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  • Alcipe e os Salmos

    A parfrase dos salmos levada a cabo por D. Leonor de AlmeidaPortugal constitui uma das facetas menos estudadas da sua obra: no s no temdespertado o interesse daqueles que se debruaram sobre a sua poesia, como rara-mente surge mencionada na escassa bibliografia relativa s adaptaes etradues do texto bblico para a lngua portuguesa 1. possvel que este esque-cimento se deva, em parte, complexidade do tema: pelo facto de se tratar de umdos livros mais antigos da Bblia e sendo constitudo exclusivamente por poemasdestinados ao canto, o Saltrio suscita questes do ponto de vista ecdtico, estils-tico e exegtico cuja complexidade constitui um desafio para os estudiosos. tendo em conta essas dificuldades que partimos para a abordagem da verso deAlcipe advertindo o leitor de que, mais do que um trabalho acabado, o que aquise apresenta dever ser visto como um relatrio de investigao, correspondendoa uma fase de levantamento de dados e de problemas.

    Na exposio que se segue, centrar-nos-emos na relao da Marquesa deAlorna com o texto dos salmos bblicos. As informaes que pudemos reunirsobre o assunto at ao presente levam-nos a ter em conta dois aspectos funda-mentais: por um lado, a documentao existente permite situar o convvio de D.Leonor de Almeida com o Livro dos Salmos, na sua juventude e, por outro, o estu-do comparativo das trs edies conhecidas da sua parfrase publicadas respec-tivamente em 1817, em 1833 e em 1844 revela que se tratou de um projectodesenvolvido em vrias fases, no qual a autora trabalhou ao longo de, pelo menos, duas dcadas. No tratamento destes dados, procuraremos reflectir acercado significado que poder ter a parfrase dos salmos levada a cabo por Alcipe nocontexto da sua biografia, no conjunto da sua obra, e no mbito mais vasto da suaestratgia de actuao enquanto mulher de letras.

    1 Menciona-a, Fortunato de ALMEIDA, no captulo XI Literatura Eclesiastica da Histria da Igrejaem Portugal, tomo III, Porto-Lisboa, 1970, 407, nos termos seguintes: Entre os poetas tradutores delivros bblicos figura a Marquesa de Alorna, D. Leonor de Almeida Portugal Lorena e Lencastre, queem vrios ritmos parafraseou os cento e cinquenta salmos. Este trabalho, com as parfrases de outroscantos bblicos e de alguns hinos eclesisticos, veio a formar o tomo VI das Obras da Marquesa.Infelizmente o exaustivo trabalho de G. L. Santos FERREIRA, A Bblia em Portugal, Lisboa,Typografia Ferreira de Medeiros, 1906, ignora esta obra.

    Via Spiritus 12 (2005) 109-153

  • Aprender com os Salmos

    Como se sabe, D. Leonor de Almeida Portugal viveu reclusa no con-vento de So Flix, em Chelas, entre os 8 e os 26 anos de idade, graas a umamedida poltica tomada por D. Jos I e pelo seu Primeiro Ministro na sequnciado atentado ao monarca ocorrido a 3 de Setembro de 1758. Durante os 18 anosem que permaneceu no convento, D. Leonor esteve separada de seu pai, D. Joode Almeida Portugal, 2 Marqus de Alorna, que havia sido encarcerado inicial-mente na torre de Belm e, mais tarde, no Forte da Junqueira. No entanto, apesarde se encontrar isolado da famlia, D. Joo conseguir, atravs de diversos estra-tagemas, corresponder-se em segredo, primeiro com a mulher, D. Leonor deLorena, depois com as filhas e, posteriormente, com o filho, D. Pedro Jos deAlmeida Portugal, que ficara em liberdade, mas sob tutela do Marqus dePombal. Por motivos de segurana, as cartas trocadas entre D. Joo de Almeida ea famlia neste perodo no se encontram datadas, mas possvel situar asprimeiras missivas esposa, de forma aproximada, em torno dos anos 1763-1764,e s filhas a partir de 1764.

    Um dos traos mais caractersticos das cartas de D. Joo de Almeida ofacto de no se demitir nunca do seu papel de educador, apesar das barreiras queo separam da famlia. Este aspecto especialmente observvel nos escritos dirigi-dos me de Alcipe, nos quais, para alm de manifestar as suas preocupaescom a precaridade dos meios de que dispe para levar a cabo essa misso, d indi-caes precisas quanto ao modo como esta dever orientar os filhos 2. Estas mis-sivas revelam-nos um homem profundamente religioso, capaz de manter inaba-lada a f que deposita no seu Deus apesar das maiores provaes. Feito pri-sioneiro por suspeita de um crime que no cometeu, D. Joo no duvida de que aVerdade e a Justia prevalecero, e encara o sofrimento como um meio de queDeus se serve para lhe permitir aperfeioar-se espiritualmente. Diz, por exemplo, esposa, em carta no datada:

    Como diz Santo Agostinho e So Jernimo os nossos pecados so remidospela confisso, so cobertos pela caridade de Deus e desvanecem-se pelomartrio. Assim assentemos que com este martrio quer Deus desvanecertodas as nossas culpas, e alegremo-nos desta especialidade com que Deusnos trata, e certamente que no pode haver martrio que melhor mostreproceder da bondade de Deus do que o nosso, no havendo em ns nadaque pertena justia da terra que nos persegue e que devemos considerarcomo instrumento de que Deus se serve para a nossa purificao 3.

    110 Vanda Anastcio

    2 Esta correspondncia, preservada no Arquivo do Palcio Fronteira, encontra-se em fase de publicao.3 Arquivo do Palcio Fronteira (cota: JOAMUL28). Nas transcries da correspondncia mantivemosa pontuao e o emprego das maisculas do original e modernizmos a ortografia nos aspectos queno corresponderiam a traos de pronncia.

  • Estas afirmaes ilustram um aspecto particularmente relevante nomomento em que tentamos entender os fundamentos dos princpios adoptados naeducao de D. Leonor de Almeida: o facto de estarmos perante indivduos ideo-logicamente integrados numa cultura e num sistema social marcados a todos osnveis (legislao, instituies, actuao poltica, prticas sociais) peloCatolicismo4. Assim, no surpreende que as recomendaes feitas por D. Joo deAlmeida a sua mulher se baseiem numa viso do mundo estruturada a partir dareligio. Sublinhe-se, no entanto, que o Marqus de Alorna agia de maneira infor-mada, apoiando as suas opinies num nmero aprecivel de obras pedaggicasque tiveram grande circulao na poca. Tratava-se, necessariamente, de leiturasanteriores sua priso, mas que no podemos afirmar que estivessem desactua-lizadas: os textos de Claude Fleury (1640-1723), de Charles Rollin (1661-1741),de Fnelon (1651-1715) ou do prprio Pascal (1623-1662), repetidamente men-cionados nas cartas do pai de D. Leonor de Almeida nas dcadas de 60 e 70, con-tinuaram a ser tomados quer como modelos, quer como tema de controvrsia, emPortugal como noutros pases europeus, durante a centria seguinte 5. neste con-texto, e em associao com a educao crist que deseja dar s filhas, que encon-tramos os documentos mais claros de que o Saltrio ter sido apresentado aAlcipe desde cedo, simultaneamente como modelo potico e moral.

    A leitura atenta destas missivas permite verificar que um dos problemascom que se debatem os pais de D. Leonor de Almeida enquanto educadores ,

    Alcipe e os Salmos 111

    4 Para uma tentativa sinttica de caracterizao da sociedade portuguesa da poca, veja-se: AntnioHESPANHA, As identidades eminentes: catlicos, europeus, hispnicos in Histria de Portugal,(dir. Jos Mattoso), vol. IV, Lisboa, 1993, 20-25.5 Recordemos a ttulo apenas ilustrativo que a obra de Charles ROLLIN, De la manire denseigner etdtudier les Belles-Lettres, Paris, 1726-1728 havia constituido uma das fontes do Verdadeiro Mtodode Estudar de Lus Antnio Verney (Cfr.: Antnio A. Banha de ANDRADE, Verney e a Cultura do seuTempo, Coimbra, 1965) e que Os Discursos do Abade Fleury, apesar de terem sido proibidos peloEdital da Mesa Censria de 26 de Novembro de 1772, foram traduzidos e publicados em Lisboa emvolume dedicado a Frei Manuel do Cenculo em 1773 (DISCURSOS / SOBRE A HISTORIA /ECCLESIASTICA / POR Mr. O ABBADE DE FLEURY / NOVA EDICAM, / Augmentada dosDiscursos sobre a Poezia / dos Hebreos, sobre a Escriptura Santa, / sobre a Pregao, sobre as Liberda-/ des da Igreja Gallicana. / AJUNTOU-SE-LHES O DISCURSO / Sobre a Renovao dos EstudosEcclesias / ticos de M. o Abbade Goujet, e hum / Index composto pelo Tradutor/ Exposto tudo na lin-gua Portugueza, e offrecido / AO EXCELLENT. E REVER. SENHOR / D. Fr. MANOEL DOCENACULO, / Bispo de Beja, do Conselho de Sua Magestade, Con / fessor, e Mestre do SerenissimoSenhor Principe / da Beira, e Presidente da Real Meza Cen- /soria &c. &c. &c. / PELO BACHAREL/ LUIZ CARLOS MONIZ BARRETO / TOMO III / LISBOA, / Na Officina de ANTONIO VICENTEDA SILVA / MDCCLXXIII / Com licena da Real Mesa Censoria / A custa de Luiz Antonio Alfeiro,vende-se em sua caza.). Lembremos tambm que o Catecismo Histrico do mesmo autor, que , defacto, uma verso abreviada da obra acima referida, se encontrava traduzido para portugus, pelomenos, desde 1753, e que foi repetidas vezes reeditado em Portugal at aos anos 80 do sculo XIX.

  • precisamente, o seu talento. Homem culto e interessado pelas letras 6, D. Joo deAlmeida no condena a veia potica da filha um facto de certo modo surpreen-dente se tivermos em conta qual era o papel reservado s mulheres solteiras noPortugal das dcadas de 60 e 70 do sculo XVIII 7 ou, at, as reservas manifes-tadas pela maioria dos pedagogos de ento quanto prtica da poesia pelosjovens e pelas mulheres 8. Tal como muitos dos pensadores do seu tempo, o paide Alcipe considera que o gosto pela composio de poemas constitui uma incli-nao perigosa, mas parte do princpio de que esta pode ser guiada e regula-da, de acordo com um programa que comea por expr, nos termos seguintes,em carta no datada preservada no Arquivo do Palcio Fronteira:

    Sobre os versos de Leonor acho-os galantssimos e no importam asregras de nada e o que eu observo certamente a naturalidade e j umadisposio no discurso que certamente rara na sua idade porque nestesltimos versos se v um princpio, um progresso e um fim encerram emsubstncia o que ela verdadeiramente me devia dizer que para louvar aDeus como por infuso vai suprindo a fal