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1369 leia algumas paginas

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    CAPTULO II CONCEITOS DE DIREITO TRIBUTRIO IMPRESCINDVEIS ATUAO DO PROCURADOR DA

    FAZENDA NACIONAL

    Apresentada a instituio Procuradoria-geral da Fazenda Nacional (PgFN), desde seu mais remoto registro histrico no Brasil, bem como em suas compe-tncias extrajudiciais e judiciais estas dentro do surgimento constitucional da Advocacia-geral da unio , realizaremos neste Segundo Captulo uma ex-posio geral sobre os conceitos mnimos de Direito Tributrio indispensveis ao exerccio do cargo de Procurador da Fazenda Nacional.

    queles que querem conhecer mais sobre a carreira, a justia Fiscal e o dever fundamental de pagar tributos, capacidade tributria e direitos huma-nos, materialidades constitucionais abertas tributao e respectivas espcies tributrias, so temas iniciais para compreenso das funes exercidas pela PgFN, servindo de subsdio para a anlise mais especfica das competncias institucionais.

    Ademais, trataremos tambm da relao jurdico-tributria e o percurso de constituio e cobrana do crdito fiscal, apresentando os conceitos de hipte-se de incidncia e seus aspectos constitutivos, fato gerador, lanamento tribu-trio, crdito tributrio.

    Para entender o trabalho de um Procurador da Fazenda, indispensvel compreender a relevncia da tributao, a estrutura tributria constitucional e a forma como as normas so postas em prtica at a cobrana judicial se necessria.

    1. O DEVER FUNDAMENTAL DE PAGAR TRIBUTOS

    Em primeiro lugar, preciso ter em mente que pagar tributos um dever constitucional. Todos tm o dever fundamental de pagar seus tributos e contri-buir para o custeio do Estado.

    Assim, alm de constituir uma mera obrigao de dar dinheiro ao Estado, o tributo um dever de matriz constitucional, com a funo de propiciar con-dies materiais para dar movimento aos ditames maiores da Carta Magna, especialmente os relacionados efetivao dos direitos fundamentais.

    As obrigaes jurdicas se caracterizam por terem como fonte imediata a atuao volitiva humana, e como fonte mediata, a obrigao legal; em se tra-tando de tributo, pouco importa a vontade do sujeito passivo, pois a ele assiste o dever de colaborar com a existncia e ao do Estado.

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  • renato cesar guedes grilo

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    O doutrinador portugus jos Casalta Nabais aponta que o tema dos de-veres fundamentais reconhecidamente considerado dos mais esquecidos da doutrina constitucional contempornea. 20

    De fato, o constitucionalismo contemporneo marcado pelas extensas de-claraes de direitos, acompanhadas das eternas discusses acerca da imple-mentao prtica de tais garantias. Contudo, raro encontrar na Constituio Fe-deral de 1988 normas que atribuem deveres expressos aos cidados21.

    Embora esquecido ou desconhecido, o dever tributrio suporta os direitos garantidos aos cidados do Estado Democrtico de Direito, que no mais se custeia por reparaes de guerra.

    Por esse prisma, sem os recursos que devem ser carreados (ou derivados) do particular para as mos do Poder Pblico, no h educao ou sade p-blicas (ou regulamentao/fiscalizao da educao e sade privadas), apenas para citar essas duas prestaes essenciais.

    Pode-se afirmar, assim, que existe um direito de todos os indivduos e da sociedade, de que cada um cumpra o seu dever de recolher tributos. Isso porque o cumprimento desse dever est diretamente vinculado possibilidade concreta de efetivao dos direitos fundamentais asse-gurados aos cidados brasileiros. Em vez de uma dualidade direito x dever, tem-se na verdade uma interface, em que o dever de contribuir de cada um, corresponde a um direito dos demais. Trata-se de uma verdadeira responsabilidade social, e no mais de simples dever em face do aparato estatal.22

    O tributo desponta como um dever fundamental nsito s garantias indi-viduais e sociais a serem efetivadas pelo Estado. Nesse sentido, ricardo Lobo Torres, citando james Buchanan, considera que o tributo o preo da liberda-de, sendo que esse custo se origina no pacto social entre Estado e o cidado, no qual este cede quele parcela de seu patrimnio em troca de bens e servios que proporcionem dignidade e satisfao comunitria.23

    O Advogado Pblico que atua na cobrana coativa do crdito tributrio deve possuir a conscincia de que o objeto da obrigao a que busca ser satis-feita a fora motriz para toda a ao do Estado nos planos social e econmico.

    Os argumentos de fraude e corrupo no gasto dos recursos pblicos no podem servir de intimidao, pois se o emprego de recursos levado a efeito

    20 NABAIS. jos Cassalta. O dever fundamental de pagar impostos. Coimbra: Almedina. pp. 15 e 16.

    21 Alguns exemplos desses deveres expressos so: votar e servir justia eleitoral (Art. 14), prestar o servio militar (art. 143), defender e proteger o meio ambiente (art. 225), proteger e amparar a criana e o idoso (arts. 227 e 229) e compor o tribunal do jri, quando assim convocado (Art. 5o, XXXVIII).

    22 CArDOSO, Alessandro Mendes. O dever fundamental de recolher tributos. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014. P.147.

    23 Apud. ABrAHAM, Marcus. Curso de direito financeiro brasileiro. rio de janeiro: Elsevier, 2010. P. 100.

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  • CAPTULO II - CONCEITOS DE DIREITO TRIBUTRIO IMPRESCINDVEIS ATUAO...

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    com falhas, so estas que devem ser combatidas pelos rgos de controle, como o Tribunal de Contas e o Ministrio Pblico.

    No h argumentos para se furtar ao dever de contribuir com a sociedade, tampouco que existe carga tributria extorsiva ou alta. A sonegao fiscal sob tal argumento gera um ciclo vicioso, em que perdem todos os cidados.

    A negligncia com relao ao dever fundamental de recolher tribu-tos acaba por, indevidamente, justificar a sonegao e a fraude fiscal, como sendo uma pseudoforma de defesa do indefeso agente econ-mico em face do Estado voraz e opressor. Em verdade, a vtima dessa prtica o restante da sociedade, formada por cidados e empresas cumpridores dos seus deveres, que acabam tendo que suportar as suas nefastas consequncias, via aumento da carga tributria e tambm da burocracia fiscal, que se torna cada vez mais complexa com o objetivo de coibir e identificar a sonegao.24

    A tributao, assim, dever fundamental25, dentro dos parmetros fixados pelo Constituinte, alm dos quais h proteo ao direito fundamental de pagar to somente o que a parte justa, de acordo com a capacidade contributiva de cada um.

    2. CAPACIDADE CONTRIBUTIVA, JUSTIA FISCAL, CAPACIDADE DE AO DO ESTADO E A ATUAO DO PROCURADOR DA FAZENDA NACIONAL

    Nessa linha intelectiva, compreender o que significa capacidade de contri-buir essencial para aqueles que querem entender a carreira de Procurador da Fazenda Nacional.

    So convidados a contribuir com o Estado, em seus afazeres gerais, todos aqueles que ostentam riquezas e, portanto, capacidade contributiva.

    De acordo com Paulsen, dever fundamental contribuir para as despesas pblicas, sendo que o principal critrio para a distribuio do nus tributrio, inspirado na ideia de justia distributiva, a capacidade contributiva.26

    24 CArDOSO, Alessandro Mendes. O dever fundamental de recolher tributos. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2014. P.172.

    25 O STF, em recurso Extraordinrio com repercusso geral julgado em 2011, embora tratando de responsabilidade e substituio tributrias, mencionou expressamente na ementa o dever fun-damental de pagar tributos do contribuinte: No se pode admitir que a substituio tributria resulte em transgresso s normas de competncia tributria e ao princpio da capacidade contrib-utiva, ofendendo os direitos do contribuinte, porquanto o contribuinte no substitudo no seu dever fundamental de pagar tributos. (Trecho da ementa do rE 603191, julgado em 01/08/2011, Plenrio, relatora Min. Ellen gracie.)

    26 PAuLSEN, Leandro. Curso de direito tributrio completo. 3 ed Porto Alegre: Livraria do Advogado, 2010. P. 191. P. 36.

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  • renato cesar guedes grilo

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    Hoje muito se fala em mnimo existencial e efetivao de direitos fun-damentais, especialmente em demandas por sade, educao, moradia e alimentao.27

    Por outro lado, so judicialmente inexigveis as prestaes que impem obrigao impossvel ao Estado, ainda que no plano de direitos fundamentais, pois, muito embora a reserva do possvel no possa ser suscitada em face de tais prestaes (sade e educao), quando h comprovada insuficincia de recursos por evidente nada poder ser feito28.

    Percebe-se que a capacidade contributiva que determina as possibilida-des de ao do Estado. Quanto mais riqueza existe, gerada e movimentada, maior ser o espectro da reserva daquilo que possvel ser feito.

    Dessa forma, se queremos a efetivao de direitos sociais, devemos antes possuir um sistema igualitrio e eficaz de tributao, no qual h uma seleo equnime daqueles que devem contribuir, diviso justa de deveres e sua com-preenso, maior eficincia e menor evaso fiscal.

    E, se certo dizer que os direitos mnimos necessrios a uma exis-tncia digna do homem no podem ser atendidos sem os recursos ne-cessrios, certo, tambm, afirmar que todos devem contribuir para o financiamento do Estado. Portanto, no se h de falar em mnimo existencial, direitos sociais ou em direitos fundamentais sem, neces-sariamente, discorrer sobre a sua principal fonte de financiamento: o Tributo.29

    justia social, antes de mais nada, passa pela justia Fiscal equnime dis-tribuio do nus tributrio. Para isso, deve-se ter sempre em testilha aquele dever fundamental de que falamos, com a conscincia de que o tributo , em verdade, o ponto de partida para a vida social.

    Portanto, para se garantir o mnimo existencial, a dignidade da pessoa humana e atender aos preceitos dos direitos humanos fundamentais,

    27 O direito social moradia foi inserido no Artig