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UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE PRÓ-REITORIA DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA NÚCLEO DE PÓS-GRADUAÇÃO EM DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE ÁREA DE CONCENTRAÇÃO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE RESÍDUOS SÓLIDOS DA CONSTRUÇÃO CIVIL E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: MODELO DE SISTEMA DE GESTÃO PARA ARACAJU Autor: Emerson Meireles de Carvalho Orientador: Prof. Dr. José Daltro Filho JANEIRO - 2008 São Cristóvão – Sergipe Brasil

Emerson Meireles de Carvalho

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  • UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

    PR-REITORIA DE PS-GRADUAO E PESQUISA

    NCLEO DE PS-GRADUAO EM

    DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    REA DE CONCENTRAO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL

    PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    RESDUOS SLIDOS DA CONSTRUO CIVIL E

    DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL: MODELO

    DE SISTEMA DE GESTO PARA ARACAJU

    Autor: Emerson Meireles de Carvalho

    Orientador: Prof. Dr. Jos Daltro Filho

    JANEIRO - 2008

    So Cristvo Sergipe

    Brasil

  • ii

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

    PR-REITORIA DE PS-GRADUAO E PESQUISA

    NCLEO DE PS-GRADUAO EM

    DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    REA DE CONCENTRAO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL

    PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    RESDUOS SLIDOS DA CONSTRUO CIVIL E

    DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL: MODELO

    DE SISTEMA DE GESTO PARA ARACAJU

    Dissertao de Mestrado apresentada ao Ncleo de Ps-Graduao

    em Desenvolvimento e Meio Ambiente da Universidade Federal de

    Sergipe, como parte dos requisitos exigidos para a obteno do

    ttulo de Mestre em Desenvolvimento e Meio Ambiente.

    Autor: Emerson Meireles de Carvalho

    Orientador: Prof. Dr. Jos Daltro Filho

    JANEIRO - 2008

    So Cristvo Sergipe

    Brasil

  • iii

    FICHA CATALOGRFICA ELABORADA PELA BIBLIOTECA CENTRAL UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

    C331r

    Carvalho, Emerson Meireles de Resduos slidos da construo civil e desenvolvimento sustentvel: modelo de sistema de gesto para Aracaju / Emerson Meireles de Carvalho. So Cristvo, 2008.

    xxi, 183 f. : il.

    Dissertao (Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente) Ncleo de Ps-Graduao em Desenvolvimento e Meio Ambiente, Pr-Reitoria de Ps-Graduao e Pesquisa, Universidade Federal de Sergipe, 2008.

    Orientador: Prof. Dr. Jos Daltro Filho.

    1. Meio ambiente Desenvolvimento sustentvel

    Aracaju / Se. 2. Construo civil Resduos slidos Lixo urbano. 3. Urbanizao - Ecologia. 4. Lixo de via pblica. I. Ttulo.

    CDU 504.05: 628.4.033:69(813.7Aracaju)

    BIBLIOTECRIA / DOCUMENTALISTA: NELMA CARVALHO 5/151

  • iv

    UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE

    PR-REITORIA DE PS-GRADUAO E PESQUISA

    NCLEO DE PS-GRADUAO EM

    DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    REA DE CONCENTRAO: DESENVOLVIMENTO REGIONAL

    PROGRAMA REGIONAL DE DESENVOLVIMENTO E MEIO AMBIENTE

    RESDUOS SLIDOS DA CONSTRUO CIVIL E DESENVOLVIMENTO

    SUSTENTVEL: MODELO DE SISTEMA DE GESTO PARA ARACAJU

    Dissertao de Mestrado defendida por Emerson Meireles de Carvalho e aprovada em 24

    de janeiro de 2008 pela banca examinadora constituda pelos professores:

    _____________________________________________

    Prof. Dr. Jos Daltro Filho Orientador

    Universidade Federal de Sergipe

    ________________________________________________

    Prof Dr Maria Augusta Mundin Vargas membro interno

    Universidade Federal de Sergipe

    _____________________________________________

    Prof Dr Nlia Henriques Callado membro externo

    Universidade Federal de Alagoas

  • v

    Este exemplar corresponde verso final da Dissertao de Mestrado em Desenvolvimento

    e Meio Ambiente

    _____________________________________________

    Prof. Dr. Jos Daltro Filho Orientador

    Universidade Federal de Sergipe

  • vi

    concedido ao Ncleo responsvel pelo Mestrado em Desenvolvimento e Meio Ambiente

    da Universidade Federal de Sergipe permisso para disponibilizar, reproduzir cpias desta

    dissertao e emprestar ou vender tais cpias.

    _____________________________________________

    Emerson Meireles de Carvalho Autor

    Universidade Federal de Sergipe

    _____________________________________________

    Prof. Dr. Jos Daltro Filho Orientador

    Universidade Federal de Sergipe

  • vii

    Este trabalho dedicado aos meus pais Paulo (in

    memorian) e Jacy, pelo incentivo e, sobretudo,

    pelos valores que me ensinaram a cultivar por meio

    de suas prticas cotidianas.

  • viii

    AGRADECIMENTOS

    Um trabalho desta natureza demanda um grande esforo pessoal. Seria um trabalho

    solitrio, no contasse com a participao de tantas pessoas s quais tenho verdadeiro

    prazer em agradecer.

    s foras universais do bem, que me apoiaram e me guiaram sobretudo nos momentos

    duros, os quais hoje percebo so inerentes a uma tarefa desta grandeza e que fazem a sua

    conquista mais valorosa.

    Aos queridos Patrcia, Ricardo e Paulo, pela compreenso nas ausncias e, principalmente,

    pelo imenso amor que demonstram ter por mim, e que sempre me esforo para retribuir.

    Vocs representam o que h de melhor em meu mundo.

    Ao Prof. Dr. Jos Daltro Filho, profissional cuja dedicao e competncia o fazem um

    exemplo de educador mais do que professor, pela confiana que depositou em mim e pela

    seriedade com que conduziu a orientao.

    Ao arquiteto Tarcsio de Paula Pinto, pelo estmulo para que eu fizesse este estudo e pelas

    informaes prestadas a cerca da situao da gesto de RCD em diversos municpios

    brasileiros.

    Aos professores do PRODEMA e aos colegas da turma de 2006 pelas mudanas que

    provocaram na minha maneira de pensar por meio das nossas discusses e vivncias.

    Aos engenheiros Gustavo Lima e Augusto Wolf, da CAIXA, Paulo Roberto Costa e

    Adroaldo Campos, da EMURB, e ao economista Paulo Freire de Carvalho Filho, da

    DEHOP, pelas informaes sobre a produo habitacional em Aracaju.

    Ao Diretor de Controle Operacional da EMSURB, engenheiro Gilson Barbosa Ramos, ao

    seu Gerente de Limpeza Urbana, Sr. Jos Roberto Gomes do Carmo, ao Coordenador de

    Resduos Slidos desta empresa, Sr. Jos Rinaldo de Souza e ao Sr. Jos Carlos da Silva ,

    funcionrio do setor de medio da Gerncia de Limpeza Urbana, pela imensa boa vontade

  • ix

    com que me receberam para discutir sobre a gesto de RCD em Aracaju e pelas

    informaes prestadas sobre as caixas de coleta, volumes coletados e custos. Agradeo

    tambm engenheira e Prof MSc Leonilde Gomes da Silva Agra, assessora tcnica da

    EMSURB, pelas relevantes informaes sobre os carroceiros.

    A Marly Menezes Santos, Diretora do Departamento de Sistemas de Gesto Ambiental e

    Brgida Maria dos Santos, engenheira da ADEMA, pelas informaes sobre atuao deste

    rgo e a situao das jazidas de minerao da Grande Aracaju.

    Diretora de Planejamento da EMURB, engenheira Anete Hermnia Oliveira Pereira,

    pelas relevantes informaes sobre o licenciamento de construes em Aracaju e interface

    com a gesto de RCD, bem como ao analista de suporte do Departamento de Informtica

    desta mesma empresa, Jean Carlos de Lima Silva, pelas informaes relativas s

    construes licenciadas. Agradeo tambm ao engenheiro Sandoval Romo Batista pelas

    informaes sobre o consumo de agregados utilizados pela usina da EMURB.

    Aos engenheiros Carlos Henrique de Carvalho e Carlos Alberto Sales Herculano, pelas

    informaes dadas a respeito das reas utilizadas, desde a dcada de 1970, para extrao de

    areia e material argiloso em Aracaju.

    Aos empresrios da construo civil e engenheiros Luciano Franco Barreto, Presidente da

    ASEOPP, e Paulo Vincius Andrade, Vice-presidente de Tecnologia do SINDUSCON, por

    partilharem comigo a viso do setor sobre a gesto de RCD em Aracaju e pelas sugestes

    dadas.

    Ao empresrio Ricardo Augusto Brando, proprietrio da empresa de coleta e transporte

    Eco Recycle, pelas informaes sobre o transporte de RCD na cidade e pela fecunda troca

    de idias sobre o setor.

    Aos diversos partcipes das gestes municipais de RCD encontrados (funcionrios das

    Prefeituras de Belo Horizonte, So Paulo e Aracaju, carroceiros, catadores, dentre outros),

    que no se furtaram em partilhar seus pontos de vista sobre a questo de estudo e que tm

  • x

    muito a contribuir para a efetivao de qualquer que seja a soluo proposta, razo pela

    qual devem ser ouvidos sempre.

    A Jacy Carvalho e Corina Figueiredo, pela contribuio na reviso do texto.

    Aos meus familiares, amigos e colegas de trabalho da M&C Engenharia, pelo incentivo

    constante e pela compreenso pelas faltas no perodo em que permaneci dedicado a este

    objetivo.

    Por fim, agradeo aos autores nos quais me apoiei para desenvolver meu conhecimento,

    estejam eles citados neste trabalho ou no. Espero ter podido entend-los adequadamente e

    ter dado continuidade e aplicao s suas idias de maneira adequada e construtiva.

  • xi

    RESUMO

    O grande volume de resduos originrios das atividades de construo e demolio,

    dispostos de forma irregular nas cidades brasileiras, representa um relevante aspecto de

    uma crise ambiental urbana que parte de uma crise ambiental mais ampla, cujas origens

    encontram-se nas relaes sociais e no modo de produo capitalista, intensivo no

    consumo de recursos naturais, e promotor da desigualdade social. O modelo de gesto dos

    resduos de construo e demolio - RCD, adotado na maioria das cidades brasileiras,

    tem-se caracterizado pela correo da destinao inadequada, em que pese haver legislao

    especfica que regulamenta as atividades de coleta, transporte e destinao, cujo

    fundamento a no gerao de resduos, seguida da reutilizao e da reciclagem, e

    finalmente, da destinao adequada. O objetivo deste trabalho propor um modelo de

    gesto de RCD que atenda legislao e seja capaz de contribuir para o desenvolvimento

    sustentvel de Aracaju. Para alcan-lo, foi feito um levantamento bibliogrfico para se

    conhecer as prticas atuais e alternativas possveis na gesto de RCD no Brasil e em outros

    pases, e tambm um levantamento da urbanizao de Aracaju com especial nfase no

    desenvolvimento e caractersticas na construo civil na cidade. Com o intuito de se

    conhecer as caractersticas do atual sistema municipal de gesto de RCD da cidade, foram

    feitas entrevistas com os envolvidos no sistema (geradores, transportadores e funcionrios

    pblicos) e efetuada uma pesquisa de campo que revelou importantes caractersticas da

    ao dos geradores e transportadores. Como resultado, props-se um sistema que,

    embasado no instrumento legal regulador, incorpora as dimenses da sustentabilidade e

    privilegia a participao dos atores sociais envolvidos.

    Palavras-chave: construo civil; sistemas de gesto; resduos slidos; desenvolvimento sustentvel; Aracaju

  • xii

    ABSTRACT

    The great amount of residues originated from construction and demolition activities spread

    out on irregular basis all over the brazilian cities, represents a relevant aspect of an urban

    environmental crisis, which is part of a larger environmental crisis, as its origin is found on

    the social relations and the capitalist production way, very intense in consuming natural

    resources and promoting social differences. The actual model of construction and

    demolition residues management practice, adopted in the major brazilian cities, has been

    characterized by the correction of the inadequate destination, althought there is specific

    law to regulate the collect, transport and destination activities, based on not to create

    residues, followed by re-use and recycling and, finally, the adequate destination. The main

    idea of this thesis is to propose a new model of residues management, based on laws and

    on the meanwhile be able to contribute to the sustainable development of Aracaju. To aim

    it a bibliographic study was made, in order to get to know the actual practices and possible

    alternatives for the construction and demolition residues management in Brazil, as well as

    in other countries, and also a study of the Aracajus urbanization process, focused on the

    development and characteristics of the civil construction in the city. To achieve the

    objective of being familiar with the characteristics of the actual municipal construction and

    demolition residues management systems in Aracaju, not only many interviews with the

    people involved (constructors, transporters and civil servants) were made but also a local

    research that has revealed important characteristics of their action. As a result, a new

    residues management system was presented, based both on a legal instrument and

    sustainable development, and also taking into the consideration the importance of the

    social actors involved.

    Key-words: civil construction; solid residues and waste; sustainable development; Aracaju

  • xiii

    SUMRIO

    Pgina

    NOMENCLATURA xvi

    LISTA DE FIGURAS xviii

    LISTA DE TABELAS xx

    LISTA DE QUADROS xxi

    CAPTULO 1 - INTRODUO 01

    CAPTULO 2 - OBJETIVOS 06

    CAPTULO 3 - A CRISE AMBIENTAL E O DESPERTAR PARA A

    CONSCINCIA ECOLGICA

    08

    3.1. PERCEPO DA CRISE AMBIENTAL 09

    3.2. ORIGENS DA CRISE AMBIENTAL URBANA E A RELAO

    HOMEM-NATUREZA

    12

    3.2.1. Relao homem-natureza e relaes sociais 12

    3.2.2. Capitalismo, Revoluo Industrial e a crise ambiental 17

    3.3. CONTRIBUIO DA CINCIA PARA A CRISE AMBIENTAL

    URBANA

    20

    3.3.1. O caminho do pensamento cientfico 20

    3.3.2. A relao cincia-capitalismo e suas conseqncias ambientais 22

    3.4. CONCEITOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL 26

    CAPTULO 4 - DESENVOLVIMENTO URBANO E A

    CONTRIBUIO DA CONSTRUO CIVIL PARA A CRISE

    AMBIENTAL URBANA

    31

    4.1. O PROCESSO DE URBANIZAO 32

    4.1.1. A urbanizao no Brasil 34

    4.2. DESENVOLVIMENTO URBANO: POLUIO E DEGRADAO 36

    4.3. CONTRIBUIO DA CONSTRUO CIVIL PARA A CRISE

    AMBIENTAL URBANA

    38

  • xiv

    4.3.1. Macrosetor da construo civil no Brasil e cadeia produtiva da

    construo civil em Sergipe

    38

    4.3.2. Impactos ambientais decorrentes das atividades de construo

    civil

    40

    4.3.3. O padro tecnolgico da construo civil e a gerao de

    resduos

    41

    CAPTULO 5 - GESTO DE RCD: PRTICAS ATUAIS E ESTUDO DE

    UM MODELO DE SISTEMA DE GESTO PROPOSTO PARA OS

    MUNICPIOS BRASILEIROS

    45

    5.1. LEGISLAO AMBIENTAL URBANA DA CONSTRUO

    CIVIL

    46

    5.1.1. A Resoluo CONAMA N 307/2002 51

    5.1.2. Normas da ABNT referentes gesto de RCD 55

    5.2. GESTO DE RCD: PRTICAS ATUAIS 57

    5.2.1. Coleta, transporte e destinao temporria 58

    5.2.2. Reciclagem de RCD 62

    5.2.3. Modelo de sistema de gesto de RCD: fundamentos e

    alternativas

    64

    5.3. CARACTERSTICAS DE UM SISTEMA MUNICIPAL DE

    GESTO DE RCD

    74

    5.3.1. Soluo proposta para grandes geradores 76

    5.3.2. Soluo proposta para pequenos geradores 77

    CAPTULO 6 - METODOLOGIA 81

    CAPTULO 7 - CARACTERIZAO DA REA DE ESTUDO:

    PROCESSO DE URBANIZAO, EVOLUO DA

    CONSTRUOCIVIL E SISTEMA ATUAL DE GESTO DE RCD DE

    ARACAJU

    88

    7.1. O PROCESSO DA URBANIZAO DE ARACAJU 89

    7.1.1. Caractersticas gerais e origem da cidade 89

    7.1.2. A expanso urbana e a metropolizao 92

  • xv

    7.1.3. A verticalizao da cidade 102

    7.2. CONSTRUO CIVIL EM ARACAJU: ORIGEM E EVOLUO 103

    7.2.1. Histrico e situao atual 103

    7.2.2. Danos ao meio ambiente 106

    7.3. SITUAO ATUAL DA GESTO DE RCD EM ARACAJU 111

    7.3.1. Aspectos legais 111

    7.3.2. Aspectos operacionais 114

    7.3.3. Aspectos econmicos 135

    CAPTULO 8 - PROPOSTA DE MODELO DE GESTO DE RCD

    PARA ARACAJU: CIDADE LIMPA

    138

    8.1. CARACTERSTICAS DO MODELO PARA ARACAJU 139

    8.2. ASPECTOS OPERACIONAIS 140

    8.2.1. Soluo para pequenos geradores 142

    8.2.2. Soluo para grandes geradores 147

    8.3. ASPECTOS LEGAIS 151

    8.4. DIMENSES ECONMICA E ESPACIAL 152

    8.5. DIMENSES SOCIAL E CULTURAL 156

    8.6. DIMENSO ECOLGICA 158

    CAPTULO 9 - CONCLUSES E RECOMENDAES 160

    REFERNCIAS BIBLIOGRFICAS 166

    ANEXOS 177

    Anexo A reas licenciadas em Aracaju em 2005 e 2006, por bairro 178

    Anexo B Distribuio das caixas coletoras de empresas tipo disque-

    entulho, por bairro

    180

    Anexo C Relao de locais escolhidos para instalao dos Ecopontos 182

  • xvi

    NOMENCLATURA

    Siglas

    ABNT Associao Brasileira de Normas Tcnicas

    ADEMA Administrao Estadual do Meio Ambiente

    ADEMI Associao dos Dirigentes de Empresas do Mercado Imobilirio

    ASEOPP Associao Sergipana dos Empresrios de Obras Pblicas e Privadas

    BNH Banco Nacional da Habitao

    CAIXA Caixa Econmica Federal

    CONAMA Conselho Nacional de Meio Ambiente

    CNUMAD Conferncia das Naes Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente

    DEHOP-SE Departamento Estadual de Habitao e Obras Pblicas de Sergipe

    EIA Estudo de Impacto Ambiental

    EMURB Empresa Municipal de Urbanizao

    EMSETUR Empresa Sergipana de Turismo

    EMSURB Empresa Municipal de Servios Urbanos

    FAT Fundo de Amparo ao Trabalhador

    FGTS Fundo de Garantia por Tempo de Servio

    FIES Federao das Indstrias do Estado de Sergipe

    IEL Instituto Euvaldo Lodi

    IGBE Instituto Brasileiro de Geografia e Estatstica

    INFRAERO Empresa Brasileira de Infra-estrututa Porturia

    INOCOOP Instituto Nacional de Orientao s Cooperativas Habitacionais

    ISO International Organization for Standardization

    ONG Organizao No Governamental

    PAC Programa de Acelerao do Crescimento

    PAR Programa de Arrendamento Residencial

    PEV Ponto de Entrega Vluntria

    PIB Produto Interno Bruto

    PIGRCC Plano Integrado de Gerenciamento de Resduos da Construo Civil

  • xvii

    PGRCC Projeto de Gerenciamento de Resduos da Construo Civil

    PMA Prefeitura Municipal de Aracaju

    PMGRCC Programa Municipal de Gerenciamento de Resduos da Construo Civil

    RCD Resduos de Construo e Demolio

    RIMA Relatrio de Impacto Ambiental

    SEBRAE Servio Brasileiro de Apoio s Micro e Pequenas Empresas

    SENAI Servio Nacional de Aprendizagem Industrial

    SFH Sistema Financeiro da Habitao

    SINDUSCON Sindicato da Indstria da Construo Civil

    URPV Unidade de Recebimento de Pequenos Volumes

    ZERI Zero Emission Research Initiative

  • xviii

    LISTA DE FIGURAS

    Nmero Ttulo Pgina

    5.1 Modelo sinttico do sistema de gesto de RCD 52

    5.2 Coexistncia de RCD, lixo domiciliar e resduo volumoso em local de descarte clandestino no bairro Salgado Filho em Aracaju

    60

    5.3 Placa de identificao e entrada URPV Baro, Belo Horizonte 70

    5.4 Vista geral URPV Baro, Belo Horizonte 70

    5.5 Recipientes para disposio de RCD e volumosos URPV Baro, Belo Horizonte

    70

    5.6 Recipientes para disposio de resduos de coleta seletiva domiciliar URPV Baro, Belo Horizonte

    71

    5.7 Setor administrativo - URPV Baro, Belo Horizonte 71

    5.8 rea de apoio aos carroceiros e cocho para cavalos - URPV Baro, Belo Horizonte

    71

    5.9 Ponto de Entrega Voluntria em Guarulhos-SP 73

    5.10 Modelo bsico de Ecoponto 78

    7.1 rea de antiga explorao de material argiloso no bairro Jabotiana (prximo ao conjunto Sol Nascente)

    108

    7.2 rea de antiga explorao de areia no bairro Jabotiana (prximo ao conjunto Santa Lcia)

    108

    7.3 rea de antiga explorao de material argiloso no bairro Jabotiana (vizinho ao conjunto Orlando Dantas)

    109

    7.4 Jazida de material argiloso na regio do bairro Santa Maria (prximo entrada do Aterro Terra Dura)

    109

    7.5 Jazida de areia na regio do bairro Santa Maria (prximo estrada do Aterro Terra Dura)

    110

    7.6 Distribuio das reas licenciadas por bairro nos anos de 2005 e 2006 em Aracaju

    117

    7.7 Ao corretiva do poder pblico municipal 121

    7.8 Modelos de caixas de coleta utilizadas pela EMSURB 121

    7.9 Localizao das caixas coletoras da EMSURB em Aracaju 124

    7.10 Exemplo de caixa coletora privada de RCD 124

    7.11 Localizao das caixas coletoras das empresas privadas, em Aracaju

    125

    7.12 Equipamentos de coleta e transporte de RCD 126

    7.13 Utilizao de veculos a trao animal 127

  • xix

    7.14 Bota-fora no bairro Capucho 132

    7.15 Bota-fora no bairro Jabotiana 133

    7.16 Bota-fora no bairro Santa Maria 133

    7.17 Bota-fora no bairro Farolndia 134

    8.1 Representao esquemtica do fluxo de RCD para o modelo Cidade Limpa

    140

    8.2 Lay-out bsico de Ecoponto com 500,00 m 142

    8.3 Localizao dos Ecopontos 144

    8.4 Recibo de entrega de resduo 146

    8.5 Localizao da rea escolhida para implantao da recicladora e/ou aterro de RCD

    149

    8.6 Vista interna da rea escolhida para implantao da recicladora e/ou aterro de RCD

    150

  • xx

    LISTA DE TABELAS

    Nmero Ttulo Pgina

    4.1 Populao brasileira rural e urbana 34

    7.1 Evoluo da populao de Aracaju 95

    7.2 Evoluo da populao de Aracaju, Barra dos Coqueiros, Nossa Senhora do Socorro e So Cristvo

    96

    7.3 Produo habitacional pela COHAB-SE / CEHOP / DEHOP na Grande Aracaju perodo 1968-2006

    98

    7.4 Produo habitacional pelo PAR na Grande Aracaju no perodo 2002-2007

    100

    7.5 Produo habitacional financiada pelo programa Carta de Crdito Associativo na Grande Aracaju no perodo 2004-2007

    101

    7.6 reas licenciadas para construo no perodo 2003-2006 em Aracaju

    116

    7.7 Evoluo do nmero de unidades produzidas pelos programas PAR e Carta de Crdito Associativo no perodo 2003 a 2006 em Aracaju

    116

    7.8 Resumo de volumes de resduos coletados e gastos pblicos municipais com servios de remoo de entulho

    120

    7.9 Distribuio das caixas coletoras privadas (por empresa) em Aracaju

    125

    7.10 Utilizao e custo anual com aquisio de agregados pela EMURB 137

    8.1 Custo estimado para implantao de Ecoponto 153

    8.2 Custo estimado mensal para operao de Ecoponto 154

  • xxi

    LISTA DE QUADROS

    Nmero Ttulo Pgina

    3.1 Concepes distintas da natureza 13

    5.1 Princpios jurdicos para controle ambiental 48

    5.2 Classificao de resduos slidos segundo a Norma NBR 10004 54

    5.3 Classificao de RCD segundo a Resoluo CONAMA N 307/2002

    54

    5.4 Destinao de RCD segundo a Resoluo CONAMA N 307/2002 55

    7.1 Situao de Aracaju com relao aos prazos definidos pela Resoluo CONAMA N 307/2002

    113

    7.2 Caracterizao dos agentes de coleta de RCD em Aracaju 130

    7.3 Resumo da destinao de RCD em Aracaju 134

    8.1 Dispositivos para recebimento de resduos nos Ecopontos 145

  • CAPTULO 1

    INTRODUO

  • Captulo 1 Introduo 2

    1. INTRODUO

    A observao do cotidiano de Aracaju tem mostrado a ocorrncia de um fenmeno

    que tambm se repete em outras cidades, que vem a ser o acmulo de resduos de

    construo e demolio RCD dispostos de maneira irregular, invadindo os espaos

    urbanos pblicos e privados, e degradando a qualidade ambiental da cidade.

    Ainda que estes resduos possam ser classificados como, em sua maioria, inertes

    (ABNT, 2004a), o impacto causado pelo seu volume sobre a cidade leva a refletir sobre

    algumas questes relevantes.

    A primeira saber quanto se gera de RCD em Aracaju, questo cuja resposta foi

    dada por Daltro Filho et al. (2005), que levantaram uma gerao aparente de cerca de 505

    t/dia. Saliente-se que esta quantidade representa 65% do total da produo de resduos

    slidos urbanos do municpio, sendo, portanto, superior ao resduo domiciliar,

    ordinariamente centro das maiores preocupaes na questo de resduos slidos urbanos.

    A segunda questo relevante diz respeito ao local onde so colocados estes

    resduos. Facilmente percebe-se que a sua disposio feita de maneira aleatria sem o

    devido cuidado com a preservao dos espaos urbanos, o que tem obrigado Empresa

    Municipal de Servios Urbanos EMSURB a despender grande soma de recursos para

    corrigir esta disposio irregular, uma vez que apenas 5% do total de RCD gerados

    diariamente so destinados ao Aterro Terra Dura, local determinado pela EMSURB como

    destino final destes resduos.

    A terceira questo trata da fonte de gerao dos RCD, onde se percebe uma grande

    distino dos diferentes papis desempenhados pelos grandes geradores (construtoras que

    atuam na chamada construo formal) e pelos pequenos geradores (promotores da

    chamada construo informal). A compreenso desta diferena de fundamental

    importncia para que se estude uma soluo eficaz.

  • Captulo 1 Introduo 3

    O critrio usualmente utilizado na classificao de geradores como grandes ou

    pequenos toma por base a quantidade de resduos descartada por viagem, independente do

    porte da obra (pequena, mdia ou grande) ou do agente construtor (empresas formalizadas

    ou autoconstruo).

    Neste trabalho procurou-se aplicar este mesmo critrio, entretanto, tendo em vista a

    impossibilidade atual de identificao da origem dos resduos e, conseqentemente, de

    mensurao das quantidades produzidas por cada gerador, optou-se por utilizar o

    parmetro do transportador utilizado, uma vez que a capacidade volumtrica de carga do

    equipamento de transporte (carro-de-mo, carroa, polinguindaste com caixa coletora ou

    caminho) define claramente o volume transportado.

    Assim, para efeito deste trabalho e com base na prtica observada em algumas

    cidades brasileiras, grandes geradores so aqueles que utilizam equipamentos de transporte

    de resduos de construo e demolio - RCD com capacidade acima de 1,0 m/viagem,

    enquanto que pequenos geradores utilizam equipamentos de transporte com capacidade de

    at 1,0 m/viagem.

    A amplitude das atividades ligadas construo civil, que envolvem a extrao das

    matrias-primas a serem utilizadas, a produo de edificaes e indo at a utilizao destas

    edificaes ao longo da sua vida til, e seus diferentes impactos ambientais torna

    extremamente complexa uma proposta abrangente de gesto que vise a eliminao ou

    mesmo a reduo destes impactos.

    Considerando o atual momento da construo civil brasileira, onde se registram

    recordes de financiamento imobilirio incentivando a atividade construtiva, e o dficit

    habitacional do pas, estimado em 7,9 milhes de habitaes das quais 81,2% em reas

    urbanas (Fundao Joo Pinheiro, 2007), de se esperar que os impactos ambientais

    cresam significativamente, motivo pelo qual se torna oportuna a realizao de estudos que

    contribuam para a promoo da reduo destes impactos, como o caso deste.

    Alm dos impactos mais evidentes da gerao dos RCD, manifestada especialmente

    na degradao da paisagem urbana, o estudo das suas causas leva percepo de que h

  • Captulo 1 Introduo 4

    uma crise ambiental ainda mais complexa que pode levar ao comprometimento da

    capacidade de suporte do planeta em atender s necessidades humanas vitais. As origens

    desta crise encontram-se nas relaes sociais, na relao homem-natureza, e no modo de

    produo capitalista.

    Deste modo, o que se prope neste trabalho desenvolver um modelo de sistema

    municipal que discipline a gesto dos RCD que so gerados no municpio de Aracaju,

    tendo em vista suas caractersticas de gerao, transporte e destinao final, com nfase na

    reutilizao ou reciclagem.

    O estudo est dividido em 09 captulos, sendo o primeiro dedicado a introduzir o

    leitor no tema e apresentar a sua estrutura, e o segundo a delinear seus objetivos.

    No terceiro captulo feita uma reflexo, a partir de autores consagrados, sobre as

    origens da crise ambiental e o processo de despertar para a conscincia ecolgica, a

    contribuio da cincia para esta crise, e, finalmente, sobre o conceito de desenvolvimento

    sustentvel.

    Em seguida, captulo quarto, procura-se apresentar o processo de urbanizao e

    seus aspectos scio-ambientais, bem como os impactos ambientais gerados a partir das

    atividades da construo civil.

    No captulo cinco so estudados os princpios legais da gesto de RCD e as prticas

    atuais desta gesto, com nfase no estabelecimento dos fundamentos de um modelo

    municipal de gesto destes resduos, e na reciclagem como alternativa adequada

    destinao final.

    O captulo seis traz a metodologia utilizada e, no captulo sete, feita uma

    apresentao das caractersticas particulares da urbanizao da cidade de Aracaju e do

    atual modelo de gesto de RCD, obtidas a partir de levantamento de dados junto aos rgos

    pblicos envolvidos direta e indiretamente com esta gesto, bem como da pesquisa de

    campo. Tambm se procurou conhecer a percepo daqueles que participam deste modelo

  • Captulo 1 Introduo 5

    de gesto municipal (gestores municipais, geradores e transportadores) sobre o modelo

    atual de gesto de RCD e os papis desempenhados pelos mesmos nesta gesto.

    No oitavo captulo foi desenvolvida uma proposta de modelo de gesto municipal

    de RCD para Aracaju, fundamentado nos princpios do desenvolvimento sustentvel, nos

    preceitos legais vigentes, nas experincias j vivenciadas por outros municpios e nas

    particularidades da gesto de RCD hoje implantada na cidade.

    Por fim, no nono captulo, so apresentadas concluses e feitas recomendaes para

    aprofundamento e melhoria da proposta apresentada.

  • CAPTULO 2

    OBJETIVOS

  • Captulo 2 Objetivos 7

    2. OBJETIVOS

    Partindo do ponto de vista de que o modelo vigente de gesto municipal de resduos

    de construo e demolio no atende aos princpios do desenvolvimento sustentvel e

    nem mesmo ao prescrito na Resoluo CONAMA N 307/2002, foram estabelecidos

    objetivos conforme apresentado a seguir.

    2.1. GERAL

    Propor um modelo de gesto municipal de resduos de construo e demolio para

    a cidade de Aracaju que atenda Resoluo CONAMA N 307/2002 e contribua para o

    desenvolvimento sustentvel no setor da construo civil.

    2.2. ESPECFICOS

    Conhecer as normas legais (legislao e normas tcnicas) que disciplinam a

    gesto de RCD no Brasil e seus fundamentos;

    Conhecer a situao atual da gesto de RCD em Aracaju;

    Levantar as alternativas disponveis no Brasil para gesto de RCD;

    Avaliar, dentre as alternativas disponveis para gesto de RCD, as mais

    adequadas cidade de Aracaju.

  • CAPTULO 3

    A CRISE AMBIENTAL E O DESPERTAR PARA A

    CONSCINCIA ECOLGICA

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 9

    3. CRISE AMBIENTAL E O DESPERTAR PARA A CONSCINCIA

    ECOLGICA

    A compreenso dos fundamentos da crise ambiental, especialmente a que afeta o

    ambiente urbano, de fundamental importncia para a formulao da proposta que se far

    adiante, sendo que vrios autores estabelecem uma estreita relao entre essa crise e o

    modelo de desenvolvimento adotado por nossa civilizao.

    O carter insustentvel da sociedade contempornea encontra-se no crescimento

    populacional acelerado, notadamente nos pases em desenvolvimento; no previsvel

    esgotamento dos recursos naturais; no padro de consumo exagerado, sobretudo nos pases

    ricos, e no coincidentemente industrializados; e nos sistemas de produo poluentes

    (Camargo, 2003).

    De acordo com Leff (2001), a crise ecolgica, ou crise ambiental, vem questionar a

    lgica e os paradigmas tericos que nortearam e ainda vm norteando e legitimando o

    crescimento econmico, que desconsiderou a natureza.

    3.1. PERCEPO DA CRISE AMBIENTAL

    A percepo dos efeitos da poluio provocada pela industrializao, iniciada no

    sculo XIX, somente comeou a ser percebida de maneira mais contundente no sculo

    seguinte e teve suas primeiras manifestaes ocorridas nos trabalhadores das indstrias,

    que sofreram os primeiros impactos desta poluio. Apenas aps a Segunda Guerra

    Mundial, especialmente com as primeiras detonaes atmicas, surgiu o que se denominou

    movimento ecolgico (Camargo, 2003).

    Muito embora a dcada de 1950 tenha sido marcada pela preocupao ecolgica da

    comunidade cientfica, o despertar para esta conscincia se deu a partir da dcada de 1960

    com a criao dos primeiros movimentos e organizaes no-governamentais preocupadas

    com a preservao. Merece destaque a criao do Clube de Roma, grupo de 30 cientistas,

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 10

    economistas, humanistas, industriais, pedagogos e funcionrios pblicos de 10 diferentes

    pases, formado com o intuito de debater a crise e o futuro da humanidade e que produziu o

    relatrio intitulado The Limits to Grow (Os Limites do Crescimento), onde se evidenciou a

    limitao do modelo de desenvolvimento at hoje vigente em funo do esgotamento dos

    recursos naturais (Camargo, Op. cit.).

    Tambm a publicao do livro Silent Spring (Primavera Silenciosa) de Rachel

    Carlson, que versa sobre estragos causados pelo uso de produtos qumicos na agricultura,

    marcou a tomada de conscincia sobre os efeitos adversos das prticas poluentes

    (Camargo, Op. cit.).

    Segundo Leff (2001, p. 15), foi neste perodo que a crise ambiental tornou-se

    evidente, refletindose na irracionalidade ecolgica dos padres dominantes de produo

    e consumo, e marcando os limites do crescimento econmico.

    No se deve deixar de notar como relevante o fato de que nessa dcada de 1960

    tambm ocorreram diversas manifestaes sociais em todo o mundo, especialmente na

    Europa e Estados Unidos, o que pode ser entendido como uma demonstrao da intrnseca

    relao entre crise ambiental e social.

    Na dcada seguinte criao de diversas organizaes internacionais, o surgimento

    dos primeiros movimentos ambientalistas organizados e especialmente a realizao da

    Conferncia de Estocolmo Conferncia das Naes Unidas sobre o Ambiente Humano,

    em 1972, indicaram a consolidao desta preocupao estruturada em relao ao futuro do

    planeta (Camargo, 2003).

    Nesta conferncia os problemas ambientais tornaram-se relevantes, pela difuso ao

    mundo da ocorrncia de vrios deles e seus efeitos, como o desmatamento, a eroso dos

    solos, a desertificao e a extino de espcies, a contaminao qumica do solo, do ar e

    dos meios lquidos, o aquecimento global e a produo e disposio de resduos,

    especialmente os txicos e radioativos (Leff, 2001).

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 11

    Ainda na dcada de 1970 observou-se o incio da preocupao ambiental pelos

    agentes pblicos, especialmente governos e partidos, refletindo-se no surgimento das

    primeiras agncias estatais de meio ambiente e no aumento das atividades de

    regulamentao e controle. tambm deste perodo o surgimento do Greenpeace e a

    exigncia de realizao de Estudos de Impactos Ambientais (EIA's) nos Estados Unidos.

    No se pode olvidar que tambm neste perodo ocorreu a primeira crise mundial do

    petrleo, despertando as discusses sobre a renovabilidade dos recursos naturais (Camargo,

    2003).

    Na dcada de 1980, o surgimento de regulao ambiental (leis e programas de

    proteo ambiental) marcou a evoluo oficial da conscincia ecolgica, merecendo

    destaque neste perodo a publicao do Relatrio Our Common Future (Nosso Futuro

    Comum ou Relatrio Brundtland) em 1987, o qual apontou aumento da degradao dos

    solos e poluio crescente da atmosfera, entre outros (Camargo, Op. cit.).

    A dcada de 1990 foi um perodo de [...] grande impulso com relao

    conscincia ambiental na maioria dos pases. Desta vez o destaque fica por conta da

    realizao da Conferncia das Naes Unidas sobre Desenvolvimento e Meio Ambiente

    (CNUMAD) ou Rio-92, Eco-92 ou Cpula da Terra, tendo como um dos principais

    resultados a Agenda 21, agenda de trabalho por meio da qual [...] se procurou identificar

    os problemas prioritrios, os recursos e os meios necessrios para enfrent-los, bem como

    as metas a serem atingidas nas prximas dcadas (Camargo, Op. cit., p. 55).

    Destaca-se aqui a inteno de, por meio da Agenda 21 (conjunto de aes para

    alcance de resultados efetivos) obter resultados efetivos, extrapolando acertadamente o

    campo apenas das preocupaes ideolgicas.

    Outro fato marcante daquela dcada foi o surgimento de modelos de gesto

    ambiental evidenciado na elaborao pela Internacional Organization for Standardization

    (ISO) da srie de normas ISO 14000, com destaque para a ISO 14001 Sistemas de gesto

    ambiental - Requisitos com orientaes para uso, que veio a se constituir uma ferramenta

    para que as organizaes empresariais e outras implementassem um sistema de gesto

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 12

    destinado a equilibrar a proteo ambiental e preveno da poluio com as necessidades

    socioeconmicas (ABNT, 2004b).

    De modo conciso, Camargo (2003, p. 60) apresenta a dcada de 1950 como a do

    ambientalismo dos cientistas, a de 1960 como a das ONG's, a dcada de 1970 dos

    atores polticos e estatais, a de 1980 dos atores vinculados ao sistema econmico, e a

    dcada de 1990 de um ambientalismo voltado para as questes locais e globais,

    envolvendo a sociedade civil, o Estado e o mercado, chegando at a algumas importantes

    lideranas religiosas.

    3.2. ORIGENS DA CRISE AMBIENTAL URBANA E A RELAO HOMEM-

    NATUREZA

    Estabelecida a conscincia da existncia de uma crise ambiental de fundamental

    importncia conhecer suas causas e, especialmente, a contribuio da relao homem-

    natureza ao seu desenvolvimento, o que se procurar fazer a seguir.

    3.2.1. Relao homem-natureza e relaes sociais

    A relao homem-natureza compreende um aspecto que vai alm da relao

    animal-natureza, na qual predomina a busca da satisfao de necessidades bsicas de

    alimentao e proteo, sendo, portanto, uma relao com bases biolgicas. Na relao

    homem-natureza encontra-se presente tambm a satisfao de desejos, estando esta relao

    afetada tanto pela percepo do homem sobre a natureza quanto pela capacidade exercida

    da espcie humana em transformar o meio natural.

    Para Camargo (2003), a evoluo da relao homem-natureza marcada por trs

    orientaes bsicas distintas e contrastantes, sendo a primeira, que compreende o incio da

    existncia humana, caracterizada pela subjugao do homem pela natureza; seguida de um

    perodo onde o ser humano, julgando-se superior natureza, quer domin-la e explor-la; e

    tendo por fim uma terceira, onde se busca uma interao do homem com a natureza. As

    diferentes concepes da natureza pelo homem no decorrer da histria encontram-se

    resumidas no quadro 3.1.

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 13

    Quadro 3.1

    Concepes distintas da natureza

    Vises da natureza Caractersticas Viso sacralizada da natureza

    Adorar a natureza e intuir o grande mistrio que a dominava sem necessidade de explic-la. Pantesmo, politesmo e animismo predominavam.

    Viso semi-sacralizada da natureza

    Marcado pelo incio do manejo da natureza pelo homem, por meio da agricultura e pecuria, gerando a dicotomia entre a adorao da natureza e a interveno sobre esta.

    Viso holstico-interrogativa dos fsicos gregos

    Nascida em paralelo com a filosofia, procurava interrogar a origem e o significado da natureza de maneira interrogativa e contemplativa, sem, no entanto, cultu-la.

    Viso semi-dessacralizada judaico-crist

    Surgiu a partir da dessacralizao do cosmo, uma vez que o sagrado foi personalizado em Deus.

    Viso mecanicista da natureza

    Marcado pela separao homem-natureza (ser humano possuidor e dominador da natureza), amparada pelo racionalismo e progresso cientfico.

    Viso organicista contempornea da natureza

    Caracterizada pela compreenso do pertencimento e inter-relaes homem-natureza, embasado na nova concepo de cincia.

    Fonte: adaptado de Camargo (2003)

    Na busca da compreenso das distintas vises de natureza, Melo e Souza (2004)

    remonta Grcia pr-socrtica, cuja viso de natureza estava ligada ao conceito de physis,

    sucedida pela aristotlica (teocentrista). Aps a Idade Mdia, esta dominada pela viso

    crist de mundo terreno fugaz e, portanto, de menor importncia dada natureza terrestre,

    o racionalismo advindo com o Renascimento dessacraliza a natureza, tornando aceitvel a

    sua dominao pelo homem, sendo esta viso base do antropocentrismo.

    Para Porto-Gonalves (1989, p.28) a separao homem-natureza ... uma

    caracterstica marcante do pensamento que tem dominado o mundo ocidental. A filosofia

    grega, a partir de Plato e Aristteles, ao privilegiar o homem e a idia desumaniza a

    natureza e a separa do homem. Mais adiante a religio judaico-crist refora esta posio

    ao separar esprito e matria, e, Descartes vai alm quando, ao lanar as bases de uma nova

    cincia fundada no mtodo, estabelece a separao sujeito-objeto e prope uma cincia

    pragmtica (conhecimentos teis) sob viso antropocntrica. Cabe lembrar que esses

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 14

    conceitos so contemporneos do mercantilismo e do colonialismo, origem e instrumento

    do capitalismo.

    Tambm para Melo e Souza (2004), a viso de natureza provedora inesgotvel de

    recursos s atividades serviu de base ao desenvolvimento de um ambientalismo

    tecnocentrista, este ideologicamente afinado com o capitalismo e base do capitalismo

    ecolgico. Paradoxalmente, a Revoluo Industrial foi um fato marcante no surgimento de

    uma nova viso da natureza por tornar evidentes os danos ao ambiente, causados pela

    poluio e deteriorao da vida nas cidades, fazendo despertar a viso preservacionista

    expressa na construo de jardins e posteriormente parques.

    Quanto relao homem-natureza, v-se que a idia do ser humano ... superior ao

    mundo natural, tencionando domar, explorar e revelar todos os segredos da natureza

    (Camargo, 2003, p.17), representa a viso da subordinao da natureza ao homem,

    servindo como fonte de recursos para a satisfao dos seus desejos e necessidades, sem que

    se estabelea uma preocupao com a finitude dos recursos naturais. O homem se v como

    senhor da natureza e no como parte dela.

    De acordo com Porto-Gonalves (1989), a partir do fim do sculo XVIII a natureza

    foi adotada como modelo do que justo e, com a teoria darwiniana, a evoluo passou a

    ser considerada um processo natural. H uma ordem natural nas coisas, indicando uma

    evoluo lenta, gradual e segura, que necessria ao progresso.

    Esta idia positivista de progresso vai respaldar conceitos da viso capitalista como

    avano tecnolgico, aumento de produtividade, dentre outros, como fatos naturais,

    abrindo caminho para uma aceitao da explorao da natureza pelos meios de produo, o

    que exemplificado por Da Matta (1999) para quem a viso portuguesa de colonizao no

    Brasil, influenciada pelo mercantilismo e focada no enriquecimento rpido orientou a

    prtica extrativista, imediatista e predadora, respaldada numa idia de natureza passiva,

    prdiga e endmica. Os ciclos econmicos se sucederam, marcados pela descoberta,

    explorao e esgotamento de recursos naturais (madeira, acar, ouro, caf e borracha).

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 15

    Agindo o homem sobre a natureza e alterando-a, torna-a humanizada ao mesmo

    tempo em que ele prprio sofre modificaes. Assim, percebe-se que ... a interao

    homem-natureza um processo de mtua transformao (Andery et al., 2004, p. 10).

    Para Porto-Gonalves (1989) e Leff (2001), o movimento ecolgico, ao questionar

    o conceito de natureza, questiona no s o modo de ver a natureza como tambm as

    prprias relaes sociais. A crise ambiental tambm uma crise de civilizao, o que nos

    induz a buscar no estudo das relaes sociais outras contribuies mesma.

    O filsofo suo Jean-Jaques Rousseau (1712-1778), instigado a refletir sobre a

    desigualdade entre os homens e ao se propor a explicar os seus fundamentos, contribuiu

    para revolucionar a percepo do homem sobre si mesmo e sobre suas inter-relaes.

    O estudo de Rousseau sobre a desigualdade entre os homens baseia-se na

    comparao entre o homem da natureza e o homem civilizado, sendo o primeiro

    essencialmente bom e o segundo corrompido pela evoluo da espcie. Em sua anlise

    reconhece dois tipos de desigualdade, sendo uma ... natural ou fsica, por ser estabelecida

    pela natureza e outra que chama de desigualdade moral ou poltica conquanto dependa

    de uma conveno consentida pelos homens (Rousseau, 2005, p. 159).

    O genebrino desenvolve ainda, sobre o aspecto fsico, o raciocnio segundo o qual o

    progresso humano tornando o homem mais socivel, em que pese o haver dotado de

    instrumentos que o fizeram mais capaz de enfrentar os desafios impostos pela natureza,

    contribuiu para debilitar-lhe a fora e a coragem e torn-lo dependente deste progresso.

    Quanto ao aspecto moral, estabelece uma relao entre o entendimento e as paixes,

    chegando a afirmar que o progresso do esprito ocorreu devido s necessidades impostas

    pela natureza e s conseqentes paixes que o levaram a prover estas necessidades

    (Rousseau, Op. cit.).

    A sociedade civil surgiu a partir do estabelecimento da propriedade. O agrupamento

    em famlia levou ao desenvolvimento de relaes entre os seres humanos antes

    inexistentes, o que causou conflitos e consequentemente a necessidade do estabelecimento

    de uma regulao, espcie de contrato poltico. Surgem da as diferentes formas de

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 16

    governo (monrquico, aristocrtico e democrtico) seguido da formao de um sistema

    social que, baseado no direito de propriedade, instituiu a magistratura e o poder arbitrrio.

    Tendo o homem afrouxado seu esprito pelos vcios, a corrupo deste sistema aprofundou

    a desigualdade, pelo que conclui Rousseau que a desigualdade ... sendo quase nula no

    estado da natureza, extrai sua fora e seu crescimento do desenvolvimento de nossas

    faculdades e dos progressos do esprito humano e torna-se enfim estvel e legtima pelo

    estabelecimento da propriedade e das leis (Rousseau, Op. cit. p. 243).

    A reabilitao da natureza humana conquistada a partir do Iluminismo e que vai

    permitir ao homem acreditar ser capaz de criar as condies necessrias sua felicidade

    vai tambm ser causa de conflitos sociais, uma vez que ope o particular ao coletivo.

    Observa-se na obra de Rousseau um aparente contraste entre o individualismo, pelo

    qual deve o homem guiar-se, e a necessidade de estabelecimento de um acordo ou pacto

    social que represente a vontade geral, ao qual todos devem submeter-se, sobrepondo-se

    desta forma o direito comum sobre o particular.

    Esta aparente contradio vista como resolvida por Cassirer (1997, p. 347) ao

    analisar o pensamento de Rousseau sobre liberdade e submisso lei, em que interpreta a

    verdadeira liberdade como a ... livre aquiescncia, o livre consentimento em face da lei.

    o prprio Rousseau que explica:

    Enfim, cada um dando-se a todos no se d a ningum e, no existindo um associado sobre o qual no se adquira o mesmo direito que se lhe cede sobre si mesmo, ganha-se o equivalente de tudo que se perde e maior fora para conservar o que se tem. Enquanto os sditos s estiverem submetidos a tais convenes, no obedecem a ningum mas somente prpria vontade. (Rousseau apud Cassirer, Op. cit., p. 347).

    Pelo conhecimento das obras de Rousseau e de seus comentadores, o homem da

    natureza, primitivo e originariamente feliz to somente base para o desenvolvimento do

    homem natural, contemporneo, mas livre dos vcios adquiridos no correr dos anos em que

    se desenvolveu e progrediu.

    Segundo o prprio Rousseau (apud Abbagnano, 1994, p. 211), a despeito desta

    nova viso de homem proposta no Emlio, ... no se trata de fazer dele [o homem natural]

    um selvagem ... mas uma criatura que, vivendo no turbilho da sociedade, no se deixa

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 17

    arrastar nem pelas paixes nem pelas opinies dos homens, uma criatura que v com seus

    prprios olhos e sente com o seu corao, e que no reconhece outra autoridade seno a da

    prpria razo.

    Observa-se ento que a relao homem-natureza, em que pese ocorra efetivamente

    no mbito dos indivduos com a natureza, uma relao sociedade-natureza e como tal

    intrinsecamente ligada e influenciada pelas relaes scio-econmicas, cujas

    caractersticas contriburam para o desenvolvimento da crise ambiental como se procurar

    demonstrar a seguir.

    3.2.2. Capitalismo, Revoluo Industrial e a crise ambiental

    As formas polticas, jurdicas e o conjunto ideolgico de uma dada sociedade so

    determinados por sua base econmica, que por sua vez fruto das relaes de trabalho

    estabelecidas, do nvel tcnico dos instrumentos de trabalho e dos meios disponveis para a

    produo dos bens materiais. A sociedade capitalista fundamenta-se na propriedade

    privada, na diviso social do trabalho e nos processos de troca. (Rubano & Moroz, 2004).

    A produo de vida material nas sociedades primitivas tinha por objetivo apenas o

    necessrio para o consumo do grupo, no havendo a produo de excedentes, existindo

    apenas valor de uso e no de troca, o que s veio a surgir quando a melhoria das tcnicas e

    utenslios levou produo de um excedente. Como conseqncia houve uma nova diviso

    do trabalho, e novas relaes humanas visando produo (Andery et al., 2004).

    Para Carlos (1992), a histria da humanidade est marcada por dois momentos

    fundamentais, a acumulao de capital e a revoluo industrial, que refletem a passagem

    do modo de produo feudal para o capitalista. No primeiro, baseado no trabalho do servo

    destinado subsistncia, as relaes eram fundamentadas no uso da terra comunal,

    enquanto que no segundo a relao de trabalho se altera, privilegiando os detentores do

    capital.

    A transio do feudalismo para o capitalismo, ocorrida com variaes entre os

    diversos pases da Europa, foi marcada pela substituio da terra pelo dinheiro como fonte

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 18

    de poder. O mercantilismo, o surgimento das instituies financeiras, a colonizao, o

    fechamento das terras aos camponeses e a elevao das taxas de arrendamento,

    contriburam para o desenvolvimento da indstria alm da manufatura, tendo em vista a

    existncia de capital acumulado e tambm de uma classe trabalhadora livre e sem

    propriedades nem capital (Rubano & Moroz, 2004).

    O processo de produo inicialmente artesanal e que havia evoludo para a

    manufatura foi substancialmente modificado com a introduo da mquina, induzindo

    especializao do trabalho que foi decomposto em um conjunto de tarefas simples. Com a

    introduo do maquinrio, no s se prescinde da fora fsica do trabalhado na realizao

    das tarefas como tambm deixa o trabalhador de ter o controle sobre o conjunto do

    trabalho, de certa forma j inicialmente perdido com a manufatura, e sobre o ritmo do

    mesmo, agora ditado pela mquina. Estas transformaes implicaram numa reduo dos

    custos de produo de tal ordem que a indstria passou a produzir no s para o mercado

    existente, mas sim para um mercado indeterminado, ou seja, a ser criado. Outro impacto

    desta nova organizao da produo ocorreu sobre a agricultura, uma vez que o

    fornecimento, por parte da indstria, de ferramentas e energia para a agricultura criou uma

    agricultura de mercado, em substituio agricultura de subsistncia. Por fim, a Revoluo

    Industrial contribuindo para um aumento significativo das trocas entre cidade e campo e

    gerando uma maior quantidade de produtos a serem escoados levou a grandes alteraes

    nas comunicaes e nos transportes (Pereira & Gioia, 2004b).

    Com a Revoluo Industrial o ritmo do trabalho se desvinculou da natureza.

    Enquanto no campo as condies naturais determinavam a velocidade de produo, no

    ambiente confinado das fbricas estas pouco influenciam na atuao do trabalhador, cuja

    atividade fica subordinada velocidade da mquina (Carlos, 1992).

    Segundo Pereira e Gioia (2004b), a Revoluo industrial caracterizou-se por um

    conjunto de transformaes econmicas que tiveram como conseqncia uma revoluo no

    processo de produo e de trabalho, marcando a consolidao do capitalismo como modo

    de produo e do poder econmico da burguesia, detentora do capital, cabendo ao

    proletariado ser a fora de trabalho.

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 19

    Ainda que a concepo da natureza pelo homem tenha sido alterada ao longo da

    histria, evoluindo desde uma viso sacralizada at a viso organicista contempornea, a

    prtica da explorao predatria da natureza predominante desde a Revoluo Industrial

    tem levado exausto das fontes de recursos naturais e conseqente exposio da

    fraqueza do modelo econmico vigente, a ponto de definir que [...] o fator limitativo do

    desenvolvimento no sculo XXI ser o enfraquecimento dos servios prestados pelos

    ecossistemas vitais (Holthausen, 2000 apud Camargo, 2003, p. 27).

    Bernardes & Ferreira (2003) apontam a crise ambiental como uma conseqncia do

    sistema de produo capitalista, o qual tem como um dos fatores de produo a utilizao

    dos recursos naturais, indicando ainda como caracterstica do modo de produo capitalista

    a necessidade de expanso contnua, o que inevitavelmente conduz sua insustentabilidade

    dada a finitude dos recursos no renovveis. Aliada a esta caracterstica, a existncia na

    sociedade de um valor de troca amplia a necessidade de recursos pois no se produz apenas

    o necessrio para a existncia, mas tambm o que suprfluo.

    Segundo Leff (2000), pela crise de recursos observa-se o carter antinatura da

    economia convencional. A degradao ambiental sintoma da crise da civilizao

    provocada pelo modelo de modernidade onde a tecnologia predomina sobre natureza.

    De acordo com Sachs (1986), o modelo atual de desenvolvimento baseia-se na

    ideologia de que mais melhor, transferindo para o futuro a soluo dos problemas

    estruturais, sem levar em conta a oposio entre ser e ter. Concentrando-se nos meios para

    aumentar a oferta de bens e servios, no se pauta pelas finalidades do desenvolvimento,

    ignora as diferenas entre o desenvolvimento e mau desenvolvimento, e contribui para

    a poluio ambiental e degradao social.

    A busca pelo desenvolvimento tem levado a um consumo de recursos naturais

    numa velocidade no compatvel com a capacidade natural de reposio destes recursos, e

    a lgica de maximizao dos lucros que tem orientado a produo industrial tem levado a

    uma superexplorao dos recursos naturais e a uma degradao ambiental, manifestada nos

    processos de poluio e contaminao atmosfrica, de solos e de recursos hdricos. O

    sistema econmico e social vigente, fundamentado no pressuposto de que condutas

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 20

    egostas podem levar ao bem comum e manifestada no lucro, na acumulao de capital, na

    otimizao dos sistemas de produo, no progresso e na eficincia, levou

    desestabilizao dos sistemas ecolgicos (Leff , 2001 e Camargo, 2003).

    3.3. CONTRIBUIO DA CINCIA PARA A CRISE AMBIENTAL URBANA

    Partindo da premissa do papel da cincia como geradora do conhecimento, que tem

    importncia fundamental no desenvolvimento da tcnica, esta to cara ao modo de

    produo capitalista, procura-se compreender tambm a contribuio da cincia para a

    crise ambiental.

    3.3.1. O caminho do pensamento cientfico

    O caminho do pensamento cientfico tem origem no mito, que cuida apenas de

    narrar sobre a origem de alguma coisa, seguido da Filosofia, que ao nascer uma

    explicao racional sobre a origem do mundo e sobre as causas das transformaes e

    repeties das coisas, e que com suas caractersticas de tendncia racionalidade e

    recusa de explicaes preestabelecidas estabelece as bases para a construo da cincia a

    partir do saber filosfico (Chau, 1994, p. 28-30 e 32-33).

    As trs principais concepes de cincia so a racionalista, defendida por Plato e

    Descartes e na qual afastam a experincia sensvel ou o conhecimento sensvel do

    conhecimento verdadeiro, que puramente intelectual; a empirista, com princpios em

    Aristteles e Locke, os quais consideram que o conhecimento se realiza por graus

    contnuos, partindo da sensao at chegar s idias; e a construtivista, que considera a

    cincia uma construo de modelos explicativos e para a realidade e no uma

    representao da prpria realidade (Chau, Op. cit., p. 252).

    no perodo de transio que marca o fim do feudalismo e o incio do capitalismo

    que nasce a cincia moderna. um perodo marcado por uma nova viso de mundo e onde

    o desenvolvimento do comrcio e das cidades, as grandes navegaes e a preocupao com

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 21

    o desenvolvimento tcnico abrem espao para um desenvolvimento acelerado desta cincia

    (Pereira & Gioia , 2004a).

    Segundo Rubano & Moroz (2004), a cincia moderna surgida a partir do sculo

    XVI trouxe a substituio da viso Aristotlica esttica de mundo por uma viso

    mecanicista proposta por Galileu e Newton, abrindo caminho tambm para novas

    propostas metodolgicas para obteno do conhecimento, o empirismo de Bacon e o

    racionalismo de Descartes.

    no perodo do iluminismo que se estabeleceu o conceito de que a cincia pela

    razo, e no mais as escrituras, a fonte de explicao dos fenmenos da natureza. Assim,

    repensa-se a idia de Deus e reduz-se a sua importncia, pois a sua intermediao entre o

    homem e o mundo (natureza) passa a no ser fundamental.

    O racionalismo, retirando de Deus o papel de intermediador entre o homem e o

    mundo e atribuindo ao homem a responsabilidade sobre o que faz, leva idia de

    progresso baseada na aplicao da razo no controle sobre o ambiente fsico e cultural, e

    contribui para o progresso da cincia, uma vez que se baseia na idia de que o acmulo do

    conhecimento obtido, por sua prpria direo interna, [levar] obteno de uma

    sociedade cada vez melhor (Rubano e Moroz, 2004, p. 335).

    Chtelet (1974) descreve o Iluminismo como um perodo de grande profuso de

    idias e de nsia por informaes originais, de lutas territoriais, e sobretudo por uma

    atitude crtica surpreendente. Percebe-se que a partir do sculo XVIII que toma forma

    uma nova idia de saber, baseada num sistema aberto de conhecimento e no mais

    compartimentado, conforme defendido por Aristteles e Descartes.

    Para Chau (1994), a cincia moderna nascida com Bacon e Descartes trouxe um

    carter utilitarista, notadamente na relao homem-natureza, que passou de um aspecto de

    contemplao da verdade para um exerccio de poder sobre a natureza. No dizer do prprio

    Descartes,

    ... pode-se encontrar uma filosofia prtica, mediante a qual, conhecendo a fora e as aes do fogo, da gua, do ar, dos astros, dos cus e de todos os outros corpos que nos rodeiam, to

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 22

    distintamente como conhecemos os diversos ofcios de nossos artesos, poderamos empreg-las do mesmo modo em todos os usos a que so adequadas e assim nos tornarmos como que senhores e possessores da natureza (Descartes, 1996, p. 69).

    De acordo com Porto-Gonalves (1989), dois aspectos da filosofia cartesiana

    marcam a modernidade, quais sejam; o seu carter pragmtico do conhecimento,

    conhecimento til, e o antropocentrismo que permite ao homem por meio da tcnica

    penetrar nos mistrios da natureza, tornando-se dela senhor e possuidor. Estes aspectos

    tambm esto presentes no mercantilismo e no colonialismo, e no capitalismo so levados

    ao extremo.

    A nova viso de mundo que acompanhou a transio do feudalismo ao capitalismo

    trouxe a substituio do foco das relaes Deus-homem do teocentrismo pelas relaes

    homem-natureza, e provocou uma valorizao da capacidade humana de conhecer e

    explicar, resultando no desenvolvimento de uma cincia prtica em contraposio ao saber

    contemplativo ou dogmtico. As crescentes necessidades prticas, geradas pela ascenso

    da burguesia, aliadas ao desenvolvimento da crena na capacidade do conhecimento para

    transformar a realidade, foram responsveis pelo interesse no desenvolvimento tcnico.

    (Rubano e Moroz, 2004, p. 175).

    3.3.2. A relao cincia-capitalismo e suas conseqncias ambientais

    O sculo XX foi sonhado desde o seu incio como sendo o da porta para o futuro,

    graas crena no avano tcnico. Ao final deste sculo percebeu-se que este avano

    superou as expectativas, entretanto, constatou-se que no conseguiu preencher os sonhos

    da civilizao de um mundo rico e integrado. Em termos de mdia global a Terra apresenta

    indicadores de pas de Terceiro Mundo, o que levou Buarque (1993) a definir o planeta

    como um planeta subdesenvolvido, cumprindo destacar que, se mesmo na presena de

    naes desenvolvidas como os Estados Unidos e vrias naes da Europa os indicadores

    do planeta so baixos, h que se imaginar os indicadores daqueles que esto abaixo desta

    linha da mdia.

    H que se pensar sobre as causas desta ocorrncia cumprindo perguntar em que

    ponto e de que maneira a cincia operou na contramo da racionalidade.

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 23

    De acordo com Sachs (1986, p.17), no processo de evoluo humana ... a

    capacidade de acumular conhecimentos, mudar o comportamento em funo da

    experincia e formular projetos, iria determinar o ritmo de adaptao ao meio ambiente e,

    em seguida, a modificao cada vez maior deste ltimo.

    Ainda que a cincia tenha tido pouca influncia no desenvolvimento da Revoluo

    Industrial, posto que a tcnica ali empregada fosse pouco mais avanada do que a utilizada

    pelos artesos, foi no desenvolvimento do capitalismo que se estabeleceu uma forte relao

    entre cincia e produo, haja vista que cresceram juntas e se influenciaram mutuamente.

    Foi a partir da Revoluo Industrial que se incrementou a atividade cientfica, demandada a

    solucionar problemas produtivos, e no sem razo observou-se neste perodo uma

    crescente subordinao da cincia aos meios de produo e classe dominante (Pereira e

    Gioia, 2004).

    Bernardes & Ferreira (2003) discutem o papel da cincia na contribuio ao modo

    de produo capitalista, medida que a tecnologia e a tcnica so postas a servio dos

    interesses dos grupos dominantes. O incremento da tcnica sempre a servio do aumento

    da produtividade, com fins acumulao, imprime uma marca indelvel na transformao

    do espao, o que demonstra a diferenciao ecolgica como subseqente diferenciao

    social.

    Segundo Coimbra (2002), a cincia base para o desenvolvimento da tcnica que

    produz instrumentos para o progresso, mas este desenvolvimento tecnolgico tem sido

    posto a servio da destruio dos recursos naturais. A cincia que busca um conhecimento

    objetivo da natureza, sem levar em conta aspectos espirituais e metafsicos, tem

    contribudo para uma degradao da qualidade de vida. A cincia moderna ao tempo em

    que por meio da tecnologia incentivou a produo industrial fazendo surgir uma sociedade

    industrial e de consumo contribuiu para a degradao da natureza.

    medida que o modo capitalista de produo exigiu uma maior racionalizao da

    produo e aumento da produtividade ocorreu a unio da cincia prtica, ao mesmo

    tempo em que a metafsica perdeu importncia frente especializao dos ramos do

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 24

    conhecimento, especialmente a fsica, a qumica e a engenharia. O conhecimento passou a

    ser entendido como ferramenta de domnio da natureza (Carlos, 1992).

    Numa crtica racionalidade dominante, Leff (2001) defende que a mesma razo

    que, no processo de libertao do homem da ignorncia e da escassez, nos legou o

    conhecimento cientfico e o pensamento crtico, a liberdade e a democracia, tem sujeitado

    a todos racionalidade econmico-tecnolgica, cujas caractersticas de homogeneidade e

    unipolaridade terminam por levar ao estabelecimento de um padro de comportamento

    contrrio prpria razo.

    Para Leff (2000), a viso mecanicista resultante da razo cartesiana fundamentou a

    teoria econmica, orientando o progresso e afastando a natureza da produo.

    Porto-Gonalves (1989), ao tratar da relao cincia-natureza, observa que so trs

    os eixos em torno dos quais a cincia moderna se configura, a saber: oposio homem e

    natureza (o homem um ser superior aos outros animais); oposio sujeito e objeto (o que

    o separa da natureza); e o paradigma atomstico-individualista (base da decomposio do

    mundo objetivo).

    A problemtica ambiental deixou de ser um fator a ser considerado exclusivamente

    do ponto de vista tcnico, havendo necessidade de uma abordagem tica, poltica e

    filosfica. A tcnica, originria de uma sociedade que a criou para atender suas

    necessidades/desejos, traz embutidas as contradies desta mesma sociedade, o que por si

    s j a faz imperfeita para resolver problemas criados com a sua aplicao (Porto-

    Gonalves, 2004).

    Para Coimbra (2002) o caminho escolhido pela cincia em decompor o mundo,

    separando-a da religio, arte, economia e poltica no permite ver as inter-relaes

    existentes, prejudicando a prpria cincia. H um aspecto atual de se buscar solues

    pontuais sem prever as conseqncias advindas das relaes existentes. A cincia deve

    buscar a recomposio da sua unidade, o que permitir cincia cumprir seu papel

    libertador tambm na dimenso social.

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 25

    Segundo Porto-Gonalves (1989) uma nova cincia h de repensar o papel do

    sujeito na anlise do objeto e a relao existente entre eles. Esta idia compartilhada por

    Coimbra (2002) que, ao tratar dos sistemas vivos e da sua interconectividade, defende a

    idia de sistema holista em contraponto ao reducionismo atomstico-individualista.

    H trs teorias tidas como capazes de formar a base conceitual de uma nova

    cincia: a Teoria Geral dos Sistemas, a Teoria da Complexidade e a Teoria do Caos. A

    Teoria Geral dos Sistemas se prope a ... suplantar a fragmentao e perceber os

    fenmenos a partir da sua interconectividade holstica em contraponto cincia clssica,

    que adota como processo de anlise a fragmentao do todo para compreenso da parte,

    no considerando as ligaes e relaes entre as partes, esta teoria busca a compreenso do

    todo (Bertalanfy apud Camargo, 2005, p. 51).

    Ao contrrio da cincia clssica que trabalha com a reduo e simplificao dos

    problemas, a Teoria da Complexidade apresenta os sistemas complexos como sistemas

    caticos e auto-organizados, surgidos a partir de interaes e processos dinmicos que

    fazem emergir novos padres de organizao, conceito que est intimamente ligado idia

    de emergncia permanente de novas totalidades, intercalando estados de ordem e desordem

    que do origem a novas organizaes a partir de estados crticos. Por fim a Teoria do Caos

    a qual, ao contrrio do paradigma clssico determinista que busca estabelecer leis exatas

    explicativas dos fenmenos (relaes de causa e efeito), vem apresentar o acaso e a

    aleatoriedade como caractersticas dos sistemas caticos. Tais sistemas possuem

    previsibilidade inicial zero, por apresentarem sensibilidade s variaes das suas condies

    iniciais (Camargo, Op. cit.). Este autor cita Priogine & Stengerls (1984 e 1997) como

    defensores da idia de que flutuaes e instabilidade so elementos reorganizadores dos

    sistemas instveis, como os caticos, percebendo-se ento uma conectividade entre a

    Teoria Geral dos Sistemas, da Complexidade e do Caos.

    Como se procurou demonstrar tem sido grande a contribuio da cincia para a

    crise ambiental, devendo-se buscar a disseminao de um novo pensar e fazer cientficos,

    uma vez que a cincia moderna no conseguir resolver por completo problemas que ela

    mesma ajudou a criar enquanto perpetuar sua ideologia e prticas atuais.

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 26

    3.4. CONCEITOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTVEL

    Como se poderia ento alterar a realidade atual e construir uma nova realidade de

    ao humana sobre a natureza de modo a permitir o prolongamento da civilizao humana

    sobre a Terra? A resposta parece estar ligada ao conceito de desenvolvimento sustentvel e

    seus fundamentos, que sero discutidos a seguir.

    O processo civilizatrio, ao interferir na natureza, transforma-a e assim o faz ao

    prprio homem, trasmutando-o de um ser originalmente natural para um ser cultural.

    Assim, suas demandas se modificam, extrapolando as necessidades biolgicas para incluir

    os desejos sociais (necessidades criadas), o que leva ao paradoxo do desenvolvimento sem

    fim, onde possvel atender s necessidades bsicas sem, no entanto, jamais atingir a

    satisfao das necessidades criadas. O processo de desenvolvimento, ao consumir e

    degradar a natureza, pe em risco os recursos necessrios ao seu prprio desenvolver

    (Mendes, 1993).

    Enquanto as aes dos outros seres sobre os ecossistemas so quase sempre

    assimilveis o mesmo no acontece com as intervenes humanas, cujo potencial

    desequilibrador enorme. O homem tem percebido o limite natural de depurao destas

    intervenes sendo que foi na conferncia de Estocolmo em 1972 que se realizaram os

    primeiros debates a cerca da vinculao entre o desenvolvimento e o meio ambiente,

    cabendo a Maurice Strong, secretrio-geral desta conferncia, a utilizao pioneira da

    expresso ecodesenvolvimento, mais tarde substituda por desenvolvimento sustentvel

    (Camargo ,2003).

    Esta idia vinha sendo debatida desde o encontro de Founex, preparatrio para a

    conferncia de Estocolmo, onde se buscou um caminho intermedirio entre aqueles que

    acreditavam no fim da civilizao tendo em vista o esgotamento da capacidade suporte do

    planeta Terra devido ao esgotamento dos recursos naturais e pela excessiva poluio,

    denominados malthusianos, e os cornucopianos, que acreditavam no poder tecnolgico de

    superar a escassez fsica e de atenuar os efeitos da poluio. Foi neste perodo que ganhou

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 27

    fora a mensagem da esperana que, reconhecendo a gravidade e a complexidade do

    desafio ambiental, era possvel o planejamento e a implementao de ... estratgias

    ambientais viveis para promover o desenvolvimento socioeconmico eqitativo ..., idia

    que germinou como desenvolvimento sustentvel (Sachs, 1993, p. 12).

    Para Gifford Pichot (197- apud Diegues, 1996, p. 29) os princpios para a

    conservao propem o [...] uso de recursos naturais pela gerao presente; preveno de

    desperdcio e o uso dos recursos naturais para benefcio da maioria dos cidados. Nasce

    da a idia de desenvolvimento sustentvel.

    O relatrio Nosso Futuro Comum define o desenvolvimento sustentvel como [...]

    aquele que atende s necessidades do presente sem comprometer a capacidade das

    geraes futuras atenderem as suas prprias necessidades (Camargo, 2003, p. 46)

    Ainda que clara na inteno, esta definio de desenvolvimento sustentvel no

    elimina o conflito entre o que deve ser desenvolvido e o que deve ser preservado. A busca

    pelo desenvolvimento sustentvel implica no estabelecimento de novas relaes humanas e

    sociais, na construo interdisciplinar e sistmica do conhecimento, e na prtica do dilogo

    entre os diversos saberes e a comunidade (Camargo, Op. cit.).

    Baseado em autores como Riggs (1984), Herculano (1992), Brugger (1994),

    Maimon (1996) e Allen (1980), Camargo (2003) analisa etmologicamente a expresso

    desenvolvimento sustentvel, apontando o termo desenvolvimento como

    predominantemente representativo da idia de progresso, avano, aumento de riqueza, e,

    nos meios sociais, como evoluo de sistemas simples para complexos, enquanto que o

    verbo sustentar remete idia de segurar, suportar, apoiar e conservar, dentre outras.

    Sob a tica do processo de desenvolvimento humano atual e em especial aplicada

    relao homem-natureza, a expresso desenvolvimento sustentvel parece incompatvel,

    entretanto, o significado da expresso repousa na busca de um novo modelo de

    desenvolvimento, e o seu mrito ... na tentativa de conciliar os reais conflitos entre

    economia e meio ambiente e entre o presente e o futuro (Camargo, 2003, p. 72).

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 28

    Segundo Leff (2000), enquanto que do ponto de vista social o processo econmico

    suscita o conflito entre crescimento e distribuio, do ponto de vista ambiental a

    contradio aparece entre a conservao e o desenvolvimento

    Para Sachs (1993), no se trata de escolher entre desenvolvimento e meio ambiente,

    mas sim de optar entre formas de desenvolvimento que sejam sensveis ou no questo

    ambiental.

    O modelo atual de desenvolvimento no tem contemplado os aspectos ambientais, a

    ponto de os principais ndices econmicos no considerarem a degradao ambiental como

    parmetro de avaliao (Camargo, 2003).

    De acordo com Sachs (1993), so cinco as dimenses da sustentabilidade que

    devem ser buscadas, definidas em funo da melhoria das condies da vida humana e em

    respeito aos limites da capacidade de carga dos ecossistemas. Essas dimenses foram

    denominadas de social, cujo objetivo alcanar uma maior equidade na renda de modo a

    reduzir as distncias extremas entre os padres de vida; econmica, que deve equalizar o

    fluxo de recursos entre as naes; ecolgica, que trata de aumentar a capacidade de

    suporte do planeta Terra; espacial, que deve se voltar para uma melhor organizao do

    espao rural e principalmente urbano, permitindo um melhor desenvolvimento econmico,

    e cultural, dimenso que permitir a traduo do conceito de sustentabilidade s solues

    particulares respeitando as especificidades.

    Como se ver adiante h srios entraves aplicao destes conceitos num ambiente

    de racionalidade econmica dominante.

    O objetivo do desenvolvimento sustentvel compreende a busca de um

    desenvolvimento que no esteja centrado apenas na gerao econmica de riqueza, mas

    que englobe os interesses sociais e os limites naturais de suporte, buscando paralelamente,

    ser este desenvolvimento uma alternativa de soluo para problemas globais que no esto

    restritos degradao ambiental, incorporando as dimenses sociais, polticas e culturais

    (Camargo, 2003).

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 29

    Para Leff (2001), o discurso do desenvolvimento sustentvel expresso por meio

    de estratgias no homogneas e por vezes conflitivas, indo desde a tentativa de

    internalizao dos aspectos ambientais pela economia neoliberal at a construo de uma

    nova racionalidade econmica. Assim, como alternativas tecnolgicas encontram-se tanto

    o uso de tecnologias limpas e a reciclagem de rejeitos, como tambm a mudanas de

    valores e comportamentos humanos.

    Considerar a dimenso ambiental no planejamento do desenvolvimento, e o custo

    ecolgico no modelo econmico, encontra uma srie de obstculos, interesses opostos,

    metodologias e dificuldades prticas, uma vez que a racionalidade econmica no

    incorpora as externalidades ambientais nem os princpios de um desenvolvimento

    sustentvel. Uma nova racionalidade deve ser fundamentada no conceito de ambiente

    como potencial produtivo e no como fonte de recursos e local de depsito de resduos,

    sendo princpios ambientais do desenvolvimento a conservao e ampliao da capacidade

    produtiva dos ecossistemas, a inovao de tecnologias ecologicamente sustentveis e a

    conservao dos valores culturais das comunidades locais. A dificuldade em encontrar

    parmetros que expressem o potencial ambiental e os custos scio-ambientais dificulta a

    transformao desta racionalidade econmica (Leff, 2000).

    Leff (2001), ao tratar dos conceitos de dvida financeira, dvida ecolgica e dvida

    da razo, remete a uma reflexo sobre a sustentabilidade do modelo adotado pelos pases

    desenvolvidos e almejado pelos pases em desenvolvimento, no qual o fenmeno da

    globalizao tende a acentuar as diferenas, enquanto promete recompensas aos que o

    seguirem.

    A crise da dvida dos pases do Terceiro Mundo criou espao para a lgica do

    desenvolvimento como sada para estes pases, dando lugar aos programas neoliberais. O

    desenvolvimento sustentvel substitui o Ecodesenvolvimento. As estratgias do poder

    modificam o discurso sua convenincia, sem, no entanto, explicar as contradies deste

    mesmo discurso (Leff, 2000).

  • Captulo 3 Crise Ambiental e o Despertar para a Conscincia Ecolgica 30

    Sachs (1993) defende que, ao invs de exportar para os pases em desenvolvimento

    seu modelo de vida, os pases desenvolvidos deveriam reconsiderar seus padres de

    consumo e de desperdcio.

    A tendncia tradicional de explorao e dominao da natureza, reflexo das

    relaes sociais onde a explorao homem-homem esteve presente ainda persiste, embora

    com um discurso enfeitado com uma hipcrita retrica igualitria. Como inconsistncia

    caracterstica da nossa sociedade continua-se a acreditar no que se quer ver, uma natureza

    prdiga, paradisaca e de recursos inesgotveis (Da Matta, 1999, p. 142).

    Enquanto que Camargo (2003) defende que os entraves ao desenvolvimento

    sustentvel global encontram-se fundamentados nas relaes conflituosas entre os seres

    humanos, refletindo-se na relao homem-natureza, para Leff (2001), a qualidade de vida

    o fim ltimo do Desenvolvimento Sustentvel e tambm do sentido da existncia humana

    De acordo com Sachs (1993), a implantao do desenvolvimento sustentvel passa

    necessariamente por um perodo de transio onde se promova o crescimento econmico

    dos pases ditos no desenvolvidos, tendo em vista que a crescimento da desigualdade

    promove o crculo vicioso da pobreza e da degradao ambiental.

    Segundo Leff (2000), os princpios ambientais do desenvolvimento devem

    considerar a conservao e a ampliao da capacidade produtiva dos ecossistemas tendo

    em vista a sua produtividade, o uso de tecnologias inovadoras ecologicamente sustentveis

    e os valores culturais das comunidades locais. Para que se alcance um desenvolvimento

    sustentvel preciso conhecer de que a forma as leis da Natureza se articulam com os

    processos produtivos, o que depende de cada ecossistema e tambm de cada formao

    social.

    Segundo Mendes (1993), mais do que buscar um desenvolvimento sustentvel

    deve-se procurar uma sociedade sustentvel, onde a racionalidade social substitua a

    racionalidade econmica.

  • CAPTULO 4

    DESENVOLVIMENTO URBANO E A CONTRIBUIO DA

    CONSTRUO CIVIL PARA A CRISE AMBIENTAL

    URBANA

  • Captulo 4 Desenvolvimento Urbano e a Contribuio da Construo Civil para a Crise Ambiental Urbana 32

    4. DESENVOLVIMENTO URBANO E A CONTRIBUIO DA

    CONSTRUO CIVIL PARA A CRISE AMBIENTAL URBANA

    Para que se possa ter uma compreenso da natureza e caractersticas dos danos

    ambientais causados pela construo civil, objeto central de estudo desta dissertao, h que

    se conhecer o processo de urbanizao e sua ocorrncia no Brasil, uma vez que nas

    cidades onde mais intensamente o setor da construo civil exerce suas atividades, bem

    como de que modo e por que a construo civil contribuiu e ainda vem contribuindo para a

    degradao ambiental.

    4.1. O PROCESSO DE URBANIZAO

    Urbanizao pode ser definida como um processo que transforma a ocupao do

    espao pela populao, de uma forma menos densa para outra concentrada nos centros

    urbanos. H uma vinculao desta ocupao concentrada diviso do trabalho e produo

    de excedentes pelo campo, destacando-se como caracterstica marcante das cidades

    modernas a sua funo de mercado, em contraponto funo das cidades antigas, qual seja a

    de abrigo em tempo de guerras (Serra, 1987).

    Na opinio de Sachs (1986), a urbanizao a transformao social mais importante

    do nosso tempo, evoluindo de tal forma a fazer com que a populao urbana ultrapasse a

    rural, com caractersticas explosivas no Terceiro Mundo e especialmente na Amrica Latina,

    levando formao de grandes metrpoles.

    As primeiras cidades teriam se formado em torno de locais cerimoniais, sendo que as

    runas urbanas mais antigas que se conhece datam de cerca de 3.000 a.C. Ao passar de

    coletor a produtor e, posteriormente, a produtor de excedente, o homem criou as condies

    para o surgimento das cidades, cujas construes foram inicialmente feitas de materiais que

    estavam mo, tais como o barro, os galhos e a palha, e a pedra, evidenciando assim a

  • Captulo 4 Desenvolvimento Urbano e a Contribuio da Construo Civil para a Crise Ambiental Urbana 33

    relao entre construo e meio ambiente que haveria de perdurar intensificando-se

    continuamente (Serra, 1987).

    Serra (Op. cit.) estabelece uma relao entre os perodos de paz e prosperidade

    econmica com um maior ou menor desenvolvimento das cidades, entretanto destaca que a

    partir do Renascimento no sculo X que se verifica um crescimento das cidades no

    somente intra-muros, chamado velho burgo mas tambm no seu entorno, o novo burgo,

    cujo crescimento se d desta forma at o sculo XIII, porm com construes feitas por

    meio de processos de baixa tecnologia.

    Ainda segundo este autor, fenmenos como o crescimento do comrcio, a migrao

    da populao entre diferentes regies da Europa, a centralizao de poder dos reis e a

    incorporao da Amrica ao mundo europeu contriburam de formas diversas para a

    intensificao da urbanizao, destacando de maneira especial a contribuio da

    industrializao, especialmente txtil e metalrgica, para este processo tendo em vista a

    concentrao de um grande nmero de trabalhadores ao redor da fbrica. Tambm destaca a

    importncia da inveno da mquina a vapor, do motor exploso e do motor eltrico, uma

    vez que ao libertar-se da fora hidrulica a indstria libertou-se da localizao rural,

    facilitando sua atrao para as cidades.

    Progressivamente passou-se de uma sociedade rural baseada no feudo e onde as

    poucas cidades no se articulavam para uma sociedade urbana, fruto da intensa imigrao

    dos camponeses sem trabalho e da acumulao do capital. A indstria capitalista no s

    necessitou da base urbana para se desenvolver como tambm a influenciou alterando as

    caractersticas das cidades antigas, basicamente comerciais, religiosas ou de governo, para

    centros de produo interligados, acelerando o seu crescimento no s pela concentrao das

    indstrias e da populao como tambm atraindo para estas o poder econmico e poltico. O

    aumento da acumulao da riqueza nos centros urbanos acompanhado do aumento da

    misria, num processo que indica o carter segregador do modo capitalista de produo

    (Carlos, 1992).

  • Captulo 4 Desenvolvimento Urbano e a Contribuio da Construo Civil para a Crise Ambiental Urbana 34

    4.1.1. A urbanizao no Brasil

    O crescimento populacional brasileiro das ltimas dcadas deu origem a uma grande

    concentrao de pessoas nas reas urbanas, o que pode ser verificado na tabela 4.1, que

    mostra que at a dcada de 1960 a populao rural superava a urbana e, a partir da dcada

    seguinte, o crescimento das cidades a taxas expressivas inverteu esta situao a ponto de em

    2000 a populao urbana representar cerca de 81,2% da populao total brasileira, vivendo

    boa parte dela (cerca de 30,11% em 1996) nas regies metropolitanas (Mota, 1999 e IBGE,

    2007).

    Tabela 4.1

    Populao brasileira rural e urbana

    N hab % N hab %1940 1