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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR Denise Almeida de Andrade 1 Resumo: O reconhecimento do planejamento familiar como um direito fundamental ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988, nos termos previstos no artigo 226, § 7º. Desde então, avanços significativos têm sido alcançados, contudo, as políticas públicas nacionais ainda estão aquém das conquistas legislativas e doutrinárias, uma vez que referidas medidas não se traduzem em práticas igualitárias e adequadas. Nesse contexto, esse trabalho propõe identificar algumas causas para a não efetivação do direito fundamental ao planejamento familiar. Para tanto, a partir de uma análise crítica sobre o patriarcado, a maternidade e as relações de gênero, iremos levantar como a histórica desigualdade entre homens e mulheres tem prejudicado o exercício do direito ao planejamento familiar. Com o intuito de auxiliar na proposição de uma nova prática para o Brasil, apontaremos como as contribuições de teóricos internacionais, como Amartya Sen, Martha Nussbaum e Nancy Fraser, corroboram na defesa de que a desigualdade de gênero continua promovendo a falsa premissa de que as mulheres são naturalmente talhadas para desempenhar atividades de cuidado e educação, típicas do ambiente doméstico. Por fim, ante a constatação de que para se efetivar o direito ao livre planejamento familiar é imprescindível que se garanta iguais oportunidades para homens e mulheres, pretendemos debater o paradigma da corresponsabilidade, como um caminho para se superar a ineficiência das políticas públicas brasileiras. Palavras-chave: Planejamento Familiar. Discriminação de Gênero. Políticas Públicas. Corresponsabilidade. Considerações Iniciais O pressuposto (equivocado) da superioridade masculina sobre a mulher tem sido, ao longo da história da humanidade, o principal esteio das relações entre homens e mulheres, o que as impôs um papel secundário e de subordinação na organização do Estado, da sociedade e da família. A priorização do masculino em detrimento do feminino interfere, inclusive, nos contornos jurídicos de alguns direitos, e contribui para a sua não efetividade. Neste sentido, o exercício não igualitário do direito ao livre planejamento familiar, explicitado no artigo 226, §7º, da Constituição Federal de 1988 CF/88, exemplifica o acima indicado e confirma a premência de se analisar o que conduz à referida desigualdade, a fim de que se possa apontar opções para a superação dessa realidade. É fato que podemos apontar ganhos nacionais no espectro do planejamento familiar: como a redução gradativa das esterilizações cirúrgicas femininas como opção contraceptiva e a elaboração de normas sobre o tema, como a Lei nº 9263/1996 e a Lei nº 9029/1995 (ainda que criticáveis). 1 Pós-doutoranda pelo Programa de Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie (PNPD- CAPES). Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza UNIFOR.

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Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR

Denise Almeida de Andrade1

Resumo: O reconhecimento do planejamento familiar como um direito fundamental ocorreu com a

promulgação da Constituição Federal de 1988, nos termos previstos no artigo 226, § 7º. Desde então,

avanços significativos têm sido alcançados, contudo, as políticas públicas nacionais ainda estão

aquém das conquistas legislativas e doutrinárias, uma vez que referidas medidas não se traduzem em

práticas igualitárias e adequadas. Nesse contexto, esse trabalho propõe identificar algumas causas

para a não efetivação do direito fundamental ao planejamento familiar. Para tanto, a partir de uma

análise crítica sobre o patriarcado, a maternidade e as relações de gênero, iremos levantar como a

histórica desigualdade entre homens e mulheres tem prejudicado o exercício do direito ao

planejamento familiar. Com o intuito de auxiliar na proposição de uma nova prática para o Brasil,

apontaremos como as contribuições de teóricos internacionais, como Amartya Sen, Martha

Nussbaum e Nancy Fraser, corroboram na defesa de que a desigualdade de gênero continua

promovendo a falsa premissa de que as mulheres são naturalmente talhadas para desempenhar

atividades de cuidado e educação, típicas do ambiente doméstico. Por fim, ante a constatação de que

para se efetivar o direito ao livre planejamento familiar é imprescindível que se garanta iguais

oportunidades para homens e mulheres, pretendemos debater o paradigma da corresponsabilidade,

como um caminho para se superar a ineficiência das políticas públicas brasileiras.

Palavras-chave: Planejamento Familiar. Discriminação de Gênero. Políticas Públicas.

Corresponsabilidade.

Considerações Iniciais

O pressuposto (equivocado) da superioridade masculina sobre a mulher tem sido, ao longo da

história da humanidade, o principal esteio das relações entre homens e mulheres, o que as impôs um

papel secundário e de subordinação na organização do Estado, da sociedade e da família.

A priorização do masculino em detrimento do feminino interfere, inclusive, nos contornos

jurídicos de alguns direitos, e contribui para a sua não efetividade. Neste sentido, o exercício não

igualitário do direito ao livre planejamento familiar, explicitado no artigo 226, §7º, da Constituição

Federal de 1988 – CF/88, exemplifica o acima indicado e confirma a premência de se analisar o que

conduz à referida desigualdade, a fim de que se possa apontar opções para a superação dessa

realidade. É fato que podemos apontar ganhos nacionais no espectro do planejamento familiar: como

a redução gradativa das esterilizações cirúrgicas femininas como opção contraceptiva e a elaboração

de normas sobre o tema, como a Lei nº 9263/1996 e a Lei nº 9029/1995 (ainda que criticáveis).

1 Pós-doutoranda pelo Programa de Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie (PNPD-

CAPES). Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR.

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Todavia, antigos problemas remanescem, como os desafios de se conciliar a vida profissional

com a familiar, especialmente, para as mulheres. Enquanto é crescente a expectativa para que as

mulheres ocupem cada vez mais postos de trabalho diferenciados e de comando, mantem-se

praticamente inalterada a conjuntura doméstica que impõe à mulher a responsabilidade, quase que

exclusiva, por todas as tarefas de cuidado dos membros da família e da casa. A dicotomia entre âmbito

privado e público precisa ser superada, na medida em que os elos entre essas dimensões da vida

humana estão cada vez mais interligados.

Buscaremos, pois, demonstrar que a estrutura patriarcal e a discriminação de gênero contra a

mulher - malgrado todos os progressos alcançados nas últimas 5 (cinco) décadas, tanto em matéria

conceitual quanto normativa - impedem o efetivo exercício igualitário do direito ao livre

planejamento familiar. Ao fim, defendemos que a paridade da responsabilidade parental pode ser um

contributo para se alcançar referida efetividade.

1 Patriarcado e discriminação de gênero: algumas reflexões

Entendemos, em linhas gerais, o patriarcado como um sistema de poder que subordina as

mulheres aos homens, com supedâneo na equivocada defesa de uma natural superioridade masculina.

Apesar das diferenças de ordem biológica, fisiológica e hormonal entre homens e mulheres, não se

pode disto deduzir e afirmar a inferioridade da mulher, tampouco justificar qualquer tratamento

discriminatório.

O uso de patriarcado enquanto um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres

permite visualizar que a dominação não está presente somente na esfera familiar, tampouco

apenas no âmbito trabalhista, ou na mídia ou na política. O patriarcalismo compõe a dinâmica

social como um todo, estando inclusive, inculcado no inconsciente de homens e mulheres

individualmente e no coletivo enquanto categorias sociais (MORGANTE; NADER, 2014, p.

3).

As reflexões sobre o patriarcado podem ter diversos matizes, a depender da análise que seja

proposta, ressaltando-se, contudo, o fato de ser um conceito útil para se contextualizar a dominação

masculina sobre a mulher em termos históricos e geográficos. Segundo Narvaz e Koller (2006, p. 51),

“O patriarcado é uma forma de organização social na qual as relações são regidas por dois princípios

básicos: 1) as mulheres estão hierarquicamente subordinadas aos homens e, 2) os jovens estão

hierarquicamente subordinados aos homens mais velhos”. Nas palavras de Lerner (1986, p. 239),

Patriarchy in its wider definition means the manifestation and institutionalization of male

dominance over women and children in the family and the extension of male dominance over

women in society in general. It implies that men hold power in all the important institutions

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of society and that women are deprived of access to such power. It does not imply that women

are either totally powerless or totally deprived of rights, influence, and resources2.

É essa referida supremacia do homem, e, por consequência, do universo masculino, ditada

pelos valores do patriarcado, que conferiu (e ainda confere) maior valor às atividades categorizadas

como masculinas em detrimento das femininas e impõe um estado de subordinação à mulher. Para

Mestre I Mestre (2010, p. 14), “El patriarcado sería el sistema de dominación de las mujeres. Se

trata de señalar que la sujeción de las mujeres por parte de los hombres es sistemática y no individual

y responde a una determinada relación de dominación social y política (por tanto no biológica) [...]”.

A sociedade brasileira foi historicamente organizada a partir do modelo patriarcal, inclusive,

seu arcabouço normativo, uma vez que as fontes das normas (jurídicas e sociais) e instituições

elaboradas/incorporadas no Brasil tiveram em seu bojo experiências de dominação do homem sobre

a mulher. Essa realidade traduziu-se na elaboração de normativos que legalizavam e mantinham a

superioridade masculina: “Os homens, enquanto donos do espaço público, serão não apenas os

criadores das normas jurídicas, mas também das normas sociais que irão manter as mulheres num

segundo plano na sociedade” (LOPES; MIRANDA, 2013, p. 133).

A título de exemplo, apontam-se alguns dispositivos legais que vigeram no século XX e XXI

no Brasil, os quais corroboram a afirmação acima: 1) o artigo 2º do Código Eleitoral de 1932,

corroborado pela Constituição de 1934, que instituiu o voto feminino; 2) a Lei nº 4121/1962 que

alterou, dentre outros, os artigos 6º e 233 do Código Civil de 1916, os quais dispunham,

respectivamente, que a mulher era relativamente incapaz, e que não tinha direito a exercer o pátrio

poder3; 3) a Lei nº 11.106/2005 que revogou o inciso VII, do artigo 107, do Código Penal brasileiro,

que extinguia a punibilidade do estuprador, caso casasse com a vítima4.

O direito não é apenas norma, mas é também uma prática discursiva que age no meio social,

tanto como instrumento para legitimar o poder daquele que domina quanto como mecanismo

regulador dos comportamentos humanos. [...]. Desse modo, resulta inegável a influência dos

valores e dos interesses pessoais do operador do direito na elaboração das normas

(Legislativo), na implementação das políticas públicas (Executivo) e na solução dos conflitos

jurídicos (Judiciário), como também é impossível negar que o Direito tem sido utilizado

2 “Patriarcado, em sua definição mais abrangente, significa a manifestação e institucionalização da dominação masculina

sobre as mulheres e as crianças, na família, e a extensão desta dominação masculina sobre as mulheres na sociedade em

geral. Isto implica que o homem detém o poder em todas as importantes instituições da sociedade e as mulheres são

alijadas do acesso a este poder. Isto não implica que as mulheres estejam também destituídas de quaisquer poderes ou

completamente privadas de influência, direitos e recursos” (tradução livre). 3 Manteve-se, em prol da integridade do texto discutido, a expressão pátrio poder, pois era a expressão usada no Código

Civil de 1916. 4 Nesse ponto, merece nota a noção de que, até 2009, no Brasil, o estupro era um crime contra os costumes, significando

que, ao se criminalizar essa conduta, o bem tutelado era a moralidade e não a dignidade sexual da vítima (alteração feita

pela Lei nº 12.015/2009).

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como instrumento de dominação e regulação/manipulação de comportamentos (LOPES;

MIRANDA, 2013, p. 136).

Percebemos, pois, o arrefecimento da predominância de uma matriz patriarcal na sociedade

brasileira nas últimas décadas, por meio, por exemplo, de mudanças legislativas: 1) da inserção da

mulher no mercado formal de trabalho com a regulamentação do labor feminino pela Consolidação

das Leis do Trabalho – CLT, em 1941); 2) da alteração ao Código Civil de 1916, em 1962, que

suprimiu a obrigatoriedade de autorização do marido para que a mulher pudesse trabalhar fora do lar;

3) da promulgação da CF/885 e do Código Civil de 20026, as quais representaram uma reconhecida

mitigação da influência do sistema patriarcal no plano normativo brasileiro.

Há, porém, uma memória dos valores patriarcais, que remanescem imiscuídos em práticas

cotidianas e dificultam a superação desse sistema de poder7, por meio do qual se engessam os papéis

socialmente atribuídos a homens e mulheres, impedindo-se a igualdade entre ambos, impondo às

mulheres funções consideradas secundárias e de menor valor8.

É necessário frisarmos e reafirmarmos que as desigualdades entre homens e mulheres são

social e culturalmente estabelecidas, sendo, portanto, modificáveis e, por conseguinte, superáveis.

Para tanto, é preciso que conheçamos cada vez mais e melhor a realidade brasileira, e, neste sentido,

o último censo do IBGE, publicado em 2013, é elucidativo. Segundo o IBGE (2012, on line), as

mulheres brasileiras ganham 26,2% menos do que os homens, pelo mesmo trabalho realizado. Em

outras palavras, elas recebem 73,8% do valor percebido pelos homens quando desempenham a mesma

função e com igual carga horária de trabalho.

A diferença de remuneração percebida por homens e mulheres no desempenho de uma mesma

função demonstra a desigualdade há pouco apontada. Referida informação é prova de que não há

equidade nessas relações. Ao se aliar esse dado à constatação de que o contingente feminino

apresenta, atualmente, maior nível de instrução (quadro abaixo) (IBGE, 2012, on line), comprova-se

5 O artigo 226, § 5º da CF/88 estabelece: “os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente

pelo homem e pela mulher” (BRASIL, 1988, on line) 6 O artigo 1583, §1o6, substituiu a expressão “pátrio poder” (presente no Código Civil de 1916) por “poder familiar”, com

o intuito expresso de demonstrar a igualdade de direitos e deveres entre homens (pais) e mulheres (mães) (BRASIL, 2002,

on line). 7 Nesse ponto, destaca-se a crítica de algumas feministas (CASTRO; LAVINAS, 1992) ao uso do termo patriarcado em

iniciativas que busquem a superação da discriminação contra a mulher, pelo receio de que seja propagada a errônea ideia

de que se trata de um problema restrito ao âmbito doméstico. Justifica-se esse receio pela origem do vocábulo ter se dado

na esfera da família, do contexto privado, contudo, o conceito de patriarcado utilizado nesse trabalho refere-se, conforme

mencionado, a um sistema de dominação que se espraia por todas as esferas da vida social. 8 Para autores como Scott ([s/d], p. 21): “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças

percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”, ou seja, a distinção entre

os gêneros já é uma manifestação das relações de poder.

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que a discrepância de remuneração não se fundamenta em aspectos objetivos, como: a) nível de

instrução; b) função desempenhada ou cargo ocupado; c) carga horária, mas em uma discriminação

contra as mulheres pelo exclusivo motivo de serem mulheres.

Distribuição das pessoas de 25 anos ou mais de idade em (%)

NIVEL DE INSTRUÇÃO MULHERES HOMENS

Sem instrução e fundamental

incompleto

47,8 50,8

Fundamental completo e médio

incompleto

14,4 14,9

Médio completo e superior

incompleto

25,0 24,1

Superior completo 12,5 9,9

Não determinado 0,3 0,3

Tabela da autora. Fonte: Censo IBGE 2010 (IBGE, 2012, on line).

No que tange à histórica divisão de atividades em razão do sexo, sobeja, no Brasil, a prática

de que os serviços no âmbito doméstico são reservados à mulher: “A seção de atividade com maior

predominância feminina foi a dos Serviços domésticos, em que as mulheres constituíram 92,7%,

vindo, em seguida, as seções de Educação (75,8%) e da Saúde humana e serviços sociais (74,2%)”

(IBGE, 2012).

A divisão sexual do trabalho resta ainda mais evidenciada quando comparados os percentuais

de ocupação das atividades domésticas e de construção: na primeira, 94,8% são mulheres e 5,2% são

homens; já na construção 93,9% são homens e 6,1% são mulheres (IBGE, 2012). Estes dados

confirmam o resistente apego à ideia (falsa) de que as mulheres possuem habilidades “inatas” para o

cuidado, à atenção etc., o que dificulta a desconstrução dos estereótipos ora questionados: “percebe-

se uma inversão na proporcionalidade entre homens e mulheres nos dois grupamentos de atividades

que está em conformidade com os padrões sexistas de organização do mercado de trabalho” (ÁVILA,

2013, 236).

Entendemos, a partir deste breve apanhado, estar explicitada os males e desigualdades

oriundos de uma organização social, política, cultural e econômica que historicamente vem tolhendo

as potencialidades e chances de as mulheres vivenciarem relações igualitárias.

2 Maternidade: breves reflexões

Entendemos relevante a reflexão sobre a maternidade, uma vez que tem servido de escusa

para se impingir à mulher uma espécie de reclusão ao âmbito doméstico, alijando-a do direito e da

oportunidade de contribuir em outras esferas da sociedade. O amor materno como um instinto da

mulher-mãe, os valores patriarcais imiscuídos nas diversas relações (econômicas, sociais, de

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trabalho), e a consequente polarização entre o feminino e o masculino (sendo o primeiro inferior ao

segundo) compõem um panorama que demanda ser discutido a partir da perspectiva de gênero.

A maternidade, ao longo da história da humanidade, vem recebendo significados e valor

diversos, a depender das circunstâncias (econômicas, sociais, históricas, etc.) nas quais se insere.

Todavia, parece ser mais comum a percepção de que a maternidade é algo intrínseco à mulher,

característica inata, o que justifica a propagação de que o amor materno (a relação entre mãe e criança)

é instintivo, “natural”. Na verdade, é preciso esclarecer que a maternidade pode ser compreendida

como um fenômeno social influenciado por diversos fatores, que possui um viés biológico atrelado à

concepção, à gestação e à amamentação, e um viés sociocultural relacionado à responsabilidade com

a educação, a criação e a orientação dos filhos.

Podemos afirmar que a concepção de maternidade não se manteve estática ao longo da história

da humanidade, e está em constante modificação. Para Molina (2006, p. 93) a maternidade por ser

compreendida: “un conjunto de creencias y significados en permanente evolución, influidos por

factores culturales y sociales, que han ido apoyándose en ideas en torno a la mujer, a la procreación

y a la crianza, como vertientes que se encuentran y entrecruzan en la interpretación”.

Idealizamos a maternidade e impomos à mulher um só caminho para a realização pessoal e

contribuição para a sociedade: “a mulher [é] feita para ser mãe (ter um útero significa parir) [há] uma

correspondência perfeita entre atributos físicos e funções sociais” (GIFFIN, 1991, p.191). Badinter

(1985, p. 205-206) ao analisar as percepções sobre maternidade e paternidade, que se tornaram

comuns durante o século XIX, propõe que

Se a natureza criou o homem alheio à infância e fez do par mãe-filho uma perfeição em si,

surge a questão de saber quais são exatamente as funções do pai. [...] Felicitavam-se os

homens de boa vontade, sem se lançar aos outros o mesmo opróbio que recaía sobre as mães

más. Pois continua presente no inconsciente coletivo a ideia de que a criação de uma criança

cabe antes de tudo à mulher, de que o pai é antes seu colaborador do que seu associado em

igualdade de condições e, finalmente, de que a sua participação é menos necessária, ou mais

acessória.

Uma “hierarquia” entre a maternidade e a paternidade9 se estabeleceu, reforçando a premissa

de que a contribuição social da mulher se restringia ao seio doméstico; referida divisão de papéis,

além de eximir o homem da responsabilidade pelo filho, inviabilizava que a mulher pudesse exercer

qualquer atividade fora de casa. Um, porque tem que ter filho, pois essa é a sua obrigação maior e

9 A desigualdade entre homens e mulheres é anterior, consoante já discutido anteriormente no texto.

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mais importante perante a sociedade e a família; dois, porque a maternidade significa assumir todos

os cuidados relacionados à criança, o que demanda todo o seu tempo disponível.

A visão sexista dos papéis sociais, ainda não de todo superada, reservava à mulher uma

posição de subordinação e de autonomia restrita, reduzindo-a a um corpo reprodutivo e

cerceando, via de regra, ideais e projetos de vida que ultrapassem as funções de mãe e dona

de casa (MOREIRA; ARAÚJO, 2004, p. 392).

A partir da década de 1960 ganhou força a proposta de analisar a maternidade como fenômeno

social (e não como algo natural e/ou divino), quais as influências que a formação de seu conceito

recebeu ao longo da história das sociedades ocidentais, bem como a sua interferência na construção

da identidade da mulher e da compreensão do lugar que ela ocupa na sociedade e na constância

familiar: “busca-se não apenas conscientizar a mulher sobre as cruéis distorções das formulações

patriarcais sobre a maternidade, mas também despertá-la para o enorme potencial positivo dessa

condição” (STEVENS, 2013, p. 2).

Os escritos de Simone de Beauvoir do fim da década de 1950, na obra O Segundo Sexo (1967),

inauguraram, de fato, um processo de crítica e desconstrução da maternidade como fundamento da

identidade da mulher: “embora muitos cientistas saibam perfeitamente que o conceito de instinto está

caduco, alguma coisa em nós, mais forte do que a razão, continua a pensar na maternidade em termos

de instinto” (BADINTER, 1985, p. 16).

Um dos elementos principais expressos por Beauvoir (1985) na referida obra é o repúdio ao

determinismo biológico consubstanciado na maternidade compulsória que impunha às mulheres um

destino predeterminado a ser mãe: “A maternidade começava, então, a ser compreendida como uma

construção social, que designava o lugar das mulheres na família e na sociedade, isto é, a causa

principal da dominação do sexo masculino sobre o sexo feminino” (SCAVONE, 2001, p. 138).

A maternidade passa a ser ponto central no entendimento da dominação de um sexo

(masculino) sobre o outro (feminino): “[...]o lugar das mulheres na reprodução biológica – gestação,

parto, amamentação e consequentes cuidados com as crianças –determinava a ausência das mulheres

no espaço público, confinando-as ao espaço privado e à dominação masculina” (SCAVONE, 2001,

p. 138-139). Para Beauvoir (1985), o primeiro passo para subverter a dominação masculina é rechaçar

a maternidade. A mulher teria que recusar a maternidade para que pudesse buscar, propor e gozar de

uma vida menos restritiva e opressora. As contribuições de Beauvoir são significativas e

imprescindíveis para refletirmos sobre a vivência da maternidade na vida das mulheres e suas

repercussões, incluídas todas as mulheres que por opção ou por fatores alheios à sua vontade não

desempenham o papel de mãe.

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Entendemos que é possível se estabelecer uma concepção de maternidade que não subordine

a mulher, partindo-se do reconhecimento de que é essencial a igualdade de direitos e obrigações entre

os sexos na reprodução. As diferenças biológicas não são inconciliáveis com a equidade da

responsabilidade parental. Na verdade, o que impede a divisão e vivência não opressora das funções

de cuidado é a maneira como as relações entre homens e mulheres têm sido travadas.

3 Olhares cruzados sobre a igualdade de gênero e a proposta do modelo de corresponsabilidade

A superação da desigualdade de gênero entre mulheres e homens é imprescindível para que

tenhamos, de fato, um avanço no que refere à busca pela equidade no planejamento familiar.

Percebemos ser necessária a superação da barreira que compromete a vivência de oportunidades

equitativas, reforçada diuturnamente pelas práticas forjadas em um cenário de discriminação de

gênero. É nesse ponto que entendemos que Amartya Sen e Martha Nussbaum contribuem para a

compreensão de uma justiça de gênero, pois defendem que pobreza não deve ser confundida com má

distribuição de riqueza ou renda, mas sim com a supressão ou não promoção das capacidades

humanas; explicitam, desta maneira, a ideia de que historicamente não se garante às mulheres as

mesmas oportunidades concedidas aos homens, os quais, desde pequenos, são estimulados a

explorarem e a desenvolverem suas potencialidades e a aperfeiçoarem suas habilidades.

Sen e Nussbaum são pioneiros ao apresentarem a abordagem das capacidades no contexto da

justiça social e de gênero, e convergem nos fundamentos da mencionada proposta (KELEHER, 2014).

Para Nussbaum (2003, p. 33): “Inequalities between women and men have been especially important

in his thinking, and the achievement of gender justice in society has been among the most central

goals of his theoretical enterprise”. Amartya Sen irrompeu com a certeza de que o desenvolvimento

econômico e a alta renda são garantes inequívocos do bem-estar individual e coletivo. Na verdade, o

Economista intentou demonstrar que a carência (material e de condições paritárias de

desenvolvimento de capacidades) condiciona as escolhas e ações das pessoas, as quais, por

conseguinte, não fazem opções genuinamente livres.

Os fracassados e os oprimidos acabam por perder a coragem de desejar coisas que outros,

mais favoravelmente tratados pela sociedade, desejam confiantemente. A ausência de desejo

por coisas além dos meios de que uma pessoa dispõe pode refletir não uma valoração

deficiente por parte dela, mas apenas uma ausência de esperança, e o medo da inevitável

frustração. O fracassado enfrenta as desigualdades sociais ajustando seus desejos às suas

possibilidades (SEN, 1990, p.10-11).

Uma vez que as pessoas são diferentes, seus anseios e projetos são múltiplos, não há uma

verdade inequívoca que se aplique a todos, indistintamente. Desta forma, é imprescindível que cada

um seja capaz de decidir sobre a estruturação de sua vida, o que só é possível, em uma perspectiva

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igualitária, caso todos tenham as mesmas chances de desenvolver as habilidades que fundamentarão

referidas escolhas. Pelo reconhecimento de que a medida da pobreza não se reduz à baixa renda,

Amartya Sen propõe deslocar o foco da quantificação desses bens materiais (apropriação de riqueza)

para a aferição da capacidade das pessoas de transformarem referidos bens em meios úteis a assegurar

a vida que consideram mais adequada. Nesse escopo, justifica-se o seu esforço teórico para

compreender a pobreza, a partir da perspectiva da privação das capabilities/capacidades de função

(em substituição ao enfoque tradicional): “The focus of the capability approach is thus not just on

what a person actually ends up doing, but also on what she is in fact able to do, whether or not she

chooses to make use of that opportunity” (SEN, 2009, p. 235).

A questão central é a qualidade da vida que podemos levar. A necessidade de possuir

mercadorias para que se alcance um determinado patamar de condições de vida varia

grandemente segundo características fisiológicas, sociais e culturais, além de outras

igualmente contingentes […] O valor do padrão de vida repousa na vida, e não na possessão

de mercadorias, a qual tem relevância derivada e variável (SEN, 1990, p. 25).

Em uma abordagem voltada às desigualdades de gênero, Sen (2009, p. 35) defende a posição

de que as mulheres (idosos, doentes crônicos etc.) vivenciam uma condição de liberdade/autonomia

mitigada, e que, mesmo quando auferem renda, teoricamente, suficiente para suprir todas as suas

necessidades materiais, podem padecer de pobreza de capacidades de função e de liberdade.

Women’s current preferences often show distortions that are the result of unjust background

conditions. And agency and freedom are particularly important goals for women, who have

so often been treated as passive dependents. This line of argument has close links with the

feminist critique of Utilitarianism and dominant economic paradigms. It also connects

fruitfully with writings by activist-scholars who stress the importance of women’s agency and

participation (NUSSBAUM, 2006, p. 45).

Martha Nussbaum (2003) desenvolveu uma lista de 10 (dez) capacidades humanas, a qual

denomina de Central Human Capabilities10, com o intuito de serem um ponto de partida para arrimar

as demandas por uma justiça social e de gênero: “Sen has focused on the role of capabilities in

demarcating the space within which quality of life assessments are made; I use the idea in a more

exigent way, as a foundation for basic political principles that should underwrite constitutional

guarantees” (NUSSBAUM, 2000, p. 71). Nussbaum (2003b, p. 330) reafirma que Sen propôs um

novo parâmetro para se compreender a pobreza, contudo, não conseguiu suplantar o paradigma

clássico, o qual permanece balizando avaliações e arrimando decisões:

The dominant economic paradigm encourages continued insensitivity to the situation of the

world’s poorest people and to the special disadvantages suffered by women—not because

economists are by nature bad people, but because they see things through the lens of a bad

10 “1. Life; 2. Bodily Health.; 3. Bodily Integrity; 4. Senses, Imagination, and Thought; 5. Emotions; 6. Practical Reason;

7. Affiliation; 8. Other Species; 9. Play;10. Control Over One’s Environment” (NUSSBAUM, 2003, p. 42).

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theory (which, of course, might have insensitivity somewhere behind it, or maintaining it in

place). This paradigm, and the practices it supports, should be contested.

Percebe-se a relevância das contribuições da autora para a abordagem das capacidades

humanas com vistas a uma igualdade de gênero, pois, ao firmar um rol de capacidades humanas

centrais, conferiu maior concretude à proposta: “My goal […] is to go beyond the merely comparative

use of the capability space to articulate an account of how capabilities […] can provide a basis for

central constitutional principles that citizens have a right to demand from their governments”

(NUSSBAUM, 2000, p. 42).

Nancy Fraser, por sua vez, entende que as teorias igualitaristas, a exemplo da desenvolvida

por Amartya Sen, apesar de imprescindíveis à superação das desigualdades materiais, não alcançarão

os objetivos pretendidos por não considerarem as desigualdades de cunho cultural ou simbólico:

[...] a injustiça se radica nos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação.

Seus exemplos incluem a dominação cultural (ser submetido a padrões de interpretação e

comunicação associados a outra cultura, alheios e/ou hostis à sua própria); o ocultamento

(tornar-se invisível por efeito das práticas comunicativas, interpretativas e representacionais

autorizadas da própria cultura); e o desrespeito (ser difamado ou desqualificado

rotineiramente nas representações culturais públicas estereotipadas e/ou nas interações da

vida cotidiana) (FRASER, 2006, p. 232).

No âmbito da discriminação de gênero, não há como se avançar sem considerar todas as faces

da referida discriminação, fato que impõe a responsabilidade teórica e prática “de desenvolver uma

teoria crítica do reconhecimento, que identifique e assuma a defesa somente daquelas versões da

política cultural da diferença que possam ser combinadas coerentemente com a política social da

igualdade” (FRASER, 2006, p. 231). Desta forma, a autora reconhece a relevância das políticas de

redistribuição, mas ressalta a necessidade de que sejam aliadas a isso as políticas de reconhecimento.

A mulher deve ser reconhecida como um par, um igual, não sendo suficiente seu enriquecimento

econômico; o Estado e a sociedade precisam compreender e reconhecer que homens e mulheres são

pares. Para tanto, a autora defende o princípio da paridade participativa, por meio do qual mulheres

e homens ocuparão os espaços e funções públicas de maneira igualitária.

Por fim, a proposta de Elósegui Itxaso (2002), a qual apresenta o modelo da igualdade na

diferença, denominado de corresponsabilidade, por meio da defesa de que as esferas pública e privada

estão cada vez mais interligadas e que apenas o equilíbrio entre essas dimensões garantirá a equidade

de direitos. Acentua que os papéis atribuídos a homens e mulheres são em sua maioria

intercambiáveis, não havendo determinação biológica que justifique a polarização de tarefas e

funções tipicamente femininas ou masculinas.

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A ineficiência das políticas públicas até hoje desenvolvidas sobre o planejamento familiar

explica-se, em parte, por não se reconhecer a referida discriminação de gênero como uma realidade.

Nas palavras de Freedman e Isaacs (1993, p. 18), “health policies and programs can-not treat

reproduction as mere mechanics, as isolated biological events of conception and birth; rather they

must treat it as a lifelong process inextricably linked to the status and roles of women in their homes

and societies”.

Diante disso, defendemos que se adote como pressuposto para elaboração de quaisquer

medidas de planejamento familiar no Brasil a proposta da corresponsabilidade, com o objetivo de

estabelecer um novo parâmetro de estruturação e organização das relações familiares e sociais, que

viabilize o equilíbrio de responsabilidades entre homens e mulheres.

4 Considerações finais

Buscamos contribuir, com este texto, para a compreensão de que os significados atribuídos

aos papéis historicamente desempenhados por homens e mulheres restaram estabelecidos sob a égide

da subordinação das mulheres aos homens, realidade que não mais se coaduna com as premissas do

Estado brasileiro, que pugna pelo respeito e pela promoção dos direitos fundamentais e pela igualdade

entre as pessoas, sem quaisquer distinções.

Entendemos que o efetivo exercício do direito ao livre planejamento familiar transcende os

aspectos da vida doméstica, impondo a ressignificação da maternidade e da paternidade na vida de

mulheres e homens, a fim de que haja um equilíbrio nas funções assumidas por ambos, tanto no

âmbito privado quanto no público.

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FAMILY PLANNING AS A FUNDAMENTAL RIGHT

Abstract: The recognition of family planning as a right is recent, having been consolidated in Brazil

as a fundamental right as from the enactment of the Federal Constitution in 1988, in accordance with

226, § 7º. Despite its recent status, significant progress has been achieved, both nationally and

internationally, as it is the case of its conceptual consolidation in international documents. Yet, the

outcomes of the national public policies of family planning are below the normative and conceptual

conquests, since the the referred measures have not resulted in equitable and adequate practices of

family planning. The objective of this text is to identify the reasons the fundamental right did not

become effective in family planning, with the aim of contributing to problem solving. For this

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purpose, it will be demonstrated how the historical inequality between men and women influences in

the exercise of rights to family planning, from a critical analysis of patriarchy, maternity and gender

relations. The main international documents relating to the rights to family planning will be analyzed

in order to expose the historical evolution of such rights in Brazil, based on the contributions resulting

from the National Constituent Assembly. An overview of the public policies of family planning

developed, most specifically, since the 1980s will be carried out. Finally, following the observations

that, in order to turn the rights to free family planning effective, it is essential that equal opportunities

for men and women be guaranteed, both at public and private level and the co-responsibility paradigm

is proposed as a way to overcome the inefficient reality of Brazilian public policies.

Keywords: Family planning. Gender discrimination. Public policies. Co-responsibility model.