O LUGAR DA VOCAÇÃO AGRÁRIA E DA VOCAÇÃO INDUSTRIAL ?· o lugar da vocaÇÃo agrÁria e da vocaÇÃo…

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  • O LUGAR DA VOCAO AGRRIA E DA VOCAO

    INDUSTRIAL NOS DISCURSOS DE GETLIO VARGAS:

    UMA ANLISE DE A NOVA POLTICA DO BRASIL

    Fabrcia Carla Viviani1

    RESUMO: Considerando as transformaes em direo industrializao no perodo 1930-1945 como resultado de processo em movimento, em que os atores sociais e suas escolhas se definiram no campo do exerccio da poltica, o objetivo deste texto apresentar uma sistematizao dos discursos do primeiro governo Vargas, condensados em A Nova Poltica do Brasil. Ao que tudo indica, essa coletnea consistiu, por um lado, em sntese do pacto e do convencimento, ao tornar-se importante elemento na batalha ideolgica, e por outro, como um instrumento de projeo para realizao das propostas e argumentos subjacentes aos discursos. Sendo assim, propomos apresentar A Nova Poltica do Brasil, em suas caractersticas gerais, estrutura temtica e organizativa; e, concomitantemente, abordar genericamente a tenso entre vocao agrria x vocao industrial presente nos volumes. PALAVRAS-CHAVE: Getlio Vargas; A Nova Poltica do Brasil; vocao agrria/

    vocao industrial;

    INTRODUO E PROBLEMA DE PESQUISA

    O processo desencadeado a partir da Revoluo de 1930 provocou profundas

    transformaes na sociedade brasileira. No intervalo de quinze anos do primeiro

    Governo Vargas - 1930/1945 - j eram perceptveis os delineamentos de uma

    sociedade com fortes entonaes modernas. Transitamos do modelo mercantil

    exportador sociedade urbano-industrial; do ultrafederalismo ao centralismo; de

    Estado patrimonial a Estado burocrtico moderno; de poderes locais construo da

    ideia de nao e nacionalidade; do liberalismo caricato construo do Estado como

    agente econmico e mediador dos conflitos sociais, sob concepes orgnicas e

    corporativistas.

    A primeira fase da Era Vargas tambm operacionalizou a rotao de sentido

    entre tenses restritas ao escopo scio- poltico (Aliana Liberal) para a esfera

    econmica (projeto desenvolvimentista de base industrial), no qual ocorreu uma

    mudana ideolgica profunda e muito significativa, com progressivo distanciamento

    dos ideais liberais marca da Primeira Repblica e paulatina inclinao ao modelo

    1 Doutoranda do Programa de Ps-Graduao em Cincia Poltica da Universidade Federal de

    So Carlos (PPGPOL-UFSCar). Docente do Instituto Federal de Educao, Cincia e Tecnologia de Mato Grosso do Sul (IFMS). e-mail: fabriciaviviani@yahoo.com.br

    mailto:fabriciaviviani@yahoo.com.br
  • intervencionista de planejamento e de defesa da industrializao. Portanto, a partir da

    dcada de 1930, a industrializao estabeleceu-se, paulatinamente, como valor

    ideolgico na medida em que significou uma prioridade para a Nao que se gestava,

    e operou um movimento estratgico de deslocamento da vocao agrria para a

    vocao industrial.

    Nesse nterim, se tornou objeto de estudo de muitos pesquisadores a

    observao da transio de um pas de economia agroexportadora, fundamentada na

    vocao agrria, para um pas que buscaria recursos (polticos ou econmicos) a fim

    implementar um projeto de industrializao.

    Um amplo conjunto de pesquisadores produziu uma gama de interpretaes

    que apontou a Era Vargas e como chave na construo da modernizao brasileira.

    No por acaso, a literatura que associa Era Vargas industrializao igualmente

    extensa e destaca a vinculao de seus Governos em ambas fases 1930-1945 e

    1951-1954 construo da ossatura do Leviat, forjadora do processo de

    desenvolvimento industrial via protagonismo do Estado. Autores como Furtado (1975),

    Tavares (1972), Pelez (1972), Draibe (2004), Fonseca (2003; 1989), Suzigan (2000),

    Diniz (1978), Corsi (2008; 2000), Bastos (2011; 2005), Fiori (1990), Bielschowsky

    (2000) debruaram sob a tentativa de identificar a ao do Governo Vargas como

    articulador desse modelo de desenvolvimento.

    Portanto, h consenso de que o eixo dessa inflexo passou pela Era Vargas,

    quer seja entre 1930-1945 (constructo ideolgico), quer seja entre 1951-1954 (busca

    da efetivao). Foi nesse interregno que o Brasil passaria a desenvolver um projeto

    que consolidasse a industrializao, entendida como modelo de superao do atraso.

    Discordncias parte, as interpretaes esto preocupadas em localizar os

    contornos do projeto varguista, quais as bases iniciais e suas caractersticas e

    estratgias inerentes, sempre considerando a industrializao como a via de

    passagem para a sociedade moderna. Contudo, a literatura se divide entre aqueles

    que apontam uma intencionalidade na poltica industrialista de Vargas, o que

    pressupe que ele j compartilhava do valor/ideia da industrializao no limiar da

    Revoluo de 1930, mas no de um projeto (FONSECA, 1989, 2003), e aqueles que

    apontam que tal projeto emergiu de um contexto especfico dos anos 30 e 40,

    integrando os desdobramentos desencadeados do avano do capitalismo brasileiro

    nessas dcadas (FURTADO, 1975; CORSI, 2000; CEPDA, 2010).

    Diante dessas percepes e das mltiplas explicaes produzidas pela

    literatura acerca do papel da Era Vargas no processo de industrializao, o intuito

    deste trabalho problematizar essa tensa interpretao intelectual e recolocar o

    problema sob outra perspectiva analtica: concentrar no processo em que houve o

  • deslocamento do modelo agrrio exportador ao projeto industrial, consensualmente

    operacionalizada ao longo da primeira fase da Era Vargas (1930-1945).

    Isso remete necessidade de retomar o primeiro Governo Vargas, com intuito

    de detectar como, ao longo do processo, Getlio Vargas e seu staff de governo

    perceberam a tenso entre vocao agrria e vocao industrial, concebida como

    problema fundamental da nao brasileira e, consequentemente, de nossa

    modernizao. Supe-se como hiptese neste trabalho, que tal transio ocorreu pela

    simbiose entre o bloco, sintetizado no Governo, e os problemas colocados pelo seu

    tempo histrico. A industrializao, portanto, seria resultado de um processo em que o

    Governo Vargas buscou respostas para desafios especficos de um determinado

    contexto: problema do atraso e da questo social.

    Obviamente que, ao se projetar como lder da Nao, Vargas simboliza um

    pacto entre as foras sociais que o sustentava, ou seja, sua figura sintetiza no

    apenas uma correlao de foras, como tambm expressa um bloco histrico

    submerso do seu governo. Assim, concebemos que esse processo o qual propomos

    investigar possa ser captado a partir da produo discursiva de Getlio Vargas

    enquanto Chefe de Estado. Como bem destacou Fonseca (1989), os discursos de

    Vargas evidenciam o processo de construo do capitalismo brasileiro, e mais

    precisamente, trazem as permanncias e as rupturas de seu pensamento, diante das

    mazelas do processo histrico.

    Pressupe-se que foi atravs da produo discursiva de Getlio Vargas que o

    Governo tornou pblica suas concepes em relao tenso em questo, lanando-

    a a arena poltica e aos demais atores que compunham sua base de negociao, de

    cooptao ou de represso. Portanto, os discursos oficiais podem revelar nuances do

    perodo e as principais articulaes com a agenda de cada momento. Isso no

    significa anular o protagonismo de Getlio Vargas, mas deslocar o eixo da anlise

    para o seu processo de atuao.

    Os discursos e pronunciamentos oficiais referentes primeira fase da Era

    Vargas esto reunidos em uma sntese de Governo. Publicada entre 1938 e 1947, A

    Nova Poltica do Brasil, composta por onze volumes, consiste num material expressivo

    da atuao de Getlio Vargas como chefe de Estado, contemplando desde o discurso

    da Plataforma da Aliana Liberal, em 1930, at sua deposio em 1945,

    apresentando-se de forma bastante diversificada, com temas e discursos declamados

    por Vargas, no referido perodo.

    Nesse sentido, como princpio metodolgico, propomos analisar essa coletnea

    partir do tratamento sugerido por Cepda (2010). Para a referida autora, certa

    concepo pode ser resignificada, tendo rotao de sentido e de utilizao, no qual a

  • retrica se inicia numa direo, mas pode ser transformada em algo novo e diferente

    no percurso do processo. Portanto, aponta o processo poltico como um processo em

    movimento, e, portanto, capaz de configurar/reconfigurar a posio dos atores e sua

    conscincia poltica. , sobretudo, a partir dessas consideraes que autora analisa a

    industrializao brasileira. Havia um processo em movimento que foi reconfigurando a

    posio dos atores, cujas vicissitudes desencadearam na via industrial.

    Para nossa anlise, h duas questes centrais: a primeira perceber que

    nesse intervalo houve a construo da relao entre Estado / Sociedade / Economia,

    que altera o sentido de acordo com o desenvolvimento e a mudana no campo de

    foras polticas; por outro lado, essa concepo nos auxilia a compreender como os

    momentos e as intervenes estatais esto vinculadas ao seu tempo histrico e como

    se configuram os interesses do pacto de foras polticas sintetizadas no Estado e

    capazes de imprimir-lhe uma nova direo/orientao.

    Desta forma, suspeita-se aqui que esses escritos sinalizam as diversas vozes

    condensadas e subjacentes ao arco de alianas que deram sustentabilidade para

    Getlio Vargas em seus momentos polticos correspondentes. Ora, se a Era Vargas

    pode ser pensada como um grupo poltico frente do Estado, a figura chave desse

    pacto, o chefe do Executivo, fala em nome desse grupo no poder. Ao retoma