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    CAPTULO 1

    Do Procedimento Relativo aos Processos

    da Competncia do Tribunal do Jri

    INTRODUOOrigem histrica do Jri - Das mais ingratas a tarefa consistente em se investigar

    a origem da instituio do Jri no direito comparado. H quem vislumbre na plis grega (sec. V a.C.), com o florescimento da participao popular na repblica e com a valori-zao da retrica, as primeiras manifestaes do Jri. l que o cidado, frequentador da gora (praa pblica), tinha livre acesso Heliia (tribunal popular), centro da vida judiciria ateniense, o concorrido espao onde os cidados reuniam-se em assembleia, do nascer ao pr do sol, pondo prova sua criao constitucional, a democracia delibe-rativa e direta, segundo nos informam Ndia de Arajo e Ricardo R. Almeida (O Tribunal do Jri nos Estados Unidos sua evoluo histrica e algumas reflexes sobre seu estado atual, Revista Brasileira de Cincias Criminais , n 15, julho-setembro de 1996, p. 201).

    Resqucios do Jri podem ser encontrados, ainda, nas quaestiones perpetuae roma-nas (149 a. C.) ou no tribunal de assises de Lus, o Gordo, na Frana (1137). Ou, sculos de-pois, entre os povos normandos da Noruega, Sucia e Dinamarca. Porm, aps ressaltar que tribunais com as mesmas caractersticas do jri sempre existiram, Hlio Tornaghi esclarece que na verdade, no h qualquer filiao histrica do jri a essas instituies (Instituies de Processo Penal, Saraiva, 1977, 2. ed., p. 72).

    Acompanha, assim, o entendimento prevalente, no sentido de que o Jri deita-ria razes na Gr-Bretanha. Pelo menos o Jri com a feio mais aproximada da que temos hoje da instituio. Atribui-se, com efeito, a Henrique II, rei da Inglaterra entre 1154 at 1189, a implantao do Jri. Conforme esclarece Tornaghi, mal ocorria um crime e logo os moradores do lugar eram convocados para examinar o corpo de delito e investigar a autoria para, no final, decidirem se o ru era inocente (not guilty) ou culpado (guilty) (ob. cit. , p. 74).

    A partir da, o Jri se disseminou por todos os povos anglo-saxes e, sculos de-pois, por toda Europa, tendo adotado caractersticas peculiares em cada pas, preserva-do, contudo, seu perfil atual, de julgamento do ru por seus pares.

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    Rogrio Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto

    O Jri no Brasil - Mais fcil identificar o surgimento, entre ns, do Jri. Assim, a instituio do Jri no Brasil nasce em 1822, atravs de Decreto da lavra do Prncipe Regente D. Pedro e interessante - previa a competncia do tribunal popular para o julgamento do abuso de liberdade de imprensa. Sua composio era de 24 cidados, homens bons, honrados, inteligentes e patriotas, nomeados pelo Corregedor do Crime da Corte e Casa. De sorte que a primeira notcia que se tem do Jri no pas no se refere aos crimes dolosos contra a vida, mas sim, talvez em virtude do contexto histrico e poltico da poca, ao julgamento dos abusos cometidos pela imprensa.

    Salienta Jos Frederico Marques (ele mesmo, talvez, o mais feroz crtico da insti-tuio), que segundo Enas Galvo, a lei do jri foi aplicada pela primeira vez, no Brasil, em 1825, em ao penal decorrente de carta injuriosa, publicada com as iniciais R.P.B., no Dirio Fluminense, visando o intendente geral, da polcia da Crte, Francisco Alberto Ferreira de Arago (O Jri no Direito Brasileiro, Saraiva: So Paulo, 1955, 2. ed., p. 49). Ressalvada a curiosidade histrica, hoje no mais perdura esse Tribunal Popular, posto que no previsto pela Lei de Imprensa (Lei 5.250/67), revogada por deciso do STF que entendeu que esse diploma no foi recepcionado pela Constituio em vigor e, tampou-co, pelo CPP ou legislao extravagante.

    Posteriormente, a Constituio do Imprio de 1824, em seu artigo 151, disps que o poder judicial independente, e ser composto por juzes e jurados, os quais tero lugar, assim no cvel, como no crime, aos casos e pelo modo que os cdigos determina-rem. Aqui mais uma excentricidade, na medida em que aos jurados se conferia compe-tncia para o julgamento, inclusive, de causas cveis, embora no haja registro histrico de um julgamento envolvendo tal matria.

    A Constituio Republicana de 1891 (art. 72, 31), manteve o Jri e, pouco antes, criou-se o Jri Federal (Decreto n 848 de 1890), constitudo de 12 jurados e, ao que se sabe, de vida efmera (Tourinho Filho, Processo penal, vol. 4, p. 83).

    A Constituio de 1934 preservou o Jri (art. 72) e a de 1937 foi omissa a res-peito, embora o Decreto-lei 167 de 1938 tivesse mantido sua existncia. Apenas com a Constituio de 1946 (art. 141, 28), que o Jri foi restabelecido com todo vigor, garantindo-se expressamente, inclusive, a soberania dos veredictos. Foi a instituio mantida pela Constituio de 1967 e pela Emenda Constitucional n 1 de 1969, embora com a retirada, do texto, de qualquer meno sua soberania. Pela Constituio Cidad de 1988 (art. 5, inc. XXXVIII, a a d), o Jri finalmente assume a feio atual, com seus princpios bem definidos e que sero objeto de estudo a seguir.

    O Jri de ontem - Com efeito, os autores, sobretudo, os mais antigos, que defendem com ardor o jri, dedicam inmeras linhas para justificar a manuteno da instituio. Falam como se estivessem a ocupar uma tribuna, elencando posturas que devem ser adotadas e apontando outras a se evitar, indicando o mtodo a ser utilizado, recheando o ensinamento com adjetivaes interminveis. Roberto Lyra, dos mais ardorosos de-fensores do Jri, ao aconselhar a acusao, advertindo-a contra improvisos, salienta que no bastam poses, gestos, adjetivos, imagens que espumejam, na admirao superficial e transitria de um pblico automatizado. Brilho, correo, eloquncia, nfase, diapa-

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    Do Procedimento Relativo aos Processos da Competncia do Tribunal do Jri

    so so apenas meios (Como julgar, como defender, como acusar, p. 160). Para Firmino Whitaker, a acusao do promotor deve revestir-se de mais absoluta imparcialidade ... quando seu representante [da sociedade], abandonando a verdade e a lgica, so-corre-se, para vencer, dos artifcios da palavra e vcios de argumentao, amesquinha o mandado, merecendo censura. J a defesa, para o renomado autor, deve ser calma, imparcial, moderada e sria. No jri no devem entrar sentimentos de dio e vingana. As alegaes devem ser expostas com clareza, lealdade e lgica, baseando-se em pro-vas convincentes. A verdade no precisa de artifcios da palavra, nem da astcia que a rabulice geralmente emprega (ob. cit., pp. 93-7).

    Tais ensinamentos, porm, lirismos parte, teriam pouca aplicao prtica nos dias atuais. So todos oriundos da poca em que a instituio viveu seu apogeu, que vai do incio do sculo XX at meados da dcada de 70. Ali sim, raros os crimes de morte, a acarretar, por isso, enorme curiosidade do pblico e igual espao na imprensa sensa-cionalista (as emissoras de rdio chegavam a transmitir ao vivo os debates), os tribunos do Jri, conhecidssimos no meio social, como quem ocupa um palco e animados pela comoo social, valiam-se de seus discursos inflamados, em uma luta interminvel, por vezes retrica e vazia. Travava-se uma batalha sem vencedor, pois o menos importante era o destino do ru. Relevante e inesquecvel era o duelo entre acusao e defesa, permeado de gestos teatrais e frases de efeito.

    O Jri de hoje - A situao hoje totalmente diversa. Os crimes contra a vida, antes espordicos, se banalizaram. Comarcas que, h quarenta anos, realizavam trs a quatro julgamentos por ano, hoje superam esse nmero em apenas uma semana. Com isso o interesse da sociedade pelo Jri se esvaziou por completo. A imprensa j no mais lhe concede manchetes. exceo de um ou outro caso mais rumoroso (de regra envolven-do pessoas abonadas), o que se v atualmente so plenrios vazios, no sendo raro, nos grandes centros, que nenhuma pessoa assista aos debates.

    A vertiginosa escalada da violncia inversamente proporcional curiosidade que o Jri desperta. A figura do jurado humilhado e envergonhado pela recusa de uma das partes, impedido, por isso, de exercer o seu dever cvico, conforme lembrado na crnica de Bilac, hoje inexistente. Chega a ser constrangedora a imagem do jurado que, uma vez recusado ou no sorteado, de punhos cerrados, celebra sua excluso do conselho de sentena, como quem comemora um tento. A liberao dos jurados no sorteados, pelo juiz-presidente, implica em verdadeira debandada, cada um querendo deixar o local mais rapidamente que o outro, receosos de ainda serem chamados. Os pedidos de recusa formulados pelos jurados s partes, antes do incio da sesso, bem revelam com que esprito esto armados os julgadores. Ao revs, aquele que escolhido ocupa seu lugar com desdm pela instituio, desempenhado tarefa para a qual no se acha preparado. No caminho percorrido entre o auditrio e a cadeira que ocupar, no faltam os suspiros de enfado, andando o jurado presumimos - como quem vai para a forca antes da execuo.

    Essa a regra, cuja exceo se resume, quase que exclusivamente, ao jurado que v no desempenho de seu dever cvico a oportunidade de faltar ao trabalho sem que

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    Rogrio Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto

    qualquer desconto no salrio lhe seja impingido. A prpria Tribuna do Jri, antes local sagrado, de rica decorao e que guardava toda a pompa que a instituio merecia, hoje pea de museu, talvez a confirmar a posio de Nlson Hungria, que ensinava, h mais de 50 anos, que o tribunal popular j devia ter sido recolhido a um museu de curiosi-dades histricas (A justia dos jurados, RF 166/7).

    No assim em todas as naes do mundo. H pases, como os Estados Unidos, por exemplo, em que a participao popular nos julgamentos pelo Jri (envolvendo causas criminais e mesmo cveis), compe a prpria cultura do povo, acostumado a in-tervir, diretamente, no destino de seus pares. o que ressaltam Ndia de Arajo e Ri-cardo R. Almeida, em artigo publicado sob o ttulo O Tribunal do Jri nos Estados Unidos - sua evoluo histrica e algumas reflexes sobre seu estado atual: J as caractersticas da tradio poltica do povo americano possibilitaram o surgimento de um esprito cvico e de uma conscincia jurdica comum, que tornam materialmente exequvel o jri como regra e no a exceo. Nos Estados Unidos, a participao do cidado nas atividades dos tribunais qualitativa e quantitativamente bastante elevada. O jri assume todos os caracteres de que seus apologistas, tradicionalmente, lhe atribuem. O jri exerce plenamente sua funo educativa, formadora de cidados respeitadores da lei. Cada um sabe que, mais dia, menos dia, ser convocado para o servio do jri, o que certamente no constituir embarao, pois o tribunal e sua mstica so pro-fundamente acolhidos pela cultura popular. O esteretipo do advogado do jri um sempre presente cone de massa, um heri da Amrica (Revista Brasileira de Cincias Criminais , n 15, julho-setembro de 1996, p. 209).Convenhamos, um tanto diverso o panorama em nosso pas.

    Princpios constitucionais que regem o Jri - A instituio do Jri informada por quatro princpios bsicos, todos eles mencionados no art. 5, inc. XXXVIII, a a d, da Cons-tituio Federal, a saber: plenitude de defesa, sigilo das votaes, soberania dos vere-dictos e competncia mnima para julgamentos dos crimes dolosos contra a vida.

    Plenitude da defesa - O primeiro deles, que trata da plenitude de defesa, significa dizer que, nos processos de Jri, mais que a ampla defesa, exigida em todo e qualquer processo criminal (art. 5, inc. LV, da CF), vigora a plenitude de defesa. De tal forma que, no Jri, no apenas a defesa tcnica, relativa aos aspectos jurdicos do fato, pode ser produzida. Mais que isso, dada s peculiaridades do processo e ao fato de que so leigos os juzes, permite-se a utilizao de argumentao no jurdica, com referncias a ques-tes sociolgicas, religiosas, morais, etc. Ou seja, argumentos que, normalmente, no seriam considerados fosse o julgamento proferido por um juiz togado, no Jri ganham especial relevncia, podendo ser explorados exausto.

    Esse, alis, um dos pontos positivos salientados pelos defensores da instituio, pois o Jri propicia um julgamento que vai alm da frieza da lei e da tecnicidade do pro-cesso, na medida em que os jurados, inclusive, no podem fundamentar suas decises e julgam conforme suas conscincias, no ficando adstritos severidade da prova dos autos. De se ver, contudo, que dentre os constitucionalistas prevalece o entendimento de que a plenitude de defesa mencionada no texto nada mais do que uma consequn-

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    Do Procedimento Relativo aos Processos da Competncia do Tribunal do Jri

    cia natural do princpio da ampla defesa, tambm de ndole constitucional, no havendo qualquer distino entre um e outro.

    Ainda como consequncia de tal princpio, ressalta Pontes de Miranda (Coment-rios Constituio de 1946, p. 270), inclui-se o fato dos jurados serem tirados de todas as classes sociais para julgamento de seus semelhantes (pares), o que confere um tom democrtico ao julgamento. Ressalte-se, por derradeiro, que o princpio em anlise se refere tanto autodefesa, verificada no interrogatrio do ru, como defesa tcnica, realizada por seu advogado. Da se entender que, na hiptese de contradio entre uma e outra (por exemplo, o ru nega a autoria do crime no interrogatrio enquanto que o advogado sustenta a legtima defesa), ambas as teses devem ser objeto do questionrio a ser respondido pelos jurados. Nesse sentido, RT 754/557 (STF), 778/584; JTJ 183/311. Trata-se, porm, de questo no pacfica, havendo pondervel corrente jurisprudencial na linha de que apenas as teses sustentadas pela defesa devam ser includas no ques-tionrio e no aquelas apresentadas, em contrariedade, pelo ru no interrogatrio (cf. RTJ 130/680, RT 786/626, 779/650).

    Sigilo das votaes - Cuida ainda a Constituio do sigilo das votaes, ou seja, embora pblico o debate produzido em plenrio, o momento da colheita dos veredictos sigiloso, mantida, portanto, a sala secreta do Jri para tal fim. Justifica-se esse cuidado em virtude da prpria natureza do Jri e da proteo que se deve conferir ao jurado lei-go (sem as garantias, portanto, do juiz togado), que no encontraria tranquilidade para julgar fosse pblica a votao, sujeita interferncia de populares, parentes da vtima, amigos do ru, etc. Tambm o trabalho do juiz, por vezes extremamente rduo, consis-tente em explicar aos jurados todo o procedimento da votao, restaria prejudicado se tivesse que ser realizado em pblico. Preserva-se, assim, a livre formao da convico do jurado, imune a qualquer influncia externa, preocupao verificada, tambm, no dispositivo que impe a incomunicabilidade entre os componentes do conselho de sen-tena, a fim de que um no interfira na deciso do outro.

    Alis, no havendo possibilidade do jurado fundamentar sua deciso, a neces-sidade de publicidade do julgamento seria mesmo incua. Esse princpio no afronta outro, tambm de ndole constitucional, que garante a publicidade de todos os julga-mentos dos rgos do Poder Judicirio (art. 93, inc. IX, da CF). que a prpria norma constitucional prev a possibilidade de exceo regra, se o interesse pblico o exi-gir. Ademais, entre uma disposio mais restrita (a que impe o sigilo das votaes) e outra mais abrangente (a que garante a publicidade do julgamento), deve prevalecer, por aplicao da hermenutica, a primeira. Tanto que o STF, apreciando esse conflito aparente de normas, manifestou-se no sentido da legalidade da votao obtida na sala secreta (JSTF 167/368 e RT 658/321).

    Interessante notar que se tratando de um veredicto obtido de forma unnime (7 x 0), seja para condenar ou absolver, o princpio em estudo restava prejudicado, ante a concluso bvia de que todos os jurados julgaram da mesma maneira. Por isso se sus-tentava, com base na jurisprudncia francesa, que uma vez obtida a maioria necessria para a obteno de um veredicto irreversvel (por exemplo, 4 x 1 pela absolvio ou 6

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    Rogrio Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto

    x 0 pela condenao), melhor seria que se interrompesse a colheita dos demais votos, como forma de se preservar o sigilo. Preciosa, nesse sentido, a lio de Ruy Barbosa, para quem to absoluto o imprio desse preceito, de tal modo se liga s funes vitais da instituio, que, para encerrar o sigilo das responsabilidades do jurado no mistrio mais impenetrvel, a jurisprudncia francesa anula os veredictos [...] quando contarem com a declarao de unanimidade, porque a resposta nesses termos d virtualmente a conhecer a opinio de todos os jurados (O jri e a responsabilidade penal dos jurados, Rio de Janeiro, 1896, apud Csar de Faria Jnior, Revista Brasileira de Cincias Criminais, n 34, abril-junho 2001, Ed. RT, p. 273). Pois bem. A reforma do Jri, operada em 2008, comprometida com a preservao do sigilo e atenta sugesto doutrinria, corrige essa falha. De sorte que o 1 do art. 483, determina que a resposta negativa, de mais de 3 (trs) jurados, a qualquer dos quesitos referidos nos incisos I e II do caput deste artigo encerra a votao e implica a absolvio do acusado. dizer: se mais de trs jurados responderem negativamente aos quesitos referentes materialidade do fato e autoria ou participao, a votao estar automaticamente encerrada, no sentido da absolvio do ru, sem que seja necessrio se proceder colheita dos demais votos. Disposio semelhante encontrada no 2 do art. 483.

    Soberania dos veredictos - O terceiro princpio atinente ao Jri - e talvez o mais marcante - o da soberania dos veredictos. Por ele, somente os jurados podem decidir pela procedncia ou no da imputao. Na precisa lio de Jos Frederico Marques, a soberania deve ser entendida como a impossibilidade de os juzes togados se substi-turem aos jurados na deciso da causa (Elementos de direito processual penal, III/262). Em suma: um tribunal formado por juzes togados no pode modificar, no mrito, a deciso do Jri popular.

    Mitigao ao princpio da soberania - relativo, porm, o conceito de soberania dos veredictos, que no deve ser entendido como um poder absoluto acima de qualquer outro. Assim, por exemplo, pode a deciso do Jri, quando prejudicial ao ru, ser modifi-cada atravs de reviso criminal, conforme entendimento pacfico da jurisprudncia (RT 479/321, 548/331). E, de fato, seria inconcebvel imaginar que uma deciso, absoluta-mente injusta, no pudesse ser alterada em nome do princpio em estudo. Imagine-se o exemplo em que, apesar do ru ter sido condenado definitivamente por homicdio, surge a vtima viva (como no clebre caso dos irmos Naves, em Araguari-MG). Afrontaria o senso comum de justia que, em atendimento soberania do Tribunal do Jri, fosse mantida to absurda condenao. Da a oportuna lio de Tourinho Filho, ao ensinar que entre manter a soberania dos veredictos intangvel e procurar corrigir um erro em benefcio da liberdade, obviamente o direito de liberdade se sobrepe a todo e qualquer outro, mesmo porque as liberdades pblicas, notadamente as que protegem o homem do arbtrio do Estado, constituem uma das razes do processo de organiza-o democrtica e constitucional do Estado ... entre o direito de liberdade e a garantia constitucional da soberania dos veredictos, a prevalncia daquele (Cdigo de processo penal comentado, vol. 2, p. 395).

    Tambm como forma de mitigao do princpio, tem-se a possibilidade de ape-lao contra a deciso do Jri manifestamente contrria prova dos autos (art. 593,

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    Do Procedimento Relativo aos Processos da Competncia do Tribunal do Jri

    inc. III, d). H quem sustente a inconstitucionalidade de tal dispositivo. Afinal, se o Jri soberano, no poderia um tribunal superior, composto por juzes togados, anular o julgamento para que outro seja proferido, sob o argumento de desrespeito prova dos autos. Nesse sentido a lio de Hlio Tornaghi (Instituies de processo penal, vol. II, p. 100-1) e James Tubenchlak (apud, Tourinho Filho, ob. cit. p. 78). No esse, porm, o entendimento que prevalece na doutrina e jurisprudncia. Com efeito, seria incon-cebvel que uma deciso, obviamente divorciada da prova do processo, no pudesse ser revista atravs de recurso, o que afrontaria outro princpio previsto implicitamente na Constituio que o do duplo grau de jurisdio, ou seja, a possibilidade da parte prejudicada, pelo menos uma vez, ver reexaminada a matria por um rgo superior. Ademais, o tribunal togado no est substituindo a deciso dos jurados, mas simples-mente reconhecendo o equvoco e determinando que outro Jri seja realizado. No segundo julgamento, qualquer que seja o resultado, a deciso ser definitiva (restan-do apenas a via da reviso criminal, exclusiva do condenado), ante a impossibilidade de nova apelao sob o mesmo fundamento legal (art. 593, 3, parte final). Esse o entendimento do STF, valendo que se confira: A soberania do veredicto dos jurados no exclui a recorribilidade de suas decises, sendo assegurada com a devoluo dos autos ao tribunal do Jri, para que se profira novo julgamento, uma vez cassada a de-ciso recorrida (RT 644/353).

    Competncia mnima - Por ltimo, a Constituio prev o princpio da competncia mnima para julgamento dos crimes dolosos contra a vida. Diz-se mnima em virtude de que, no mnimo, os crimes dolosos contra a vida devem ser julgados pelo Tribunal do Jri, nada impedindo que o legislador infraconstitucional amplie tal competncia para que outros delitos, de natureza diversa, sejam tambm apreciados pelo povo. Alis, houve tempo em que crimes de imprensa e crimes contra a economia popular eram julgados pelo Jri (v. item especfico abaixo). O motivo que levou a constituinte a incluir tal dispositivo vem bem apanhado por Guilherme de Souza Nucci, ao ressaltar que a pre-ocupao foi de evitar um esvaziamento do Tribunal do Jri, a exemplo do que ocorreu em outros pases. Ao se prever tal competncia expressamente no texto constitucional, garante-se que, pelo menos para os crimes dolosos contra a vida, fica mantida a insti-tuio do Jri (Jri princpios constitucionais, p. 174).

    Quando a Constituio se refere a crimes dolosos contra a vida, inclui, por bvio, os delitos consumados e os tentados (art. 74, 1). So eles o homicdio (simples, pri-vilegiado ou qualificado), o induzimento, instigao e auxlio ao suicdio, o infanticdio e o aborto, em suas diversas formas. De outro lado, em virtude de disposio expressa do Cdigo de Processo Penal (art. 78, inc. I), havendo conexo entre um delito contra a vida e um outro crime de natureza diversa (por exemplo, homicdio doloso e resistncia, homicdio doloso e ocultao de cadver), ambos sero atrados pelo Jri, para fins de unidade do processo e do julgamento (art. 79), o que confirma a possibilidade do le-gislador ordinrio ampliar a competncia do tribunal popular. Saliente-se, porm, que se o dolo do agente no foi de atentar contra a vida, como ocorre, v.g., no latrocnio (v. Smula 603 do STF), estupro seguido de morte, leso corporal com o mesmo resultado, etc., a competncia para o julgamento ser do Juiz singular.

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    Rogrio Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto

    Genocdio - Dvida perdurava em relao ao crime de genocdio, previsto na Lei 2.889/56. De sorte que o art. 1, a, do mencionado diploma legal, atento ao conceito formulado pelo Estatuto de Roma, que instituiu o Tribunal Penal Internacional, define como crime de genocdio matar, com a inteno de destruir, no todo ou em parte, gru-po nacional, tnico, racial ou religioso. Sucede que, para configurao do delito, no exigido o ato de matar, prevendo-se outras figuras tpicas, como, por exemplo, a adoo de medidas destinadas a impedir os nascimentos no seio do grupo (alnea d), ou a transferncia forada de crianas do grupo para outro grupo (alnea e). Em relao a esse crime, tendo em vista que, praticamente, se desconhecia sua existncia em nosso pas (ou, pelo menos, se perpetrado, no foi submetido apreciao do Poder Judicirio), pouco se deteve a doutrina e, na jurisprudncia, nada era encontrado.

    Mais recentemente, contudo, o tema foi trazido a debate, em vista de massacre de que foram vtimas ndios da tribo ianomnis, em episdio que ficou conhecido como Massacre de Haximu. Apreciando a questo, em recurso especial manejado pelo Minis-trio Pblico, o STJ entendeu que a competncia para julgamento do juiz singular e no do Tribunal do Jri, extraindo-se o seguinte trecho do aresto: O crime de genocdio tm objetividade jurdica, tipos objetivos e subjetivos, bem como sujeito passivo, intei-ramente distintos daqueles arrolados como crimes contra a vida. Assim, a idia de sub-meter tal crime ao Tribunal do Jri encontra bice no prprio ordenamento processual penal, porquanto no h em seu bojo previso para este delito, sendo possvel apenas e somente a condenao dos crimes especificamente nele previstos, no se podendo ne-les incluir, desta forma, qualquer crime que haja morte da vtima, ainda que causada do-losamente. Aplicao dos arts. 5, inciso XXXVIII, da Constituio Federal c/c 74, parg. 1, do Cdigo de Processo Penal (REsp n 222653-RR, Rel. Felix Fischer, j. 12.09.2000, DJ de 30.10.2000, p. 174).

    A questo, outrossim, chegou ao STF, por meio de recurso extraordinrio inter-posto, pela defesa, contra a deciso do Tribunal da Cidadania, que insistia no julgamento dos rus pelo Tribunal do Jri (RE n. 351487-RR, Rel. Cezar Peluso). Dada relevncia da matria, afetou-se ao Plenrio o julgamento do extraordinrio, quando, em sesso ocorrida em 03.8.2006, o relator negou provimento ao reclamo dos acusados, como se v da ementa abaixo transcrita.

    Poder parecer, primeira vista, que tendo negado provimento ao recurso dos rus, teria o Supremo chancelado o posicionamento do STJ, no sentido de que a com-petncia no seria do Tribunal do Jri, mas do juiz singular federal. No essa, porm, a concluso que se chega pela leitura atenta de todo o julgado. Com efeito, a mais alta Corte do pas negou provimento ao recurso mas sob fundamento diverso, entendendo que, havendo como havia no caso concreto concurso formal entre o crime de geno-cdio e o de homicdio, a competncia sim do Tribunal do Jri, no caso o jri federal. Isso por fora de normas processuais que regem a matria, notadamente a prevista no art. 78, inc. I, do CPP, que atraem para o Jri a competncia para o julgamento dos cri-mes conexos aos delitos contra a vida. Haver, ento, quem indague se, ao reconhecer a competncia do Tribunal do Jri, no deveria o Supremo dar provimento ao recurso dos rus para submet-los ao tribunal popular. Ocorre que nesse aspecto reside a pe-

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    Do Procedimento Relativo aos Processos da Competncia do Tribunal do Jri

    culiaridade do julgado, a reclamar sua integral leitura e no apenas da ementa capaz de ensejar alguma dvida. que os rus no foram denunciados por genocdio em concurso formal com homicdio como seria correto , mas pela prtica de genocdio em concurso material com os crimes de lavra garimpeira, dano qualificado, ocultao de cadver, contrabando e formao de quadrilha. De sorte que, conquanto o STF tenha reconhecido que, havendo concurso formal entre genocdio e homicdio, a competncia seria do Tribunal do Jri, enviar os rus a jri popular importaria em inegvel violao ao princpio que veda a reformatio in pejus, j que, em recurso exclusivo da defesa, no se poderia incluir o crime de homicdio que no foi objeto da denncia, em franco prejuzo aos recorrentes.

    Em sntese, pode-se extrair do julgado do Supremo Tribunal Federal que: 1) o cri-me de genocdio no protege a vida ou a integridade fsica da pessoa, tendo objetivida-de jurdica diversa do homicdio, j que tutela a existncia do grupo racial, tnico, nacio-nal ou religioso, a que pertence a pessoa ou pessoas imediatamente lesionadas, sendo, pois, um delito de carter coletivo ou transindividual; 2) quando, porm, perpetrado em concurso formal com o homicdio, a competncia ser do jri, que exerce vis attractiva para julgamento dos demais crimes conexos aos delitos contra a vida (art. 78, inc. I do CPP); 3) o julgamento de competncia da justia federal, por ser o genocdio um crime poltico, nos termos do art. 6., da Lei 2.889/56 e porque a causa envolvia disputa sobre direitos indgenas (art. 109, incs. IV e XI da Constituio); 4) o julgamento, na hiptese de concurso de crimes (genocdio + homicdio), ocorrer perante um jri federal.

    Crimes contra a economia popular e Lei de Imprensa - Duas outras hipteses de crimes, cujo julgamento era afeto ao Tribunal do Jri, no mais perduram. Assim, os crimes contra a economia popular (Lei 1.521/51), no so julgados pelo Jri, pois tal competncia desapareceu com o advento do Decreto-lei 2/66. Tampouco os crimes de imprensa, j que a Lei de Imprensa (Lei 5.250/67), que tratava, na verdade, de um escabi-nato ou escabinado (posto que o juiz togado e os juzes leigos votavam em conjunto), foi considerada incompatvel com a Constituio Federal, assim declarada pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento da Arguio de Descumprimento de Preceito Funda-mental (ADPF n 130), em julgamento concludo em 30 de abril de 2009.

    Excees - Resta observar que a competncia do Tribunal do Jri para julgamento dos crimes dolosos contra a vida no tem um carter absoluto, admitindo excees, como aquela que se verifica nas hipteses de prerrogativa de foro ou foro privilegiado. De sorte que, se o Presidente da Repblica pratica um homicdio doloso, ele no ser julgado pelo Jri, mas pelo STF (art. 102, inc. I, b, da CF). Ou, se um governador de esta-do se v na mesma situao, o processo ser julgado pelo STJ (art. 105, inc. I, a, da CF). Tambm os Juzes e membros do Ministrio Pblico, que atuem em 1 grau de jurisdio perante a justia estadual, gozam da mesma prerrogativa e, por fora de expressa dispo-sio constitucional (art. 96, inc. III da CF), sero julgados perante o Tribunal de Justia. Tratando-se de Procuradores de Justia ou Desembargadores, a competncia do STJ (art. 105, inc. I, a, da CF). J se for Juiz Federal ou membro do Ministrio Pblico Federal, a competncia ser do respectivo Tribunal Regional Federal. De sorte que o foro por prerrogativa de funo, previsto na Constituio, prevalece sobre a competncia consti-

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    Rogrio Sanches Cunha e Ronaldo Batista Pinto

    tucional do Tribunal do Jri ( a Carta Maior excepcionando-se a si mesma). Esta regra, contudo, no se aplica aos vereadores. sabido que o vereador no detm prerrogativa de foro, salvo se prevista na Constituio Estadual (ex: Rio de Janeiro). Sabendo que a competncia do Jri est estampada na Constituio Federal, nos crimes dolosos contra a vida, os vereadores permanecem sujeitos deciso do Conselho de Sentena. Nesse sentido, agora, a smula vinculante 45 (ratificando o teor da smula 721 do STF): "A competncia constitucional do Tribunal do Jri prevalece sobre o foro por prerrogativa de funo estabelecido exclusivamente pela Constituio Estadual.

    JURISPRUDNCIA

    Competncia. GenocdioCRIME. Genocdio. Definio legal. Bem jurdico protegido. Tutela penal da existncia do grupo racial, tnico, nacional ou religioso, a que pertence a pessoa ou pessoas imediatamente lesionadas. Delito de carter coletivo ou transindividual. Crime contra a diversidade humana como tal. Consumao mediante aes que, lesivas vida, integridade fsica, liberdade de locomoo e a outros bens jurdicos individuais, constituem modalidade executrias. Inteli-gncia do art.1da Lei n2.889/56, e do art. 2 da Conveno contra o Genocdio, ratifica-da pelo Decreto n 30.822/52 O tipo penal do delito de genocdio protege, em todas as suas modalidades, bem jurdico coletivo ou transindividual, figurado na existncia do grupo racial, tnico ou religioso, a qual posta em risco por aes que podem tambm ser ofensivas a bens jurdicos individuais, como o direito vida, a integridade fsica ou mental, a liberdade de locomoo etc.

    CONCURSO DE CRIMES. Genocdio. Crime unitrio. Delito praticado mediante exe-cuo de doze homicdios como crime continuado. Concurso aparente de normas. No ca-racterizao. Caso de concurso formal. Penas cumulativas. Aes criminosas resultantes de desgnios autnomos. Submisso terica ao art.70, caput, segunda parte, doCdigo Penal. Condenao dos rus apenas pelo delito de genocdio. Recurso exclusivo da defesa. Impos-sibilidade de reformatio in peius No podem os rus, que cometeram, em concurso formal, na execuo do delito de genocdio, doze homicdios, receber a pena destes alm da pena daquele, no mbito de recurso exclusivo da defesa.

    COMPETNCIA CRIMINAL - Ao penal. Conexo. Concurso formal entre genocdio e homicdios dolosos agravados. Feito da competncia da Justia Federal. Julgamento come-tido, em tese, ao tribunal do jri. Inteligncia do art.5,XXXVIII, da CF, e art.78,I, cc. Art.74, 1, doCdigo de Processo Penal. Condenao exclusiva pelo delito de genocdio, no juzo federal monocrtico. Recurso exclusivo da defesa. Improvimento. Compete ao tri-bunal do jri da Justia Federal julgar os delitos de genocdio e de homicdio ou homicdios dolosos que constituram modalidade de sua execuo. (STF, RE n. 351487-RR, Rel. Cezar Peluso, j. 03.08.2006).

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    CAPTULO 2

    Da Acusao e da Instruo Preliminar

    INTRODUOProcedimento bifsico - Ainda sob a gide do Cdigo de Processo Penal de 1941,

    dizia-se que o procedimento do Jri era bifsico ou escalonado, na medida em que se bifurcava em duas fases: a primeira denominada iudicium accusationis ou sumrio de culpa, que ia do oferecimento da denncia ou queixa (ao penal privada subsidiria da pblica ou mesmo exclusivamente privada, em se tratando de um crime conexo), at o trnsito em julgado da sentena de pronncia, nos termos do antigo art. 408. E a segunda, chamada iudicium causae, que se iniciava com a oferta do libelo e se esten-dia at o julgamento em plenrio.

    Lembre-se, assim, que a primeira fase do rito processual do Jri (iudicium accusa-tionis) era praticamente a mesma que adotada no procedimento comum, fosse o crime doloso contra a vida apenado com recluso ou deteno. Era assim constituda: 1) re-cebimento da denncia ou queixa na ao penal exclusivamente privada ou na subsi-diria da pblica (art. 29); 2) citao do ru; 3) interrogatrio; 4) defesa prvia; 5) audi-ncia para oitiva da vtima (tratando-se de crime tentado, por bvio) e de testemunhas de acusao; 6) audincia para oitiva das testemunhas de defesa; 7) alegaes finais. Transposta essa fase, o juiz se encontrava habilitado para decidir pela impronncia, desclassificao, absolvio sumria ou pronncia.

    Uma vez pronunciado o ru e com o trnsito em julgado dessa deciso, era ento ofertado o libelo, ato que inaugurava a segunda fase do Jri (iudicium causae). A partir da se adotavam todas as providncias cabveis para a efetivao do julgamento, que culminavam com a realizao do plenrio. As alteraes trazidas com a nova disciplina do Jri brasileiro, a partir da reforma de 2008, sero a seguir, analisadas.

    Pode-se afirmar que o procedimento, aps a reforma do Jri de 2008, continua sendo bifsico ou escalonado, apenas com marcos diversos: o primeiro se iniciando com o recebimento da denncia ou queixa se estendendo at a deciso de pronn-cia (e s da pronncia, pois havendo desclassificao, impronncia ou absolvio sumria, no se passar segunda fase); e, a segunda fase, indo da pronncia at o julgamento em plenrio.

    Sistema trifsico? H quem sustente que, a partir da reforma de 2008, o procedi-mento passou a ser trifsico, pois surgiu uma segunda fase de preparao do processo, que iria do trnsito em julgado da pronncia at a instalao da sesso do jri. Discordamos