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2011.2.resp civil01

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    MATERIAL DE APOIO DIREITO CIVIL

    RESPONSABILIDADE CIVIL

    Apostila 01

    Prof. Pablo Stolze Gagliano

    Responsabilidade Civil Introduo

    1. Responsabilidade Contratual e Extracontratual (Aquiliana)

    Veja um breve quadro esquemtico da responsabilidade civil contratual e extracontratual, luz do sistema positivo.

    Responsabilidade Contratual Arts. 389 e ss. e 395 e ss. (CC-02); Arts. 1056 e ss. e 956 e ss. (CC-16).

    Responsabilidade Extracontratual Arts. 186 a 188 e 927 e ss. (CC-02); Arts. 159 e 1518 e ss. (CC-16).

    Cuidaremos, nas prximas aulas, de analisar a Responsabilidade Civil da seguinte maneira: a sua teoria

    geral em um primeiro momento, para, aps, estudarmos os seus especiais aspectos na doutrina e na

    jurisprudncia.

    2. Dano Reflexo

    A despeito de no ser de fcil caracterizao, o dano reflexo ou em ricochete enseja a

    responsabilidade civil do infrator, desde que seja demonstrado o prejuzo vtima indireta,

    consoante se pode verificar da anlise de interessantes julgados do Superior Tribunal de Justia

    (RESP. 254418/RJ, Rel. Min. Aldir Passarinho Jr., D.J. de 11.06.2001) e do Tribunal de Justia do Rio

    Grande do Sul (Ap. Cvel. 598060713. Rel. Des. Antnio Janyr Dallagnol Jnior, j. em 23.09.98):

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    I - Justifica-se a indenizao por dano moral quando h a presuno, em face da estreita

    vinculao existente entre a postulante e a vtima, de que o desaparecimento do ente querido

    tenha causado reflexos na assistncia domstica e significativos efeitos psicolgicos e emocionais

    em detrimento da autora, ao ser privada para sempre da companhia do de cujus. II Tal suposio

    no acontece em relao ao cnjuge que era separado de fato do de cujus, habitava em endereo

    distinto, levando a acreditar que tanto um como outro buscavam a reconstituio de suas vidas

    individualmente, desfeitos os laos afetivos que antes os uniram, alis, por breve espao de

    tempo.

    Apelao Cvel. Dano Moral. Protesto lavrado contra pessoa jurdica. Alegao de reflexo na

    pessoa do scio. Prova. Em que pese inafastvel, em tese, dano reflexo, semelhana do dano em

    ricochete, quando lavrado protesto contra sociedade comercial,insta cabal demonstrao da

    ilicitude do prprio ato notarial, pena de insucesso. Apelao Desprovida.

    3. Nexo de Causalidade Fundamentalmente, so trs as principais teorias que tentam explicar o nexo de causalidade:

    a) teoria da equivalncia de condies;

    b) a teoria da causalidade adequada;

    c) a teoria da causalidade direta ou imediata (interrupo do nexo causal).

    3.1. Teoria da Equivalncia das Condies (Conditio Sine Qua Non)

    Elaborada pelo jurista alemo VON BURI na segunda metade do sculo XIX, esta teoria no diferencia os antecedentes do resultado danoso, de forma que tudo aquilo que concorra para o evento, ser considerado causa.

    3.2. Teoria da Causalidade Adequada

    Esta teoria, desenvolvida a partir das idias do filsofo alemo VON KRIES, posto no seja isenta de crticas, mais refinada do que a anterior, por no apresentar algumas de suas inconvenincias.

    Para os adeptos desta teoria, no se poderia considerar causa toda e qualquer condio que haja

    contribudo para a efetivao do resultado, conforme sustentado pela teoria da equivalncia, mas sim,

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    segundo um juzo de probabilidade, apenas o antecedente abstratamente idneo produo do efeito

    danoso.

    3.3. Teoria da Causalidade Direta ou Imediata

    Esta ltima vertente doutrinria, tambm conhecida como teoria da interrupo do nexo causal, menos radical do que as anteriores, foi desenvolvida, no Brasil, pelo ilustrado Professor AGOSTINHO ALVIM, em sua clssica obra Da Inexecuo das Obrigaes e suas Conseqncias1.

    Causa, para esta teoria, seria apenas o antecedente ftico que, ligado por um vnculo de necessariedade ao resultado danoso, determinasse este ltimo como uma conseqncia sua, direta e imediata .

    4. Texto Complementar Colacionamos, aqui, texto que escrevemos em 2002, pouco antes da entrada em vigor do novo Cdigo

    Civil.

    Reputamos interessante a sua leitura, complementando esta apostila introdutria.

    A matria tratada muito importante para o nosso estudo.

    A RESPONSABILIDADE EXTRACONTRATUAL NO NOVO CDIGO CIVIL E O SURPREENDENTE TRATAMENTO DA ATIVIDADE DE RISCO (Artigo jurdico desenvolvido com base na palestra proferida pelo autor no Segundo Tribunal de Alada Civil de So Paulo, em 13 de agosto de 2002, sob a presidncia do ilustre Professor Dr. Joo Carlos Saletti, e com a honrosa presena do Prof. Dr. Arruda Alvim, na qualidade de Debatedor) Pablo Stolze Gagliano 1. CONTEXTUALIZANDO O NOVO CDIGO CIVIL2

    A falta de sistematizao do Direito Civil no sculo XVIII, influenciada pelo movimento racionalista que se iniciava, favoreceu o processo de unificao do Direito Privado.

    A codificao, nesse contexto, a par de representar um inegvel progresso sob o prisma

    legislativo, significaria tambm a consagrao ideolgica definitiva dos valores da burguesia, to temerosa quanto s pretenses intervencionistas do Estado.

    1 No plano internacional, alinharam-se a esta corrente autores do quilate de GIORGI, CHIRONI, POLACCO e

    ENNECCERUS (sobre o tema, ver o nosso vol. III Responsabilidade Civil, escrito em co-autoria com Rodolfo Pamplona Filho, Ed. Saraiva, inclusive as referncias bibliogrficas ali constantes). 2 (Sobre a descentralizao e a constitucionalizao do Direito Civil, cf. o nosso Novo Curso de Direito Civil Parte

    Geral, volume I, So Paulo: Saraiva, 2002, pgs. 49 e ss., em co-autoria com RODOLFO PAMPLONA FILHO).

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    O Cdigo de Napoleo de 1804 marca o incio deste processo. Alis, aps a sua aprovao, teve-se a impresso de que todo o Direito Civil houvera sido reescrito, em um sistema perfeito de normas, do qual o magistrado no poderia, sob qualquer pretexto, afastar-se.

    Nesse sentido, sugestiva a colocao de NORBERTO BOBBIO: a miragem da codificao a

    completude: uma regra para cada caso. O Cdigo para o juiz um pronturio, que lhe deve servir infalivelmente, e do qual no pode se afastar.

    Como fenmeno de origem poltica e social, a pretenso exclusivista do movimento codificador que se espraiaria pelo Europa e Amrica Latina nos scs. XIX e XX -, marcada pela lgica individualista do iluminismo.

    A respeito da justificativa da codificao, diz-se comumente, que um cdigo um sistema de regras formuladas para reger, com plenitude e generalidade, todos os aspectos das relaes privadas, proporcionando a segurana necessria s relaes sociais.

    Mas no s isso. O Cdigo marca a tendncia ideolgica do seu momento, com um fator agravante: sua vocao

    fagocitria e totalizadora pretende atingir, com plenitude, todas as facetas da complexa e multifria cadeia de relaes privadas.

    O Cdigo pretende ser o sol do universo normativo.

    Nesse contexto, nosso Cdigo Civil, elaborado por Clvis Bevilqua em1899, discutido anos a fio

    no Congresso Nacional oportunidade em que receberia a influncia humanista de Rui Barbosa traduz, em seu corpo de normas to tecnicamente estruturado, a ideologia da sociedade agrria e conservadora do momento, preocupando-se muito mais com o ter (o contrato, a propriedade), do que com o ser (os direitos da personalidade, a dignidade da pessoa humana).

    A nossa meta no criticar o Cdigo vigente, nem chegar ao extremo do Professor Silvio Meira, que asseverava serem os cdigos instrumentos para servir cpula da sociedade.( MEIRA, Silvio. Os Cdigos Civis e a Felicidade dos Povos. Revista de Informao Legislativa do Senado, n 117, 1993, p. 347).

    At porque, a despeito das crticas que seriam muitas, talvez em parte da senilidade

    congnita de vrias de suas normas -, os elogios seriam em muito maior nmero, e, sem dvida, muito mais eloqentes, sobretudo em se considerando que a fecunda obra de Bevilqua iniciada pelo Grande Teixeira de Freitas j entrou para a histria do nosso Direito h mais de 80 anos. Em verdade, a perplexidade que nos abate traduzida pelo Profeta dos Civilistas, o Mestre ORLANDO GOMES: No mundo instvel, inseguro e volvel de hoje, advertiu o Mestre em 1957, a resposta normativa no pode ser a transposio para um Cdigo das frmulas conceituais habilmente elaboradas no sculo passado, mas comprometidas com uma realidade muito distinta.(GOMES, Orlando. Introduo ao Direito Civil. 10 ed. Rio de Janeiro: Forense, 1993, pg. 71).

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    A sociedade do sculo XX, sobretudo aps a 1 Grande Guerra marcaria o ocaso das codificaes, atravs da macia interveno do Estado na economia, e, sobretudo, com o processo, da decorrente, de restrio autonomia privada, atravs do chamado dirigismo contratual.

    A teia viva das relaes sociais, as incertezas da economia, a impreviso generalizada dos

    negcios, e a publicizao do direito comeariam a amolecer o gesso das normas codificadas, vulnerando, passo a passo, importantes regras que pretendiam ser imutveis e eternas.

    Por tudo isso, a dificuldade em se proceder a uma reforma generalizada do nosso Cdigo desencadeou, pois, o (inverso) fenmeno da descentralizao ou descodificao do Direito Civil, marcado pela proliferao assustadora, velocidade da luz, de estatutos e leis especiais que disciplinariam, no somente as novas exigncias da sociedade industrializada, mas tambm velhas figuras que se alteraram com o decorrer dos anos, sob o influxo de novas idias solidaristas e humanitrias, e que no poderiam ser plena e eficazmente reguladas por um cdigo ultrapassado e conservador.

    Em vrios setores do Direito Civil, importantes leis especiais indicariam que o Cdigo Civil no

    est mais no centro