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1 Seminário Internacional Fazendo Gênero 11 & 13 th Women’s Worlds Congress (Anais Eletrônicos), Florianópolis, 2017, ISSN 2179-510X O JORNALISMO INDEPENDENTE E O EMPODERAMENTO DO DISCURSO DE GÊNERO NAS MÍDIAS DIGITAIS Andressa Kikuti 1 Paula Melani Rocha 2 Resumo: A proposta do artigo é discutir o empoderamento do discurso de gênero pelo jornalismo independente materializado nas mídias digitais. As transformações no jornalismo impulsionadas pela tecnologia, sobretudo no século XXI, reverberaram em um jornalismo on-line, estruturado em novos modelos de gestão, voltado para nichos específicos. Neste contexto destacam-se sites com linhas editoriais demarcadas por questões de gênero, bem como representações de gênero e narrativas contra-hegemônicas, usualmente não exploradas pela mídia convencional. Levantamento colaborativo realizado pela Agência de Reportagem e Jornalismo Investigativo Pública aponta a abertura de mais de 150 sites de jornalismo independente no Brasil, com crescimento acentuado nos últimos três anos. Destes pelo menos 10% mencionam diretamente no seu escopo perspectiva de gênero. Há mais sites mencionados no mapeamento que abordam pautas com enfoque direcionado a gênero, contudo não está discriminado na linha editorial. A discussão teórica envolve estudos de gênero, jornalismo on-line e novos modelos de gestão em jornalismo. O corpus compreende quinze sites, cadastrados no Mapa do Jornalismo Independente, lançado pela Pública, os quais foram classificados de acordo com a linha editorial, equipe executora, forma de financiamento e ano de origem. Também inclui análise dos sites Catarinas e AzMina. Foram selecionados dois conteúdos veiculados por cada um deles no segundo semestre de 2016. A metodologia envolve análise de conteúdo a partir da classificação de categorias estabelecidas pelo Projeto Global de Monitoramento de Mídia. Palavras-chave: Mídias digitais. Jornalismo independente. Gênero I. As mutações do jornalismo: o jornalismo independente sobre questões de gênero O jornalismo atual configura-se em um quarto paradigma, segundo Charron e Bonville (2016), conceituado como o jornalismo de comunicação. O primeiro paradigma refere-se ao jornalismo de transmissão, o segundo ao jornalismo de opinião, o terceiro corresponde ao jornalismo da informação e o quarto o jornalismo de comunicação. Neste último, a discussão proposta fundamenta-se na teoria da hiperconcorrência e os autores analisam o novo paradigma a partir de cinco mercados (fontes, anunciantes, profissional, consumidores e financeiro) e de suas 1 Professora colaboradora do Departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) (Ponta Grossa/Brasil). Pesquisadora colaboradora no Observatório de Ética Jornalística (Objethos) (Florianópolis/Brasil) e no GPS Jor (Florianópolis/Brasil). 2 Pesquisadora Colaboradora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo (LabJor), UNICAMP (Campinas, Brasil). Professora do Departamento de Jornalismo e do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) (Ponta Grossa/Brasil). Desenvolve o projeto Inovação tecnológica e conhecimento científico em Jornalismo, com o apoio da FAPESP (processo número 2016/09841-6).

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Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

O JORNALISMO INDEPENDENTE E O EMPODERAMENTO DO

DISCURSO DE GNERO NAS MDIAS DIGITAIS

Andressa Kikuti1

Paula Melani Rocha2

Resumo: A proposta do artigo discutir o empoderamento do discurso de gnero pelo jornalismo

independente materializado nas mdias digitais. As transformaes no jornalismo impulsionadas

pela tecnologia, sobretudo no sculo XXI, reverberaram em um jornalismo on-line, estruturado em

novos modelos de gesto, voltado para nichos especficos. Neste contexto destacam-se sites com

linhas editoriais demarcadas por questes de gnero, bem como representaes de gnero e

narrativas contra-hegemnicas, usualmente no exploradas pela mdia convencional. Levantamento

colaborativo realizado pela Agncia de Reportagem e Jornalismo Investigativo Pblica aponta a

abertura de mais de 150 sites de jornalismo independente no Brasil, com crescimento acentuado nos

ltimos trs anos. Destes pelo menos 10% mencionam diretamente no seu escopo perspectiva de

gnero. H mais sites mencionados no mapeamento que abordam pautas com enfoque direcionado a

gnero, contudo no est discriminado na linha editorial. A discusso terica envolve estudos de

gnero, jornalismo on-line e novos modelos de gesto em jornalismo. O corpus compreende quinze

sites, cadastrados no Mapa do Jornalismo Independente, lanado pela Pblica, os quais foram

classificados de acordo com a linha editorial, equipe executora, forma de financiamento e ano de

origem. Tambm inclui anlise dos sites Catarinas e AzMina. Foram selecionados dois contedos

veiculados por cada um deles no segundo semestre de 2016. A metodologia envolve anlise de

contedo a partir da classificao de categorias estabelecidas pelo Projeto Global de Monitoramento

de Mdia.

Palavras-chave: Mdias digitais. Jornalismo independente. Gnero

I. As mutaes do jornalismo: o jornalismo independente sobre questes de gnero

O jornalismo atual configura-se em um quarto paradigma, segundo Charron e Bonville

(2016), conceituado como o jornalismo de comunicao. O primeiro paradigma refere-se ao

jornalismo de transmisso, o segundo ao jornalismo de opinio, o terceiro corresponde ao

jornalismo da informao e o quarto o jornalismo de comunicao. Neste ltimo, a discusso

proposta fundamenta-se na teoria da hiperconcorrncia e os autores analisam o novo paradigma a

partir de cinco mercados (fontes, anunciantes, profissional, consumidores e financeiro) e de suas

1 Professora colaboradora do Departamento de Jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) (Ponta

Grossa/Brasil). Pesquisadora colaboradora no Observatrio de tica Jornalstica (Objethos) (Florianpolis/Brasil) e no

GPS Jor (Florianpolis/Brasil). 2 Pesquisadora Colaboradora do Laboratrio de Estudos Avanados em Jornalismo (LabJor), UNICAMP (Campinas,

Brasil). Professora do Departamento de Jornalismo e do Programa de Ps-Graduao em Jornalismo da Universidade

Estadual de Ponta Grossa (UEPG) (Ponta Grossa/Brasil). Desenvolve o projeto Inovao tecnolgica e conhecimento

cientfico em Jornalismo, com o apoio da FAPESP (processo nmero 2016/09841-6).

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inter-relaes. Uma das caractersticas do mercado profissional no jornalismo de comunicao o

jornalismo para nichos. Outras so com relao ao mercado de consumo, mudana do perfil do

pblico e da cultura de acesso informao. Para Mendez (2016, s/p.), a internet e as

transformaes tecnolgicas que esta ocasionou mudaram a conduta do receptor, at ento passivo.

O resultado repercutiu na queda de assinaturas dos jornais e revistas, e na reduo do volume de

publicidade. Uma pesquisa realizada pela World Association of Newspaper and News Publishers

apontou que a circulao de jornais caiu 2% em 20123 e com relao Amrica Latina, a taxa de

publicidade caiu mais rpido que a circulao. No Brasil, em 2015, segundo o site Comunique-se4,

foram demitidos 1400 jornalistas, devido reduo da estrutura da redao e fechamento de

veculos. As demisses atingiram impressos (jornais e revistas), emissoras de televiso, assessorias

de imprensa e internet. Parte dos profissionais demitidos migraram para iniciativas de sites de

jornalismo voltados para nichos. Mapeamento coletivo da Agncia Pblica cadastrou mais de 150

iniciativas de sites de jornalismo autodenominados independentes. Desse total, 10% mencionam em

seu escopo perspectivas direcionadas a gnero.

A proposta deste artigo mapear sites de jornalismo autodenominados independentes que se

propem a empoderar o discurso de gnero, com recorte no pblico feminino. O objetivo verificar

se os sites de fato do visibilidade s questes de gnero, mais especificamente ao empoderamento

feminino, representando diferentes segmentos de gnero, e classific-los de acordo com a linha

editorial, pblico alvo, equipe e formas de financiamento.

Utilizar a imprensa como espao de debates sobre o direito das mulheres ocorre no Brasil,

localizado na imprensa feminina e feminista, ao longo de sua histria. Jornalistas mulheres

apropriaram-se dos veculos impressos, jornais e revistas, para abordar pautas e opinies contrrias

s normas vigentes. Ao mapear a histria do jornalismo brasileiro pela perspectiva da imprensa

feminina e feminista encontram-se iniciativas que dialogam com o contexto social, econmico e

poltico da poca, atendendo determinadas demandas especficas, sejam estas de mercado, sociais

ou mesmo de representaes polticas. O ingresso de mulheres no jornalismo "convencional" foi

gradual e ocorreu em maior nmero sobretudo aps a abertura dos cursos de graduao em

Jornalismo/Comunicao. Nesse sentido importante salientar que a participao feminina no

jornalismo nacional e o crescente processo de feminizao da profisso repercutiram tambm no

mercado. No final do sculo XIX e incio do sculo XX a participao feminina no jornalismo era

3 O relatrio World Press Trends coleta dados sobre a circulao de jornais e as receitas de publicidade em cerca de 70

pases. http://www.marketingcharts.com/wp/print/global-newspaper-circulation-and-advertising-trends-in-2012-30062/. 4 Disponvel em //portal.comunique-se.com.br/, acessado em 01 de abril de 2016.

http://www.marketingcharts.com/wp/print/global-newspaper-circulation-and-advertising-trends-in-2012-30062/

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pontual e restrita s mulheres letradas, o que significava uma minoria da sociedade brasileira e

atuavam na imprensa feminina. Hoje as mulheres j so maioria, elas representam 63,7% do

mercado contra 36,3% de homens, como revela a pesquisa realizada com uma amostragem de 2.731

jornalistas brasileiros (MICK; LIMA, 2013), contudo, como aponta Pontes (2017), h desigualdades

estruturais de gnero no mercado de trabalho em jornalismo desfavorecendo a mo de obra

feminina, em relao remunerao, postos e cargos desempenhados.

2. Olhar histrico, marcas da imprensa de gnero

A legislao que autorizou a abertura de escolas femininas no Brasil data de 1827. Ainda

final do sculo XIX, aps o fim do regime escravocrata e com a instaurao do capitalismo, era alto

o ndice de analfabetismo no pas, sobretudo do segmento feminino, contudo percebeu-se que a

mulher correspondia a uma faixa de mercado. Dos 4890 estabelecimentos de instruco primria,

que temos, apenas 1752 pertencem ao sexo feminino, sendo 1339 pblicas e 413 particulares, uns e

outros freqentados por 50.758 alumnos (OLIVEIRA, 1874, p.39). Nesse sentido, em um primeiro

momento do sculo XIX despontaram impressos destinados a um pblico interessado nos modelos

vigentes e no consumo, e na segunda metade do sculo ocorreram iniciativas que questionavam

determinadas normas, porm a participao da autoria feminina era incipiente e mais concentrada

nesta segunda fase.

Ainda na primeira metade do sculo XIX, Duarte (2016) mostra que circularam no sculo

XIX no Brasil 143 ttulos entre jornais e revistas femininos e feministas. Neste mesmo perodo,

Buitoni (1981) mapeou alguns veculos destinados ao pblico feminino que abordavam moda e

literatura. Provavelmente o primeiro foi O Espelho Diamantino, editado no Rio de Janeiro, em

1827. A imprensa brasileira, de maneira geral, na primeira metade do sculo XIX foi marcada por

iniciativas de curta durao. J na segunda metade do sculo XIX, Buitoni (1981) mostra que

despontaram iniciativas editadas por mulheres como o Jornal das Senhoras, lanado por Joana

Paula Manso de Noronha em 1852, que mesmo timidamente protestava "contra a maneira

possessiva com que os homens tratavam suas mulheres". Em 1862, no Rio de Janeiro, um grupo de

mulheres fundou O Belo Sexo, que trazia crticas situao social da mulher na poca. As

integrantes faziam reunio de pauta semanal e no mantinham o anonimato na autoria do contedo.

Rago (1995,1996, p.19) aponta que no final do sculo XIX e incio do sculo XX, os

impressos gestados por mulheres da classe mdia reivindicavam a falta de acesso educao e ao

trabalho por parte das mulheres bem como " participao do mundo pblico em igualdade de

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condies com os homens". No se discutiam outros problemas que acometiam mulheres de outras

camadas sociais, como as operrias, embora seguidores do movimento anarquista j estivessem

presentes no pas, especialmente em So Paulo, onde ocorriam lutas operrias no centro da cidade e

nos bairros perifricos. Um exemplo a revista literria d'A Mensageira, que circulou em So Paulo

entre 1897 a 1900, fundada pela escritora e feminista Presciliana Duarte de Almeida, que citava em

seu escopo "revista literria dedicada mulher brasileira", contudo limitava-se s opresses que

afligiam as camadas mais abastadas.

De acordo com Rago (1995, 1996) os estudos histricos sinalizam que alm das feministas

liberais desconhecerem a imprensa anarquista, elas tambm ignoravam os jornais O Amigo do

Povo, A Terra Livre, A Lanterna e a Plebe que circulavam na poca em So Paulo e Rio de Janeiro,

alguns exemplares inclusive traziam artigos assinados por mulheres. Duarte (2016) mostra que um

dos motivos da criao dos peridicos de mulheres no sculo XIX foi a necessidade de

conquistarem direitos: em um primeiro momento a educao, com o propsito de educar melhor os

filhos; depois a profisso, que estava associada a poder frequentar escolas; e no final do sculo

inicia a manifestao pelo direito ao voto.

J no sculo XX, em contraposio s feministas liberais, as libertrias no apoiavam

negociaes com instituies burguesas e o debate sobre educao era para denunciar as condies

de trabalho, baixos salrios, ausncia de assistncia pblica e a relevncia dos sindicatos e

associaes trabalhistas (RAGO, 1995, 1996). Em um segundo momento, o discurso torna-se mais

poltico. Um exemplo foi a Revista Feminina, criada em So Paulo, que circulou durante mais de 20

anos, de 1914 a 1936, em todos os estados do pas. Fundada por Virgilina Duarte da Costa, o

segmento lutou pelo direito do voto feminino e da educao, criticou a violncia masculina contra a

mulher, tanto no mbito domstico como no mercado de trabalho e evidenciou os atrasos vividos

pelas mulheres brasileiras em comparao com outros pases (RAGO, 1995, 1996). Ainda segundo

a autora, os artigos veiculados abordavam a construo da nova mulher moderna, passando pelas

categorias profissionais, cargos pblicos e universidades, discutiam a redefinio do ideal de

feminilidade, de masculinidade e do modelo vigente de famlia, alm de orientar formas de conduta,

vesturio e modo de se comportar. A Revista Feminina tambm trazia um discurso relacionando a

"esposa perfeita" com a "felicidade do lar", sendo que a mulher devia se anular perante o marido.

De um lado valorizavam o papel de me na esfera privada e por outro defendiam igualdades na

esfera pblica (RAGO, 1995, 1996).

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Na dcada de 1960 as feministas assumem um discurso mais libertrio na esfera privada,

com bandeiras como a favor do aborto, divrcio, amor livre, maternidade independente, reiterado

nos anos subsequentes das dcadas de 1970 e 1980, sobretudo na coluna de Carmem Silva na

revista Cludia. Paralelamente, nesse perodo despontou a imprensa feminista com influncia

marxista voltada para as mulheres trabalhadoras, sobretudo operrias, configurada nos impressos

Brasil Mulher (1975 a 1980) e Ns, Mulheres (1976 a 1978) (RAGO, 1995, 1996). Ainda na

dcada de 1980, outro segmento alternativo que se destaca Mulherio (1981-1988).

Em um cenrio da prtica do jornalismo de comunicao (CHARRON; BONVILLE, 2004),

guiado pela diversificao e subordinao da oferta a partir das demandas do pblico, um segmento

que cresce aps a dcada de 1980, destinado principalmente ao pblico feminino, refere-se s

revistas de consumo que estimulam a proliferao de reportagens associadas a produtos,

denominado por Damian (2005) como formato de "publirreportagem".

Essa breve reviso de alguns registros das imprensas feminina e feminista tem como

propsito ratificar dados da existncia de uma imprensa feminina diversificada no Brasil, destinada

a pblicos diferentes. Isto no algo atual, ao contrrio, mesmo no sculo XIX, quando o acesso

escolaridade por parte das mulheres era restrito, as poucas mulheres letradas j utilizavam a

imprensa como forma de ecoar suas demandas. As narrativas correspondiam a contextos

especficos, alguns coexistindo simultaneamente. Nesse sentido, a presente discusso concebe os

sites de jornalismo autodenominados independentes destinados a pblicos diversos, representando

diferentes segmentos de gnero. Embora entenda que a internet tenha impulsionado a segmentao

do contedo jornalstico em nichos, antes dela j existiam veculos segmentados destinados s

mulheres.

Metodologia

Este estudo se baseia no Mapa do Jornalismo Independente, lanado pela Pblica, cuja

proposta mapear as iniciativas independentes de jornalismo no Brasil. Os critrios para incluir

veculos neste mapa, conforme explcito no site, so terem nascido na rede (excluindo os blogs),

serem fruto de projetos coletivos e no ligados a grupos de mdia, polticos, organizaes ou

empresas. O trabalho resultou em duas listas: uma levantada pela prpria Pblica, e outra

colaborativa, com a seleo de iniciativas sugeridas pelos leitores.

A partir desta lista, produzimos um mapeamento dos sites com perspectiva de gnero nas

duas listas do Mapa de Jornalismo Independente, totalizando 15 veculos. As informaes foram

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coletadas a partir dos delineamentos postados nos endereos oficiais, considerando caractersticas

que perpassam por marcas de gnero. Nesse sentido, definiu-se como relevante ver o pblico alvo;

linha editorial, equipe executora, ano de fundao, se a iniciativa tem fins lucrativos e quais so as

formas de financiamento.

Em um segundo momento buscou analisar dois textos dos sites Catarinas e AzMina, para

aferir as representaes de gnero em dilogo com especificidades do jornalismo. Assim, utilizou-se

as categorias definidas pelo Projeto de Monitoramento de Mdia, o qual estuda a representao das

mulheres e dos homens nas notcias veiculadas em jornais, rdio e televiso, em diferentes pases.5

As categorias de anlise foram: pessoas na notcia (papel, sexo e idade, ocupao/posio, funo

na notcia, vtima, sobrevivente, citao direta e fotografia); e anlise (foco na mulher;

igualdade/desigualdade; anlises adicionais).

Anlise

O foco e escopo dos sites em questo so diversos, mas todos tm em comum a busca pelo

empoderamento do seu segmento de pblico. Em AzMina, por exemplo, l-se que visa estimular o

empoderamento feminino por meio da promoo da cultura e da informao de qualidade; a Lado

M fala sobre empoderamento feminino. Contedos que mostrem que as mulheres podem ser e

fazer o que quiserem, independentemente de esteretipos de gnero. J Catarinas se coloca como

uma unidade ativista do jornalismo enquanto direito e do feminismo enquanto estratgia de ao

para a superao desta sociedade que ainda reserva lugares para as mulheres, o que tambm remete

ao empoderamento, embora no utilize esta palavra. possvel perceber, conforme a Tabela 1, que

todos os sites, em maior ou menor grau, se preocupam em empoderar a mulher enquanto sujeito

histrico, autnomo e no regido pelas normas e condutas sociais de submisso impostas pelo

patriarcado. Os veculos se propem a dar voz s mulheres, aos seus anseios, debates, demandas,

gostos, etc.

Capitolina possui 134 pessoas na equipe, e em Blogueiras Negras constam 200,

configurando coletivos de mdia que trabalham na lgica da colaborao. Outras quatro iniciativas

possuem mais de cinco pessoas na equipe (por exemplo, AzMina com nove mulheres na equipe

mais 12 colaboradores; Ns, Mulheres da Periferia tem nove na equipe, sendo oito jornalistas e uma

designer); Catarinas possui quatro pessoas; Lado M, trs; Cientista que Virou Me tem duas

5 O grupo de estudos Jornalismo e Gnero da Universidade Estadual de ponta Grossa, utilizou-se da metodologia

desenvolvida pelo Projeto de Monitoramento de Mdia em pesquisas anteriores, que analisaram as representaes de

gnero veiculadas nos jornais de Ponta Grossa e Curitiba e em sete revistas nacionais (ROCHA, WOITOWICZ, 2015).

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pessoas; e trs so feitas por apenas uma pessoa: Mes de Peito, Mulher no Cinema e Las Abuelitas.

Tais dados mostram que as iniciativas independentes de gnero esto longe de uma uniformidade de

tamanho, mas o nmero de colaboradores(as) no significa, necessariamente, a existncia de uma

estrutura fsica nos moldes de uma redao tradicional.

Das 15, somente uma (Las Abuelitas) no indica a presena de jornalista na equipe, no

entanto, o veculo foi mantido na anlise por estar includo no mapa da Pblica, utilizado como

referncia. Em todos os sites, mulheres so maioria nas equipes. Alm de jornalistas, tambm h

ilustradoras, fotgrafas, revisoras, consultoras, analistas de mdias sociais, entre outras. Entre os

homens identificados, constam um designer (AzMina) e um programador (Gnero e Nmero). Trs

dos sites analisados no continham informaes sobre equipe editorial.

O ano de fundao dos sites revela propostas jovens, com, no mximo, quatro anos de vida.

Duas surgiram em 2016 (Mes de Peito e Ns 2); cinco nasceram em 2015 (AzMina, Cientista que

Virou Me, Catarinas, Mulher no Cinema e Frida Diria); trs em 2014 (Capitolina, Lado M e Ns,

Mulheres de Periferia); duas em 2013 (Think Olga e Revista Geni), e trs no informaram (Gnero

e Nmero, Las Abuelitas e Blogueiras Negras). Ao olhar estes dados em conjunto com a quantidade

de demisses de jornalistas e outros profissionais de mdia no Brasil computados pelo Volt6 (1867

jornalistas demitidos em redaes desde 2012, e 6126 demisses totais em empresas de mdia),

possvel relacion-los, delineando um movimento de migrao de parte destes profissionais para o

jornalismo que se autodenomina independente. Para confirmar esta suspeita, no entanto, seriam

necessrias entrevistas com profissionais atuantes deste novo cenrio, para conhecer suas

trajetrias.

Todos os veculos analisados miram no pblico feminino, ou seja, so segmentados. Mas

muitos deles possuem pblicos-alvo especficos, de nicho, evidenciando que h uma diversidade de

mulheres ao invs de homogeneidade, contemplando o gnero como categoria de anlise (SCOTT,

1990). No existe uma mulher universal, mas uma multiplicidade de mulheres em situaes

distintas de acordo com os espaos que ocupam e as relaes de poder que travam neste ambiente:

por exemplo, adolescente, afro brasileira, indgena, oriental, de diferentes estratos sociais, jovem,

velha, criana, residente em regies distintas, a que trabalha em casa, a que tem um emprego com

carteira assinada, a autnoma, a estudante, a professora, enfim impossvel ser representada apenas

6 Volt uma iniciativa independente, focada em jornalismo de dados. Desde 2012, computa demisses de jornalistas no

Brasil a partir de publicaes de sites especializados, como o Comunique-se e o Portal Imprensa, em uma publicao

denominada A conta dos Passaralhos. Disponvel em: http://passaralhos.voltdata.info/. Acesso em 12/06/2017 s

16h46.

http://passaralhos.voltdata.info/

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como "a mulher". Cinco sites abarcavam algum nicho de pblico: Revista Capitolina voltada para

garotas adolescentes que se sentem excludas das representaes da mdia tradicional; Cientista que

Virou Me e Mes de Peito tem como alvo mulheres que so ou sero mes; Ns, Mulheres de

Periferia produzida para as moradoras da periferia de So Paulo; Catarinas procura atingir as

mulheres do estado de Santa Catarina. Outros quatro veculos (AzMina, Lado M, Think Olga,

Mulher no Cinema) procuram atingir um grupo mais amplo de mulheres, e seis no informaram o

pblico-alvo.

Nenhum dos 15 sites analisados revelou explicitamente ter fins lucrativos. No entanto, ao

olhar para o financiamento, v-se que muitos deles ainda no se mantm, e/ou utilizam formas no

compatveis com o modelo tradicional de jornalismo que visa lucro. Tambm observamos que

somente trs sites possuem apenas uma forma de financiamento, sendo que a maioria busca

diversificar as maneiras de obter receita e viabilizar seu trabalho. Cinco veculos disseram utilizar

financiamento coletivo (crowdfunding); quatro recebiam doaes. Tambm foram mencionados

como forma de financiamento os editais (1), oficinas (1), eventos beneficentes (1), leiles de obras

de arte (1), parcerias com empresas (1), assinaturas (1) e publicidade/anncios (3). Destes, somente

as trs ltimas fontes de receita indicam fins lucrativos, e so utilizados por uma minoria.

Tabela 1. Classificao dos sites de acordo com linha editorial, equipe, ano, pblico e

sustentabilidade

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Nome Foco e escopo/linha editorial Equipe Ano Pblico Fins lucrativos/Forma de financiamento

Revista Capitolina

Criada por jovens, tem a inteno de estabelecer um dilogo honesto com as leitoras, de forma inclusiva, sem restries de classe social, raa, orientao sexual e aparncia fsica. A inteno representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excludas pelos moldes tradicionais da adolescncia.

134 mulheres colaboradoras, de diversas funes (sobre temas especficos, ilustradoras, fotgrafas, conselho editorial, audiovisual, revisoras, redes sociais, social media, quadrinistas)

2014 Garotas adolescentes

No/Ainda no se mantm. Fizeram financiamento coletivo para viabilizar estrutura do site entre outras coisas.

AzMina Visa estimular o empoderamento feminino por meio da promoo da cultura e da informao de qualidade.

Nove mulheres na equipe mais 12 colaboradorxs (1 homem, designer)

2015 Mulheres (geral)

No/ Crowdfunding, doao de Pessoas Jurdicas, oficinas e eventos beneficentes. Mas ainda no se mantm. Tem lanada uma campanha de bolsas de reportagens para 2017

Lado M Fala sobre empoderamento feminino. Contedos que mostrem que as mulheres podem ser e fazer o que quiserem, independentemente de esteretipos de gnero.

Duas jornalistas e uma formada em Direito

2014 Mulheres (geral)

No explicitado/Publicidade no site, mas ainda no se mantm

Cientista que virou Me

Informao produzida exclusivamente por mulheres mes. So produtoras independentes de contedo que sabem de que tipo de informao as mulheres precisam.

Duas mulheres 2015

Mulheres grvidas e mulheres mes

No/Crowdfunding, doao de Pessoas Jurdicas.

Ns, mulheres de Periferia

Objetivo contribuir para o empoderamento das mulheres da periferia de So Paulo, promovendo espaos de reflexo, debate, informao, troca de conhecimento, experincias e visibilidade sobre seus protagonismos, vivncias, histrias e dilemas

Oito jornalistas e uma designer 2014 Mulheres da periferia de So Paulo

No/Editais

Think Olga O objetivo criar contedo que reflita a complexidade das mulheres. A misso empoderar mulheres por meio da informao e retratar as aes delas em locais onde a voz dominante no acredita existir nenhuma mulher.

No informada 2013 Mulheres (geral)

No/Crowdfunding, doao de Pessoas Jurdicas.

Catarinas Se coloca como uma unidade ativista do jornalismo enquanto direito e do feminismo enquanto estratgia de ao para a superao desta sociedade que ainda reserva lugares para as mulheres. um canal de comunicao livre, que abrange o jornalismo especializado e de opinio..

Quatro mulheres trs jornalistas e uma consultora de projetos em feminismo, gnero e sexualidade.

2015

Mulheres do estado de Santa Catarina

No explicitado/ Crowdfuding para viabilizar estrutura do site. Atualmente possuem sistema de doaes/assinaturas, leiles virtuais de obras de arte e discutem um plano de publicidade. Planejam outras campanhas de financiamento coletivo.

Gnero e Nmero narrativas pela

Prope-se a levantar, tratar e expor dados e evidncias em contedos de mltiplos formatos. Transparncia como valor inegocivel. o

Sete pessoas trs diretoras de contedo, uma assistente editorial, um programador, uma estagiria e uma colaboradora

No informado

No informado No informado

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equidade

Mes de peito

Traz informaes para um parto respeitoso e outros assuntos que envolvem a maternidade. Traz discusso necessria sobre a maternidade real a

Uma jornalista 2016 Mulheres que so mes

No explicitado/Apoio de pequenas empreendedoras (na forma de anncios). O site no faz posts patrocinados

Ns 2 Aborda temticas atuais, mas que pauta por vias desprivilegiadas pela Grande Mdia, elaborando um exame crtico que busca atender as especificidades de movimentos sociais, como LGBTs, mulheres, negros e povos indgenas. A linha editorial segue a tica de contracultura, propondo alternativas, dilogos, e denncias, visando o fortalecimento do direito a informao, a qualificao do debate democrtico e a promoo dos direitos humanos.

No informada 2016 No informado No/Ainda no se mantm

Mulher no Cinema

Site exclusivamente dedicado a filmes feitos por mulheres ou centrados em mulheres. Busca ser um espao capaz de dar voz s mulheres que fazem cinema, informar os espectadores e ajudar a colocar um em contato com o outro.

Uma jornalista 2015 Geral fs de cinema e preocupadas com questes de gnero

No explicitado/Ainda no se mantm

Frida Diria visa tratar de discusses e temas atuais a partir da perspectiva de gnero e sem deixar de lado outros recortes de opresso, como raa, orientao sexual e identidade de gnero.

No informada 2015 No informado No explicitado/Ainda no possui modo de monetizao fixa. Pretende firmar parceria com empresas que tenham iniciativas voltadas promoo da igualdade de gnero e da oferta de cursos e palestras.

Lasabuelitas Divulgar e reunir o trabalho de mulheres artistas, alm de trazer informaes sobre assuntos importantes relacionados direta ou indiretamente ao fazer criativo.

Uma pessoa atriz, advogada e gestora cultural

No informado

No informado No informado

Blogueiras Negras

Mulheres negras e afrodescentes discutem negritude e feminismo. Criado a partir da Blogagem Coletiva da Mulher Negra. A misso do Blogueiras Negras promover a livre produo de contedo, partindo do principio de que s mulheres negras sempre foi negado lugares e discursos.

Coletivo (mais de 200 autoras) No informado

No informado No/Contedo colaborativo

Revista Geni Nasce do compromisso com valores libertrios e com a luta pela igualdade e pela diferena.

Coletivo composto por pessoas espalhadas pelo Brasil (principalmente So Paulo) e por brasileirxs que vivem em outros pases, como Argentina, Portugal e Rssia.

2013 No informado No/ No informado.

Fonte: das autoras

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Seminrio Internacional Fazendo Gnero 11 & 13th Womens Worlds Congress (Anais Eletrnicos),

Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

Anlise dos sites Catarinas e AzMina

Projeto Catarinas

Os textos analisados foram: #SomosMuitas Clandestinas: por um debate tico sobre o

aborto, e Campanha escancara machismo histrico na Oktoberfest. Ambas reportagens atendem

linha editorial do site, produzindo jornalismo com perspectiva de gnero. O primeiro trata-se de

uma reportagem, assinada pela jornalista Paula Guimares, e aborda o aborto, apontando os

prejuzos da criminalizao para a sade e autonomia da mulher e dados sobre prticas de aborto no

pas. Ao todo so 35 fontes mencionadas: pessoas, relatrios, documentos e pesquisas. Das 24

pessoas entrevistadas, 22 mulheres e dois homens. Estes so ouvidos como especialistas (um

mdico obstetra e um promotor de justia). Entre as mulheres, so 11 especialistas, quatro aparecem

como porta-vozes das instituies que representam, uma testemunha ocular do debate sobre o

aborto, trazendo a sntese do lado que defende e do que acusa, e seis so vtimas do aborto

clandestino no Brasil, todas sobreviventes.

O contedo conta ainda com nove fotografias, de fontes ouvidas nas matrias. H um

cuidado em no expor vtimas de aborto clandestino, seus rostos foram propositalmente escondidos

pela luz e foco das imagens. Cinco infogrficos auxiliam na compreenso dos dados utilizados na

reportagem: o primeiro contm porcentagens e grficos sobre o perfil das mulheres que declararam

j ter feito pelo menos um aborto, de acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto (PNA), realizada

pelo Instituto de Biotica, Direitos Humanos e Gnero. O segundo infogrfico traz o aborto em

nmeros no Brasil, e o destaque para o estado de Santa Catarina. O terceiro infogrfico traz os

dados das mulheres que foram presas por terem abortado a maioria so jovens, negras, com pouca

escolaridade e baixa renda, e quase todas foram denunciadas por mdicos, que quebram o sigilo e

informam a polcia quando elas do entrada no hospital. O quarto e quinto infogrficos trazem

artigos do Cdigo Penal e da Constituio Federal procurando sintetizar a legislao em vigncia no

pas.

O segundo texto assinado por Ana Claudia Arajo, fala sobre a campanha Oktoberfest Sem

Machismo, e problematiza a banalizao do assdio na festa, como a ocorrncia de cantadas

grosseiras, passadas de mo e estupros, por meio de lambe-lambes construdos coletivamente com

desenhos e frases das participantes colados pelas ruas, alm de uma fanpage no Facebook, que

conta com informaes sobre estupro, publicidade machista, entre outros assuntos. As duas fontes

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Florianpolis, 2017, ISSN 2179-510X

ouvidas so mulheres: uma organizadora da campanha, e uma vtima que relata j ter sofrido

assdio durante a festa. Das quatro fotos que ilustram o texto, trs so dos lambes colados pela

cidade, com frases como Silncio no consentimento, Deixa as mina em paz e O

comprimento da minha saia no um cumprimento a voc. Respeite!.

AzMina

As duas reportagens analisadas apresentam perspectiva de gnero: Cor, gnero e pobreza: o

que torna as quilombolas mais vulnerveis ao estupro?; e Conhea os deputados que querem

acabar com o direito ao aborto. A primeira tem sete entrevistas: duas masculinas, que atuam como

especialistas para compreender a questo social; e cinco femininas, que se dividem entre

especialistas e testemunhas oculares, relatando casos de violncia e dificuldades vividas pelas

vtimas de abuso nas comunidades quilombolas. O contedo expe retratos da vida cotidiana de

mulheres e homens quilombolas, contudo tem o cuidado de no identificar mulheres e crianas -

enquadram apenas os ps, ou mostram pessoas de costas. Nenhuma foto possui legenda.

O segundo texto parte de uma investigao patrocinada pelo Programa de Bolsas de

Reportagem da Revista AzMina. A reportagem mostra como o poder Legislativo brasileiro vem

trabalhando para impor perdas ao direito do aborto legal. So trs entrevistas de especialistas: duas

femininas e uma masculina. Uma delas porta-voz do servio de aborto legal, e as outras duas

problematizam, a partir da perspectiva jurdica, os Projetos de Lei propostos por deputados. O

contedo traz dois infogrficos um explicando o que o aborto legal e, o outro, o que diz a lei

sobre aborto em casos de estupro. H ainda um vdeo com a fala de uma psicloga sobre como

funciona (ou deveria funcionar) o aborto legal no Brasil.

Consideraes finais

A classificao dos sites analisados apontou que eles trazem em seu escopo tanto em relao

linha editorial quanto equipe executora perspectivas de gnero e empoderamento feminino.

Alguns se caracterizam como veculos para nichos e nesse sentido de fato contemplam o gnero

como categoria de anlise, pois reconhecem determinados grupos de mulheres como mes,

adolescentes, lsbicas, mulheres cientistas entre outras. Embora o uso da imprensa como veculo

para expressar as demandas das mulheres e como espao de luta pelos seus direitos e cobranas de

polticas pblicas no seja algo da atualidade, sem dvida os sites jornalsticos autodenominados

independentes vm se despontando como um novo espao de expresso.

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Outro destaque que a as equipes so compostas basicamente por mulheres, talvez as

desigualdades impostas no mercado de trabalho das redaes com menciona Pontes (2017), as

fazem migrar para essas novas iniciativas. Sem dvida isso merece ser conferido em pesquisas

futuras. A discusso sinaliza tambm para a jovialidade das iniciativas, nenhuma informa ter mais

de quatro anos, o que pode justificar a precaridade na estabilidade financeira e na auto gesto,

caracterizada pela dependncia de doaes, leiles ou eventos beneficentes. Aqui tambm instiga

uma novo estudo, para a aferir se os sites com mais tempo apresentam melhores condies de

governana financeira ou no.

Os dois sites analisados apresentam em seu escopo tanto em relao linha editorial quanto

equipe executora perspectivas de gnero e empoderamento de gnero, em especial feminino. Eles

possuem um modelo de gesto distinto da mdia hegmnica, contudo ainda no se consolidaram

financeiramente, semelhante a outros tambm apresentados no Mapa da Agncia Pblica. As

propostas espelham as pautas com enfoque em gnero confrontando valores heteronormativos e

ausncia de polticas pblicas. O empoderamento feminino tambm visvel na escolha das fontes.

As mulheres no aparecem apenas como vtimas, mas tambm como especialistas. notria ainda a

pluralidade de vozes femininas.

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http://apublica.org/mapa-do-jornalismo/index.html#envolverde

Independent journalism and the empowerment of gender discourse in digital media

Abstract: The purpose of this article is to discuss the empowerment of gender discourse by

independent journalism embodied in digital media. The transformations in journalism driven by

technology and digital media especially in the 21st century reverberated in online journalism,

structured in new models of management, directed to specific niches. In this context, we highlight

sites with editorial lines demarcated by gender, as well as representations of gender and counter-

hegemonic narratives, usually not explored by conventional media. A collaborative research carried

out by the Agency for Reportage, and Investigative Public Journalism indicates the opening of 200

independent journalism sites in Brazil, with sharp growth in the last three years. Of these, at least

8% mentions gender perspective directly in their scope. With this, there are more sites mentioned in

the mapping that approach guidelines with a focus oriented to gender, however, it is not

discriminated in the editorial line. The theoretical discussion involves gender studies, online

journalism and new management models in journalism. The corpus includes the websites Catarinas

and AzMina. Three contents were selected by each of them in the second semester of 2016. The

methodology involves content analysis based on the classification of categories established by the

Global Media Monitoring Project.

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