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Rafael Alcantara Evolucao

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Text of Rafael Alcantara Evolucao

  • EVOLUO

    Rafael Alcantara

    2011

  • CAPTULO I

    Meu nome Alan. Vou lhes contar uma histria que, a princpio, parecer absurda, mas trata-se de uma histria real.

    Sempre fui uma criana normal e alegre; tinha vrios amigos e gostava de todas as brincadeiras normais da minha idade. Mas eu me sentia diferente. Sempre me senti diferente.

    Tudo comeou em novembro de 1999, quando eu tinha apenas 11 anos.

    Eu morava em Curitiba, num bairro pobre, em uma rea de ocupao irregular. A nica coisa que gostava no lugar, era a bela chcara que havia atrs de nossa casa, onde, s vezes, eu pulava o muro que a cercava e me embrenhava entre as rvores para passar algumas horas sozinho.

    Certo dia, estava indo para casa num fim de tarde, depois de mais um dia chato de aulas na escola municipal. Foi um daqueles dias que melhor esquecer que existiu. Zero na prova de matemtica, um fora da menina que eu gostava, e pra fechar, a surra que levei de um grandalho que no gostava de mim. Eu mal via o momento de chegar em casa e passar vrias horas na frente da TV, me divertindo com meu Super Nintendo, se minha me deixasse, claro. Evanglica e conservadora, ela vivia implicando comigo e falava que

  • aquilo era coisa do capeta. claro que eu sabia que no passava de baboseira religiosa e que Deus jamais mandaria algum pro inferno s por jogar um maldito vdeo game.

    Quando estava anoitecendo e chegando hora de meus pais irem igreja, minha me veio at meu quarto para tentar me convencer a acompanh-los e, pela milionsima vez naquele ano, eu recusei o convite. Ela, como de costume, foi extremamente cruel em minha punio por me recusar a ser um filho obediente: confiscou meus cartuchos de vdeo game e levou-os consigo em sua bolsa. Nada poderia ser pior. Ento, para completar o fatdico dia, s me restava passar a noite toda sozinho assistindo a maldita TV.

    Aproximadamente, s 20h30min, eu estava deitado no sof vendo um programa sem graa, perdido em meu tdio. Apesar de ser criana, eu sempre achara a TV algo suprfluo e nunca tive grande interesse na programao em geral. O programa foi para o intervalo e, ocasionalmente, virei meus olhos para a janela, a fim de ver como estava a noite l fora. Quando vi o que estava do outro lado do vidro, meu mundo parou. Atnito, me sentei no sof e semicerrei meus olhos para me certificar melhor do que via. Quando consegui focalizar melhor a figura que estava a meio metro do vidro, do lado de fora da casa, por entre a escurido, todos os pelos do meu corpo se eriaram. Tive a sensao de terem colocado o Alasca dentro do meu estomago. O gelo se tornou quente, mais abaixo, quando minha urina comeou a sair sem que eu pudesse controlar, tamanho o susto que levei. Eu no podia estar errado! No era uma alucinao! Aquilo estava ali parado a, no mximo, dois metros de distncia de mim. E o que pior: estava me fitando incisivamente. Meu corao estava quase rasgando meu peito de to forte que pulsava. Como um autmato, me levantei e fui rapidamente para meu quarto. Me escondi em minha cama, debaixo das cobertas, e comecei a orar freneticamente Deus para que ele no permitisse que aquela

  • criatura me fizesse mal.

    Estava me encarando! Pensei.

    Era igual aos mostrados nos filmes de fico cientfica. Tinha uma cabea enorme, pescoo fino, o tronco pouco definido e delgado, no se percebia boca nem nariz e era, melancolicamente, cinza. Porm, o mais perturbador naquela criatura eram os grandes e penetrantes olhos negros em forma de elipse, que me olhavam como se esquadrinhassem minha mente.

    No consegui dormir naquela noite. Quando amanheceu, meu mundo pareceu diferente. Tudo estava parecendo surreal, me senti envolvido por um clima estranho. Meus movimentos pareciam automticos. Estava mergulhado de forma to profunda em meus pensamentos, que mal sentia meu corpo e quase no me importava quando algum falava comigo. Eu estava experimentando, pela primeira vez, algo que s os grandes mestres experimentavam: o estado de concentrao total. Eu no estava mais em meu corpo. Minha mente me dominara.

    Os dias decorrentes foram uma incgnita para mim. Pesadelos que nunca mais me abandonariam, sensao de xtase, medo, vergonha, apreenso. Essas so s as sensaes que consigo descrever. As outras sensaes foram mais perturbadoras, impossveis de distinguir se foram reais ou apenas sonhos.

    Jamais falei sobre o caso a ningum.

  • Nos meses subsequentes eu no conseguia tirar o fato da mente.

    Nunca mais voltei chcara. Pensava vrias horas seguidas sobre o que aconteceu naquela noite. Tentava imaginar o porqu de uma criatura evoluda como aquela, estar ali, parado em frente janela da minha casa, e ainda por cima, me observando.

    Por que eu?

    Um ano aps o fato, eu j estava em depresso profunda. Tinha me isolado do resto do mundo. No gostava de fazer amigos; no fazia questo de manter os que eu j tinha. Fechei-me em meu intelecto.

    Com 13 anos, j sentia - e sabia - que era diferente de todos. No acreditava em tudo que me falavam, apesar de ter uma mente extremamente aberta. Comecei a meditar profundamente sobre tudo que me rodeava: vida, morte, bem, mau, religio, dogmas, regras, sexualidade, e para tudo eu tinha minha prpria teoria e modo de pensar. Eu no era como as outras crianas da minha idade que aceitavam tudo o que os adultos impunham como sendo o correto e verdadeiro, porque eu sabia que era superior a grande maioria dos adultos. Mesmo com a pouca idade, eu j era ateu convicto. No tinha medo de fazer testes de invocao para provar a mim mesmo que minhas teorias sobre a inexistncia divina eram corretas. Tambm mantive meu atesmo em segredo, para evitar complicaes. Eu sabia que se contasse que era ateu, teria muitos problemas. Sofreria preconceito dos alunos da escola, dos futuros patres e colegas de trabalho. Sofreria preconceito at mesmo dos

  • meus familiares mais prximos. Minha vida se tornaria um caos.

    J com 14 anos, estava pensando mais do que nunca em coisas importantes e sobre as caractersticas da vida como um todo. Formava teorias sobre fatos e acontecimentos que s os filsofos atreviam-se a fazer. S posteriormente, acessando a internet e fazendo as devidas pesquisas, descobri que minhas teorias so semelhantes, ou superiores, s que grandes pensadores tinham desenvolvido aps muitos anos de pesquisa e meditao. Tambm me tornei vegetariano. No que eu no gostasse de carne, eu adorava carne, mas sabia que uma criatura evoluda no deveria se alimentar de outros seres vivos, a menos que houvesse a necessidade, caso contrario, seria um ato primitivo.

    Fanatismo religioso, mentiras, injustia, crueldade, traio. Esses foram alguns dos motivos que me fizeram ter averso raa humana. A verdade, nua-e-crua, era que eu no gostava de gente. Tinha dio, nojo... medo... d. Tracei como meta de vida ser diferente dos outros. Ser perfeito. E estava conseguindo.

    As pessoas so acostumadas a achar que para ser um intelectual ou um grande ser humano, necessrio ter um alto QI e ser inteligentssimo em alguma rea da cincia. Ser um cientista brilhante ou um intelectual de invejvel inteligncia, no significa, nem de longe, que a pessoa est prxima da perfeio ou de ser um humano melhor.

    TODA pessoa poderia ser incalculavelmente superior, em todos os sentidos de sua existncia, se reavaliasse um nico ponto crucial em seu modo de vida: o preconceito. O maior mau da raa humana!

  • O preconceito, infelizmente, est enraizado na mente das pessoas de uma forma quase to consistente quanto o diamante. Ele tem diversas vertentes e todas elas destroem a humanidade, cada uma de sua forma, mas sempre de forma covarde.

    O preconceito racial, que foi o grande causador da misria africana, quando, na poca da escravido, o continente teve grande parte de suas riquezas naturais roubadas e, como se isso j no bastasse, os habitantes eram simplesmente sequestrados de seu lugar de origem para serem escravos na Europa e nas Amricas. Fico imaginando quantas auspiciosas crianas negras no puderam se tornar grandes cientistas, mdicos, bilogos, arquitetos ou engenheiros, por falta de oportunidades; pela falta de universidades em seu continente ou pela m aceitao que tm nos pases que foram o destino de seus antepassados, mesmo contra suas vontades.

    O preconceito contra o sexo feminino que, da mesma forma que com os negros, impediu que grandes mulheres, tambm com muitos augrios e grande potencial, ingressassem em universidades e ajudassem a construir um mundo melhor com toda sua sensibilidade para os pequenos detalhes da vida.

    O preconceito contra os animais inferiores que tanto causou, e ainda causa, a extino de incontveis espcies. Espcies que, quem sabe, poderiam ter nos ajudado a achar, ou conter em seus cdigos genticos, a cura para varias doenas que nos assolam. E tudo isso, apenas para t-los forrando elegantemente os bancos de nossos automveis, estampando nossos casacos, ou t-los, apetitosa e desnecessariamente, servidos em nossos pratos como iguarias.

  • O preconceito intelectual, que nos impede de ensinar pessoas desprovidas de estudo ou que, simplesmente, no tiveram a oportunidade de chegar ao conhecimento. E isso, apenas porque nos achamos superiores a tais pessoas. O que torna um mdico superior a um carpinteiro? Nada! Nem mesmo seu diploma!

    E o pior de todos os preconceitos: o religioso. Este, por sua vez, impediu, e ainda impede, a humanidade de evoluir, alm de ter sido o motivador de centenas de massacres e de guerras em vrias pocas.

    O preconceito religioso fecha a mente das pessoas e as deixa estagnadas no tempo, esperando apenas o prometido paraso ou aguardando que o destino tome as rdeas de sua existncia, impedindo-as de formarem projetos de vida mais grandiosos e fazendo-as repelir qualquer ideia oposta a delas.

    A mente das pessoas impregnada de inmeros outros preconceitos que, quase sempre, nem elas mesmas percebem. A pessoa que conseguir se livrar de todo e qualquer preconceito, estar a meio caminho andado para a perfeio e de atingir o prximo nvel de evoluo da raa humana.

    Desses males, eu sentia orgulho de no sofrer mais.

    Aos 17, eu j havia ultrapassado o fino limite entre a loucura e a genialidade. Eu era mais que um louco. Eu era muito mais que um gnio. Eu era a evoluo do homo sapiens.

  • Passei anos pesquisando ufologia para tentar descobrir por que aquilo tinha acontecido comigo, alguns anos antes. Tudo o que achei na internet sobre o assunto era meio incerto, tendencioso e especulativo. No dava para confiar na maioria das informaes disponveis. Esse o assunto mais polmico e obscuro de todos os tempos. normal que as pessoas que se arrisquem a falar sobre ele, tenham obtido informaes de fontes no confiveis. Eu teria que seguir meu prprio caminho se quisesse respostas.

    Vrias teorias passaram pela minha cabea para explicar a vida extraterrestre. fisicamente possvel que existam, mas, se forem levadas em conta as complicadssimas equaes que calculam a potencial existncia de outra civilizao inteligente, e a capacidade dela de ter tecnologia para chegar at ns, vencendo as colossais distncias do universo, bem improvvel que cheguem a nos visitar.

    Mas, o que era aquilo que apareceu na minha janela, seno um extraterrestre? Estava a apenas dois metros de mim. No havia margem para um engano visual e, com certeza, no fora uma alucinao!

    No fundo da minha mente, eu sabia a resposta para a questo.

    Em outubro de 2009, j com 21 anos, aps uma dcada evoluindo vertiginosamente de diversas formas e tentando obter algum contato com os seres, minha busca acaba da forma mais surpreendente possvel.

  • Eu gozava de minhas frias trabalhistas e, apesar de ser inverno, resolvi passar alguns dias no litoral catarinense para sair da rotina e respirar novos ares.

    Era uma noite maravilhosa e estrelada. No iria perd-la na frente do computador fazendo pesquisas como de costume, alm do mais, era o meu ltimo dia no litoral. Pela manh, eu retornaria para casa.

    Eu no caminhava muito, mas me senti quase forado a sair para olhar o belo cu e o mar naquela linda noite. Isso sempre me ajudava a abrir a mente.

    Por volta das 23h00min, sentei na areia, de frente para o mar agitado, a fim de descansar um pouco para a caminhada de volta. A aproximadamente 500 metros, no horizonte, vi uma estrela enorme, que, no mesmo instante, prendeu minha ateno. No era uma estrela comum. Senti um gelo na espinha quando ela, lentamente, comeou a se mover. Estava vindo em minha direo, deslizando pelo ar a uns 50mt de altura, sobre o oceano. Estava cada vez mais perto. Apesar da minha preparao e de meus ensaios para aquele to esperado momento, senti minhas pernas amolecerem, incapazes de me tirar dali. Incapazes de me fazer fugir.

    Estava acontecendo de novo!

    A esfera foi ganhando tamanho. Comecei a distinguir algumas variaes de cores. Tons de luz azul, vermelho e verde, misturavam-se enquanto emanavam do orbe. O objeto aproximava-se devagar, como se no quisesse que eu fugisse. Eu j fugi uma vez. Mas agora

  • no. No iria fugir novamente.

    Eu comeava a perceber alguns contornos metlicos. Vigias! A nave j estava a uns 30 metros de mim. Era do tamanho de um nibus e oval, alm de extremamente lisa e lustrosa. As luzes da nave foram perdendo a intensidade. Ela no fazia barulho, mas, mesmo assim, eu j no ouvia mais o brado da arrebentao, o silncio era perturbante. Naquele momento, me senti paralisado. O incrvel aparelho aproximou-se cada vez mais de mim, at que ficou completamente sobre minha cabea.

    Aps alguns segundos, que me pareceram uma eternidade, um poderoso facho de luz, extremamente brilhante, saiu da parte inferior da nave e me envolveu. No mesmo instante, no senti mais meu corpo. Foi como se ele tivesse perdido completamente sua massa. Um segundo depois, percebi que estava flutuando lentamente em direo nave.

    A realidade dos fatos me acometeu como um forte soco no estmago. Naquele momento, a ficha caiu.

    Era uma abduo.

    Instantes depois, minha viso escureceu e meus sentidos me abandonaram.

    Breu total.

  • CAPTULO II

    Acordei aturdido sobre uma mesa dura, aparentemente de metal, bem no centro de uma sala quadrada e extremamente iluminada, que parecia ser 100% estril, livre de qualquer fragmento de sujeira. Com muita dificuldade, consegui me sentar. Meu corpo doa como se eu tivesse sido espancado por uma multido enfurecida. Procurei por alguma porta ou janela para me localizar, tentar descobrir onde eu estava, mas no encontrei nada. A sala parecia ser feita de uma nica pea de metal, sem emendas.

    Um leve movimento na parede minha frente chamou minha ateno. Um pedao dela comeou a se mover para o lado, transformando-se em uma porta.

    Mas era uma parede slida!?

    Conforme a porta se abria, uma figura do outro lado foi se revelando, parecendo-me bem familiar e trazendo velhas lembranas, inclusive, velhos medos.

  • No se preocupe. Disse, em um portugus alto e claro, o pequeno ser de aproximadamente 1m e 50 cm. Ns no lhe faremos mal.

    Apesar do medo, fiquei meio confuso, afinal, ele no mexeu a boca para falar e o som me pareceu bem prximo. Telepatia?! Senti certa tranquilidade ao ouvir aquela serena, mas potente, voz.

    O que querem comigo? Indaguei, tremulamente.

    Est na hora de comear sua misso, Alan. por isso que est aqui.

    A criatura se aproximou alguns passos e pude perceber melhor seus traos faciais que eram bem pouco delineados.

    Me acompanhe. Eu lhe darei respostas para as perguntas que esto em sua mente agora. Eu sou o comandante da nave. Pode me chamar de Eeron.

    Com certa dificuldade, apoiei meus ps no cho e me levantei. Eeron veio at mim e segurou minha mo com delicadeza e respeito para conduzir-me.

    Andamos por um curto corredor e, ao chegarmos a outra sala, notei mais trs seres iguais sentados em cadeiras que no evidenciavam conforto. Pareciam digitar comandos em um painel totalmente negro. Logo acima, na parede, localizava-se uma grande tela negra em

  • forma oval, que mostrava alguns smbolos incompreensveis. A sala era igualmente iluminada, assim como a anterior, mas esta no era quadrada, era semi-oval, assim como um sabonete cortado ao meio com uma faca. A tela ficava na parte oval, que era a oposta porta por onde entramos.

    Quando nos aproximamos, os trs seres, que eram idnticos ao primeiro, se levantaram e se dirigiram para uma parede lateral, onde outra porta acabara de materializar-se. Agora eu estava a ss com Eeron.

    Pode comear com as perguntas . Disse-me ele. Terei grande prazer em sanar todas as suas dvidas.

    Realmente, eu tinha uma avalanche de questes a fazer, mas eu sabia que a resposta para a maioria delas, eu j tinha na ponta da lngua h vrios anos, e alguma coisa me dizia que aquele ser tambm sabia disso. Mesmo assim seria bom ter uma confirmao, ento comecei o interrogatrio.

    Quem so vocs?

    Ns somos o mesmo que voc, Alan. Somos a evoluo do ser humano. Viemos do futuro.

    Eu estava certo! Aquilo eu havia pensado quando tinha 15 anos, ao ler em um site da deep web - a internet proibida- um artigo sobre viagens no tempo e sua aplicabilidade. O pseudo-fsico responsvel pela matria, deixava bem claro que, levando-se em conta as leis da

  • fsica, era possvel a construo de uma mquina capaz de viajar no espao-tempo, tanto para o passado, quanto para o futuro. Embora a tarefa de constru-la fosse extremamente difcil, e com a atual tecnologia, impossvel. O estalo em minha mente veio quando li os comentrios dos internautas no fim da matria. Um indivduo garantia categoricamente: Viagens no tempo so impossveis! Se elas fossem viveis, j estaramos recebendo visitas de pessoas do futuro, mas isso no acontece!

    A princpio, parecia uma afirmao vlida. Pensei um pouco sobre o assunto e logo cheguei concluso de que ele estava redondamente enganado. Quem disse que no estamos recebendo visitas de pessoas do futuro? Aquilo pareceu to bvio que me criminalizei por no ter pensado antes. Eu havia resolvido dois grandes problemas - vnis e viagens no tempo - com apenas uma teoria.

    Que os vnis existem, isso inegvel, diante todas as provas udio-visuais, materiais e dos milhes de depoimentos sobre o assunto, inclusive, de pessoas importantes e poderosas. Que viagens no tempo eram teoricamente possveis, tambm no se tinha dvidas. Mas, como seres de outro planeta venceriam distncias, que mesmo velocidade da luz, levariam milhares, e at milhes de anos para serem alcanadas? E se viajar no tempo possvel, por que no recebemos, ento, visitas de pessoas do futuro? Essas duas questes se respondiam com a mesma resposta: vnis existem, mas no so de origem extraterrestre. vnis so mquinas humanas capazes de viajar no espao/tempo. So humanos evoludos nos visitando.

    Se vocs so humanos, por que so to diferentes fisicamente? Mais uma pergunta que eu j sabia a resposta.

  • Esse apenas um corpo artificial que abriga nossa mente. Um corpo que, apesar de aparentar fragilidade, quase indestrutvel e no se degrada como o corpo biolgico que possuamos. Com esse corpo somos capazes de viver o quanto quisermos. Somos imortais.

    Qualquer pessoa que fosse razoavelmente informada sobre tecnologia, sabia que o ser humano estava cada vez mais dependente das mquinas para sobreviver.

    Desde a antiguidade ns nos valemos de mecanismos artificiais para facilitar nossas vidas. Comeamos com ferramentas que nos ajudavam a caar, quando ainda morvamos em cavernas. Construmos culos, telescpios e microscpios que nos faziam enxergar melhor; aparelhos auditivos que nos cediam ouvidos artificiais; prteses para nossos membros amputados; mquinas que faziam o servio pesado por ns; veculos que nos transportavam para qualquer lugar do globo em poucas horas; computadores que pensavam por ns e, mais recentemente, implantes cerebrais que nos faziam ter uma memria inumana e projetos em desenvolvimento para transportar a mente humana, ou seja, todas as informaes contidas em nosso crebro, por completo, para um corpo totalmente artificial.

    A medicina tambm tentava prolongar nossa longevidade por outros meios como a clonagem e o uso de clulas tronco. Porm, por mais que a medicina se esforasse para acabar com as limitaes corporais humanas, era bvio que o corpo biolgico no poderia competir com a perfeio de um corpo robtico indestrutvel, construdo sob medida.

  • Era certo que, um dia, abandonaramos nosso primitivo recipiente corpreo e abrigaramos a nica coisa que nos diferencia dos outros animais nosso intelecto em uma armadura perfeita e imortal. Era s questo de tempo.

    Eeron sentou-se em uma das cadeiras e sugeriu que eu fizesse o mesmo. J me sentia mais confiante e relaxado com tudo o que estava acontecendo. O medo tinha ido embora juntamente com toda sua irracionalidade.

    Entre 2035 e 2045, aconteceu nossa singularidade tecnolgica. Continuou. Alguns fatos e inventos desencadearam outras criaes ainda maiores e acabaram tornando a tecnologia uma verdadeira bola de neve que crescia absurdamente rpido. Mas os principais quesitos para que a singularidade acontecesse foram dois: o avano da nanotecnologia e a queda das religies.

    Eeron parecia escolher bem as palavras para que eu no me perdesse, mas aquele assunto era to claro pra mim quanto uma simples conta de adio. Continuou com as explicaes:

    Quando a nanotecnologia foi capaz de tornar o ser humano super inteligente, atravs de implantes cerebrais que aumentavam a capacidade de raciocnio e de armazenamento de memrias, podendo-se transferir o contedo de uma biblioteca inteira para o crebro de uma pessoa em questo de segundos, os super-humanos comearam a aparecer. Com informaes de diversas reas da cincia colocadas no mesmo crebro, unidas com a tpica imaginao da nossa raa, as invenes grandiosas que antes pareciam impossveis, comearam a pipocar. Problemas, antes irresolutos, comearam a ser desvendados em poucas horas. Em

  • pouqussimo tempo, os avanos tecnolgicos foram capazes de nos conceder a to sonhada imortalidade.

    E a que entra a queda das religies. Comentei, cada vez mais interessado no assunto.

    Eu sabia que o nico motivo pelo qual as religies eram to poderosas e haviam se espalhado por todas as civilizaes humanas e em todas as pocas, era por que ela oferecia aquilo que ns mais desejvamos desde os primrdios tempos: a vida eterna.

    Todos temiam morrer e simplesmente desaparecer... acabar. Quem no gostaria de morrer e continuar existindo eternamente, em um paraso onde s h felicidade? Era isso que todos queriam e que s a religio poderia dar.

    Eeron tentava explicar da melhor maneira possvel, para que eu compreendesse tudo.

    Quando a cincia provou que ns podamos ser imortais, muita coisa mudou no mundo e na mente das pessoas. Mas o golpe final, o que decretou quase por completo o fim das religies, que j estavam fragilizadas, foi quando comeamos a reviver pessoas que estavam congeladas h dcadas em cmaras criognicas.

    No pude esconder minha surpresa. A criogenia era um detalhe que eu ainda no havia pensado. Como seria se revivssemos pessoas mortas? Eu estava prestes a descobrir.

  • As pessoas revividas, alegavam que tudo era como se tivessem apenas dormido e depois acordado. Sem sonhos. Sem paraso. Sem... Deus. Nada viram de espiritual ou sobrenatural enquanto estavam mortos. Estava provado: no havia paraso! As religies entraram em decadncia total. Sem os dogmas e sem as rdeas da religio, a humanidade estava unificada em um s pensamento: EVOLUIR.

    incrvel que isso tudo tenha acontecido num curto espao de tempo. Pensei. Coisas que as pessoas com a mente fechada jamais imaginariam ser possveis, eram reais: viagens no tempo, imortalidade, o planeta unificado, a queda das religies. S as mentes mais visionrias pensaram nisso no passado, e s os anormais acreditavam que isso aconteceria.

    S o fato de ser possvel viajar no tempo tanto para o passado, quanto para o futuro j abre um leque infinito de possibilidades. Imagine ento, ser imortal.

    CAPTULO III

  • Achei graa em algumas lembranas que comearam a aparecer em minha mente.

    Lembrei de um cara chamado John Titor. Um maluco que apareceu na internet alegando que viera do futuro. Claro que, no mesmo instante, foi taxado de debilitado mental, imbecil e outros adjetivos esdrxulos. Talvez por raiva ou simplesmente para calar a boca de quem duvidara dele, Titor colocou na internet os projetos e algumas fotos do seu mtico aparelho. Para espanto de muitos, os projetos eram extremamente detalhados e corretos, algo que s um grande fsico/engenheiro seria capaz de produzir. E o mais incrvel, ele chegou a descrever como seria um worm hole, antes mesmo dos cientistas descobrirem a possvel existncia dessas passagens entre pontos do universo e talvez at dimenses. Certo dia, Titor disse que retornaria para sua poca de origem.

    Nunca mais se teve notcias dele.

    No perguntei sobre John Titor Eeron, mas algumas outras questes no pude deixar de fazer:

    Quer dizer que alguns de vocs viajaram para o passado e fizeram contato com nossos primitivos ancestrais?

    Sim. Quando viagens no tempo ainda eram novidade, as pessoas brigavam para escolher o prximo destino. Uns queriam ver os dinossauros; outros queriam se comunicar com neandertais; outros desejavam voltar e assassinar Hitler; alguns preferiam voltar e salvar Elvis.

  • Imagino o pandemnio que deve ter sido na poca.

    Era um jogo muito perigoso. No se sabia, ao certo, at que ponto poderamos mudar o passado para melhorar o futuro sem correr grandes riscos. Regras rigorosssimas foram criadas, e ainda so, para que o mundo no entrasse, ou entre, em colapso devido s mudanas feitas no passado. Mas o legado de nossa raa que s aprendemos com nossos erros. E vrios foram cometidos.

    Eu sabia quais eram esses erros.

    Muitos desses viajantes do futuro fizeram contatos com civilizaes ancestrais e da idade mdia. Foram retratados em centenas, talvez milhares, de pinturas rupestres em cavernas espalhadas pelo mundo. Em outras pocas, alguns se deixaram at ser fotografados em meio a aglomeraes de pessoas. John Titor, por sua vez, chegou a expor os projetos de sua nave, correndo o risco de parar em mos erradas e sendo alvo at de investigao por agncias secretas. Uma pessoa chegou a enriquecer facilmente fazendo aplicaes arriscadas nas bolsas de valores. Foi preso e passou por investigao para saber como ele realizara aqueles feitos.

    Milhares de artefatos tecnolgicos foram encontrados em pocas no condizentes. Um crnio que foi furado bala, a mais de 40 mil anos. O crnio de um homem moderno datado de mais de um milho de anos. Diversos artefatos metlicos complexos, datados de pocas em que o homem ainda no produzia nem peas feitas em pedra. Um cordo de ouro encontrado cravado em uma rocha datada de, no mnimo, 320 milhes de anos. Uma pegada de sapato fossilizada em uma rocha com mais de 213 milhes de anos, deixando bem claro

  • que uma pessoa caminhara por ali. Incrveis construes megalticas feitas a milhares de anos por desprovidos de intelecto para tais realizaes; cortes precisos feitos em rochas que, mesmo com a atual tecnologia, teramos dificuldade em reproduzir.

    A lista era interminvel.

    Todas essas pistas deixadas e a humanidade se recusa a acreditar no bvio. O mundo no to simples como imaginamos, muito mais excitante!

    claro que o sistema tem grande culpa sobre a incapacidade da populao de meditar como antigamente. Antes da mdia e seus programas de entretenimento, que mais parecem sistemas completos de lavagem cerebral e desinformao, as pessoas tinham tempo de sobra para pensar na vida e suas questes. O tempo ocioso que as pessoas possuam era importantssimo para o crescimento pessoal e planejamento do futuro, se bem aproveitado, claro.

    Como as pessoas vo pensar e rever seus credos, seus planos de vida, suas opes sexuais, seus preconceitos, seus medos, se so felizes ou no, se no possuem mais tempo para tais questionamentos to importantes para a vida? O mais perturbador, que as pessoas se acostumaram a ter seu tempo completamente preenchido. Se algum tem meia hora livre, logo trata de ocup-la com banalidades como ligar a TV ou o rdio, ou pegar o celular para jogar aquele joguinho sem sentido, ou quando ligam o computador e vo direto visitar suas redes sociais sem atualizaes e nem se do conta de quo poderosa para o aperfeioamento pessoal, a ferramenta que est a sua frente: a internet. Se as pessoas

  • reaprendessem a meditar nos momentos ociosos da vida sem tentar preenche-los com atividades dispensveis, a sociedade poderia evoluir bem mais rpido.

    Eu comeava a perceber que todo aquele tempo que dediquei s pesquisas e aperfeioando o intelecto em mim, atravs de muita meditao, tinham valido pena. Eu estava vivenciando uma situao desejada por muitos, mas que com certeza, poucos tiveram a mesma chance. Por que eu? Nem cientista eu sou. Que misso eu poderia ter? As coisas no estavam fazendo sentido. Meus neurnios se esforavam em fazer seu trabalho mas, mesmo assim, eu no compreendia como poderia ajudar aquelas pessoas to evoludas.

    Por que me trouxeram aqui? Por que apareceram em minha janela quando eu tinha apenas 11 anos? Estragaram minha adolescncia! No era justo fazer isso com uma criana.

    Voc precisava evoluir, Alan. Sabamos que se voc visse um de ns naquela fase to indagadora da vida humana, sua mente se abriria para a verdadeira realidade do mundo. Existem pessoas brilhantes em todo o planeta, mas enquanto elas no tiverem um empurrozinho, elas vivero como pessoas normais, sem se dar conta de que so pessoas com um grande potencial.

    Ento esse o trabalho de vocs? Procurar por mentes brilhantes em todas as pocas da histria? E com qual intuito?

    Naquele momento, a porta se materializou novamente na parede atrs de ns. Mais um dos humanos do futuro entrou na sala e disse:

  • O intuito mais nobre de todos, Alan.

    Junte-se a ns falou Eeron, para a outra figura misteriosa. Chegou em um momento apropriado.

    O ser sentou-se na cadeira ao meu lado. Senti, no mesmo instante, que se tratava de algum especial. Sua presena emanava um ar poderoso e de sabedoria. No era nada sobrenatural. Talvez fosse apenas o poder de sua mente se comunicando com a minha.

    Esse Aristarco de Samos Disse Eeron.

    Agora a confuso estava formada em minha cabea.

    Como todo amante de astronomia, eu conhecia bem a histria de Aristarco de Samos. Aristarco (320 a.C. 250 a.C.) nasceu em uma poca dominada pelo geocentrismo, onde todos acreditavam que o universo girava em torno da Terra, e no ao contrrio, como o correto. Criou-se, a partir dos estudos de Aristarco, o modelo heliocntrico, em que a Terra girava em torno do Sol, o que revolucionou a astronomia para sempre. Mas a teoria de Aristarco, talvez por ser evoluda demais para as pessoas daquele tempo, foi rechaada pelos astrnomos da poca e no teve a merecida ateno, ficando esquecida. Apenas muitos anos mais tarde, Nicolau Coprnico e Galileu Galilei, chegaram s mesmas concluses que ele havia chegado, h tanto tempo atrs. Aristarco de Samos tinha uma viso de mundo que estava quase 2.000 anos frente de sua poca e, evidentemente, tinha meu respeito por isso.

  • Mas, se ele viveu antes mesmo que Cristo, como ele poderia estar ali sentado ao meu lado? Provavelmente ele tambm foi procurado por esses seres como est acontecendo comigo agora. Era a nica explicao.

    E qual esse nobre intuito? Essa nobre misso? - perguntei.

    Ns somos os cirurgies do tempo, Alan Aristarco fez um longo silncio para que eu pudesse digerir aquelas palavras, depois continuou. Ns viajamos por entre as eras, buscando pessoas como voc, e cuidando para que o paradoxo temporal da causa-e-efeito no seja afetado por pessoas que no compreendem seu risco.

    Eu j havia lido sobre o paradoxo temporal e suas possveis complicaes para a humanidade. Ele consistia da ideia de que, se uma pessoa modificasse alguma coisa errada no passado, isso poderia ocasionar graves mudanas no futuro. Como, por exemplo, se algum mal intencionado viajasse para um perodo anterior segunda guerra mundial e passasse a frmula da bomba atmica Hitler, o futuro poderia sofrer alteraes catastrficas.

    Realmente, as possibilidades eram infinitas. Um simples fato modificado no passado poderia afetar drasticamente o futuro da humanidade, tanto para o melhor, quanto para o pior. Aquele era um jogo arriscadssimo, e eu no estava gostando da ideia.

    E com qual direito vocs interferem na vida das pessoas? Eu no lhes dei permisso para aparecerem na minha janela e perturbarem minha mente. E se eu quiser ser uma pessoa normal que nasce, vive

  • e morre, sem a interferncia de vocs?

    Voc tem todo o direito de escolha, Alan. por isso que voc est aqui. Disse-me Eeron.

    Mas no justo! Vocs j sabem minha escolha. Retruquei, com o orgulho ferido.

    Quando ns te escolhemos, j sabamos que voc diria sim. Voc assim. Jamais recusaria uma oportunidade dessas como eu no recusei no passado. Falou Aristarco.

    E se eu resolver mudar de ideia agora e escolher voltar para minha vida normal? Vocs no podem interferir em minha escolha!

    Os dois me fitaram com um olhar de vitria, mas tambm de compadecimento.

    As palavras que Eeron me disse depois, me chocaram de maneira indescritvel.

    Estamos lhe dando a chance de viver eternamente, Alan. Se voc seguir sua vida, ou se preferir, seu destino, voc morrer amanh, quando estiver voltando para casa. O pneu do seu carro ir estourar fazendo com que ele perca o controle e sofra uma capotagem. Ser fatal. E isto, infelizmente, ns no podemos modificar. Sua nica chance se juntar a ns.

  • Eu estava perturbado. Aquilo significava que eles j tinham visto como seria minha vida. Meu fim. Estavam esperando o momento certo para virem at mim. De qualquer forma, eles realmente tinham me deixado viver at as ultimas horas da minha vida, que se acabaria no dia seguinte. O que viesse a partir de agora seria lucro. Cabia a mim aceitar ou no esse lucro. Provavelmente, Aristarco passara pela mesma experincia, a mais de dois mil anos atrs, um dia antes de sua morte. Eu estava comeando a compreender o significado de tudo quilo. Mesmo assim, no deixava de ser um jogo extremamente arriscado.

    Ns precisamos de voc mais do que imagina, Alan Aristarco falava comigo como se me conhecesse h centenas de anos. Ns devemos cuidar de nossa raa e do nosso planeta, interferindo o mnimo possvel no desenrolar da histria. Ns temos tecnologia para isso, ento devemos us-la. Faz parte da evoluo. inevitvel.

    Eu sempre me perguntei onde iramos parar quando chegssemos ao pice de nossa tecnologia. Ser que devamos construir tudo o que pudssemos construir? Ou fazer tudo o que pudssemos fazer? Ser que o simples saciar da curiosidade vale pena? Com certeza, o primeiro homem na histria que colocou a mo no fogo para ver no que dava, acha que no. E sem dvida, uma mquina capaz de fazer viagens no tempo uma grande fogueira.

  • CAPTULO IV

    A misso dos seres, aparentemente, impedir que algum cientista ou inventor se entusiasme excessivamente e crie algo que afete o futuro da humanidade de forma negativa, ou que algum viajante do tempo cause mudanas no passado. Essa tambm seria minha misso a partir de agora. Eeron estava certo. Eu jamais perderia uma oportunidade dessas: ajudar a humanidade e tambm impedir que ela destrua o planeta.

    Mas havia uma pea fora ordem nesse quebra cabeas.

    Mas, se a inteno impedir que o mundo se destrua, ou simplesmente fique pior por causa de alguma inveno que no deveria ter sido criada, ou alguma deciso mal tomada, enfim, por erro de algum, isso s poderia ser feito no futuro, aps a criao da mquina, certo? Afinal, se algo de to ruim tivesse acontecido antes da sua criao, no teramos capacidade nem para t-la criado. Seria outro paradoxo!

    Nada de to mal aconteceu antes da criao da mquina respondeu Aristarco , mas passou a acontecer depois que ela foi criada.

    Senti um calafrio desagradvel. Logo me passou pela cabea

  • inmeras coisas perigosas que poderiam acontecer com a criao de algo to poderoso como um equipamento capaz de distorcer o tempo e mudar aes realizadas em pocas remotas.

    Quando a primeira pessoa foi capaz de viajar no tempo, as dimenses entraram em colapso por motivos que ainda desconhecemos. Universos paralelos foram criados dentro do nosso prprio universo, coexistindo entre si e trocando informaes aleatoriamente. Imagine duas bolhas de sabo, uma dentro da outra, e quando elas se tocam uma parte do material que as compe acaba passando de uma para outra. assim que acontecem essas trocas de informaes nos universos.

    Aristarco pareceu hesitar como se tivesse parcela de culpa por alguma coisa que tivesse acontecido ou, talvez, estivesse apenas com pena por ter que me passar aquelas informaes desagradveis.

    Foi Eeron quem continuou a me explicar sobre as expiaes do futuro, que tambm eram as do passado:

    como se a vida de uma pessoa passasse para outro universo, dimenso ou poca no tempo, num piscar de olhos, sem que nem ela mesma percebesse. Ou, em hipteses mais extremas, como se uma exploso nuclear ocorrida em outra dimenso, de repente, acontecesse aqui onde estamos agora. A troca de informaes entre os universos paralelos muito rara, acontecendo apenas quando alguma das suas extremidades se tocam e, s vezes, pode ser at vantajosa.

  • Troca de informaes entre dimenses diferentes parece ser algo extremamente perigoso e difcil de controlar Pensei. Talvez a misso desses homens seja mais complicada do que eu imaginava.

    Para que essa dimenso em que vivemos no seja drasticamente alterada, temos de controlar, com preciso atmica, tudo que sai e tudo que entra nas eras antecessoras construo da mquina. O estrago fora feito e irremedivel. Apenas podemos aplicar curativos. Concluiu Eeron.

    Quer dizer que agora o tempo precisa ser eternamente monitorado?

    Infelizmente, sim.

    Apesar das revelaes catastrficas que recebi, a excitao estava causando reaes em meu corpo que jamais imaginei que fossem possveis. Pela primeira vez em dez anos, eu estava sentindo a felicidade novamente. A adrenalina estava sendo liberada em minha corrente sangunea como nunca acontecera antes. Agora poderei conhecer e fazer coisas que sempre desejei, ir a lugares extintos, conhecer pessoas que j morreram h centenas de anos, entre outras coisas incrveis. Terei tempo para conhecer toda a histria humana e estudar todos os assuntos que me interessam. No h mais limites. Eu posso ser tudo.

    Novas lembranas vieram minha mente. Lembrei, por exemplo, que sempre tentei imaginar como seria o futuro. Como seriam as construes, as cidades, a tecnologia, os costumes, as pessoas? Agora eu poderia descobrir se meus preldios futursticos estavam

  • corretos da maneira mais espetacular e inacreditvel que se possa imaginar para algo do gnero. Eu estarei l "in loco".

    No precisei dizer palavra, para que Eeron, o comandante daquela espetacular nave, se levantasse e se dirigisse para o painel de controle.

    Para onde voc quer ir primeiro, Alan?

    Varias imagens passaram pela minha cabea, desde o perodo pr histrico, at os tempos atuais. Com certeza, eu teria muito tempo ainda para conhecer o passado, mas o que realmente me fascinava, era o futuro.

    Pedi para que Eeron me levasse at a poca que foi crucial para a humanidade, a poca em que comeou a singularidade tecnolgica, o que segundo ele, aconteceu entre 2035 e 2045.

    Ele digitou alguns comandos no painel e a grande tela acima se abriu e se transformou em uma janela panormica. Um lindo cu estrelado, como eu nunca tinha visto antes, se revelou do lado de fora. Parecia que se podia tocar nas estrelas. Levantei-me e me aproximei de Eeron. Quando estava diante janela, pude olhar para baixo. Uma vertigem me atingiu de sbito e me fez vacilar quando percebi que estvamos a uns trs mil metros de altitude. As luzes da cidade brilhavam l embaixo e a vida corria normalmente. Passei a ver o quo pequenos somos. Ser que aquelas pessoas sabiam que sobre suas cabeas pairava uma avanada nave do futuro, que as protegia diretamente de possveis colapsos temporais? Tenho certeza que no.

  • Est preparado, Alan?

    Sim!

    Eeron digitou mais alguns comandos rpidos.

    De repente, as estrelas e as luzes l embaixo se tornaram um borro, como se estivssemos voando em crculos a uma velocidade incomensurvel. Meu corpo continuou inerte, sem sentir a tpica fora G, que normalmente se sente quando um veculo qualquer entra em movimento, isso fez parecer que a janela estava exibindo um filme abstrato. Uma sensao de dormncia tomou conta do meu corpo, at que tudo ficou escuro.

    CAPTULO V

  • Meus olhos foram se abrindo devagar e, aos poucos, consegui perceber uma forte luminosidade emanando da janela minha frente.

    Era o sol.

    Com o tempo voc se acostumar a isso, Alan A voz de Aristarco soou distante e quase fantasmagrica. Minha primeira vez tambm foi pssima.

    Eu estava novamente sentado na cadeira. - Como vim parar aqui? - Eeron e Aristarco continuavam de p em frente janela, olhando para fora. O dia parecia realmente belo.

    Me levantei e fui para o lado de meus dois novos amigos, a fim de olhar o que se passava l fora. Quando minha viso foi preenchida pela paisagem, fiquei maravilhado. Ainda estvamos muito alto, mas no estvamos mais sobre o litoral catarinense.

    A cidade l embaixo era, sem dvida, uma megalpole. O cenrio parecia ter sado de um filme de fico cientfica. Os arranha-cus espelhados eram altssimos e belos, to numerosos que se perdiam de vista ao horizonte. Aquela cidade me parecia familiar. Aninhados entre os grandes e modernos edifcios, viam-se algumas construes antigas que eu j vira antes em uma cidade que conhecia bem. Estvamos sobre So Paulo.

    Nossa nave foi diminuindo de altitude aos comandos de Eeron. Vi vrios veculos voadores um pouco acima dos prdios. No

  • possuam asas e eram pequenos, para quatro pessoas no mximo. Estavam respeitando certa ordem nas direes em que rumavam. Era o trnsito moderno. Mesmo com aqueles veculos modernos, o engarrafamento de carros normais l embaixo era catico. Pelo visto, a desigualdade social ainda estava presente nesta poca do futuro.

    A nave desceu ainda mais. J estvamos flutuando por entre os prdios, o que me permitiu, pela primeira vez, visualizar os habitantes da cidade. Para algum como eu, que no estava acostumado com a cena, aquelas pessoas que trafegavam pelas ruas pareciam sadas de um circo de horrores, ou do laboratrio de algum cientista maluco. A maioria das pessoas eram algum tipo de ser hbrido que misturava o biolgico e o robtico. Algumas tinham membros e partes do corpo robticas; outras possuam apenas a cabea biolgica original, suportada por um corpo robtico arcaico; e outras eram normais e interagiam com os seres meio homem - meio mquina, como se aquilo fosse uma trivialidade.

    Notava-se uma certa falta de padro nas criaturas robticas. Algumas eram mais evoludas, com movimentos suaves e realistas, outras eram, provavelmente, as primeiras a terem sido construdas, devido a seus movimentos desengonados e a aparncia austera.

    Percebia-se facilmente uma escala de evoluo nos corpos artificiais, mas, mesmo os mais evoludos, em nada se pareciam fisicamente com as pessoas da minha poca.

    Eeron me disse que as pessoas daquela poca j haviam mudado muito seu modo de ver e viver a vida. Eles eram mais ponderados,

  • conscientes, no tinham preconceito, todos se tratavam de igual para igual. O negro, o branco, o homossexual, a mulher, os desprovidos, os abastados, os ateus e os testas - estes ltimos eram evidente minoria -; todos conviviam harmoniosamente e em paz, sem rtulos ou discriminaes.

    Falou-me tambm sobre os avanos tecnolgicos e medicinais da poca. Os progressos na robtica, fsica, nanotecnologia e na biotecnologia foram significativos. Com o uso das clulas tronco, a medicina evoluiu ao ponto de erradicar quase todas as doenas do corpo humano, e de tornar possvel a reanimao de pessoas congeladas h dcadas nos tubos criognicos.

    Nessa poca tambm, foram empreendidas as primeiras viagens interplanetrias com o uso da tecnologia anti gravitacional e de energia livre, alm, claro, das primeiras viagens no tempo.

    Mesmo com todas aquelas mudanas extraordinrias, no era bem aquilo que eu queria ver da humanidade. Eu queria saber onde realmente poderamos chegar. Qual seria nosso pice evolucionrio? Com certeza no o iria descobrir nesta poca.

    Pedi ento, para que Eeron me levasse para o ano de 2.200, mas que se conservasse na mesma cidade. Ele meneou a cabea em afirmao.

    Novamente, aps seus comandos, o mundo l fora se tornou um borro abstrato e circular. Desta vez no senti o mal estar da viagem anterior e consegui olhar todo o procedimento.

  • Aos poucos o borro foi ficando mais claro e identificvel. A paisagem foi tomando forma, at que a nave parou repentinamente o movimento circular que fazia, revelando assim, a cidade.

    Tnhamos retornado para uma grande altura. Fitei os prdios ao redor e, para minha surpresa, vi que as coisas no haviam mudado muito. Muitas das construes continuavam l, como h muitos anos, inclusive as da minha poca. Viam-se, como era de se esperar, muitos prdios e construes mais novas, altas e complexas. A maior diferena ficava por conta da arborizao, que era bem mais volumosa em relao outra poca.

    Eeron foi diminuindo a altitude da nave. A princpio, achei que ele se enganara e retrocedera no tempo, em vez de avanar. As pessoas esquisitas, com seus corpos robticos desengonados, haviam dado lugar a pessoas comuns como as do incio do sculo XXI, mas com vestimentas num estilo mais homogneo e srio. Meus amigos logo me explicaram que aqueles tambm se tratavam de corpos robticos, s que muito mais evoludos que os primeiros.

    Eram uma cpia perfeita do corpo humano. A pele sinttica era capaz de reproduzir, com exatido, todas as sensaes da pele biolgica, inclusive, dor, desejo e satisfao sexual. A nica diferena, era que o portador do corpo artificial podia escolher quando sentir, ou no sentir, tais sensaes.

    Mal se podia distinguir quem estava no corpo artificial de quem estava no corpo real, tamanha era a semelhana e perfeio dos movimentos.

    O corpo no era apenas uma cpia, era uma melhoria. Uma

  • maquina perfeita que proporcionava fora, viso de longo alcance, trmica e noturna; velocidade, opo de no sentir a dor; era possvel se conectar a qualquer tipo de mdia ou rede de comunicao a partir do prprio corpo. Era possvel comunicar-se com qualquer pessoa no planeta, ou fora dele, em tempo real, sem quaisquer aparelhos adicionais. Possua memria infinita e outros apetrechos que jamais teramos com nosso corpo biolgico. Alguns mais ousados, pediam a instalao de um gerador anti gravitacional no cerne do corpo, o que os tornava capaz de levitar. - Incrvel! - Os veculos se tornaram obsoletos. Aquilo ia alm das minhas expectativas.

    Fiquei imaginando se Jesus Cristo no teria sido uma dessas pessoas, que viajou ao passado para exibir seus poderes milagrosos. Seria fcil para um deles! Chegaria a ser engraado.

    Eeron e Aristarco falaram-me que a medicina havia chegado a seu apogeu perfeccionista. Com o uso avanado das clulas tronco, corpos biolgicos inteiros eram construdos a partir do zero, e o crebro dos enfermos e idosos era transplantado para eles.

    As pessoas que escolhiam uma vida mais natural, sem interveno das tecnologias avanadas como os clones ou os robs, viviam em torno de 180 anos, pois no havia mais doena que no pudesse ser curada.

    No existia mais fome e desigualdade no mundo, porque um governo mundial havia sido instaurado, em comum acordo com todos os pases do globo. Excluiu-se por completo aquilo que denominvamos como pas. O mundo tornou-se um s, sem fronteiras, sem guerras.

  • As pessoas mudaram radicalmente seu modo de ver e viver a vida. O sistema capitalista j no era to forte como antes. No se glorificava mais o consumismo e o luxo, mas sim, o conhecimento e a cultura. Priorizava-se o bem estar mental, em vez do capital.

    Entre outras conquistas da humanidade nesta poca, estavam a utilizao de 100% de energia limpa no planeta e, mesmo tendo sido controlados todos os problemas ambientais e o aquecimento global, celebramos tambm o comeo da colonizao da Lua e de Marte.

    Outra mudana interessante que ocorreu nesta poca foi a queda das barreiras lingusticas. Aqui, os humanos possuem duas formas distintas de comunicao. A primeira a normal, a linguagem oral. A outra atravs de aparelhos implantados no crebro que funcionam como uma espcie de celular evoludo ou, simplesmente, como uma espcie de telepatia high tech, que permite s pessoas se comunicar com qualquer um, em qualquer lugar, em tempo real, alm de ser feita uma traduo simultnea se a outra pessoa falar uma lngua diferente. Provavelmente era essa a tecnologia que eles estavam utilizando para se comunicar comigo naquele momento.

    At agora, todas as previses que eu havia feito sobre o futuro, estavam corretas. Mas minhas previses iam para muito alm de 2.200. Minha imaginao ia muito alm.

    Pedi, ento, para que Eeron e Aristarco me levassem para 2.900.

    Eles concordaram, afinal, estavam gostando da minha curiosidade. Era uma qualidade notvel.

  • Eeron fez os ajustes de praxe no painel de controle da nave e os mesmos efeitos tornaram-se visveis l fora.

    Quando o processo terminou e minha viso foi preenchida com o novo ambiente, tomei um choque!

    CAPTULO VI

    Cerca de um tero dos prdios haviam simplesmente desaparecido. Em seus lugares encontravam-se agora lindos bosques. E muitos dos prdios que ainda permaneciam, pareciam abandonados, a maioria com vegetao, trepadeiras, rvores e animais selvagens tomando conta de suas estruturas.

    Ao flutuarmos baixa altitude, me surpreendi com a calmaria do local. Os carros apressados, com seus estressados motoristas, j no estavam mais l. A multido de pedestres que andava se

  • trombando pelas ruas tambm havia sumido. As poucas pessoas que se via pelo local, davam a impresso de estarem apenas passeando, despreocupadas com a vida. Pessoas que, alis, logo me fizeram perceber de que poca Eeron pertencia.

    Com as explicaes de Eeron, fiquei sabendo que a humanidade perdeu um pouco a criatividade e a sensibilidade. As cpias do antigo corpo biolgico deram lugar a mquinas perfeitas, sem inutilidades como cabelos, msculos torneados, a cor tpica da nossa tez, olhos pequenos com campo de viso limitados, entre outras futilidades que um corpo perfeito no necessitava. At os rgos sexuais no estavam presentes nesses novos corpos, pois praticamente toda a reproduo humana nesta poca era feita artificialmente. Bastava uma amostra de DNA, para se produzir um descendente.

    Assim, se chegou a essa mquina evoluda que Eeron e Aristarco estavam usando. Sem cabelo; caixa craniana grande para a acomodao da grande quantidade de aparelhos; olhos grandes para um maior campo visual; sem nariz, orelha ou boca salientes, j que estes no se faziam mais to necessrios. Um tronco compacto e membros longos, porm, poderosos. A cor acinzentada , provavelmente, pela falta da necessidade de diferenciao alheia que possuamos antigamente.

    A falta de pessoas nas ruas, como eles me explicaram, era por um motivo que eu j imaginava.

    Assim como a dor, a libido tambm podia ser ligado e desligado nesses corpos robticos. Isso fez com que a populao mundial reduzisse drasticamente, para algo em torno de dois bilhes e meio

  • de pessoas. O planeta estava realmente deserto para os padres do sculo XXI.

    No comeo, os crebros das pessoas eram transplantados para as mquinas, mas com o passar do tempo, a tcnica evoluiu e se desenvolveu um novo mtodo. Agora, em vez do crebro, transplantavam-se apenas os neurnios para a mquina, envoltos em uma soluo biolgica que os mantinham vivos.

    Isso gerou grandes indagaes para a sociedade da poca: como saberemos quem humano e quem no ? Se transferirmos os neurnios de um recm nascido para uma maquina, ele ser humano ou apenas um rob com inteligncia artificial avanada? Chegou-se concluso de que, se fossem transferidos os neurnios de pessoas muito jovens para a mquina, esta, no poderia ser considerada humana, j que no vivera as experincias naturais que definem o Eu de cada um.

    Estipulou-se, ento, a idade mnima de 20 anos, para a transferncia de neurnios para uma mquina. Se fosse feita antes disso, a pessoa no seria mais considerada humana, perdendo vrios direitos sociais.

    Os transplantes de crebro inteiro no sofriam com este problema, porque, quando transplantados para um corpo artificial, eles continuavam a formar conexes entre os neurnios, gerando, assim, novas memrias. J, quando transplantados apenas os neurnios, todas as novas experincias vividas pelo ser, so armazenadas em memrias artificiais, tornando a maior parte da mente da pessoa artificial.

  • Eeron continuou a fazer afirmaes grandiosas sobre aquele magnfico futuro.

    Disse que as leis da fsica deixaram de ser leis, pois todas elas podiam ser burladas ou contornadas de uma maneira, ou de outra. Tudo podia ser feito com a matria e com as foras que a envolvem. No existiam limites.

    No havia nada sobre os mistrios do nosso planeta, ou sobre nossos prprios mistrios, que j no fosse conhecido. As nicas reas da cincia que ainda causavam alguma excitao, diziam respeito aos universos paralelos e explorao de outras galxias.

    Aps estas afirmaes de Eeron, percebi que ainda no havia feito uma pergunta muito importante:

    H vida em outros planetas? Vida inteligente?

    A resposta de Eeron gelou minha espinha.

    Parece que ns somos, realmente, um acidente da evoluo, Alan. Pelo menos at agora.

    Ele continuou, me dizendo que a humanidade j havia visitado alguns milhares de planetas como a Terra, nas zonas habitveis de suas respectivas estrelas, mas que apenas vida primitiva fora encontrada. Em alguns planetas encontraram vida microscpica em

  • incio de desenvolvimento; em outros, encontraram estgios diferenciados de evoluo bitica. Nunca encontraram nada alm de alguns animais de mdio porte irracionais e vida vegetal.

    Meus novos amigos tambm argumentaram sobre a psique coletiva da poca.

    A humanidade se tornou extremamente sbia e mudou completamente seu compreendimento sobre a vida. A sociedade, como era conhecida no sculo XXI, j no existe mais. Praticamente tudo estava mudado. O consumismo desnecessrio, os preconceitos, as injustias o individualismo severo; tudo isso fora eliminado do mago das pessoas.

    Mas, toda essa tecnologia avanada, trouxe algumas conseqncias negativas para a populao. Uma delas era a falta de ocupao, j que praticamente nada precisava ser feito manualmente. As pessoas eram boas, mas no eram felizes, pois j no encontravam grandes motivos ou sonhos para seguirem vivendo.

    A falta de mistrios acabou com o xtase e o frenesi que existia antigamente na vida das pessoas. Isso no proporcionava espao para grandes curiosos, sonhadores e revolucionrios. Todas as revolues j haviam ocorrido. Para a grande maioria das pessoas, a vida era extremamente montona.

    Uma desacelerao na velocidade da evoluo tecnolgica tornou-se visvel. Quase nada de novo ou indito se criava. Praticamente tudo j fora criado. A bola de neve da singularidade j havia parado e estava prestes a descongelar.

  • Se compreendi bem a ultima metfora de Eeron, a tecnologia comear a regredir. Est a algo que eu jamais imaginara! Isso me deixava boquiaberto. Como possvel que, mesmo com o nvel evolutivo que chegamos, possamos regredir? No faz sentido! No h nexo!

    Aristarco logo me explicou que a humanidade no regrediu, mas apenas mudou seu modo de evoluir.

    Eeron, vamos mostrar para Alan, que tudo isso que ele viu at agora no evoluo. Pelo menos, no como ela deveria ser. Falou Aristarco, insinuando mundo l fora.

    Comeamos, novamente, a viajar pelo tempo.

    Percebi que desta vez estvamos demorando mais que antes.-Pra que poca esto me levando?-

    Com todas as coisas incrveis que estavam acontecendo e as imagens deslumbrantes que eu presenciava, ainda no tinha reparado nos pequenos numerais no painel, que mudavam para valores mais altos a uma grande velocidade.

    Ao lado direito dos nmeros, havia dois smbolos em verde cintilante que lembravam um d. e um C..

    Aps uma longa espera, os nmeros pararam no 4.000.

  • Agora estava claro para mim em que poca estvamos: 4.000 d. C.

    Quando esquadrinhei o local, fiquei perturbado.

    A grandiosa cidade no estava mais l. Pelo menos, no como antes! Por entre a densa floresta, ainda se via as runas dos grandes prdios e das construes que ali se situavam. A cidade voltara a ser o que era antes da colonizao europia: uma mata fechada, fervilhante de vida selvagem.

    Olhei para meus amigos, atnito, tentando garimpar alguma informao.

    Mas o que significa isto? O que aconteceu cidade e s suas pessoas?

    A cidade foi abandonada h muitos anos Respondeu Eeron. Se quiser ver onde esto seus habitantes, teremos de nos locomover alguns quilmetros. Concluiu.

    Nos movimentvamos a uns 40.000 Km/h, sobre a bela floresta. A alta velocidade fazia com que a densa mata parecesse um tapete verde.

    A nave parou de sbito. Novamente no senti a fora G que deveria ter sentido com um movimento to brusco como aquele.Estava ante meus olhos, uma das ltimas coisas que imaginava ver nessa poca. Ao longe, num claro na floresta, avistei uma aldeia com aproximadamente 100 casinhas, que mais

  • lembravam ocas indgenas. Cobertas com palha e circulares, eram de tamanho pequeno, cabendo, no mximo, trs ou quatro pessoas cada.

    Ao redor das choupanas, algumas pessoas simples trabalhavam despreocupadas com nossa presena. Elas vestiam roupas rsticas, quase ancestrais, e calavam abarcas. Eram pessoas, aparentemente, primitivas. Os homens eram barbudos e cabeludos. As mulheres no usavam nada que aparentasse cuidado com a vaidade, tao comum s mulheres desde o inicio da sociedade.

    Entre as pessoas estavam vrios animais, alguns, inclusive, que eu pensava que estavam extintos, e at animais ferozes vivendo em harmonia com as pessoas.

    No avistei nenhum carro, nave, rob, ou qualquer outro aparelho de cunho tecnolgico nas redondezas. Mesmo assim, eles no se importavam com a presena da nossa incrvel nave.

    Eu ainda estava tentando descobrir o que aquelas pessoas possuam de evoludas, j que pareciam ter regredido milnios no quesito tecnolgico. Mas eu sabia que Eeron no havia se enganado. Alguma coisa eles deviam ter de especiais e eu ansiava por saber.

    Segundo Eeron e Aristarco, a riqueza e a qualidade daquelas pessoas no eram a tecnolgica ou a material, mas sim, a riqueza mental. Eles so uma espcie de evoluo do homo sapiens. So a evoluo natural do ser humano, esto um passo frente na linha biolgica da nossa raa. So pessoas boas a um nvel extremo,

  • incapazes de fazer mal at mesmo a um inseto, contudo, cada um vive em seu solitrio intelecto.

    Mesmo sem nenhum aparato tecnolgico implantado em seus crebros, a sabedoria deles to grande, que os filsofos mais sbios do passado passariam vergonha intelectual perante eles.

    Como resultado das infindveis horas de meditao, comearam a desenvolver novas qualidades, como a telecinesia, telepatia e outros "truques", sem nenhum aparato artificial, tamanho o poder de suas mentes.

    Nunca imaginei que esse tipo de poder mental fosse possvel, mas com tudo aquilo que eu estava vivenciando, no duvidava de mais nada.

    Quando Eeron falou sobre telepatia, foi a que me dei conta de que no possua nenhum tipo de aparelho implantado em meu crebro.

    Ento, como eu estou conversando telepaticamente, durante todo esse tempo, com os dois?

    O comentrio de Eeron estremeceu em meu interior; reverberou em meu Ser e respondeu a vrias perguntas sobre minha prpria vida.

    Voc um deles, Alan! Voc no um homo sapiens, a evoluo de um. Um acidente da natureza, uma troca de informaes, te fez nascer na poca errada.

    Com aquelas palavras latejando em meu inconsciente e a cabea

  • rodopiando, notei que aporta atrs de ns se abriu e por ela entraram na sala outros seres semelhantes Eeron e Aristarco.

    Eram todos idnticos.

    Eeron os foi apresentando: Isaac Newton, Charles Darwin, Leonardo Da Vinci, Adolf Hitler, que eu jamais duvidara da genialidade, apesar de t-la usado erroneamente; Stephen Hawking, Scrates, Albert Einstein, Nikola Tesla, entre outros, cujos nomes eu no assimilava, mas que deviam ter sido grandes pessoas em pocas que eu no conhecia.

    Algumas das mentes mais brilhantes da histria estavam reunidas naquele ambiente. Vieram me dar as boas vindas. Aquele era o grupo do qual, a partir de agora, eu faria parte.

    Agora minha vida seria uma total incgnita, e isso me excitava, me arrepiava, e me causava medo, um medo que eu adorava sentir.

    Finalmente eu estava feliz. Poderia, ento, fazer algo de bom e importante pelo planeta.

    Mesmo com todo o furor e alegria que eu estava sentindo, ainda faltava algo, talvez fosse alguma pergunta que ficara pra trs. Sim! Era uma pergunta!

    Uma pergunta extremamente bvia, mas que eu ainda no havia feito.

  • Olhei compenetrado para Eeron e indaguei:

    Quem foi Jesus Cristo?

    Essa uma pergunta que teremos de viajar alguns milnios para o futuro, para que voc possa VER a resposta...

    FIM

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