Tribunal de Contas .Tribunal de Contas – 8 – 001 2. Fundamenta§£o. 2.1. A senten§a recorrida

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Tribunal de Contas

Transitado em julgado

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ACRDO N. 19 /2014-3. Seco-PL

Processo n. 5 RO-JRF/2014

Descritores: Alterao e ampliao do probatrio/ Estatuto do

Pessoal Dirigente/ Nomeao em substituio/ Culpa/Multa

aplicvel.

Sumrio:

1. O probatrio deve refletir os factos alegados pelo Requerente e

pelos Demandados com relevncia para a deciso da causa;

2. No tendo a sentena recorrida tido em conta alguns factos

que, de acordo com as diversas solues plausveis em direito

permitidas, poderiam eventualmente conduzir a outra deciso,

justifica-se a alterao e a ampliao da matria de facto; ponto

que do processo constem os respetivos elementos de prova e

que estes no tenham sido impugnados;

3. Tendo a Recorrente, Presidente de Cmara, mantido por mais

de 60 dias uma funcionria para, em regime de substituio e por

vacatura do lugar, exercer o cargo de Chefe de Diviso daquela

edilidade, sem que, para tanto, tivesse diligenciado no sentido de

ordenar a abertura do correspondente procedimento concursal,

quando foi a prpria que nomeou essa funcionria e assinou o

Aviso de publicao dessa nomeao, com referncia Lei e ao

artigo que impunha tal atuao - ao artigo 27. da Lei n. 2/2004,

de 15/01, aplicvel ex vi do artigo 1. do D.L. 104/2006, de 07/06

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temos necessariamente que concluir que aquela no procedeu

com o cuidado a que, segundo as circunstncias, estava obrigada

e de que era capaz;

4. Atuou, por isso, com um grau de culpa negligente relativamente

elevado;

5. No se justifica, por isso, a dispensa da aplicao da multa,

nos termos do artigo 74. do Cdigo Penal, nem a aplicao de

uma multa menor da que foi aplicada em 1. instncia, ou seja, de

20 UC (artigo 67., n.s 2 e 3, da LOPTC).

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Processo n. 5 RO-JRF/2014

1. Relatrio.

1.1. Por sentena de 13 de Maio de 2014, foi a Demandada Vanda

Cristina Lopes Nunes, na qualidade de Presidente da Cmara

Municipal de Alpiara entre Dezembro de 2008 e Outubro de 2009,

condenada pela prtica da infrao financeira sancionatria p.p. no

artigo 65., ns 1, alnea b), 2 e 5, da LOPTC, por ter violado o disposto

no artigo 27., n. 3 do Estatuto do Pessoal Dirigente, aprovado pela Lei

n. 2/2004, de 15 de Janeiro, aplicvel Administrao Local ex vi do

artigo 1. do D.L. n. 104/2006, de 7 de Junho, bem como o disposto no

artigo 42., n. 6, alnea a) da LEO, e alnea d) do ponto 2.3.4.2 do

POCAL, aprovado pelo D.L. n. 54-A/99, de 22 de Fevereiro, na multa

de 2.040,00 euros.

1.2. Inconformada com a referida sentena, veio a Recorrente da

mesma interpor recurso, tendo concluindo como se segue:

A - O Tribunal, em 1. instncia, no se pronunciou sobre o pedido

subsidirio da Recorrente de dispensa de pena, ou seja, no conheceu de

uma questo que deveria ter conhecido o que, nos termos do artigo 379., n.

1, alnea c), do Cdigo de Processo Penal, aplicvel ex vi do artigo 80.,

alnea c), da LOPTC, determina a nulidade da Sentena recorrida.

B A deciso da matria de facto no contempla uma seleo de todos os

factos relevantes para a deciso da causa, pelo que dever ser:

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- ampliada a deciso da matria de facto, passando a prever-se o

seguinte facto: conforme resulta do Aviso n. 4810/2013, publicado no Dirio

da Repblica, 2. Srie, n. 69, de 9 de Abril de 2013, foi j publicitada a

abertura de procedimento concursal para provimento, em regime de

comisso de servio, do seguinte cargo de direo intermdia de 2. grau:

Chefe de Diviso Municipal Administrativa e Financeira,

- alterado o facto 8. da factualidade apurada, passando a a dizer-se o

seguinte: Maria do Cu Rodrigues Duarte Augusto exerceu funes desde 1

de Novembro de 2008 at, pelo menos, o decurso do ano de 2013.

C O ilcito praticado pela Recorrente compreende o processamento dos

vencimentos da funcionria Maria do Cu Rodrigues Duarte Augusto apenas

no perodo compreendido entre Janeiro e Outubro de 2009 cf. factos 1. e

11. da factualidade dada como provada nos presentes autos pelo que

dever ser revogada a deciso constante na p. 7 da Sentena recorrida que

imputou Recorrente a prtica de um ilcito pelo processamento dos

vencimentos dessa funcionria entre Janeiro de 2009 e Maro de 2010.

D - A ilicitude em causa manifestamente diminuda, j que a atuao da

Recorrente no foi suscetvel de um impacto financeiro no Municpio de

Alpiara: havia uma necessidade de o Municpio de Alpiara ter algum a

exercer esse cargo (prova disso que a funcionria em causa permaneceu a

exercer as mesmas funes, pelo menos, at 2013) e a remunerao que foi

autorizada corresponde a um valor tabelado, pelo que seria sempre aplicvel

a qualquer pessoa que fosse exercer o mesmo cargo.

E Por outro lado, entende a Recorrente que todas as circunstncias que

rodearam o exerccio das suas funes enquanto Presidente da Cmara do

Municpio de Alpiara so fundamentos adequados e suficientes para

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afastarem qualquer culpa da sua parte pela realizao do ilcito em causa,

pois:

- A Recorrente iniciou o desempenho do cargo de Presidente da Cmara do

Municpio de Alpiara em condies particularmente inesperadas (na

sequncia da suspenso do mandato do Presidente Dr. Joaquim Rosa Narra,

conforme resulta do facto apurado em 1.);

- a Recorrente exerceu essas funes durante um curto perodo de tempo

(11 meses) tal como resulta do facto 1. da factualidade apurada e,

durante esse perodo, esteve completamente assoberbada com a quantidade

de trabalho que lhe competia;

- os servios do Municpio de Alpiara competentes nesta matria nunca

informaram a Recorrente da necessidade de promover a abertura de

procedimento concursal em violao, portanto, dos deveres de informao

que sobre estes impendem por fora, nomeadamente, do artigo 71. da Lei

n. 169/99, de 18 de Setembro, pelo que a Recorrente autorizou o

processamento dos vencimentos em causa convicta que estes estavam em

pleno cumprimento da legalidade imposta;

F A Recorrente no pode ser culpabilizada pelas condies que se

verificaram de exerccio das suas funes j que estas, como se

compreender, no estavam na disposio ou controlo da Recorrente.

G Nem admissvel assacar um juzo de incompetncia ou incapacidade

da Recorrente para o exerccio de funes de Presidente da Cmara para

fundamentar a existncia de uma culpa negligente motivado apenas por

um nico incumprimento de prazo legal aplicvel.

H Caso assim no se entenda, a Recorrente dever ser censurada apenas

a ttulo de negligncia (mantendo-se, assim, o decidido na Sentena

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recorrida a este respeito), considerando-se ainda que o grau da sua culpa foi

levssima ou, quando muito leve, por fora do exposto supra.

I Entendendo-se que a sua conduta foi negligente, dever a Recorrente ser

dispensada de aplicao da multa, por fora da verificao dos pressupostos

constantes no artigo 74. do Cdigo Penal.

J Com efeito, resulta do exposto no ponto IV das alegaes de recurso que

a ilicitude e a culpa (a existir) da Recorrente foram diminudas, tendo,

inclusivamente, este Tribunal considerado noutros processos alguns dos

fundamentos invocados pela Recorrente para a aplicao da dispensa da

pena, a saber:

- atuao no convencimento de que a legalidade dos procedimentos

adotados estava devidamente acautelada, e que no estava a desrespeitar a

lei (cf. Sentena n. 15/2013, proferida em 25/11/2013 e referente ao proc.

n. 9 JRF/2013);

- a quantidade de trabalho, no sentido de impossibilitar adquirir um

conhecimento profundo e completo de todas as pastas e processos que lhes

eram apresentados (cf. Sentena n. 4/2011, proferida em 08/02/2011 e

referente ao proc. n. 3 JRF/2010);

- ausncia de comunicao dos servios competentes sobre a ilegalidade

das despesas (cf. Sentena n. 6/2008, proferida em 09/12/2008 e referente

ao proc. n. 1 JRF/2007).

K Para alm disso, a atuao da Recorrente no foi suscetvel de causar

qualquer dano ao Municpio de Alpiara (veja-se que a inexistncia de dano

a reparar tambm j foi considerada por este Tribunal como fundamento para

a aplicao da dispensa de pena, (cf. Sentena n. 15/2013, proferida em

25/11/2013, referente ao proc. n. 9 JFR/2013). Mesmo que assim se no

entendesse, tendo sido promovido o necessrio procedimento concursal, o

eventual dano em causa j foi reparado.