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Questao de Partido

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  • 2 Edio (eletrnica)

    Questes de Partido Atualidade do partido leninista no Brasil

    Organizador

    Walter Sorrentino

    Edio Elaine Guimares e Oswaldo Napoleo Alves

    Reviso

    Maria Luclia Ruy

    Diagramao e Programao Livro Eletrnico

    Eduardo Martins

    Capa Cludio Gonzalez

    Livro Eletrnico Maio/2006

  • NDICE

    PREFCIO DA 2 EDIO (ELETRNICA) .................................................5 APRESENTAO A 1 EDIO (IMPRESSA) ABRIL DE 2004 ....................8

    Parte 1 QUANDO PENSO NO FUTURO NO ESQUEO MEU PASSADO" ...............15 DIGRESSO... SOMOS MARXISTAS-LENINISTAS. ..................................17 PARTIDO E ORGANIZAO.....................................................................18 ESTRUTURAO PARTIDRIA ................................................................21 DIGRESSO... AOS 30 ANOS DA GUERRILHA DO ARAGUAIA ..................26 FLUTUAO E VIDA MILITANTE NA BASE...............................................27 OUSAR CRESCER NA CAMPANHA ELEITORAL..........................................31 DIGRESSO... CINCIA VIVA, EM PERMANENTE DESENVOLVIMENTO DIALTICO.............................................................................................35 ESTRUTURAO E AO POLTICA DE MASSAS ...................................38 DIGRESSO...AO QUE SE FOI, MAS EST PRESENTE...............................42 A QUESTO DE PARTIDO E SUA ATUALIZAO ......................................47 DIGRESSO... O NOVO E O VELHO.........................................................52 A IDEOLOGIA COMO VALOR FUNDANTE DO PC.......................................53 A QUESTO IDEOLGICA E A PERSPECTIVA MILITANTE ........................58 O TEMA PARTIDO NA 9 CONFERNCIA NACIONAL................................63 POLTICA DE QUADROS PARA UM PROJETO POLTICO AMPLIADO........67 QUANTOS SOMOS OS COMUNISTAS NO PAS? .......................................71 IMPULSOS E GARGALOS DA VIDA PARTIDRIA .....................................75 PARTIDO DE QUADROS E PARTIDO DE MASSAS.....................................79 PENSAMENTO DE PARTIDO EM CONSONNCIA COM O PENSAMENTO POLTICO...............................................................................................91 LIES DE UNIDADE..............................................................................96 A LNIN, AO LENINISMO .....................................................................100 COMITS MUNICIPAIS: ELO DECISIVO ................................................104 COMITS ESTADUAIS: CONSOLIDAO, COESO, RENOVAO ..........110

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  • UMA MILITNCIA DE NOSSO TEMPO....................................................120 O PARTIDO E SUAS FORMAS ORGANIZATIVAS DE BASE.......................132 MELHORAR A INTERVENO EM NOSSA AO DE MASSAS ..................143 2 ENCONTRO NACIONAL DO PCdoB SOBRE QUESTES DE PARTIDO ..148 GRANDES ACONTECIMENTOS DOS NOVOS TEMPOS ............................154 CONSOLIDAR A DEMOCRACIA INTERNA...............................................164 CONFLITOS DA VIDA PARTIDRIA.......................................................169 DIGRESSO... DE LNIN, EM 1919, EM O ESQUERDISMO, DOENA INFANTIL DO COMUNISMO ..................................................................173 NOVO ESTATUTO PARA UM PCdoB FORTE, DISCIPLINADO, COMBATIVO E TRANSFORMADOR................................................................................174

    Parte 2 ESTRATGIA E TTICA DO PCdoB E O NOVO PROJETO PARA O BRASIL RENATO RABELO ..................................................................................184 FORA DECISIVA DA REVOLUO E DA CONSTRUO DO SOCIALISMO JOO AMAZONAS * ..............................................................................193

    QUAL PARTIDO? LORETA VALADARES* ..........................................................................203

    MARX, ENGELS E LNIN JOS CARLOS RUY*..............................................................................229

    GRAMSCI, LNIN E A QUESTO DA HEGEMONIA AUGUSTO C. BUONICORE* ...................................................................240

    INTERVENO NO III SEMINRIO POLTICO LATINO-AMERICANO E EUROPEU (SANTIAGO, CHILE 9 A 11 DE JANEIRO DE 2004) JOS REINALDO CARVALHO* ...............................................................251

    O PAPEL DOS MOVIMENTOS NO "ASSALTO AOS CUS" J MORAES* ........................................................................................262

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  • Prefcio da 2 edio (eletrnica)

    ai agora disponibilizado em edio eletrnica o livro Questes de Partido, que me coube organizar. fruto

    da tecnologia, que permitir que estas idias cheguem a um pblico maior e, se necessrio, o livro poder ser impresso segundo a demanda.

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    Ao reler os textos, o primeiro impulso purg-los em algo, acrescentar outras tantas contribuies. Afinal, avanamos muito nesse debate no PCdoB ao longo dos ltimos anos, culminando com o 11 Congresso. Julgo mesmo que esse Congresso coroou o processo de renovao das concepes e prticas de partido, to necessrio, cuja sntese mais elevada foi o novo Estatuto. Nele se consagra um conjunto renovado de preceitos, que fazem um aggiornamento da questo de Partido, fechando um ciclo aberto no 8 Congresso em 1992. Como dizia na apresentao da 1 edio, s o debate e a apropriao coletiva do desafio poderiam nos levar a essa sntese. Com isso, extramos de fato conseqncias para o tema Partido e chegamos a novas concluses polticas sobre ele. Por isso, a re-leitura destes textos precisa se referenciar nos documentos posteriores 1 edio. Destaco trs aspectos relacionados a eles. Um, de carter estratgico para a reflexo sobre o PC da atualidade, o do 2 Encontro Nacional sobre questes de Partido sobre o Proletariado brasileiro. Nele foi reposta a centralidade do proletariado no projeto poltico pelo qual luta o Partido, renovando o arsenal conceitual sobre o proletariado contemporneo.

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  • O segundo, a resoluo poltica do 11 Congresso, desvelando uma estratgia da luta pela superao do neoliberalismo e a aproximao dos objetivos de transio ao socialismo. Destaque-se nisso a centralidade da questo nacional como o fator articulador das demandas democrticas e sociais no rumo de um desenvolvimento democrtico e soberano. a esse projeto que precisa responder a questo do PC na atualidade, adquirindo os papis, funes, feies e formas organizativas em funcionalidade com ele, particularmente seu carter de corrente patritica e socialista como fator central de sua identidade perante os trabalhadores e o povo. o que d ensejo ao desenvolvimento das noes de luta pela hegemonia e originalidade nas condies de cada pas. O terceiro, a concluso estratgica a que chegamos nesse mesmo Congresso sobre o tema Partido. A idia de que nas condies atuais da luta de classes no Brasil e no mundo, de defensiva estratgica, de formidveis presses polticas e ideolgicas, a questo de perder-se ou afirmar-se como corrente comunista exige uma nova noo do papel, carter e centralidade dos quadros partidrios. Tal concluso subordinou a si a prpria noo de Partido Comunista de massas, nos termos em que sempre foi afirmada: quanto mais amplo e extenso o PC - e ele precisa ser cada vez mais amplo e extenso em nosso pas - mais se necessita de direes slidas e coesas, papel dos quadros partidrios, unidas em torno de um nico centro de direo e uma nica organizao. Citei trs vezes o termo estratgico no gratuitamente. Mas porque o ciclo de renovao das concepes e prticas de Partido s poderia vencer essa etapa definindo com maior preciso o projeto estratgico do PCdoB. O Partido e sua construo se volta essencialmente a esse projeto. Vivemos um tempo muito modificado em relao quele em que foi elaborada a teoria de Partido. Permanecer no receiturio moldado pela experincia estratgica do sculo

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  • XX, notadamente a experincia bolchevique, tomando a teoria como modelo organizativo fixo, tornar os PCs disfuncionais luta atual. A conseqncia central esta: a noo terica e prtica de Partido Comunista tambm est em evoluo, sujeita a pesquisa e desenvolvimento terico e prtico, para responder aos problemas de nosso tempo e de nossa gente. A re-publicao destes textos serve ento como um referencial do percurso, indagaes e respostas desenvolvidas intensivamente nestes ltimos anos. E de fundamentao, porque, aberta esta nova etapa, trata-se agora de dar desenvolvimento nova compreenso, sobretudo na prtica de construo do Partido, alicerada no novo Estatuto. A atual edio eletrnica manteve todos os textos anteriores, com reviso de erros da 1 edio. Foi corrigido um lamentvel equvoco editorial: a ausncia de artigo de Jos Reinaldo de Carvalho, anunciado no ndice e suprimido da 1 edio, pelo que peo desculpas publicamente. Outros artigos meus, posteriores 1 edio foram acrescentados: sobre a estruturao em vinculao com a ao poltica de massas e a participao em governos; sobre o significado do 2 Encontro sobre o Proletariado brasileiro; e sobre o Frum Social Mundial de janeiro de 2005.

    Agradeo mais uma vez a todos que tornaram possvel este esforo, assumindo decerto as responsabilidades pelas lacunas e insuficincias.

    Walter Sorrentino (organizador) Maio/2006

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  • Apresentao 1 Edio (impressa)

    Abril de 2004

    presente livro coloca ao alcance dos leitores uma coletnea de textos de estimulo reflexo e ao debate sobre as questes do Partido Comunista na

    atualidade. A prpria definio do tema como objeto de estudo passvel de debate e isso est presente ao longo do prprio livro. Tema que, como argumento nos artigos, foi relegado a um segundo plano e que, entretanto, tem sua prpria autonomia e universalidade, porquanto confluncia de reflexes tericas e ideolgicas, polticas estratgicas e tticas, sociolgicas e empricas, alm de sua dimenso propriamente organizativa e de ao de massas.

    O

    O livro vai organizado conforme a elaborao dos ltimos anos no PCdoB, principalmente desde o 10o Congresso, em 2001. Na verdade, o tema est presente como preocupao desde o 8o Congresso, em 1992; beneficiou-se do enorme avano da luta e conscincia crtica, no mundo e no Brasil, notadamente a chance excepcional aberta para a esquerda brasileira com a vitria de Lula em 2002.

    Pretendeu-se dar um passo adiante na extrao de conseqncia desse debate, colocado agora diante de nova realidade, mais propcia construo da fora avanada - um partido poltico transformador, no caso o PCdoB. pice desse esforo foi ter pautado o tema na 9a Conferncia, em junho de 2003, e no 1 Encontro Nacional sobre Questes de Partido, em maro de 2004.

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  • Como preparao desse esforo, a imprensa partidria deu ensejo publicao de uma srie de artigos - agora compilados e revisados -, para sustentar essa elaborao. Na coluna Partido Vivo (do portal Vermelho, desde 2002) pretendi, conforme as palavras de apresentao, "tratar de questes tericas e prticas da estruturao partidria, alimentando-se do cotidiano, mas tambm dos fundamentos e do debate que se trava no interior da esquerda no Brasil e no mundo". A coluna tinha em vista "dar corpo ao debate [em particular] sobre poltica de organizao, como parte do esforo de renovao do pensamento e prtica de Partido".

    Espero que se concorde com o fato de estes dois anos terem sido prdigos em examinar mais a fundo tal renovao. De todo modo, trata-se de um esforo em curso, que pretende ser beneficiado com a publicao deste livro. Porque isso envolve necessariamente o concurso de uma gama mais ampla de comunistas na reflexo, e o confronto destas idias com as experincias da esquerda em todo o mundo e no Brasil. Enfim, nada mais justifica o tema no ter seu status reconhecido como indispensvel na atualidade, alvo de esforos de crtica da experincia da esquerda ao longo do sculo XX, em ligao com os momentosos problemas das respostas tericas e prticas exigidas pelo movimento na atualidade. Espero que esse intento seja alcanado, como reafirmao, uma vez mais, de que sem uma fora poltica de vanguarda, que represente de modo independente os interesses imediatos e futuros do proletariado, no h transformao social exeqvel.

    Na esteira da 9a Conferncia Nacional, o 1o Encontro Nacional sobre Questes de Partido permitiu uma sntese que guia as reflexes necessrias, presentes tambm ao longo dos artigos ora publicados. Tal sntese gira em torno de trs eixos de investigao e prxis.

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  • O primeiro, trata da hegemonia. Partido de ao poltica transformadora, que no recusa os desafios do cotidiano postos pela anlise concreta da situao concreta nos marcos da correlao real de foras em pugna, exige ser guiado pelo pensamento estratgico, dado pelo seu projeto programtico, socialista. Isso, nos marcos da atual situao da luta de classes no Brasil e no mundo, e como corolrio desse pensamento estratgico, indica a construo da hegemonia das foras avanadas no processo da luta transformadora, norteando o papel, as formas, funes e feies do Partido Comunista que se exige na atualidade. Hegemonia o centro da estratgia. tema que exige apropriao crtica, de Lnin a Gramsci, e outros pensadores marxistas. O conceito de hegemonia compreendido como o alcance real de direo poltica sobre o conjunto da luta nacional, prevalncia da vontade e projeto poltico dos trabalhadores, expressa em fora poltica, de massas, eleitoral, social e cultural.

    O segundo, o tema da originalidade do papel, formas, funes e feies adquiridas pelo partido dos comunistas, levando em conta as caractersticas do tempo contemporneo e da nossa formao econmica, social, poltica e cultural. O Brasil, como grande nao, com rica histria e tradies de luta, com um povo uno e laborioso, h de fornecer elementos prprios que permitam o desenvolvimento do leninismo, enquanto teoria clssica do partido revolucionrio do proletariado. Esse o esforo antidogmtico, que recusa tratar o tema apenas como tema ideolgico, e deix-lo confinado aos marcos de um receiturio organizativo. H princpios para a organizao do Partido, no h modelo engessado. o que nos indica caminho para uma anlise histrico-crtica, contextualizada, da elaborao leninista, como fermento para a busca de caminhos originais, em funcionalidade com a experincia e tradio dos trabalhadores brasileiros. Esforo que se beneficiar tambm do estudo de uma srie de experincias, pouco conhecidas por ns, de influentes

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  • partidos comunistas de massas em diversos continentes, ao longo do sculo XX.

    O terceiro, o Partido Comunista de massas, enquanto formulao propriamente organizativa. O tema novo apenas para ns, sendo j tradio para PCs de outras plagas e outros tempos. preciso examinar criticamente essa tradio, base para encontrar formulaes prprias para ns na atualidade, porque de ns se exige uma formao organizativa estruturada, extensa e numerosa, como parte dos caminhos para uma luta de fato transformadora.

    Na presente publicao encontram-se pistas para cada um desses temas. Sero bem sucedidas, modestamente, se estimularem a reflexo, ao debate, a consensos e dissensos. Na primeira parte, os artigos guardam seu aspecto de crnica, testemunhos do tempo, com alguma conotao conjuntural, porque foram escritos para a militncia, no calor da hora. Por isso, salvo duas excees, publicam-se cronologicamente e no foram re-editados. Neles prevalecem temas organizativos. Pode-se verificar, inclusive, como foi evoluindo paulatinamente a compreenso, conforme foi se modificando a conjuntura a partir da vitria de Lula, em outubro de 2002, e amadurecendo a reflexo, culminando nos documentos da 9a Conferncia e do 1o Encontro Nacional.

    Na segunda parte, publicam-se artigos de fundo, j divulgados em nossa revista Princpios. Eles representam pontos nodais que marcam a trajetria da reflexo sobre o assunto, desde o clebre 8o Congresso de 1992. Tratam da questo Partido como tema terico-ideolgico, invocando os fundamentos da teoria leninista de partido revolucionrio, em confronto crtico com a experincia histrica, mas tambm na sua dimenso histrica, poltica e de ao de massas. De Renato Rabelo, o tema da estratgia, que baliza por inteiro qualquer reflexo

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  • concreta sobre a questo de Partido. Recolheu-se a exposio do Presidente Nacional do PCdoB ao 1 Encontro Nacional sobre Questes de Partido. De Joo Amazonas, capta-se a reflexo seminal, de defesa da indispensabilidade de um tal tipo de partido, mas extraindo as lies da degenerescncia verificada em sua trajetria, nos pases do ento chamado campo socialista da Europa. De Loreta Valadares, a reflexo tambm seminal, historicizando a abordagem leninista da obra Que Fazer?, da qual se extraiu um conjunto de reflexes muito ricas. O mesmo tema desenvolvido por Jos Carlos Ruy, que aborda com pertinncia a polmica travada, hoje e sempre, sobre o partido revolucionrio, contextualizando historicamente a produo leninista. De Augusto Buonicore, uma resenha sobre a questo da hegemonia, tema central a nossa reflexo atual e que ainda reclama maior estudo. Finalmente, de J Moraes e Jos Reinaldo de Carvalho artigos que conectam o tema com a ao de massas, tema bastante desenvolvido desde o 10 Congresso. Evidentemente, eles precisam ser apreendidos no contexto do tempo em que foram escritos.

    Os documentos oficiais do PCdoB, aqui no publicados, tm suas leituras indispensveis a todos que buscam compreender a evoluo do pensamento de partido entre ns, sendo necessrio cotej-los com estes textos aqui publicados, especialmente as abordagens do 8o, 9o e 10o Congressos (1992, 1997 e 2001, respectivamente), da 9a Conferncia (2003) e do 1o Encontro Nacional sobre Questes de Partido (2004).

    da minha experincia prtica e da histria de nosso Partido que o tema Partido (ainda mais sendo to empenhado quanto o ) s pode avanar se for apropriado pelo coletivo. o que se espera com esta publicao: que seja uma modesta arma de combate, pelas escarpadas veredas do saber, da investigao, da pesquisa, alimentadas da prxis. Combate, alis, sem o qual teria

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  • sido impossvel esta publicao, porquanto se beneficiou de mil e um debates, palestras, reunies, aulas.

    Registro os agradecimentos que tornaram possvel organizar este livro. Em primeiro lugar, a todos que concorreram para transformar a 9a Conferncia e o Encontro Nacional nos eventos decisivos que foram, notadamente direo nacional do PCdoB, mas tambm a toda a militncia que fez a fortuna desses eventos. Tambm aos companheiros da Comisso Nacional de Organizao, com os quais partilhei o cotidiano no qual foi gestado o livro. Comisso Nacional de Formao e Propaganda, que assume a responsabilidade de edit-lo e a Lejeune Mato Grosso, em particular, que tomou nas mos o trabalho concreto de edio. Enfim, a Edvar Luiz Bonotto e Luclia Ruy, cuja edio e reviso, sempre acurada, torna possvel sanar algumas dificuldades irremediveis do linguajar deste articulista. A todos o meu muito obrigado, isentando-os, desde logo, de responsabilidades pelas lacunas e deficincias que certamente existem. Tenho certeza de que todos juntos poderemos san-las porque o tema veio para ficar e se desenvolver.

    Walter Sorrentino (organizador) Abril de 2004

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  • PARTE 1: UM PARTIDO COMUNISTA DE MASSAS Textos de Walter Sorrentino Mdico, membro do Comit Central do PCdoB e da Comisso Poltica Nacional, Secretrio Nacional de Organizao

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  • QUANDO PENSO NO FUTURO NO ESQUEO MEU PASSADO"

    belssima lembrana no cartaz do PCdoB/SP em comemorao dos 80 anos de fundao, diz tudo do

    esforo de permanncia e renovao que buscamos no pensamento acerca das questes de Partido. Lembremo-nos de que tal foi o propsito anunciado no 9 Congresso - "um Partido de princpios, marxista-leninista, de feies modernas" - e que esteve presente tambm no 10 Congresso.

    A

    O desenvolvimento do nosso pensamento acerca do tema partido sofreu enormes vicissitudes, devido a dcadas de clandestinidade - anos de ditaduras - e a uma determinada leitura do movimento revolucionrio proletrio - anos de modelagem. Com a legalidade, acentuou-se a necessidade de atualizar esse pensamento, em meio a uma dcada terrvel - a derrocada da URSS e a democracia mutilada pelo neoliberalismo. O essencial ns fizemos desde o 8 Congresso em 1992: reafirmamos princpios e tratamos de reforar o Partido.

    Foi um xito expressivo. A comemorao dos 80 anos de fundao, 40 de reorganizao e 30 da herica jornada de luta libertria no Araguaia, nos encontra mais conscientes dos esforos necessrios para seguir adiante, e suficientemente auto-crticos para lidar abertamente com as lacunas de nosso trabalho.

    No podemos perder de vista que falamos em desenvolver/atualizar o pensamento de Partido em meio a uma situao ainda defensiva, na ausncia de um forte e ascendente movimento de massas do proletariado. Portanto, no vamos fazer receitas para a cozinha do

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  • futuro. Mas o notvel Saramago, afora instante de forte pessimismo manifestado no Frum Social Mundial, gosta de lembrar uma reflexo de Marx em A Sagrada Famlia: "Se o homem formado pelas circunstncias, ento h que formar as circunstncias humanamente". Ou seja, historicamente.

    Ento segue irrecusvel a questo essencial de seguir construindo o sujeito coletivo da luta transformadora, que tem por centro a noo de pertencimento de classe e de conscincia de classe do proletariado. O partido comunista esse instrumento e essa conscincia, cujo papel indelegvel. Com a condio de conceb-lo como organismo vivo, atuando nos plos principais dos conflitos sociais, cotidianamente, infundindo a cada luta o contedo de seu projeto poltico transformador, nas circunstncias concretas do Brasil e do mundo de hoje. Ou seja, pensado e estruturado para o tempo atual em ligao com a realidade econmica, social, poltica e cultural profundamente modificada e com o projeto poltico que almejamos.

    Falamos, portanto, de formar as mulheres e os homens reais que reconstruiro a perspectiva socialista, renovada, numa atitude comprometida e militante. Permanecemos leninistas, devemos atualizar as formas, funes e feies que assume nosso trabalho partidrio, principalmente l nas razes que nos ligam ao povo, que so as bases militantes.

    (Publicado em 09/04/2002)

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  • Digresso... Somos marxistas-leninistas.

    omos produto histrico da idia basilar de que as sociedades humanas so definidas no essencial -

    embora no exclusivamente - pelas relaes sociais derivadas da esfera econmica, e que essas tm carter histrico; relaes que pem em confronto em determinadas fases histricas grupos sociais inteiros - as classes - e que a luta dessas classes inevitvel e define o principal motor de transformaes na sociedade. Essas contradies podem ser dirigidas no sentido de extinguir as classes e a explorao de uma pela outra, tendo por sujeito histrico em nosso tempo o proletariado. Se a isso nos propomos, imprescindvel um instrumento poltico, capaz de materializar a independncia da classe revolucionria em todos os terrenos. Esse instrumento o Partido Comunista. Poucas coisas so to grandiosas na vida quanto ser um militante do Partido, dedicar parte de nossas energias luta transformadora.

    S

    (Publicado em 9/4/2002)

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  • PARTIDO E ORGANIZAO

    que faz um secretrio de organizao? De tudo um pouco, at dirigir o Partido e direcionar os esforos de estruturao. Digo isso com algum exagero por

    no ser pouco freqente a queixa de vrios secretrios (ainda numa reunio nacional ouvimos): "a gente chega na sede com algumas prioridades na cabea; em poucos minutos, ainda na recepo, j somos atordoados com mil problemas cotidianos para resolver. O dia passa e no tratei das prioridades. At responder pelo caf na sala de reunies a gente cobrado".

    O

    Um dos vcios mais recorrentes de que fui testemunha a idia segundo a qual questes de partido so questes de organizao. Reducionismo puro, que empobrece nossa viso!

    Secretarias de Organizao tm longa tradio no movimento comunista. Seu papel central diz respeito a coordenar e sistematizar a experincia de construo partidria e gerir a vida interna do Partido, como parte do sistema de direo geral. Para isso lidam com a elaborao e o desenvolvimento de uma poltica de organizao.

    No raro se verificou a mistificao de ser o segundo numa pretensa hierarquia partidria. Em boa medida recaiu sobre ela a questo momentosa da modelagem dogmtica da construo partidria, a partir de esquemas apriorsticos, fechados ou intolerantes-autoritrios de conduo da vida interna. Em certo sentido, isso se configurou como causa e conseqncia de uma relativa falta de desenvolvimento do pensamento de Partido, tomado de modo dogmtico, a-histrico, em insuficiente correspondncia com a realidade

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  • social em mutao e at mesmo com as exigncias de um projeto poltico transformador.

    Em nosso ltimo artigo dissemos que o desenvolvimento do pensamento acerca do Partido no Brasil sofreu enormes vicissitudes. Particularmente, fomos marcados de modo indelvel por mais de 60 anos de clandestinidade, produzindo certo enrijecimento. Difcil por exemplo pensar em mdio prazo, nessas condies de clandestinidade e com a leitura de ser "iminente" a revoluo bater s portas. A reconhecida vivacidade e flexibilidade de nosso pensamento poltico tardou a se aplicar esfera da construo e estruturao partidria. Felizmente, nos ltimos anos, com o conceito de estruturao partidria, comeamos a superar isso. Ainda faz falta bater nessa tecla e desenvolver a abordagem.

    Desculpem pelo jogo de palavras, mas construo, estruturao e organizao partidrias, sendo conceitos complementares, no so um s e nico conceito. A chave foi definir que a construo partidria se d no plano poltico, ideolgico e organizativo e que a sntese atual desse esforo a sua maior estruturao, assumindo hoje o papel central na atual fase de construo. Os objetivos da estruturao so traados nos planos (j estamos no 4 plano!) e, neles, a organizao assume um papel particular: ela parte do plano e ao mesmo tempo seu esteio principal, porque o coordena.

    Mas da a voltar a pensar que questes de Partido so questes de organizao seria como dizer que a parte o todo, empobrecendo o todo. E empobrecemos a parte tambm, por ela sucumbir s voltas com um cotidiano massacrante.

    Partido poltica. Partido ideologia. Partido organizao! Constru-lo permanentemente e estrutur-lo

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  • tarefa de todos ns: envolve a direo poltica e ideolgica, de ao de massas, de organizao e formao dos militantes. Pode ser que a organizao coordene esse processo em algumas de suas dimenses fundamentais, mas no tarefa s dela. "Organizar" sem compreender isso tentar embrulhar um pacote vazio.

    A partir da podemos desaprisionar a organizao para desenvolver seu prprio papel permanente. Compreendo-o como a exigncia de dar corpo a uma poltica de organizao, que sistematizar a experincia de construo do Partido nas vrias frentes e, assim, alimentar o esforo de estruturao. Ponto destacado disso uma poltica de quadros.

    A nossa coluna ser parte desse esforo elaborador. Voltaremos ao tema com freqncia, mas paulatinamente: veremos as coordenadas do atual plano de estruturao e polemizaremos os componentes polticos, ideolgicos e organizativos, antes de nos lanarmos polmica.

    (Publicado em 9/4/2002)

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  • ESTRUTURAO PARTIDRIA

    uidar mais e melhor do Partido. Esse foi o sinal de alerta dado no 9 Congresso em 1997, e nos trouxe

    muitos e bons frutos. CNo qualquer coisa o PCdoB, em uma dcada de hegemonia neoliberal e de pesadas derrotas impostas aos trabalhadores, em meio formidvel crise da URSS e Leste Europeu, convivendo em aliana desde 1989 com o PT e seu predominante papel na esquerda, ter crescido substancialmente e avanado em sua consolidao poltica e orgnica.

    xito significativo porque foi tempo de recuo na conscincia, organizao e mobilizao de massas, no Brasil e no mundo. Tempo de presso na perspectiva militante, na coeso, disciplina e convico no projeto poltico transformador, fatores presentes ainda hoje. Isso tudo afetou, como no poderia deixar de ser, tambm o partido dos comunistas. Em sua forma menos maligna, criando uma pretensa noo de o movimento ser tudo e o objetivo final acumular foras, o que conduz lassido e acomodao. O Partido existe para cumprir seu projeto poltico, conscientizar, organizar e mobilizar os trabalhadores! O indicador central desse papel, em tempos de defensiva estratgica, o empenho na construo partidria.

    Uma forma adequada de encarar esses fenmenos que os xitos foram fruto de uma srie de opes acertadas, nos campos poltico, eleitoral, ideolgico e organizativo. Entretanto, opes, mesmo quando corretas, envolvem custos e descompensaes. No caso, defasagens se

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  • verificaram no Partido e o 9 e o 10 Congressos as registraram.

    Tais defasagens condicionam a acumulao de foras do Partido. Carecem de compensaes adequadas. O enfrentamento delas foi iniciado no 9 Congresso. Tiveram por centro o deslindamento dos problemas da construo partidria nos planos ideolgico e organizativo, procurando coloc-los em compasso com os avanos do pensamento poltico. Foram materializadas no conceito de estruturao partidria - sntese das exigncias concretas da construo na fase presente do PCdoB - e da nasceram trs planos de estruturao: 1999, 2000 e 2001.

    De passagem, diga-se que apesar de toda a importncia da noo de planificao, prpria de nossa histria de construo da nova sociedade socialista, entre ns ainda grassa forte espontanesmo, geralmente voluntarista (mas s vezes tambm negativista).

    Por isso, ganho no desprezvel foi tambm a noo de planejamento, procurando superar o espontanesmo e substituir as urgncias pelas prioridades no trabalho cotidiano. Com esse passo, passamos a tratar tais questes de modo mais realista e dialtico. Passamos a superar o vcio freqente de, ao tratar dessas questes, lidar com o todo, o tempo todo ao mesmo tempo, em discursos freqentemente doutrinrios, dificultando uma apreenso mais discriminada dos passos a dar para consolidar o Partido. J dissemos na ltima coluna que, no mais das vezes, a questo ficava relegada indevidamente esfera da organizao.

    Um consenso foi se formando no 10 Congresso, relativo s questes de Partido, em torno de quatro pontos: 1) a questo da unidade e luta no interior da frente nica; 2) a necessidade de intensificar a ao poltica de massas; 3) a

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  • maior ateno ao trabalho junto ao proletariado; e 4) maior investimento no trabalho terico-ideolgico do Partido junto a suas fileiras e sociedade. So questes inter-relacionadas e dizem respeito aos elos centrais da cadeia destinada a fortalecer o PCdoB e construo de uma hegemonia avanada para o rumo da luta atual contra o neoliberalismo. Esse consenso nasce da nova situao que vai se gestando paulatinamente; no obstante a manuteno de um quadro ainda marcado pela defensiva, elementos crescentes de conscincia crtica se manifestam, reanima-se relativamente o movimento de massas, cria-se um degelo na luta de resistncia derivada da visvel falncia do projeto neoliberal. Re-posicionamentos no tocante ao papel do Partido so exigidos.

    O IV Plano de Estruturao Partidria, aprovado pelo CC, leva em conta essa situao. Na coluna anterior falamos do processo de estruturao partidria visando superar defasagens na construo partidria. Aps trs exitosos PEPs, onde nos encontramos? O 10 Congresso deu um balano profundo da situao partidria e indicou um projeto poltico para o Partido. Queremos destacar em particular o fato de o IV PEP ter trs noes centrais: novas abrangncias, nova cronologia e concretude poltica. E, fruto dos avanos exigidos, define de forma nova os alvos centrais do esforo.

    Nova abrangncia deriva da noo de precisarmos estruturar melhor o Partido para que ele cumpra sua atividade-fim. Indispensvel hoje fortalecer a sua ao poltica de massas e o trabalho junto ao proletariado. Portanto, ao lado das metas de Militar-Estudar-Divulgar-Contribuir, vamos incorporar as frentes de massa e planificar nelas nossa interveno. Trata-se de entrelaar a presena permanente do militante partidrio na luta dos movimentos populares e sociais com a luta pelo nosso projeto poltico - inclusive eleitoral - e ligar ambas estruturao partidria. Vamos conectar esses esforos. O

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  • passo essencial compreender a ao poltica de massas como parte destacada da ttica e traz-la esfera da direo poltica e geral do Partido. Faz falta o que no passado nos caracterizava: investir tempo e pedagogia na investigao das condies do movimento de massas, desenvolver suas bandeiras e descortinar formas de luta adequadas. Isso vai ligado idia de que precisamos desenvolver mais campanhas polticas com a identidade prpria, para vincar sua marca de luta perante os trabalhadores e o povo.

    Nova cronologia porque aprovamos que o Plano tem durao de dois anos e se relaciona com o perodo de mandato das direes estaduais eleitas. Portanto, corresponde a um programa de trabalho dessas direes. E se exigir dividi-lo em etapas e fases distintas, segundo as batalhas polticas e distintas caractersticas do perodo. Tais questes levam a uma maior complexidade da planificao. O Partido muito variado em graus de estruturao e um plano precisa fazer o recorte apropriado a cada situao partidria, a cada frente de atuao e seu acmulo especfico.

    Concretude, no sentido de nos estruturarmos para as lutas polticas e no fogo dessas batalhas. Planos que valessem para ontem, hoje ou amanh, o mesmo em So Paulo e em Tocantins, poderiam at ser belos como proclamao de intenes, mas teriam pouca serventia prtica. Pr a poltica no comando - essa a questo-chave! Em sntese: o projeto poltico comandando a estruturao, como abordagem do que permanente na construo partidria.

    Isso no nos faz perder de vista rumos, diretrizes e metas que so nacionais; particularmente o alvo central do PEP: consolidar os comits municipais nas maiores cidades do pas. Por isso, o IV PEP prope levar o centro de gravidade da execuo do plano a esses comits municipais. Nossa histria recente foi reestruturar a direo nacional, aps a

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  • queda da Lapa (1976), o que se verificou a partir de 1978 com o retorno de Amazonas ao pas e a composio de nova direo. Com a legalidade, fazia-se necessrio e possvel estender o sistema de direo, consolidando os principais comits estaduais pelo pas. Pode-se dizer que esse processo foi cumprido - ainda com Estados retardatrios - e o Partido um mosaico complexo e muito variado pelo pas. Mas o principal, agora, para seguir avanando no sistema de direo, num pas de dimenses continentais, numa organizao poltica que diversificou e expandiu enormemente sua atuao, buscar consolidar os principais comits municipais nas maiores cidades do pas. Numa analogia, como as atuais relaes de produo que entravam o desenvolvimento das foras produtivas. preciso liberar esse desenvolvimento: sem comits municipais fortes e consolidados o PCdoB ter dificuldades de chegar aonde precisa: dirigir efetivamente bases numerosas que o liguem mais estreitamente vida e luta dos trabalhadores e do povo.

    O IV PEP leva em conta esses elementos. O Comit Central fez dele uma discusso viva e enriquecedora. Restou a certeza da necessidade de aprofundar o debate sobre a momentosa questo de dar estabilidade base militante, enfrentando a flutuao que vem se manifestando.

    Os rumos esto dados. Na nossa coluna voltaremos a cada um desses pontos. Indispensvel que todos, das bases aos comits estaduais, estudem, debatam e apliquem o IV PEP, tornando-o um fator vivo para o fortalecimento partidrio.

    (Publicado em 03/05/2002)

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  • Digresso... Aos 30 anos da Guerrilha do Araguaia

    ada poca tem seus prprios desafios e gesta seus prprios heris: a histria os julga. H 30 anos, nas selvas do Araguaia, homens e mulheres foram escravos

    de sua prpria conscincia libertria, dedicando-se luta do Partido e do povo. Sabiam o que faziam, estavam dispostos a pagar com a prpria vida se necessrio. E o foi!

    C

    Hoje, herdar a mesma causa que eles nos legaram tambm implica desprendimento e abnegao, confiana e convico, ideais e disciplina. De um outro jeito. Na enorme maioria das situaes, na legalidade, no estamos ameaados de morte pelo fato de sermos militantes comunistas. A ameaa outra: matar nossa conscincia revolucionria, desacreditar a luta transformadora, fazer-nos uma folha levada pelo vento, sem destino histrico. Assim, ps-modernamente...

    outra circunstncia, mas o problema o mesmo: preciso ser militante, vale a pena ser militante da causa transformadora, marxista e revolucionria. Porque a militncia no nega, mas sim enriquece, com a conscincia e compromisso, outras dimenses indispensveis da vida - pessoal, familiar, profissional, acadmica, afetiva - e com elas quer conviver.

    Herosmo um produto histrico, sofrido ponto de chegada e no ftil ponto de partida. Tambm esta poca que nos foi dado viver gestar seus heris, annimos ou no. Entre eles, militantes comunistas; e eles, sem dvida, lembraro sempre do exemplo dos que foram ao Araguaia.

    (Publicado em 03/05/2002)

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  • FLUTUAO E VIDA MILITANTE NA BASE

    ma das questes presentes na vida dos partidos comunistas na atualidade a flutuao militante. Ou seja, filiam-se novos aderentes, mas h instabilidade

    na sua militncia, ou mesmo evaso. Os italianos da Refundao Comunista, por exemplo, chamam o fenmeno de intenso turn-over dos inscritos. Alguns esto s voltas com a diminuio do afluxo de novos aderentes ou, ainda, com ambas as coisas. Nossos comits e bases vivenciam diretamente esse problema, mas ele ainda pouco conhecido e debatido entre ns. Alis, o IV Plano de Estruturao Partidria visa comear esse debate. Dados so indispensveis para uma anlise serena e isenta da questo. E aqui reside o primeiro grande problema: eles no esto disponveis apropriadamente, por ora. Os cadastros (iniciados em 1997) e os PEPs (desde 1999) vo possibilitar um estudo muito profcuo da questo.

    U

    Atentemos por ora para a tabela abaixo, com nmeros arredondados:

    Ano Caractersticas PEP Novos filiados

    Participantes da vida

    Partidria

    1997 9 Congresso No havia No disponvel

    20.000

    1998 Eleio nacional No havia No disponvel

    18.000

    1999 Conferncias Estaduais

    Primeiro 18.000 21.000

    2000 Eleio municipal Segundo 6.000 28.000 2001 10 Congresso Terceiro 18.000 35.000

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  • Se a aparncia fosse a essncia no haveria necessidade de cincia, como disse j o velho mestre. H nesses nmeros muitos indicadores e no podemos nos furtar a deles extrair todas as conseqncias. A questo infere razes de ordem poltica, ideolgica e organizativa muito variadas e complexas e abarca mltiplas perspectivas, prprias de nossa poca e das sociedades atuais. Para o pensamento de partido, dizem respeito atualizao de nossa poltica de organizao. Vamos dizer que tratar disso uma das razes de existncia desta coluna ao longo do tempo. Consideremos apenas que est dada a partida.

    Fixemos a aparncia mais gritante: partimos de 1997 com 20 mil militantes, filiamos pelo menos 42 mil novos em 5 anos e chegamos em 2001 com 35 mil. Particularmente entre 1998 e 1999, partimos de 18 mil, filiamos novos 18 mil e s trouxemos para a vida partidria naquele ltimo ano 21 mil militantes (eis a o diagnstico do 9 Congresso quanto "defasagem" ideolgica e organizativa que se manifestava na vida partidria e que nos levou a configurar os PEPs!).

    H uma concluso inicial a extrair, e ela se desdobra em duas assertivas:

    1. Existe um problema real de flutuao, ao qual no se deve fechar os olhos. Problema menos agudo porque convive com a expanso das foras partidrias, mas nem por isso menos importante. Falar em fortalecimento das fileiras partidrias com novas filiaes exige atentar para o fato de ser preciso esforo para manter os filiados ativos e ligados ao Partido. 2. A questo mais diretamente afeta ao fenmeno a vida e a atividade das bases partidrias. Seu adequado funcionamento, sua vida e dinamismo so a chave da ativao da militncia comunista. Por isso, essa segue

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  • sendo a questo-chave de nossos problemas de estruturao partidria. Como se sabe, no IV PEP, colocamos como alvo a consolidao de comits municipais, exatamente enquanto mecanismo que permita avanar na criao e fortalecimento da vida das bases.

    Essas concluses, de valor imediato, precisam marchar ao lado de um exame mais aprofundado do problema. A questo infere perspectiva mais larga, referente nossa concepo de Partido, s formas e funes que ele assume. Velho debate, hoje ainda mais presente devido presso contra a poltica, os partidos polticos e a militncia poltica. Antes, essa presso provinha diretamente da luta ideolgica contra a perspectiva transformadora, pela "direita": clandestinidade, perseguio, priso, tortura, morte. Hoje, ela se alimenta do pessimismo, descrdito e at mesmo de uma srie de presses, digamos assim, pela "esquerda", de negao dos partidos revolucionrios e adeso aos "movimentos", que recusam uma perspectiva totalizante de projeto poltico.

    Est colocado o seguinte: somos leninistas e para a condio de comunistas no nos basta apenas ser aderentes ao partido, mas tambm o compromisso com sua poltica e sua sustentao militante. Entretanto, precisamos responder aos problemas de nosso tempo, de nossa gente, e que so reais. Que perfil e que carter pode e deve assumir a militncia comunista hoje? Que formas de organizao so mais apropriadas a essa realidade? Como trabalhar o centralismo democrtico num contexto de partido comunista com base de massas? Como alimentar a perspectiva ideolgica da militncia? Como assegurar os contrapesos necessrios para assegurar o carter classista proletrio da composio partidria?

    Fazer as perguntas adequadas pode ser metade do caminho andado. As formas e funes do partido emanam da concepo leninista, respondem ao projeto estratgico

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  • que defendemos e se amparam na realidade do pas, no atual contexto da luta de classes mundial. No somos adeptos de modelos pr-estabelecidos. Somos leninistas e permanecemos em defesa de nossa identidade partidria, como reafirmamos desde o 8 Congresso. Mas precisamos desenvolver o nosso pensamento nesse terreno, nos marcos do processo de expanso que estamos vivendo, para um forte partido comunista com ampla base e influncia de massas. Esse pensamento se desdobra na elaborao de uma poltica de organizao mais adequada aos fenmenos com que nos defrontamos. No vamos nos furtar a esse esforo.

    Por fim, no podemos deixar de dizer o bvio: sem um registro adequado nada se pode conhecer. Sem conhecimento no h ao consciente. Acabar com essa ojeriza ao controle, fruto de prolongada clandestinidade e falta de viso em mdio prazo, parte de nosso combate.

    (Publicado em 24/5/2002)

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  • OUSAR CRESCER NA CAMPANHA ELEITORAL

    centro da batalha atual pelo nosso projeto poltico est em ligao com o esforo das eleies de

    outubro. Definimos com clareza nosso projeto e nossa aliana e estamos demarcando o programa que norteia a disputa. Vamos nos aproximando paulatinamente da fase decisiva desse esforo eleitoral: organizar uma disputa poltica em ligao com uma campanha de massas, num terreno favorvel oposio.

    O

    de se problematizar, ento, o seguinte: o PCdoB nem sempre cresce e se estrutura no bojo da prpria campanha poltica eleitoral. Essa uma questo poltica nevrlgica: campanhas eleitorais nacionais so momentos de enorme ebulio poltica, chamam o conjunto da populao a um posicionamento. Nada mais normal ento que, nesse ambiente, o Partido aumente sua presena, se fortalea com novos militantes. Conseqentemente, nessas batalhas maiores ele mantm e busca aumentar sua estruturao. Ou visto pelo negativo: despolitizado e atrasado deixar de fortalecer a estruturao no curso desse tipo de batalha.

    Como compreender prticas reiteradas de que durante a campanha eleitoral muitas vezes se abandona o esforo por fazer crescer o Partido, ou mesmo reforar a prpria vida interna das suas organizaes? Parece at que se entra em recesso na campanha pelo voto - se abandona o acompanhamento das vrias frentes, se remanejam atuaes militantes para fora do mbito de sua insero social e poltica, vai-se supostamente em busca do voto... A prtica particularmente mals quando se refere desestruturao da atuao nas frentes de massa. O problema que essa no a prtica que em regra mais

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  • favorece a busca do voto. A atuao enraizada, que colhe os benefcios do conhecimento profundo por parte dos militantes, no curso das lutas de que eles ou elas participam cotidianamente, rende mais eleitoralmente, na medida em que permite multiplicar o nmero de aderentes que nos ajudam na campanha eleitoral - e pode ret-los na forma de novas filiaes ao Partido. De outra parte, a questo no neutra ideolgica e organicamente. Porque, afinal, a busca do voto e da eleio de nossos candidatos parte da luta maior pelo projeto poltico do Partido e este tem no seu prprio fortalecimento um objetivo central no seio da campanha eleitoral. Meios e fins precisam estar articulados.

    Tudo somado h problemas de concepo e de prtica nesse desvio que muitas vezes marca nossa atuao em campanhas eleitorais. No desconhecemos que, em alguma medida, campanhas eleitorais foram situaes para as quais nem sempre estamos preparados. Notadamente em casos de pouca fora acumulada, ou estrutura do Partido rarefeita, muitas vezes a estrutura partidria sofre intensas adaptaes para o esforo eleitoral. Mas que dizer de situaes onde ele mais forte e estruturado? Por que abrir-mo dessa estrutura na luta eleitoral?

    O IV Plano de Estruturao Partidria, em curso em todo o pas, assumiu um vetor primordial: manter a estruturao do Partido e increment-la no curso da campanha eleitoral e na ao poltica de massa. Vejamos a primeira questo.

    Falamos de estruturar para que ele cumpra melhor o seu projeto poltico. Estruturao e poltica so vetores indissociveis. Sem uma poltica justa, comprovada na experincia e expresso do seu projeto, no se pode nem sequer falar em fazer crescer e estruturar melhor o Partido. Obviamente, no estruturamos um pacote vazio: o contedo o projeto poltico do PCdoB. Ele se funda nos valores de nossa teoria e ideologia classista proletria e

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  • desdobrado em orientaes polticas concretas, segundo a correlao real das foras em presena. No caso, nosso projeto eleitoral, as alianas, as candidaturas, a linha de campanha.

    No balano da implementao desta primeira fase do IV PEP, fica claro que, nacionalmente, conseguimos pr a poltica no comando. Todos os planos estaduais adotam por centro a batalha por fazer vitorioso o nosso projeto eleitoral em 2002 e alcanar 2% dos votos nacionais. Entretanto, a prova concreta ainda est por ser vencida: durante a campanha, notadamente em sua fase crtica (de julho a setembro), comprovar na prtica nossa concepo politicamente avanada e ideologicamente s de seguir fortalecendo o Partido e suas organizaes no seio da batalha eleitoral.

    Como se manifesta e se comprova essa diretiva? Apontamos no IV PEP algumas indicaes: primeiro, realizar as conferncias eleitorais (Conferncias de junho de 2002; N. do A.) com forte empenho nas Assemblias de Base; segundo, fortalecer a capacidade de comando dos comits municipais durante a campanha, dirigindo a atividade das OBs e demais organizaes intermedirias; terceiro, conectar a luta eleitoral com as demais atuaes permanentes, dando diretivas polticas e organizativas adequadas a cada uma delas, sem desestrutur-las ou abandon-las prpria sorte. Quarto, despregar uma poderosa campanha de massas, politizada e aguerrida, por um Novo Rumo para o Brasil, nela inserindo os candidatos do PCdoB e o esforo por trazer novos combatentes ao Partido.

    Bem vistas as coisas, trata-se de um rumo irrecusvel, prprio da maturao e expanso que vimos vivendo nos ltimos anos. Alargar horizontes e perspectivas de nossos quadros e militantes, e no soterr-los sob uma avalanche de tarefas cotidianas desconectadas da preocupao

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  • explcita de fortalecer o PCdoB no seio da batalha. Fica o alerta: se no superarmos tais limitaes demonstra-se um atraso subjetivo de nosso pensamento de partido, que comprometer a capacidade de nos imaginarmos ainda maiores e mais estruturados - alis, perspectiva bastante plausvel na presente situao poltica brasileira. Como em tudo o mais em nosso Partido, as idias caminham na frente. Se as idias no correspondem s exigncias, nos atrasaremos em perseguir nosso projeto poltico.

    (Publicado em 24/5/2002)

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  • Digresso... Cincia viva, em permanente desenvolvimento dialtico

    orreu Stephen Jay Gould. Sua obra um desses momentos que, se no fundador, pode vir a ser

    reconhecido como refundador da Teoria da Evoluo de Darwin. Isso porque Gould foi um darwinista convicto e nesse sentido materialista conseqente, ativista inclusive, com uma denncia viva do atraso que o ensino oficial do criacionismo em escolas norte-americanas. Entretanto, submeteu a apreenso da obra de Darwin a uma profunda viso crtica, combatendo o reducionismo a que ela foi renitentemente submetida, sob a forma de determinismo mecnico, seja de base geneticista seja de abordagem histrica.

    M

    Em A Galinha e seus Dentes (1992, Paz e Terra), entre muitas outras passagens de sua obra, pode-se ler: "Persegui esse tema [as extraordinariamente amplas e radicais implicaes contidas na proposta de Darwin para um mecanismo evolutivo a seleo natural] de modo implacvel, enfocando trs pontos de vista. A seleo natural como uma teoria sobre a adaptao local, e no sobre o progresso inexorvel; a ordenao da natureza como um subproduto coincidente da luta entre os indivduos; e o carter materialista da doutrina de Darwin e, em particular, sua desqualificao de qualquer papel causal que pudessem desempenhar as foras, energias ou poderes espirituais" (p. 119).

    " um erro, embora lamentavelmente comum, considerar que a utilidade atual de uma caracterstica [evolutiva dos seres vivos] permite uma inferncia sobre as razes de sua origem evolutiva. A utilidade atual e a origem histrica so assuntos diferentes... As caractersticas complexas so prenhes de potencialidades; a sua possvel utilizao no est confinada funo original. E essas mudanas

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  • evolutivas de funo podem ser to ardilosas e imprevisveis quo vastos os potenciais da complexidade" (p. 62).

    "A dificuldade est em nossa viso simplista e estereotipada da cincia, considerando-a um fenmeno monoltico, baseado na regularidade, na repetio e na habilidade em prever o futuro. As cincias que tratam de coisas menos complexas e menos ligadas histria do que a vida podem seguir esta frmula... A cincia das coisas historicamente complexas uma empreitada diferente, e no menor... As noes da cincia precisam dobrar-se (e expandir-se) para acomodar a vida" (p. 64). "Alguns tipos de verdade podem requerer sendas estreitas e retilneas, mas as trilhas da introspeco cientfica podem ser to mendricas e complexas quanto a mente humana" (p. 95). A se encontra, a nosso ver, um buslis de sua contribuio, polmica certamente, mas enriquecedora a todos os ttulos. Explorando esse ponto de partida, criou a teoria do equilbrio pontuado, da macroevoluo, argumentando sempre polemicamente com a imprevisibilidade, baseado em copiosa cultura de Histria Natural.

    Acreditamos haver um paralelo possvel para com as cincias sociais: onde ele refere a vida coloque-se vida social em sua imensa complexidade e teremos desvendado tambm um dos desafios centrais que os marxistas tm na atualidade de romper com esteretipos reducionistas e mecanicistas - ou melhor dizendo petrificados -, para abrir-lhe as fronteiras para um desenvolvimento da concepo e mtodo, em tudo necessrio aos dias atuais. Como o prprio Gould, sem renunciar aos fundamentos do materialismo histrico e dialtico, mas desenvolvendo-o custa de se apropriar histrica e criticamente do enorme desenvolvimento das cincias em geral no ltimo perodo do sculo passado, que perdura at aqui. Atitudes

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  • cientficas e abertas como a de Gould so enriquecedoras do patrimnio cultural humano.

    (Publicado em 24/5/2002)

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  • ESTRUTURAO E AO POLTICA DE MASSAS

    a ltima coluna falamos de campanha eleitoral e sua relao com o crescimento partidrio. H outro aspecto

    nodal da mesma questo poltica: vincular a estruturao partidria ao poltica de massas. Alis, a novidade introduzida no IV Plano de Estruturao Partidria.

    N

    Somos uma fora de ao poltica de massas, a abarcada a luta eleitoral, institucional e de massas propriamente dita. Em tempos de refluxo, como na dcada de 1990, compreende-se o predomnio da luta institucional - mobilizaes so mais possveis nas eleies de entidades, ou mesmo nas eleies parlamentares, de executivos locais etc. uma espcie de adaptao correlao de foras. Mas a conjuntura est se modificando paulatinamente.

    A crise neoliberal e o emergir de uma conscincia crtica mundial, manifestada nos fruns antiglobalizao, bem como em algum grau de retomada da luta popular, exigem flexes claras. Na Amrica Latina, nos ltimos anos, isso ficou evidenciado, muito embora ao mesmo tempo tenha se manifestado a falta de uma direo orgnica ao movimento de protesto. Na Itlia, manifestaes de milhes em defesa do trabalho - inclusive, uma greve geral -, falam do mesmo sentido. At na Frana, surpreendida pelo ascenso eleitoral da extrema-direita, o povo soube mobilizar suas reservas de energias republicanas para dar uma resposta contundente ao fato. O carter dos embates por dar uma sada avanada para a encruzilhada estrutural do pas aponta no mesmo sentido de exigncias: o movimento de massas foi decisivo para a redemocratizao, sofreu um refluxo com a dcada perdida

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  • neoliberal e precisa ser retomado enquanto um poderoso movimento cvico mudancista.

    o novo surgindo pouco a pouco sem ainda uma definio mais demarcada, sem ainda inverter a correlao de foras estrategicamente desfavorvel do mundo hoje, mas que significa um degelo da situao anterior. Permite-se mesmo pensar na possibilidade de abordar um caminho mudancista num pas com as dimenses do Brasil, por intermdio de vitria eleitoral, que se inscreve nas possibilidades concretas de hoje.

    Retoma-se numa situao desse tipo a exigncia de conectar a luta institucional com a ao poltica de massas, unificar e dirigir no apenas a poltica geral, mas a prpria ao poltica realizada pelo Partido. Bradar contra a institucionalizao e os pecados que geralmente a acompanham na vida de um partido revolucionrio ser brado impotente se no forem enfocados no contexto concreto modificaes das possibilidades da luta e das criteriosas flexes que nos exige.

    A ao poltica de massas uma questo central da nossa ttica, e como tal precisa ser levada esfera da direo poltica e geral, romper com a compartimentao a que esto submetidas as diversas frentes. Ademais, exige-se atitude pedaggica dos dirigentes, investigar e elaborar linhas politizadoras e de massa para o trabalho militante, com a mesma tenacidade e sagacidade que marcam nosso pensamento poltico.

    Ao mesmo tempo - e isso foi muito marcado no debate do IV Plano de Estruturao Partidria -precisamos conectar a presena na luta de massas com o esforo de estruturao partidria. Porque, afinal, mesmo nas difceis condies em que atuamos nos anos 1990, o militante comunista esteve sempre ao lado do povo, vivendo suas lutas e agruras,

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  • esforando-se em manter ativas entidades, como sindicatos, associaes de moradores, juvenis, femininas, anti-racistas, e outras. A questo infundir a cada uma das lutas de que participamos uma perspectiva poltica e ligada ao nosso projeto poltico. Isso, entre outros procedimentos que elevem a conscincia do povo, inscreve como nossa obrigao militante construir o Partido no seio das lutas travadas.

    Essa questo se relaciona com outra de fundo, tambm presente em nossas reflexes congressuais: a ampla frente necessria derrota das foras neoliberais, que exige um sagaz processo de unidade e luta, destinado construo da hegemonia de foras avanadas no processo da prpria luta. Esse sempre foi problema complexo, resolvido na base da poltica mais justa e da capacidade de pr em movimento foras de massa. A entra a questo: intensificar hoje a presena de massa do Partido, disputar ativamente a base social que apia a ruptura com a poltica neoliberal irrecusvel e tem, na ao poltica de massas, aspecto no secundrio. Se falarmos, conseqentemente, em amplo movimento cvico mudancista no devemos perder de vista um instante sequer a questo de dar-lhe slidas e profundas bases de apoio de massa.

    O IV PEP ps em pauta esses elementos. Toma corpo a noo de que o Partido precisa demarcar mais sua identidade por intermdio de campanhas polticas prprias de massa. nossa rica tradio com a luta contra o nazi-fascismo e pela Fora Expedicionria Brasileira, a Campanha "O Petrleo nosso", as jornadas de luta contra a carestia, sem mencionar o Araguaia e o impeachment de Collor de Mello. Hoje algumas bandeiras podem ser centrais a esse esforo, como a campanha contra a Alca e pela reduo da jornada de trabalho. Sem negar a amplitude em torno dessas bandeiras - marca "gentica" de nossa identidade -, campanhas polticas prprias so instrumentos e meios para alcanar amplas massas e

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  • vincar identidade poltica e de massa para o Partido. Est a um bom mote para as entidades sob nossa direo poltica, como UJS, CSC, UBM e UNEGRO: orient-las para o esforo da batalha eleitoral em ligao com suas prprias bandeiras permanentes, ligando tudo isso ao fortalecimento do Partido com novos lutadores, provindos da luta concreta, no seio das batalhas concretas.

    Enfim, como nosso tema recorrente fortalecimento e estruturao do PCdoB, mais uma vez se demonstra ser esse um processo eminentemente poltico, a par de seus aspectos ideolgicos e organizativos. Ligar o atual esforo de estruturao a uma presena maior na luta de massas o modo de cumprir nosso papel, reafirmar a sadia radicalidade do Partido, dar-lhe mais visibilidade e identidade prpria para constituir maior base e influncia de massa.

    (Publicado em 31/5/2002)

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  • DIGRESSO...AO QUE SE FOI, MAS EST PRESENTE

    ossa coluna rende seu preito de homenagem memria do bravo guerreiro JOO AMAZONAS. Ele se foi com a serenidade dos que cumpriram sua misso.

    Os que ficamos, os comunistas de seu Partido, educados por ele, seguiremos em frente com sua obra. Essencialmente, construir o PCdoB, pelo qual ele deu o melhor de sua energia ao longo de 67 anos. Que sua memria se perenize nesse esforo cotidiano de cada um de nossos militantes!

    N

    (Publicado em 31/5/2002)

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  • O PARTIDO NA PARTICIPAO EM ADMINISTRAES

    em sido um bordo desta coluna que injunes polticas determinam ou condicionam caminhos da estruturao partidria. Ou seja, estruturao partidria antes de

    tudo assunto poltico! J est mais do que na hora de superar aquela metafsica atrasada de separar poltica e questes de partido que, infelizmente, ainda marca a prtica de parte importante de nossa atividade.

    T

    A participao em governos e as conseqncias que isso vem trazendo vida do Partido um desses problemas. Essa questo antiga. Pensemos, por exemplo, no peso das disputas eleitorais, forando partidos de esquerda a constituir fortes bases eleitorais. Organizaes polticas com base ideolgica mais pragmtica ou diluda enfrentam mal essa presso. Desfazem ncleos e atividades de base onde os tinham, a vida partidria passa a girar em funo dos parlamentares e aparatos de governo, torna-se rarefeita e manipulada a vida partidria propriamente dita. De outra parte, organizaes polticas revolucionrias muitas vezes engessaram-se ao negar a participao nessas instncias, ou ao coloc-las em contradio antagnica com seus objetivos ltimos.

    A contenda est presente hoje, no Brasil. H foras que defendem o antagonismo entre luta institucional e luta de massas, uma negando a outra, numa dinmica pobre e estril. Para ns, trata-se de comp-las dialeticamente a servio de nosso projeto poltico, reconhecendo de fato a existncia de contradies nesse processo. O PCdoB tem se esforado em construir essa poltica, recusando a internalizao de lgicas de governo a ditar a vida partidria e recusando o primarismo de imaginar ser possvel cumprir o programa integral dos movimentos populares na Administrao. Ou, ainda, desconhecer que o

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  • espao por excelncia da estratgia poltica o espao nacional, ao qual se subordina o local. Trata-se, como se v, de desafio novo de inventividade poltica, para pr tal participao a servio do projeto de "Um Novo Rumo para o Brasil", o lema de nosso 10o Congresso.

    O fato que o PCdoB tem importante participao em governos, sobretudo locais. As condies que se criaram com a vitria oposicionista nas eleies de 2000 tornaram irrecusvel a participao do PCdoB em governos. Se se criam outras condies, a questo se colocar num futuro e eventual governo Lula. O PCdoB nunca participava de tais governos, por princpio. A profunda mudana estratgica na luta de classes, ocorrida com a queda do campo socialista e a hegemonia neoliberal, nos imps nova leitura. Isso foi fundamentado no 9 Congresso, em 1997, e reafirmado no 10 Congresso.

    Notoriamente, o PCdoB, a partir dessas funes, ampliou seu arco de apoio na sociedade, em particular em estratos alm dos populares que sempre caracterizaram nossa base social de apoio. Ganhamos visibilidade poltica e mais extensa relao de confiana com o povo - para o que est voltada a poltica praticada por ns nas administraes e isso dever se refletir no desempenho eleitoral de nossos candidatos e mesmo no crescimento partidrio. Sem dar um balano extenso, digamos que tem sido uma experincia a muitos ttulos positiva a participao em governos no sentido de atender a reclamos de massa, de padro democrtico participativo e educao poltica quanto aos limites da ao institucional. Pensemos, por exemplo, quanto tal conduta tem ajudado a organizao popular, apoiando o esforo de entidades de massas, em seus congressos e reivindicaes. Entretanto, h o lado contraditrio no processo e precisa ser levado em conta por ns. J argumentamos em outro momento que, mesmo fazendo opes corretas, impostas

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  • pela realidade poltica, no podemos desconsiderar os custos dessas opes porque eles efetivamente existem e exigem medidas ativas para fortalecer o carter do Partido e a luta pelo seu projeto poltico.

    Tambm sem sermos extensivos, pode-se dizer que alguns efeitos negativos esto presentes. As pautas partidrias nos locais onde participamos de governos ficam saturadas com o cotidiano poltico local e institucional e seus efeitos na formao dos novos militantes nem sempre o da vocao para a grande poltica. H situaes em que divergncias se instalam no Partido em torno do cotidiano das medidas da Administrao. Contradies reais, de fundo corporativo como no caso do funcionalismo pblico, cobram-nos alguns nus. Em casos mais graves cises se verificam em funo de cooptaes praticadas pela Administrao.

    Quanto ao assunto central desta coluna - os problemas relacionados estruturao partidria -, o que se verifica tambm contraditrio. Onde somos pouco estruturados (ou pouco madura poltica e ideologicamente a estrutura de quadros e militantes), a nova esfera de responsabilidade imposta pela participao em governos pode at agravar o problema, por subtrair energias ao trabalho principal do Partido. Contudo, onde somos mais estruturados no automtico nem espontneo que a estruturao se incremente, tornando-se necessrias medidas de reforo do trabalho de direo. Sem dizer que, em ambos os casos, no automtico que se reforce o trabalho de base e de massas sem uma criteriosa direo e vontade polticas.

    Detemos-nos especificamente no fato de direes partidrias ficarem enfraquecidas porque quadros experientes vo para a administrao, para a "atividade poltica pblica", enquanto a dedicao ao esforo de construo e estruturao partidria fica desequilibrada na

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  • distribuio das responsabilidades de quadros dirigentes. Um efeito indireto disso visvel na esfera das secretarias de organizao. No Ativo Nacional de Organizao de Braslia, dos 17 Estados presentes, nove Secretrios de Organizao eram novos na funo e, entre eles, cinco quadros eram novos no partido, ainda em formao nessa rea nevrlgica. Nada contra a renovao - necessria e benfica. Mas a organizao, que tem o papel de ser um estrategista da construo partidria, no pode ter o trabalho enfraquecido, justamente nesta hora em que o Partido est em expanso. Era essa, alis, a preocupao da Resoluo do Comit Central, no autorizando automaticamente a indicao dos principais dirigentes partidrios para cargos de governo.

    Precisamos construir um melhor equilbrio nessa matria, sem perder de vista jamais a natureza precipuamente poltica da questo. Examinar se, em alguns casos, no tm sido insuficientes os contrapesos para assegurar, ao lado da participao na esfera institucional, uma ateno maior luta de massas por parte do Partido, maior ateno ao trabalho com nossa principal base de apoio social, maior parcimnia em garantir, antes de tudo, quadros experientes para sustentar o trabalho de direo partidria.

    Certamente, ningum pensa em formar uma organizao poltica em redoma de cristal, margem da luta de classes e de seus escolhos reais. Mas nossas opes precisam ser conscientes e precisamos ser crticos conosco mesmos, para manter a coerncia e a clarividncia que tm caracterizado o PCdoB. Por isso, ento, a exigncia de acurado balano, em tempo real, de nossas experincias nesse terreno e a adoo de medidas compensatrias adequadas, com a crescente normatizao poltica e organizativa de nossa atividade partidria nessa esfera de atividade institucional. (Publicado em 7/6/2002)

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  • A QUESTO DE PARTIDO E SUA ATUALIZAO

    ossa coluna tem recebido, com alegria, observaes e crticas que, centralmente, expressam um anseio: abrir

    um debate sobre a atualizao do pensamento de partido. Essa questo esteve presente no 10 congresso e , sem dvida, indispensvel para enfrentar a problemtica da militncia na atualidade.

    N

    Comeamos em um ponto: um dos defeitos recorrentes de nossa tradio foi equiparar questes de partido a questes de organizao. Nesse reducionismo, de aparente tecnicalidade, esconde-se uma questo: a idia segundo a qual a teoria de partido est pronta e acabada e o problema como aplic-la, ou seja, construo partidria problema de mera organizao.

    Na verdade, subjaz a isso a noo de um modelo determinado de forma organizativa do partido, tomando por padro determinadas formas emanadas da experincia do movimento comunista, tendo por centro o modelo sovitico. No estamos no ponto de ter dado um balano histrico circunstanciado dessa questo. Isso deveria compreender tanto o enorme impulso representado pela corrente comunista ao longo de todo o sculo - com seu papel de luta no raro herica, sua fidelidade aos ideais da classe operria e em demarcao com as tendncias anti-revolucionrias e revisionistas -, quanto a degenerescncia observada em partidos comunistas, que se ossificaram em determinados moldes e perderam a perspectiva ideolgica que podia ter permitido ao proletariado evitar a derrota estratgica sofrida. Num e noutro caso, por razes histricas bvias, o papel do PC da ex-URSS foi central: quem falhou foi o partido. Impe-se seguir investigando as causas de natureza terica, ideolgica, poltica e

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  • organizativa, contextualizadas historicamente, que levaram a esse resultado.

    Efetivamente consideramos que a teoria est dada, a moderna teoria leninista de partido. Mas tambm efetivamente ela necessita de atualizaes e desenvolvimentos. Precisa dar conta da realidade contempornea da luta e conscincia social, adequar-se s realidades concretas de diferentes situaes, responder mais diretamente ao projeto poltico e caminhos implicados na luta por colocar o socialismo como projeto exeqvel na atualidade. Note-se a necessitarmos de um esforo de corte similar ao realizado por ocasio da crtica a que submetemos o modelo socialista, extraindo lies dos erros da primeira experincia socialista e re-elaborando o Programa Socialista do PCdoB.

    positivo constatar o quanto habita os debates do movimento comunista em todo o mundo a questo da identidade do partido, refletindo a compreenso de que o PC o agente da transformao social e que sem partido revolucionrio no h ao revolucionria. Tambm entre ns isso ocorre, carecendo ainda de um esforo concentrado e orientado com o fim de atualizar as respostas necessrias na esfera dessas questes. Consideramos a dcada passada de importncia na evoluo de nosso pensamento e prtica de partido: expanso das fileiras militantes, maturao da organizao partidria. Transitamos esses anos com as fundamentaes do 8o, 9o e 10o Congressos.

    O 8o Congresso foi fundamental a esse percurso: reafirmou nosso carter, o sentido de permanncia, a defesa de nossa identidade. A crise do marxismo e do socialismo posta em evidncia com a queda do Leste Europeu nos encontrou firmes na convico da necessidade de perseverar na construo do instrumento da transformao - o partido comunista: "Sem partido no h movimento

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  • transformador". Entretanto, no deixamos de pr em questo uma determinada viso modelada do socialismo e do partido comunista de tipo leninista. Por isso, falamos de permanncia e renovao.

    Coube ao 9o Congresso, com o PCdoB j vivendo uma expanso notria, cunhar a expresso "Partido Comunista de princpios, revolucionrio, de feies modernas". Do ponto de vista poltico havamos cunhado a expresso Partido de porte mdio. Era o fator renovao sendo mais exigido. Seu corolrio foi diagnosticar a construo nos planos poltico, ideolgico e organizativo; afirmar a existncia de um descompasso ideolgico (convices, unidade, disciplina) e organizativo (razes nas bases); e "cuidar mais e melhor do Partido". As conseqncias foram os trs planos de estruturao partidria com alguns xitos importantes.

    Com o 10o congresso, compreendemos melhor a exigncia de avanar no pensamento de partido. O texto rico em indicaes e inferncias possveis e merece ser tomado como partida para o debate necessrio. Registramos no Congresso a progresso da expanso partidria, reclamando novas solues para alcanar os objetivos fixados. Afirmamos ter ganhado maior clareza a questo de modificaes importantes na realidade social e formas da conscincia social que impactam a forma-partido e o carter da militncia comunista. Entre os consensos que foram se formando, inscreveu-se a crtica qualidade do trabalho de direo na esfera ideolgica e, tambm, o reconhecimento da necessidade de encontrar formas mais consentneas de ligar o Partido ao poltica de massas e ao proletariado. Por fim, mas no em importncia, a problemtica das formas de organizao nessa realidade social bastante modificada em comparao com o que predominou ao longo do sculo passado.

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  • Tais questes precisam ser tomadas por ns como desafios dos quais no se pode abrir mo. Imaginamos mesmo a possibilidade de um esforo conjugado, de carter nacional, tendo por centro a Atualidade da Questo do Partido Revolucionrio (como se sabe, realizamos o 1o Encontro Nacional em maro de 2004). So muitos pontos de partida e temas muito impregnados de contedo ideolgico, poltico-organizativo e mesmo sociolgico.

    Um ponto de partida que nunca abandonamos que quanto mais madura se faz a indagao de um caminho brasileiro para o socialismo tanto mais precisamos modelar um partido capaz de empreender essa transformao, com caractersticas prprias. Isso significa que devemos valorizar nossa originalidade, a experincia e caractersticas de nosso povo, tirar lies do conjunto da experincia revolucionria, mas paut-la pelo nosso projeto poltico e pelos caminhos da transformao brasileira. Alis, esse esforo, prprio do leninismo, foi adotado em diferentes medidas pelas experincias revolucionrias (pensemos nas caractersticas dos partidos e movimentos revolucionrios em China, Vietn, Cuba, por exemplo) e teve desenvolvimentos importantes no pensamento de Gramsci, entre outros. Alm disso, pelo nosso entender, devemos partir da polmica, do confronto com correntes que no cessam de repr a edulcorao do partido revolucionrio, bem como novas formas de espontanesmo, algumas at neo-anarquistas, na luta contra o capitalismo.

    Duas questes merecem meno, entre outras, condicionando esse debate na atualidade. A primeira: nos encontramos em momento de estratgia defensiva, sob a crise da perspectiva transformadora, em refluxo do movimento revolucionrio. Isso significa que no podemos idealizar o debate, encontrar outras frmulas prontas e abstratas, fora da experincia concreta - e sempre renovada - do movimento real de luta dos trabalhadores e dos povos. A outra: as questes de Partido precisam ser

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  • abordadas historicamente. Partindo dos fundamentos tericos do leninismo - tambm apreendidos em sua dimenso histrico-crtica -, nosso debate deve responder realidade social atual e ao projeto poltico concretamente plasmado nas atuais condies da luta de classes no Brasil e no mundo. Certamente, devemos compreender ento o enorme esforo crtico, terico-ideolgico, de ao e organizao, o que envolve tambm pesquisa emprica sobre a realidade social - entendendo que isso est em permanente evoluo.

    Voltando ao incio: as questes de partido no so apenas organizativas. Implicam problemas de natureza terica, ideolgica, poltica, de ao de massas e, tambm, organizativa. Uma poltica de organizao mais consentnea hoje uma exigncia para desenvolver o PCdoB, mas ela est em correlao com a atualizao do pensamento de partido. Voltaremos ao tema!

    (Publicado em 14/6/2002)

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  • Digresso... O novo e o velho

    Se no um novo caminho, um novo jeito de caminhar.

    expresso, sempre lembrada pelos camaradas do Estado do Amazonas, tomada de Thiago de Mello,

    que honra a cultura nacional. Dialtico, porque no implica abandonar o velho, mas sim se alimentar dele para sntese nova. Alis, o velho Bertolt Brecht, de outra parte, amava recordar - referindo-se a Marx e Lnin - a importncia de ensinar "coisas velhas" como se fossem sempre "novas" porque "poderiam ser esquecidas e consideradas vlidas apenas para tempos j transcorridos. No h necessariamente inumerveis pessoas para as quais elas so totalmente novas?".

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    O Partido est em expanso. Precisamos aproveitar in-tensamente as condies para refor-lo. Recusar o acanhamento, superar condicionamentos de outros tempos e outros momentos histricos. Tudo est em movimento. O leninismo implica nisso: a anlise concreta da realidade concreta. No adaptar a vida a nossos planos, mas antes o contrrio.

    Isso implica adaptar-se ao novo - tanto o real quanto aquilo que nova aquisio de nossa conscincia. Saber ver o novo que nasce mirrado, em que nem todos apostam, mas que pode vingar. Se h no horizonte a possibilidade de uma hora da virada, essa tambm a hora para o PCdoB. Estejamos altura disso, sabendo inventar novos jeitos de caminhar! Inclusive para sabermos nos imaginar maiores!

    (Publicado em 14/6/2002)

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  • A IDEOLOGIA COMO VALOR FUNDANTE DO PC

    alamos da necessidade de atualizao do pensamento de partido. Isso repe, em outros termos histrico-

    concretos, as polmicas acerca da moderna teoria do partido revolucionrio, de Lnin. Lnin traou os fundamentos tticos, de ao de massas, ideolgicos e organizativos do partido de novo tipo, em demarcao com a velha Segunda Internacional. Como sabemos, em 1916 Lnin fundamentou o Imperialismo - Etapa superior do capitalismo, do qual derivava a noo da poca das revolues proletrias, colocando o partido - o fator subjetivo - como determinante das possibilidades revolucionrias. Por isso, a teoria e prtica de partido leninista foram uma inovao estupenda que esteve na raiz dos xitos revolucionrios do sculo XX.

    F

    Os pilares dessa construo terica foram os de um partido de vanguarda, de carter classista proletrio, constitudo organizativamente como um sistema orgnico funcional consecuo do projeto poltico do proletariado, que assegurasse a unidade de ao com um centro nico dirigente constitudo em bases democrticas. Vejamos o ncleo ideolgico da questo.

    Os anos 1902-1905 foram particularmente vitais nessa construo terica, quando Lnin elabora Que fazer?; Um passo frente, dois passos atrs; Carta a um Camarada; Sobre a reorganizao do Partido, entre muitos outros escritos voltados quele fim. Aspecto central - e diramos clssico - nesse processo foi a relao espontneo-consciente. o buslis do Que Fazer?, no qual Lnin conclui: "Sem teoria revolucionria no h ao revolucionria" - base da idia de um partido de vanguarda. Isso embasou a noo de que, para os comunistas, o valor fundante do partido revolucionrio, seu amlgama, o fator ideolgico.

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  • Muito j se escreveu acerca da relao espontneo-consciente. Lnin assentou suas formulaes na teoria marxista, em polmica com a velha Segunda Internacional e as formas de economicismo ento presentes na Rssia, que conduziam ao predomnio do espontanesmo e, conseqentemente, a formas-partido funcionais ao predomnio da luta parlamentar e sindical - o partido como apndice da luta econmica do proletariado.

    Lnin fundamenta a noo do partido de vanguarda, elaborador-portador da teoria revolucionria que no surge espontnea e diretamente do confronto econmico entre operrios e patres. A conscincia vem "de fora" dessa relao imediata. Sabemos que Lnin partiu de formulao de Kaustky, bastante mecanicista a esse respeito. Entretanto, o prprio Lnin, durante esses anos (reconhecendo-o em 1912) se negara a tratar Que fazer? fora do mbito do debate ento travado: tratava ele de corrigir a "curvatura do basto" dos economicistas, em suas prprias palavras.

    Que fazer? faz a crtica da viso evolucionista e do seguidismo caractersticos da corrente economicista. uma apologia do partido poltico em oposio perspectiva estreita daquela corrente. Marcante nesse sentido o recorrente apelo de Lnin a observar "todos os aspectos da vida social", "todos os aspectos da vida poltica", voltar a atividade dos comunistas a "todo o povo", "todas as classes da populao", observando a relao entre "todas as classes", explicar a "todos" o significado histrico mundial da luta emancipadora do proletariado (Burgio). Portanto, central a luta contra a concepo corporativa da prpria identidade e funo do partido. Consideramos isso um aspecto central e mais que nunca atual do pensamento de partido. Com ele se define terica e politicamente "a autonomia da classe operria, como expresso da sua capacidade de se fazer intrprete e protagonista do processo poltico que envolve toda a

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  • sociedade" (Gruppi). Portanto, "de fora" significa que a conscincia no provm da experincia imediata da relao de explorao, mas da viso crtica global da sociedade. Ela vem da parte do partido que observa o campo das relaes recprocas entre todas as classes. O partido a fuso do elemento consciente com o elemento espontneo.

    Ao mesmo tempo, Lnin demarca limite com o determinismo mecnico e o positivismo. Movendo-se no campo do "determinismo materialista (que no s no pressupe o fatalismo, mas, ao contrrio, oferece o prprio terreno para uma ao racional)", Lnin "correlaciona partido e movimento real, iniciativa revolucionria e situao objetiva, sujeito e objeto, com forte destaque ao sujeito revolucionrio" (Gruppi).

    Formas de determinismo estrito e mecnico nesse terreno so fatais. Nessa armadilha envolveram-se muitos, entre outros Stalin. Conduzem o partido a uma formao monoltica e monocfala, de "homens e mulheres de ao", exigindo no raro mediaes de ordem moral e at mesmo religiosa para definir a militncia. A experincia sovitica, no limite, demonstrou aonde pode levar tal caminho, ossificando a forma-partido, impondo a obedincia acrtica e desarmando ideologicamente o proletariado em sua luta. O mais certo que "no se deveria derivar diretamente de Que fazer? uma filosofia sobre a origem da conscincia revolucionria, que no foi esse o escopo da obra" (Gerratana).

    Tampouco se poderia derivar da formulao leninista naquela obra um determinado modelo de forma organizativa, qual seja, a de um partido fechado, de quadros, de predominante atividade ilegal ou clandestina. O prprio Lnin flexibilizaria formulaes j no auge da revoluo de 1905 (Sobre a reorganizao do partido) e tambm posteriormente (Novas tarefas, novas foras). So notrias, e deveriam ser mais valorizadas, a flexibilidade e

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  • sensibilidade de Lnin para adaptar a organizao partidria s condies e exigncias dos diversos momentos da luta revolucionria. Nessa armadilha envolveram-se muitas organizaes, presas do sectarismo e dogmatismo, pela "esquerda", bem como outras, que diluram seu carter revolucionrio sob a bandeira da renovao, pela "direita". Pensemos no ex-PCI eurocomunista ou mesmo na experincia brasileira do atual PPS.

    Em suma, o partido no pode ser concebido como uma organizao apartada do movimento real. Na relao espontneo-consciente em Lnin, o espontneo uma forma embrionria do consciente. O partido a predominncia do fator consciente, mas se alimenta permanentemente do fator espontneo da luta dos trabalhadores, generaliza-a e d-lhe uma perspectiva poltica de ruptura. No se deve contrapor mecanicamente uma "espontaneidade privada de conscincia a uma conscincia estranha ao movimento espontneo" (Gerratana).

    Tais polmicas no cessam de se repor ao movimento e deveramos confront-las como exigncia para o avano do pensamento leninista. Por ora, centremos a ateno no essencial: o componente ideolgico - marxista, classista e revolucionrio - central retomada da perspectiva transformadora. Materializa-se em homens e mulheres militantes, conscientes, que adotam uma perspectiva de ruptura com a ordem atual, dedicam energias ao movimento transformador, organizados em seu partido de classe. Sem homens e mulheres assim no h partido de ao revolucionria. Como o fazem e em que condies - e como se formam tais homens e mulheres -, nos remete questo de alimentar a perspectiva ideolgica dessa formao partidria hoje, tema extremamente atual e empenhado.

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  • O QUE LER

    Lnin, V.I. Que fazer? A obra ainda fundamental compreenso do tema e pode ser estudada em ligao com copiosa literatura de Lnin sobre a matria. Alm disso, so teis textos que fazem uma abordagem histrico-crtica do significado dessa obra no seu contexto histrico e seu sentido clssico. Entre outros:

    Burgio, Alberto. "Per una lettura del Che Fare? oggi". In: Lnin e il Novecento, sob cura de Domenico Losurdo e Ruggero Giacomini, p. 447-469, Istituto Italiano per gli Studi Filosofici, La citt del sole, Itlia, 1997.

    Monty Johnstone. "Um instrumento poltico de tipo novo: o partido leninista de vanguarda". In: Histria do Marxismo, org. Eric Hobsbawm, vol 6, p. 13-41, Paz e Terra, 1988.

    Luciano Gruppi. O pensamento de Lnin - O partido revolucionrio, p. 19-47, Graal, 1979.

    Valentino Gerratana. "Stalin, Lnin e o marxismo-leninismo". In: Histria do Marxismo, org. Eric Hobsbawm, vol 9, p. 221-247, Paz e Terra, 1987.

    Entre ns, Loreta Valadares e Augusto Buonicore tm vrios artigos publicados em Princpios e A Classe Operria sobre o mesmo tema. A Classe Operria publicou Ficha de Leitura e Debate de Que Fazer?, elaborada por Loreta Valadares sob direo da Comisso Nacional de Formao.

    (Publicado em 21/6/2002)

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  • A QUESTO IDEOLGICA E A PERSPECTIVA MILITANTE

    alamos no ltimo artigo sobre a centralidade de repor e alimentar o trabalho ideolgico voltado a dotar de

    conscincia, vontade e coeso homens e mulheres militantes da causa transformadora. Os problemas da estruturao partidria, relacionados esfera ideolgica, seguem sendo centrais neste perodo histrico marcado pela apostasia e pela crise da perspectiva transformadora. No se constri um partido revolucionrio sem confiana no projeto transformador, coeso, unidade e disciplina de suas fileiras militantes. Isso implica em repor o carter militante do partido comunista, sua dedicao luta dos trabalhadores e os valores ticos e morais de militncia.

    F

    Malgrado as presses que se manifestam contra a poltica, - os partidos polticos e a militncia poltica, tendendo a desacredit-los, lan-los na vala comum -, a experincia histrica do movimento revolucionrio indica ser necessrio perseverar no cultivo daqueles valores. Muitas organizaes de esquerda, a ttulo de adaptao aos novos tempos, enfraqueceram o primado ideolgico e acabaram por se transformar em agrupamentos de centro-esquerda, renegando o marxismo e a perspectiva classista. Pensemos no caso do ex-PCI e, no Brasil mesmo, do PPS. Outros movimentos de esquerda do uma resposta de negao da perspectiva partidria, substituindo-a pelo movimentismo, muitas vezes inorgnico e sem um projeto de poder. Pensemos no zapatismo, por exemplo. Contudo, uma resposta de engessamento, tratando de forma reducionista o primado do fator consciente, sem confrontar a crise do socialismo e do marxismo, e sem apreender o movimento real com sua carga inevitvel de renovao das formas de conscincia, luta e organizao, foi uma resposta que desarmou ideologicamente o proletariado. Pensemos no

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  • papel de vrios partidos comunistas pr-soviticos na crise da URSS desde 1956 e na queda do Leste europeu no fim dos anos 1980.

    As respostas a dar no devem enfraquecer o primado do consciente, o papel do partido como o fator de ligao da teoria com o movimento espontneo. Entretanto, isso se d em condies muito modificadas e desfavorveis hoje. Retomamos, aqui, de forma sinttica, algumas formulaes a esse respeito feitas no 10o Congresso.

    Uma de suas formulaes a de atuarmos em um quadro de estratgia defensiva. A atual gerao de quadros dirigentes vem de um tempo marcado pela perspectiva da revoluo no horizonte da prpria gerao e, em geral, pela idia de uma estratgia insurrecional. A gerao que adentra o Partido ou que ingressa na luta dos trabalhadores hoje no tem, nem poderia ter, a mesma perspectiva. Alimentar o ethos militante, nessas circunstncias, exige um outro repertrio de trabalho ideolgico.

    Outra formulao: a prpria realidade e conscincia social que no cessam de se alterar em movimento contraditrio a ser apreendido pela prtica e reelaborado pela teoria. Hoje, ao lado da crise de militncia poltica, geram-se mltiplas militncias, ou militncias de mltiplas causas, atraindo diversos estratos da sociedade, na forma de trabalho voluntrio, defesa do meio ambiente, a causa feminista, anti-racial, em torno de valores e comportamentos - muitas delas com marcado contedo humanstico e solidrio. Especialmente, surge uma histrica manifestao crtica anticapitalista, de carter global, expressa nos movimentos que fizeram os Fruns Sociais Mundiais. De certo modo, o movimento espontneo que no cessa de se repor, criando novas formas de luta e organizao e mesmo novos sujeitos.

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  • Melhor falar, ento, na emergncia de uma nova militncia, que alimentar a luta por u