Literatura Japonesa

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Literatura Japonesa - Histria da Literatura Japonesa

Introduo O termo inclui obras escritas por japoneses nas lnguas japonesa e chinesa. O presente artigo se ocupa principalmente das obras em lngua japonesa. A literatura japonesa desenvolveu-se nos perodos Yamato, Heian, Kamakura-Muromachi, Edo e moderno, denominados assim de acordo com a sede do principal centro administrativo japons da poca. Perodo Yamato (de pocas arcaicas at o final do sculo VIII d.C.) Ainda que no existisse literatura escrita, foram compostas um nmero considervel de baladas, oraes rituais, mitos e lendas que, posteriormente, foram reunidas por escrito e incluem-se na Kogiki (Relao de questes antigas, 712) e a Nippon ki (Livro de Histria do Japo antigo, 720), primeiras histrias do Japo que explicam a origem do povo, a formao do Estado e a essncia da poltica nacional. A lrica surgida das primitivas baladas includas nestas obras esto compiladas na primeira grande antologia japonesa, a Maniosiu (Antologa de inumerveis folhas), realizada por Otomo no Yakamochi depois de 759 e cujo poeta mais importante Kakimoto Hitomaro. Perodo Heian (final do sculo VIII at o final do sculo XII) 3. PERODO HEIAN (FINAL DO SCULO VIII AT FINAL DO SCULO XII) A Kokin-siu (Antologia de poesia antiga e moderna, 905) foi reunida pelo poeta Ki Tsurayuki que, no prefcio, proporcionou a base para a potica japonesa. Ki Tsurayuki tambm conhecido como autor de um nikki, primeiro exemplo de um importante gnero literrio japons: o dirio.

Escrito pela japonesa Murasaki Shikibu no sculo XI, considerada a obra capital da literatura japonesa e o primeiro romance propriamente dito da histria. Nesta cena do captulo Asagao, o prncipe Genji acaba de regressar de uma frustrante visita ao palcio de sua amante, a princesa da Glria Matutina. Enquanto conversa sobre suas outras amantes com sua esposa favorita, Murasaki, contempla como suas criadas jogam na neve. O romance est repleto de ricos retratos da refinada cultura do Japo do perodo heian, que se mesclam com agudas vises da fugacidade do mundo.

A literatura do comeo do sculo X aparece em forma de contos de fadas, como O conto do cortador de bamb, ou de poemas-contos, entre eles, Ise monogatari (Contos de Ise, c. 980). As principais obras da literatura de Heian so Genji monogatari (Contos ou Histria de Genji, c. 1010) de Murasaki Shikibu, primeiro importante romance da literatura mundial, e Makura-no-soshi (O livro travesseiro) de Sei Shonagon. Perodo Kamakura-Muromachi (final do sculo XII at o sculo XVI) A primeira de vrias antologias imperiais de poesia foi a Shin kokin-siu (Nova coleo de poemas antigos e modernos, 1205) resumida por Fujiwara Teika. A obra em prosa mais famosa do perodo, os Heike monogatari (Contos do cl Taira, c. 1220), foi escrita por um autor annimo. Destacam-se A cabana de trs metros quadrados (1212) do monge Abutsu, e Ensaio em cio (1340) de Kenko Yoshida. O tipo de narrativa mais importante desta poca foram os "otogizoshi", coleo de relatos de autores desconhecidos. O desenvolvimento potico fundamental do perodo posterior ao sculo XIV foi a criao do renga, versos unidos escritos em estrofes repetidos por trs ou mais poetas. Os maiores mestres desta arte, Sogi, Shohaku e Socho, escreveram, juntos, o famoso Minase sangin (Trs poetas em Minase) em 1488. Perodo Edo (sculo XVII-1868) Neste perodo de paz e riqueza surgiu uma prosa obscena e mundana de um carter radicalmente diferente ao da literatura do perodo precedente. A figura mais importante do perodo foi Ihara Saikaku, cuja prosa em O homem que passou a vida fazendo amor (1682) foi muito imitada. No sculo XIX foi famoso Jippensha Ikku (c. 1765-1831), autor da obra picaresca Hizakurige (1802-1822). O haicai, um verso de 17 slabas que reflete a influncia do zen, foi aperfeioado neste perodo. Trs poetas destacam-se por seus haikais: o monge mendicante zen Basho, considerado o maior dos poetas japoneses por sua sensibilidade e profundidade; Yosa Buson, cujos haikus expresso sua experincia como pintor, e Kobayashi Issa. A poesia cmica, numa diversidade de formas, influenciou tambm este perodo. Perodo Moderno (1868 at a atualidade) Durante o perodo moderno os escritores japoneses foram influenciados por outras literaturas, principalmente as ocidentais. No sculo XIX destacam-se os romances de Kanagaki Robunis, Tokai Sanshi, Tsubuochi Shoyo e Futabei Shimei. Ozaki Koyo, fundador da Kenyusha (Sociedade dos amigos do nanquim), incorporou tcnicas ocidentais e influenciou-se em Higuchi Ichiyo. No sculo XX surge o naturalismo, cuja figura principal Shimazaki Toson. Mori Ogai e Natsume Soseki se mantiveram afastados da tradio francesa dominante. Destacam-se tambm o autor de relatos Akutagawa Ryunosuke, Yasunari Kawabata (Prmio Nobel em 1968), Junichiro Tanizaki, Yukio Mishima, Abe Kobo e Kenzaburo O (Prmio Nobel em 1994). Do final do sculo XIX aos nossos dias existe um forte movimento a favor da poesia ao estilo ocidental. Dentro deste gnero, surgiram excelentes poetas. Entre eles, Masaoka Shiki. Teatro Japons Teatro escrito e interpretado no Japo desde o sculo VII d.C. Sua evoluo deu lugar a uma ampla variedade de gneros, caracterizados em geral pela profuso de elementos dramticos, musicais e coreogrficos, e regidos at bem pouco tempo por normas bastante rgidas. As danas do teatro gigaku, introduzido no Japo no ano 612 d.C. a partir da China, eram aparentemente de carter cmico. No sculo VIII foram substitudas pelo bugaku, espetculo importado da China, cujas danas apresentavam situaes simples, mas que adquiriram um carter ritual. O sangaku, espetculo de tipo acrobtico (funambulismo, malabarismo e engoliar de espadas) tornou-se popular no sculo VIII.

No sculo XIV surgiu o gnero do Teatro n, e em fins do sculo XV o teatro de tteres, jruri, tambm chamado bunraku. O grande dramaturgo japons Chikamatsu Monzaemon foi um dos grandes escritores deste gnero. A partir do sculo XVIII, o kabuki se tornou o gnero de teatro tradicional de maior popularidade. Mais prximo de um espetculo que do teatro em si, seus textos originais tm importncia menor que a interpretao, a msica, a dana e as cores brilhantes do cenrio. Atualmente os dramaturgos vm abordando o conflito entre a sociedade moderna e a tradicional. Yukio Mishima obteve grande xito com Cinco peas modernas do teatro n (1956), em que apresentou uma verso modernizada de temas tradicionais. O grou do crepsculo (1949), de Kinoshita Jungi, tambm tem por base antigos contos populares.

ANLISE DO CONTO DE FADAS

KAGUYAHIME A PRINCESA DA LUAUniversidade de Braslia, Junho de 2000 - Departamento de Letras-Traduo - Curso de Licenciatura em Lngua Japonesa - Disciplina: Literatura Japonesa 1 - Professora: Clia Mitie Tamura

Sumrio

Introduo Kaguyahime - A Princesa da Lua Variaes Sobre o Mesmo Tema Anlise Hermenutica Concluso Bibliografia

INTRODUO Os Contos de Fadas como Fonte de Estudos Psicolgicos.Na condio de um aluno transitante entre dois cursos, procurarei nesta monografia desenvolver um trabalho que satisfaa tanto as exigncias da disciplina quanto meus objetivos pessoais como pesquisador e filsofo. Na literatura existe uma farta matria prima da qual se pode retirar as mais diversas informaes sobre a psique humana direta ou indiretamente, mas de qualquer modo em obras onde as potencialidades pessoais de um indivduo tiveram maior influncia, ou influncia total no caso de uma obra de fico original, a tendncia que se observe predominantemente caractersticas pessoais do autor. Sou da opinio de que os escritores que produzem obras de fico seguindo sua criatividade e sentimentalidade, esto entre as pessoas que mais expem seu universo interior ao conhecimento pblico, ao lado de poetas, msicos e artistas em geral. Devem existir poucas formas melhores de se conhecer um autor como pessoa do que tendo contato com suas obras emocionalmente mais sinceras, pois ele revelar contedos psquicos que muitas vezes deixa escapar inconscientemente. Para aqueles que como eu, esto mais interessados em contedos de uma coletividade humana, obras pessoais embora teis no so a melhor fonte, h uma bem melhor, as obras impessoais, ou seja, aquelas que j no mais se sabe quem pode lhes ter criado, que esto alm do domnio autoral de particulares e que cada um que as reproduz, quer seja oral ou textualmente, acrescenta algo. Esses integrantes da cultura de um povo tendem a vir por tradio oral, s sendo escritas por compiladores no sentido de resgatar ou conservar sua existncia. Nestes esto includos toda uma gama de contos e historietas, direcionadas para os mais variados pblicos em diversas faixas etrias, que podem surgir de qualquer lugar e com certeza se transformam com o tempo.

Sua mutabilidade tem um efeito paradoxo, se por um lado cada vez mais perdem a forma original e consequentemente o esprito de quem os criou, por outro lado ganham em interpretaes e adies dos mais diversos vetores humanos pelos quais passaram, quer sejam para adapt-las a pblicos mais especficos, para imprimir-lhes um toque pessoal ou apenas por falha mnemmica que exige uma complementao ou atualizao. Sendo assim os contos populares vo a cada poca, absorvendo elementos da cultura vigente e dos locais por onde passam, de modo que uma mesma lenda possui quase sempre variadas verses. Tal acmulo de diversidades lhes coloca um carter cada vez mais coletivo, e melhor indicado para revelar as facetas psicolgicas de uma cultura. Geralmente sua linha bsica no se altera, os eventos principais tendem a se manter, pois afinal foram mesmo eles que atraram a ateno de quem se dispe a cont-los, mas os detalhes que os permeiam e por vezes os desfechos diversificados mostram o quanto so versteis e passveis de adaptao temporal ou local. A pesquisa dos elementos culturais encontrados nas lendas, contos e mitos tm sido objeto de estudo bastante aprofundado de antroplogos e psiclogos geralmente de linha Jungiana. Nelas tm-se comumente obtido informaes preciosas sobre o universo mtico e imaginativo dos povos. Entretanto tenho observado que os inmeros adeptos do j legendrio Carl G. Jung, o psicanalista suo famoso por investigar mitos, as culturas orientais e propor o inconsciente coletivo, tm se concentrado mais na rea relativa as religies. Eu pelo menos conheo poucas obras relativas ao estudo de contos infantis por exemplo, totalmente despojados de qualquer influncia religiosa direta. At agora no vi explicaes aprofundadas para esclarecer o porqu das estrias infantis de domnio pblico, serem quase sempre sombrias e tristonhas, o contrrio do que a iluso do senso comum pensa a primeira vista. Embora hoje em dia estejamos acostumados a ver as crianas se divertirem com histrias onde o bem vence o mal, os heris triunfam e vivem felizes para sempre, na verdade nem sempre foi assim. Quase todos os desenhos animados e contos infantis propagados na atualidade passaram pelo filtro de indivduos que cuidadosamente lhes removeram os elementos trgicos. Antes da verso de Disney por exemplo, Branca de Neve no era acordada pelo prncipe, ela de fato morria no final, antes da reinterpretao dos Irmos Grim, Joo e Maria eram devorados pela Bruxa da Casa de Doces e Chapeuzinho vermelho acabava nas entranhas do Lobo Mau junto com sua Vovzinha. O que se percebe ento que quando um autor possui liberdade para criar ou reinterpretar um conto infantil, geralmente ele lhe garante um final feliz, mas quando este mesmo conto est ainda sob o domnio do imaginrio popular, sem passar pelo filtro de algum escritor especial, eles so invariavelmente trgicos. E o mais interessante que isso no especfico das culturas que herdaram desde o helenismo grego o gosto pela tragdia, caso contrrio no os encontraramos to vastamente na cultura japonesa, como o caso do conto a ser analisado nesta

monografia. A primeira impresso de que o imaginrio popular tem tanta facilidade em se identificar com a tragdia que o repassa espontaneamente para as estrias infantis, sabese l com que consequncias para a psique compartilhada de um povo. Lembremos que muitos pases antes de se mobilizarem numa grande campanha expansionista, fizeram uma remodelagem nesses contos, priorizando e repassando para as crianas apenas estrias onde os heris, legtimos representantes da identidade nacional, venciam os obstculos dando lies de moral. Se a evidncia dos elementos trgicos nos contos so hoje suprimidas por filtros de particulares, o mesmo no acontece por exemplo nas msicas de roda infantis. So todas trgicas! ... o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou...", ... a canoa virou, deixaram ela virar... se eu fosse um peixinho... buscava a Maria no fundo do mar...", "... achei bela morena que no Itoror deixei... entrars na roda e ficars sozinha...", "...o cravo brigou com a rosa... saiu ferido e a rosa despedaada.", "...um anjo que roubou meu corao... um bosque que se chama solido", "... Marcha soldado... foi preso pro quartel...", "Como pode o peixe vivo viver fora dgua fria? ...como poderei viver sem a tua companhia...", "... a rdio patrulha pega a criana que no quer dormir..." A lista no tem fim! E quem se der ao trabalho de analisar as msicas infantis em outras culturas h de constatar a mesma coisa na grande maioria dos exemplares. Ser que tudo isso pode ser explicado apenas pelo estilo "Boi da cara preta"? Para assustar as crianas ou convenc-las a serem boazinhas? Uma coisa certa, as crianas no demonstram preferncia por essa temtica, tanto que ela tm sido significativamente mudada nas ltimas dcadas. As escolas tem popularizado msicas de contedo mais positivo e j h esforos no sentido de banir aquela que foi por muitos anos a mais famosa msica infantil, o "Atirei o pau no gato", onde clara uma atitude hostil contra um animal, bem ao contrrio do predominante esprito naturalista e ecolgico da atualidade. Realmente eu ainda no compreendi o porqu desse fenmeno cultural. Atravs da tradio oral, o que chega ao pblico infanto juvenil basicamente um contedo isento dos famosos e desejveis finais felizes. O conto de fadas a ser analisado nesta monografia o de Kaguyahime, A Princesa da Lua, cujo final tristonho no foge a regra geral. Mas o escolhi afinal no pelo motivo descrito logo acima, que na realidade no o objetivo investigativo deste trabalho. Como j disse os contos de fadas sendo tambm legtimos representantes da cultura de um povo atravs da tradio oral, sem dvida tero elementos curiosos a respeito da sua mentalidade, e embora neste caso o nvel de distores atravs dos sculos ter causado incrveis variaes entre as fontes onde o pesquisei, creio que posso confiar que tenho os elementos mais importantes para fazer algumas especulaes. Observei nesse conto algumas peculiaridades das quais gostaria de comentar. A estrutura do trabalho est dividia nesta introduo, numa traduo literal do texto

realizada por mim mesmo cuja fonte uma verso em Ingls, algumas observaes sobre variaes do conto, e a parte especulativa em si, onde fao algumas anlises do contedo naturalmente hermticos, comparaes e teorias sobre os elementos psicolgicos semi conscientes ou mesmo inconscientes que podem estar presentes em sua narrativa e contedo. Dessa forma espero ser capaz de realizar um esforo til no sentido de levantar questes a cerca do universo psicolgico a respeito no apenas deste, mas de vrios contos de fadas, que possam levar a investigaes sobre elementos ntimos da cultura de um povo, ajudando no entendimento da coletividade como um meio de, paradoxalmente, contribuir no entendimento do indivduo e de toda a humanidade.

Marcus Valerio XRKaguyahime A Princesa da Lua H muito tempo atrs em um local distante no Japo, vivia um Taketori (cortador de bambu) e sua esposa. Ele gostava de seu trabalho, tanto que nem pensava em enriquecer, gostava da sensao de liberdade ao adentrar a floresta dia a dia, procurando o precioso vegetal. Preferia permanecer pobre e livre, fazendo o que gostava, do que trabalhar nas plantaes ou em algum outro servio, onde poderia ganhar mais dinheiro mas teria que obedecer a regras, horrios e supervisores. Um dia, enquanto desbravava a floresta a procura de bambu, ele viu uma estranha e brilhante luz, era algo incomum mas ele no se amedrontou, na verdade se sentiu atrado por ela, que emanava uma sensao de paz, curioso seguiu sua intuio e foi rumo a claridade, que vinha de uma moita de bambu escondida entre os pinheiros. Normalmente ele ficaria espantado pelo fato daquela moita nascer numa local que ele no esperaria, uma vez que sua experincia lhe permitia saber com muita preciso os locais onde bambus podiam crescer, mas no momento a luz dominava seus pensamentos. O brilho parecia irradiar de dentro de um ramo fino de uma das moitas maiores, movido por uma fora irresistvel e inexplicvel, o homem caminhou at o bambu e num golpe de seu machado o decepou pela metade. Era uma ddiva dos deuses, ele pensou, uma linda menininha, um beb em miniatura, de cerca de 10 centmetros de comprimento estava acomodada no caule do bambu. Ela no se assustara, na verdade ria e transbordava alegria. Ela a tomou na palma da mo e deixou a floresta rumo a sua casa, ansioso por mostrar seu achado a sua esposa. Sua companheira ficou to fascinada quanto ele pela beleza da menininha, e considerou tambm como sendo uma ddiva divina, deixando cair lgrimas de emoo. Ela tomou a criana de seu marido, que com sua falta de jeito tentava segurar a menina como um saco de arroz, e a acomodou confortavelmente em seu colo pensando no que deveria fazer, e concordaram que deviam cri-la como uma filha.

No dia seguinte o taketori voltou ao local onde achara a criana, talvez encontrasse uma outra. Mas nada mais havia, nem a luz, nem o bambu e nem sequer aquela misteriosa moita. Tambm no havia sinais de que algum a houvesse extrado, as nicas pegadas e marcas humanas eram as dele. "Misterioso!" Ele pensou, mas o mais incrvel ainda foi quando ao vasculhar o cho achou uma pequena pepita de ouro! Ela a recolheu e de repente viu mais uma, e outra e outra. Colheu vrias pequenas pedras de ouro at por fim recolher a ltima, a maior de todas. Como o homem no era ambicioso, apenas pensava ao voltar para casa que, com sua sacola cheia de ouro, "Agora podiam criar a menina adequadamente.". Sua esposa e ele ficaram eufricos e no dia seguinte ele voltou ao mesmo local, onde sem saber muito o que esperar, achou mais pedrinhas de ouro de vrios tamanhos. Em apenas dois dias, com a riqueza que achara na floresta, ele se tornou o homem mais rico daquela parte do pas. O casal decidiu chamar a menina de Kaguyahime, hime significa princesa. Ela cresceu to rpido quanto um bambu brota do solo e em apenas trs meses ela j era uma jovem e linda mulher. Sua beleza era to radiante que seu corpo chegava a brilhar e sua simples presena era capaz de transmitir paz, sade e alegria. Mesmo seus pais tendo muito cuidado com ela, sempre resguardando-a a sua prpria casa, as poucas pessoas que a avistaram fizeram sua fama correr longe, e logo 5 prncipes chegaram a casa do riqussimo cortador de bambu para cortejar a dama. Os 5 no eram prncipes comuns. Por semanas a fama de Kaguyahime atraiu muitos pretendentes e houve na cidade muitos duelos e violncia at que a razo prevalecesse e se institussem competies seletivas. Esses prncipes eram vencedores de uma srie de provas tendo dado mostras de sua coragem, capacidade, graa e inteligncia. Foram selecionados entre centenas de pretendentes, viajaram dias em duros caminhos para a cidade do cortador de bambu e indo direto a sua residncia, oferecendo-lhe jias, especiarias e demais presentes e riquezas. Mas o homem disse-lhes que de nada adiantariam tais presentes e no os aceitou, pois Kaguyahime s se casaria se, e com quem, ela quisesse. Embora a princesa no quisesse se casar os prncipes aceitaram isto como mais um desafio, e permaneceram persistentemente em frente a sua casa at que ele se dignasse a v-los. Passou-se o vero e o outono, e os prncipes no desistiram de seu intento, suportaram firmemente a espera desafiando os elementos da natureza, frio, calor, chuvas, vento e insetos. Kaguyahime era inflexvel, e no seria vencida por essas demonstraes de persistncia, mas o pai da moa, apesar de compartilhar de seu desejo de que no se casa-se, apiedou-se dos prncipes. O velho e rico casal tambm no queria o casamento da princesa pois temia a solido caso ela fosse embora, mas com a firmeza de propsito dos 5 prncipes, o taketori temia que o resultado fosse a morte de um ou mais deles, devido a aproximao do inverno, e com esse argumento convenceu a filha que o melhor meio de dispens-los seria uma conceder-lhes uma audincia e apresentar-lhes uma recusa formal.

A princesa aceitou apenas devido ao desejo e humanitarismo do pai, pois no queria sequer ver nenhum dos prncipes, e estabeleceu ento entrevist-los em separado atribuindo a cada um deles um desafio extremamente difcil, na tentativa de dispenslos definitivamente. - Ao Primeiro incumbiu de trazer um vaso especial, que escondido numa montanha do continente asitico, pertencera ao prprio Buda. - Ao Segundo que viajasse at o Monte Horai no extremo leste e trouxesse um ramo de uma rvore do pico da montanha, que no era uma rvore comum pois seu tronco era de ouro, os galhos de prata e suas frutas de pedras preciosas. - O Terceiro deveria viajar at a China e trazer a pele do Rato de Fogo, que tinha propriedades mgicas e era insensvel ao calor. - O Quarto teria que obter uma jia que refletia 5 cores, de acordo com a luz que recebesse, mas estava em poder de um drago que devorava qualquer um que o perturbasse. - Ao Quinto, deveria achar um pssaro que tinha no estmago, uma concha especial. O pai da princesa observou cuidadosamente cada um dos prncipes e percebeu que embora todos tenham sentido desagrado devido a enorme dificuldade dos desafios, no demonstraram fraqueza, aceitando-o e jurando cumpr-lo. E cada um voltou para seu prprio reino. O Primeiro prncipe sabia das dificuldades que encontraria ao viajar para o continente, para a terra do Buda. Procurar a vasilha de cermica em inmeras montanhas, correr vrios riscos em territrio desconhecido. E mesmo que encontrasse o artefato, o que j lhe parecia impossvel, como seria possvel convencer o proprietrio a lhe entreg-lo? No seria muito caro? Ou exigiria mais que dinheiro? Com tudo isso em mente, no estava disposto j de antemo a realizar a viagem, passando ento anos sem fazer nenhum esforo no sentido de completar a incumbncia que Kaguyahime lhe deu. Um dia ento foi a um templo budista prximo a seu castelo, e percebeu que praticamente todos os vasos e vasilhames budistas eram iguais. Convenceu o monge do templo a lhe vender um dos maiores e mais antigos e foi lev-lo para a princesa. O Taketori o examinou primeiro, ficando impressionado com a rapidez com que ele cumprira a misso, e levou o artefato para sua princesa. Esta por sua vez passou alguns instantes a investigar o objeto para atestar sua legitimidade e concluiu que era uma farsa, atirando-o ao cho e partindo-lhe em vrios pedaos. Recusando-se a ver o prncipe, ordenou que um dos criados o entregasse os pedaos como sinal de desaprovao. Consciente de sua mentira, o prncipe no disse uma s palavra, recolheu os cacos e partiu.

O segundo prncipe tambm reconheceu a futilidade do desejo da princesa, e no se disporia a arriscar a prpria vida e dispender recursos para viajar para o leste. Decidiu ento promover outra fraude, mas no seu caso, bem mais elaborada. Contratou os melhores joalheiros e artesos do seu reino e de vrios outros, dando-lhes a tarefa de produzir uma falsificao do ramo da rvore de ouro que a princesa queria. A tarefa consumiu muitos anos mas por fim, ao ficar pronto, era to perfeita e bela que poderia iludir qualquer um. O cortador de bambu ficou impressionado, prestando todo o respeito e reverncia ao prncipe. Mesmo a princesa no foi capaz de detectar a fraude tamanha foi a percia dos artfices, e o prncipe estava prestes a conquistar seu objetivo. Mas um mensageiro veio at a casa da princesa procurando o prncipe para lhe entregar uma mensagem. O cortador de bambu, anfitrio prestativo, se disps a l-la e era uma nota de cobrana dos joalheiros de uma certa provncia que reclamavam ainda no ter recebido o pagamento pela construo do ramo. Assim a fraude foi desmascarada e o segundo prncipe foi tambm desclassificado. O terceiro prncipe assim como os outros, no se prontificou a empenhar uma jornada em busca da relquia exigida pela princesa, mas sim contratou um capito para que com seu navio e tripulao o procurasse para ele. Sabiamente pagou metade adiantado e pagaria o restante apenas quando estivesse de posse da pele do Rato de Fogo. Aps anos o capito voltou com a encomenda. Narrou ao prncipe as incrveis dificuldade de sua jornada, dos terrveis viles e monstros que ele e sua tripulao enfrentaram e que muitos de seus homens pereceram durante a jornada. O prncipe pagou o restante com acrscimo, para compensar as famlias dos homens que morreram. O taketori que j enfrentara duas tentativas de enganao, recebeu o prncipe em alerta, no querendo ser tripudiado pela terceira vez. O pretendente iniciou sua estria fazendo suas as palavras do capito que contratara, como tendo enfrentado todos os perigos pessoalmente, mas o pai apenas quis ver e testar a pele do Rato de Fogo. Ele a colocou num pequeno incinerador e a incendiou, ela deveria ser insensvel as chamas mas no foi o que aconteceu, queimou rapidamente sendo destruda e exalando um pssimo odor. O prncipe ficou revoltado, e deixou escapar numa exclamao sua revolta contra o capito que o havia enganado, deixando claro que no fora sequer ele que tinha empreendido a jornada. Com isso, o terceiro pretendente foi tambm eliminado. O quarto prncipe estava muito ocupado com o seu reino para despender uma jornada em busca da jia multicolorida que estava em posse de um drago do mar. Ele temia que sua ausncia prolongada agravasse os problemas de seu pas e que se morresse na empreitada, seu reino entraria em colapso. Ento enviou alguns de seus sditos que

garantiam serem capazes de realizar a misso, ele os proveu com muitos recursos e dinheiro e esperou durante anos. Mas esse sditos tambm no foram, como no caso do terceiro prncipe, devidamente honestos. No queriam arriscar suas vidas contra um monstro que provavelmente os mataria e gastaram todo o dinheiro com farras. Percebendo-se trado, o prncipe ficou furioso, mas o desafio o subiu a cabea e ele afirmou que se algum tivesse que matar o drago, teria que ser ele mesmo, ento por fim partiu na jornada. Com seu navio e seu capito, navegou por locais onde havia relatos de um terrvel drago que destrua as embarcaes, desafiando o medo de sua tripulao e do prprio capito mas prosseguindo corajosamente. Um dia uma terrvel tempestade atingiu seu navio, destruindo-o e lanando-os como nufragos durante anos pelas ilhas dos mares. Muitos marinheiros afirmaram ter visto o drago na tempestade, mas quer fosse verdade ou no, durante esse perodo, o prncipe reconsiderou seus sentimentos por Kaguyahime, considerando um ultraje que ela o incumbisse de um misso to improvvel ou to arriscada, que poderia por fim a sua vida e a segurana e ordem no seu pas. Achou que a princesa no era ento digna de sua admirao e passou a desgost-la. O quinto prncipe, ao contrrio dos outros, desde o princpio assumiu plenamente o desafio, percorrendo o mundo em busca do pssaro que possua uma concha na barriga. Muitas aves morreram nas suas tentativas de encontrar o objeto em seu ventre, ele desenvolveu vrios mtodos de localizar, capturar e examinar os pssaros, mas aps muitos anos concluiu que a misso era impossvel. O prncipe ento, admitiu seu fracasso, e em carta enviou suas desculpas a princesa, declarando-se incapaz de cumprir seu desafio e lamentado. A princesa lhe foi ento compreensiva e aceitou suas apologias. Com a falha de todos os 5 prncipes, Kaguyahime, o taketori e sua esposa viveram tranquilos e felizes por uns tempos, como uma famlia unida. Mas as histrias sobre os feitos e falhas dos prncipes percorreram todo o Japo e chegaram ao ouvidos do imperador. Este ficou ento curioso e fascinado pelos relatos sobre a beleza da princesa, e se interessou em conhec-la, enviando at seu pai ento, um convite para que comparecessem a sede imperial. Mas mesmo o convite do imperador foi rejeitado pela jovem, o que o irritou e o fez enviar ento uma ordem convocativa. Temendo o imperador o cortador de bambu aconselhou filha que obedecesse, mas ela surpreendeu a todos mais uma vez declarando que no obedeceria a ordem e que nem poderia, pois se se afastasse de casa, iria dissolver-se em fumaa e desaparecer. Dessa vez o imperador no se enfureceu devido a justificativa, mas ficou ainda mais interessado, passaram ento a trocar correspondncias frequentemente e acabaram se

tornando amigos, mas sempre adiando um oportunidade de se conhecer, enviando um ao outro poemas e contos. E assim, a famlia do taketori permaneceu em paz por muito anos a mais. Mas chegou uma poca em que Kaguyahime comeou a entrar em depresso, seus pais constantemente a encontravam chorando sob a lua cheia. No princpio hesitaram em perguntar, mas como a situao se agravava cada vez mais insistiram numa explicao. Chorando, ela lhes contou ento que no era deste mundo, era na verdade da Lua. Fora enviada para ser a filha do casal por um motivo que ela ainda no conhecia, mas no seria para sempre. No 15o dia do 8o ms ela voltaria para a Lua. Sua pais ficaram boquiabertos por um tempo, depois passaram a conversar. O taketori relembrou as incrveis circunstncias em que ele a achara, o modo como cresceu rpido, sua extraordinria beleza, mas da a acreditar que ela era da Lua? Ele achava que era demasiado fantstico. Mas ela reiterou que quer eles acreditassem ou no, naquela dita noite ela iria embora para sempre. Ela escreveu ao imperador para se despedir, mas esse no respondeu, decidiu se deslocar at ela pessoalmente para presenciar e quem sabe impedir sua partida. Mobilizou milhares de soldados e partiu com quase toda a sua corte. O dia chegou e Kaguyahime, j mais conformada com seu destino, dizia ao pai que nada poderia impedir sua partida, mesmo o imperador e seu exrcito no seriam capazes de deter as divindades que viriam busc-la. Quando a Lua nasceu, as tropas do imperador simultaneamente chegaram. Ele ordenou que seu soldados cercassem a casa e apontassem suas flechas para o ar. Ento surgiram de uma nuvem no cu, diversas moas voando, to belas quanto Kaguyahime, e todos ficaram paralisados, incapazes de fazer qualquer coisa. Vozes divinas anunciaram que o momento chegara, que era hora de partir. Agradeceram o taketori e sua esposa por terem cuidado bem da princesa que elas lhe enviaram, e que foram mesmo elas tambm que puseram todo o ouro que os enriqueceu, como forma de garantir que eles tivesse uma vida digna e pudessem cri-la. Como recompensa final, permitiram que ela lhes desse um ltimo presente, uma jarro onde continha uma poo que poderia dar vida eterna a quem a bebesse. Mas com toda a tristeza que os pais adotivos da moa sentiam, achavam que viver para sempre sem ela seria um castigo ainda maior do que estavam sofrendo agora, pois perdiam o gosto pela vida. A princesa tentou consol-los, dizendo que sempre que olhassem para a Lua, poderiam v-la. Kaguyahime acendeu aos cus junto com suas semelhantes e sumiu em direo a Lua. O taketori e sua esposa deram ao imperador a poo da imortalidade, mas este tambm se recusou a beb-la, movido pelo mesmo sentimento dos pais da princesa. Ordenou que fosse feito ento um sacrifcio em homenagem a ela, e seus sditos despejaram no monte Fuji a poo, que aos poucos se desfaria em fumaa, rumo aos cus, de onde viera.

E l, na boca da vulco Fujisan, a poo da vida eterna evapora at hoje.

VARIAES SOBRE O MESMO TEMAAlm da verso anterior, h diversos outros desmembramentos da estria em outras verses das mais diversas procedncias, mas os mais marcantes que notei foram os seguintes. Variaes no tamanho da princesinha quando achada no bambu, embora ela sempre caiba na palma da mo. As pepitas de ouro achadas pelo taketori podem aparecer como moedas. As atitudes dos 5 prncipes em suas aventuras variam, embora os defeitos que os levaram a falhar sejam basicamente os mesmos. Por exemplo: Em algumas verses o 4o prncipe, o que deveria tomar a jia de um drago, desenvolve aps seu fracasso um simples mgoa contra a princesa, em outras um autntico dio, chegando as vezes a escrever uma carta a ela expressando sua indignao. O 1o prncipe em algumas verses leva um vaso em perfeito estado de conservao, em outras um vaso deteriorado como forma de simular sua antiguidade. Em certas variaes o imperador prepara uma autntica operao de guerra para deter a partida da princesa, posicionando milhares de soldados e arqueiros, em outras ele apenas assiste passivamente o desenrolar dos fatos. Os motivos da vinda de Kaguyahime terra as vezes so ignorados e por vezes se alega alguma falta que ela teria cometido no mundo da Lua, vindo ento por punio ou por aprendizado. Os detalhes da chegada das entidades lunares a casa do cortador de bambu so to variados que como autor deste trabalho me dei ao direito de interpret-los a minha maneira. A poo mgica as vezes entregue diretamente aos pais adotivos da moa e por outras entregue indiretamente atravs dela. Em outros casos os pais a entregam de imediato ao imperador e em alguns enviado meses depois. A h at uma verso onde ao invs do imperador ordenar seu despejo no monte Fuji, ou pessoalmente ir faz-lo, o prprio taketori em companhia do imperador que o faz. Em algumas verses Kaguyahime, em vias de ser levada para o Lua, tem sua divindade plenamente restaurada, o que a faz perder o sentimentalismo humano em relao a seus pais adotivos, deixando ento de sofrer pela separao embora ainda lhes seja grata. Esse fato, que ela j sabia de antemo, e bastante notvel do ponto de vista do desprendimento as coisas terrenas na transcendncia da matria almejada no Budismo, como veremos na seo a seguir.

ANLISE HERMENUTICAA chegada de Kaguyahime. A estria comea com a vinda da princesa ao mundo, que no se deu de forma normal. A princesa da Lua uma divindade, um ente sobrenatural e sendo assim "nasce" de forma diferente dos mortais. Em praticamente todas as culturas, vir ao mundo de forma no convencional prrequisito bsico para a divindade, ou pelo menos eventos incomuns que ocorram no nascimento. So elementos quase uniformes na maioria dos heris, seres mitolgicos, messias e demais pessoas especiais. Todos os deuses do panteo Xintosta assim como da maioria dos pantees de outras mitologias nascem das mais diversas e inusitadas formas, da parte do corpo de um deus anterior, atravs de uma ao criadora de caractersticas "astesanais", pela destruio ou mutilao de outra divindade, etc. O grandes avatares da humanidade marcam seus nascimentos por eventos incomuns, Sidarta Gautama, o Buda, diz-se ter nascido j com a consistncia de uma criana de 1 ano, j andava e cada vez que seus ps tocavam o cho, um flor brotava. Mahavira, o messias do Jainsmo, tambm Indiano, estivera no ventre de duas mulheres. Jesus Cristo vem da Imaculada Concepo e teve a Estrela de Belm como anunciadora de seu nascimento. Zoroastro, profeta do Zoroastrismo Persa, fora a nica pessoa que nascera rindo ao invs de chorando. J Moiss, embora no esteja envolvido com eventos sobrenaturais a no ser uma profecia que o anunciava, passara ainda como beb, por eventos marcantes, como o genocdio das demais crianas de seu povo, em semelhana a Cristo, e sua deportao em uma cesta, "moiss", atravs do rio Nilo, para que fosse achado por uma nobre. Uma histria semelhante a de Hrcules, o Filho de Zeus com uma mortal, que alm de ter sido lanado a um rio ainda beb, enfrentou e matou duas serpentes com sua fora extraordinria. Esses acontecimentos que resultam em heris rfos so to marcantes que perduram at a atualidade. A maioria dos Super Heris originais do sculo XX se envolve com

algum acontecimento com relao a seus pais. O Super-Homem vem de um outro planeta e tem pais adotivos terrestres, Batman tem os pais assassinados quando criana assim como Robin, o Homem Aranha no s j no tinha pais como seu tio tambm fora morto por um criminoso, a Mulher Maravilha uma semi deusa, Flash tem na morte do irmo mais velho e dolo, o motivo para combater o crime. Todos esse personagens sofrem a perda de entes queridos em conformidade com o momento em que adquirem seus poderes ou uma experincia traumtica. Parece ser um obrigatoriedade que o heri tenha os pais genitores ausentes, como se isso o tornasse menos restrito a um famlia mas sim aberto a toda a comunidade. Voltando as divindades, Kaguyahime tambm possui sua origem incomum e marcada por eventos fantsticos, uma espcie de atestado de sua natureza especial, mas por outro lado no deixa tambm de ser uma espcie de alegoria. Toda criana ao nascer, quando bem vinda, uma "ddiva dos deuses", de beleza to incrvel e capaz de emocionar to intensamente como a princesa nascida de um bambu. Alegorias como essa foram usadas durante muito tempo, e as vezes ainda so, como forma de ocultar das crianas a realidade de sua origem biolgica. Em parte pela mcula associada ao parto, principalmente pelas culturas mais fatalistas, que seria inadequada ao conhecimento infantil. A velha cegonha que o diga. E mesmo as pessoas comuns possuem sua cota de especialidades acontecidas em seus nascimentos, o que resta para os "mortais" para diferenci-los dos outros por exemplo o signo astrolgico, uma espcie de identidade que envolve o momento do nascimento. Ainda que em escala menor, trata-se de um "evento csmico" que ocorre durante a vinda de algum ao mundo. Alm disso, muitos so aqueles que se orgulham de terem nascido em momentos onde coincidentemente tenha ocorrido algum fato extraordinrio, quer seja um evento histrico marcante ou um fenmeno natural como um trovo por exemplo. H um necessidade humana de ser especial, e essa especialidade comea no nascimento, com as divindades no ser diferente. A Princesa Luminosa Como convm a uma divindade, Kaguyahime tambm apresenta desenvolvimento anormal. Seu crescimento se d cerca de 60 vezes mais rpido do que o de uma pessoa comum, no caso 3 meses em conformidade com o tempo de crescimento de um bambu. Ela cercada tambm de uma aura luminosa. Um brilho mstico uma caracterstica corrente nos seres divinos principalmente na cultura oriental, onde o termo "iluminado" mais comum, mas mesmo tambm na ocidental. A aurola dos santos europeus por exemplo mais uma manifestao dessa natureza de "coroao" divina, da mesma forma que os discpulos que atravs de uma vida voltada a espiritualidade, transcendem os limites da matria, como proposto no Budismo. Os seres divinos apresentam nessa aura algumas peculiaridades. Ela por vezes um atestado de sua super vitalidade, na cultura indiana acredita-se no aspecto de prana-

bindu, ou "energia vital", que um tipo de aura que envolve todos os seres vivos. Apenas pessoas especiais podem "ver" essa aura que para a maioria invisvel, de modo por exemplo a identificar apenas pela sua cor ou sua oscilao, qualquer efermidade que esteja a se abater no organismo. Como os seres divinos so imortais ou pelo menos super vitalizados a ponto de jamais adoecerem, compatvel com o nvel de energia de sua aura que ela passe para o espectro visvel mesmo aos olhos da pessoas comuns, tamanha sua intensidade. Como Kaguyahime uma divindade "cada", ou seja, vinda terra, normal que sua luminosidade no seja to intensa como a de seres equivalentes a anjos por exemplo. Na mitologia grega e na hebrica, certos anjos so to brilhantes que ofuscam a viso dos mortais, forando-os a proteger os olhos. Diz-se que se um deus do Olimpo se manifestasse perante um mortal em toda a sua plenitude, o desintegraria tamanha sua emanao de energia. O mesmo ocorre com o deus mesopotmico Jeov, cuja simples aparncia plena desintegra montanhas. A prostrao dos humanos perante esses seres e algo ento natural e inevitvel. Quando adulta Kaguyahime por desenvolver beleza sobre humana, no pde deixar de atrair fortemente pretendentes, ainda que permanecesse de certa forma enclausurada. Mas por se tratar de uma entidade incomum, seus pretendentes tambm no poderiam ser comuns. A princesa da Lua muito mais que uma simples mulher, ou seja, no para qualquer homem, talvez sequer para qualquer mortal. Ela uma espcie de prmio inatingvel no plano terreno. Para disput-la surge ento uma elite, a nata da humanidade, prncipes da mais alta linhagem. Mas logo ficar evidente que mesmo a nobreza humana est abaixo do nvel mnimo de qualidade exigido pela divindade, pois nenhum deles ser capaz de ating-la. Ao proporlhes tarefas virtualmente impossveis, a princesa expressa o smbolo de sua inalcansabilidade para os mortais, a no ser que estes realizem feitos to extraordinrios que merecam considerao super humana, numa alegoria por exemplo ao caminho para iluminao quer seja pela "via dos deuses" xintosta ou pelo caminho do equilbrio budista. A princesa da Lua ento mais uma manifestao do arqutipo da feminilidade sagrada, a Anima para o homem. A unio transcendental tambm uma constante nos caminhos para a iluminao. Ela representa o equilbrio, a fuso entre os opostos, que se reunem numa forma transcendente a realidade como simbolizado pelos aspectos Yin e Yang no TAO. A lenda de um prncipe que busca uma princesa um das mais vivas representaes mticas dessa busca. o smbolo da jornada humana na busca da unio interior, onde a parte masculina corre para conquistar, na verdade ser aceita, pela sua contraparte feminina. As jornadas por terras distantes, lutas contra feras terrveis e busca de tesouros sagrados so as inmeras manifestaes externadas de realidades interiores das quais Todos os seres humanos compartilham. Tanto homens quanto mulheres possuem os dois aspectos

psiqucos, e nesse universo interior existe uma busca mesmo que inconsciente por uma unio interna. Tal busca pela plenitude representa o objetivo mximo da existncia e se manifesta das mais diversas formas possveis. Vivemos essa aventura quando projetamos nossa contraparte, quer seja a Anima feminina ou o Animus masculino, em uma outra pessoa, fundamento do amor romntico, do sentimento de Eros. Infelizmente a nossa pouca capacidade de distinguir nossa projeo inconsciente com a pessoa em quem a projetamos invariavelmente nos leva as terrveis desiluses amorosas. Tambm ocorre quando projetamos tal contraparte numa figura religiosa, fora motriz da dedicao a uma vida de f. E mesmo outros objetivos aparentemente no relacionados, nos atraem por oferecer uma espectativa de plenitude, como se fosse a conquista de algo que nos falta ou a reconquista de algo que nos foi tirado. Os desafios dos prncipes so representaes dessa busca, apresentando peculiaridades como as que veremos a seguir. Os 5 Prncipes Os nmeros exercem fascnio nos seres humanos desde o momento que os fundamentos matemticos se desenvolvem numa cultura. Alguns nmeros parecem possuir conotaes sagradas por natureza. O 1 o Uno. A divindade, transcendncia. O Tao. O 2 a diviso do Uno. No Taosmo os apectos Yin e Yang. A dualidade fundamental do mundo fsico. O 3 a trade, a trindade formada pelo 2 e o Uno. O 4 o quarto aspecto oculto da trade. O Uno tudo, o 2 so os elementos separados, o 4 o que no nem um nem outro. Ou mesmo a consequente subdiviso do 2. A partir da as conotaes numricas comear a se diferenciar de cultura para cultua. Na ocidental, nmeros muito recorrentes principalmente na Cabala Judica so o 7 e o 12. J na cultura oriental h uma recorrncia dos nmeros 5 e 8. No ocidente temos os 7 pecados capitais, 7 notas musicais, 7 cores do arco-ris e etc. Temos os 12 meses do ano, os 12 apstolos, os 12 trabalhos de Hrcules, e devido a sua conotao divina sendo tido pela Cabala como o nmero perfeito, sua degenerao o 13, de conotao maligna. No oriente considera-se apenas 5 notas musicais, escala pentatnica, que pode ser observada se tocarmos apenas as teclas pretas de um piano, o que resulta nas tpicas msicas orientais. Tambm conta-se regularmente 5 cores fundamentais, como a prpria jia que deveria ser resgatada pelo 4o prncipe mostra, tambm so 5 as divindades originais do Xintosmo e os 5 Animais Sagrados chineses.

H tambm os 8 aspectos do trigrama taosta, que influenciam a forma ctupla da mandala, a lenda dos 8 samurais, apesar dos 7 samurais de Kurosawa j influenciados pelo ocidente, os 8 preceitos de Buda, e os 800 mil deuses ltimos do Xintosmo. O 10 ocorre similarmente tanto no oriente quanto ocidente, na forma dos 10 mandamentos e os 10 avatares hindus por exemplo. Mas nesse caso devemos lembrar que o imprevisvel curso da evoluo humana quis que o homo sapiens tivesse 10 dedos, base de todos os sistemas decimais do mundo, que lhe confere alguma importncia como nmero. Os signos do zodaco so 12 tanto na astrologia ocidental quanto oriental, mas este tambm se baseia em aspectos da natureza, como as 12 fases lunares no ciclo de um ano em relao as 4 estaes, e assim a posio zodiacal celeste. O processo de transferncia de 12 signos num ano para 1 signo a cada 12 anos algo que ainda pretendo investigar. Mas o ponto que considero mais notvel relacionado a esse conto o dos Elementos. Desde a Grcia antiga o ocidente convive com a idia filosfica dos 4 elementos Terra, gua, Ar e Fogo, como sendo fundamentos constituintes da matria juntos ou separados. Mas tambm haveria um certo 5o elemento, o ter, a Quintaessncia ou o Esprito dependendo do caso. J na filosofia oriental ocorre a idia clara dos 5 elementos, mas no como constituintes da matria e sim como aspectos integrantes da natureza num ciclo de interdependncia. Ao contrrio dos gregos, os orientais em momento algum privilegiaram um elemento sobre o outro, elevando sua importncia como Tales de Mileto fez com a gua, Anaximnes de Mileto com o Ar, Herclito de feso o Fogo e assim por diante. Nos 5 elementos orientais, o Ar no considerado, e adiciona-se a Madeira e o Metal, sendo ento:

O pentgono externo representa as relaes harmnicas, construtivas, entre os elementos. O pentagrama interno em cinza representa as relaes desarmnicas, destrutivas. O ciclo de relaes harmnicas se baseia na emanao de um elemento de um outro, para quem no est acostumado a certas peculiaridades da cultura oriental pode ser difcil de entender tais relaes de gerao. O METAL gera GUA! Devido a sua capacidade de condensar gotculas lquidas de vapor tal como uma lmina de vidro. Ao mesmo tempo se torna lquido se aquecido, e ainda pode-se considerar o mercrio, um metal lquido. A GUA vital para o nascimento da MADEIRA, os vegetais. Da combusto da MADEIRA nasce o FOGO, das cinzas do FOGO vm TERRA, alm da lava vulcnica que rocha em estado lquido. E da TERRA naturalmente se extra o METAL. J as relaes destruitivas se baseiam no fato da GUA extinguir o FOGO, que derrete o METAL, que como lmina corta a MADEIRA, cujas razes em excesso empobrecem a TERRA, que com sua geografia limita os cursos de GUA e a absorve para as profundezas. Os 5 princpes recebem desafios que esto relacionados claramente com os 5 elementos, e apenas em um essa relao no to explcita. O Primeiro deve resgatar um Vaso de Cermica de dentro de uma Montanha, ambos elementos da TERRA. O Segundo deve procurar uma rvore de ouro e prata, METAL. O Terceiro deve trazer a pele do Rato de FOGO. O Quarto deve obter a jia de um drago atravessando os Mares. GUA. O Quinto deve achar um certo pssaro, o que a princpio no parece se relacionar com um elemento, mas em vrias verses do conto explicitado que ele precisou subir em vrias rvores e penetrar nas mais diversas florestas, fazendo muitas armadilhas de MADEIRA. Embora no tenha encontrado outras verses onde os desafios dos prncipes tenham surgido numa sequncia diferente, no creio que essa ordem seja vital para a fbula. O modelo construtivo dos 5 elementos segue a sucesso TERRA, METAL, GUA, MADEIRA e FOGO. O modelo destrutivo segue a ordem do pentagrama como TERRA, GUA, FOGO, METAL e MADEIRA. Na estria a ordem no seque qualquer uma delas, sendo TERRA, METAL, FOGO, GUA e MADEIRA.

Mas de qualquer modo se a ordem no seque o ciclo construtivo, fatalmente acabar por gerar um ciclo destrutivo, mesmo que apenas o FOGO esteja fora de lugar. Arrisco dizer que caso os desafios tivessem sido vencidos, eles talvez surgissem na ordem construtiva, se estivessem na ordem destrutiva cclica um bom filsofo oriental que ouvisse o conto pela primeira vez, perceberia de imediato que o destino dos prncipes era o fracasso, pois dificilmente tal ordem se apresentaria por acaso. Portanto uma ordem inusitada geraria dvida antecipada no filsofo, principalmente por alterar a posio apenas de um elemento, mas mesma assim possvel inferir logo de imediato, a tendncia ao desequilbrio. Mesmo que essa proposio seja uma especulao bastante ousada, tenho certeza que h algo disso por trs da presena clara dos 5 elementos no conto. Mas no so apenas os Elementos que esto presentes na alegoria dos 5 prncipes, tambm est exposta uma espcie de exemplificao de diferentes tipos de ms condutas, "pecados". Cada um dos pretendentes falha por cometer basicamente um delito especfico. O Primeiro peca pela PREGUIA, no se dispondo a ir cumprir sua misso e optando por uma farsa, mas ele sequer se empenha em realizar uma bem elaborada, pecando tambm nesse intento novamente pela Preguia. O Segundo tambm no estava disposto a partir em busca de seu objetivo, mas investiu numa falsificao bem forjada, que lhe consumiu recursos e tempo. Desse modo sua falha predominante e a prpria FALSIDADE. Alm disso sua fraude foi desmascarada devido a sua falha com relao aos artesos que contratara para produzir o galho fraudulento, ele ainda no quitara seu dbito com os mesmos, talvez tendo mesmo a inteno de engan-los, o que refora seu pecado pela Falsidade. O Terceiro tambm possui um componente de preguia, mas se disps a financiar devidamente uma expedio em busca de seu objeto alvo, recompensando adequadamente os homens que contratara aps lhe trazerem seu encomenda. No entanto ele pecou pela Ingenuidade, Tolice, ao se deixar ludibriar pelos mesmos, sendo ento ele prprio a vtima de um embuste. Sua falha talvez seria a INDOLNCIA em se deixar tripudiar to facilmente. O Quarto partiu para cumprir sua misso com disposio e coragem, mas ao fracassar no foi capaz de admitir sua incapacidade, taxando a misso de impossvel, absurda, pecando ento por ORGULHO e IRA, ao desenvolver um sentimento de revolta contra a princesa. J o Quinto foi o que mais se empenhou no cumprimento de sua tarefa, mas aps anos de rduas tentativas admitiu sua impotncia perante a excessiva dificuldade da misso. Diferente do anterior ele no se revoltou contra a princesa, pedindo-lhe desculpas e sendo em contrapartida perdoado e merecedor de alguma considerao. Se cometeu algum pecado, seria talvez pelo DESNIMO, simbolizado por sua desistncia ainda que perante uma misso quase impossvel.

Se o nmero 7 das notas musicais e das cores do espectro no oriente reduzido para 5, talvez quem sabe o mesmo poderia se dar com o pecados, mas isso apenas uma suposio. Alm do mais existem na realidade 12 notas musicais, na verdade 12 semitons da escala cromtica. Na cultura ocidental a maioria dos semi-tons agrupada em 5 tons e restam 2 semi-tons, resultando nas 7 notas. Na cultura oriental os semi-tons so postos como secundrios, priorizando apenas os 5 tons, razo pela qual sua escala de apenas 5 notas. O nmero 5 ento bastante recorrente na cultura oriental, me lembro de vrios filmes de ao onde ocorriam 5 ninjas, 5 demnios ou 5 monges guerreiros por exemplo. At a atualidade pode nos mostrar isso, principalmente na fartura dos clones de seriados Sentai: Changeman, Maskman Goggle 5, etc. Onde 5 heris vestindo roupas coloridas enfrentam monstros e viles. Existem mais de 20 seriados deste tipo no Japo, o nmero de integrantes sempre 5. Foi preciso uma verso norte-americana, os PowerRangers, para quebrar essa tradio, acrescentando mais um integrante. Os Elementos tambm possuem sua verso ctupla nos 8 trigramas do Taosmo, o Pakua.

No meu ponto de vista os sucedidos com os 5 prncipes no conto de Kaguyahime, o ponto oriental mais tpico de toda a fbula. A Extraterrestre Kaguyahime Sendo uma divindade, a princesa no se submeteu sequer ao imperador do Japo, que seria no mximo um descendente distante de uma divindade, e este tambm no se disps a tentar subjug-la, desenvolvendo ento uma respeitosa e distanciada amizade mantida atravs da troca de correspondncias poticas. Embora a cultura humana esteja repleta de citaes de entidades celestiais, Kaguyahime uma das primeiras citaes da histria a um ente que vivia num outro corpo celeste

especfico, no caso a Lua. Isso configura sua natureza extraterrestre de uma forma mais compatvel com o conceito de ETs da atualidade. Lembremos que na antiguidade, principalmente na Grcia antiga, a Lua era considerada um planeta. Era de qualquer modo um outro mundo alm da Terra. Em outras verses da estria tambm so descritos veculos usados pelas entidades lunares no momento do resgate da princesa. Deslocamentos de veculos a nvel interplanetrio uma caracterstica que s veio a surgir amplamente no imaginrio popular no sculo XX. A origem de alm da Terra outra exigncia de boa parte das divindades. Superam o simples plano fsico ao alcance das pessoas normais. A princesa da Lua ento uma exilada de um plano superior, como o foram Ado e Eva expulsos do den, mas essa condio temporria e seu retorno est previsto, assim como o de Jesus Cristo. Esse estado lhes confere grande superioridade em relao ao terrestre, tanto que nem mesmo os exrcitos do imperador puderam se opor a tais entidades. Na verso que utilizei nesta monografia, tratava-se de deusas, que imobilizaram os soldados com sua simples presena. O combate entre os humanos e os seres celestiais ento impossvel, e a tranquilidade do retorno de Kaguyahime Lua est garantido. Na seguinte forma. O Resgate da Caracterstica Divina Para que pudesse habitar a Terra, Kaguyahime precisou com certeza perder parte de sua divindade, e essa parte precisa ser restaurada para que ela volte a habitar o mundo lunar. Suas conterrneas lunares ento se encarregam de lhe devolver aquilo que lhe foi temporariamente tomado. A princesa, assim como seus pais adotivos, estava sofrendo muito com a expectativa da partida e do retorno Lua, mas um ponto interessante que em algumas variaes da fbula, ela perderia esse sentimento assim que sua natureza defica fosse recuperada. No entanto a princesa no quer que isso acontea, sofrendo tambm com a perspectiva de parar de sofrer, apegada ento ao sofrimento. Essa uma caracterstica notvel do conto, pois se relaciona com o caminho da libertao da roda do sofrimento pregado pelo Budismo. O que mais nos aprisiona nessa roda justamente nosso prprio apego a ela, o Desejo, por acreditarmos que a nica coisa que temos. Enquanto uma mortal, ou no caso semi-deusa, Kaguyahime no faz uma idia clara de como a vida na Lua, ela a ignora e por conseguinte a teme, lamentando deixar seu mundo terreno. Alm disso seu sentimento em relao aos seus pais adotivos algo valioso, e ela considera que seria como que se os desprezasse se parasse de sofrer pela separao. Assim ocorre com todos ns, somos apegados ao mundo material, as outras pessoas e ao prprio sofrimento, por dar-lhe um valor sentimental. um dos pontos dos ensinamentos budistas, e msticos em geral, mais mal interpretados pelos leigos. De que a transcendncia do mundo material representa um certo desprezo pelos que permanecem no mudo de causa e efeito vicioso. Trata-se de uma percepo superficial do ensinamento pois embora o iluminado no mais sofra com os acontecimentos ocorridos entre os mortais ainda lhe resta a Compaixo, ele passa a

senti-los com um apreo ainda mais profundo, um amor incondicional. Mas tal amor universal, no dirigido a um s ponto como geralmente gostamos que seja desde que tal ponto esteja em ns. Esse sentimento arraigado de apego, esse desejo pelas coisas particulares em detrimento das universais, vem da Semente de todo o Mal, a Iluso da Separatividade. Entretanto uma m interpretao deste fenmeno, recorrente em diversas culturas, tambm est presente nessa estria, talvez por distoro temporal ou por m percepo do mesmo. Kaguyahime de fato ao restaurar sua divindade deixa de lado o sofrimento, mas aparenta uma postura de desconsiderao por seus pais adotivos. Esse o momento no qual a estria se torna trgica, devido ao destino dos que ficam, principalmente o Cortador de Bambu, sua esposa, e o Imperador. As divindades lhes oferecem uma recompensa inimaginvel, uma poo de vida eterna, uma oportunidade perseguida pela humanidade h milnios, mas eles simplesmente a desprezam! O taketori chega a dizer que preferia nunca ter achado a princesa e usufrudo de tantas alegrias, do que sentir a dor de perd-la agora, ele despreza no s as riquezas materiais, suas memrias felizes e sua experincia, mas recusa a prpria vida, que simbolizada pela poo da imortalidade. Viver eternamente ento lhe seria insuportvel. E nessa disparidade de sentimentos que se encontra a incrvel dissonncia do drama humano, ao mesmo tempo que existe um apego ao sofrimento, por outro lado existe uma rejeio de se viver com ele, um cruel paradoxo que torna a vida intolervel. Chega-se a desenvolver uma espcie de niilismo em oposio ao objetivo maior da transcendncia para o Nirvana. Se o estgio mximo da felicidade para o Budismo a aniquilao evolutiva dos elementos inferiores, nesse sentimento terminal h um desejo de aniquilao involutiva. Um similar sentimento toma conta do imperador, embora ele no sofra tanto quanto o pai adotivo da princesa, tambm no se acha digno do prmio. Em minha opinio isso representa uma espcie de postura de assumir a prpria incompetncia em se buscar a escapatria da roda do sofrimento, a admisso do fracasso em transcender o mundo fsico. A maioria dos fiis de qualquer religio ignora o exemplo de seus messias, simplesmente dando as costas ao contedo mais nobre e mais profundo de sua mensagem, que o exerccio ou a meta de se atingir o amor incondicional. Essa mensagem est expressa na famosa Regra de Ouro das religies, que se expressa como: "No firais aos outros com o que vos fere" - Budismo "Nenhum de vs sois um crente at devotar pelo prximo o amor que devota a vs mesmos" - Islamismo "No faais aos outros o que se fosse feito a vs, vos causaria dor" - Hindusmo "O que no queres que vos faam, no faais aos outros" - Judasmo

"Ame a teu prximo como a ti mesmo e a Deus sobre todas as coisas" - Cristianismo Todas essas frases dizem a mesma coisa, pregam o amor incondicional e universal. Mas as pessoas no fundo admitem sua incompetncia em segu-las, embora persistam por vezes nos seus sistemas religiosos negligenciando seu ensinamento mximo, e substituindo-o por devoes desmedidas, adorao ou fanatismo. Quando o Imperador ordena que se despeje a poo da imortalidade no Monte Fuji, ele reconhece a grandeza da mesma, mas admite no ser adequado para compartilh-la, rendendo-lhe ento uma homenagem. o que faz a maioria dos fiis, reconhecem a grandiosidade da mensagem mxima, mas assumem que ela no para eles, se recusam ento a beber da poo da vida eterna, prestando-lhe apenas homenagens, representadas pela devoo mecnica a suas figuras religiosas. Essa sim a grande tragdia da vida, o sentimento de se achar incapaz de buscar a iluminao embora se admire-a, a contentao em apenas contempl-la superficialmente apegando-se e identificando-se com o sofrimento. De uma certa forma Kaguyahime tambm uma micro representao da vida de qualquer humano mortal, que segundo o Cristianismo tem sua origem divina procedente do den, no Taosmo procedente do Tao, no Gnosticismo procedente do Absoluto. Entram na esfera terrena onde tm a oportunidade de retornar ao seu estado original, de recuperar sua divindade, mas invariavelmente ficam apegados ao plano fsico, preferindo se agarrar ao desejo e sofrimento, esquecidos de sua fonte sagrada, tal qual Kaguyahime estava agarrada ao mundo terreno, esquecida de sua origem lunar. Num certo sentido, a histria divina de todos ns.

CONCLUSOPela primeira vez em minhas passagens por disciplinas sobre cultura oriental posso dar uma monografia por terminada. As anteriores sobre o Xintosmo e sobre a Guerra do Pacfico ficaram carentes de mais aprofundamento ou mesmo de maior amplitude de investigao devido a falta de tempo. Nesse caso, embora possa-se sem dvida acrescentar muito mais, no creio que o assunto carea de um aprofundamento direto muito maior Creio ter sido capaz de mostrar pelo menos uma coisa, que h muito mais do que comumente se pensa nos contos de fadas e estrias do imaginrio popular. Eles so, tenho certeza, ricas fontes de informao sobre cultura locais ou mesmo sobre uma possvel cultura em comum de toda a espcie humana, alm de revelar tambm aspectos individuais. Muitos elementos valiosos relacionados a mstica humana parecem ser mais facilmente encontrados na cultura oriental, a meu ver por que ela no sofreu um ruptura estrutural to violenta quanto a imposta pelas religies monotestas mesopotmicas. Seus elementos msticos intuitivos, que considero inatos e legtimos no ser humano, permaneceram sem grandes traumas, sem as manchas estigmticas do Pecado Original,

de um pseudo Livre-Arbtrio e de uma perspectiva de Danao Eterna aps um nica chance no plano fsico. Gostaria de ter conseguido dar um exemplo de como se pode usar abordagens filosficas para extrair significados e conceitos no evidentes de uma fbula, percebendo nisso uma riqueza de informaes e smbolos muito mais profunda e abrangente. Tais possibilidades abrem novas portas para o conhecimento, so a prova de que muito do que precisamos e queremos saber pode estar logo abaixo de nossos olhos. Enquanto bilhes de pessoas fazem perguntas tolas sobre o sentida da vida, o segredo do universo ou a verdade divina, ignoram que as respostas JAMAIS sero dadas abertamente de forma literal, como se uma simples frase pudesse resumir um significado to importante. Mas por outro lado, os instrumentos para que se consiga tais respostas esto em todo lugar, disponveis a todos, mas eles so apenas instrumentos, pois a resposta devemos buscar por ns mesmos. Espero tambm ter, logo na introduo, levantado a questo a respeito dos componentes trgicos dos contos populares, marcadamente presentes nas fbulas e canes infantis. Creio que poderia tal caracterstica, ter origem na inconformidade humana tpica com relao ao mundo fsico, que acaba sendo passada para o imaginrio popular ou segundo os Jungianos, para o Insconsciente Coletivo, juntamente com inmeras outras significaes. Mas claro que isso apenas uma suposio pessoal. O objetivo desta monografia foi ento, fazer uma releitura de uma estria clssica tentando extrair seus significados ocultos, dentro do prisma da cultura oriental. Fao votos para que o tenha conseguido.FONTES http://www.historiadomundo.com.br/viking/ http://www.xr.pro.br/default.html