Normas Tributarias Indutoras e Intervencao Economica

  • View
    13

  • Download
    0

Embed Size (px)

DESCRIPTION

n

Text of Normas Tributarias Indutoras e Intervencao Economica

  • INTRODUO

    A expresso "Estado do Imposto" (Steuerstaatf rala uma das ca-ractersticas do Estado contemporneo: sua fonte de financiamento , pre-dominantemente, dc origem tributria e, especialmente, proveniente dos impostos.

    Em sua funo arrecadadora, os tributos vm merecendo ateno da doutrina, cujo desenvolvimento, principalmente no ltimo sculo, permitiu que se &massem seus contornos juridicos, refletindo-se tal evoluo, no caso brasileiro, at mesmo no texto constitucional, que se dedicou extensa-mente matria.

    A ideologia, que reinou at o incio do ltimo sculo, segundo a qual o Estado atuaria como mero vigilante de uma economia que se auto-rcgulava, viu-se superada com o modelo a partir do qual o Estado passava a desempe-nharumpapel ativo e permanente nas realizaes inseridas no campo econ-mico, assumindo responsabilidades para a conduo e funcionamento das prprias foras econmicas. Esse fenmeno encontra, no plano constitucio-nal, uma primeira manifestao no Mxico, em 1917 e, logo em seguida, na Alemanha, com o texto de Weimar. Viu-se paulatinamente estendido a ou-tros textos constitucionais, alcanando o Brasil, em 1934 c a partir dai dei-tando razes mais profundas nos textos constitucionais subseqentes.

    neste sentido que se afirma que o Estado contemplado pela Carta de 1988 no neutro. Seguindo a tendncia acima, o constituinte brasileiro re-velou-se inconformado com a ordem econmica e social" que encontrara,

    Cf. Joseph Sehumpeter, Die Krisc dcs Stcucrstaats, Gmz/ Leipzig, Lcuscliner & Lu-benslcy, 1918. Pojjfm A traduo "Estado do Imposto" c literal; deve ser adotada no mesmo sentido de "Estado Fiscal". O te.xto constitucional de 1988 scgrcga a "Ordem Econmica e Financeira" (Titulo VII) da "Ordem Social" (Titulo VIII). Neste estudo, no se acatar tal diferenciao, fazendo-se, por vezes, referncia "ordem econmica e social", por vezes apenas "ordem econmica", como sinnimos; de igual modo, a "interveno econmica" no se limitar ao campo da "ordem econmica", estendendo-se "ordem social".

  • XIV Lus Eduardo Schoucri

    enumerando uma srie dc valores sobre os quais se deveria finnar o Estado, o qual, ao mesmo tempo, se dotaria dc ferramentas hbeis a concretizar a ordem desejada. No lugar de se ter um ordenamento dado, que deve ser apenas mantido ou adaptado, o legislador constituinte preconizou uma rea-lidade social nova, ainda inexistente, cuja realizao e concretizao, por meio de medidas legais, passa a ser interesse pblico.' Esta nova realidade se traduz no desenvolvimcno econmico, prestigiado pela Constituio de 1988, que inclui, no artigo 3, entre "os objetivos fundamentais da Rep-blica" o da garantia do "desenvolvimento nacional", o que, entretanto, no se compreende isoladamente de outros objetivos, como o du construo de uma "sociedade livre, justa e solidria", onde se erradicaio "a pobreza e a marginalizao" e se reduziro "as desigualdades sociais e regionais", pro-movendo, enfim, "o bem de todos, sem preconceitos de origem, raa, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminao". Dai, ao se ressaltar a importncia do desenvolvimento econmico, ser possvel qulific-io como "justo para que se tome legtimo", no sendo ura fim em si mesmo, devendo afinar-se com o desenvolvimento humano.''

    Tampouco na formulao das normas tributrias, pode-se cogitar, em semelhante contexto constitucional, de uma atuao neutra da parte do legislador,^ cabendo-lhe ponderar os efeitos econmicos de suas me-

    Valc lembrar, neste diapaso, que o texto constitucional nem sequer eocronte na se-^ g a S o que pretendeu impor. Basta citar, neste aspecto, o artigo 220, 5, inserido eih plcna "ordem social", que versa sobre monoplios e oligoplios de meios dc co-municao, lema intimamente ligado ordcih econmico. Acerca da indivisibilidade dos conceitos referidos, cf. Fbio KonderComparato, "Ordem Econmica na Consti-tuio Brasileira de 1988", Jlcvisa dcDrcilo Pblico, n 93, jan^mar., 1990, pp. 263 a276(263).

    Filippo Salta. Principio di Lcgalil c Pubblica Amminisirazione ncllo Slalo Demo-crmico. Padova, CEDAM, 1969, p. 37. C{.KauoljAoToTns.TraladodedirtlocottslimtonalJmmceiroclrbulro,vo-liime V: o bramcho na Constituio. 2" edio, revista e atualizada ale a publicao da Emenda Constitucional n 27, dc 21.03.2000, e da Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei complemenlarn" 101, dc (M.05.2000), Rio de Jandio, Renovar, 2000, p. 230. Sobre a ulopia da neutralidade {Ncuiraliltsutopie), cf. Konrad Lillmann, "Ein Valct dcm Lcistun^lUhigkeitsprihztp" ,Theorii! und Praxis dcs Jlnanzpolilischen Intcr-venllonriuis, Heinz Hiller, L fOilImer, CarI S. Shoup e Hcriicrt Timm (orgs.). Tu-bingen, J.C. B. Moohr (Paul Sicbeck), 1970, pp. 113 a 134 (128).

  • NomusTributriasIndutoiascInlmxnoEconncs 3

    didas. J SC disse que as "finanas neutras (...) ou que pretendem deixar a estrutura social como a encontraram, so, na realidade, tambm politicas. Defendem uma poltica dc carter conservador, no prcs.suposto dc que o c.\istente c mais justo ou adequado coletividade em cujo seio s proces-sa".^

  • Capitulo I

    ' D I S C I P L m i f c r ^ l T C l O N M r D R E G U L A ^ DA ATIVIDADE ECONMICA E AS NORMAS

    TRIBUTRIAS INDUTORAS

    A proposta de estudo das normas tributrias enquanto instrumento de interveno econmica exige que se examinem as diretrizes que o Direito Econmico impe quela atuao estiital. Assim que, num pri-meiro momento, se estudar a interveno econmica, investigando-se a forma como as normas tributrias podem' ser includas nesse fenme-no, A partir da, exminar-se-o os fundarhentos e objetivos da prpria interveno econmica, buscando-se a atuao das normas tributrias indutoras.

    1.1. Interveno Econmica c Normas Tributrias Indutoras

    1.1.1. Interveno no domiiio econmico e sobre o domnio no dommio economip e sobre o doi

    A interveno econmica do Estado pode dar-se de modo direto e in-direto.

    Refere-se Moncada interveno direta como a "forma de interven-o que faz do estado um agente econmico principal, ao mesmo nvel do agente econmico privado", que "s concebvel numa forma de estado claramente intervencionista, que veja numa certa representao que das suas funes se faz o fiindamento da ordem jurdico-econmica".' Trata-se daquela que Washington Peluso Albmo de Souza denominou "a atuao do

    1 Cf. Lus S. Cabral dc Moncada, ob. ciL (nota 108 da InUoduo) p, 221.

  • 42 Luis Eduardo Sciioucri

    Estado Empresrio",' e Eros Roberto Grau, reservando a tal modalidade de aniao a expresso "interveno no Dominio Econmico", tratou como interveno "por absoro", se o Estado assume por inteiro o controle dos meios dc produo e/ou troca, atuando cm regime de monoplio, ou "por participao", nos casos cm que apenas parcela dos meios de produo em determinado setor do Domnio Econmico c detida pelo Estado.' Tambm Joo Bosco Leopoldino da Fonseca identifica a atuao direta quando o Estado "passa a atuar como empresrio, comprometendo-se com a ativida-de produtiva, quer sob a forma de empresa pblica quer sob a de sociedade de economia mista", identificando-se a atuao do Estado "em regime con-correncial, cm que sc equipara com as empresas privadas, ou em regime monopolstico".'^

    Em oposio a tal modalidade de interveno, apresenta Moncada a indireta, como aquela na qual "o estado no se comporta como sujeito eco-nmico, no tomando parte ativa e directa no processo econmico. Tra-ta-se de uma interveno exterior, de enquadramento e de orientao que se manifesbi em estmulos ou limitaes, de vria ordem, actividade das em-presas".' Tambm a ela se refere Washington Peluso Albino de Souza, de-finido-a a partir do modo como se exterioriza: "aquela que se realiza por meio da legislao regulamentadora, bem como a reguladora, em todos os nveis de instrumentosjuridicos (leis, decretos, circulares, portarias, avisos e assim por diante)".' interveno indireta se refere Eros Roberto Grau, quando trata das modalidades de interveno sobre o Dominio Econmico, ali distinguindo a interveno por direo e por induo J Esta distino se explorar no prximo tpico.

    AmbM as fornias de interveno tm atuao no (ou sobre o) Dominio Econmico. Importa defini-lo. Para tanto, parte-se da idia de interveno do Estado para se compreender que intervir necessariamente sigmfica o Estado ingressar em rea que originalmente no lhe foi

    2 Cf. Washington Peluso Albino de Souza. Primeiras Unhas da Direito Econmico, 4" edio, So Paulo, LTr, 1999, p. 333.

    3 Cf. Eros Roberto Grau, ob. cit. (nota 34 da Inttoduo), p. 156; idem, ob; ci t (noUi 104 da Introduo), p. 65.

    4 cr. Joo Bosco Leopoldino da Fonseca. Direito Econmico, 3" edio. Rio dc Janei-; , ro.Fotnse, 2000, p. 245.

    5 cr. Luis S.Cabral de Mohead^ob. cit (nob 108 da Introduo), p. 337. 6 CC Wadiington Peluso Albino de Soiaa, ob. cit (nota 2), p. 333. 7 cr. Eros Roberto Grau, ob. cit (nota 34 da Introduo), p. 156; idem, ob. ci t , p. 65;

    idem, ob. cit, pp. 23-24.

  • NorniasTribuiriasIndutorascIntcwnSoEcanmica -JS

    cometida. Assim, no ii intci^'cno nos casos dc que trata o artigo 175 (prestao de servios pblicos, que incumbe ao Poder Pblico, na forma da lei, diretamente ou sob o regime dc concesso ou permisso). De interveno, por outro lado, trata o artigo 174, que se refere a atividade do Estado "como agente normativo e regulador da atividade econmica". Esle Dominio Econmico c, assim, campo estranho ao Estado, que apenas atua diretamente (interveno por absoro ou por participao) na forma do artigo 173. Este dispositivo constimcional, por sua vez, contemplando a atuao no Dominio Econmico, impe, dentre ou&as condies, "a sujeio ao regime juridico prprio das empresas privada.s, inclusive quanto aos direitos e obrigaes civis, comerciais, trabalhistas c tributrios" (artigo 173, 1", 11), determinando, ainda, o 2" que "as empresas pblicas e as sociedades de economia mista no poderiio gozar de pr