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SebentaUA, apontamentos pessoais

Disciplina /41047 Problemas Sociais Contemporneos

41047Problemas Sociais Contemporneos

Autor: SebentaUA, apontamentos pessoais E-mail: [email protected] Data: 2007/2008 Livro: Problemas Sociais Contemporneos, edio UAB do ano de 2001, de Hermano do Carmo (coordenador) Caderno de Apoio: Nota: Apontamentos efectuados para o exame da disciplina no ano lectivo 2007/2008

O autor no pode de forma alguma ser responsabilizado por eventuais erros ou lacunas existentes. Este documento no pretende substituir o estudo dos manuais adoptados para a disciplina em questo.

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Problemas Sociais Contempornea1 Estudar os problemas sociais1.1- Dos problemas sociais aos problemas sociolgicos O que so problemas sociais? Podemos apresentar desde j duas definies possveis: Segundo Rubington e Weinberg (1995), um problema social uma alegada situao incompatvel com os valores de um significativo nmero de pessoas, que concordam ser necessrio agir para a alterar. Para Spector e Kitsuse, um problema social constitudo pelo conjunto das aces que indivduos ou grupos levam a cabo ao prosseguirem reivindicaes relativamente a determinadas condies putativas. Para que um problema social possa ser considerado problema sociolgico deve possuir as condies de regularidade, uniformidade, impessoalidade e repetio. A problematizao sociolgica dos problemas sociais implica mesmo a des-construo destes, o desmantelar do significado social de maneira a criar um significado de acordo com o discurso cientfico. Os investigadores sociais debruam-se sobre uma realidade autoconstruida e encontram representaes sociais que moldam a realidade e condicionam os prprios investigadores. 1.1.1 A questo do positivismo vs relativismo A sociologia positivista defende a procura de leis sociais ( semelhana das leis do mundo natural) a partir de um mtodo imdutivo-quantitativo, e advoga uma separao absoluta entre a Cincia e a Moral, isto , entre os factos e os valores. Para a cincia positivista possvel conhecer objectivamente a realidade social, uma vez que existem critrios universais do conhecimento e da verdade. Ao abordar os problemas sociais, a sociologia positivista estuda situaes objectivas, que so definidas como problemas em razo de caractersticas que lhe so prprias. Da a necessidade de se conhecerem as suas causas e de se chegar elaborao das leis que regem o fenmeno. A posio relativista segundo a qual no existe nenhum critrio universal para o conhecimento e para a verdade. Todos os critrios utilizados sero sempre internos ao sistema cogniscente e, como tal, sero relativos e no universais. Consequentemente, a definio do que seja um problema social ser sempre relativa, ser antes de mais um rtulo colocado a determinadas situaes, e no uma caracterstica inerente situao em si mesma. O que importa estudar a definio subjectiva dos problemas sociais, conhecer os processos pelos quais uma dada situao se torna problema social. 1.1.2 A aplicabilidade da cincia e o desenvolvimento terico Um problema pressupe uma soluo. Os problemas sociais, que tm um significado social, requerem uma soluo social. Desde o incio, os socilogos tentam equacionar o que Rubington e Weinberg denominam de mandato duplo: Por um lado, dar ateno aos problemas existentes na sociedade, numa perspectiva de correco da realidade social, atravs dos conhecimentos empricos adquiridos, Por outro lado, desenvolver terica e metodologicamente a sociologia enquanto cincia.SebenteUA apontamentos

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Hester e Eglin, seguindo Matza consideram que o primeiro tipo de perspectiva pode ser denominado de sociologia correctiva, que parte dos seguintes pressupostos: Equivalncia de problema social a problema sociolgico, As questes sociolgicas derivam das preocupaes sociais, O grande objectivo do estudo sociolgico a melhoria dos problemas sociais, Preocupao central com as causas ou etiologia dos problemas, Compromisso com os princpios positivistas da cincia.

Para estes autores, a sociologia correctiva falha nos seus propsitos precisamente porque no separa a aplicabilidade da cincia do seu corpus terico-metodolgico, e no reconhece os viezes que tal situao origina. Encara as pessoas como objectos e no como sujeitos constroem a realidade social. Sociologia de Interveno a sociologia de Interveno no uma especialidade ou ramo sociolgico, mas sim um modo de ver o trabalho do cientista social que, em vez de isolar assepticamente o investigador do seu objecto de estudo, o desafia a ser contaminado por este, o leva a intervir activamente na realidade que estuda e a no separar os papeis de investigador e de cidado. A investigao social deve ser utilizada para melhorar a sociedade, segundo princpios humanistas de solidariedade e de libertao. 1.2 As perspectivas de estudo dos problemas sociais 1.2.1 As perspectivas da Sociologia Positivista Patologia Social Os avanos e os sucessos de disciplinas j instaladas, como a biologia e a medicina, influenciaram profundamente os socilogos a adoptarem a analogia do organismo ao seu objecto de estudo: a sociedade. Adoptaram igualmente um modelo mdico de diagnstico e de tratamento. Os problemas sociais so entendidos como doenas ou patologias sociais. O pensamento organicista, cujo autor mais consistente foi o britnico Herbert Spencer, defende que a sociedade e os seus elementos podem sofrer malformaes, desajustamentos e doenas, semelhana dos organismos vivos. Para a corrente da Patologia Social, um problema social uma violao de expectativas morais (Rubington, Weinberg). A condio de sade ou normalidade do organismo definida por valoraes do Bem e do mal. A patologia pode ser encontrada no indivduo ou no mau funcionamento institucional. Os primeiros autores desta corrente, desde os meados do sculo XIX at cerca de I Guerra Mundial, enfatizaram sobretudo as mal formaes dos indivduos. Foi a perspectiva do Homem Delinquente da escola positiva italiana de criminologia, donde se destacaram Cesare Lombroso, Ferri e Garfalo. Para Cesare Lombroso, era claro que a explicao do comportamento criminal dos indivduos estava em caractersticas fisiolgicas particulares, como o tamanho dos maxilares, assimetria facial, orelhas grandes ou a existncia de um nmero anormal de dedos. Esta corrente voltou a ganhar alguma importncia na dcada de 1960, mas os novos patologistas sociais afastaram-se da procura de deficincia nos indivduos e centraram-se antes nas deficincias na socializao. Segundo esta nova aproximao patologia social, os problemas sociais seriam o resultado da incorporao de valores errados pelos indivduos, fruto de uma sociedade doente. Neste sentido, aSebenteUA apontamentos

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soluo para os problemas sociais passaria necessariamente pela educao moral da sociedade e pela incorporao de valores moralmente correctos. Vytautas Kavolis props a conceptualizao de patologia como sendo um comportamento destrutivo ou auto-destrutivo. Para Kavolis a definio de comportamento destrutivo seria possvel em termos absolutos, isto , igual em todas as sociedades humanas. Desorganizao Social A perspectiva da patologia social dominou o estudo dos problemas sociais at sensivelmente ao fim da I Guerra Mundial. Com a dcada de 1920,a perspectiva da desorganizao social ganha claramente terreno na sociologia norte-americana. Esta nova abordagem dos problemas sociais veio iniciar um perodo do pensamento sociolgico mais voltado para o amadurecimento e para o desenvolvimento terico e metodolgico da sociologia enquanto cincia. Os autores da perspectiva da desorganizao social utilizam um conceito claramente sociolgico e que apresenta um maior potencial de operacionalizao do que o conceito de patologia social. Os quatro tericos mais importantes da desorganizao social foram Charles Cooley, Thomas, Znaniecki e William Ogburn: Cooley teorizou a distino entre grupos primrios e secundrios, sendo que nos grupos primrios os indivduos vivem relacionamentos face a face, mais intensos e duradouros, enquanto que nos grupos secundrios as relaes sociais so mais impessoais e menos frequentes. Cooley definiu a desorganizao social como sendo a desintegrao das tradies. As regras sociais deixam de funcionar. De forma semelhante, Thomas e Znaniecki, no seu estudo clssico sobre os imigrantes polacos, conceptualizaram a desorganizao social como a quebra de influncia das regras sociais sobre os indivduos. O contributo de Ogburn centrou-se no conceito de desfasamento cultural (Cultural lag) que este autor props. Para a perspectiva da desorganizao social, a sociedade no um organismo mas sim um sistema composto por vrias partes interdependentes. Aos tericos acima mencionados, gostaramos de acrescentar os nomes de Robert Park, Ernest Burgess e Roderick McKenzie, os quais consideramos incontornveis ao falarmos em desorganizao social, no seguimento dos estudos que levaram a cabo sobre a organizao espacial da cidade. Efectivamente, o fenmeno da urbanizao central para a perspectiva da desorganizao social ao estar relacionado com o enfraquecimento das relaes face a face e das tradies sociais. Park afirmou que a organizao social se baseia nas tradies e nos costumes e que tudo o que perturba os hbitos sociais, isto , a mudana social, tem potenciais efeitos desorganizadores. Passamos a apresentar as crticas apontadas por Marshal Clinard ao conceito de desorganizao social: O seu poder explicativo para a sociedade em geral reduzido, por ser um conceito demasiado vago e subjectivo. Confundiu-se desorganizao social com mudana soci