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  • CESAR MAIA BUSCACIO

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    Amigo Curt Lange ,Montevideo, Diciembre 19 de 1934Lamentei no ter podido ir estao no dia do seu embarque,Senor Profesor Camargo Guarnieri,pois, estive adoentado dois dias e assim, fiquei com medo doMi estimado amigo,tempo que estava chuvoso.Acuso recido de su muy atta. carta del 7 del cte. en l cual estaba tambinDe acordo com a minha promessa mando-lhe as minhas composiessu composici n prometida. Todo lleg a tiempo y no se produjeron transtornos.impressas, isto , primeiramente a que deve sair no BoletimLamento sinceramente que Ud. no haya podido venir a mi ltima conferencia,a qual para chegar em tempo, mando-lhe por avio; as outrasa la hora de partida, en la estacin ferroviaria, pus hubiera deseado despe-mandarei com o primeiro vapor. Esperando assim satisfazer o seudirme de Ud. personalmente. Ser hasta la prxima. Quizs nos veremos muy pronto.desejo, mais uma vez por intermdio desta fao-lhe ciente doDe mis actividades y dems publicaciones estar constantemente al tanto, pusgrande prazer que tive em conhec-lo pessoalmente, como tambmremitir todo. Vianna no me ha mandado nada an; le ruego que le diga que meem ouvir as interessantissimas conferncias que realizou aquiencuentro a la espera de sus obras y biografa. Debido ao exceso de trabajo,(deboem So Paulo.

    Com um amistoso abrao, fico aqui ao seu inteiro dispor.contestar 157 cartas que receb durante mi ausencia),soy extremadamente breve.

    Le ruego que salude a Mario de Andrade en mi nombre y en el de mi seora,Camargo Guarnieripronto le escribir detalladamente.So Paulo 7/XII/934Sin o tro motivo, reciba los afectos invariables y un fuerte abrazo de suEm tempo: mando-lhe do outro lado a minha biografia e junto aamigo de siempre.esta, o meu retrato para voc.Curt LangeO mesmoP.D/ Drjase siempre a la direccin particular ma: Tacuaremb 1291

    AMERICANISMO ENACIONALISMO MUSICAISNA CORRESPONDNCIADE CURT LANGEE CAMARGO GUARNIERI1934-1956

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    As cartas trocadas por Fran cis -co Curt Lange e Mozart Ca -margo Guarnieri, entre os anosde 1934 e 1956, resultaram naconstituio de um expressivoacervo documental da histriada msica brasileira e, sobre-tudo, no delineamento de doisprojetos identitrios: o america-nismo e o nacionalismo mu -sicais. Selecionada como fonteprivilegiada de pesquisa, essacorrespondncia embasou ainterpretao das representa-es e sociabilidades no cenrioartstico brasileiro e latino-ame-ricano. Numa perspectiva hist-rico-cultural, tornou-se possvelcompreender o conceito de na -cional por meio do entrecruza-mento dos padres da culturaerudita ocidental mo dernacom as concepes de po -pular e de folclrico acolhi-das pelos artistas e intelectuaisdo perodo. Na esfera poltico-governamental, buscou-se ana-lisar o processo de estabeleci-mento de vnculos en tre ocampo musical e as instnciasestatais, destacando o papel dopoder pblico como mantene-dor de instituies e viabiliza-dor de projetos. Esta obra, intitulada Ame rica nis -mo e Nacionalismo Musicais naCorrespondncia de Curt Lange eCamargo Guarnieri (1934-1956),publicada neste volume, atra-vs da concesso do PrmioFunarte de Produo Crtica emMsica, foi desenvolvida com oapoio da CAPES/PICDT, juntoao Programa de Ps-Graduaoem Histria Social do Institutode Filosofia e Cincias Sociaisda Uni ver si dade Federal do Riode Janeiro, sob a orientao doprofessor Carlos Fico.

    CESAR MAIA BUSCACIO bacha-rel em Piano pela UFMG, mes-tre em Msica e Educao pelaUNIRIO e doutor em HistriaSo cial pela UFRJ. Participou doprocesso de elaborao e im -plantao do Curso de Msicada UFOP, onde atua como pro-fessor de Piano e Histria daMsica. Atualmente desenvol -ve um trabalho de Piano a Qua -tro Mos com enfoque na m -sica brasileira do sculo XX, jun-tamente com a pianista IzabellaMontesanto.

    ISBN: 978-85-288-0076-0

    ESTE LIVRO FOI CONTEMPLADO NO PRMIO FUNARTE DE PRODUO CRTICA EM MSICA

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    Amigo Curt Lange ,Montevideo, Diciembre 19 de 1934Lamentei no ter podido ir estao no dia do seu embarque,Senor Profesor Camargo Guarnieri,pois, estive adoentado dois dias e assim, fiquei com medo doMi estimado amigo,tempo que estava chuvoso.Acuso recido de su muy atta. carta del 7 del cte. en l cual estaba tambinDe acordo com a minha promessa mando-lhe as minhas composiessu composici n prometida. Todo lleg a tiempo y no se produjeron transtornos.impressas, isto , primeiramente a que deve sair no BoletimLamento sinceramente que Ud. no haya podido venir a mi ltima conferencia,a qual para chegar em tempo, mando-lhe por avio; as outrasa la hora de partida, en la estacin ferroviaria, pus hubiera deseado despe-mandarei com o primeiro vapor. Esperando assim satisfazer o seudirme de Ud. personalmente. Ser hasta la prxima. Quizs nos veremos muy pronto.desejo, mais uma vez por intermdio desta fao-lhe ciente doDe mis actividades y dems publicaciones estar constantemente al tanto, pusgrande prazer que tive em conhec-lo pessoalmente, como tambmremitir todo. Vianna no me ha mandado nada an; le ruego que le diga que meem ouvir as interessantissimas conferncias que realizou aquiencuentro a la espera de sus obras y biografa. Debido ao exceso de trabajo,(deboem So Paulo.

    Com um amistoso abrao, fico aqui ao seu inteiro dispor.contestar 157 cartas que receb durante mi ausencia),soy extremadamente breve.

    Le ruego que salude a Mario de Andrade en mi nombre y en el de mi seora,Camargo Guarnieripronto le escribir detalladamente.So Paulo 7/XII/934Sin o tro motivo, reciba los afectos invariables y un fuerte abrazo de suEm tempo: mando-lhe do outro lado a minha biografia e junto aamigo de siempre.esta, o meu retrato para voc.Curt LangeO mesmoP.D/ Drjase siempre a la direccin particular ma: Tacuaremb 1291

    AMERICANISMO ENACIONALISMO MUSICAISNA CORRESPONDNCIADE CURT LANGEE CAMARGO GUARNIERI1934-1956

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    As cartas trocadas por Fran cis -co Curt Lange e Mozart Ca -margo Guarnieri, entre os anosde 1934 e 1956, resultaram naconstituio de um expressivoacervo documental da histriada msica brasileira e, sobre-tudo, no delineamento de doisprojetos identitrios: o america-nismo e o nacionalismo mu -sicais. Selecionada como fonteprivilegiada de pesquisa, essacorrespondncia embasou ainterpretao das representa-es e sociabilidades no cenrioartstico brasileiro e latino-ame-ricano. Numa perspectiva hist-rico-cultural, tornou-se possvelcompreender o conceito de na -cional por meio do entrecruza-mento dos padres da culturaerudita ocidental mo dernacom as concepes de po -pular e de folclrico acolhi-das pelos artistas e intelectuaisdo perodo. Na esfera poltico-governamental, buscou-se ana-lisar o processo de estabeleci-mento de vnculos en tre ocampo musical e as instnciasestatais, destacando o papel dopoder pblico como mantene-dor de instituies e viabiliza-dor de projetos. Esta obra, intitulada Ame rica nis -mo e Nacionalismo Musicais naCorrespondncia de Curt Lange eCamargo Guarnieri (1934-1956),publicada neste volume, atra-vs da concesso do PrmioFunarte de Produo Crtica emMsica, foi desenvolvida com oapoio da CAPES/PICDT, juntoao Programa de Ps-Graduaoem Histria Social do Institutode Filosofia e Cincias Sociaisda Uni ver si dade Federal do Riode Janeiro, sob a orientao doprofessor Carlos Fico.

    CESAR MAIA BUSCACIO bacha-rel em Piano pela UFMG, mes-tre em Msica e Educao pelaUNIRIO e doutor em HistriaSo cial pela UFRJ. Participou doprocesso de elaborao e im -plantao do Curso de Msicada UFOP, onde atua como pro-fessor de Piano e Histria daMsica. Atualmente desenvol -ve um trabalho de Piano a Qua -tro Mos com enfoque na m -sica brasileira do sculo XX, jun-tamente com a pianista IzabellaMontesanto.

    ISBN: 978-85-288-0076-0

    ESTE LIVRO FOI CONTEMPLADO NO PRMIO FUNARTE DE PRODUO CRTICA EM MSICA

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  • CESAR MAIA BUSCACIO

    AMERICANISMO ENACIONALISMO MUSICAISNA CORRESPONDNCIADE CURT LANGEE CAMARGO GUARNIERI1934-1956

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  • COORDENAO EDITORIALGustavo Henrique Bianco de Oliveira

    PROJETO GRFICO E TRATAMENTO DE IMAGENSDaniel Ribeiro

    TAE / Editor de Publicaes (UFOP)

    CAPAElvia Buscacio Agafonovas

    REVISORosngela Zanetti e Ftima Lisboa

    REVISO TCNICACesar Maia Buscacio

    Campus Morro do CruzeiroCentro de Vivncia, sala 03

    Tel.: (31) 3559-1463 - Telefax.: (31) 3559-1255

    Ouro Preto/MG - 35400.000

    Direitos desta edio

    reservados

    2010

    ISBN: 978-85-288-0076-0

    Capitulos 1_a_4:Layout 1 2/2/2011 10:58 Pgina 2

  • REITORJoo Luiz Martins

    VICE-REITOR Antenor Rodrigues Barbosa Jnior

    DIRETOR-PRESIDENTEGustavo Henrique Bianco de Oliveira

    ASSESSORAlvimar Ambrsio

    CONSELHO EDITORIALAdalgimar Gomes GonalvesAndr Barros CotaElza Conceio de Oliveira SebastioFbio FaversaniGilbert Cardoso BouyerGilson IaninniGustavo Henrique Bianco de SouzaCarla Mercs da Rocha Jatob FerreiraHildeberto Caldas de SousaLeonardo Barbosa GodefroidRinaldo Cardoso dos Santos

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  • Buscacio, Cesar Maia.

    Americanismo e nacionalismo musicais na correspondncia de Curt Lange

    e Camargo Guarnieri (1934-1956) / Csar Maia Buscacio. - Rio de Janeiro:

    UFRJ/PPGHIS, 2009.

    xii, p. 272 f.: il.; 31 cm.

    Orientador: Carlos Fico

    Tese (doutorado) UFRJ/ IFCS/ Programa de Ps-Graduao em Histria Social,

    2009.

    ISBN: 978-85-288-0076-0

    Referncias bibliogrficas: f. 262-272.

    1. Curt Lange. 2. Camargo Guarnieri. 3. Msica Brasileira. 4. Americanismo Mu-

    sical. 5. Nacionalismo Musical. 6. Epistolrio. I. Fico, Carlos. II. Univer-

    sidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Ps-Graduao em Hist-

    ria Social. III. Americanismo e nacionalismo musicais na correspondncia

    de Curt Lange e Camargo Guarnieri (1934-1956).

    Catalogao: [email protected]

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  • APRESENTAO

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  • Fazer dialogar trs linguagens distintas, trs maneiras de proversentido ao mundo e uma pertena identitria aos sujeitos: foi este o de-safio assumido por Cesar Buscacio, na pesquisa agora publicada na obraAmericanismo e nacionalismo musicais na correspondncia de Curt Lange eCamargo Guarnieri (1934-1956). possvel traduzir o fascnio suscitadopela escuta da arte musical em discursos epistolares ou em conceitos eanalogias do saber histrico? A recente produo acadmica das cinciashumanas vem afirmando que sim, embora as dificuldades no sejam peque-nas. preciso, para que tal intertextualidade seja promovida, superaruma interpretao descritiva dos gneros ou uma reconstituio biogr-fica de compositores e intrpretes, buscando perceber como a prtica mu-sical abarca a apropriao de variadas tradies de sonoridade e de pro-jetos identitrio-culturais, os quais, por sua vez, implicam o exercciode permanentes sociabilidades, a culminarem na dimenso legitimadora dasinstitucionalizaes.

    Cesar Maia Buscacio pianista, formado no ano de 1987 pela Escolade Msica da UFMG, e, como tal, encontra-se familiarizado com os cdi-gos e o traquejo da linguagem musical. Mais do que conhec-la, ele aaprecia, aventurando-se por suas mltiplas possibilidades, avantajando-se na ousadia da execuo pblica de peas musicais ora complexas, orapouco afinadas com a sensibilidade esttica de vrios de seus ouvintes,geralmente pouco prxima de algumas das incurses de Cesar pela msicacontempornea. Esta, porm, apenas uma das facetas do trnsito de Ce-

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  • sar pelo domnio musical, pois ele privilegia, em seu repertrio, obrasrelacionadas produo brasileira, suscitando, com isto, um misto depertencimento e estranhamento nos presentes s apresentaes, que se re-conhecem em compositores e ttulos, mas se perdem em harmonias e arran-jos... E ento, articulando sons e discursos, discorrendo com persua-so, at com maestria, principalmente aps a concluso do mestrado emMsica e Educao pela Uni-Rio em 2003, Cesar introduz alunos e audit-rio nas diferentes possibilidades de interpretao de tais obras. A m-sica torna-se, dessa maneira, uma geratriz de novas sensibilidades eidentidades, a partir do reemprego de antigas referncias.

    Cesar, portanto, conhece e gosta de msica, mas tambm de hist-ria. Assim, acrescendo sua formao um doutorado em Histria Social,defendido em 2009 pela UFRJ, ele tambm se revelou um excelente histo-riador, capaz de problematizar uma dada realidade histrico-cultural, me-diante a investigao de um registro documental bastante fragmentrio:a correspondncia entre um musiclogo alemo, radicado no Uruguai, e umcompositor e intrprete brasileiro, que estudou na Frana e circulavapor vrios pases do hemisfrio norte Curt Lange e Camargo Guarnieri.Na leitura dessa fonte, em que a subjetividade dos missivistas indis-socivel de suas concepes de arte, cultura... e poder, Cesar circuns-creve dois conceitos centrais, que emergem com destaque na interrogaoda fonte: americanismo e nacionalismo musical.

    Aos poucos, ao longo da pesquisa, foram sendo traadas as hipte-ses: tratar-se-iam de dois projetos distintos, encetados de maneira par-ticularizada por Curt Lange e Camargo Guarnieri, mas passveis de umaaliana; essas duas concepes, por sua vez, poderiam ser entendidas comotradues musicolgicas de um iderio poltico-cultural, isto , longede apenas veicular os valores referentes nacionalidade ou ao pan-ame-ricanismo, tais correspondncias, assim como a produo musical qualelas se reportavam e de cujo campo faziam parte, mostravam-se performa-tivas, conferidoras de novos significados ao real atravs da arte.

    Uma das surpresas vivenciadas por Cesar no decorrer de seu processode pesquisa de doutorado (e uma das importantes contribuies da tese,agora apresentada sob o formato deste livro) foi vislumbrar e apro-fundar a multiplicidade de inter-relaes entre compositores, intr-pretes, diretores de instituies culturais, editores etc., dos mais di-ferentes pases, mobilizadas atravs da correspondncia de Curt Lange eCamargo Guarnieri. Foi atravs de tais enredamentos que as noes de ame-ricanismo e de nacionalismo musicais no se ativeram aos contornos deuma perspectiva de inteligibilidade do mundo, para transformarem-se emprojetos poltico-culturais viveis naquela especfica conjuntura his-trica. Ora, a maioria desses integrantes do campo musical do Brasil eda Amrica Latina perdura ainda no anonimato, inclusive nos circuitosespecializados da produo universitria. Aceder a eles, atravs da an-lise de Cesar Buscacio, permitir-se uma anlise mais densa e plural

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  • da produo musical brasileira e latino-americana das dcadas de 1930 a1950, para alm das representaes j veiculadas pela historiografia eou pela imprensa (as quais certamente j tm validade assegurada). Mas a prpria configurao do campo musical que vem a ser alterada pelapesquisa de Cesar Buscacio, mediante a incluso de novos sujeitos nasentrelinhas de um dilogo epistolar.

    Outro ponto relevante da produo de Cesar Buscacio sua ateno reconstituio, encetada sobretudo por Curt Lange em uma perspectivamusicolgica, dos legados musicais advindos da Amrica Portuguesa e doBrasil Imprio, incluindo-se peas comumente agrupadas sob a denomina-o de populares. Sem enveredar pela discusso semntico-conceitualdessa expresso, o que interessa a Cesar Buscacio identificar os ele-mentos artstico-musicais que, de diferentes historicidades e formaesculturais, foram considerados pelos missivistas como significativas con-tribuies para uma reelaborao meldica da produo musical. Assim,chega a ser com carinho que Cesar menciona as bandas existentes nas ter-ras mineiras, vez por outra citadas no epistolrio, mas com indigna-o que ele relata a destruio de antigas partituras, utilizadas comoestopim de fogos de artifcio nas festas de So Joo. Em tais passagens,Cesar assume o discurso de Curt Lange (embora no o lugar de fala dessemusiclogo), sofrendo, se no com ele, mas certamente atravs dele oumelhor, de sua escrita a perda incomensurvel da arte nos meandros dahistria.

    Se Cesar Buscacio avana em todas essas questes ao longo de seulivro, h uma posio que ele decididamente no assume: a promoo deuma certa estetizao da histria atravs da msica. Cesar no tece umaconfigurao do que seria o nacional ou o americanismo, sob um prismasociocultural; no avalia se as propostas musicolgicas e musicais deCurt Lang e Camargo Guarnieri corresponderiam ou no realidade vigente.Com isso, ele escapa da armadilha de contrapor texto e experincia, dis-curso (musical ou epistolar) e realidade vivida. Em sua pesquisa, o realemerge das prticas de escrita (e por isso so prticas, e no um pro-duto acabado, um suposto catlogo de ideias, ideologias e smbolos), deum fazer-se que entrecruza o senso musical, as disputas profissionais,os afetos (e desafetos) dos correspondentes.

    Todavia (e bem paradoxalmente), se Cesar Buscacio no promove umaestetizao da histria, ele no abre mo de uma estetizao da vida,buscando vislumbrar nos redatores das missivas algo alm de uma disputapor um sucesso artstico ou intelectual. A relao da produo musicalcom o processo de legitimao institucional entendida no livro comoatitude estratgica, mas no como mensurao de possveis conquistas.Nesse sentido, pode-se considerar que, para Cesar Buscacio, o efetiva-mente relevante era perguntar-se Afinal, essa correspondncia veicu-lava projetos em que o artstico e o existencial vinham a confluir, sendoespecialmente consubstanciados atravs da prtica e do campo musicais?.

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  • Sim, ele respondeu, no decorrer de todo o livro e muito especialmenteem suas ltimas pginas, dedicadas narrao da aquisio do epistol-rio de Curt Lange mais de 98.000 cartas pela Biblioteca da UFMG, soba mediao da professora Sandra Loureiro de Freitas Reis, no ano de 1995.A contnua consulta feita por pesquisadores a esse acervo indica que aosprotagonistas das missivas pode ser creditada uma certa inventividade,uma dose de coragem em sua exposio no campo das artes e das letras.Se hoje sabemos que a ideia de autor uma inveno romntica, que ab-dicamos dos conceitos de originalidade e influncia em prol das apro-priaes e disputas de representao, alguns de ns no renunciam com-preenso do papel do sujeito na produo de si, de uma maneira deconferir significado ao mundo, e at de torn-lo, se possvel, belo emelhor. Estudar histria, sensibilizar-se com o entremeio de acordes earpejos musicais, ler e escrever uma correspondncia so, em alguns ca-sos, maneiras de dizer que a vida, sem deixar de ser enigmtica e in-conclusa, pode suscitar em ns um aproximar de campos de sentido, capazde nos fazer reelaborar imaginrios (mais inconformistas e criativos doque a fantasia) e, quem sabe, de nos conduzir a experienciar a alegriae at mesmo a felicidade.

    Virgnia Albuquerque de Castro BuarqueProfessora Adjunta do Departamento

    de Histria da UFOP

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  • SUMRIO

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  • INTRODUO 16

    PARTE I Representaes Musicais 26

    CAPTULO 1 Por uma Esttica Nacional 30O Americanismo de Curt Lange 32O Nacionalismo de Camargo Guarnieri 42

    CAPTULO 2 O Popular e o Moderno 66A Remisso ao Folclrico 69Para Alm do Tonalismo 82Uma Bricolagem Cultural 98

    PARTE II Sociabilidades 110

    CAPTULO 3 Negociando Alianas 114Os Compositores 117Os Regentes 121As Pianistas 127Os Pianistas 135Os Violinistas 140Os Violonistas 143As Cantoras 144

    CAPTULO 4 Divulgando a Produo 150A Impresso das Obras 152A Organizao de Concertos 163O Circuito Radiofnico e Fonogrfico 178

    CAPTULO 5 Legitimando um Saber 186A Pesquisa 188O Ensino 205Premiaes 211Lideranas Institucionais 214

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  • CAPTULO 6 Transitando entre a Cultura e a Poltica 218Ambientes Letrados 219A Imprensa 226O Estado Brasileiro 231Fruns Internacionais 242

    CONCLUSO 250

    BIBLIOGRAFIA 257

    APNDICES 267I - Compositores Brasileiros 267II - Intrpretes Brasileiros 268III - Compositores Estrangeiros 269IV - Intrpretes Estrangeiros 271V - Musiclogos e Educadores Musicais 273VI - Cargos e Funes Desempenhados por Curt Lange 274VII - Cargos e Funes Desempenhados por Camargo Guarnieri 275

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  • INTRODUO

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  • 17Esta obra debrua-se sobre o campo musical latino-americano, prin-cipalmente brasileiro, entre as dcadas de 1930 a 1950, perodo que, ape-sar dos entraves autoritrios, apresentou uma grande efervescncia cul-tural. Compositores e intrpretes, musiclogos e intelectuais atuavam nosentido de expandir a produo musical, que passava a ser veiculada emnovos peridicos de circulao internacional. Esse dinamismo tambm ma-nifestava-se em um duplo movimento: por um lado, alguns compositorespreocupavam-se em manter um posicionamento esttico, em defesa do na-cionalismo musical, destacando-se Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993);por outro, o grupo intitulado Msica Viva (1938-1952), liderado pelocompositor alemo naturalizado brasileiro, Hans-Joachim Koellreutter(1915-2005), defendia postulados de cunho universalista.

    Tal embate no foi casual. Desde a segunda metade do sculo XIX, onacionalismo musical vinha afirmando-se no Brasil, como uma nova cor-rente esttica1, com base na explorao de ritmos e melodias populares,numa tentativa de traduo da suposta identidade do pas atravs de suamusicalidade. O anseio, por um nacionalismo musical, estendeu-se paraalm do sculo XIX, ganhando contornos emblemticos na Semana de ArteModerna. Porm, as formulaes musicais dessa Semana no compartilha-vam de nenhuma soluo esttica radical2 no que se refere preocupa-

    1 AUGUSTO, Antonio Jos. A questo Cavalier: msica e sociedade no Imprio e na Repblica (1846-1914). Tese (Doutorado em Histria). Rio de Janeiro: UFRJ/PPGHIS,2008.2 WISNIK, Jos Miguel. O coro dos contrrios: a msica em torno da Semana de 22. So Paulo: Livraria Duas Cidades, 1983. p. 141.

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  • o com o nacionalismo, que s veio a acentuar-se pela msica brasileira,depois de 1924. Aps a Segunda Guerra Mundial, todavia, surgiu uma rea-o universalista na msica, alm de aparecerem novas tendncias est-ticas que ora vieram a negar, ora se incorporaram ao nacionalismo.

    No bojo dessas transformaes, a correspondncia trocada entre Ca-margo Guarnieri e Curt Lange (1903-1995), musiclogo alemo, naturali-zado uruguaio, que se dedicou com afinco divulgao da msica latino-americana, iria traduzir as novidades e as crticas que estavam sendopromovidas. Afinal, em meio a quase duas centenas de cartas, foram in-meras as referncias promovidas pelos dois missivistas a letrados, po-lticos, diretores de instituies culturais, musiclogos, historiado-res, alm, claro, a msicos brasileiros e de diversas partes da Amricae da Europa, muitos dos quais, dotados de grande expresso, como Villa-Lobos, Koellreutter, Guerra Peixe e Cludio Santoro. A correspondnciade Curt Lange registrava tambm testemunhos inditos de Carlos Drummondde Andrade, Mrio de Andrade e outras figuras do cenrio cultural bra-sileiro.

    A carta teve grande papel social na primeira metade do sculo XX,pois intercambiava informaes, oportunidades, acordos ou cises, tantonas relaes pessoais, quanto nas profissionais. Diante do elevado custodos meios de transporte e da precariedade da comunicao atravs do te-lefone, a carta constitua-se num veculo de grande contato social. In-meros intelectuais e artistas mantiveram, assim, um intenso dilogo epis-tolar, no somente com o objetivo de cultivar amizades e estreitarrelacionamentos, como tambm de fomentar a prtica cultural, sobretudoquando produes pessoais encontravam-se envolvidas:

    Voc deve ter recebido ante-ontem uma outra cartaminha falando sobre a execuo do meu quarteto, a noRio, num dos concertos que voc est organizando. Re-solvi tudo como vocs, meus amigos, desejavam. Pro-vavelmente, irei ao Rio para o concerto. Bom, meuamigo, vou parando. Anita envia lembranas a MariaLuisa e a voc. Receba um fraternal abrao do seuamigoMozart Camargo Guarnieri3.

    Verifica-se, ao longo da leitura dessa correspondncia, que a re-trica utilizada por Curt Lange e Camargo Guarnieri acabava por expri-mir, ainda que indiretamente, suas subjetividades, pois o relato epis-tolar, filtrado por uma memria perpassada de afetividade, conferia novossentidos aos eventos passados e s expectativas de futuro4. A predomi-nncia de uma estilstica cordial, no discurso de Camargo Guarnieri como no tratamento, vrias vezes empregado, Amigo Curt Lange5 , pos-

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    3 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 21 de abril de 1945. Nesta obra, a transcrio das fontes manteve inalterados seu idioma e grafia originais.4 GOMES, ngela de Castro (org.). Escrita de si, escrita da histria. Rio de Janeiro: FGV, 2003. p. 15.5 Como referncia, pode-se citar as cartas de Camargo Guarnieri para Curt Lange datadas de 7 de dezembro de 1934, 7 de setembro de 1935 e 19 de novembro de1935, dentre outras.

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  • sibilitava-lhe expressar seus sentimentos e desejos, ainda que de umaforma contida. J Curt Lange entrecruzava referncias distintas (e quaseantagnicas), as quais no anulavam seus significados especficos, massuscitavam um terceiro sentido, abrindo espao semntico ao emotivo: as-sim, a carta datada de 19 de dezembro de 1934 introduz o tratamento deSenhor Professor Camargo Guarnieri para, em seguida, mencionar o des-tinatrio como meu estimado amigo. Como sabido, essa uma das fr-mulas retricas mais usuais da correspondncia ocidental e que tem oefeito de expressar, ao mesmo tempo, distanciamento pelo respeito eproximidade afetuosa.

    O tamanho das cartas trocadas entre Curt Lange e Camargo Guarnierino era extenso, ocupando, com raras excees, somente uma pgina. De-cididamente, tratava-se de uma escrita mais pragmtica que confessio-nal. Em consonncia com esse perfil, todas as cartas enviadas a CamargoGuarnieri, por Curt Lange, foram datilografadas. J muitas daquelas en-viadas por Camargo Guarnieri foram manuscritas. Em paralelo, justamentepelo pequeno tamanho da carta e da escrita rpida, por vezes ocorria al-gum esquecimento, por parte do remetente, situao corrigida, na grandemaioria das missivas, por um post scriptium ou expresses similares,como: Em tempo: terminei a minha 2 Sinfonia. Estou feliz!6 Esse dado,aparentemente inexpressivo, revela o registro do subjetivo, na escritada primeira metade do sculo XX. J era permitido ao remetente esque-cer-se de algo, retomar o discurso, em suma, deixar transparecer even-tuais mudanas em seu pensamento.

    O principal objetivo de Curt Lange, na redao de sua correspon-dncia, atualmente compilada em acervo sediado na Universidade Federalde Minas Gerais7, era divulgar artigos e partituras inditas, referen-tes msica latino-americana, principalmente no Boletn Latino-Ameri-cano de Msica (1935-1946), peridico por ele criado, que atingiu em umadcada a expressiva marca de seis grandes volumes, que publicaram cercade sessenta e seis trabalhos, sobre compositores do continente. O in-tuito de Curt Lange apresentava grande afinidade com a temtica nacio-nalista, defendida por Camargo Guarnieri e, em breve, os dois missivis-tas passaram a identificar vrios pontos comuns em seus propsitos, comoa expectativa de maior valorizao das obras musicais, produzidas no con-tinente americano, ou mesmo para alm dele, e o desejo de troca de co-mentrios crticos, acerca das composies, apresentaes e eventos ocor-ridos. Ademais, o estabelecimento desse intercmbio cultural, entre CurtLange e Camargo Guarnieri, acarretou uma troca lingustica (espanhol e

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    6 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 5 de junho de 1945.7 Este epistolrio integra o Acervo Curt Lange, cuja aquisio foi iniciada em outubro de 1993, quando o prprio Curt Lange, em carta dirigida professora Sandra Lou-reiro de Freitas Reis, relatou possuir um expressivo volume de documentos referentes msica brasileira e latino-americana, constitudo de manuscritos, correspondnciase outros itens, expressando o desejo de encaminh-los Universidade Federal de Minas Gerais. Atravs da iniciativa da referida professora, a Fundao de Desenvol-vimento da Pesquisa (FUNDEP) viabilizou a compra deste acervo e efetuou sua doao UFMG. O Acervo Curt Lange composto de aproximadamente 90.000 cartas as quais j haviam sido previamente ordenadas por Curt Lange -, alm de conter inmeras fotografias, instrumentos musicais, gravaes, transcries e reconstru-es de obras musicais, material bibliogrfico e outros documentos de grande importncia histrica.

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  • portugus), cultural e ideolgica (de estilos musicais a conceitos denao) entre ambos.

    Mas, um segundo corpus documental foi tambm incorporado a estaobra, no intuito de cotejamento entre os iderios defendidos por CurtLange e Camargo Guarnieri, circulantes em suas cartas e no Boletn, e arecepo dessas propostas pelos diversos agentes e instituies do campomusical internacional. Assim, graas concesso de uma bolsa PDEE pelaCAPES, tornou-se possvel compilar, entre os meses de fevereiro a julhode 2008, inmeros extratos de peridicos especializados em crtica mu-sical, editados na capital francesa, entre as dcadas de 1930 a 1950.Tais jornais e revistas encontram-se arquivados no Departamento de M-sica da Biblioteca Nacional da Frana, setor criado em 1942, com o ob-jetivo de preservao das colees musicais da prpria Biblioteca e dosdocumentos do antigo Conservatrio de Paris8. Assim, foram transcritosartigos integrantes dos peridicos Le Guide du Concert, Le Guide Musi-cale, Le Mnestrel, Le Monde Musicale, La Revue Musicale, Boulletin duConservatoire e Almanach de la Musique, alm de fontes integrantes dosDossiers Brsil9 e Jane Bathori10. Foi realizado, paralelamente, um le-vantamento no acervo de manuscritos daquela instituio com o propsitode rastrear a correspondncia mantida entre msicos brasileiros e euro-peus nas dcadas abarcadas pela pesquisa. Esses documentos assumem, nestaobra, uma posio de duplo espelhamento: no apenas indicam as apro-priaes promovidas pelo circuito cultural europeu aos projetos do ame-ricanismo e do nacionalismo musicais, como tambm apontam o lugar con-ferido ao estrangeiro (em uma demanda de reconhecimento e patrocnio)pelos msicos latino-americanos.

    A leitura dessa dupla coletnea de fontes convergiu na formulaode duas problemticas de pesquisa: uma dessas questes, desenvolvida naprimeira parte deste estudo, indaga acerca das representaes11 confi-gurantes dos projetos do americanismo e do nacionalismo musicais, con-forme seu delineamento em prticas de escrita (epistolar e jornalstica)por distintos agentes do campo musical. O captulo inicial visa eluci-dar o sentido conferido ao nacional por Curt Lange, Camargo Guarnierie seus interlocutores. O segundo captulo, por sua vez, busca interpre-tar as ressignificaes dessa noo, sob variantes que iam do modernoao folclrico, pela linguagem musical. Em sequncia, a segunda pro-

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    8 MASSIP, Catherine, Palestra intitulada La musique au Brsil: sources et ressources au Dpartement de la Musique de la Bibliothque Nationale de France, proferidano XV Congresso da ANPPOM, em 2005, no Rio de Janeiro.9 O Dossier Brsil integra uma coleo de documentos inicialmente compilados pela Secretaria de Belas Artes do Ministrio da Frana, incluindo, alm de biografias demsicos brasileiros atuantes nos anos de 1920 e 1930, diversos recortes de jornal noticiando concertos e eventos ocorridos no Brasil.10 Trata-se de uma coletnea de conferncias radiofnicas proferidas pela cantora Jane Bathori, realizadas entre 1940 e 1966. Dentre os textos arquivados, encontram-se referncias sobre a msica brasileira e dos demais pases latino-americanos.11 Compreende-se por representao um conjunto de classificaes, divises e delimitaes que organizam a apreenso do real, atravs dos quais o presente pode ad-quirir sentido, o outro tornar-se inteligvel e o espao ser decifrado, cf. CHARTIER, Roger. A histria cultural: entre prticas e representaes. Lisboa: Difel, s. d. p. 16.

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  • blemtica desta pesquisa enfoca a rede de sociabilidades12 que viabilizaa transposio do americanismo e do nacionalismo musicais, para o m-bito das prticas cotidianas e das relaes de poder. Assim, o terceirocaptulo objetiva explicitar, ao menos em parte, a reordenao das alian-as e disputas interpessoais no circuito musical brasileiro e latino-americano, empreendida por Curt Lange e Camargo Guarnieri, via trocaepistolar, no intuito de reforarem os projetos musicais por eles apre-goados. J o quarto e o quinto captulos abordam as estratgias de le-gitimao desses projetos, as quais interligavam atividades aparente-mente fragmentrias (tais como publicaes, concertos, transmissesradiofnicas etc.), conferindo-lhes maior coeso e consistncia. Por fim,o sexto captulo refere-se ao processo de estabelecimento de vnculosentre o campo musical, os espaos letrados e as instncias governamen-tais, enfocando as condutas que outorgaram s propostas de Curt Lange eCamargo Guarnieri maior perenidade histrica e relativa autonomia pe-rante o Estado.

    O encadeamento dos captulos deste estudo mantm, portanto, uma afi-nidade com a metodologia propugnada pela Histria Cultural, articulandorepresentaes, prticas, poderes e leituras. Assim, tentou-se no dis-sociar o cultural, o social e o poltico, isto , o fazer, o pensar e osentir de uma realidade histrica13. Para tanto, o primeiro cuidado as-sumido foi o de precisar o recorte temporal e social da pesquisa, em con-formidade com os registros contidos na correspondncia mantida entre CurtLange e Camargo Guarnieri. A seguir, as cartas foram compreendidas comoum objeto cultural, no sentido que atribudo ao termo, por RogerChartier: uma produo histrico-social que adquiriu contornos espec-ficos, e no um dado natural ou universal, intrnseco cultura le-trada do Ocidente. Dessa forma, um objeto cultural, como a correspon-dncia de Curt Lange e Camargo Guarnieri, portador de variadasrepresentaes sociais, que traduzem, em cdigos particulares, a com-plexidade das relaes sociais (em suas contradies e potencialidades),bem como as disputas de poder a elas vinculadas.

    A partilha (e as alteraes) de tais representaes, por certo n-mero de agentes, pode constituir, por sua vez, um campo cultural ou,no dizer de Pierre Bourdieu, um espao social de relaes objetivas,ou uma relao de foras antagonistas e complementares14, dotadas dedistintos graus de autonomia (sempre relativa), como a arte, a religio,a alta costura e, ainda, no caso desta pesquisa, a produo musical. Cada

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    12 Cf. ELIAS, Norbert. A sociedade dos indivduos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 35: Para ter uma viso mais detalhada deste tipo de inter-relao, podemospensar no objeto de que deriva o conceito de rede: a rede de tecido. Nessa rede, muitos fios isolados ligam-se uns aos outros. No entanto, nem a totalidade da rede,nem a forma assumida por cada um dos seus fios podem ser compreendidas em termos de um nico fio, ou mesmo de todos eles, isoladamente considerados; a redes compreensvel da maneira como eles se ligam, de sua relao recproca. Essa ligao origina um sistema de tenses para o qual cada fio isolado concorre, cadaum de maneira um pouco diferente, conforme seu lugar e funo na totalidade da rede. A forma do fio individual se modifica quando se alteram a tenso e a estruturada rede inteira. No entanto, essa rede nada alm de uma ligao de fios individuais; e, no interior do todo, cada fio continua a constituir uma rede em si; tem uma po-sio e uma forma singulares dentro dele.13 CHARTIER, Roger. Histria cultural: entre prticas e representaes. Lisboa: Difel, s. d.14 BOURDIEU, Pierre. O poder simblico. Lisboa: Difel, 1989. p. 64-65.

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  • campo, em sua configurao, implica, por sua vez, a composio de umarede de sociabilidades, com maior ou menor grau de institucionalizao,continuamente modificada pelos sujeitos sociais que a integram.

    De forma concomitante, este livro recorreu a uma fundamentao bi-bliogrfica de carter temtico-conceitual. No que concerne trajet-ria biogrfica dos missivistas, a ampla maioria das publicaes exis-tentes a insere numa abordagem generalista da histria da msica noBrasil, traada de forma linear e factual15. Bhage disponibiliza extensainformao, descrevendo o percurso de Curt Lange e vrios outros msi-cos latino-americanos, mas no procede um estudo acerca das sociabili-dades e das prticas de poder configurantes do campo musical brasileiroentre os anos 1930 a 1950. A trajetria do musiclogo alemo, radicadono Uruguai, mostra-se, efetivamente, pouco conhecida, sobretudo no quetange a seu projeto de americanismo musical: as investigaes existen-tes priorizam a atuao de Curt Lange na descoberta e divulgao das par-tituras dos compositores mineiros do sculo XVIII, mas sua atuao, comomusiclogo, ainda no recebeu uma ateno mais significativa. Deve-se,assim, mencionar o artigo formulado, sob esse vis interpretativo, noano de 1988, por Luis Merino Montero, intitulado Francisco Curt Lange(1903-1997): tributo a un americanista de excepcin. Porm, no refe-rido artigo, no destacada a atuao de Curt Lange como missivista,junto aos compositores do sculo XX16.

    Camargo Guarnieri, por sua vez, bastante conhecido tanto por suaatuao como compositor e regente, como por seu interesse pelos aspec-tos nacionalistas da produo musical. Mas, as investigaes existentesrecortam isoladamente seu pensamento, no o relacionando a distintos pro-jetos culturais, tais como o americanismo musical. Nesse sentido, des-taca-se a obra de Jos Miguel Wisnik17, que atribui especificidade e re-levncia produo musical de Camargo Guarnieri, em funo de seuvnculo ao iderio nacionalista. Ainda sobre o percurso musical de Ca-margo Guarnieri, trs musiclogos, Flvio Silva18, Flvia Toni19 e MarionVerhaalen20 desenvolveram importantes estudos, que j se tornaram cls-sicos nessa temtica. Porm, em nenhuma dessas publicaes abordada acorrespondncia com Curt Lange, e nem articula a produo de CamargoGuarnieri e Curt Lange com a poltica cultural empreendida pelo Estado,durante a ditadura varguista e nos anos subsequentes. A singularidade

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    15 AZEVEDO, Luiz Heitor Corra de. 150 anos de msica no Brasil (1800-1950). Rio de Janeiro: Livraria Jos Olmpio, 1956. NEVES, Jos Maria. Msica Contempor-nea Brasileira. So Paulo: Ricordi Brasileira, 1981.16 MONTERO, Luis Merino. Francisco Curt Lange (1903-1997): tributo a un americanista de excepcin. Revista Musical Chilena, Santiago, v.52, n.189, p. 9-36, ene.1998.17 WISNIK, Jos Miguel. O Coro dos Contrrios a msica em torno da semana de 22. So Paulo: Livraria duas Cidades, 1983. O nacional e o popular da Cultura Bra-sileira. So Paulo: Brasiliense, 1982.18 Em formato biogrfico, foi editada, sob organizao do musiclogo Flvio Silva, uma extensa coletnea de textos abarcando depoimentos proferidos por Camargo Guar-nieri, artigos acerca de sua personalidade e de sua atuao profissional, anlises de suas obras, alm da transcrio da correspondncia por ele mantida com Mrio deAndrade. SILVA, Flvio (org.). Camargo Guarnieri: o tempo e a msica. Rio de Janeiro: Funarte; So Paulo: Imprensa Oficial, 2001. 19 TONI, F. C. Correspondncia Mrio de Andrade-Camargo Guarnieri. In: Flvio Silva. (Org.). Camargo Guarnieri: o tempo e a msica. 1. ed. So Paulo: Imprensa Ofi-cial do Estado de S. Paulo, 2001, v., p. 187-320. Camargo Guarnieri. Textos de Brasil, Braslia, p. 108 - 113, 25 abr. 2006. Biografia, autobiografia e processos de cria-o no arquivo de Camargo Guarnieri. In: XVII Congresso da Anppom So Paulo 2007.20 VERHAALEN, Marion. Camargo Guarnieri: expresses de uma vida. So Paulo: Editora da Universidade de So Paulo / Imprensa Oficial, 2001.

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  • de um nacionalismo musical foi interpretada, de forma bastante pro-missora, na obra de dois autores. A primeira delas, de maior circula-o, de autoria de Arnaldo Contier, indicando como a ideologia na-cionalista, num primeiro momento, configurou-se num polo dinamizador daproduo musical no Brasil, e, posteriormente, contribuiu para o cer-ceamento de uma possvel renovao esttica, durante as dcadas de 50 e6021. J o segundo trabalho, de Marcus Straubel Wolff22, elenca, em umquadro comparativo, as divergncias entre as propostas defendidas peloschamados msicos modernistas e a poltica cultural do Estado Novo,apontando como o projeto governamental no era dotado de plena homoge-neidade e penetrao social.

    E na confluncia entre essas diferentes publicaes (que se en-trecruzam a musicologia, a histria, a sociologia) e nas cartas troca-das entre Curt Lange e agentes comprometidos com a produo cultural,destacadamente com Camargo Guarnieri, que se postula a validade de umapesquisa voltada para a reconstituio do campo musical brasileiro e la-tino-americano nas dcadas de 1930 a 1950. Da o ttulo conferido a estaobra Americanismo e nacionalismo musicais na correspondncia de CurtLange e Camargo Guarnieri (1934-1956), cuja leitura, espera-se, venha acorroborar com os anseios e esforos despendidos ao longo de quatro anosde pesquisa.

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    21 CONTIER, Arnaldo Daraya. Msica e ideologia no Brasil. So Paulo: Novas Metas, 1985.22 WOLFF, Marcus Straubel. O modernismo nacionalista na msica brasileira. Rascunhos de Histria, Rio de Janeiro, n. 2, PUC-RJ, 1991.

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  • 24

    CARTA DE CAMARGO GUARNIERI A CURT LANGE, DE 7 DE DEZEMBRO DE 1934,QUE INAUGURA A CORRESPONDNCIA TROCADA PELOS DOIS.Srie 2.2. Acervo Curt Lange.

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  • PRIMEIRA CARTA DE CURT LANGE, DE 19 DE DEZEMBRO DE 1934,EM RESPOSTA A CAMARGO GUARNIERI.Srie 2.1. Acervo Curt Lange.

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  • REPRESENTAES MUSICAIS

    PARTE 1

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  • 27Os projetos do americanismo e nacionalismo musicais constituram-se, na correspondncia de Curt Lange e Camargo Guarnieri, um locus es-pecfico de representaes culturais, pautados na inter-relao entrelinguagem musical e identidade histrico-social. Assim, para Curt Lange,era premente suscitar, atravs de pesquisas e publicaes acerca da pro-duo musical contempornea da Amrica, reconhecimentos mtuos das afi-nidades culturais existentes entre essas sociedades, pois, a escuta re-cproca de seu legado musical propiciaria no apenas uma maiorvalorizao, como principalmente um aprimoramento das possibilidades la-tentes, contidas na particularidade de cada corpus musical nacional.Dessa maneira, conforme descreve Luiz Heitor Correa de Azevedo, que par-tilhava com Curt Lange a carreira de musiclogo e o interesse pela pro-duo musical latino-americana,

    Lidentit de la culture latine saffirme dailleurs,dans tous les pays ibro-amricains, travers cemouvement artistique appel Americanismo Musical, quiayant ses racines Montevideo (Uruguay), se propageavec les gros volumes du Boletin Latino Americano deMusica (rpertoire dtudes sur la musique de lAm-rique Latine, publiant prs de 1000 pages annuelles)et, sous limpulsion de son inspirateur, le Dr. Fran-cisco Curt Lange, voit son importance reconnue deplus en plus par les milieux intellectuels et artis-tiques du monde entier. LAmericanismo Musical pro-

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  • pose la dfense de la production musicale de lAm-rique Latine et sa divulgation non seulement ltranger, mais sourtout, dans ce mme mouvement1.

    J o pensamento de Camargo Guarnieri atinha-se ao comprometimentocom o iderio nacional, vinculado, por sua vez, incorporao de ino-vaes aduzidas da esttica musical contempornea. Assim, pode-se afir-mar que as representaes musicais por ele tecidas na correspondnciano culminaram no estabelecimento de um perfil identitrio ao nacio-nal de cunho apologtico, monoltico ou associado a uma autenticidaderespaldada pela suposio das origens. Afinal, Camargo Guarnieri tradu-zia tal imaginrio sociocultural sob a perspectiva de uma erudio e tc-nica apuradas (num padro recorrente ao Ocidente, de forma independentedas fronteiras dos Estados-naes), enquanto Curt Lange reconhecia, nasespecificidades das produes de cada pas, importantes elementos de in-tercmbio e aprimoramento mtuo entre os agentes musicais. O nacional,pois, embora fosse adotado como uma chave de leitura pelos letradosnos anos 1930 e 1940, que buscavam compreender os pases americanos apartir de suas razes, associando-as, por sua vez, ao popular, tradio, ao folclore etc., longe de apresentar-se como uma refe-rncia particularizante no epistolrio estudado, a conduzia a leiturasdialgicas, embora sempre tensionais, pois os elementos integrantes deuma composio ganhavam realces diferenciados2.

    A primeira parte deste estudo assume ento um duplo desafio inter-pretativo. Por um lado, busca-se atender a [...] tarefa do historiador[...] de reconstituir as variaes que tornam os espaos legveis, isto, os textos nas suas formas discursivas e materiais3 nesse caso, ossentidos atribudos por Curt Lange e Camargo Guarnieri aos projetos doamericanismo e do nacionalismo musicais. Em paralelo, objetiva-se reco-nhecer [...] as leituras compreendidas como prticas, concretas e comoprocedimentos de interpretao4, ou seja, as apropriaes seletivas eas disputas de representao promovidas pelos msicos que se defronta-vam (e muitas vezes eram cativados) pelos iderios defendidos por CurtLange e Camargo Guarnieri. A efetivao desse programa metodolgico, porsua vez, implicou a articulao das consideraes acerca do nacional,do popular e do moderno, emitida por Curt Lange e por Camargo Guarnieriem seu epistolrio, com a historicidade conceitual e as qualificaesestticas referentes produo musical brasileira e latino-americana,comentadas pelos peridicos e bibliografia especializada. Espera-se,dessa forma, traduzir, de maneira mais aproximada, a tensional e rica

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    1 AZEVEDO, Luiz Heitor Correa de. La Musique dans les pays latins. La Revue Musicale, Paris, 16 dez. 1939, p. 81.2 Esta interpretao vem sendo partilhada pela historiografia contempornea, cf. indicado no captulo de autoria de Martha Abreu, Cultura poltica msica popular e cul-tura afro-brasileira: algumas questes para a pesquisa e o ensino de Histria. SOIHET, Rachel, BICALHO, Maria Fernanda B., GOUVA, Maria de Ftima S. (orgs.). Cul-turas polticas: ensaios de histria cultural, histria poltica e ensino de histria. Rio de Janeiro: Mauad, 2005.3 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os sculos XIV e XVIII. Braslia: Ed. da UNB, 1999. p. 12.4 Ibid.

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  • 29

    5 CHARTIER, Roger. A ordem dos livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os sculos XIV e XVIII. Braslia: Ed. da UNB, 1999. p. 9.

    complexidade das representaes do americanismo e do nacionalismo musi-cais, investida que se encontra, como a prpria concepo de cultura, qual remete, [...] de significaes plurais e mveis, que se constroemno encontro de uma proposio com uma recepo5.

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  • POR UMA ESTTICA NACIONAL

    CAPTULO 1

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  • 31Visando interpretar os sentidos atribudos ao americanismo e ao na-cionalismo, na narrativa epistolar de Curt Lange e Camargo Guarnieri,este captulo parte da concepo de nacional como uma representaopoltico-cultural, conforme indicado por Ernest Gellner1, para quem o na-cionalismo no se atm a uma emergncia da autoconscincia dos povos,mas porta uma dimenso criativa, envolvendo o entrecruzamento de dife-rentes legados socioculturais. Todavia, se importantes vertentes da his-toriografia e da sociologia reportam-se abordagem de Gellner, elas tam-bm discordam quanto s formas de apropriao dessa herana: assim,alguns autores, como Anthony Smith2 e Benedict Anderson3, enfatizam maisa dimenso aglutinadora, capaz de promover a coeso social, enquanto ou-tros, como Hobsbawm4, destacam, principalmente, o carter conflitivodesse amlgama de tradies. Outro ponto de divergncia o grau de in-ventividade desse nacional, que, em algumas obras, aparece mais pr-ximo de uma fico capitaneada por alguns grupos, como na obra de Gell-ner, e, em outras, apresentado como uma composio, no sentido deuma articulao de ideias e experincias preexistentes, como enfatizaAnderson.

    Com base nesses autores, possvel afirmar que a configurao donacional, nos modernos pases ocidentais, efetiva-se como um processo

    1 GELLNER, Ernest. Nations and nationalism. London/New York: Cambridge Univ. Press, 1983.2 SMITH, Anthony D. The nation in history: historiographical debates about ethnicity and nationalism. Hanover: Historical Society of Israel/Brandeis University Press, 2000.3 ANDERSON, Benedict. Nao e conscincia nacional. So Paulo: tica, 1989.4 HOBSBAWM, Eric and RANGER, Terence. The invention of tradition. Cambridge: Cambridge Univ. Press, 1992.

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  • social e ideolgico, onde exercem papel preponderante o simblico, o ut-pico, em suma, o imaginrio5, conforme desenvolvido nas obras de Smith,Anderson e Hobsbawm, mas incluindo-se nesse mbito as produes no campomusical6. Tal relevncia da msica, na constituio da nacionalidade, re-mete singularidade histrica da formao dos nacionalismos europeus,pois a produo musical,

    [...] mais do que qualquer outra forma de manifesta-o, parece ter exercido um papel unificador, tor-nando-se com isto capaz de preencher o vazioprovocado pela secularizao das sociedades euro-pias. [...] A nacionalizao da msica uma res-posta laicizao das sociedades. A msica conferes ordenaes sociais no mbito da nao uma refe-rncia comum, que no se limita ordem do racional.Ela expressa por vezes um voluntarismo que conduz elaborao de uma identidade nova e comum nao,freqentemente a partir de referncias inventadas7.

    O propsito deste captulo , portanto, com base em tal fundamen-tao terico-conceitual, elucidar a ambiguidade implcita, quase para-doxal, delineada entre o americanismo e o nacionalismo musicais: se es-ses projetos, por um lado, mantiveram certa afinidade com um iderio deintegrao (e at de unidade) continental (a exemplo do pan-america-nismo)8, por outro, valorizaram as especificidades do nacional, que pas-sou a ser tido como polo dinamizador desse americanismo.

    O AMERICANISMO DE CURT LANGE

    Em 7 de setembro de 1935, Camargo Guarnieri escreveu a Curt Lange,em resposta solicitao do musiclogo que lhe pedia uma nova composi-o para o segundo tomo do Boletn Latino-Americano de Msica, peri-dico por ele lanado naquele ano:

    Quero, primeiramente, agradecer-lhe a incluso daminha composio no Boletn, assim como, mandar-lhe os meus sinceros parabns pela sua brilhante rea-lizao. Graas sua formidvel atividade o BoletnLatino Americano de Msica honra e enobrece, ns,

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    5 SMITH, Anthony D. Conmemorando a los muertos, inspirando a los vivos. Mapas, recuerdos y moralejas em la recreacin de las identidades nacionales. Revista Mexicana de Sociologia. Ao LX, n. 1, enero-marzo, 1998. p. 62.6 FRANCFORT, Didier. Le chant des nations. Paris: Hachette Littrature. 2004. p. 14: [...] la rflexion sinflchitet se porte sur limportance de la musique non comme ex-pression dune nation constitue mais comme composante dum processus de construction de la nation ou de nationalisation des masses.7 Ibid. p. 370- 371.8 Os vnculos entre os nacionalismos e uma concepo de identidade latino-americana tm sido pouco estudados pela historiografia contempornea, destacando-se, nestesentido, a pesquisa de BERABA, Ana Luiza Segala Pauletto. Teias culturais interamericanas nos anos 40. Um estudo de caso: pensamento e Amrica. Monografia (Gra-duao em Histria Social), Instituto de Filosofia e Cincias Sociais da Universidade Federal do Rio de janeiro, 2005. Tal vinculao, entretanto, j emergira no decorrerdo sculo XIX, em obras de cunho apologtico, como nos volumes: RODO, Jose Enrique. Ariel: brevirio da juventude. Rio de Janeiro: Renascena, 1933, e MARTI,Jos. Nossa Amrica. 2. ed. So Paulo: Hucitec, 1991.

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  • aqui da Amrica do Sul. Com prazer satisfao o seupedido, mando-lhe a minha composio, indita: 2 So-natina para piano. Para os nmeros vindouros do Bo-letn, voc pode contar com a minha colaborao,pois terei grande satisfao nisso. Com um grandeabrao, do amigo e admirador de sempre. Camargo Guar-nieri.

    O Boletn Latino-Americano de Msica destacou-se no conjunto das re-vistas especializadas de sua poca, ao constituir-se como principal r-go de divulgao do americanismo musical, movimento cultural que, se-gundo discurso do prprio Curt Lange, fora iniciado pouco antes, em 1933.Comentando sua proposta, Curt Lange afirmava que [...] poucas pessoas,poucos msicos profissionais, poucos professores de Histria da Msicasabem o que se passa alm das fronteiras da Ptria9, o que justifica-ria a relevncia de tal empreendimento.

    33

    9 Boletn Latino-Americano de Msica. Montevidu, 1935.

    CAPA DO TOMO I DO SUPLEMENTO MUSICAL DO BOLETN LATINO-AMERICANO DE MSICA, CRIADA POR PORTINARI. 1935.Srie 3.039.03.04. Acervo Curt Lange.

    CAPA DO TOMO I DO BOLETN LATINO-AMERICANO DE MSICA. 1935. Srie 8.1.07.12. Acervo Curt Lange.

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  • O movimento do americanismo musical foi considerado, por Luis Hei-tor Correa de Azevedo10, um fator a [...] favor do desenvolvimento, afir-mao consciente e divulgao das produes e recursos artsticos de umgrupo de naes11; mais ainda, o musiclogo afirmou que: Il y a donc,dans toutes ces musiques, quelque chose qui les apparente les unes auxautres et les unes et les autres, la musique italienne ou la musi-que franaise. Cette chose est lesprit de latinit, si vivant et siprestigieux dans toute lAmrique du Sud12.

    O movimento liderado por Curt Lange, dentre outras metas, propu-nha-se a incentivar publicaes no campo musical, como a de um Dicion-rio Latino-Americano de Msica e de um Guia Profissional Latino-Ameri-cano, destinados impresso e divulgao das obras dos compositoresdo continente, mas o destaque editorial situava-se no Boletn Latino-Americano de Msica, responsvel pela [...] difusin de valores indis-cutibles, [] elevacin de los mismos, a la obtencin del respeto queellos merecen dentro y fuera de los limites regionales, nacionales y con-tinentales.13 Curt Lange tambm planejava apoiar a fundao de insti-tuies culturais, como a de uma biblioteca voltada para a guarda de todaa produo musical do continente, bem como a de uma discoteca e de ummuseu musical latino-americano. Alm disso, ele estimulava a organiza-o peridica de congressos de msica em vrios pases.

    Buscando fortalecer sua proposta, Curt Lange tambm preocupou-se coma educao musical promovida nas escolas, a formao de um pblico aptoa compreender a produo musical latino-americana contempornea e o aper-feioamento dos compositores latino-americanos. Ademais, a proposta deCurt Lange, ultrapassando as esferas da produo e da educao musicais,incorporava elementos de variadas expresses artsticas: La colabora-cin de destacados pintores, representa una iniciativa que ms adelantetomar la importancia que merece la creacin de las artes anexas a lamsica14.

    Para realizao de todos esses propsitos, Curt Lange, alm de man-ter intensa atividade epistolar com os mais diversos agentes, percorreuvrios pases, realizando conferncias:

    Admiro a sua resistncia e altrusmo viajando semparar, por toda a Amrica, levando sua grande culturaa fim de esclarecer os espritos menos avisados. Asua obra, o Boletim Latino-Americano, o melhor

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    10 Luiz Heitor Correa de Azevedo (1905-1992), musiclogo e folclorista brasileiro. Destacou-se com produo de extensa obra sobre a msica brasileira e com a partici-pao de artigos sobre msica no jornal A Manh entre 1944 e 1945. Em Paris, criou o Instituto de Altos Estudos da Amrica Latina na dcada de 1950. Cf. Enciclop-dia da msica brasileira: erudita, folclrica e popular. 3. ed. So Paulo: Arte Editora/Ita Cultural/Publifolha, 1998. p. 457.11 Revista Brasileira de Msica, Rio de Janeiro, Instituto Nacional de Msica, v. 1, n. 2. 1935. p. 230.12 AZEVEDO, Luiz Heitor Correa de. La Musique dans les pays latins da Revue Musicale, Paris, 16 dez. 1939, p. 81. Esse musiclogo comenta ainda, em artigo intitu-lado La vie musicale Rio de Janeiro publicado por La Revue musicale em jul/ago de 1938: Citons enfin, parmi les nouveauts, la dlicieuse Seresta pour piano, de O.Lorenzo Fernandez, des mlodies de Camargo Guarnieri, la Plnitude, partition symphonique de F. Mignone, tout un groupe doeuvres de musique de chambre de Nadide Lacaz de Barros, o lon sent poindre un talent dlicat et sobre sur lequel on peut fonder de grands espoirs.13 Boletn Latino-Americano de Msica, Montevidu, 1935. p. 10.14 Ibid. p. 11.

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  • testemunho do seu esforo e ficar sempre lembrandoo seu nome. Se hoje h um movimento Ibero-Americanono terreno musical a voc ns todos o devemos15.

    O americanismo musical defendido por Curt Lange enraizava-se numamatriz cultural-ideolgica dessa produo imaginria, elaborada pelo pen-samento alemo, principalmente no sculo XIX. Assim, em um de seus tex-tos, Curt Lange afirmava a existncia de [...] un espirito superior deindiscutible hermandad cuya fuente ms poderosa serian los dos idiomasnacidos de uma misma raiz. En ningun momento faltaria a la exposicinde ideas congregadas al servicio de una causa noble, esa armona inte-rior que solo el continente latino-americano es capaz de crear16. Ob-serva-se que esse iderio integrador era recorrente na literatura ger-mnica, sobretudo de cunho romntico17, atravs da simbologia donacionalismo orgnico, defendido por Herder e propagado por vrios ou-tros autores alemes18. Por nacionalismo orgnico, Anthony Smith tra-duz uma concepo oriunda do conceito de esprito (Gheist), j desen-volvida na obra de Renan19. Segundo tal perspectiva, o coletivo transcendeo somatrio das individualidades, que se encontram unidos entre si e coma prpria coletividade, atravs de um mito em comum de uma cultura his-trica compartilhada20. Essa concepo aplica-se, ainda que de maneiraimplcita, ao americanismo musical proposto por Curt Lange: [...] conuna fusin absoluta de sentimientos raciales distintos, para la desapa-ricin lenta de preconceptos estrechos, fomentados en cada una de nues-tras Repblicas por ncleos extranjeros, para la eliminacin de dife-rencias nacionales de diversos caracteres, hacia la fundacin inseparablede un pensamiento orgnico y disciplinado21.

    Ora, para o pensamento alemo, a singularidade cultural (entrecru-zamento do coletivo e do particular) adquire expresso significativa emsua expresso na linguagem e no pertencimento tnico, pois a matrizalem, elaborada por Herder e Fichte, ao invs de excluir, comporta aincluso das diferenas22. O americanismo de Curt Lange embasava-se, por-tanto, na valorizao dos fatores etnolgicos e sociolgicos dos povos,

    35

    15 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 13 de maro de 1940.16 Ibid. p. 10.17 Cf. DUARTE, Luiz Fernando Dias: A pulso romntica e as cincias humanas no Ocidente. Revista Brasileira de Cincias Sociais, Rio de Janeiro, v. 19, n. 55, jun. 2004.p. 8: [...] Herder conferiu-lhe uma forma cannica ao lidar com a cultura germnica, como um ente especfico, menor do que a humanidade, mas certamente maior emais expressivo que os entes individuais que compunham a populao de fala alem. A estava um dos focos mais ativos da ideologia da nao moderna, assim comoda noo contempornea, antropolgica, de culturas especficas. J em sua poca, a oposio explcita se fazia contra o ideal da justaposio indistinta - indiferencidaou igualitria dos cidados, membros de uma Humanidade abstrata. 18 O egpcio no pde existir sem o oriental; o grego se apoiou nos egpcios; o romano se susteve nos escombros do mundo inteiro; efetivamente, h progresso, de-senvolvimento progressivo, ainda que ningum ganhe individualmente por isso. Tudo encaminha-se para a totalidade [...] e torna-se cenrio de uma inteno diretora naterra (...) ainda quando no cheguemos a ver a inteno ltima [...]. cf. HERDER, J. G. Filosofia de la historia para la educacin de la humanidad. Buenos Aires: Ed.Nova. s.d.p. 62. 19 A nao uma alma, um princpio espiritual. Constituem essa alma, esse princpio espiritual, duas coisas que, na verdade, so uma s. Uma delas a posse em comumde um rico legado de lembrana; a outra, o consentimento atual, o desejo de viver juntos, a vontade de continuar a fazer valer a herana que recebemos indivisa.RENAN, Ernest, [1882]. O que uma nao. In: ROUANET, Maria Helena (org.). Nacionalidade em questo. Rio de Janeiro: Instituto de Letras/UERJ, 1997. p. 39.20 Anthony Smith, para fundamentar sua reflexo, menciona sucessivas vezes a obra de Herder, indicando que o nacionalismo orgnico foi um postulado desenvolvidopela elite urbana. cf. SMITH, Anthony D. The nation in history. Op. cit. p. 9-10.21 Boletn Latino-Americano de Msica. Montevidu, 1935. p. 25.22 A articulao entre pluralismo cultural e hierarquizao com base no pensamento alemo foi abordada por Karl Mannheim. cf. MANNHEIM, Karl. O significado do con-servantismo. In: FORACCHI, Marialice Mencarini (org.). Karl Mannheim.So Paulo: tica, 1982. p. 129-136.

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  • os quais deveriam ser estudados em estreita relao com sua histria;afinal, ainda segundo Smith, tal riqueza cultural tem como propsito tra-ar uma continuidade essencial entre os mortos, os vivos e os que aindano nasceram, assegurando a identidade coletiva da nao. Com isso, apreocupao com a formao cultural tornou-se um dos pontos-chave do pro-jeto do americanismo musical:

    Los problemas de educacin latino-americanos deben serestudiados em estrecha relacin con la histria, losfatores etnolgicos y sociolgicos de los respectivospaises. Ellos so problemas enteramente nuestros, susolucin solo puede encarar-se partiendo de la basenacional, de los antecedentes raciales y la estructuradel ambiente fsico, de clima e sociedad, economia,administracin y hasta de la poltica23.

    O vis etnolgico presente no iderio de Curt Lange tambm evi-denciado pela utilizao do idioma portugus, embutido no projeto do ame-ricanismo. importante lembrar, como indicado por Benedict Anderson,que na Europa e, especialmente, na Alemanha, o idioma foi um elementoimportante para a construo da nacionalidade24. Assim, no iderio do ame-ricanismo musical, Curt Lange no adotou um idioma comum, ficando, a lin-guagem, estabelecida como um sintoma da diferena:

    En el Boletin, los trabajos brasileos aparecern ensu idioma original. Sea este no solamente un prop-sito de la direccin, basado en la importncia delmovimiento artstico de aquele pas Hermano, sino enla justicia mas estricta al obrigar al nuestros sus-criptores a la lectura de un idioma que en el sueloamericano ha servido de elemento de exprecin a cien-tos de grandes hombres cuyo nombres deben sernos tanfamiliares como aquellos de las demas repblicas delcontinente25.

    Mas, dentre todas as linguagens circulantes numa dada cultura, CurtLange optou por aprofundar-se na expresso de sua musicalidade, o que olevou a adotar a musicologia como o seu principal campo de atuao:

    Despus de cursar estudios bsicos de piano, violn,armona, contrapunto y composicin, Lange sigui es-tudios avanzados de direccin de orquesta con el re-nombrado Arthur Nikisch y de rgano con el no menosfamoso Karl Straube. Junto a estudios de acstica con

    36

    23 Boletn Latino-Americano de Msica. Montevidu, 1935. p. 13.24 Segundo Anderson, as lnguas impressas lanaram as bases para a conscincia nacional de trs modos diferentes. Primeiramente, criaram campos unificados de co-municao, que permitiam uma sociabilidade mais ampla do que a viabilizada pelo domnio do latim e mais permanente do que a promovida pela oralidade. Em segundolugar, a palavra impressa atribuiu nova fixidez lngua, ajudando a construir uma imagem de antiguidade, essencial ideia subjetiva de nao. Em terceiro lugar, a edi-o associou linguagem e poder. Desta forma, a convergncia do capital e da tecnologia da imprensa sobre a diversidade das lnguas humanas propiciou o surgimentode novas modalidades de comunidades imaginadas, as quais prepararam o cenrio da nao moderna. cf. ANDERSON, Benedict. Op.cit. p. 54.25 Boletn Latino-Americano de Msica. Montevidu, 1935. p. 11.

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  • Rudolph Ibach, realiz su preparacin en investiga-cin musical con lo ms granado de los maestros queflorecieron durante la edad de oro de la musicologahistrica, tanto alemana como centroeuropea. En unartculo insuperable Jorge Velazco, el destacado di-rector de orquesta y musiclogo mexicano, entrega unexhaustivo panorama en castellano de estas figurasformadoras de Lange como musiclogo. Entre ellos sepuede sealar a Erich von Hornbostel, uno de los pa-triarcas de la musicologa comparada; Adolf Sandber-ger, dedicado estudioso del renacimiento (siglo XVI)y el alto clasicismo de Viena; Ernst Bcken, impor-tante impulsor de los nuevos enfoques que surgieronentonces dentro de la historiografa musical alemana;Curt Sachs, el clebre e influyente impulsor de laorganologa; Georg Schnemann, investigador del liedy la cancin folclrica alemana, adems de ser figuraclave en la renovacin de la educacin musical enAlemania; Max Seiffert, uno de los motores de publi-caciones fundamentales tales como la coleccin Denk-mler deutscher Tonkunst (Monumentos de la MsicaAlemana) y revistas que marcaron hitos tales como elArchiv fr Musikwissenschaft y la Sammelbnde der In-ternationaler Musikgessellschaft. Otras figuras ale-manas que tuvieron una gran influencia en laformacin de Lange fueron Hermann Abert y dos desta-cados exponentes de la investigacin acerca de la m-sica de Beethoven, Ludwig Schiedermair y Paul Mies.A ellos se agrega el musiclogo belga Charles JeanEugne van den Borren, autor de trabajos fundamenta-les sobre la historia de la msica flamenca, quienjug un papel clave en su tesis doctoral acerca de lapolifona de los motetes neerlandeses (ber dieMehrstimmigkeit der Niederlndischen Motetten, Bonn,1929)26.

    Ainda, com base num enfoque cultural-etnolgico, segundo Curt Lange,as sociedades latino-americanas deveriam aproximar-se tambm, a partirda evocao de seu passado, que uma vez reduzido aos interesses das eli-tes locais, poderia tornar-se tanto um fator de fortalecimento de suasidentidades especficas, como um elemento de transformao de sua rea-lidade, rumo a uma maior comunho entre os povos: Los nios de hoy se-rn los ejecutores de la unificacin del pensamiento ibero-americano,al travs de ellos conquistaremos nuevamiente el respto por un esp-ritu constructivo y poderoso que est latente en nueva humanidad queviene formando nuestro continente.27

    37

    26 MONTERO, Luis Merino. Op. cit. Segundo este autor, encontra-se detalhada biografia dos mestres de Curt Lange em artigo de Jorge Velazco intitulado: "La con-fluencia intelectual y acadmica en la formacin escolstica y la obra de investigacin de Francisco Curt Lange", publicado pela Revista Musical de Venezuela X/28, mayo-diciembre, 1989, p. 207-223.27 Ibid.p. 26.

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  • A apropriao promovida por Curt Lange do pensamento alemo pode serfacilmente remetida sua formao inicial: afinal, de forma distintade grande parte dos msicos latino-americanos que almejavam aprimorar-se musicalmente na Europa, ele j nascera no Velho Mundo, mais particu-larmente em Eilenburg, Prssia (atual Alemanha), no ano de 1903. Aindaem seu pas natal, diplomou-se em arquitetura pela Universidade de Mu-nique, tendo tambm cursado cadeiras de filosofia (dedicando especialateno aos escritos de Nietszche), antropologia e etnologia. Mais ainda,veio a dominar a linguagem musical, atravs de estudos de piano, vio-lino, harmonia, contraponto e composio. O trnsito de Curt Lange porformaes culturais, a princpio, bastante diversificado, rompendo comum modelo de especializao profissional, no foi aleatrio. Na Alema-nha anterior Segunda Guerra, ainda vigorava o ideal da Bildung, peloqual, no processo educativo, a reflexo racional no poderia estar des-vinculada da sensibilidade esttica; por tal premissa, beleza e verdadejamais entrariam em conflito. A crise econmica e poltica da Alemanha,entre as duas guerras mundiais, impulsionou Curt Lange a emigrar para aAmrica do Sul, na dcada de 1920, em busca de melhores oportunidadesde vida e trabalho. Aps visitar vrios pases, o musiclogo acabou de-cidindo-se, em 1926, por radicar-se no Uruguai, onde residiu at o fi-nal da dcada de 1940, chegando a assumir a nacionalidade desse pas,mas sem jamais abrir mo do referencial adquirido atravs de sua forma-o germnica.

    Outra dificuldade com que se deparava o americanismo era o estra-nhamento cultural sofrido pelos msicos europeus imigrados para a Am-rica Latina. Tais artistas mantinham fortes vnculos afetivos com sua

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    28 As imagens integrantes desta obra foram selecionadas por Curt Lange no decorrer de sua trajetria profissional, vindo a integrar seu arquivo pessoal e, posteriormente, oacervo sob a guarda da UFMG. Seu emprego aqui reporta-se, desta maneira, ao conceito de con-textualizao, pelo qual o sujeito (autor) indissocivel dos sentidos edos produtos por ele formulados a partir da cultura na qual se insere, cf. CERTEAU, Michel de. A inveno do cotidiano. 2. ed. Petrpolis: Vozes, 1994. p. 231.

    ICONOGRAFIA DO AMERICANISMO MUSICALNo verso desta foto encontra-se a seguinte referncia em manuscrito:

    Proyecto de mural americanismo ([ilegvel] en la conferencia de Buenos Airespor Francisco Moralez Mamassa). Srie 8.1.014.003. Acervo Curt Lange28.

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  • ptria de origem e, face aos problemas de adaptao, (e at mesmo ao re-gime de explorao econmico-social a que a maioria se via submetida),emergiam com certa resistncia quanto aos valores culturais da novaterra. Curt Lange preocupava-se com tal postura que poderia estender-se ao longo de geraes, tendendo, em funo disso, a privilegiar os con-tatos imigratrios interamericanos: No necesitamos de los pueblos eu-ropeos a los cuales estamos vinculados historicamente, como necesitamosestrechar la vinculacin y el conocimiento entre nuestros pases29.

    Porm, a valorizao da produo musical latino-americana, to al-mejada por Curt Lange, implicava a superao de renitentes obstculosdo campo cultural-ideolgico, relacionados sobretudo a noes demasia-damente particularistas, acerca da identidade nacional. Afinal, os na-cionalismos ocidentais foram historicamente delineados, num esforo deconquista da autonomia poltica e de instaurao da unidade social. Essadinmica ento convergiria para a constituio de uma identidade cultu-ral coletiva30. A questo que se impunha ao americanismo musical era ade que tais nacionalismos aliceravam-se, dessa maneira, numa certa des-qualificao, ou mesmo numa belicosidade, para com os estrangeiros,sobretudo quando esses eram vizinhos geogrficos, que portavam legadoshistrico-culturais parcialmente similares, como no caso dos pases la-tino-americanos.

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    29 Boletn Latino-Americano de Msica. Montevidu, 1935-1946. p. 27.30 SMITH, Anthony D. The nation in history. Op. cit. p. 10: Nationalism, which we defined as an ideological movement to attain and maintain autonomy, unity, and iden-tity on behalf of population deemed by some of its members to constitute an actual or potencial nation.

    CURT LANGE EM CONFERNCIA NO RIO DE JANEIRO, 1934.NA COMPOSIO DA MESA, VILLA-LOBOS, ANSIO TEIXEIRA E HUGO PEREIRA.

    Acervo Curt Lange. Srie 8.1.020.

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  • Foi justamente matriz de pensamento germnico que Curt Lange re-correu para buscar alternativas aos entraves do americanismo musical.Assim, para ele, tais resistncias poderiam ser superadas, partindo-sede uma base cultural nacional, com respeito aos antecedentes tnicos,ao ambiente geogrfico, ordenao econmica, administrativa e pol-tica de um dado pas. Na concepo do musiclogo, [...] todo est oasunto raza, sobre l se edificar tambien uma cultura ms slida quela actual y sin duda tanto o ms importante que la europea31. Mas, apartir da, considerava ele, seria possvel estabelecer laos identit-rios comuns entre os povos do continente. Dessa maneira, segundo o mu-siclogo, embora fosse crucial destacar o valor da produo musical na-cional brasileira, era necessrio, inclusive, para manter sua qualidade,que ela no desconsiderasse as tendncias estticas emergentes, pers-pectiva que conferia ao campo musical um contorno mais universalista.Nesse sentido, Curt Lange escreveu:

    La ltima y ms prolongada basada en el nacionalismomusical y fuertemente apoyada por el gobierno delPresidente Vargas, elev a la consideracin del mundodiversos nombres que honram a su patria y la Amricaentera. Desde Villa-Lobos, Lorenzo Fernandez, Mignoney Camargo Guarnieri hasta creadores de menor produc-cin y categoria, llenan una pgina de glria cuyosresultados se prolongarn para siempre. Creemos, siembargo, que la era del nacionalismo h llegado a sumayor oscilacin y que el pndulo se dirige al outroextremo. [] El universalismo en msica es represen-tado por un sector de menor proporcin y peso, eninstantes en que vuelve la paz y se espera del in-tercambio de productos espirituales un mayor incen-tivo para nuestros medios32.

    Em desdobramento ao seu propsito, Curt Lange elencou vrias es-tratgias para efetivar essa interlocuo entre os protagonistas da pro-duo musical latino-americana. Em primeiro lugar, ele indicava a ne-cessidade de intensificao dos contatos entre intelectuais e artistaslatino-americanos, o que densificaria o cenrio cultural do continente,produzindo efeitos tambm sobre os grupos de msicos emigrados. Em pa-ralelo, o contedo do ensino deveria voltar-se, preferencialmente, paraa realidade dos povos americanos, no recaindo quase que exclusivamente,como por vezes acontecia, sobre os modelos civilizatrios europeus:

    [...] con respecto a la orquestra, nos convence msy ms de la existencia de problemas importantes, cuyasolucin, es deber de cada uno y que sintetizamos emlos seguientes puntos capitales:1 - Intensificacin de las corrientes latino-ameri-

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    31 Boletn Latino-Americano de Msica, Montevidu. Tomo VI. p. 45.32 Ibid. p. 20.

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  • canas nacionales e continentales, para consolidarnuestro pensamiento y nuestro arte. Los frutos deesta labor obrarn por reflejo y tambin directa-miente sobre el inmigrante.2 - Menos enseanza universal y ms enseanza ameri-cana.3 - Tendncia franca hacia la fusin absoluta comnuestro suelo, de los hijos de extranjeros concur-rentes a ls escuelas publicas. Formacin de um con-junto tnico homogneo y bien definido33.

    Mas, de acordo com Curt Lange, a populao latino-americana era ape-nas um dos polos receptores, ainda que o mais preponderante do america-nismo musical. Tratando-se de um projeto de vis cultural-ideolgico,ele no poderia ignorar a necessidade de legitimao, por parte dos n-cleos de civilidade ocidental a Europa e, de forma emergente, os Es-tados Unidos. Nesse sentido, numa deciso que mesclava o aspecto pol-tico com os interesses financeiros (numa busca de patrocnio), Curt Langeempenhava-se em divulgar o movimento do americanismo musical, sobretudono continente norte-americano. Em carta de 23 de janeiro de 1941, CurtLange outorgou a Camargo Guarnieri a misso oficial de representar osinteresses do Boletn Latino-Americano de Msica e da Editorial Coope-rativa Interamericana de Compositores en el gran pas hermano delnorte. Assim, o musiclogo escreveu ao msico brasileiro, em missivade 10 de fevereiro de 1942:

    Espero que su viagem a los Estados Unidos se vuelvaun asunto absolutamente concreto. Ud ver qu buenosamigos tenemos all, dispuestos a cooperar de lamejor manera, y con la ms grande sinceridad, ca-rente en absoluto de prejuicios o de interesses. Vertambin que all existe organizacin musical y ticaprofesional, cosas que an faltan en nuestros paseshbridos, llenos de envdia y de incultura de quie-nes ao llaman msicos.

    O americanismo musical conheceu, at meados da dcada de 1940, um ce-nrio de expanso, em sintonia com o crescente papel assumido pelo con-tinente, no contexto mundial. Em um perodo de guerras, o Novo Mundo eraalado a um indito patamar cultural. Curt Lange, numa atitude estrat-gica, apropriou-se, positivamente, dessa valorizao americana, intensi-ficando sua correspondncia com compositores e letrados de diferentes pa-ses, publicando artigos e partituras, promovendo conferncias, enfim,tecendo contatos interpessoais que assegurariam uma possvel ascenso doamericanismo musical. Essa foi, inclusive, a constatao de Camargo Guar-nieri, diante dos depoimentos por ele testemunhados em sua viagem a di-versos pases da Amrica do Sul, onde realizara uma srie de concertos:

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    33 Boletn Latino-Americano de Msica, Montevidu. Tomo VI. p. 22-23.

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  • O Santa Cruz me disse que a Amrica Latina era umapanela com muita coisa boa dentro, mas faltava umamo para mexer e fazer a comida musical. Voc apare-ceu e mexeu a comida. Da para c comeou o interessepela msica de outros pases e os compositores setornaram menos narcisistas, chegando mesmo a admitira existncia de outros compositores!34

    Todavia, a partir dos anos 1950, o americanismo musical conheceu umperodo de menor repercusso, em grande parte devido falta de apoiodo governo uruguaio, que concentrou os recursos existentes, na tenta-tiva de superao da crise econmica vivida pelo pas. Face ao entraveassim sofrido pela maioria de seus projetos musicais, Curt Lange, em 1948optou por residir na Argentina. Desde ento atuou como musiclogo e pes-quisador no somente em diversos pases da Amrica do Sul, como tambmnos Estados Unidos e em alguns pases da Europa. Em 1986, radicou-se emCaracas como Adido Cultural do Uruguai, vindo a falecer, no ano de 1997,em Montevidu.

    O NACIONALISMO DE CAMARGO GUARNIERI

    O trecho da primeira carta que Camargo Guarnieri enviou a CurtLange, em 7 de novembro de 1934, quando o musiclogo encontrava-se depassagem pelo Brasil, revela o incio de uma amizade duradoura e a aber-tura de um espao propcio a importantes discusses, alm de indicar aconjuntura especfica ao cenrio musical da poca. A vinda de Curt Lange,ao pas, deu-se a partir de um convite de Walter Burle Marx35 para a rea-lizao de uma srie de quatorze conferncias, no Conservatrio Brasi-leiro de Msica e na Associao Brasileira de Imprensa36:

    [...] por intermdio desta, fao-lhe ciente do grandeprazer que tive em conhec-lo pessoalmente, como tam-bm em ouvir as interessantssimas conferncias querealizou aqui em So Paulo. Com um amistoso abrao,fico aqui ao seu inteiro dispor. Camargo Guarnieri.37

    Com a carta, Camargo Guarnieri aproveitou para enviar a Curt Langedois anexos: um bilhete em que solicitava que a partitura de sua obraDana Brasileira fosse entregue ao compositor Luis Gianneo38, e sua au-tobiografia, acompanhada por sua fotografia.

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    34 Carta de Camargo Guarnieri para Curt Lange, 9 de novembro de 1945.35 Walter Burle-Marx (1902-1990), regente e compositor paulista. Sobre Walter Burle Marx, Guarnieri, na autobiografia anexada carta de 7 de dezembro de 1934, es-creveu: Seus trabalhos j tm sido executados em diversos pases estrangeiros [...] na Argentina pelo maestro Burle Marx, sempre com grande xito.36 MOURO, Rui. O alemo que descobriu a Amrica. Belo Horizonte: Itatiaia, 1990. p. 27.37 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 7 de novembro de 1934.38 Na abertura do primeiro tomo do Boletn, Curt Lange refere-se a Luis Gianneo com grande admirao elogiando o poema sinfnico intitulado Turay-Turay. Sobre LuisGianneo, ver p. 79-80 do captulo II deste livro.

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  • Seus primeiros ensaios de composio datam de 1919,quando Camargo Guarnieri contava apenas com 12 anosde idade. Artisticamente falando, porm, sua ativi-dade como compositor comea em 1928, com a publica-o da Dansa Brasileira, Losango Cqui, CanoSertaneja e a Sonatina para piano. Da para c vemproduzindo cada vez mais em todos os ramos da compo-sio. Desde o incio de sua carreira, a sua msica caracteristicamente brasileira, sendo Camargo Guar-nieri um estilizador do populrio nacional e na opi-nio do ilustre crtico e musiclogo Mrio de Andrade,creio que o melhor polifonizador que a nossa terraj apresentou39.

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    39 Passagem da autobiografia de Camargo Guarnieri enviada a Curt Lange, anexada carta de 7 de novembro de 1934.

    A composio Dana Brasileira foi um marco no relacionamento en-tre o compositor e o literato e tambm musiclogo Mrio de Andrade, como qual se aliou na tentativa de criao de uma msica caracteristica-mente nacional. Na passagem mencionada, pode-se observar a importnciaque Camargo Guarnieri atribua ao parecer de Mrio de Andrade no tocante sua produo musical.

    FOTOGRAFIA DE CAMARGO GUARNIERI ENVIADA A CURT LANGE.Nesta imagem consta a seguinte dedicatria: Ao Francisco Curt Lange, a minha

    simpatia cheia de admirao. Camargo Guarnieri. So Paulo, 25/11/34. Srie 8.1. 060.003.1.1. Acervo Curt Lange.

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  • A historiografia acerca da trajetria de Camargo Guarnieri endossa,em geral, o parecer de Mrio de Andrade, acerca do vis nacionalista docompositor paulista e, mais, ainda, tem enfatizado a influncia porvezes tida como determinante exercida pelo prprio Mrio de Andradenas opes estticas de Camargo Guarnieri. O msico, ento com 21 anos,conheceu Mrio de Andrade em 1928, quando lhe apresentou algumas de suascomposies. A partir dessa data, mantiveram amide contato, e CamargoGuarnieri insistia, em sua correspondncia com Curt Lange, na admiraoque nutria pelo intelectual modernista. Expondo suas dificuldades de-pois de seu retorno da Europa em 1940, Camargo Guarnieri comentou: Nssofremos a falta de Mrio de Andrade. No fosse a poltica se meter emtudo aqui, ele estaria entre ns! Espero um dia v-lo aqui outra vez40.Por ocasio do falecimento de Mrio de Andrade, na carta de 3 de marode 1945, Camargo Guarnieri escreveu a Curt Lange:

    A morte do Mrio nos deixou completamente estpidos!Estamos atordoados ainda. Foi um golpe to cruel, tobrbaro, nem acreditamos! O Brasil perdeu uma dassuas maiores inteligncias. A capacidade intelectualdo Mrio era invulgar. Ele compreendia tudo, sabiatudo! Os brasileiros, infelizmente, vo conhec-losomente agora, depois que desapareceu do nosso con-vvio. A falta que ele vai fazer ser enorme. O Mrioera o leme que norteava a nossa juventude. Agora, semele, no sei o que ser... Justamente neste momentons todos precisvamos dele. A tristeza invadiu osnossos coraes. Precisamos trabalhar para que o es-prito dele tenha, pelo menos, essa satisfao, quea obra construtiva que ele comeou e sempre continuoucom tanto amor, seja levada a frente41.

    Dois anos mais tarde, no perodo em que Camargo Guarnieri estava emNova York, discorrendo sobre suas atividades, o compositor ainda se re-feriu a Mrio de Andrade com grande admirao, escrevendo a Curt Lange:Escrevi, tambm, um coro para quatro vozes mistas, com texto do sempresaudoso Mrio de Andrade. Chama-se: O cco do major.42

    Curt Lange, por sua vez, conhecia Mrio de Andrade, no somente atra-vs das menes feitas por Camargo Guarnieri, mas tambm por ter travadocontato pessoal com ele, por ocasio das conferncias que realizou no Riode Janeiro em 1934, quando Mrio de Andrade se deslocou de So Paulo, es-pecialmente para conhec-lo e ouvir suas palestras. Em seguida, medianteo interesse do prprio Mrio de Andrade, Curt Lange seguiu para So Paulo,onde proferiu conferncias sobre educao musical, no Instituto de Edu-

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    40 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 24 de junho de 1940.41 Dias depois, na carta de 30 de maro de 1945, ainda impactado com a morte do musiclogo, Camargo Guarnieri enviou nova missiva a Curt Lange enfatizando a ir-reparvel perda: ... A morte do Mrio deixou todos os brasileiros conscientes bastante acabrunhados. Ser sempre irreparvel essa perda. O Mrio representava a in-teligncia do Brasil acordada e alerta. Quanta falta ele est fazendo! J estamos sentindo a sua eterna ausncia.42 Carta de Camargo Guarnieri a Curt Lange, 13 de maro de 1947.

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  • cao Caetano de Campos. Nessa viagem, de apenas quatro semanas, alm doconvvio com Mrio de Andrade e Camargo Guarnieri, Curt Lange estabeleceuseus primeiros contatos com importantes artistas e intelectuais, desta-cando-se Villa-Lobos, Francisco Mignone, Lorenzo Fernandez, Guilherme Fon-tainha, Luis Heitor Corra de Azevedo, Antnio de S Pereira, Ansio Tei-xeira, Andrade Muricy, Cndido Portinari, Guiomar Novaes, dentre outros43.

    A relao entre Camargo Guarnieri e Mrio de Andrade foi tecida emconjunto com a configurao de um projeto de nacionalismo esttico, dis-tinto de uma concepo de nacionalismo poltico, em seus critrios e ex-presses45. Assim, as tentativas de Mrio de Andrade e Camargo Guarnieri,em seu intuito de representar a nao brasileira, comportavam a inclusoe o amlgama de elementos de diferentes procedncias socioculturais, en-quanto o nacionalismo poltico vinculava-se mais diretamente afirmaode uma ordem rigidamente estabelecida e hierarquizada. No Brasil das d-cadas de 1930-1940, esse segundo vis nacionalista, segundo Schwartzman,teria sido hegemnico, apresentando-se de maneira conservadora e autori-tria, avesso convivncia pluralista e diversificada, ou seja, valori-

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    43 MOURO, Rui. Op. cit. p. 27.44 A identificao descrita foi realizada pela musicloga Mercedes Reis Pequeno.45 KATER, Carlos. Msica viva e H. J. Koellreutter: movimentos em direo modernidade. So Paulo: Musa/Atravz, 2001. p. 114-115.

    Participantes da Conferncia no Rio de Janeiro, 1934.Destacam-se, sentados na primeira fileira, da esquerda para direita, a partir da segunda figura: Mrio de Andrade, Luiz Heitor Correa de Azevedo, Curt Lange, Roberto

    Tavares e Francisco Albuquerque. Em p, Andrade Muricy, o segundo componente da esquerda para direita44. Srie 8.1. 060.002.2. Acervo Curt Lange.

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  • zava a uniformizao, a padronizao cultural e a eliminao de quais-quer formas de organizao autnoma da sociedade. Da seu carter exclu-dente e repressor46.

    Recorrendo-se aos escritos de Mrio de Andrade, verifica-se que, nomesmo ano em que conheceu Camargo Guarnieri, ele publicou o livro Ensaiosobre a msica brasileira, no qual propagava a ideia de que o perodoatual do Brasil, especialmente nas artes, o de nacionalizao. Se estagora numa fase nacionalista pela aquisio de uma conscincia de si mesma,ela [a msica] ter que se elevar ainda um dia fase que chamarei de cul-tural, livremente esttica, e sempre entendendo que no pode haver cul-tura que no reflita as realidades profundas da terra em que se realiza47.Nesse perodo, Mrio de Andrade passou a defender o [...] conceito de m-sica como arte social nacionalizada48, apresentando assim a possibilidadede existncia de uma raa brasileira. Verifica-se, dessa maneira, comoponto convergente, no pensamento de Camargo Guarnieri e Mrio de Andrade,uma compreenso do nacional como o resultante da fuso de diferentes ele-mentos da histria brasileira europeus, africanos, indgen