em ser e dos seus de-rivados. Mas insistamos em que Ga-briel Soa1~s de Sousa e Ferno Cai-dim fcran1 alm da simpies refern-cia nominal, excedendo-se e alcan-ando a verdadeira posio de l1is-toriadores dos costumes do povo. Por isso seus tratados 3 constituem revo-lucionrios processos de tcnica infor-mativa para a poca. O primeiro d-les to ,_;xcedente quando discorre sbre a mandioca quanto o alemo Staden o concretivamente. So oito pginas apenas, refertas de notici-rio que pelo sabor de atualidade de-monstra a ndole propensa ao deta-lhe, o esprito informativo ..: metdi-co amparados pelo conhecimento e experincia. Neste particular tanto Gabriel Soares de Sousa como Ferno Cordim devem de ser considerados entre os pioneiros da antropologia cultural brasileira, como disse o co-mentarista do primeiro. Sobretudo mais especulador, quando discorre acrca do tubrculo: >. ( p. 189). / . ( pp. 189 /90) Falando do carim diz le que quan-do doentes os ndios fazem do . { p. 193) 10 Logo mais, no captulo XLII fala na farinha de guerra, mas no nos pe3 de guerra: Desta farinha de gv~rra usam os portuguses que no tm roas, e os que esto fora delas na cidade, com que sustentam seus criados e escravos, e nos enge-nhos se provem dela para susten-tarem a gente -.:m tempo de neces-sidade, e os navios, que vm do Bra-sil para stes reinos, no tm outro remdio de matalotagem, para se sustentar a gente at Portugal, se-no o da farinha de guerra; e um alqueire C.:.:-la da medido da Bahia, que tem dois de Portugal, se d de regra a cada homem para um ms, a qual farinha de guerra muito sa-dia e desenfastiada, e molhada no caldo da carr.J ou do peixe fica bran-da e to saborosa como cuscus. / Desta carim e p dela bem penei rodo fazem os portuguses muito bom po, e bolos amassados com leite e gema de ovos, desta mesma massa fo-

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  • zem mil invenes de l:.~ilhsl 1, mais saborosos que de farinha de trigo, com os mesmos materiais, e pelas fes-tas fazem as frutas doces com a mossa desta carim, em lugar da farinha de trigo, e se a que vai Bahia do rei-no no muito alva ' fresca, querem as mulheres antes a farinha de cori-m, que alvssima e lavra-se melhor, com a qual fazem tudo mu.ito primo. (p. 195) No capitulo XLIII declara a qualidade dos aipins:
  • flha da maniua ou manioba, que fornec.e o prato do mesmo 1nome. Nem todos os cronistas cP~ quatro-centos sessenta e dois anos tiveram oportunidade de conhecer os deriva-dos dsse tubrculo de fama univer-sal, cuja rea de cultura se estende do Mxico Argentina, pela frica e ilhas do Pac:fico. Poderamos abrir praa para o nmero considervel dos que no s referiram o alimento co-mo o experimentaram em vrias opor-tunidades e circunstncias ou depen-deram dle. Dizia por exzmplo Hans Staden, lastimando-se da confinao sofrida entre os Tupinambs: ( p. 132). Defronte minha cabana fica-va a do morubixaba Tatamiri (fogui-nho). este chefe deu uma ftzsta; man-dou preparar o cauim, como era c-0s-tume, e forneceu o assado: a carne de Jorge Ferreira, filho do capito portu-gus. Os convidados beberam, come-ram e cantaram numa grande alegria. No dia r.izguinte requentaram de nvo o resto do moqum e repetiram o ban-quete. ;' A carne de Jernimo ficou por mais de trs semanas em uma cesta, pen.durada ao fumeiro da minha cabana; estava to sca que parecia pau. O dono dela, Paragu, tinha sado etn busca de razes de mandio-ca para preparar a bebida. Isso re-tardou minha ida para o navio, pois os selvagens no queriam sair antes da fest
  • tituem a nossa perspectiva histrica. Tratando das ervas que do fruto e se comem diz. le com muito juz.o ser a mandioca 20. Da farinha de guerra dis-se . (idem). No se esque c:i.,.;u dos mingaus,
  • tomam-na com os quatro dedos na va-silha de barro ou em qualquer outro recipiente e a atiram, m1~smo de lon-ge, com tal destreza na bca que no perdem um s farelo. E se ns fran-ceses os quisssemos imitar, no es-tando como les acostumados suia

    ' ramos todo o rosto, ventas, boche chas e barbas25. ( p. 114) /

  • diferentes, recolhendo nao smente material valioso para a cincia mas tambm subsdios para a futura etno-grafia e antropologia cultural. Tome mos para exemplo SaintHilaire (Voya. ge au Brsil, li: 311): . Em nota remissiva na pg