of 13 /13
1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR Denise Almeida de Andrade 1 Resumo: O reconhecimento do planejamento familiar como um direito fundamental ocorreu com a promulgação da Constituição Federal de 1988, nos termos previstos no artigo 226, § 7º. Desde então, avanços significativos têm sido alcançados, contudo, as políticas públicas nacionais ainda estão aquém das conquistas legislativas e doutrinárias, uma vez que referidas medidas não se traduzem em práticas igualitárias e adequadas. Nesse contexto, esse trabalho propõe identificar algumas causas para a não efetivação do direito fundamental ao planejamento familiar. Para tanto, a partir de uma análise crítica sobre o patriarcado, a maternidade e as relações de gênero, iremos levantar como a histórica desigualdade entre homens e mulheres tem prejudicado o exercício do direito ao planejamento familiar. Com o intuito de auxiliar na proposição de uma nova prática para o Brasil, apontaremos como as contribuições de teóricos internacionais, como Amartya Sen, Martha Nussbaum e Nancy Fraser, corroboram na defesa de que a desigualdade de gênero continua promovendo a falsa premissa de que as mulheres são naturalmente talhadas para desempenhar atividades de cuidado e educação, típicas do ambiente doméstico. Por fim, ante a constatação de que para se efetivar o direito ao livre planejamento familiar é imprescindível que se garanta iguais oportunidades para homens e mulheres, pretendemos debater o paradigma da corresponsabilidade, como um caminho para se superar a ineficiência das políticas públicas brasileiras. Palavras-chave: Planejamento Familiar. Discriminação de Gênero. Políticas Públicas. Corresponsabilidade. Considerações Iniciais O pressuposto (equivocado) da superioridade masculina sobre a mulher tem sido, ao longo da história da humanidade, o principal esteio das relações entre homens e mulheres, o que as impôs um papel secundário e de subordinação na organização do Estado, da sociedade e da família. A priorização do masculino em detrimento do feminino interfere, inclusive, nos contornos jurídicos de alguns direitos, e contribui para a sua não efetividade. Neste sentido, o exercício não igualitário do direito ao livre planejamento familiar, explicitado no artigo 226, §7º, da Constituição Federal de 1988 CF/88, exemplifica o acima indicado e confirma a premência de se analisar o que conduz à referida desigualdade, a fim de que se possa apontar opções para a superação dessa realidade. É fato que podemos apontar ganhos nacionais no espectro do planejamento familiar: como a redução gradativa das esterilizações cirúrgicas femininas como opção contraceptiva e a elaboração de normas sobre o tema, como a Lei nº 9263/1996 e a Lei nº 9029/1995 (ainda que criticáveis). 1 Pós-doutoranda pelo Programa de Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie (PNPD- CAPES). Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza UNIFOR.

DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR...1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

  • Author
    others

  • View
    1

  • Download
    0

Embed Size (px)

Text of DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR...1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th...

  • 1

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    DIREITO FUNDAMENTAL AO PLANEJAMENTO FAMILIAR

    Denise Almeida de Andrade1

    Resumo: O reconhecimento do planejamento familiar como um direito fundamental ocorreu com a

    promulgação da Constituição Federal de 1988, nos termos previstos no artigo 226, § 7º. Desde então,

    avanços significativos têm sido alcançados, contudo, as políticas públicas nacionais ainda estão

    aquém das conquistas legislativas e doutrinárias, uma vez que referidas medidas não se traduzem em

    práticas igualitárias e adequadas. Nesse contexto, esse trabalho propõe identificar algumas causas

    para a não efetivação do direito fundamental ao planejamento familiar. Para tanto, a partir de uma

    análise crítica sobre o patriarcado, a maternidade e as relações de gênero, iremos levantar como a

    histórica desigualdade entre homens e mulheres tem prejudicado o exercício do direito ao

    planejamento familiar. Com o intuito de auxiliar na proposição de uma nova prática para o Brasil,

    apontaremos como as contribuições de teóricos internacionais, como Amartya Sen, Martha

    Nussbaum e Nancy Fraser, corroboram na defesa de que a desigualdade de gênero continua

    promovendo a falsa premissa de que as mulheres são naturalmente talhadas para desempenhar

    atividades de cuidado e educação, típicas do ambiente doméstico. Por fim, ante a constatação de que

    para se efetivar o direito ao livre planejamento familiar é imprescindível que se garanta iguais

    oportunidades para homens e mulheres, pretendemos debater o paradigma da corresponsabilidade,

    como um caminho para se superar a ineficiência das políticas públicas brasileiras.

    Palavras-chave: Planejamento Familiar. Discriminação de Gênero. Políticas Públicas.

    Corresponsabilidade.

    Considerações Iniciais

    O pressuposto (equivocado) da superioridade masculina sobre a mulher tem sido, ao longo da

    história da humanidade, o principal esteio das relações entre homens e mulheres, o que as impôs um

    papel secundário e de subordinação na organização do Estado, da sociedade e da família.

    A priorização do masculino em detrimento do feminino interfere, inclusive, nos contornos

    jurídicos de alguns direitos, e contribui para a sua não efetividade. Neste sentido, o exercício não

    igualitário do direito ao livre planejamento familiar, explicitado no artigo 226, §7º, da Constituição

    Federal de 1988 – CF/88, exemplifica o acima indicado e confirma a premência de se analisar o que

    conduz à referida desigualdade, a fim de que se possa apontar opções para a superação dessa

    realidade. É fato que podemos apontar ganhos nacionais no espectro do planejamento familiar: como

    a redução gradativa das esterilizações cirúrgicas femininas como opção contraceptiva e a elaboração

    de normas sobre o tema, como a Lei nº 9263/1996 e a Lei nº 9029/1995 (ainda que criticáveis).

    1 Pós-doutoranda pelo Programa de Direito Político e Econômico da Universidade Presbiteriana Mackenzie (PNPD-

    CAPES). Doutora e Mestre em Direito Constitucional pela Universidade de Fortaleza – UNIFOR.

  • 2

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    Todavia, antigos problemas remanescem, como os desafios de se conciliar a vida profissional

    com a familiar, especialmente, para as mulheres. Enquanto é crescente a expectativa para que as

    mulheres ocupem cada vez mais postos de trabalho diferenciados e de comando, mantem-se

    praticamente inalterada a conjuntura doméstica que impõe à mulher a responsabilidade, quase que

    exclusiva, por todas as tarefas de cuidado dos membros da família e da casa. A dicotomia entre âmbito

    privado e público precisa ser superada, na medida em que os elos entre essas dimensões da vida

    humana estão cada vez mais interligados.

    Buscaremos, pois, demonstrar que a estrutura patriarcal e a discriminação de gênero contra a

    mulher - malgrado todos os progressos alcançados nas últimas 5 (cinco) décadas, tanto em matéria

    conceitual quanto normativa - impedem o efetivo exercício igualitário do direito ao livre

    planejamento familiar. Ao fim, defendemos que a paridade da responsabilidade parental pode ser um

    contributo para se alcançar referida efetividade.

    1 Patriarcado e discriminação de gênero: algumas reflexões

    Entendemos, em linhas gerais, o patriarcado como um sistema de poder que subordina as

    mulheres aos homens, com supedâneo na equivocada defesa de uma natural superioridade masculina.

    Apesar das diferenças de ordem biológica, fisiológica e hormonal entre homens e mulheres, não se

    pode disto deduzir e afirmar a inferioridade da mulher, tampouco justificar qualquer tratamento

    discriminatório.

    O uso de patriarcado enquanto um sistema de dominação dos homens sobre as mulheres

    permite visualizar que a dominação não está presente somente na esfera familiar, tampouco

    apenas no âmbito trabalhista, ou na mídia ou na política. O patriarcalismo compõe a dinâmica

    social como um todo, estando inclusive, inculcado no inconsciente de homens e mulheres

    individualmente e no coletivo enquanto categorias sociais (MORGANTE; NADER, 2014, p.

    3).

    As reflexões sobre o patriarcado podem ter diversos matizes, a depender da análise que seja

    proposta, ressaltando-se, contudo, o fato de ser um conceito útil para se contextualizar a dominação

    masculina sobre a mulher em termos históricos e geográficos. Segundo Narvaz e Koller (2006, p. 51),

    “O patriarcado é uma forma de organização social na qual as relações são regidas por dois princípios

    básicos: 1) as mulheres estão hierarquicamente subordinadas aos homens e, 2) os jovens estão

    hierarquicamente subordinados aos homens mais velhos”. Nas palavras de Lerner (1986, p. 239),

    Patriarchy in its wider definition means the manifestation and institutionalization of male

    dominance over women and children in the family and the extension of male dominance over

    women in society in general. It implies that men hold power in all the important institutions

  • 3

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    of society and that women are deprived of access to such power. It does not imply that women

    are either totally powerless or totally deprived of rights, influence, and resources2.

    É essa referida supremacia do homem, e, por consequência, do universo masculino, ditada

    pelos valores do patriarcado, que conferiu (e ainda confere) maior valor às atividades categorizadas

    como masculinas em detrimento das femininas e impõe um estado de subordinação à mulher. Para

    Mestre I Mestre (2010, p. 14), “El patriarcado sería el sistema de dominación de las mujeres. Se

    trata de señalar que la sujeción de las mujeres por parte de los hombres es sistemática y no individual

    y responde a una determinada relación de dominación social y política (por tanto no biológica) [...]”.

    A sociedade brasileira foi historicamente organizada a partir do modelo patriarcal, inclusive,

    seu arcabouço normativo, uma vez que as fontes das normas (jurídicas e sociais) e instituições

    elaboradas/incorporadas no Brasil tiveram em seu bojo experiências de dominação do homem sobre

    a mulher. Essa realidade traduziu-se na elaboração de normativos que legalizavam e mantinham a

    superioridade masculina: “Os homens, enquanto donos do espaço público, serão não apenas os

    criadores das normas jurídicas, mas também das normas sociais que irão manter as mulheres num

    segundo plano na sociedade” (LOPES; MIRANDA, 2013, p. 133).

    A título de exemplo, apontam-se alguns dispositivos legais que vigeram no século XX e XXI

    no Brasil, os quais corroboram a afirmação acima: 1) o artigo 2º do Código Eleitoral de 1932,

    corroborado pela Constituição de 1934, que instituiu o voto feminino; 2) a Lei nº 4121/1962 que

    alterou, dentre outros, os artigos 6º e 233 do Código Civil de 1916, os quais dispunham,

    respectivamente, que a mulher era relativamente incapaz, e que não tinha direito a exercer o pátrio

    poder3; 3) a Lei nº 11.106/2005 que revogou o inciso VII, do artigo 107, do Código Penal brasileiro,

    que extinguia a punibilidade do estuprador, caso casasse com a vítima4.

    O direito não é apenas norma, mas é também uma prática discursiva que age no meio social,

    tanto como instrumento para legitimar o poder daquele que domina quanto como mecanismo

    regulador dos comportamentos humanos. [...]. Desse modo, resulta inegável a influência dos

    valores e dos interesses pessoais do operador do direito na elaboração das normas

    (Legislativo), na implementação das políticas públicas (Executivo) e na solução dos conflitos

    jurídicos (Judiciário), como também é impossível negar que o Direito tem sido utilizado

    2 “Patriarcado, em sua definição mais abrangente, significa a manifestação e institucionalização da dominação masculina

    sobre as mulheres e as crianças, na família, e a extensão desta dominação masculina sobre as mulheres na sociedade em

    geral. Isto implica que o homem detém o poder em todas as importantes instituições da sociedade e as mulheres são

    alijadas do acesso a este poder. Isto não implica que as mulheres estejam também destituídas de quaisquer poderes ou

    completamente privadas de influência, direitos e recursos” (tradução livre). 3 Manteve-se, em prol da integridade do texto discutido, a expressão pátrio poder, pois era a expressão usada no Código

    Civil de 1916. 4 Nesse ponto, merece nota a noção de que, até 2009, no Brasil, o estupro era um crime contra os costumes, significando

    que, ao se criminalizar essa conduta, o bem tutelado era a moralidade e não a dignidade sexual da vítima (alteração feita

    pela Lei nº 12.015/2009).

  • 4

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    como instrumento de dominação e regulação/manipulação de comportamentos (LOPES;

    MIRANDA, 2013, p. 136).

    Percebemos, pois, o arrefecimento da predominância de uma matriz patriarcal na sociedade

    brasileira nas últimas décadas, por meio, por exemplo, de mudanças legislativas: 1) da inserção da

    mulher no mercado formal de trabalho com a regulamentação do labor feminino pela Consolidação

    das Leis do Trabalho – CLT, em 1941); 2) da alteração ao Código Civil de 1916, em 1962, que

    suprimiu a obrigatoriedade de autorização do marido para que a mulher pudesse trabalhar fora do lar;

    3) da promulgação da CF/885 e do Código Civil de 20026, as quais representaram uma reconhecida

    mitigação da influência do sistema patriarcal no plano normativo brasileiro.

    Há, porém, uma memória dos valores patriarcais, que remanescem imiscuídos em práticas

    cotidianas e dificultam a superação desse sistema de poder7, por meio do qual se engessam os papéis

    socialmente atribuídos a homens e mulheres, impedindo-se a igualdade entre ambos, impondo às

    mulheres funções consideradas secundárias e de menor valor8.

    É necessário frisarmos e reafirmarmos que as desigualdades entre homens e mulheres são

    social e culturalmente estabelecidas, sendo, portanto, modificáveis e, por conseguinte, superáveis.

    Para tanto, é preciso que conheçamos cada vez mais e melhor a realidade brasileira, e, neste sentido,

    o último censo do IBGE, publicado em 2013, é elucidativo. Segundo o IBGE (2012, on line), as

    mulheres brasileiras ganham 26,2% menos do que os homens, pelo mesmo trabalho realizado. Em

    outras palavras, elas recebem 73,8% do valor percebido pelos homens quando desempenham a mesma

    função e com igual carga horária de trabalho.

    A diferença de remuneração percebida por homens e mulheres no desempenho de uma mesma

    função demonstra a desigualdade há pouco apontada. Referida informação é prova de que não há

    equidade nessas relações. Ao se aliar esse dado à constatação de que o contingente feminino

    apresenta, atualmente, maior nível de instrução (quadro abaixo) (IBGE, 2012, on line), comprova-se

    5 O artigo 226, § 5º da CF/88 estabelece: “os direitos e deveres referentes à sociedade conjugal são exercidos igualmente

    pelo homem e pela mulher” (BRASIL, 1988, on line) 6 O artigo 1583, §1o6, substituiu a expressão “pátrio poder” (presente no Código Civil de 1916) por “poder familiar”, com

    o intuito expresso de demonstrar a igualdade de direitos e deveres entre homens (pais) e mulheres (mães) (BRASIL, 2002,

    on line). 7 Nesse ponto, destaca-se a crítica de algumas feministas (CASTRO; LAVINAS, 1992) ao uso do termo patriarcado em

    iniciativas que busquem a superação da discriminação contra a mulher, pelo receio de que seja propagada a errônea ideia

    de que se trata de um problema restrito ao âmbito doméstico. Justifica-se esse receio pela origem do vocábulo ter se dado

    na esfera da família, do contexto privado, contudo, o conceito de patriarcado utilizado nesse trabalho refere-se, conforme

    mencionado, a um sistema de dominação que se espraia por todas as esferas da vida social. 8 Para autores como Scott ([s/d], p. 21): “gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças

    percebidas entre os sexos, e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder”, ou seja, a distinção entre

    os gêneros já é uma manifestação das relações de poder.

  • 5

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    que a discrepância de remuneração não se fundamenta em aspectos objetivos, como: a) nível de

    instrução; b) função desempenhada ou cargo ocupado; c) carga horária, mas em uma discriminação

    contra as mulheres pelo exclusivo motivo de serem mulheres.

    Distribuição das pessoas de 25 anos ou mais de idade em (%)

    NIVEL DE INSTRUÇÃO MULHERES HOMENS

    Sem instrução e fundamental

    incompleto

    47,8 50,8

    Fundamental completo e médio

    incompleto

    14,4 14,9

    Médio completo e superior

    incompleto

    25,0 24,1

    Superior completo 12,5 9,9

    Não determinado 0,3 0,3

    Tabela da autora. Fonte: Censo IBGE 2010 (IBGE, 2012, on line).

    No que tange à histórica divisão de atividades em razão do sexo, sobeja, no Brasil, a prática

    de que os serviços no âmbito doméstico são reservados à mulher: “A seção de atividade com maior

    predominância feminina foi a dos Serviços domésticos, em que as mulheres constituíram 92,7%,

    vindo, em seguida, as seções de Educação (75,8%) e da Saúde humana e serviços sociais (74,2%)”

    (IBGE, 2012).

    A divisão sexual do trabalho resta ainda mais evidenciada quando comparados os percentuais

    de ocupação das atividades domésticas e de construção: na primeira, 94,8% são mulheres e 5,2% são

    homens; já na construção 93,9% são homens e 6,1% são mulheres (IBGE, 2012). Estes dados

    confirmam o resistente apego à ideia (falsa) de que as mulheres possuem habilidades “inatas” para o

    cuidado, à atenção etc., o que dificulta a desconstrução dos estereótipos ora questionados: “percebe-

    se uma inversão na proporcionalidade entre homens e mulheres nos dois grupamentos de atividades

    que está em conformidade com os padrões sexistas de organização do mercado de trabalho” (ÁVILA,

    2013, 236).

    Entendemos, a partir deste breve apanhado, estar explicitada os males e desigualdades

    oriundos de uma organização social, política, cultural e econômica que historicamente vem tolhendo

    as potencialidades e chances de as mulheres vivenciarem relações igualitárias.

    2 Maternidade: breves reflexões

    Entendemos relevante a reflexão sobre a maternidade, uma vez que tem servido de escusa

    para se impingir à mulher uma espécie de reclusão ao âmbito doméstico, alijando-a do direito e da

    oportunidade de contribuir em outras esferas da sociedade. O amor materno como um instinto da

    mulher-mãe, os valores patriarcais imiscuídos nas diversas relações (econômicas, sociais, de

  • 6

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    trabalho), e a consequente polarização entre o feminino e o masculino (sendo o primeiro inferior ao

    segundo) compõem um panorama que demanda ser discutido a partir da perspectiva de gênero.

    A maternidade, ao longo da história da humanidade, vem recebendo significados e valor

    diversos, a depender das circunstâncias (econômicas, sociais, históricas, etc.) nas quais se insere.

    Todavia, parece ser mais comum a percepção de que a maternidade é algo intrínseco à mulher,

    característica inata, o que justifica a propagação de que o amor materno (a relação entre mãe e criança)

    é instintivo, “natural”. Na verdade, é preciso esclarecer que a maternidade pode ser compreendida

    como um fenômeno social influenciado por diversos fatores, que possui um viés biológico atrelado à

    concepção, à gestação e à amamentação, e um viés sociocultural relacionado à responsabilidade com

    a educação, a criação e a orientação dos filhos.

    Podemos afirmar que a concepção de maternidade não se manteve estática ao longo da história

    da humanidade, e está em constante modificação. Para Molina (2006, p. 93) a maternidade por ser

    compreendida: “un conjunto de creencias y significados en permanente evolución, influidos por

    factores culturales y sociales, que han ido apoyándose en ideas en torno a la mujer, a la procreación

    y a la crianza, como vertientes que se encuentran y entrecruzan en la interpretación”.

    Idealizamos a maternidade e impomos à mulher um só caminho para a realização pessoal e

    contribuição para a sociedade: “a mulher [é] feita para ser mãe (ter um útero significa parir) [há] uma

    correspondência perfeita entre atributos físicos e funções sociais” (GIFFIN, 1991, p.191). Badinter

    (1985, p. 205-206) ao analisar as percepções sobre maternidade e paternidade, que se tornaram

    comuns durante o século XIX, propõe que

    Se a natureza criou o homem alheio à infância e fez do par mãe-filho uma perfeição em si,

    surge a questão de saber quais são exatamente as funções do pai. [...] Felicitavam-se os

    homens de boa vontade, sem se lançar aos outros o mesmo opróbio que recaía sobre as mães

    más. Pois continua presente no inconsciente coletivo a ideia de que a criação de uma criança

    cabe antes de tudo à mulher, de que o pai é antes seu colaborador do que seu associado em

    igualdade de condições e, finalmente, de que a sua participação é menos necessária, ou mais

    acessória.

    Uma “hierarquia” entre a maternidade e a paternidade9 se estabeleceu, reforçando a premissa

    de que a contribuição social da mulher se restringia ao seio doméstico; referida divisão de papéis,

    além de eximir o homem da responsabilidade pelo filho, inviabilizava que a mulher pudesse exercer

    qualquer atividade fora de casa. Um, porque tem que ter filho, pois essa é a sua obrigação maior e

    9 A desigualdade entre homens e mulheres é anterior, consoante já discutido anteriormente no texto.

  • 7

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    mais importante perante a sociedade e a família; dois, porque a maternidade significa assumir todos

    os cuidados relacionados à criança, o que demanda todo o seu tempo disponível.

    A visão sexista dos papéis sociais, ainda não de todo superada, reservava à mulher uma

    posição de subordinação e de autonomia restrita, reduzindo-a a um corpo reprodutivo e

    cerceando, via de regra, ideais e projetos de vida que ultrapassem as funções de mãe e dona

    de casa (MOREIRA; ARAÚJO, 2004, p. 392).

    A partir da década de 1960 ganhou força a proposta de analisar a maternidade como fenômeno

    social (e não como algo natural e/ou divino), quais as influências que a formação de seu conceito

    recebeu ao longo da história das sociedades ocidentais, bem como a sua interferência na construção

    da identidade da mulher e da compreensão do lugar que ela ocupa na sociedade e na constância

    familiar: “busca-se não apenas conscientizar a mulher sobre as cruéis distorções das formulações

    patriarcais sobre a maternidade, mas também despertá-la para o enorme potencial positivo dessa

    condição” (STEVENS, 2013, p. 2).

    Os escritos de Simone de Beauvoir do fim da década de 1950, na obra O Segundo Sexo (1967),

    inauguraram, de fato, um processo de crítica e desconstrução da maternidade como fundamento da

    identidade da mulher: “embora muitos cientistas saibam perfeitamente que o conceito de instinto está

    caduco, alguma coisa em nós, mais forte do que a razão, continua a pensar na maternidade em termos

    de instinto” (BADINTER, 1985, p. 16).

    Um dos elementos principais expressos por Beauvoir (1985) na referida obra é o repúdio ao

    determinismo biológico consubstanciado na maternidade compulsória que impunha às mulheres um

    destino predeterminado a ser mãe: “A maternidade começava, então, a ser compreendida como uma

    construção social, que designava o lugar das mulheres na família e na sociedade, isto é, a causa

    principal da dominação do sexo masculino sobre o sexo feminino” (SCAVONE, 2001, p. 138).

    A maternidade passa a ser ponto central no entendimento da dominação de um sexo

    (masculino) sobre o outro (feminino): “[...]o lugar das mulheres na reprodução biológica – gestação,

    parto, amamentação e consequentes cuidados com as crianças –determinava a ausência das mulheres

    no espaço público, confinando-as ao espaço privado e à dominação masculina” (SCAVONE, 2001,

    p. 138-139). Para Beauvoir (1985), o primeiro passo para subverter a dominação masculina é rechaçar

    a maternidade. A mulher teria que recusar a maternidade para que pudesse buscar, propor e gozar de

    uma vida menos restritiva e opressora. As contribuições de Beauvoir são significativas e

    imprescindíveis para refletirmos sobre a vivência da maternidade na vida das mulheres e suas

    repercussões, incluídas todas as mulheres que por opção ou por fatores alheios à sua vontade não

    desempenham o papel de mãe.

  • 8

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    Entendemos que é possível se estabelecer uma concepção de maternidade que não subordine

    a mulher, partindo-se do reconhecimento de que é essencial a igualdade de direitos e obrigações entre

    os sexos na reprodução. As diferenças biológicas não são inconciliáveis com a equidade da

    responsabilidade parental. Na verdade, o que impede a divisão e vivência não opressora das funções

    de cuidado é a maneira como as relações entre homens e mulheres têm sido travadas.

    3 Olhares cruzados sobre a igualdade de gênero e a proposta do modelo de corresponsabilidade

    A superação da desigualdade de gênero entre mulheres e homens é imprescindível para que

    tenhamos, de fato, um avanço no que refere à busca pela equidade no planejamento familiar.

    Percebemos ser necessária a superação da barreira que compromete a vivência de oportunidades

    equitativas, reforçada diuturnamente pelas práticas forjadas em um cenário de discriminação de

    gênero. É nesse ponto que entendemos que Amartya Sen e Martha Nussbaum contribuem para a

    compreensão de uma justiça de gênero, pois defendem que pobreza não deve ser confundida com má

    distribuição de riqueza ou renda, mas sim com a supressão ou não promoção das capacidades

    humanas; explicitam, desta maneira, a ideia de que historicamente não se garante às mulheres as

    mesmas oportunidades concedidas aos homens, os quais, desde pequenos, são estimulados a

    explorarem e a desenvolverem suas potencialidades e a aperfeiçoarem suas habilidades.

    Sen e Nussbaum são pioneiros ao apresentarem a abordagem das capacidades no contexto da

    justiça social e de gênero, e convergem nos fundamentos da mencionada proposta (KELEHER, 2014).

    Para Nussbaum (2003, p. 33): “Inequalities between women and men have been especially important

    in his thinking, and the achievement of gender justice in society has been among the most central

    goals of his theoretical enterprise”. Amartya Sen irrompeu com a certeza de que o desenvolvimento

    econômico e a alta renda são garantes inequívocos do bem-estar individual e coletivo. Na verdade, o

    Economista intentou demonstrar que a carência (material e de condições paritárias de

    desenvolvimento de capacidades) condiciona as escolhas e ações das pessoas, as quais, por

    conseguinte, não fazem opções genuinamente livres.

    Os fracassados e os oprimidos acabam por perder a coragem de desejar coisas que outros,

    mais favoravelmente tratados pela sociedade, desejam confiantemente. A ausência de desejo

    por coisas além dos meios de que uma pessoa dispõe pode refletir não uma valoração

    deficiente por parte dela, mas apenas uma ausência de esperança, e o medo da inevitável

    frustração. O fracassado enfrenta as desigualdades sociais ajustando seus desejos às suas

    possibilidades (SEN, 1990, p.10-11).

    Uma vez que as pessoas são diferentes, seus anseios e projetos são múltiplos, não há uma

    verdade inequívoca que se aplique a todos, indistintamente. Desta forma, é imprescindível que cada

    um seja capaz de decidir sobre a estruturação de sua vida, o que só é possível, em uma perspectiva

  • 9

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    igualitária, caso todos tenham as mesmas chances de desenvolver as habilidades que fundamentarão

    referidas escolhas. Pelo reconhecimento de que a medida da pobreza não se reduz à baixa renda,

    Amartya Sen propõe deslocar o foco da quantificação desses bens materiais (apropriação de riqueza)

    para a aferição da capacidade das pessoas de transformarem referidos bens em meios úteis a assegurar

    a vida que consideram mais adequada. Nesse escopo, justifica-se o seu esforço teórico para

    compreender a pobreza, a partir da perspectiva da privação das capabilities/capacidades de função

    (em substituição ao enfoque tradicional): “The focus of the capability approach is thus not just on

    what a person actually ends up doing, but also on what she is in fact able to do, whether or not she

    chooses to make use of that opportunity” (SEN, 2009, p. 235).

    A questão central é a qualidade da vida que podemos levar. A necessidade de possuir

    mercadorias para que se alcance um determinado patamar de condições de vida varia

    grandemente segundo características fisiológicas, sociais e culturais, além de outras

    igualmente contingentes […] O valor do padrão de vida repousa na vida, e não na possessão

    de mercadorias, a qual tem relevância derivada e variável (SEN, 1990, p. 25).

    Em uma abordagem voltada às desigualdades de gênero, Sen (2009, p. 35) defende a posição

    de que as mulheres (idosos, doentes crônicos etc.) vivenciam uma condição de liberdade/autonomia

    mitigada, e que, mesmo quando auferem renda, teoricamente, suficiente para suprir todas as suas

    necessidades materiais, podem padecer de pobreza de capacidades de função e de liberdade.

    Women’s current preferences often show distortions that are the result of unjust background

    conditions. And agency and freedom are particularly important goals for women, who have

    so often been treated as passive dependents. This line of argument has close links with the

    feminist critique of Utilitarianism and dominant economic paradigms. It also connects

    fruitfully with writings by activist-scholars who stress the importance of women’s agency and

    participation (NUSSBAUM, 2006, p. 45).

    Martha Nussbaum (2003) desenvolveu uma lista de 10 (dez) capacidades humanas, a qual

    denomina de Central Human Capabilities10, com o intuito de serem um ponto de partida para arrimar

    as demandas por uma justiça social e de gênero: “Sen has focused on the role of capabilities in

    demarcating the space within which quality of life assessments are made; I use the idea in a more

    exigent way, as a foundation for basic political principles that should underwrite constitutional

    guarantees” (NUSSBAUM, 2000, p. 71). Nussbaum (2003b, p. 330) reafirma que Sen propôs um

    novo parâmetro para se compreender a pobreza, contudo, não conseguiu suplantar o paradigma

    clássico, o qual permanece balizando avaliações e arrimando decisões:

    The dominant economic paradigm encourages continued insensitivity to the situation of the

    world’s poorest people and to the special disadvantages suffered by women—not because

    economists are by nature bad people, but because they see things through the lens of a bad

    10 “1. Life; 2. Bodily Health.; 3. Bodily Integrity; 4. Senses, Imagination, and Thought; 5. Emotions; 6. Practical Reason;

    7. Affiliation; 8. Other Species; 9. Play;10. Control Over One’s Environment” (NUSSBAUM, 2003, p. 42).

  • 10

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    theory (which, of course, might have insensitivity somewhere behind it, or maintaining it in

    place). This paradigm, and the practices it supports, should be contested.

    Percebe-se a relevância das contribuições da autora para a abordagem das capacidades

    humanas com vistas a uma igualdade de gênero, pois, ao firmar um rol de capacidades humanas

    centrais, conferiu maior concretude à proposta: “My goal […] is to go beyond the merely comparative

    use of the capability space to articulate an account of how capabilities […] can provide a basis for

    central constitutional principles that citizens have a right to demand from their governments”

    (NUSSBAUM, 2000, p. 42).

    Nancy Fraser, por sua vez, entende que as teorias igualitaristas, a exemplo da desenvolvida

    por Amartya Sen, apesar de imprescindíveis à superação das desigualdades materiais, não alcançarão

    os objetivos pretendidos por não considerarem as desigualdades de cunho cultural ou simbólico:

    [...] a injustiça se radica nos padrões sociais de representação, interpretação e comunicação.

    Seus exemplos incluem a dominação cultural (ser submetido a padrões de interpretação e

    comunicação associados a outra cultura, alheios e/ou hostis à sua própria); o ocultamento

    (tornar-se invisível por efeito das práticas comunicativas, interpretativas e representacionais

    autorizadas da própria cultura); e o desrespeito (ser difamado ou desqualificado

    rotineiramente nas representações culturais públicas estereotipadas e/ou nas interações da

    vida cotidiana) (FRASER, 2006, p. 232).

    No âmbito da discriminação de gênero, não há como se avançar sem considerar todas as faces

    da referida discriminação, fato que impõe a responsabilidade teórica e prática “de desenvolver uma

    teoria crítica do reconhecimento, que identifique e assuma a defesa somente daquelas versões da

    política cultural da diferença que possam ser combinadas coerentemente com a política social da

    igualdade” (FRASER, 2006, p. 231). Desta forma, a autora reconhece a relevância das políticas de

    redistribuição, mas ressalta a necessidade de que sejam aliadas a isso as políticas de reconhecimento.

    A mulher deve ser reconhecida como um par, um igual, não sendo suficiente seu enriquecimento

    econômico; o Estado e a sociedade precisam compreender e reconhecer que homens e mulheres são

    pares. Para tanto, a autora defende o princípio da paridade participativa, por meio do qual mulheres

    e homens ocuparão os espaços e funções públicas de maneira igualitária.

    Por fim, a proposta de Elósegui Itxaso (2002), a qual apresenta o modelo da igualdade na

    diferença, denominado de corresponsabilidade, por meio da defesa de que as esferas pública e privada

    estão cada vez mais interligadas e que apenas o equilíbrio entre essas dimensões garantirá a equidade

    de direitos. Acentua que os papéis atribuídos a homens e mulheres são em sua maioria

    intercambiáveis, não havendo determinação biológica que justifique a polarização de tarefas e

    funções tipicamente femininas ou masculinas.

  • 11

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    A ineficiência das políticas públicas até hoje desenvolvidas sobre o planejamento familiar

    explica-se, em parte, por não se reconhecer a referida discriminação de gênero como uma realidade.

    Nas palavras de Freedman e Isaacs (1993, p. 18), “health policies and programs can-not treat

    reproduction as mere mechanics, as isolated biological events of conception and birth; rather they

    must treat it as a lifelong process inextricably linked to the status and roles of women in their homes

    and societies”.

    Diante disso, defendemos que se adote como pressuposto para elaboração de quaisquer

    medidas de planejamento familiar no Brasil a proposta da corresponsabilidade, com o objetivo de

    estabelecer um novo parâmetro de estruturação e organização das relações familiares e sociais, que

    viabilize o equilíbrio de responsabilidades entre homens e mulheres.

    4 Considerações finais

    Buscamos contribuir, com este texto, para a compreensão de que os significados atribuídos

    aos papéis historicamente desempenhados por homens e mulheres restaram estabelecidos sob a égide

    da subordinação das mulheres aos homens, realidade que não mais se coaduna com as premissas do

    Estado brasileiro, que pugna pelo respeito e pela promoção dos direitos fundamentais e pela igualdade

    entre as pessoas, sem quaisquer distinções.

    Entendemos que o efetivo exercício do direito ao livre planejamento familiar transcende os

    aspectos da vida doméstica, impondo a ressignificação da maternidade e da paternidade na vida de

    mulheres e homens, a fim de que haja um equilíbrio nas funções assumidas por ambos, tanto no

    âmbito privado quanto no público.

    Referências

    ÁVILA, Maria Betânia de Melo. A dinâmica do trabalho produtivo e reprodutivo: uma contradição

    viva no cotidiano das mulheres. In: VENTURI, Gustavo; GODINHO, Tatau (orgs.). Mulheres

    brasileiras e gênero nos espaços público e privado: uma década de mudanças na opinião pública. São

    Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2013.

    BADINTER, Elisabeth. Um amor conquistado: o mito do amor materno. Rio de Janeiro: Nova

    Fronteira, 1985.

    FREEDMAN, Lynn P.; ISAACS, Stephen L. Human rights and reproductive choice. Studies in

    Family Planning. v. 24, n. 1, Jan. - Feb., 1993, p. 18-30.

    GIFFIN, K.M. Nosso corpo nos pertence: a dialética do biológico e do social. Caderno de Saúde

    Pública, v. 7, n.2, p.190-200, 1991.

  • 12

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    IBGE. Censo Demográfico 2010. Rio de Janeiro, 2012. Disponível em:

    http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/98/cd_2010_nupcialidade_fecundidade_migrac

    ao_amostra.pdf. Acesso em: 27 jan. 2015.

    ITXASO, Maria Elósegui. Diez Temas de Género: hombre y mujer ante los derechos productivos y

    reproductivos. Madrid: Ediciones Internacionales Universitarias, 2002.

    LERNER, Gerda. The Creation of Patriarchy. New York: Oxford University Press, 1986.

    LOPES, Ana Maria D`Ávila; MIRANDA, Sergia Maria Mendonca. A discriminação de gênero no

    direito de família. In: MENEZES, Joyceane Bezerra de; MATOS, Ana Carla Harmatiuk. Direito das

    Famílias por juristas brasileiras. São Paulo: Saraiva, 2013.

    MESTRE I MESTRE, Ruth M. Teorías Contemporáneas sobre identidade feminina y discriminación

    de género. In: ATIENZA, Cristina Monereo; PÉREZ, José Luis Monereo (orgs). Género e Derechos

    Fundamentales. Granada: Editorial Comares, 2010.

    MOLINA, María Elisa. Transformaciones Histórico Culturales del Concepto de Maternidad y sus

    Repercusiones en la Identidad de la Mujer. Psykhe, Santiago, v. 15, n. 2, nov. 2006. Disponível em:

    . Acesso em: 19 mai. 2016.

    MORGANTE, Mirela Marin; NADER, Maria Beatriz Nader. O patriarcado nos estudos feministas:

    um debate teórico. Saberes e Práticas científicas. Anais do XVI Encontro Regional de História da

    Anpuh-Rio. Rio de Janeiro, 2014.

    NARVAZ, Martha Giudice; KOLLER, Sílvia Helena. Famílias e patriarcado: da prescrição

    normativa à subversão criativa. Psicologia & Sociedade, v. 18, n. 1, p. 49-55, 2006.

    NUSSBAUM, Martha. Women and Human Development: The Capabilities Approach. Cambridge:

    Cambridge University Press, 2000.

    SCAVONE, Lucila. A maternidade e o feminismo: diálogo com as ciências sociais. Cadernos Pagu,

    v. 16, 2001.

    SEN, Amartya. The standard of living (The Tanner lectures). Cambridge: Cambridge University

    Press, 1990.

    SEN, Amartya. The Idea of Justice. Cambridge: Belknap Press of Harvard University Press, 2009.

    FAMILY PLANNING AS A FUNDAMENTAL RIGHT

    Abstract: The recognition of family planning as a right is recent, having been consolidated in Brazil

    as a fundamental right as from the enactment of the Federal Constitution in 1988, in accordance with

    226, § 7º. Despite its recent status, significant progress has been achieved, both nationally and

    internationally, as it is the case of its conceptual consolidation in international documents. Yet, the

    outcomes of the national public policies of family planning are below the normative and conceptual

    conquests, since the the referred measures have not resulted in equitable and adequate practices of

    family planning. The objective of this text is to identify the reasons the fundamental right did not

    become effective in family planning, with the aim of contributing to problem solving. For this

    http://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/98/cd_2010_nupcialidade_fecundidade_migracao_amostra.pdfhttp://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/periodicos/98/cd_2010_nupcialidade_fecundidade_migracao_amostra.pdf

  • 13

    Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos),

    Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X

    purpose, it will be demonstrated how the historical inequality between men and women influences in

    the exercise of rights to family planning, from a critical analysis of patriarchy, maternity and gender

    relations. The main international documents relating to the rights to family planning will be analyzed

    in order to expose the historical evolution of such rights in Brazil, based on the contributions resulting

    from the National Constituent Assembly. An overview of the public policies of family planning

    developed, most specifically, since the 1980s will be carried out. Finally, following the observations

    that, in order to turn the rights to free family planning effective, it is essential that equal opportunities

    for men and women be guaranteed, both at public and private level and the co-responsibility paradigm

    is proposed as a way to overcome the inefficient reality of Brazilian public policies.

    Keywords: Family planning. Gender discrimination. Public policies. Co-responsibility model.