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Legend de Marie Lu

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Primeiro capítulo do livro Legend da Marie Lu

Text of Legend de Marie Lu

  • leia

    TraduoEbria dE Castro alvEs

    A verdAde se tornAr lendA

  • DAY

    Minha me pensa que estou morto.

    Obviamente, no estou morto, porm mais seguro para ela pensar

    que estou.

    Pelo menos duas vezes por ms vejo meu cartaz de Procura-se, exibido

    nos teles de TV espalhados no centro de Los Angeles. Ele parece meio

    deslocado l. A maioria das fotos nas telas mostra coisas felizes: crianas

    sorridentes sob um cu de brigadeiro, turistas posando diante das runas

    da Golden Gate, comerciais da Repblica em cores de non. H tambm

    propaganda anticolnias. As Colnias querem nossas terras, afirmam os

    anncios. Eles querem o que no tm. No permita que eles conquistem

    seus lares. Apoie nossa causa!

    E ento aparece minha ficha criminal. Ela ilumina os teles de TV, em

    toda a sua glria multicolorida:

    PROCURADO PELA REPBLICAArquivo N 462178-3233 DAY------------------------------PROCURADO POR AGRESSO,INCNDIO, ROUBO, DESTRUIO DE PROPRIEDADES MILITARES, E PORPREJUDICAR O ESFORO DE GUERRA.RECOMPENSA DE 200.000 NOTASDA REPBLICA POR INFORMAESQUE LEVEM PRISO DESSE ELEMENTO.

    Os cartazes sempre trazem uma foto diferente com minha ficha. Certa

    vez era a de um menino de culos, com a cabea cheia de grossos cachos

    cor de cobre. De outra vez, a foto era de um garoto de olhos negros e care-

    quinha. s vezes sou negro, s vezes, branco, outras vezes pardo, moreno,

    amarelo ou vermelho, ou qualquer outra coisa que lhes venha cabea.

  • Legend

    11

    Em outras palavras: a Repblica no tem ideia da minha aparncia. Pare-

    ce que eles no sabem quase nada sobre mim, exceto que sou jovem e que,

    quando verificam minhas impresses digitais, no encontram no seu banco

    de dados nenhuma que corresponda. por isso que me odeiam, porque no

    sou o criminoso mais perigoso do pas, e sim o mais procurado. Eu fao que eles

    paream ineficientes, pois no conseguem me capturar.

    Estamos no incio da noite, mas j est um breu l fora, e os reflexos das

    telas grandes de TV so visveis nas poas da rua. Eu me sento no parapeito

    esfacelado de uma janela a trs andares de altura, oculto da viso, atrs das

    vigas de ao enferrujadas. O prdio era um conjunto de apartamentos, mas

    agora est em runas. Lmpadas quebradas e cacos de vidro se espalham

    desordenadamente no cho deste cmodo, e todas as paredes esto com

    a tinta descascada. Em um canto, no cho, um velho retrato do Primeiro

    Eleitor jaz no cho, virado para cima. Eu me pergunto quem morava ali.

    Ningum pirado o bastante para deixar seu retrato do Primeiro Eleitor

    abandonado no cho daquele jeito.

    Meu cabelo, como sempre, est enfiado num velho bon de jornaleiro.

    Meus olhos esto fixos na pequena casa de um andar do outro lado da rua.

    Minhas mos mexem com o medalho pendurado no meu pescoo.

    Tess se debrua na outra janela do cmodo, ela me observa atentamente.

    Estou inquieto e, como sempre, ela percebe isso.

    A praga atingiu com fora o setor Lake. O brilho dos teles possibilita,

    a Tess e a mim, ver os soldados no fim da rua, medida que eles inspecio-

    nam todas as casas, com suas capas negras reluzentes, usadas soltas por

    causa do calor. Cada um deles usa uma mscara de gs. s vezes, quando

    aparecem, marcam uma casa com um grande X vermelho na porta da fren-

    te. Depois disso, ningum entra ou sai da casa. Pelo menos, no enquanto

    algum est olhando.

    Voc ainda no consegue ver os caras? Murmura Tess. As sombras

    ocultam sua expresso.

    Numa tentativa de me distrair, monto um estilingue improvisado com

    pedacinhos de antigos tubos de PVC:

    Eles no jantaram. Faz horas que eles no se sentam mesa.

    Eu mudo de posio e estendo meu joelho ruim.

  • Day

    12

    Vai ver eles no esto em casa.

    Olho irritado para Tess. Ela est tentando me consolar, mas no estou a fim:

    Uma luz est acesa. Veja aquelas velas. Mame no gastaria velas se

    ningum estivesse em casa.

    Tess se aproxima e diz:

    A gente devia sair da cidade por umas duas semanas, n? Ela tenta

    manter a voz calma, mas d para notar seu medo. Logo a praga vai acabar

    e voc pode voltar para visitar. Temos dinheiro mais do que suficiente para

    duas passagens de trem.

    Sacudo a cabea e digo:

    Uma noite por semana, lembra? S quero ver como eles esto uma

    noite por semana.

    Sei... voc veio aqui todas as noites essa semana.

    S quero ter certeza de que eles esto bem.

    E se voc ficar doente?

    Vou me arriscar. E voc no precisava ter vindo comigo, podia ter me

    esperado em Alta.

    Tess d de ombros e diz:

    Algum tem de vigiar voc.

    Ela tem dois anos a menos do que eu, embora s vezes parea velha o

    bastante para tomar conta de mim.

    Observamos em silncio enquanto os soldados se aproximam da casa

    da minha famlia. Toda vez que eles param numa casa, um soldado bate

    porta enquanto um segundo homem fica ao lado, de arma em punho. Se

    ningum abre a porta em dez segundos, o primeiro soldado a arromba com

    um pontap. No consigo v-los quando entram s pressas, mas conheo

    esse procedimento: um soldado vai colher uma amostra de sangue de cada

    membro da famlia, depois vai conect-la num leitor porttil para verificar se

    h indcios da praga. Todo o processo demora dez minutos.

    Conto as casas entre o local onde os soldados esto agora e onde mora

    minha famlia. Vou precisar esperar uma hora antes de saber o que aconte-

    ceu com meus familiares.

    Ouve-se um guincho vindo do outro lado da rua. Meus olhos se movem

    rapidamente em direo ao barulho, e minha mo agarra a faca embainhada

    no meu cinto. Tess engole em seco.

  • Legend

    13

    uma vtima da praga. Essa mulher deve estar se deteriorando h me-

    ses, porque sua pele est rachada e sangrando. Eu me pergunto como os

    soldados no repararam nela nas inspees anteriores. Ela cambaleia por

    um tempo, desorientada, depois vai frente, tropea e cai de joelhos. Olho

    mais atrs, na direo dos soldados. Eles agora a veem. O soldado com a

    arma na mo se aproxima, enquanto os outros onze ficam onde esto e

    observam. Uma vtima da praga no uma grande ameaa. O soldado ergue

    a arma e mira. Uma salva de fascas acaba com a mulher infectada.

    Ela desmorona, depois fica imvel. O soldado volta a unir-se aos com-

    panheiros.

    Eu gostaria que pudssemos pegar uma das armas dos soldados. Uma

    arma bonita como aquela no custa muito no mercado, 480 Notas, menos

    que um fogo. Como todas as armas, tem preciso, guiada por ms e

    correntes eltricas, e pode atingir com exatido um alvo a trs quarteires

    de distncia. tecnologia roubada das Colnias, disse papai uma vez, em-

    bora seja claro que a Repblica jamais admitiria isso. Tess e eu poderamos

    comprar cinco armas daquela, se quisssemos... Ao longo dos anos apren-

    demos a estocar o dinheiro extra que roubamos, e a mant-lo escondido,

    para emergncias. Mas o verdadeiro problema em ter uma arma no a

    despesa, que muito fcil de ser rastreada, levando at voc. Toda arma

    tem um sensor que informa o formato da mo de quem a usa, impresses

    digitais, e localizao. Se isso no me denunciasse, nada mais o faria. En-

    to, permaneo com minhas armas caseiras, estilingues de tubos de PVC

    e outras bugigangas.

    Eles encontraram outra casa diz Tess. Ela aperta os olhos para con-

    seguir ver melhor.

    Olho e vejo os soldados sarem rapidamente de outra casa. Um deles

    sacode uma lata de spray de tinta e desenha um X vermelho gigantesco

    na porta. Conheo essa casa. H tempos, a famlia que mora l tinha uma

    filhinha da minha idade. Meus irmos e eu brincvamos com ela quando

    ramos mais novos, de pega-pega e hquei de rua, com ps de ferro e

    bolinhas de papel.

    Tess tenta me distrair ao apontar com a cabea para o embrulho de

    pano perto dos meus ps:

  • Day

    14

    Que foi que voc trouxe a dentro?

    Sorrio e depois me abaixo para desamarrar o n do pacote:

    Algumas das coisas que a gente conseguiu esta semana. Vo render

    uma tima comemorao depois que eles passarem pela inspeo.

    Meto a mo na pequena pilha de objetos legais no pacote e mostro um

    par usado de culos de proteo. Eu os examino bem, para me certificar

    de que os vidros no esto rachados. Para John, um presente adiantado de

    aniversrio. Meu irmo mais velho faz dezenove anos no fim da semana.

    Ele trabalha em turnos de catorze horas na fbrica de fornos de frico do

    bairro, sempre chega em casa esfregando os olhos por causa da fumaa.

    Dei a maior sorte de poder surrupiar esses culos de um carregamento

    de material militar.

    Largo os culos e reviro o resto das coisas. A maioria de latas de en-

    sopadinho de carne e batata que roubei da despensa de um avio, alm de

    um velho par de sapatos com as solas intactas. Eu queria muito estar na sala

    com eles quando entregar esses troos todos, mas John a nica pessoa que

    sabe que estou vivo, e ele prometeu no contar mame nem ao den.

    Daqui a dois meses den faz dez anos, o que quer dizer que ele precisa-

    r ento submeter-se Prova. Eu prprio fui reprovado quando completei

    dez anos. Por isso me preocupo com den, porque mesmo ele sendo o

    mais inteligente dos trs irmos, pensa de maneira muito parecida com

    a minha. Quando terminei minha Prova, tinha tanta certeza das minhas

    respostas, que nem me preocupei em ver as notas que receberiam. Aconte-

    ceu