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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X VIOLÊNCIA RACIAL E PROSTITUIÇÃO: UM DEBATE PARA ALÉM DO GÊNERO Alyne Isabelle Ferreira Nunes 1 Resumo: O debate sobre a prostituição tem contemplado diversas abordagens e repensado inúmeras problemáticas. Entre as abordagens o aspecto mais recorrente é a discussão de gênero, seja via enfretamento às múltiplas violências sofridas por essas mulheres seja via compreensão das outras faces da prostituição, por exemplo, a prostituição de luxo e os desdobramentos desse tipo de mercado. É possível perceber nessas produções que apesar de se identificar uma preocupação em tratar à realidade da prostituição a questão racial não é contemplada, sendo essa discussão invisibilizada no que tange a análise desse mercado. Essa invisibilidade é fruto do nosso tipo particular de racismo que insiste em pensar o mesmo como não estruturante das opressões existentes. Compreender historicamente o lugar da prostituição no Brasil é aceitar que foram as mulheres negras que estiveram ocupando esse espaço desde a época colonial até os dias atuais. As mulheres negras estão expostas as opressões estruturantes da sociedade de maneira interseccional, tais como, a de classe, raça e gênero que muitas vezes as forçam a escolhas menos privilegiadas de sobrevivência, e a prostituição acaba por ser uma delas. Analisar a prostituição ignorando a questão racial como um dos fatores determinantes de entrada e permanência dessas mulheres negras é garantir a manutenção de um discurso que subsumi ou exclui o racismo como elemento central das opressões que estruturam nossa sociedade. Palavras-chave: Violência racial. Prostituição. Invisibilidade. Interseccionalidade. O debate sobre o mercado do sexo, e suas variadas configurações, entre elas a prostituição, é um dos campos que mais geram controvérsias. Sendo disputada discursivamente em diversos espaços e por diferentes grupos sociais, especialmente, os movimentos feministas, a prostituição acaba por ensejar um debate que foca, sobretudo, na leitura acerca dos corpos das mulheres e os motivos que as levaram a entrada em tal ocupação 2 . Muito embora seja um fenômeno constituído por diferentes gêneros, sexualidades e corpos, a prostituição permanece ainda, majoritariamente, um espaço formado por mulheres (cis e trans) 3 . Dito isso, as questões de gênero e de classe acabam sendo por excelência as categorias analíticas norteadoras das produções discursivas acerca desse fenômeno. 1 Doutoranda em Sociologia (PPGS), UFPE, Recife, Brasil. Pesquisadora do NUPERR (Núcleo de Pesquisa em Relações Raciais) Frantz Fanon. 2 No ano 2002 a prostituição foi incluída na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), que é o documento que reconhece, nomeia e codifica as ocupações existentes no mercado brasileiro (MINISTÉRIO, 2008). 3 Cisgênero é o termo utilizado para se referir ao indivíduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu “gênero de nascença”. Já os transgêneros são as pessoas que não se identificam com o seu sexo biológico, mas sim com um gênero diferente daquele que lhe foi atribuído biologicamente.

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Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

VIOLNCIA RACIAL E PROSTITUIO: UM DEBATE PARA ALM DO

GNERO

Alyne Isabelle Ferreira Nunes1

Resumo: O debate sobre a prostituio tem contemplado diversas abordagens e repensado inmeras

problemticas. Entre as abordagens o aspecto mais recorrente a discusso de gnero, seja via

enfretamento s mltiplas violncias sofridas por essas mulheres seja via compreenso das outras

faces da prostituio, por exemplo, a prostituio de luxo e os desdobramentos desse tipo de

mercado. possvel perceber nessas produes que apesar de se identificar uma preocupao em

tratar realidade da prostituio a questo racial no contemplada, sendo essa discusso

invisibilizada no que tange a anlise desse mercado. Essa invisibilidade fruto do nosso tipo

particular de racismo que insiste em pensar o mesmo como no estruturante das opresses

existentes. Compreender historicamente o lugar da prostituio no Brasil aceitar que foram as

mulheres negras que estiveram ocupando esse espao desde a poca colonial at os dias atuais. As

mulheres negras esto expostas as opresses estruturantes da sociedade de maneira interseccional,

tais como, a de classe, raa e gnero que muitas vezes as foram a escolhas menos privilegiadas de

sobrevivncia, e a prostituio acaba por ser uma delas. Analisar a prostituio ignorando a questo

racial como um dos fatores determinantes de entrada e permanncia dessas mulheres negras

garantir a manuteno de um discurso que subsumi ou exclui o racismo como elemento central das

opresses que estruturam nossa sociedade.

Palavras-chave: Violncia racial. Prostituio. Invisibilidade. Interseccionalidade.

O debate sobre o mercado do sexo, e suas variadas configuraes, entre elas a prostituio,

um dos campos que mais geram controvrsias. Sendo disputada discursivamente em diversos

espaos e por diferentes grupos sociais, especialmente, os movimentos feministas, a prostituio

acaba por ensejar um debate que foca, sobretudo, na leitura acerca dos corpos das mulheres e os

motivos que as levaram a entrada em tal ocupao2. Muito embora seja um fenmeno constitudo

por diferentes gneros, sexualidades e corpos, a prostituio permanece ainda, majoritariamente, um

espao formado por mulheres (cis e trans)3. Dito isso, as questes de gnero e de classe acabam

sendo por excelncia as categorias analticas norteadoras das produes discursivas acerca desse

fenmeno.

1 Doutoranda em Sociologia (PPGS), UFPE, Recife, Brasil. Pesquisadora do NUPERR (Ncleo de Pesquisa em

Relaes Raciais) Frantz Fanon. 2 No ano 2002 a prostituio foi includa na Classificao Brasileira de Ocupaes (CBO), que o documento que reconhece, nomeia e codifica as ocupaes existentes no mercado brasileiro (MINISTRIO, 2008). 3 Cisgnero o termo utilizado para se referir ao indivduo que se identifica, em todos os aspectos, com o seu gnero de nascena. J os transgneros so as pessoas que no se identificam com o seu sexo biolgico, mas sim com um

gnero diferente daquele que lhe foi atribudo biologicamente.

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Essas produes buscam apreender o fenmeno da prostituio atravs da compreenso dos

processos subjetivos das mulheres, enquanto prostitutas, alcanando at o debate sobre a

regulamentao da profisso4. No Brasil, as produes acadmicas comeam a problematizar a

prostituio a partir da dcada de 1970. Os interesses dessas produes, que possuam forte apelo

moral, giraram em torno dos processos de controlo e regulao da prostituio, questionando a

organizao dos espaos urbanos frente a crescente demanda por tal atividade, se debruaram

tambm sobre os aspectos decadentes e perversos que marcavam a identidade dessas mulheres,

buscando entender o porqu dessa escolha e questionavam acerca da responsabilidade do Estado, da

Igreja e da sociedade em relao as prostitutas.

Cabe destacar a relevncia dos movimentos feministas para a reconfigurao desses debates.

Ao trazerem a reflexo sobre os papis de gnero, sobre a questo da liberdade e da escolha, das

sexualidades, da mercantilizao dos corpos e das questes sobre violncia, o universo da

prostituio comeou a ser analisado por diversas frentes analticas. Temas como os limites

simblicos do corpo e da prostituta, a representao social e a construo da cidadania, turismo

sexual e o contexto transnacional, os processos identitrios, os dilemas da profisso, as relaes de

poder no universo da prostituio, as performatividades dos gneros, etc. so preocupaes que

permeiam os debates5 mais recentes sobre a prostituio.

Embora seja possvel reconhecer o avano e a diversidade dos temas que tratam sobre a

prostituio preciso, contudo, assumir que algumas questes permanecem negligenciadas. No

Brasil, ao pensarmos nas opresses que estruturam a sociedade no podemos desconsiderar a

interseco entre as questes de raa, gnero e classe, e outros marcadores, que operam como

fortalecedores das desigualdades. Historicamente, desde o perodo colonial a condio de

subalternidade imposta populao negra reverbera at os dias atuais nos espaos que a mesma

ocupa. Da negao da humanidade aos esteretipos reforados atravs dos meios de comunicao

em massa foi produzido um imaginrio e uma variedade de insgnias acerca da populao negra que

geram implicaes subjetivas, fsicas e materiais.

4 A lei aqui proposta se intitula Gabriela Leite em homenagem a profissional do sexo de mesmo nome, que era militante de Direitos Humanos, mais especificamente dos direitos dos profissionais do sexo, desde o final dos anos 70

nos episdios ocorridos na regio Boca do Lixo em So Paulo.

Disponvel em: http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/PL 5 Para aprofundar o debate ver: Fonseca, 1996; Pasini, 2000; Piscitelli, 2005; Merchn Hamann e Guimares, 2005; Silva e Blachette, 2005; Silva, 2007; Ceccarelli, 2008; Diniz e Queiroz, 2008.

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No Brasil, a prostituio um fenmeno que existe desde o perodo colonial. Inicialmente

foram as mulheres indgenas, que alm de passar por abusos e estupros se viram submetidas

prostituio pelos seus capturadores, em seguida esse espao foi compartilhado com as mulheres

brancas vindas de Portugal que desfrutavam de outras condies e tratamento e, por ltimo, sob

similares marcas de violncia6 destinadas s mulheres indgenas, chegaram as mulheres negras

escravizadas. Com o incio da escravido negra, no Brasil, o cenrio da prostituio foi

marcadamente alterado pelo fator racial, por meio da explorao dos seus senhores e das suas

senhoras era possvel encontrar em sua constituio uma significativa quantidade de mulheres

negras. (CARMO, 2011, p.74). A condio da mulher negra enquanto cativa se desdobrou em uma

srie de violncias que perduram at os dias atuais. Equacionada ao seu corpo, a mulher negra teve

em sua sexualidade uma das principais demarcaes da sua dimenso identitria.

Os esteretipos7 correspondentes s mulheres negras, e que so (re) produzidos atravs dos

meios de comunicao em massa, reforam e legitimam uma srie de violncias contra essas

mulheres. Os meios de comunicao imprimem sobre todas as nossas mentes as imagens negativas

da natureza feminina negra, existindo, basicamente, dois perfis que determinam as mulheres

negras: a primeira imagem so de objeto sexual, prostitutas, vacas e a segunda imagem a gorda

e irritante figura maternal. (hooks, 2014, p. 48). Esses esteretipos engessam a identidade das

mulheres negras em um discurso ambivalente que vai desde a negra lasciva, se jovem, at a mulher

dessexualizada, se mais velha. Ou como pontua Gonzles ao destacar a dupla imagem da mulher

negra, que abarca desde a mulata, a domstica e a me preta (GONZALES, 1988, p.224). O

discurso que ora invisibiliza, ora hipersexualiza a mulher negra opera a partir da violncia racial e

demarca como esses corpos devem ser tratados.

6 Davis (2016) sobre o estupro reflete na verdade, era uma expresso ostensiva do domnio econmico do proprietrio

e do controle do feitor sobre as mulheres negras na condio de trabalhadores. (p.20) E complementa Seria um erro

interpretar o padro de estupros institudo durante a escravido como uma expresso dos impulsos sexuais dos homens

brancos, reprimidos pelo espectro da feminilidade casta das mulheres brancas. Essa explicao seria muito simplista. O

estupro era uma arma de dominao, uma arma de represso, cujo objetivo oculto era aniquilar o desejo das escravas em

resistir e, nesse processo, desmoralizar seus companheiros. (p.36) 7 Segundo Hall o esteretipo Tpico desse sistema racializado de representao foi a prtica de reduzir a cultura do

povo Negro Natureza, ou naturalizando a diferena. A lgica sobre a naturalizao simples. Se a diferena entre

negros e brancos so culturais, ento eles esto abertos a modificao e mudana. Mas se elas so naturais como

os donos de escravo acreditam eles esto alm da histria, permanente e fixado. Naturalizao portanto uma

estratgia representacional designada a fixar a diferena, e assim prend-lo para sempre. (HALL, 2003, p.245),

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Esses discursos fortalecem o processo de desumanizao das mulheres negras, sendo

manifestado atravs da subalternizao, ou como hooks destaca que so mulheres definidas como

corpos sem mente. (hooks, 1995, p. 469). De acordo com Gillian e Gillian a objetificao sexual

das mulheres negras cria indivduos destinados a serem cozinhados e depois consumidos, em vez

de tratados como cidados (GILLIAN E GILLIAN, 1995, p.529). Os esteretipos que objetificam

as mulheres se transformam em marcadores identitrios que se apoiam tanto racismo, quanto no

sexismo para serem validados. Para hooks,

O sexismo e o racismo, atuando juntos, perpetuam uma iconografia de representao da

negra que imprime na conscincia cultural coletiva a ideia de que ela est neste planeta

principalmente para servir aos outros. Desde a escravido at hoje, o corpo da negra tem

sido visto pelos ocidentais como o smbolo quintessencial de uma presena feminina

natural, orgnica, mais prxima da natureza, animalstica e primitiva. (hooks, 1995, p.

468).

Gonzles (1988) pontua que ser graas ao mito da democracia racial e, especificamente, no

carnaval que a representao da hipersexualidade da mulher negra ganhar destaque. Na figura da

mulata reforada a ideia que a mulher negra puro corpo, ou sexo, no engendrado

socialmente (Corra, 1996, p. 40), o discurso racista se atualizar sob os signos da falsa

valorizao dessas mulheres. Saffioti (1987) j denunciava o aspecto perverso desse discurso racista

que se transfigura sob a forma de um elogio, da exaltao da beleza da mulher morena

considerada tipo exportao, ou seja, a mulher que une em seu corpo o suposto encontro das

raas (CORRA, 1996, p. 47).

O impacto que essas representaes causam nas trajetrias de vida das mulheres negras

merece ser investigado de maneira mais acurada. O discurso racista no se limita em apenas

classificar o que so as mulheres negras, ele alcana o processo subjetivo, interferindo,

principalmente, na maneira como essas mulheres se compreendem. Para hooks

Os esforos de disseminao contnua de desvalorizao da natureza feminina negra

tornaram extremamente difcil e frequentemente impossvel s mulheres negras

desenvolverem um autoconceito positivo. Porque somos diariamente bombardeadas por

imagens negativas. De facto, uma fora opressiva foi este esteretipo negativo e a nossa

aceitao disso como uma papel vivel e modelo sobre o qual podemos modelar as nossas

vida. (hooks, 2014, p. 62)

Questes como a baixa escolaridade, os constantes apelos ao corpo sob a forma falaciosa de

elogio, os ndices de violncia e at mesmo os eufemismos do cotidiano posicionam as mulheres

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negras como um grupo consumidor do discurso racista e sexista que as desqualificam enquanto

mulheres.

Os reflexos do racismo enquanto opresso estruturante marcam tambm as escolhas das

mulheres negras. Um dos aspectos que pode ser analisado sobre a influncia dessas escolhas e a

forma como o racismo se configura no fenmeno da prostituio. importante destacar que as

produes acadmicas incorrem no erro ao manter o debate sobre o fenmeno da prostituio,

principalmente no Brasil, a partir de discursos atravessados apenas pela leitura de gnero e/ou de

classe. Apesar da reconhecida importncia e da pluralidade das abordagens produzidas sobre a

prostituio preciso reconhecer tambm que o debate, no que tange ao recorte racial inexistente

por ainda ser tratado como opresso tangencial, hooks destaca que as feministas, tanto acadmica

como dos movimentos, tendem a diminuir raa e acrescenta que elas fazem questo de

reconhecer que raa importante e em seguida procede fornecendo uma anlise em que raa no

considerada..8 (hooks, 2000, p 144)

De acordo com Kempadoo necessrio e, principalmente, urgente examinar o fenmeno da

prostituio a partir de novas perspectivas. Um das questes que autora chama ateno para a

lacuna das anlises raciais nas produes.

A mulher de cor permanece de vrias formas racializada como altamente sexual pela

natureza, e posicionada como ideal para o trabalho sexual. [...] Nossas percepes,

conhecimento, e compreenso do trabalho sexual tm sido amplamente obscurecidos ou

dominados pelas feministas brancas radicais, neomarxistas e feministas socialistas

ocidentais inspirando anlises que tenham sido incapazes ou relutantes em lidar com as

complexidades da vida da mulher negra. (KEMPADOO, 2001, p. 40) (traduo livre)9

Para uma compreenso mais ampla das distintas realidades alguns autores tm chamado a

ateno para a utilizao um conceito emergente, a interseccionalidade. Tal conceito se constitui

uma ferramenta fundamental tanto para ativistas e tericas feministas comprometidas com anlises

das relaes entre classe, gnero e raa, e outros marcadores, em distintos contextos (RODRIGUES,

2013). A interseccionalidade vem denunciar que a produo de uma teoria e prtica

feminista no pode apenas contemplar as questes de gnero e de classe, lanar mo dos conceitos

como raa, religio, corpo, territorialidade, sexualidades, e outros marcadores, coadunar com a

8 bell hooks (2000, p.144) they tend to dismiss race or they make a point of acknowledging that race is important and

then proceed to offer na analysis in which race is not considered. 9 Texto original: Women of color remains in various ways racialized as highly sexual by nature, and positioned as ideal for sex work. [...] Our insights, knowledges, and understanding of sex work have been largely obscured or dominated by White radical feminist, neo-marxist or Western socialist feminist inspired analyses that have been either incapable or unwilling to address the complexities of the lives of women of color. (KEMPADOO, 2001, p. 40).

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postura de que essas outras opresses so de menor importncia para o enfrentamento das

hierarquias existentes.

O conceito de interseccionalidade ao ajudar a compreender os processos e as

dinmicas da desigualdade til como ferramenta analtica para identificar como se do as

opresses e, consequentemente, como so produzidos os privilgios para uma parcela da sociedade.

A emergncia desse conceito destacada pelas feministas negras brasileiras em suas produes

acadmicas que procuram compreender como o racismo, o sexismo e o classismo, e outros

marcadores, produzem formas variadas de opresso.

Dito isso, os movimentos feministas e as produes sobre o mercado do sexo precisa pautar

suas problematizaes a partir de outras opresses, reconhecendo emergncia do debate racial em

tais anlises. Segundo Nunes (2015) as prostitutas negras enfrentam opresses interseccionais de

gnero, raa e classe, e outros marcadores, desconstruindo os discursos que partem da concepo do

empoderamento e da livre escolha defendida tanto por alguns movimentos feministas como algumas

produes acadmicas. Tal anlise se apoiou no conceito de escolha proposto por hooks (2000), no

obstante considere e reconhea que o sexismo seja um marcador opressivo extremamente violento

que atinge todas as mulheres, ao ser cruzada com o racismo, e outros marcadores, essa escolha, para

as mulheres negras passa a operar como ausncia de escolhas. A autora justifica que a existncia de

um escopo limitado de possibilidades no pode ser definida como escolha.

Destarte, o debate sobre a escolha, ou ausncia dela, associado aos dados de excluso

revelam que as mulheres negras e pobres, numa estrutura de opresso onde raa, gnero e classe, e

outros marcadores se interseccionam, so destitudas da possibilidade de reconhecimento positivo

da identidade10, no que tange a educao representam o maior nmero das retenes escolares11,

somam a maior parcela entre as desempregadas ou assalariadas sem carteira assinada12, so as mais

vulnerveis ao aborto de risco13, so as que mais sofrem com abandono e solido, pois no so

consideradas um modelo para o mercado de afetos, mas para o mercado do sexo14. A

articulao desses fatores caracteriza o que Carneiro (2011) e Nascimento (2013) classificam como

feminizao da pobreza, marcando as possibilidades reais que existem para as mulheres negras e

pobres.

10 Ver Araujo, 2000; Aguiar, 2007; Gomes, 2002, 2012; Pacheco, 2012. 11 Ver Rosemberg, 1999; Gomes, 2002a; Carneiro, 2011; Dias 2013; Lewis e Nascimento, 2013. 12 Ver Ipea, 2011; DIEESE, 2013. 13 Ver Diniz e Medeiros, 2012. 14 Ver hooks, 2006; Pacheco, 2015.

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Esses dados foram facilmente identificado na pesquisa desenvolvida por Nunes (2015), ao

revelar a trajetria de vida das prostitutas de rua no Recife, esta constituda, majoritariamente, por

mulheres negras e pobres. Segundo Nunes

Todos esses dados revelam, estruturalmente, que as possibilidades para as mulheres negras

e pobres so mais difceis. A escolha pela prostituio, a partir desses recortes (de raa, de

gnero e de classe), no pode ser compreendida apenas pelo vis das necessidades

econmicas, preciso reconhecer que outros fatores contribuem para tal escolha e pela

permanncia das mesmas na prostituio. A inscrio do racismo nos corpos das mulheres

negras na condio de prostituta revela os espaos que elas devem e podem, naturalmente,

ocupar (NUNES, 2015, p. 12).

Para a mulher negra que se reconhece nos discursos dos meios de comunicao de massa por

meio dos esteretipos que ultravalorizam a sexualidade em detrimento de qualquer outro aspecto,

onde seu corpo equacionado a uma ideia que a hiper-fetichiza e essas representaes a

personificam como um sexo diferenciado unindo as dificuldades financeiras e as necessidades

emergenciais, entrar e permanecer na prostituio no pode ser compreendido apenas pelo debate da

livre escolha (NUNES, 2015).

A trajetria de vida das mulheres negras15 entrevistas por Nunes (2015) apresentaram

diversas traos em comum, muito embora no se conhecessem foi possvel identificar que aspectos

da infncia, da adolescncia, do campo dos afetos, em relao ao abandono, sobre a entrada e

permanncia na prostituio se reproduziam nos relatos dessas mulheres. Um ponto central nas falas

das entrevistadas se refere dimenso da sexualidade como fator relevante no contexto da

prostituio. Enquanto mulheres negras a existncia da necessidade pela disputa dos espaos e dos

clientes para conseguir se manter na prostituio compe uma das dificuldades que elas enfrentam.

Ao alegarem a preferncia, por parte dos clientes, pelas mulheres jovens e brancas revelam

um dos entraves enfrentados no que se refere a possibilidade de maiores ganhos.

Apesar de reconhecerem o preterimento, as mulheres negras na condio de prostituta

evocam a relao entre o desejo e a cor como forma de destacarem o diferencial que possuem frente

as prostitutas brancas. Todas foram assertivas quanto a confirmao do desejo diferenciado que as

15 Foram entrevistas cinco mulheres negras como faixa etria que varia dos 20 aos 47 anos. O recorte geogrfico das zonas de prostituio em Recife permitiu identificar algumas diferenas que garantem a manuteno de algumas

hierarquias entre os bairros, tais como perfil das prostitutas, valores cobrados e o perfil dos clientes. Foram escolhidos

os bairros de Boa Viagem (zona sul), Imbiribeira (zona sul) e o bairro de So Jos (centro). No bairro de Boa Viagem,

zona conhecida pela alta concentrao de turistas, o perfil fsico das mulheres atendem a uma demanda mercadolgica

de um padro esttico de beleza. Esse pblico jovem, composto por mulheres brancas, majoritariamente, que cobram

em mdia de 100 a 200 reais por programa. Nos outros dois bairros os perfis se assemelham; so mulheres em sua

grande maioria negras, com faixa etria a partir dos 30 anos os corpos esto fora dos padres estticos e os valores

cobrados pelo programa variam de 30 a 70 reais.

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mulheres negras possuem, Luiza16 destaca Na minha opinio, a mulher negra, ela mais

avoroada, entendeu? Ela mais quente sabe e eu acho mesmo, entendeu? Ela mais avoroada,

mais quente, ela mais mulher.. Seguindo o mesmo raciocnio Patrcia comenta Muitos j

falaram pra mim que num pelo meu corpo e sim pela minha cor que saem comigo, porque me

acham muito bonita. No s pela minha cor e sim porque tenho a pele muito limpa. J escutei

muito isso. Muito limpa, muito macia, lisa, eu j escutei muito isso e eles assim dizem que muito

quente.. Segundo Carolina A mulher negra...porque a mulher bronzeada quando quer tirar onda

ela pode, ela endoida. Ela sabe como tirar onda, porque at, porque quando quer, se voc cismar,

se voc quiser chamar a ateno, chama.. E G ao se definir defende Eu me acho uma mulher

quente! Porque tem tudo, eu acho assim, que tem tudo, visse..

perceptvel na fala das entrevistadas que o reforo dos esteretipos raciais,

principalmente no que tange a hipersexualidade, passa por uma estratgia de valorizao do que

elas conseguem oferecer aos clientes. Muito embora se considere que as relaes cotidianas so

construdas a partir de negociaes que podem provocar tenses na ordem, defender que existe a

possibilidade das mulheres negras positivarem os esteretipos raciais, visando garantir e aumentar

seu lucro para se estabelecerem na prostituio, considervel, no entanto a possibilidade de

relativizar as insgnias produzidas sobre os corpos das mulheres negras praticamente inexistente.

Os corpos das mulheres negras esto racialmente marcados pela dimenso da hipersexualidade, ao

serem destitudos de humanidade as chances de negociao praticamente inexistente.

Dito isso se torna urgente tencionar o debate acerca da invisibilidade das questes raciais na

prostituio feminina no Brasil. Considerando o processo de formao nacional e os espaos

ocupados, historicamente, pelas mulheres negras, necessrio trazer a reflexo, tanto terica, como

emprica, atravs de uma anlise crtica que busca a superao dos debates de gnero e de classe

como as nicas estruturas/hierarquias que contribuem para compreenso do universo do mercado do

sexo e seus variados fenmenos.

O posicionamento em escolher no utilizar a categoria racial para apreender o fenmeno da

prostituio, principalmente no Brasil, permite a manuteno das violncias que atingem as

mulheres negras. So essas mulheres que, independente dos espaos que ocupa ou da funo que

exera, so designadas como sexualmente selvagens, e em termos sexuais uma selvagem sexual,

uma no-humana (hooks, 2014, p.39). Existe uma construo discursiva que reforada

cotidianamente em que as mulheres negras so naturalmente predispostas, acessveis e depravadas.

16 A pedido das entrevistadas foram utilizados nomes fictcios.

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Percebemos que os materiais, citados no decorrer do texto, privilegiam em suas as perspectivas as

categorias de gnero e/ou de classe, o que nos direciona a repensar a questo17 da invisibilidade das

mulheres negras, sob um discurso que refora a naturalizao das suas representaes e,

consequentemente, dos espaos ocupados.

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Racial violence and prostitution: a debate beyond gender

Astract: Abstract: The debate on prostitution has contemplated several approaches and rethought

numerous problems. Among the approaches, the most recurrent aspect is the discussion of gender,

either through a confrontation with the multiple violence suffered by these women or through an

understanding of the other aspects of prostitution, for example, prostitution and the unfolding of this

type of market. It is possible to perceive in these productions that although a concern is identified in

dealing with the reality of prostitution the racial question is not contemplated, being this discussion

invisibilizada in what concerns the analysis of this market. This invisibility is the fruit of our

particular type of racism that insists on thinking the same as non-structuring of existing oppressions.

To understand historically the place of prostitution in Brazil is to accept that it was the black

women who have been occupying this space from colonial times to the present day. Black women

are exposed to the structuring oppressions of society in an intersectional way, such as class, race,

and gender, which often force them into less privileged choices of survival, and prostitution turns

out to be one of them. Analyzing prostitution by ignoring the racial question as one of the

determining factors of entry and permanence of these black women is to guarantee the maintenance

of a discourse that subsumed or excludes racism as a central element of the oppressions that

structure our society.

Keywords: Violncia racial. Prostituio. Invisibilidade. Interseccionalidade.