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1559 leia algumas paginas

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Text of 1559 leia algumas paginas

  • 3 Edio: revista, ampliada e atualizada

    2015

    PAULO LPORE Advogado. Professor de Direito Constitucional e de Direito da Criana

    e do Adolescente. Doutor em Servio Social e Mestre em Direito. Coordenador de colees e autor de diversos livros para concursos pblicos.

    Contato: www.paulolepore.com.brContato: www.paulolepore.com.brContato: www.paulolepore.com.br

    Facebook: Paulo Lpore Twitter: @paulolepore

    HENRIQUE CORREIA (Organizador da Coleo)

    Procurador do Trabalho. Professor de Direito do Trabalho do Praetorium e do LFG. Autor e Coordenador de diversos livros para concursos pblicos.

    Contato: [email protected] Contato: [email protected] Contato: [email protected]

    www.henriquecorreia.com.br @profcorreia

    Para os concursos de Analista e Tcnico de Tribunais e MPUINCLUI: Teoria Dicas e alertas sobre as formas de cobrana de cada tema pelas principais bancas examinadoras Questes comentadas Questes de concursos separadas por temas

    DESTAQUES: Atualizao at a Emenda Constitucional 85/2015 Ampla coletnea juris-prudencial do STF Captulo de controle de constitucionalidade ampliado e aprofundado, incluindo "temas especiais" Texto constitucional e legis-lao infraconstitucional pertinente a cada captulo Edital sistematizado

    Para os concursos de Analista e Tcnico de Tribunais e MPU

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    Teoria da Constituio

    CAPTULO ITeoria da Constituio

    Sumrio: 1. Conceito de Constituio e supremacia constitucional: 1.1. Constituio sociolgica; 1.2. Constituio poltica; 1.3. Constituio jurdica; 1.4. Constituio culturalista; 1.5. Constituio aberta 2. Poder constituinte: 2.1. Ideia ou teoria clssica de poder constituinte; 2.2. Espcies de poder constituinte: 2.2.1. Poder constituinte originrio (tambm denominado como genuno, primrio ou de primeiro grau); 2.2.2. Poder constituinte deri-vado reformador (tambm denominado de reforma, secundrio, de segundo grau, institudo ou constitudo); 2.2.3. Poder constituinte derivado decorrente; 2.3. Limitaes ao poder constituinte derivado reformador 3. Classificao das Constituies: 3.1. Quanto origem; 3.2. Quanto ao contedo; 3.3. Quanto forma; 3.4. Quanto estabilidade/mutabilidade/alterabilidade; 3.5. Quanto extenso; 3.6. Quanto finalidade; 3.7. Quanto ao modo de elaborao; 3.8. Quanto ideologia; 3.9. Quanto ao valor ou ontologia (Karl Loewestein); 4. Mximas quanto s classificaes das Constituies 5. Classificao da Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988 6. Componentes e elementos da Constituio: 6.1. Componentes da Constituio: 6.1.1. Prembulo; 6.1.2. Corpo ou articulado; 6.1.3. ADCT; 6.2. Elementos da Constituio 7. Eficcia e aplicabilidade das normas constitucionais 8. Princpios de interpretao constitucional: 8.1. Princpios de interpretao constitucional enunciados por Canotilho; 8.2. Outros princpios de interpretao constitucional 9. Mtodos de interpretao constitucional 10. Coliso de direitos fundamentais 11. Questes comentadas 12. Questes de concursos.

    1. CONCEITO DE CONSTITUIO E SUPREMACIA CONSTITUCIONALBasicamente pode-se dizer a Constituio a norma suprema que rege a orga-

    nizao de um Estado Nacional.

    Entretanto, no h na doutrina um consenso sobre o conceito de Constituio.

    Nesse sentido, todas as concepes que traduzem diferentes conceitos de Cons-tituio devem ser estudadas.

    1.1. Constituio sociolgica Idealizada por Ferdinand Lassalle, em 1862, Constituio sociolgica aquela

    que deve traduzir a soma dos fatores reais de poder que rege determinada na-o, sob pena de se tornar mera folha de papel escrita, que no corresponde Constituio real.

    1.2. Constituio poltica Desenvolvida por Carl Schmitt em 1928, Constituio poltica aquela que de-

    corre de uma deciso poltica fundamental e se traduz na estrutura do Estado e dos Poderes e na presena de um rol de direitos fundamentais. As normas que no traduzirem a deciso poltica fundamental no sero Constituio propriamente dita, mas meras leis constitucionais.

    Ligado concepo poltica de Constituio de Carl Schmitt est o conceito de Constituio material, que se traduz no arcabouo de normas que tratam da

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    Pauo Lore

    organizao do poder, da forma de governo, da distribuio da competncia, dos direitos da pessoa humana (considerados os sociais e individuais) e do exerccio da autoridade, ou seja, refere-se composio e ao funcionamento da ordem poltica.

    1.3. Constituio jurdicaFundada nas lies de Hans Kelsen, nos idos de 1934, Constituio jurdica

    aquela que se constitui em norma hipottica fundamental pura, que traz fundamen-to transcendental para sua prpria existncia (sentido lgico-jurdico), e que, por se constituir no conjunto de normas com mais alto grau de validade, deve servir de pressuposto para a criao das demais normas que compem o ordenamento jurdico (sentido jurdico-positivo).

    Na concepo jurdico-positiva de Hans Kelsen, a Constituio ocupa o pice da pirmide normativa, servindo como paradigma mximo de validade para todas as demais normas do ordenamento jurdico. Em outras palavras: as leis e os atos infralegais so hierarquicamente inferiores Constituio e, por isso, somente sero vlidos se no contrariarem as normas da Constituio.

    PIRMIDE NORMATIVA

    Constituio

    Leis

    Atos infralegais

    1.4. Constituio culturalista Identifi cada por Michele Ainis, em 1986, Constituio culturalista aquela que

    representa o fato cultural, ou seja, que disciplina as relaes e direitos fundamentais pertinentes cultura, tais como a educao, o desporto e a cultura em sentido estrito.

    1.5. Constituio aberta Idealizada por Peter Hberle, em 1975, Constituio aberta aquela interpreta-

    da por todo o povo e em qualquer espao, e no apenas pelos juristas nos bojos dos processos.

    2. PODER CONSTITUINTE 2.1. Ideia ou teoria clssica de poder constituinte

    Segundo Emmanuel Joseph Sieys, na obra Que o terceiro Estado?, a soberania popular consiste essencialmente no poder constituinte do povo.

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    Teoria da Constituio

    Canotilho afirma que o poder constituinte tem suas razes em uma fora geral da Nao.1

    Assim, a fora geral da Nao atribui ao povo o poder de dirigir a organizao do Estado, o que se convencionou chamar de poder constituinte.

    Munido do poder constituinte, o povo atribui parcela dele a rgos estatais especializados, que passam a ser denominados de Poderes (Executivo, Legislativo e Judicirio).

    Portanto, o poder constituinte de titularidade do povo, mas o Estado, por meio de seus rgos especializados, que o exerce.

    Sobre o tema, esclarecedora a redao do art. 1, pargrafo nico, da CF: Todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituio.

    2.2. Espcies de poder constituinteTrs so as espcies de poder constituinte: originrio, derivado reformador e

    derivado decorrente.

    2.2.1. Poder constituinte originrio (tambm denominado como genuno, pri-mrio ou de primeiro grau)

    aquele que cria a primeira ou a nova Constituio de um Estado.

    Para atingir seu objetivo, ele inicial (no existe outro poder anterior ou superior a ele) autnomo (o poder constituinte determina a estrutura da nova Constituio), ilimitado (tem autonomia para escolher o Direito que ir viger, ou seja, no se subor-dina a nenhuma ideia jurdica preexistente), incondicionado ( dotado de liberdade quanto aos procedimentos adotados para a criao da Constituio, ou seja, no precisa seguir nenhuma formalidade preestabelecida) e permanente ([...] j que o poder constituinte originrio no se esgota com a edio da nova Constituio, sobrevivendo a ela e fora dela como forma de expresso da liberdade humana, em verdadeira ideia de subsistncia.2).

    2.2.2. Poder constituinte derivado reformador (tambm denominado de re-forma, secundrio, de segundo grau, institudo ou constitudo)

    o responsvel pela reforma da Constituio, que no Brasil se d via emenda constitucional (art. 60 da CF) ou por meio da incorporao de tratados internacionais de direitos humanos (art. 5, 3, da CF).

    1. CANOTILHO, Jos Joaquim Gomes. Direito constitucional e teoria da Constituio. 7. ed. Coimbra: Almedina, 2003, p. 58-84.

    2. LENZA, Pedro. Direito constitucional esquematizado. 16. ed. So Paulo: Saraiva, 2012, p. 186.

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    Paulo Lpore

    Vale notar que a CF de 1988 no prev expressamente o poder constituinte derivado, mas este se encontra implcito e se extrai, por exemplo, da norma cons-titucional que prev a edio de emendas Constituio (art. 60 da CF).

    2.2.3. Poder constituinte derivado decorrente aquele exercido pelos Estados-membros na construo das Constituies Es-

    taduais, consoante art. 25 da CF.Tal prerrogativa decorre da capacidade de auto-organizao que tm os Esta-

    dos, mas que sempre est limitada pelo dever de respeito s normas contidas na Constituio Federal.

    Encerrando a disciplina das espcies de poder constituinte, destacamos que no h manifestao de poder constituinte (originrio, derivado, ou decorrente) nos Municpios, pois estes tm sua estruturao jurdica dada por meio de Lei orgnica, no de Constituio (art. 29 da CF).

    2.3. Limitaes ao poder constituinte derivado reformador

    O poder constituinte derivado reformador o que merece ser estudado com mais afinco, pois seu tratamento tem inmeros desdobramentos no texto constitucional, gerando vasta produo doutrinria e inmeras manifestaes judiciais sobre o tema.

    Um dos tpicos mais importantes aquele referente s limitaes ao poder constituinte derivado reformador. Segundo a doutrina, as limitaes se subdividem em: 1. temporais; 2. circunstanciais; 3. formais; e 4. materiais.

    1. Temporais: so as que impedem a alterao da Constituio por um determi-nado perodo de tempo. A CF/88 no prev nenhuma limitao temporal.

    2. Circunstanciais: so aquelas que impedem a alterao da Constituio em momentos de extrema gravidade, nos quais a livre manifestao do poder reformador possa estar ameaada, o que se d, por exemplo, na interveno federal, no estado de defesa e no estado de stio (c.f. art. 60, 1 da CF).

    f CUIDADO!No confunda as limitaes circunstancias com as temporais!

    3. Formais/processuais/procedimentais: podem ser de duas espcies: subjetiva ou objetiva3.1. Formal subjetiva: refere-se existncia de legitimados especficos para a

    propositura de emendas constitucionais, consoante art. 60, caput, da CF.3.2. Formal objetiva: traduz a necessidade de qurum qualificado de trs

    quintos, em dois turnos, em cada Casa do Congresso Nacional, com pro-mulgao pelas mesas do Senado Federal e da Cmara dos Deputados, para a edio de emendas constitucionais (art. 60, 2, da CF).

    4. Materiais/substanciais: versam sobre matrias que no podem ser objeto de emenda, o que a doutrina denomina de clusulas ptreas.

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    As clusulas ptreas (de pedra, duras) esto dispostas no art. 60, 4, da CF: I a forma federativa de Estado; II o voto direto, secreto, universal e peridico; III a separao dos Poderes; IV os direitos e garantias individuais. No ser objeto de deliberao a proposta de emenda constitucional tendente a aboli-las.

    Vale ressaltar que o STF entende que os direitos e garantias individuais consi-derados clusulas ptreas no se restringem queles expressos no elenco do art. 5 da CF, ou seja, esto presentes tambm em outros dispositivos constitucionais.

    Isso porque o Supremo Tribunal Federal admitiu interpretao extensiva para a definio de direitos anlogos, que so aqueles que tm a natureza de direitos e garantias individuais mesmo estando fora do art. 5 da CF, o que restou claro na ADI 939, julgada em 1993 e relatada pelo Ministro Sydney Sanches, que considerou direito e garantia individual a anterioridade tributria, consoante art. 5, 2, art. 60, 4, IV, e art. 150, III, b, todos da CF.

    Ademais, o STF considera que os limites materiais ao poder constituinte de reforma no significam a intangibilidade literal da disciplina dada ao tema pela Constituio originria, mas sim a proteo do ncleo essencial dos princpios e institutos protegidos pelas clusulas ptreas, consoante ADI 2.024, julgada em 2007 e relatada pelo Ministro Seplveda Pertence.

    5. Implcitas: so aquelas que se referem vedao para alterao das regras pertinentes ao processo para modificao da Constituio. Por exemplo: no se pode alterar a titularidade do poder constituinte (art. 1, pargrafo nico, c.c. art. 60, caput, ambos da CF) e nem revogar o dispositivo constitucional que impe a limitao material (art. 60, 4, da CF).

    f LIMITAES AO PODER CONSTITUINTE DERIVADO1. Temporais

    2. Circunstanciais

    3. FormaisFormal subjetivaFormal objetiva

    4. Materiais

    5. Implcitas

    f ATENO!A Esaf entende que as limitaes ao poder constituinte derivado classificam-se de modo diferente. Para essa banca examinadora existem limitaes explcitas (que englobam as circunstanciais e as materiais) e implcitas (que se confundem com as formais/processuais/ procedimentais).

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    3. CLASSIFICAO DAS CONSTITUIES

    Inmeros so os critrios a partir dos quais pode ser realizada a classificao das Constituies. Estudaremos cada critrio separadamente e depois faremos a classificao da Constituio Federal de 1988.

    3.1. Quanto origem

    Quanto origem, a Constituio pode ser: a) democrtica ou promulgada ou popular; b) outorgada; ou c) cesarista, bonapartista, plebiscitria ou referendria.

    a) Democrtica ou promulgada ou popular: elaborada por legtimos repre-sentantes do povo, normalmente organizados em torno de uma Assembleia Constituinte.

    Exemplos: Constituies brasileiras de 1891, 1934, 1946 e 1988.

    b) Outorgada: aquela elaborada sem a presena de legtimos representantes do povo, imposta pela vontade de um poder absolutista ou totalitrio, no democrtico.

    Exemplos: Constituies brasileiras de 1824, 1937 e 1967.

    c) Cesarista, bonapartista, plebiscitria ou referendria: aquela criada por um ditador ou imperador e posteriormente submetida aprovao popular por plebiscito ou referendo.

    Exemplos: Constituies Bonapartistas (submetidas a plebiscitos ela-borados por Napoleo I) e Cartas Plebiscitrias do Chile (com plebiscitos capitaneados por Pinochet).

    3.2. Quanto ao contedo

    Quanto ao contedo a Constituio pode ser: a) formal/procedimental; ou b) material/substancial.

    a) Formal/procedimental: compe-se do que consta em documento solene, independentemente do contedo.

    Exemplos: todas as Constituies brasileiras.

    b) Material/substancial: composta apenas por regras que exteriorizam a forma de Estado, organizaes dos Poderes e direitos fundamentais. Por-tanto, suas normas so aquelas essencialmente constitucionais, mas que podem ser escritas ou costumeiras, pois a forma tem importncia secun- dria.

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    Teoria da Constituio

    Exemplo: a Constituio brasileira de 1824 considerava materialmente constitucional apenas o que dissesse respeito aos limites e atribuies dos poderes e direitos polticos, inclusive os individuais dos cidados.3

    f ATENO!As Constituies formais normalmente esto repletas de normas materialmente constitu-cionais, o que torna possvel afirmar-se que, em regra, as Constituies formais trazem contedo de Constituio material. o caso da Constituio brasileira de 1988, em que os ttulos I (princpios fundamentais), II (direitos e garantias fundamentais), III (organizao do Estado) e IV (organizao dos Poderes) revelam normas materialmente constitucionais.

    3.3. Quanto forma

    Quanto forma, a Constituio pode ser: a) Escrita; ou b) No escrita.

    a) Escrita/instrumental: formada por um texto.

    a.i) Escrita legal: formada por texto oriundo de documentos esparsos ou fragmentados.

    Exemplos: Constituies belga de 1830 e francesa de 1875.a.ii) Escrita codificada: formada por texto inscrito em documento nico.

    Exemplos: todas as Constituies brasileiras.b) No escrita/costumeira/consuetudinria: identificada a partir dos costumes,

    da jurisprudncia predominante e at mesmo por documentos escritos (por mais contraditrio que possa parecer). Mas, como esclarece Dirley da Cunha Jnior, [...] no existe Constituio inteiramente no escrita ou costumeira, pois sempre haver normas escritas compondo o seu contedo. A Constituio inglesa, por exemplo, compreende importantes textos escritos, mas espar-sos no tempo e no espao, como a Magna Carta (1251), o Petition of Rights (1628), o Habeas Corpus Act (1679), o Bill of Rights (1689), entre outros.4

    Exemplo: Constituio inglesa.

    3.4. Quanto estabilidade/mutabilidade/alterabilidadeQuanto estabilidade/mutabilidade/alterabilidade, a Constituio pode ser: a)

    imutvel; b) fixa; c) rgida; d) flexvel; e) semirrgida/semiflexvel/mista.

    a) Imutvel: no prev nenhum processo para sua alterao.

    Exemplo: a Constituio brasileira de 1824 foi provisoriamente imutvel por um perodo de 4 anos aps a sua outorga, tendo em vista o que previa

    3. BULOS, Uadi Lammgo. Curso de direito constitucional. 2 ed. So Paulo: Saraiva, 2008, p. 44.4. CUNHA JNIOR, Dirley da. Curso de direito constitucional. 6. ed. Salvador: Juspodivm, 2012, p. 120.

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    o seu art. 174: Se passados quatro anos, depois de jurada a Constituio do Brasil, se conhecer, que algum dos seus artigos merece reforma, se far a proposio por escrito, a qual deve ter origem na Cmara dos Deputados, e ser apoiada pela tera parte deles.5

    b) Fixa: s pode ser alterada pelo poder constituinte originrio, [...] circuns-tncia que implica, no em alterao, mas em elaborao, propriamente, de uma nova ordem constitucional [...].6

    Exemplos: Carta espanhola de 1876 e Estatuto do Reino da Sardenha de 1848.

    c) Rgida: aquela em que o processo para a alterao de qualquer de suas normas mais difcil do que o utilizado para criar leis.

    Exemplos: Constituies brasileiras de 1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988.

    d) Flexvel: aquela em que o processo para sua alterao igual ao utilizado para criar leis.

    Exemplos: Constituies da Inglaterra, da Finlndia e da Nova Zelndia.e) Semirrgida/semiflexvel/mista: aquela dotada de parte rgida (em que

    somente pode ser alterada por processo mais difcil do que o utilizado para criar leis), e parte flexvel (em que pode ser alterada pelo mesmo processo utilizado para criar leis).

    Exemplos: Constituies brasileira de 1824 e irlandesa de 1922.

    f ATENO!Alexandre de Moraes entende que tambm existe a Constituio super-rgida. Segundo o autor, a Constituio Federal de 1988 pode ser considerada como super-rgida, uma vez que em regra poder ser alterada por um processo legislativo diferenciado, mas, excepcionalmente, em alguns pontos imutvel (CF, art. 60, 4 clusulas ptreas). A posio do referido autor compartilhada pela banca da FGV.

    3.5. Quanto extensoQuanto extenso, a Constituio pode ser: a) sinttica; ou b) analtica.

    a) Sinttica: a Constituio que regulamenta apenas os princpios bsicos de um Estado, organizando-o e limitando seu poder, por meio da estipulao de direitos e garantias fundamentais.

    Exemplo: Constituio dos Estados Unidos da Amrica de 1787 (com apenas 7 artigos).

    5. CUNHA, JNIOR, Dirley da. Op. Cit. p. 122.6. CUNHA JNIOR, Dirley da. Op. Cit., p. 122-123.

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    b) Analtica: a Constituio que vai alm dos princpios bsicos e dos direitos fundamentais, detalhando tambm outros assuntos, como ordem econmica e social.

    Exemplo: Constituio brasileira de 1988.

    3.6. Quanto finalidade

    Quanto finalidade, a Constituio pode ser: a) garantia/liberal/defensiva/negativa; ou b) dirigente.

    a) Garantia/liberal/defensiva/negativa: contm proteo especial s liberdades pblicas.

    b) Dirigente: confere ateno especial implementao de programas pelo Estado.

    f ATENO!A Constituio brasileira , ao mesmo tempo, garantia/liberal/defensiva/negativa e dirigente.

    c) Balano: apenas descreve e registra a organizao poltica estabelecida, fazendo um balano da situao vivenciada em dado momento histrico.

    Exemplos: Constituies soviticas de 1924, 1936 e 1977.

    3.7. Quanto ao modo de elaborao

    Quanto ao modo de elaborao, a Constituio pode ser: a) dogmtica ou; b) histrica.

    a) Dogmtica: sistematizada a partir de ideias fundamentais.

    Exemplo: Constituio brasileira de 1988.b) Histrica: de elaborao lenta, pois se materializa a partir dos costumes,

    que se modificam ao longo do tempo.

    Exemplo: Constituio inglesa.

    3.8. Quanto ideologia

    Quanto ideologia, a Constituio pode ser: a) ortodoxa; ou b) ecltica.

    a) Ortodoxa: forjada sob a tica de somente uma ideologia.

    Exemplos: Constituies soviticas de 1923, 1936 e 1977.b) Ecltica: fundada em valores plurais.

    Exemplos: Constituies brasileira de 1988 e portuguesa de 1976.

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    3.9. Quanto ao valor/essncia ou ontologia (Karl Loewestein)Quanto ao valor/essncia ou ontologia, a Constituio pode ser: a) normativa;

    b) nominal; ou c) semntica.

    a) Normativa: dotada de valor jurdico legtimo.

    Exemplo: Constituio brasileira de 1988.7

    b) Nominal: sem valor jurdico, apenas social. Uma Constituio de fachada.8

    Exemplos: Constituies brasileiras de 1891, 1934 e 1946.c) Semntica: tem importncia jurdica, mas no valorao legtima, pois

    criada apenas para justificar o exerccio de um Poder no democrtico.

    Exemplos: Constituies brasileiras de 1937 e 1967.

    4. MXIMAS QUANTO S CLASSIFICAES DAS CONSTITUIES

    Como o tema muito explorado nos concursos para Tribunais e MPU, elaboramos algumas mximas para facilitar o aprendizado e a resoluo das questes.

    a) Toda Constituio rgida escrita, pois no h rigidez em uma Constituio no escrita ou costumeira.

    b) Nem toda Constituio escrita rgida, pois a Constituio formada por um texto pode ser imutvel, fixa, rgida, flexvel ou semiflexvel.

    c) Toda Constituio costumeira , ao menos conceitualmente, flexvel, pois seu processo de alterao no se diferencia do que se utiliza para a alterao de qualquer outra norma que discipline o convvio social.

    5. CLASSIFICAO DA CONSTITUIO DA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 1988

    Aps o estudo dos diversos critrios de classificao das Constituies e do esta-belecimento de mximas relativas ao tema, passamos classificao da Constituio da Repblica Federativa do Brasil de 1988, pois matria comumente cobrada nos concursos. Para facilitar a memorizao, elaboramos o seguinte quadro:

    7. Uadi Lammgo Bulos pensa diferente. Para o referido doutrinador, a Constituio de 1988 nominal. (Op. Cit., p. 42).

    8. CUNHA JNIOR, Dirley da. Op. Cit. p. 127.

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    Teoria da Constituio

    f CLASSIFICAO DA CONSTITUIO DA REPBLICA FEDERATIVA DO BRASIL DE 19881. Democrtica ou pro-

    mulgada ou popular Elaborada por legtimos representantes do povo

    2. Formal Documento solene

    3. Escrita codificada Formada por texto inscrito em documento nico

    4. Rgida ou super-rgida

    Rgida: seu processo de alterao mais difcil do que o utilizado para criar leis; Super-rgida: alm de o seu processo de alterao ser mais difcil do que o utilizado para criar leis, ela tem uma parte imutvel (clusulas ptreas)

    5. Analtica Vai alm dos princpios bsicos, trazendo detalhamento tambm de outros assuntos

    6. Garantia/liberal/defensiva/negativa e Dirigente

    Contm proteo especial s liberdades pblicas e confere ateno especial implementao de programas pelo Estado

    7. Dogmtica Sistematizada a partir de ideias fundamentais

    8. Ecltica Fundada em valores plurais

    9. Normativa Tem valor jurdico legtimo (no apenas social)

    6. COMPONENTES E ELEMENTOS DA CONSTITUIO

    6.1. Componentes da Constituio

    A Constituio da Repblica Federativa do Brasil tem trs componentes: a) pre-mbulo; b) corpo ou articulado; e c) ADCT.

    6.1.1. Prembulo

    Designa o texto introdutrio Constituio.

    Segundo posio exarada pelo STF no bojo da ADI 2.076, julgada em 2002, o prembulo da Constituio da Repblica no tem fora normativa, figurando como mero vetor interpretativo. Em seu voto, Celso de Mello sustentou que o prembulo no se situa no mbito do direito, mas no domnio da poltica, refletindo posio ideolgica do constituinte. Ademais, ele conteria proclamao ou exortao no sen-tido dos princpios inscritos na Constituio Federal.

    Quanto natureza jurdica do prembulo, a posio do STF filia-se tese da irrelevncia jurdica, afastando-se da tese da plena eficcia (que defende ter o pre-mbulo a mesma eficcia das normas que constam da parte articulada da CF) e da tese da relevncia jurdica indireta (para a qual o prembulo parte da Constituio, mas no dotado das mesmas caractersticas normativas da parte articulada). Por essa razo, tambm no serve de parmetro para controle de constitucionalidade.

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    Esse posicionamento do STF serviu para definir que a invocao proteo de Deus, constante do prembulo da Constituio da Repblica vigente, somente denota inspirao do constituinte, no violando a liberdade religiosa que permeia o Estado brasileiro.

    6.1.2. Corpo ou articuladoComo a prpria denominao esclarece, a parte densa da Constituio que

    se encontra disposta em artigos e que tem vigncia perene, ou seja, que tende a vigorar e ter eficcia por um longo espao de tempo.

    Refere-se aos Ttulos I a X da CF, compostos pelos artigos 1 a 250.

    6.1.3. ADCTTrata-se do ato das disposies constitucionais transitrias, composto por normas

    de eficcia exaurvel. Exaurvel porque seus dispositivos tendem a ter eficcia tem-porria, pois so normas que servem apenas transio e depois perdem a funo.

    Ex.: art. 2 do ADCT: No dia 7 de setembro de 1993 o eleitorado definir, atravs de plebiscito, a forma (repblica ou monarquia constitucional) e o sistema de governo (parlamentarismo ou presidencialismo) que devem vigorar no Pas.

    Assim, o ADCT a parte da Constituio destinada a realizar a transio do regime constitucional anterior para o atual.

    6.2. Elementos da Constituio Segundo Jos Afonso da Silva, a Constituio tem os seguintes elementos:9

    a) Elementos orgnicos: regulam a estrutura do Estado e do Poder.

    Ex.: art. 2 da CF: So Poderes da Unio, independentes e harmnicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judicirio.

    b) Elementos limitativos: referem-se aos direitos fundamentais, que limitam a atuao do Estado, protegendo o povo.

    Ex.: art. 5, caput, da CF: Todos so iguais perante a lei, sem distino de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros resi-dentes no Pas a inviolabilidade do direito vida, liberdade, igualdade, segurana e propriedade, nos termos seguintes.

    c) Elementos socioideolgicos: revelam o compromisso do Estado em equilibrar os ideais liberais e sociais ao longo do Texto constitucional.

    Ex.: art. 1, IV, da CF: A Repblica Federativa do Brasil, formada pela unio indissolvel dos Estados e Municpios e do Distrito Federal, constitui-se

    9. SILVA, Jos Afonso da. Curso de direito constitucional positivo. 6. ed. So Paulo: Malheiros, 1990, p. 43-44.

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    em Estado Democrtico de Direito e tem como fundamentos: [...] IV os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa.

    d) Elementos de estabilizao constitucional: asseguram a soluo de conflitos institucionais entre Poderes e tambm protegem a integridade do Estado e da prpria Constituio.

    Ex.: art. 34, I, da CF: A Unio no intervir nos Estados nem no Distrito Federal, exceto para: I manter a integridade nacional.

    e) Elementos formais de aplicabilidade: referem-se s regras de interpretao e aplicao da Constituio, a exemplo do prembulo, do ADCT, e da aplica-bilidade imediata dos direitos e garantias fundamentais (art. 5, 1, da CF).

    7. EFICCIA E APLICABILIDADE DAS NORMAS CONSTITUCIONAISNo que tange eficcia e aplicabilidade, segundo classificao de Jos Afonso

    da Silva, as normas constitucionais podem ser: plenas, contidas e limitadas.

    a) Normas de eficcia plena: so aquelas dotadas de aplicabilidade direta, imediata e integral, pois no necessitam de lei infraconstitucional para torn-las aplicveis e nem admitem lei infraconstitucional que lhes restrinja o contedo. Em outras palavras: elas trazem todo o contedo necessrio para a sua materializao prtica. So entendidas como de aplicabilidade direta, imediata e integral, pois no necessitam de lei infraconstitucional.

    Ex.: Braslia a capital federal (art. 18, 1, da CF).b) Normas de eficcia contida ou restringvel: so aquelas que tm aplicabi-

    lidade direta, imediata, mas no integral, pois admitem que seu contedo seja restringido por norma infraconstitucional nos casos e na forma que a lei estabelecer. Em outras palavras, pode-se dizer que so aquelas em que o constituinte regula suficientemente os interesses concernentes a determi-nada matria, mas deixa margem atuao restritiva por parte da compe-tncia discricionria do Poder Pblico, nos termos que a lei estabelecer ou nos termos de conceitos gerais nelas enunciados. Trata-se do que ocorre, por exemplo, com o enunciado que garante o livre exerccio de qualquer trabalho, ofcio ou profisso, atendidas as qualificaes profissionais que a lei estabelecer (art. 5, XIII, da CF).

    Para ilustrar: a funo de advogado somente pode ser exercida se atendida a qualificao profissional de ser bacharel em direito, aprovado no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (art. 8, IV, da Lei 8.906/94).

    c) Normas de eficcia limitada: so aquelas que possuem aplicabilidade indireta, mediata e reduzida (no direta, no imediata e no integral), pois exigem norma infraconstitucional para que se materializem na prtica. Elas podem ser de princpio programtico ou princpio institutivo.

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    c.1) Normas de eficcia limitada de princpio programtico (tambm re-feridas apenas como normas programticas): so aquelas que no regulam diretamente interesses ou direitos nelas con sagrados, mas se limitam a traar alguns preceitos a serem cumpridos pelo Poder Pblico, como programas das respectivas atividades, pretendendo unicamente a consecuo dos fins sociais pelo Estado. Pode-se citar como exemplo a determinao de organizao de um regime de colaborao dos sistemas de ensino dos entes da Federao (art. 211 da CF).

    c.2) Normas de eficcia limitada de princpio institutivo: so aquelas res-ponsveis pela estruturao do Estado como, por exemplo, a norma segundo a qual os territrios federais integram a Unio, e sua criao, transformao em Estado ou reintegrao ao Estado de origem sero reguladas em lei complementar (art. 18, 2, da CF).

    f CLASSIFICAO DAS NORMAS CONSTITUCIONAIS QUANTO EFICCIAa) Eficcia plena

    b) Eficcia contida

    c) Eficcia limitadac.1) Princpio programtico (Programticas)c.2) Princpio institutivo

    8. PRINCPIOS DE INTERPRETAO CONSTITUCIONAL

    Os princpios de interpretao constitucional normalmente tratados pela doutrina e que so cobrados em provas dos concursos para Tribunais e MPU so os arrolados por Canotilho.10 Faremos abordagem pontual de cada um.

    8.1. Princpios de interpretao constitucional enunciados por Canotilho

    a) Princpio da unidade da Constituio: preceitua que a interpretao cons-titucional deve ser realizada tomando-se as normas constitucionais em conjunto, como um sistema unitrio de princpios e regras, de modo que sejam evitadas contradies (antinomias aparentes) entre elas.

    b) Princpio do efeito integrador ou da eficcia integradora: traz a ideia de que as normas constitucionais devem ser interpretadas com objetivo de integrar poltica e socialmente o povo de um Estado Nacional.

    c) Princpio da mxima efetividade ou eficincia: exige que o intrprete otimize a norma constitucional para dela extrair a maior efetividade, evitando, sem-pre que possvel, solues que impliquem a no aplicabilidade da norma, guardando estreita relao com o princpio da fora normativa.

    10. CANOTILHO, Jos Joaquim Gomes. Op. Cit., p. 1.223 e s.s.

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    d) Princpio da conformidade/correo/exatido funcional ou da justeza: limita o intrprete na atividade de concretizador da Constituio, pois impede que ele atue de modo a desestruturar as premissas de organizao poltica previstas no texto constitucional.

    e) Princpio da concordncia prtica ou da harmonizao: a interpretao de uma norma constitucional exige a harmonizao dos bens e valores jurdicos colidentes em um dado caso concreto, de forma a se evitar o sacrifcio total de um em relao a outro.

    f) Princpio da fora normativa: a partir dos valores sociais, o intrprete, em atividade criativa, deve extrair aplicabilidade e eficcia de todas as normas da Constituio, conferindo-lhes sentido prtico e concretizador, em clara relao com o princpio da mxima efetividade ou eficincia. Por meio dele, a Constituio tem fora ativa para alterar a realidade.

    f ATENO!A banca do Cespe frequentemente testa o candidato misturando os princpios da uni-dade, da mxima efetiva ou eficincia, e da concordncia prtica ou harmonizao. Memorize bem o significado de cada um e garanta a pontuao!

    Alm desses enunciados por Canotilho, outros princpios de interpretao cons-titucional tambm so cobrados. Passemos, ento, a analis-los.

    8.2. Outros princpios de interpretao constitucionala) Princpio da razoabilidade ou da proporcionalidade: exige a tomada de

    decises racionais, no abusivas, e que respeitem os ncleos essenciais de todos os direitos fundamentais. Por meio dele, analisa-se se as condutas so adequadas, necessrias e trazem algum sentido em suas realizaes.

    b) Princpio da interpretao conforme11: consiste em conferir a um ato norma-tivo polissmico ou equvoco (que admite vrios sentidos ou significados)12 a interpretao que mais se adapte ao que preceitua a Constituio, sem que essa atividade se constitua em atentado ao prprio texto constitucio-nal. Aplicvel ao controle de constitucionalidade, a interpretao conforme permite que se mantenha um texto legal, conferindo-se a ele um sentido ou interpretao de acordo com os valores constitucionais.

    c) Princpio da presuno de constitucionalidade das leis: traz a ideia de que to-das as normas infraconstitucionais criadas esto de acordo com a Constituio.

    11. Ateno! O Cespe utiliza tcnica da interpretao conforme em vez de princpio da interpretao conforme, mas considera o mesmo significado.

    12. Portanto, no incide sobre ato normativo unvoco, que aquele que admite apenas um sentido ou significado.

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    Toda lei vlida e constitucional at que se prove o contrrio, portanto a presuno de constitucionalidade relativa (juris tantum). Esse princpio ainda tem por misso orientar o judicirio a que declare a inconstitucionalidade de uma norma apenas se ela for patente ou chapada (com vcio evidente e irremedi vel, ou seja, que no permita uma interpretao conforme a Constituio).

    d) Princpio da vedao do retrocesso: significa que uma vez garantido em um ordenamento jurdico, notadamente no texto constitucional, um direito humano (que se torna fundamental pela positivao na Constituio) no pode mais deixar de existir naquela sociedade ou Estado. Tal princpio est implcito nos ordenamentos jurdicos de todos os Pases que reconhecem a importncia e a validade do direito internacional dos direitos humanos.

    9. MTODOS DE INTERPRETAO CONSTITUCIONAL

    O tema dos mtodos de interpretao constitucional normalmente est presente nos editais para TRF e TRE, no sendo costumeiramente cobrado para as provas de TRT. Entretanto, como o perfil das provas para TRT est mudando nos ltimos anos, exigindo mais contedo doutrinrio e jurisprudencial, vale a pena ficar atento e verificar se essa matria no est sendo cobrada em concursos mais novos.

    Para facilitar a apreenso do contedo, trataremos de cada um dos mtodos isoladamente, identificando, entre parnteses, os doutrinadores responsveis pelo desenvolvimento de cada um.

    a) Mtodo Jurdico ou Hermenutico Clssico (Ernest Forsthoff): parte de uma tese da identidade que existiria entre a Constituio e as demais leis, ou seja, ao se considerar a Constituio como uma lei, no haveria porque criar-se um mtodo especfico para interpret-la. Este mtodo se vale basicamente dos seguintes elementos interpretativos: i. gentico (origem do ato); ii. gramatical ou filolgico (anlise textual e literal); iii. histrico (momento e contexto de criao do ato); iv. lgico (no contradio); v. sistemtico (anlise do todo ou conjunto); e vi. teleolgico (finalidade social do ato).

    b) Mtodo Cientfico-espiritual, Valorativo ou Sociolgico (Rudolf Smend): tem como norte o esprito constitucional, ou seja, os valores consagrados nas normas constitucionais. Alm dos valores, levam-se em conta tambm outros fatores extraconstitucionais, como a realidade social e cultural do povo, exigindo-se uma interpretao elstica do texto constitucional, alando a Constituio a instrumento de integrao e soluo de conflitos em busca da construo e da preservao da unidade social.

    c) Mtodo Tpico-problemtico (Theodor Viehweg): trata-se de uma teoria de argumentao jurdica em torno do problema, que atua sobre as aporias por meio dos topoi. Aporia significa a dificuldade de se escolher entre duas

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    opinies contrrias e igualmente racionais sobre um dado problema. Topos, que no plural se escreve os topoi, representa as formas de pensamento, raciocnios, argumentaes, pontos de vista ou lugares comuns. Os topoi so retirados da jurisprudncia, da doutrina, dos princpios gerais de direito e at mesmo do senso comum. Identificado o problema (aporia) busca-se uma soluo por meio dos topoi. Assim, a partir do problema expem-se os argumentos favorveis e contrrios e consagra-se como vencedor aquele capaz de convencer o maior nmero de interlocutores. Esse mtodo tem aplicabilidade nos casos de difcil soluo, denominados como hard cases.

    d) Mtodo Hermenutico-concretizador (Konrad Hesse): aquele em que o intrprete se vale de suas pr-compreenses valorativas para obter o sentido da norma e ento aplic-la resoluo de determinado problema. O contedo da norma somente alcanado a partir de sua interpretao concretizadora, dotada do carter criativo que emana do exegeta. Nesse sentido, o mtodo de Hesse possibilita que a Constituio tenha fora ativa para compreender e alterar a realidade. Mas, nesse mister, o texto consti-tucional apresenta-se como um limite intransponvel para o intrprete, pois se o exegeta passar por cima do texto, ele estar modificando ou rompendo a Constituio, no interpretando-a.

    e) Mtodo Normativo-estruturante (Friedrich Mller) ou Concretista (Paulo Bonavides): aquele em que o intrprete parte do direito positivo para chegar estruturao da norma, muito mais complexa que o texto legal. Nesse caminho, h influncia da jurisprudncia, da doutrina, da histria, da cultura e das decises polticas. Em outras palavras: o exegeta colhe elementos da realidade social para estruturar a norma que ser aplicada.

    f) Mtodo Concretista da Constituio Aberta (Peter Hberle): traz a ideia de que a Constituio deve ser interpretada por todas as pessoas e em quais-quer espaos (abertura interpretativa), e no apenas pelos juristas no bojo de procedimentos formais.

    g) Mtodo da Comparao Constitucional (Peter Hberle): prega a interpretao a partir da comparao entre diversas Constituies.

    Por fim, vale destacar que no existe hierarquia entre os mtodos de interpre-tao constitucional. Segundo Gilmar Ferreira Mendes, Inocncio Mrtires Coelho e Paulo Gustavo Gonet Branco: No por acaso Gustavo Zagrebelsky afirma que no existe na literatura, nem na jurisprudncia, uma teoria de mtodos interpretativos da Constituio que nos esclarea se possvel e mesmo necessrio adotar um mtodo previamente estabelecido ou uma ordem metodolgica concreta, um dado de realidade que, se no configura lacuna inexplicvel, por certo reflete a consci-ncia de que no tem maior significado nos aproximarmos da interpretao atravs dos seus mtodos, ainda que a palavra mtodo, como todos sabem, signifique,

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    precisamente, o caminho a ser percorrido para se alcanar a verdade. (Curso de direito constitucional. 2. ed. So Paulo: Saraiva, 2008, p. 98).

    10. COLISO DE DIREITOS FUNDAMENTAIS

    O embate entre normas ocorrido em mbito constitucional no pode ser conside-rado na mesma perspectiva do conflito entre leis (tambm chamadas de regras), ou seja, como um conflito aparente de normas para cuja soluo seriam utilizados os critrios cronolgico, hierrquico ou da especialidade, na forma do tudo ou nada (all or nothing), em que s se aplica um documento normativo daqueles que aparentemente conflitavam.

    Assim, em toda coliso entre normas constitucionais deve ser respeitado o ncleo intangvel dos direitos fundamentais concorrentes, mas sempre se deve chegar a uma posio em que um prepondere, mas no elimine o outro.

    A coliso em mbito constitucional deve ser resolvida por meio de ponderao. Em cada situao concreta o intrprete e julgador analisar qual norma deve preva-lecer. A ideia sempre essa, mas as provas podem exigir que o candidato conhea os termos tcnicos que se relacionam matria.

    Assim, basta que o candidato saiba que a ponderao realizada para a solu-o da coliso entre normas constitucionais se opera a partir de uma atividade de concordncia prtica (do doutrinador Konrad Hesse), com aplicao do princpio da proporcionalidade (teoria alem) ou pela dimenso de peso e importncia (do doutrinador Ronald Dworkin), com aplicao do princpio da razoabilidade (teoria norte-americana).

    11. QUESTES COMENTADAS

    01. (FCC Analista Judicirio rea Judiciria Oficial de Justia - TRT 16/2014) Analise a seguinte norma constitucional inerente aos direi tos sociais:

    Art. 8o: livre a associao profissional ou sindical, obser vado o seguinte: (...) IV - a assembleia geral fixar a con tribuio que, em se tratando de categoria

    profissional, se r descontada em folha, para custeio do sistema confederativo da representao sindical respectiva, independen temente da contribuio pre-vista em lei.

    Trata-se de norma de eficciaa) exaurida.b) limitada.c) plena.d) contida.e) programtica.

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    COMENTRIOS

    Alternativa correta: letra c (responde a todas as alternativas): o contedo do art. 8, IV, da CF espelha uma norma constitucional de eficcia plena, que se caracteriza por ter aplicabilidade direta, imediata e integral, no necessitando de lei infraconstitucio-nal para torn-la aplicvel e nem admitindo lei infraconstitucional que lhe restrinja o contedo.

    (Cespe Analista Judicirio Exec. Mandados TRT 10/2013) Em determinado pas, como resultado de uma revoluo popular, os revolucionrios assumiram o poder e declararam revogada a Constituio ento em vigor. Esse mesmo grupo estabeleceu uma nova ordem constitucional consistente em norma fundamental elaborada por grupo de juristas escolhido pelo lder dos revolucionrios.

    Com base nessa situao hipottica, julgue o item a seguir.02. A nova Constituio desse pas no pode ser considerada uma legtima mani-

    festao do poder constituinte originrio, visto que sua outorga foi feita sem observncia a nenhum procedimento de aprovao predeterminado.

    COMENTRIOS

    Errado. A nova Constituio desse pas pode ser considerada uma legtima manifesta-o do poder constituinte originrio, pois foi elaborada por grupo de juristas, ainda que tenham sido escolhidos pelo lder do grupo de revolucionrios. Ademais, foi o prprio grupo que estabeleceu a nova ordem constitucional, no o lder dos revolu-cionrios, de modo que houve promulgao (aprovao democrtica) e no outorga (imposio).

    (Cespe Tcnico Judicirio Administrativa TRT 10/2013) Acerca de constituio e de direitos e garantias, julgue o item a seguir luz da norma constitucional e da interpretao doutrinria sobre a matria.

    03. Conceitua-se a Constituio, quanto ao aspecto material, como o conjunto de normas pertinentes organizao do poder, distribuio da competncia, ao exerccio da autoridade, forma de governo e aos direitos individuais e sociais da pessoa humana.

    COMENTRIOS

    Certo. Conceitua-se a Constituio, quanto ao aspecto material, como o conjunto de nor-mas pertinentes organizao do poder, distribuio da competncia, ao exerccio da autoridade, forma de governo e aos direitos individuais e sociais da pessoa humana, ou seja, refere-se composio e ao funcionamento da ordem poltica. A ideia de cons-tituio material liga-se concepo poltica de Constituio de Carl Schmitt, segundo a qual o Texto Constitucional decorre de uma deciso poltica fundamental e se traduz na estrutura do Estado e dos Poderes e na presena de um rol de direitos fundamentais.

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